Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?
CAPÍTULO 3. PARTE 1
… ela afastou a ansiedade, saindo do estado de choque provocado pelo aparecimento repentino de Serhat.
— Saia imediatamente da minha sala de cirurgia! — ordenou Bahar.
O som da sua voz trouxe todos de volta à realidade, exceto Evren, que olhava para Serhat. Ele estava imóvel, o bisturi firme na mão, mas não fez o corte.
— Nem pense nisso, Evren! — Serhat estava pronto para se aproximar dele.
Evren permanecia paralisado, encarando-o. Os monitores apitavam de forma ameaçadora.
— Evren — ela pronunciou seu nome em voz alta —, Evren, continue! — pediu Bahar, sem levantar a cabeça, enquanto retirava o feto.
— Não! — Serhat deu um passo à frente, mas Rengin agarrou seu cotovelo, detendo-o.
— Serhat — ela o puxou para si —, você está violando todos os protocolos! Saia! — exigiu, segurando a máscara no rosto. — Serhat — ela não soltava o braço dele.
— Eu não sou só o pai, sou o médico dela! — ele não cedia.
— Aqui, você não é ninguém! — Bahar levantou a cabeça e fez um sinal para Rengin. — Esta é a minha sala de cirurgia! — ela nem olhou para Serhat. — Evren — Bahar, ainda sem olhar, entregou o feto ainda com vida às mãos do assistente. — Evren, faça! Estamos perdendo-a, Evren! — ela conseguiu que ele finalmente a encarasse. — Evren, continuamos — sua voz suavizou, mas não perdeu a firmeza.
— Estamos perdendo-a — Siren não tirava os olhos dos monitores.
Bahar assentiu levemente. Olhos nos olhos. Ela respirou fundo, sem desviar o olhar dele. Eles respiraram juntos, como nas cirurgias anteriores: uma só respiração, uma só equipe. Ele se lembrou imediatamente do porquê estava ali.
— Abrindo o tórax — Evren inclinou a cabeça.
Serhat tentou avançar, Rengin o puxou de volta. Doruk abriu os braços, bloqueando Serhat pelo lado. Bahar sabia que ele não deixaria Serhat se aproximar de Evren.
— Nem pense! — gritou Serhat, mas Rengin praticamente o empurrou para fora da sala.
— Corte na linha do pericárdio! Massagem direta! — Evren tocava o coração lesionado da jovem.
Bahar parou. O silêncio tomou conta da sala, apenas os monitores continuavam a alertar sobre o risco de vida. Todos estavam imóveis, apenas Evren agia.
— 0,5 de adrenalina — ele massageava o miocárdio manualmente. — Um, dois, três.
— Ritmo sinusal! — Siren suspirou. — Temos ritmo.
— Nós a trouxemos de volta — Bahar baixou a cabeça.
Ela evitava olhar para o coração, para a forma como Evren suturava o tórax. Bahar sabia muito bem que aquela imagem ficaria gravada na mente dele, que Esra naquele momento também se tornava sua paciente. Quisesse Serhat ou não, Evren não desistiria dela até encontrar um coração.
Sob controle de ultrassom, Bahar mudou o ângulo de pressão sobre a placenta, e o fraco pulso do segundo bebê tornou-se mais claro, como se ele próprio lutasse pela vida.
— Segundo feto estabilizado — informou Bahar de forma breve.
Evren lançou um rápido olhar ao monitor, entendendo que ela acabara de salvar outra vida, e que ele havia participado diretamente disso.
Coração. Perdido. Ela afastava esses pensamentos, focando apenas na cirurgia. Enquanto os monitores gritavam perigo, ela já sentia — o segundo bebê resistia. Ajustou-o mais um pouco com as mãos, estabilizou a pressão, e o pulso desacelerou, tornando-se regular.
— Vamos finalizar — finalmente disse Bahar.
— Pressão sob controle? — confirmou Evren.
— Fluxo sanguíneo estável — respondeu Siren, com firmeza —, os indicadores estão subindo.
Bahar e Evren levantaram a cabeça ao mesmo tempo, seus olhares se encontraram. Não viam nada além dos olhos um do outro, já que os rostos estavam cobertos pelas máscaras, mas sorriam. Mais uma vez, tinham realizado aquele milagre que só conseguiam juntos, contra tudo e todos. A sintonia da equipe renascia. Ela não queria pensar no que viria depois, mas trabalhar ao lado dele era um prazer.
— Conseguimos — sussurrou Bahar.
— Conseguimos — repetiu Evren.
Saíram juntos da sala, ombros se tocando levemente. A primeira cirurgia deles como médicos, quando ele se tornou parte da equipe dela, quando ela liderava e ele assistia. Tiraram jalecos, máscaras e luvas juntos, lavaram as mãos. Quase sorrindo, saíram para o corredor.
— E então? — Serhat correu até ela, ignorando Evren, como se ele nem existisse.
Rengin observava de trás dele. Esteve ao lado de Serhat durante toda a operação.
— Sua filha está viva — disse Bahar com voz firme e neutra. — Um feto foi retirado, o outro estabilizado.
Serhat suspirou, cobrindo o rosto com as mãos, e se agachou, encostando as costas na parede.
— O coração está estabilizado — continuou Bahar. — Esra ficará sob nossa observação.
Evren estava atrás de Bahar. Olhava para Serhat, em silêncio.
— Você foi até o fim? — Serhat encarou Evren, respirando com dificuldade.
— Continuei e vou até o fim — Evren falou com clareza, mas em tom mais baixo.
Bahar se virou, Evren tocou seu cotovelo.
— Vocês foram incríveis — sussurrou Rengin.
— Eu não sinto isso — Bahar ainda sentia o feto vivo em suas mãos, no momento em que o retirava. Quando cortou o cordão umbilical, foi ela mesma quem tirou a vida dele.
— Você deu a ela uma chance — Serhat ainda estava agachado, sem forças para se levantar.
— Não salvei todos — os dedos de Evren apertaram levemente o cotovelo dela.
— Quem conseguiria? — perguntou Serhat, voltando a cobrir o rosto com as mãos.
Evren não saiu, mas também não queria deixá-la ali com Rengin e Serhat. Era como se, em silêncio, exigisse que ela fosse com ele — e ela foi, entendendo uma coisa: aqueles dois se conheciam, tinham um passado em comum…
***
…tinha passado, estava terminado… não, estava apenas começando. Serhat levantou-se devagar e encostou as costas na parede. Rengin não se afastou; chegou até a tocar a mão dele, como se entendesse que, naquele momento, ele precisava de um gesto vivo, e não de uma formalidade da ética médica.
— Todos nós sabíamos que seria assim — ele conseguiu finalmente dominar a emoção —, mas mesmo assim eu não estava preparado — confessou.
— Vamos até o meu consultório — sugeriu Rengin, tomando-o pelo braço.
— Quero vê-la — ele tentou parar.
— Daqui a pouco — respondeu ela com serenidade.
— Podemos ficar aqui — chegaram a um pequeno sofá e se sentaram. — Achei que, se eu falasse com ela de forma seca, médica, seria mais fácil — admitiu ele, fechando os olhos e recostando-se.
— Mas não foi — ela tocou a mão dele e apertou levemente seus dedos.
— Pelo contrário — ele balançou a cabeça, apertando a mão dela —, por dentro tudo se abriu ainda mais — por um instante pousou a outra mão sobre o peito e logo a baixou —, e agora o coração dela… — abriu os olhos e a fitou —, agora o coração, já doente, está ainda mais ferido. Quanto ele aguenta? — seus olhos estavam vermelhos. — Para ela, cada dia agora é uma contagem regressiva.
— Serhat — Rengin apertou a mão dele com as duas mãos —, nós nos acostumamos a ser fortes, porque não há outra escolha — olhava através dele. — Eu penso o tempo todo em quem vai estar ao lado da minha filha se eu não estiver mais aqui.
Ele a encarou por um longo momento.
— Eu não conheci Timur, sinto muito — seus dedos se moveram entre as mãos dela. — Criei minha filha sozinho.
— Eu também criei Parla praticamente sozinha, mesmo casada… mas foi uma tentativa que não deu certo — confessou. — E com Timur também não funcionou. Agora minha filha vive com Bahar — de repente, não quis mais representar papéis, não havia motivo para esconder. — Ela e Umay têm a mesma idade. Umay é filha de Bahar e Timur — explicou.
Serhat não desviou o olhar, e nele não havia julgamento.
— Parece que temos os mesmos métodos de sobrevivência — quase sorriu, mas seus olhos não escondiam a preocupação com a filha.
— Nós precisamos de você, Serhat — suspirou Rengin.
— Nós? — ele quis confirmar. — Pensei que preferisse quem fica de fora.
— Fiquei de fora por muito tempo. Talvez seja hora de sair das sombras — sussurrou. — Tenho muitos planos para mudar as coisas — sorriu, soltando as mãos dele e estendendo-lhe a direita. — Bem-vindo ao Hospital Peran, professor Serhat Ozer.
— Pronto para ser parte ativa — ele apertou firmemente a mão dela —, professora Rengin.
Rengin soltou a mão com cuidado e levantou-se do sofá. Poderia ter se sentido constrangida, mas não — apenas sorriu, fez um aceno e saiu. Em poucos minutos, eles tinham trocado tantos papéis, e mesmo assim ela não tentou representar, escondendo emoções; pela primeira vez, não precisou se justificar.
Rengin parou, apoiando-se na parede, e se virou. Serhat estava sentado no sofá, as mãos entrelaçadas à frente, como se estivesse rezando. Os olhos fechados. E ela entendeu que Evren tinha razão quando disse que tudo estava apenas começando…
***
…Evren tinha certeza absoluta de que tudo estava apenas começando. O passado deles não havia terminado; ele ressurgia, arrastando para o turbilhão todos ao redor. Bahar permitiu que ele a conduzisse, mas isso não significava que ficaria em silêncio, que não perguntaria. Caminharam juntos até o consultório dela; ele abriu a porta e a deixou entrar primeiro.
Bahar ficou de costas para ele. Ouviu o som da porta sendo fechada com firmeza. Era a primeira vez dele ali, a primeira vez que estavam sozinhos no consultório dela. Tudo era pela primeira vez. Ela engoliu em seco. A primeira cirurgia juntos como médicos, quando ela estava no comando, sem depender de ninguém, e ele ao lado, quase como um só — voltavam a ser uma equipe, mas mesmo assim tudo parecia diferente.
Ela sentia cada movimento dele atrás de si com intensidade aguda. Ele observava o ambiente, tocava objetos, como se quisesse se apropriar daquele espaço. Ela engoliu em seco novamente, tentando não detê-lo, resistindo à vontade de se virar.
— Obrigado por ter me deixado — primeiro ela ouviu a voz dele, perto do ouvido, e só depois sentiu as mãos pousarem em seus ombros; ele apertou-os levemente e seus lábios roçaram sua face.
— Isso eu não te permiti — sussurrou ela, mas não tentou se libertar.
Então ele a envolveu, colando-se às suas costas, apertando-a mais forte, uma das mãos sob o busto. Sentindo a respiração dela, puxou-a ainda mais para si e enterrou o rosto em seu pescoço.
— Hoje, lá na tua sala de cirurgia — ele falava com os lábios tocando sua pele —, eu voltei a ser inteiro — confessou. — Você entende que só com você eu me sinto assim, que só você me dá essa sensação de vida?
As mãos dela se ergueram quase sem querer e tocaram o pulso dele. Sua respiração se tornou mais pesada. Ela permitia o abraço, permitia quase o beijo, sem se esquivar.
— Com o prontuário da Esra, você me fez entender que me queria na sala de cirurgia — continuou —, você disse a palavra-código: coração — ele aspirava o perfume dela, respirava o seu cheiro.
Coração… o dela parecia querer saltar do peito. Ela inclinou levemente a cabeça para trás, os lábios trêmulos, mas permaneceu em silêncio. Tinha falado tanto, que agora só queria ouvir.
— Você sabia que eu estaria na área estéril quando começou a operação, você sabia — disse ele, e os lábios tocaram suavemente o pescoço dela.
Com a outra mão, ele tirou o prendedor de seus cabelos, soltando-os, empurrou-a para junto da mesa e, de repente, a virou nos braços. As mãos dela pousaram imediatamente em seus ombros. Ele avançava, conduzindo-a até que encostasse na mesa.
— Evren — escapou dos lábios dela.
Ele a mantinha próxima, os rostos quase se tocando, mas hesitava, olhando-a de baixo das pestanas.
— Eu nunca me permiti algo assim no teu consultório — sussurrou ela, com a boca quase na dele.
Ele sorriu, saboreando o fato de tê-la finalmente em seus braços, perto, sem resistência, maleável, suave. Ela viu o sorriso dele; suas sobrancelhas se ergueram levemente, e seu corpo tensionou.
— Quem é Serhat? — perguntou, empurrando-o pelos ombros.
O rosto dele mudou, mas não a soltou.
— Todos têm um passado, Bahar — não permitia que ela o afastasse.
— O meu você não só conhece — retrucou ela —, você viveu nele, Evren.
— Você quer mesmo falar sobre isso agora? — ele quase a beijou, mas ela desviou o rosto, evitando o contato.
— E você acha mesmo que agora pode tudo? — ela bateu as mãos nos ombros dele, e ele, cerrando os dentes, recuou e a soltou.
— Foi com ele que você estava no terraço? — franziu o cenho.
Bahar soltou um leve riso e contornou a mesa. Puxou a cadeira e sentou-se; as pernas já não a sustentavam. Primeiro uma cirurgia complicada, depois Evren com seus abraços… tudo dentro dela estava misturado, confuso. Não entendia o que estava acontecendo — nem com ela, nem ao redor.
— Você acha que tem o direito de perguntar? — agora ela estava sentada na cadeira de médica, e ele, de pé, diante dela.
Evren apoiou as mãos na mesa e inclinou-se em direção a ela. Já estava pronto para responder, mas alguém bateu à porta — e ela se abriu. Bahar e Evren se viraram ao mesmo tempo: na soleira estava Naz.
— Pode perguntar para ela — Bahar levantou-se da cadeira e quase saiu do consultório.
Mas parou. Olhou para Evren, depois para Naz. Aquele era o território dela. O único lugar que ainda estava moldando como seu. Um espaço onde ela era médica, onde não se sentia mulher — ainda mais entre os dois — e, agora, mais uma vez, era tomada por contradições.
— Este é o meu consultório — lembrou-se, franzindo a testa e cruzando os braços.
— Bahar, posso falar com você? — Naz se sentiu constrangida, como se tivesse interrompido algo.
— Desculpe, não tenho nada a dizer a você — respondeu Bahar com frieza, já incapaz de pensar com clareza.
Ela se lembrava perfeitamente da vez em que se humilhou, batendo à porta do apartamento dele, e ele disse que não moravam juntos. Depois veio aquela foto. E agora Naz estava na sua porta. Tudo parecia se repetir, como num pesadelo, mas ela se recusava a continuar aquele teatro ridículo.
— Não, e mais uma vez, não — Bahar ergueu as mãos e, enfim, saiu do consultório, deixando Evren e Naz a sós.
— Bahar — chamou Evren. — Bahar!
— Evren — Naz tocou seu cotovelo, mas ele se sacudiu, livrando-se do toque.
— Bahar, pare! — exigiu ele, alcançando-a e segurando-a pelo braço.
— Evren, me solta — disse ela, dura demais, mas ele a puxou, obrigando-a a parar e se virar.
Por sobre o ombro dele, Bahar encontrou o olhar de Naz, parada junto à porta, hesitante. Ela saíra do consultório assim que a dona o deixou.
Bahar olhava ora para Naz, ora para Evren, mas via outra cena — a de Naz na porta do consultório dele, beijando-o. Sentiu um impulso enorme de beijá-lo na frente de Naz, e ele não se oporia. Mas a situação lhe pareceu tão desagradável que só quis desaparecer dali. Não queria disputar nada. Não queria vitórias nem derrotas. Queria apenas viver a história deles com calma. Afinal, estavam a um passo de abrir uma nova página — mas, de novo e de novo, algo os afastava.
— Não faça cena — pediu ela baixinho, tentando abrir os dedos dele. — Vá acalmar a sua namorada.
— É exatamente isso que estou fazendo, Bahar — Evren apertou ainda mais a mão dela, olhando-a nos olhos.
— Você está chamando atenção — ela sussurrou, olhando ao redor. — Mal pararam de falar sobre nós… — e suspirou mentalmente ao ver Ahu espiando de uma esquina.
— Vou te beijar agora — soltou ele, bem junto aos lábios dela —, para darem mesmo o que falar.
— Se você fizer isso… — ela encostou as mãos no peito dele, sem terminar a frase, apenas fulminando-o com o olhar.
O olhar dela o destruía; ela não estava brincando. Todo o rubor sumira de seu rosto. Ferdi quase trombou com Ahu, correndo na esquina.
— Professor Evren — Doruk chegou esbaforido. — Você esqueceu o celular na sala de cirurgia, estão ligando. — Estendeu a mão entre os dois, mostrando a tela. — É o Cem. Já ligou várias vezes.
— Você não disse que não é minha — ele murmurou tão baixo que só ela ouviu, já que Doruk se enfiava entre eles, ofegante, tentando empurrar Evren.
Bahar sabia que, enquanto Evren não a soltasse, Doruk não teria chance — e, se ele resolvesse responder, Doruk sairia pior.
— Solta — sussurrou ela. — E fale com a Naz!
— Já vivemos o teu passado, Bahar. Agora vamos viver o meu — o tom dele não prometia nada bom.
Ele estava claramente furioso, mas ela também, queimando-o com o olhar, até que ele afrouxou os dedos — ainda assim, segurou-a para que não caísse. Doruk imediatamente se colocou diante de Bahar, protegendo-a de Evren.
— Professor, o celular — insistiu, entregando-o na mão de Evren. Depois se virou, e ele e Bahar seguiram juntos pelo corredor…
***
…ela praticamente corria pelo corredor até que parou de repente, e Doruk quase a derrubou, esbarrando nela. Ele claramente não esperava que ela freasse tão bruscamente.
— Reha — sussurrou —, como ele está? — virou-se para ele. — Doruk, onde ele está? — ajeitou os cabelos, confusa, e levou as mãos às próprias faces, que agora queimavam.
Sentia vergonha por ter se esquecido completamente dele. Evren havia embaralhado todos os seus pensamentos.
— Estado estável — Doruk ainda respirava com dificuldade —, houve um episódio de isquemia, com alterações pré-infarto. Fizemos a coronariografia — há indicação para ponte de safena — relatou, limpando o suor da testa com a mão.
— Precisamos prepará-lo para cirurgia — concluiu ela. — Em qual quarto ele está? Mamãe sabe?
— Ainda não avisamos a Gülçiçek, estávamos esperando você — admitiu.
— Vamos — disse, chamando-o sem saber bem por quê.
Doruk a conduziu até o quarto do professor. Bahar segurou a maçaneta e ficou imóvel. Do lado de fora, ainda era apenas médica, mas, ao cruzar aquela porta, se tornaria também parte da família — sem deixar de ser médica. Respirou fundo e, só então, abriu a porta e entrou.
Reha dormia. Sua respiração era superficial, mas ele estava vivo. Bahar fechou os olhos por um instante e logo os abriu de novo. Nem conseguia imaginar o que diria à mãe se algo tivesse acontecido com ele.
Estava sob soro; ontem mesmo ele salvava pacientes, e hoje era ele quem recebia cuidados. Ela se aproximou e sentou-se ao lado dele. Sem abrir os olhos, ele mexeu a mão, sentindo sua presença.
— Você esteve por um fio — sussurrou ela, tocando-lhe a mão. — Reha, isso não é justo — abaixou a cabeça. — Não seria justo se tivéssemos perdido você lá, na minha sala de cirurgia! Quando você caiu, eu nem pude me permitir pensar que minha mãe poderia ficar viúva pela segunda vez. Eu não suportaria — confessou. — Todos esperam que eu seja forte — sua voz falhou, e uma lágrima deslizou pela bochecha.
— Eu só… — murmurou ele, sem abrir os olhos.
— O senhor não pode se estressar — Bahar levantou a cabeça, soltando o ar, e conseguiu conter as lágrimas. — Não pode, não nessa idade, entende? Esra na mesa, o coração dela parou, mamãe, Evren, crianças, netos… e o senhor desaba. E eu sozinha — soluçou —, como posso me dividir entre todos se sou só uma? Eu não sou de ferro, Reha… mas estou cansada — apertou a mão dele. — Não deveria dizer isso, mas é verdade. Eu nem sei o que é ser sua filha. O senhor ainda nem se tornou meu pai. Isso não é justo, Reha.
Ele não respondeu, apenas apertou a mão dela. Estava ali, simplesmente, e ela também. O monitor mostrava o ritmo, a pressão — e, na força de seus dedos, havia vida. Ele não ia desistir, não agora. Reha estava vivo.
— Vamos prepará-lo para a cirurgia — Bahar conseguiu se levantar, voltando a ser médica.
Saiu do quarto, trançando o cabelo no caminho — afinal, Evren havia tirado sua presilha, e ela nem sabia onde ele a tinha colocado.
— Bahar — Doruk a esperava pacientemente na porta —, seu telefone — estendeu o celular para ela.
Ela soltou o ar e assentiu. Já estava plenamente recomposta, com os pensamentos organizados.
— Quem é o médico? — perguntou a Doruk, acendendo a tela.
— Professor Serhat — informou ele.
— Então vamos até ele — disse, enquanto, em movimento, discava o número de Gülçiçek e levava o telefone ao ouvido, ouvindo os toques…
***
…o telefone voltou a emitir toques rápidos. Cem desligou a chamada e puxou o boné ainda mais para baixo, como se quisesse desaparecer. Caminhava por um corredor comprido, e a esperança de encontrar Evren diminuía a cada passo.
Desde aquela manhã, quando Evren anunciara que ficaria e trabalharia no hospital, eles não se viam mais. Precisavam conversar; Cem queria sentir a presença do irmão, sobretudo depois de Naz tê-lo demitido. Teve vontade de socar a parede, mas apenas ajustou a alça da mochila que lhe pressionava o ombro.
Ao ouvir risos e vozes altas, quase virou na direção oposta para evitar conhecidos — já bastava ter cruzado com Doruk. Mas, quando percebeu sobre o que falavam, parou.
— Vocês não viram — reconheceu de imediato a voz de Ferdi, sempre com aquele ar convencido. — Eu digo, eles estão juntos, certeza.
— Não. Ele não está com a Naz, está com a Bahar — Ahu ergueu as mãos, dramatizando. — Que cirurgia! Eu vi tudo. Ele entra como um super-herói, ela: “Evren, Evren, olha pra mim!” — Ahu imitou com exagero. — E depois! O pai da Esra entra, todo mundo de máscara, área estéril invadida… e a Bahar como se não visse nada, só olhava para ele. E depois ele agarra a mão dela — se não fosse a Naz, eles teriam se beijado na certa!
— Eu ainda aposto na Naz — resmungou Ferdi. — Ela está muito segura de si. Não ficaria à toa na porta do consultório da Bahar.
— Você viu como a Bahar olhou para ela? — Ahu avançou para frente dele. — Pronta para esterilizar com o olhar!
— Bahar e zona estéril… você mesma disse que tudo foi quebrado durante a cirurgia dela — riu Ferdi. — O coração da paciente parando, e eles lá, trocando olhares!
Cem recuou até encostar-se na parede, tentando se fundir a ela, e cerrou os punhos.
— Podem falar que acabou entre eles — entrou na conversa uma garota que ele não conhecia —, mas o jeito como ele segurou a mão dela e ela não se soltou… — fez um gesto para Ahu, concordando — isso quer dizer muita coisa.
— Professor Evren. Doutora Bahar. Naz — murmurou Ferdi com teatralidade fingida. — Um corredor. Um olhar. Três possíveis finais. Mas a paixão… é sempre uma só. Talvez não consigam mais esconder; e, se os boatos vão surgir de qualquer forma, pelo menos que seja por um motivo bonito. — Estendeu a mão. — Vamos apostar?
— E se a Bahar escolher outro? — Doruk praticamente se jogou no meio do grupo, afastando todos com os cotovelos. — Não temos só um homem diplomado aqui.
Ao ouvir a voz de Doruk, Cem recuou ainda mais.
— Quem? — Ahu arqueou as sobrancelhas, visivelmente surpresa com a sugestão.
— Tem o professor Serhat — respondeu a garota desconhecida para Cem. — E outros professores também.
— A gente está bem aqui e ouvindo tudo! — Siren aproximou-se.
Seu tom não prometia nada agradável. Batia levemente com o prontuário da paciente na mão.
— Não têm vergonha? — Uraz encarava todos com expressão sombria. — São adultos. Se não conseguem respeitar os sentimentos dos outros, ao menos fiquem calados. Estão falando da minha família. A Bahar é minha mãe!
— Já chega de fofoca? — Siren lançou um olhar firme ao grupo.
— Vocês não têm trabalho? — Doruk quase bufava de raiva.
— Nós só… — começou Ferdi — estávamos comentando sobre o clima de trabalho.
— Para isso existe a sala dos residentes, não o corredor! — cortou Siren secamente.
Todos começaram a se dispersar. Siren e Uraz, cochichando, passaram por Cem sem notá-lo. Ele levantou a cabeça, apertou a alça da mochila e apressou o passo em direção à escada, com um sorriso sombrio preso aos lábios, queimando por dentro…
***
…por dentro, tudo queimava. Ela ainda não tinha se acalmado. Evren, Naz, ela mesma — a cabeça girava. Bahar ergueu a mão, soltou o ar e bateu à porta; só depois de ouvir a permissão, a abriu ligeiramente. Serhat estava sentado à mesa, escrevendo no prontuário. A luz do abajur mal o iluminava, criando sombras ao redor.
— Posso? — ela tentou afastar qualquer excesso de timidez ou constrangimento.
Afinal, naquele momento os papéis haviam se invertido: agora ela estava do lado do paciente, e Serhat era o médico.
— Professor Ozer — começou.
— Bahar — ele se levantou e indicou a cadeira —, sente-se.
— Obrigada — ela fechou a porta e sentou-se. — Obrigada por ter aceitado o professor Reha.
Ele abaixou levemente os óculos e a fitou demoradamente:
— Depois de hoje, é o mínimo que posso fazer por você — sua voz soou como sempre, controlada, quase sem emoção. — Os dados são claros. O paciente está estável, mas há riscos. Estamos preparando-o para a ponte de safena.
Bahar endireitou-se na cadeira. Agora entendia bem Esra — o pai dela sabia ser muitos homens diferentes.
— Ele é forte, vai superar. É uma cirurgia padrão — continuou ele, como se tivesse dito aquilo milhares de vezes —, podemos até dizer, simples.
Ela o observava com atenção. Queria fazer outras perguntas, mas, em voz alta, disse algo diferente:
— Você não é nada como parece — suspirou.
— Há situações em que é preciso agir — ele tirou os óculos e os colocou sobre a mesa —, e hoje quem agiu foi você.
— Nós dois sabemos usar máscaras, mas você esquece de tirá-la com mais frequência — observou ela, começando a relaxar.
— Quando eu disse “ponte de safena”, você ficou um pouco tensa. Mas sabia que seria exatamente essa a intervenção que eu faria, doutora Bahar — ele permanecia na sombra, enquanto a luz iluminava o rosto dela por completo, deixando-a exposta diante dele.
Com uma só palavra, “doutora”, ele quebrou a barreira médico-paciente, colocando-a no mesmo nível que ele.
— Serhat — escapou de seus lábios, e ela se corrigiu —, professor Serhat — Bahar apertou as mãos no colo, onde ele não podia vê-las. — Aortocoronária? Ou vai optar por ponte?
— Por quem você teme mais, doutora Bahar? Pelo professor Reha? Pela sua mãe? — ele não desviava o olhar — ou por si mesma?
Ela descruzou os dedos, olhando para ele sem piscar:
— Eu temo o estado… o “quase” — sussurrou.
Os ombros de Serhat cederam ligeiramente, ele baixou o olhar:
— Aqui não haverá incerteza — entendeu-a de imediato. — É tudo muito simples.
— Mas você sabe que até numa simples apendicectomia pode haver colapso — um arrepio percorreu o corpo dela.
— Às vezes, o mais assustador não é perder — sua mão pousou na mesa —, mas viver nesse estado de “quase” — devolveu-lhe as próprias palavras.
Bahar ergueu a mão, mas não chegou a colocá-la na mesa, apenas tocou a borda. Ela o entendia. Por 23 anos, ele vivera nesse estado de incerteza. Gostaria de conversar mais, mas não era ela quem deveria apresentar opções para a filha dele — isso cabia a Evren.
Evren… O que os ligava? Qual passado comum compartilhavam? Nem um, nem outro comentavam nada, como se nada tivesse acontecido na sala de cirurgia.
O telefone vibrou em sua mão; ela olhou para a tela e se levantou imediatamente.
— Desculpe, professor Serhat, obrigada por tudo — estendeu-lhe a mão.
— Eu é que agradeço — a palma dela sumiu dentro da dele.
Ele apertou sua mão com firmeza, sem soltá-la de imediato. Por um instante, ela sentiu paz. Então se virou e saiu, fechando a porta atrás de si…
***
…Naz e Evren estavam junto à porta de vidro no saguão do hospital. Uraz segurava firme no corrimão, observando-os de cima. Talvez Ferdi, Ahu e todos os outros tivessem razão? O professor Evren estava perdido? Ele ia à casa deles, ficava perto de sua mãe, mas, ao mesmo tempo, mantinha contato com Naz. Agia como se não pudesse decidir — ficar com sua mãe ou voltar para Naz. Os nós dos dedos estavam brancos, e os lábios comprimidos numa linha rígida.
CAPÍTULO 3. PARTE 2
— Evren — Naz parou e olhou para ele —, desculpa por ter acontecido assim. Não queria atrapalhar vocês.
— Você está indo embora? Está tudo bem? — ele parecia não ouvir as palavras dela. — Te deram alta? Vai levá-la?
Naz assentiu. Ele não reagiu. Evren claramente não queria se envolver na conversa, cortava qualquer tentativa dela pela raiz. Já não era de falar muito e, depois que Bahar se afastou, deixando-os na porta do consultório, fechou-se ainda mais. Ela não entendia como lidar com ele daquele jeito. Para ser sincera, mal o compreendia.
— Evren — ela tocou o ombro dele —, você precisa falar com Cem.
Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça, mas, dessa vez, não se afastou, permitindo que a mão dela permanecesse ali.
— Ele já é adulto, tem que responder pelos próprios atos — murmurou Evren, alongando o pescoço. — Se você o demitiu, é porque havia um motivo. É o seu restaurante, seu direito.
Bahar nem parou; apenas lançou um olhar e continuou andando, balançando a cabeça. Reconheceu de imediato a postura dele — não queria estar ali, mas, mesmo assim, deixava Naz tocá-lo, permitia tudo a ela. O que acontecia lá embaixo não lhe interessava. Quase trombou com Ferdi, que surgiu correndo da esquina.
— Ferdi — conseguiu se desviar a tempo.
— Bahar?! — ele a olhou com curiosidade —, para onde vai?
Bahar já ia seguir seu caminho, mas o chamado de Ferdi a fez virar a cabeça. Ele a observava atentamente, tentando decifrar sua expressão. Nesse instante, ela viu Evren apertar a mão de Naz e, em seguida, abraçá-la. Prendeu o ar e desviou o rosto, enquanto Ferdi se inclinava sobre o corrimão, tentando captar o que eles diziam.
— Vamos lá… — o sussurro excitado de Ferdi ainda chegou aos ouvidos dela. — Uraz?
A última coisa de que precisava era de explicações com Uraz naquele momento. Cerrando os dentes, acelerou o passo. Já o tinha visto permitir intimidade com Naz na porta do próprio consultório — e agora, de novo. Só que, desta vez, no saguão, diante de todos.
Sentia o olhar de Ferdi queimando-lhe as costas. Mais uma vez, eles se expunham ao público — primeiro na porta do consultório dela, agora Evren no saguão.
Bahar não percebeu quando a porta da escada se abriu e Cem espiou. Ele se escondeu imediatamente, com o notebook debaixo do braço, e só saiu para o corredor quando ela já havia passado, tirando o celular do bolso.
Cem avançou rente à parede, filmando o saguão do hospital com uma mão, enquanto segurava o notebook com a outra. Uraz parecia claramente irritado — sua contrariedade era visível de longe. Ele praticamente arrancou Ferdi do corrimão e enfiou um prontuário nas mãos dele.
Cem olhou por cima do ombro, mas Bahar já não estava à vista. Não importava se ela não o tinha visto ou não o reconhecera. Um sorriso satisfeito, quase triunfante, surgiu em seus lábios. Ele se enfiou na escada, guardando o celular no bolso…
***
…Rengin ainda mantinha o telefone junto ao ouvido, olhando nos olhos de Ahu — como se verificasse se ela também tinha ouvido. O rosto de Rengin perdera toda a cor num instante. Não bastasse a contagem regressiva para a cirurgia de Aliya ter começado, agora ainda isso.
— O quê? — perguntou Ahu apenas com os lábios, com medo até de pronunciar.
— Como eles puderam saber? — Rengin sentou-se no sofá, deixando os braços caírem.
— Saber do quê? — Ahu perguntou muito baixo, inclinando-se para perto dela, sem saber como agir.
Ahu só conseguia reagir quando conhecia o problema… agora, via apenas a reação, mas não entendia a causa.
— Como eles puderam saber o que aconteceu na cirurgia da Bahar? — Rengin levantou o rosto. — O comitê cita violação grave do protocolo durante a operação. Querem explicações — a voz dela não tinha emoção, apenas constatava.
Ahu apoiou as mãos nos joelhos, paralisando-se sem se endireitar. As palavras de Rengin a atingiram como um soco no estômago, tirando-lhe o ar.
— Informaram que a cirurgia de Aliya será monitorada pela comissão. Qualquer falha — Rengin piscou — pode levar à suspensão da licença.
— Todos os protocolos estão registrados — disse Ahu, erguendo-se e pegando o tablet da mesa. — Eu mesma conferi.
— Mas… há um detalhe — Rengin não levantou os olhos.
— Que detalhe? — Ahu percorria freneticamente o banco de dados, como se procurasse um erro.
— Alguém vazou o vídeo da cirurgia. Já está em todas as redes sociais — Serhat, em roupa comum, invadindo uma cirurgia de coração aberto — ela olhou diretamente para Ahu. — Quem poderia ter feito isso?
O dedo de Ahu congelou na tela; o olhar se estreitou:
— Com um proxy, os administradores vão rastrear. Vamos ter o IP.
— E o que isso nos dá agora? — Rengin levantou-se do sofá. — Se fracassarmos na cirurgia de Aliya, acabou. Vão fechar vários setores. Ficaremos sem trabalho durante a investigação. O setor de transplantes… pode esquecer.
Ahu a observava atentamente, conseguindo ainda assim digitar e enviar uma mensagem no tablet sem quase desviar o olhar. Depois explicaria o que isso lhes daria — mas tinham que descobrir quem invadira o sistema de vídeo.
— Prepare a videoconferência. Estão esperando — ordenou Rengin, indo para a mesa.
Ela mal se sentou quando o toque de chamada soou. Ahu posicionou-se à frente dela e ligou a tela do tablet.
— Temos perguntas. Foi registrado no hospital um episódio de instabilidade — física e emocional — a voz de Ismail soava distante —, durante uma cirurgia cardíaca aberta, com presença de pessoas não autorizadas, incluindo um médico que não constava na lista aprovada. Também há registro de vídeo feito dentro da área estéril. E, por fim, o cirurgião com autorização temporária — o professor Evren — não estava no protocolo.
Rengin não ousava encarar Ahu, que antes da ligação revisava os documentos.
— Ele salvou a paciente. Eu assumo a responsabilidade — disse ela com voz firme.
— Entende que a operação será sob supervisão do conselho? — continuou Ismail. — Depois deste incidente, não estamos certos de que a sua equipe seja estável. Que você tenha controle, ainda mais após as perdas trágicas no corpo clínico.
Ele fez uma pausa. Ahu não se mexia. Rengin apenas olhava para a tela. Um segundo que pareceu uma eternidade.
— O conselho exige — prosseguiu — que o relatório contenha explicações. A cirurgia da paciente Aliya será monitorada por vídeo. Além disso, um observador externo foi designado. Qualquer desvio — a licença de transplante será suspensa. O setor já está sob análise — alguns patrocinadores congelaram o financiamento e aguardam o resultado. Você, professora Rengin, e o professor Evren serão temporariamente afastados durante a investigação — ele fechou a pasta e fitou Rengin na tela —, a decisão entra em vigor se a cirurgia não for considerada bem-sucedida.
A ligação caiu, ou foi encerrada. A tela ficou preta. Rengin inspirou fundo — parecia que não respirava desde o início. Continuou olhando para a tela apagada. Sabia: se a cirurgia falhasse, seria afastada definitivamente.
— E se tudo correr perfeitamente? — perguntou Ahu, como se lesse seus pensamentos. — Isso muda algo?
— Chame a Bahar, o Evren, o Serhat, todos — não precisou completar —, não podemos errar!
— Entendido — Ahu prendeu o tablet debaixo do braço, virou-se e saiu rapidamente.
Só quando a porta se fechou atrás dela, Rengin baixou a cabeça, prendendo-a nas mãos, cotovelos apoiados na mesa… tudo o que começara a se reconstruir, desmoronava como um castelo de cartas…
***
…ele queria muito ter a própria casa. Não um apartamento com canecas de outra pessoa nas prateleiras, nem um lugar onde se fica até decidir para onde ir — mas um seu. O próprio quarto, a própria xícara, a própria música, o próprio silêncio. Já sabia até como iria cheirar de manhã e como cada dia começaria.
Ele sonhava com uma família. Não a imagem de revista. Mas que alguém quisesse vê-lo, acreditar nele. Que a porta se abrisse não com surpresa, mas com alegria. Não queria mais esperar para ser escolhido, não queria mais ficar em segundo plano.
Lutava do jeito que sabia, já sem distinguir a linha depois da qual se começa simplesmente a se vingar. Embora… sabia. E, mesmo assim, apertava os botões.
Cem entrou sem esforço no sistema de vigilância do hospital. Para ele, era simples. A mágoa cegava. Obteve acesso às câmeras com facilidade. Sabia onde procurar. A cena que haviam comentado no corredor estava cravada em sua mente como um espinho — e foi a ela que voltou. Cortou o trecho certo. Passou para um disco. Assistiu de novo. Não sorriu. Apenas olhou. Uma a uma, imagens vinham à mente:
Bahar na escada — desempregada.
Evren fazendo as malas.
Umay num café — trabalhando como garçonete.
Naz ao lado de Evren — preparando o café da manhã.
América no horizonte — ele, Evren e Naz.
E tudo isso — sem Bahar, sem Umay.
Não acreditava que seria exatamente assim, mas queria que fosse ao menos um pouco diferente, não como estava agora.
Quando, por acaso, encontrou o vídeo em que Naz beijava Evren na porta do consultório dele, algo estalou. Quase se sobressaltou — como se tivesse flagrado a si mesmo no pensamento. Rodou o vídeo várias vezes. Pausou. Depois abriu outro — do celular. Dois vídeos. Um beijo. Um abraço. Duas verdades. Ou uma só?
— Não é assim… não é assim — murmurou.
Gostaria de dizer que fazia aquilo em nome da justiça, mas sabia que também o fazia porque não o escolhiam. Nem Naz. Nem o irmão. Nem Umay. Ninguém.
— Não é vingança — quase inaudível. — É apenas a verdade. A minha.
Abriu abas, fez downloads, cortou trechos, digitou, depois assistiu de novo até chegar ao que queria.
Cem olhou para o beijo de Evren e Naz no saguão como para uma sentença. Não para eles — para si mesmo. Era um quadro extra no filme de outra pessoa. Mas, se os empurrasse… Se tirasse Bahar — por completo… já dera o primeiro passo — divulgara a cirurgia dela… E agora? Fechou os olhos. Sorriu de lado. Não, ainda não era tudo.
Levantou a cabeça, abriu um novo arquivo, digitou uma linha — mascarando o nome —, anexou os arquivos. Precisava decidir para onde e quando… Precisava de escala. De impacto. Não um momento, mas um show em grande escala.
Os dedos dispararam pelo teclado. Rápido. Demais. Nem percebia que, às vezes, parava, olhava ao redor. Como se esperasse que alguém viesse e dissesse: “Chega”.
Eles poderiam ter parado. Mas ninguém procurava. Para ninguém ele fazia falta. Para ninguém ele importava…
***
— Isto é importante, professor — Uraz recusou o convite de Evren para se sentar —, o senhor não pode continuar magoando a minha mãe. Basta — a voz dele tremeu. — Já a castigou o suficiente.
Evren se levantou, deu a volta na mesa lentamente. Soltou o ar, como se fosse dizer algo duro, mas não disse. Apenas ajeitou o jaleco.
— Você leva tudo de forma literal demais, Uraz. Não é como parece.
— E como mais seria? — Uraz ergueu o queixo. — O senhor vai à nossa casa, janta conosco, leva para ela casos de pacientes difíceis, está na sala de cirurgia dela. E depois — no saguão do hospital — está ao lado da Naz, e todos veem. O senhor mesmo dá motivo para fofocas. Lá fora, fazem apostas sobre com quem vai ficar. Foi o senhor quem criou esse jogo. Sabe qual é o prêmio?
Evren estremeceu quase imperceptivelmente, os dedos parados no punho. Tentou dizer algo — não conseguiu. Uraz prosseguiu:
— Primeiro, meu pai agia assim com ela. Agora, o senhor. Em que é melhor? No fato de confiar a ela cirurgias complexas? Amanhã o senhor vai embora — e ela fica — olhou-o nos olhos. — E sabe, ela vai se virar. Sem o senhor, minha mãe passou no exame. Sem o senhor, obteve a certificação. Ela se tornou médica por mérito próprio, mesmo que o senhor tenha ajudado no início. Mas não tem o direito de se apropriar do crescimento dela.
Evren abriu um pouco a boca, como para rebater, mas não conseguiu. Observava Uraz. Era a primeira vez que via nele um homem, defendendo aquela que ele próprio não soube manter e que agora não sabia como reconquistar.
— Eu vou resolver — disse em tom abafado.
— Como? — Uraz deu um passo à frente. — Vai pedir para a Naz não aparecer mais? — falou entre dentes. — E depois a Naz do lado de fora, minha mãe no hospital? Igual ao meu pai? Para o senhor, isso é normal?
— Uraz…
— O senhor nem tem o que me dizer — recuou um passo, a voz mais baixa. — Se decidir que não faço parte da sua equipe, assim será — foi até a porta, mas virou-se de repente. — Mas não — sem esboçar sorriso —, o senhor não ousa! Não tem motivo para me afastar. Como médico, eu o respeito. Como homem — não.
Já estava quase saindo, a mão na maçaneta, quando Evren soltou o ar e disse de repente:
— Uraz, não é como você pensa.
Uraz olhou por cima do ombro. Evren estava apoiado no encosto da cadeira, sem desviar o olhar.
— Não se aproxime da minha mãe. Ela é forte, mas não é invulnerável, e o senhor é quem pode feri-la de verdade — fez uma pausa e completou: — O senhor não é digno da minha mãe!
Simplesmente saiu. A porta se fechou atrás dele.
Evren ficou sozinho no silêncio do gabinete. Por alguns segundos permaneceu de pé, depois voltou a sentar-se. Os dedos deslizaram pela borda do papel. Nem percebeu que tremia. Já se perguntara mais de uma vez se era digno de estar ao lado dela…
***
— Quero ficar com ele, Bahar, me deixa passar! — Gülçiçek avançava em direção ao quarto de Reha, balançando a bolsa como se pudesse abrir caminho até o marido à força.
Bahar correu para interceptá-la.
— Mãe, mamãe… — Bahar a abraçou, detendo-a no saguão. — Espera, calma. — Olhou-a nos olhos. — Ele está bem. Está estável. Me escuta.
— Senhora Gülçiçek — Doruk chegou ofegante —, a Bahar está dizendo a verdade.
Ele ficou ao lado dela, erguendo discretamente o braço como barreira.
— Gülçiçek! — a voz de Nevresim veio de trás. — Eu te disse… você quase se jogou na frente de um carro!
Bahar assentiu para a ex-sogra, mas toda a atenção estava na mãe. Segurou o rosto dela com as mãos, tentando prender-lhe o olhar.
— Mamãe, você não pode se agitar. Seu marido está bem, está no quarto, sendo preparado para a cirurgia. Mas ele vai ficar mais tranquilo se você se acalmar. Por favor — implorou Bahar.
— Quero agora! — Gülçiçek tentou avançar de novo, mas Bahar a conteve e a fez sentar-se suavemente no sofá.
Logo se ajoelhou diante dela.
— Mãe… ele está realmente bem. Eu o vi. Ele é forte, é o professor Reha. Só se assustou um pouco, mas todos nós estamos aqui.
— Vovó! — Umay e Parla chegaram quase ao mesmo tempo.
Yusuf vinha logo atrás, olhando em volta, hesitante:
— Como ele está?
— Está sob controle — respondeu Bahar, sem tirar os olhos da mãe.
— Vovó, você sabe que tem pressão alta… quer acabar deitada ao lado dele? — tentou brincar Umay, sentando-se no braço do sofá. — Sério, só respira.
— Meu Deus, não se pode fazer isso comigo! — Gülçiçek ergueu as mãos. — Por que vocês sempre me escondem as coisas?! Por que eu sou a última a saber?!
— Porque você é a primeira que temos medo de perder — disse Nevresim, sentando-se ao lado dela e pousando a mão sobre seu joelho.
Bahar olhou surpresa para a ex-sogra e voltou-se para a mãe.
— Bahar — Siren apareceu com uma garrafa d’água, agachando-se ao lado delas. — Gülçiçek, tome um pouco de água.
— Bebe — Bahar colocou a garrafa nas mãos da mãe. — Só respira. Eu estou aqui. Todos estamos aqui.
— Vovó — Uraz aproximou-se rápido e se agachou ao lado dela, apertando-lhe os dedos —, por que você não acredita na gente?
— Não acredito! Não acredito! Vocês sempre escondem alguma coisa. Eu sinto. — O olhar dela percorreu todos, os olhos brilhando de lágrimas.
— Mamãe… não chora — suspirou Bahar, encostando a cabeça no colo dela. — Por favor. Você também tem um coração… precisa cuidar dele.
Gülçiçek soluçou e todos se calaram. Ninguém disse mais nada; instaurou-se um silêncio quente, quase palpável. Todos estavam ali. Não falavam — apenas permaneciam juntos. Alguém segurava sua mão, outro encostava no ombro, alguém suspirava, outro pigarreava. Como se o coração de toda a família batesse em uníssono.
Do alto, apoiado no corrimão, Evren observava. Via todos eles.
Ela não estava sozinha. Nunca. Ele sabia disso, já ouvira antes, mas só agora começava a entender o sentido. Deu um passo para trás, temendo ser visto.
Pela porta que dava para a escada, Cem apareceu por um instante. Ficou na sombra.
Todos aqueles que, até ontem, quase eram sua família, estavam de costas para ele. Cerrando os dentes, desapareceu pela porta…
***
…fechando a porta atrás de si, Bahar saiu do quarto de Reha. Nevresim esperava tranquila, sentada no sofá. Tentou se levantar ao vê-la, mas Bahar a conteve.
— Está tudo bem? — sentou-se ao lado dela. — Como a senhora está? — Bahar a olhou atentamente.
Nevresim desviou o olhar para as próprias mãos. Apertava-as nervosamente. Todos ainda precisavam se acostumar com o fato de que Timur não estava mais. Ela deu de ombros, mas não respondeu.
— E como ele está? — perguntou, invertendo o foco.
Bahar suspirou e apertou as mãos dela:
— Calmo, até fez uma piada — quase sorriu, mas o olhar continuava preocupado.
Umay, Parla e Yusuf estavam sentados à frente delas. Siren e Uraz haviam se afastado.
— Você também está firme — observou Nevresim.
Bahar apenas apertou mais as mãos dela.
— Faço o que posso — respondeu.
— Mas você comeu alguma coisa? — perguntou Nevresim de repente.
Bahar piscou e virou-se para ela. Era a primeira vez que a ex-sogra perguntava algo assim, a primeira vez que demonstrava cuidado por alguém além de si mesma e Timur.
— Todos entendem, mas ficam calados — continuou, sem esperar resposta. — Bahar — inclinou-se para ela —, tenha cuidado — sussurrou, fazendo Bahar franzir a testa —, você está na mira… — da bolsa dela veio o som de uma mensagem, mas Nevresim não reagiu.
Bahar quase tocou a testa dela, achando que estava delirando.
— O que quer dizer com isso? — perguntou finalmente.
— Bahar! — Ferdi surgiu pelo corredor —, onde você estava? Por que não olha o chat geral? Já viu? Todos reunidos, a reunião sobre a próxima cirurgia já começou. Anda, rápido! — apressou, — todos já estão lá, esperando por você.
Bahar se levantou num pulo. Enfiou a mão no bolso, abriu o chat e viu várias mensagens não lidas. Ainda não estava acostumada a essa novidade — o chat geral dos médicos. Logo acima havia uma mensagem de Rengin: “Bahar, espero você na sala de conferências. Urgente.”
— Meninas, Yusuf… — murmurou, já saindo.
Bahar correu, consciente de que estava atrasada outra vez. Ferdi vinha atrás, quase a empurrando. Por que Rengin não ligou? Por que Siren e Uraz não esperaram por ela, não disseram nada? Bahar estava sem fôlego quando abriu a porta.
A sala estava cheia de médicos, o burburinho cessou quando todos se viraram para ela. Fechando a porta, olhou ao redor, um pouco perdida. O silêncio se instalou. O lugar vazio era ao lado de Rengin e Evren na mesa principal e, mais ao lado, junto de Siren e Uraz, que lhe acenaram. Ela foi até eles.
Bahar sabia que a reunião já tinha começado e que estava atrasada, mas ninguém comentou; continuaram conversando, apenas lançando olhares.
— Quero ver quem vai ganhar — ouviu alguém cochichar.
— Agora as apostas são outras, não como da última vez — conseguiu entender, apesar do tom baixo.
— Continuemos — a voz de Rengin se sobrepôs ao murmúrio. — Começamos pelo transplante de coração, depois fígado — ela olhou para Evren.
— Entramos na cavidade abdominal só após estabilizar a hemodinâmica. Quem é contra? — o olhar dele pousou em Bahar.
Todos a encararam. Por quê? Ela seria apenas assistente nessa cirurgia, não a responsável.
— Vamos usar a artéria mamária interna esquerda para o bypass — prosseguiu Evren. — A artéria do paciente está alongada, a reserva é mínima, mas existe.
Uraz, sério, mexia no modelo 3D no tablet, em silêncio. Siren passou o dela para Bahar.
— Com licença — Serhat entrou na sala. — Eu… — olhou ao redor e, ao ver Bahar, foi direto até ela.
Bahar se moveu para abrir espaço. Serhat pegou uma cadeira e a colocou ao lado dela.
— Só conheço você — justificou-se, acomodando-se. — Já começaram? Perdi muito?
Bahar assentiu e empurrou para ele o tablet de Siren. Teriam que compartilhar, já que nenhum dos dois trouxe o próprio.
— Acabei de chegar — sussurrou Bahar. — Você viu o andamento da cirurgia? O professor Evren deu acesso a todos — disse, abrindo o arquivo certo no tablet.
— Sim, eu vi, — Serhat inclinou-se mais perto dela. — Ainda não me acostumei.
Bahar suspirou. Ela mesma vivia esquecendo do tablet.
— Professor Özer — chamou Rengin.
Serhat demorou a erguer o olhar. Girou o coração mais uma vez, parando no ponto que queria, e só então levantou a cabeça. Bahar sabia que não era a primeira vez que ele o via.
— Vou conectar o coração imediatamente após o transplante — disse ele com calma.
Bahar soltou o ar. A voz de Serhat transmitia segurança e conforto. Ao lado dele, ela de repente se sentiu como se estivesse à sombra de uma grande árvore num dia de calor intenso. A discussão ao redor continuava; ela ouvia tudo, mas ao mesmo tempo era como se descansasse, sentindo uma estranha paz.
— Bahar Özden — a voz de Rengin a puxou de volta ao fluxo geral da conversa.
— A cavidade abdominal é a minha área. Debaixo das aderências pode haver de tudo. Vai exigir flexibilidade. Eu vou soltar as aderências; a parede está rígida, vou ter que entrar afiado — respondeu Bahar, integrando-se suavemente à discussão.
— O bloco cardiológico fica comigo, como combinamos. Eu seguro o coração. Conexão no momento da implantação — continuou Serhat, no mesmo tom uniforme.
Bahar quase sorriu ao ouvir a voz dele. Enquanto olhava para Evren, percebeu um leve movimento no queixo dele — algo claramente o incomodava… mas o quê? Era sua paciente, sua cirurgia difícil. O que poderia distraí-lo naquele momento?
— Hora de chegada confirmada — anunciou Ahu. — A cápsula com a paciente estará aqui em seis horas.
Um silêncio se instalou na sala. Apenas Evren e Bahar se encaravam, como se o cronômetro tivesse começado a contar. Bahar estremeceu, foi a primeira a romper o contato visual e abaixou a cabeça.
— Não vai ser fácil — disse Serhat baixinho, mostrando algo no tablet.
Bahar colocou os óculos e olhou. Serhat afastou as mãos, e ela mesma girou a imagem da cavidade abdominal, explicando algo para ele.
— Todos precisam descansar. Não temos direito a errar — disse Rengin, com voz firme e sem emoção. — Tudo o que acontecer será gravado, analisado e contestado antes mesmo de tirarmos as luvas.
Ela mantinha a postura, lançando o olhar por todos, mas voltava, involuntariamente, para o par inclinado sobre o tablet.
— Já tivemos menos tempo e piores condições. Conseguimos — suspirou Bahar, ainda sem entender do que exatamente se tratava. — Imagino que vocês também tenham tido casos assim — olhou para Serhat.
— Observadores não operam — disse Evren. — Nós, sim. É bom lembrar disso.
Ela levantou a cabeça na hora, reagindo à voz dele. Apesar de parecer calmo, seus dedos apertavam a caneta com força. Bahar percebia que ele se controlava à força de vontade. Ela sentia sua tensão, mas sabia que ele não podia se abalar — não agora, quando tanto dependia dele. Ainda assim, voltou a olhar para o tablet.
— Viu como eles estão sentados? — comentou Ferdi para Ahu. — Devia ter apostado na Naz. Conhecendo a Bahar, ela estaria agora ao lado do professor, mas não, está com outro.
Ahu cutucou-o com o cotovelo.
— Escuta — insistiu Ferdi —, e se na verdade for um… quadrado amoroso?
— Ferdi — Ahu quase o acertou —, estamos falando de um transplante, setores podem ser fechados, e você aí com piadinhas… — reclamou, mas mesmo assim lançou um olhar rápido para Bahar.
Ela estava inclinada sobre o tablet com Serhat. Ele mostrava algo, explicando seus movimentos. Um som de alerta ecoou em vários celulares ao mesmo tempo, e todos começaram a se levantar.
— Não vai ser fácil — repetiu Serhat, lançando um olhar involuntário para Evren, que recolhia papéis da mesa.
— Nós vamos conseguir — respondeu Bahar, sem levantar a cabeça.
— Daqui a seis horas, reunião geral — anunciou Rengin, levantando-se.
Alguém abriu a mensagem primeiro. Depois outro. Aos poucos, foram surgindo murmúrios. Os olhares iam de Evren para Bahar, e voltavam para Evren.
— O que é isso? — não se conteve Siren. — Por que mandaram isso aqui? — indignou-se.
Uraz levantou-se tão bruscamente que a cadeira caiu no chão.
— Uraz — Bahar se assustou, erguendo os olhos do tablet —, o que houve?
— Comigo? — exclamou ele, cerrando os punhos.
Ela não entendia o que tinha abalado o filho. Ela estava absorta na conversa com Serhat sobre a operação.
— Não entendo — murmurou Uraz, olhando para a tela do celular. — Não era assim… — escapou-lhe.
Mas a raiva já dominava, fazendo-o apertar o telefone com força.
— O que foi? — Bahar olhou para Siren, que apenas balançou a cabeça.
Em silêncio, Siren mostrou-lhe o celular. Na tela — Evren e Naz se beijando.
— No grupo médico — sussurrou Siren. — Sem legenda.
Bahar apenas ficou olhando. As roupas de hoje, o saguão. Ela se lembrava de vê-los abraçados, percebera a tensão dele… mas agora, no vídeo, o beijo parecia de ambos. Ela se lembrava de Naz o beijando na porta do consultório… mas aqui, era diferente.
Os dedos de Bahar pararam. O vídeo recomeçou, quadro a quadro. Ela via como se fosse pela primeira vez. Lentamente. Sem acreditar. Sem perguntar. Apenas olhando.
Ergueu a cabeça devagar. Levantou-se e foi em direção à porta, sem sequer olhar para Evren. Todos abriam caminho. Siren e Uraz a seguiam.
— Bahar! — a voz dele ecoou nos ouvidos dela.
Ela continuou andando. Uraz tentou bloqueá-lo, mas Evren o contornou.
— Bahar — ele segurou o braço dela. — Você não pensa que…? — disse lentamente. — Bahar! — a voz tremia. — Olha pra mim! — implorou. — Bahar! — quase gritou.
— Professor! — Uraz aproximou-se.
Siren tentou conter o marido, mas ele afastou a mão dela.
— Você precisa focar na cirurgia, descansar — disse Bahar friamente, sem se voltar.
— Você não acredita nisso, acredita? — ele se aproximou mais, ainda segurando seu braço.
Bahar abaixou os olhos. A respiração de Evren ficou curta; seus lábios tremiam, como se quisesse dizer muito, mas as palavras não vinham. Ao redor, colegas observavam atentamente. Uraz tinha razão — ele realmente ouvira a palavra “aposta”. Que prêmio? Ele se lembrou das próprias palavras.
Uraz tentava abrir caminho pela multidão.
— Isso não é verdade, Bahar — Evren segurou-lhe os ombros, tentando forçá-la a olhar nos seus olhos, mas ela desviava.
— Professor — Uraz já estava quase ao lado deles.
— Olha pra mim! — insistiu Evren. — Não me importa o que eles pensam, ouviu? — de repente a abraçou, mas ela ficou imóvel, balançando nos braços dele como uma marionete. — Que falem, que comentem — sussurrou perto do ouvido dela. — Só importa o que você pensa.
Ela permaneceu em silêncio. Não respondeu. Uraz estava a um passo de separá-los. Mais um segundo e pronto. Ela iria embora com o filho.
— Muito bem — a raiva apareceu na voz dele. As mãos apertaram mais seus ombros. — Quer a verdade? — puxou-a de repente para si e a beijou diante de todos.
CAPÍTULO 3. PARTE 3
Evren a beijou sem delicadeza. Com dureza. Quase como um desafio — a todos, mas sobretudo a si mesmo. Por cima do ruído do próprio coração, chegaram-lhe os murmúrios dos colegas e, logo depois, o estalo da mão dela acertando-lhe o rosto com força. O silêncio caiu sobre todos.
Bahar o empurrou bruscamente; Uraz a ajudou. Ela se virou e saiu. Uraz e Siren a seguiram.
Evren permaneceu imóvel no exato lugar onde ela o deixara. Não se moveu, apenas olhou para o ponto onde, segundos antes, Bahar estava… e agora não estava mais. Nem ela, nem o brilho do olhar dela, nem o perfume. Estremeceu, inspirou fundo e só então começou a andar na mesma direção por onde eles tinham ido.
Rengin, parada à porta da sala de conferências, foi testemunha involuntária. Fechou os olhos, exausta, sem perceber que um homem de terno se aproximava. Ninguém lhe deu atenção; todos já comentavam o que tinham visto, e novamente a palavra “aposta” começou a circular.
— Vamos entrar na sala — ouviu a voz masculina e abriu os olhos. — Fui enviado pelo conselho — explicou ele.
Ela virou-se sem dizer nada e entrou. Ahu escorregou logo atrás, fechando a porta.
Rengin fitou atentamente o homem de cerca de cinquenta anos — terno preto, pasta debaixo do braço, olhar calmo.
— A equipe está se destruindo por dentro — ele fez uma pausa calculada. — A senhora ainda tem certeza de que está pronta para uma cirurgia de transplante? Está disposta a colocar todo o hospital em risco?
— Isso não tem relação com a cirurgia — retrucou Rengin, visivelmente desconfortável.
— Tenho que fazer um relatório — disse ele, anotando algo no tablet. — A reputação do hospital está em jogo; em poucas horas, a situação pode piorar muito — levantou o olhar para ela. — E se eles desmoronarem, a responsabilidade será toda sua. Inteira. A senhora realmente acredita que essa equipe pode sustentar um paciente à beira da morte?
Rengin hesitou apenas por um instante, e ele aproveitou para continuar:
— Adem Yurdakul — apresentou-se.
— Sente-se — respondeu ela, deixando transparecer um leve traço de tensão no olhar.
Ele se aproximou lentamente da mesa, colocou a pasta com calma, mas não se sentou.
— A sua equipe é forte, de composição interessante, mas está fragmentada — sua voz era neutra. — O professor Evren Yalçın está no comando da cirurgia, correto?
— Sim.
— Recebi o vídeo junto com todos os outros — fez mais uma pausa —, sim, é uma situação pessoal, mas nós avaliamos não apenas a técnica cirúrgica, e sim também a estabilidade emocional da equipe.
— É uma provocação — respondeu Rengin, em tom firme.
— Por enquanto, estou apenas observando. Mas se os laços internos comprometerem a estabilidade, minha pergunta será para a senhora — parou por um momento —. Sei que vocês trabalham em dupla. Espero que isso não afete sua objetividade.
Ele não desviava o olhar; seu rosto permanecia impassível, sem qualquer traço de emoção.
— Li o material sobre uma operação antiga, com participação do professor Evren — inclinou levemente a cabeça. Era extremamente cortês, mas de um modo que dava vontade de gritar —. Estarei pessoalmente na sala de cirurgia — avisou. — Da outra vez, não cheguei a tempo.
Depois disso, pegou a pasta da mesa, virou-se e saiu, sem esperar resposta.
A porta fechou-se suavemente, sem ruído. Só então Rengin permitiu-se soltar o ar…
***
Ela queria soltar o ar… e não apenas soltar — queria gritar… como naquela vez no terraço, quando os três — ela, Parla e Evren — gritaram juntos para pôr tudo para fora. Mas agora, apenas ficou em silêncio, ouvindo Uraz despejar tudo o que carregava dentro.
— Ele nunca mais vai chegar perto de você, mãe, eu disse isso a ele! — falou com raiva. — Eu não quero operar com ele — engasgou-se —, mas vou!
Nas palavras dele — não quero, mas vou — Bahar percebeu um quase infantil teimosia, e por um instante até quis sorrir… quase… mas não conseguiu. Não era hora de sorrisos.
— Uraz — Siren tentou segurar-lhe a mão —, acalma-se.
— Eu estou calmo — ele empurrou a cadeira para trás, o som seco ecoando pelo chão.
Siren recuou, e Bahar também deu um passo atrás. Olhava para o filho em silêncio, e não o reconhecia. Não era pela raiva… mas pela dor que ele sentia por ela.
— Como ele teve coragem, depois de beijar a Naz, de te beijar? — indignou-se. — Na frente de todo mundo?! E depois do vídeo que todos viram!
Bahar empalideceu. Escondia a mão direita no bolso do jaleco. Os dedos ainda latejavam, a palma ardia do tapa… e a face dele?
— Você não vai me dizer nada? — Uraz fitava a mãe diretamente.
Ela apenas deu de ombros; era tudo o que conseguia fazer.
— Ele é um bom médico — disse em voz baixa.
— E daí?! — a voz dele tremia. — Sim, ele te operou! — admitiu. — Sim, ele é médico. Mas só isso! Isso não lhe dá o direito — a frase se quebrou, e ele retomou —. Ele é apenas médico! Médico! Só isso! Ele está com a Naz! Todo mundo viu! Você vai simplesmente aceitar? Sim, eu vi eles se abraçarem, depois ela foi embora.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram levemente. Ela também tinha visto o abraço. Só o abraço. Sabia que todos esperavam uma reação… mas ela já tinha dado uma resposta… para todos. Não bastava?
— Uraz, hoje vão operar o Reha, daqui a uma hora — lembrou. — Precisamos estar com ele, com a mãe.
— Vamos agora — disse ele, aproximando-se —, mas por favor, mãe, nada mais de Evren.
Siren suspirou atrás dele. Bahar permaneceu calada. Nem sequer o olhou.
— Não vai dizer nada? — a voz dele estava trêmula. — Vai perdoar isso? — apontou para algum lugar. — Mãe?
Bahar engoliu seco, fechou os olhos por um instante, suspirou, e depois olhou para o filho.
— Diz alguma coisa — pediu Uraz. — Não vai arranjar desculpa para ele, né, mãe? — segurou-lhe os ombros. — Diz alguma coisa.
— Uraz, para de pressionar a Bahar — Siren tocou-lhe no ombro.
— Vocês enlouqueceram? — ele encarou a mãe. — Então por que não perdoou o pai? Por que o Evren pode tudo? Não entendo, mãe. O que ele tem de melhor que o pai? Só porque não tem filhos fora do casamento? Mas isso é questão de tempo, você sabe disso!
Bahar fechou os olhos de novo. Ouvia tudo, mas não conseguia falar, nem tirar conclusões. Não conseguia compreender o que ele tinha feito, dito… e o que todos tinham visto. Sim, ela o tinha esbofeteado diante de todos… mas explicar alguma coisa agora era impossível, porque ela mesma não sabia o que sentia.
— Uraz… — murmurou, olhando para o filho. Sabia que mais uma palavra e ela iria explodir, mas não tinha esse direito. — Temos uma cirurgia difícil pela frente, agora não é hora para isso — quis encerrar o assunto.
Bahar ergueu os braços e o abraçou, rápido, firme, e logo recuou.
— Mãe… — Uraz tentou segurar-lhe a mão, mas ela a escondeu de novo no bolso do jaleco.
— Preciso ver a Esra — disse, virando-se e saindo.
— Uraz — Siren encostou o rosto no ombro do marido.
— O quê? — ele abriu os braços, de costas para ela. — O que foi isso? Você entende ela?
Siren apenas o abraçou por trás.
— Vamos só ficar em silêncio. A Bahar tem razão. Precisamos ir até a Gülçiçek, às meninas — lembrou.
— Siren, eu não a entendo — confessou Uraz.
Ele parecia perdido, sem saber se estava certo no que fazia… mas como agir de outro jeito? Como?…
***
Como seguir adiante agora? Bahar entrou em seu consultório e se sentou por um minuto à mesa. Os dedos já tocavam o teclado, abrindo os últimos resultados dos exames de Esra. Leu-os atentamente, sem parar de pensar.
Como médica, sabia perfeitamente o que fazer, para onde ir. Mas no resto… havia um desejo quase desesperado de correr até o terraço só para respirar um pouco de ar fresco… mas não conseguiria chegar lá sem ser vista. Olhos demais, e agora ela estava exposta, como na palma da mão.
— Bahar? — Doruk apareceu na porta do consultório.
— Recebi os exames — respondeu rápido demais.
— Sim, fui eu que te enviei. Por enquanto está tudo dentro do normal — disse ele, sério demais. — Você soube sobre o observador? — perguntou.
Bahar fechou o prontuário e afastou-se do computador.
— O quê? — não entendeu.
— Vamos ter um observador na cirurgia. Ele já está no hospital — informou Doruk, e ficou em silêncio.
Bahar levantou-se da cadeira.
— Já tivemos observadores antes — comentou com calma, franzindo levemente a testa. — Tudo de acordo com o protocolo.
Agora começava a entender as frases sobre “observação” que tinham sido ditas na sala e às quais ela não dera importância.
— Tipo desagradável — murmurou Doruk na porta.
— Preciso ver a Esra — olhou o relógio —, depois temos a cirurgia do Reha — mexeu os dedos da mão direita, ainda sentindo uma leve dor.
— Você precisa descansar — lembrou Doruk. — Vai ser uma cirurgia longa.
Bahar assentiu, caminhando pelo corredor à frente dele. Doruk, pelo canto do olho, viu Cem perto da porta que dava para a escada. Ele até ergueu a mão, como se fosse perguntar algo, mas Cem já tinha desaparecido atrás da porta.
— Doruk — ela parou de repente.
— Será que o Cem encontrou o professor? — ele ainda olhava para o lado e acabou trombando nela.
— O quê? — ela se virou para ele, sem reagir ao quase esbarrão; estava interessada apenas no que ele dissera.
— O Cem está no hospital? — repetiu.
— Acabei de vê-lo — Doruk apontou para a escada. — Mas não importa — fez um gesto para encerrar o assunto.
— O vídeo… — franziu o cenho, sem completar.
— Já foi apagado do grupo geral — respondeu rápido demais. — O observador também foi adicionado ao grupo — informou.
Bahar não reagiu, ainda franzindo o cenho. Murmurou algo inaudível, parada, como se elaborasse um pensamento.
— Depois — disse de repente, soltando o ar, o olhar sereno.
Ele até achou que ela esboçara um sorriso. Apres¬so¬u-se a acompanhá-la, notando que seu passo se tornara mais firme, como se tivesse se recomposto por inteiro. Caminhava como se não se importasse com os olhares dos colegas nem com o que diziam às suas costas. Doruk juraria que os olhos dela brilhavam, como se uma chama tivesse se acendido ali. Sorriu por ela, erguendo os ombros. A sua Bahar estava de volta, e ele se sentia feliz com isso…
***
— Estou feliz que o Reha vai ficar bem — Umay sentou-se no sofá e desenroscou a tampa da garrafa.
— A vovó ainda está no quarto dele, deixou-os a sós.
— A cirurgia é daqui a pouco — Parla sentou-se ao lado dela e virou o telefone com a tela para baixo.
— Ele ainda escreve? — perguntou Umay calmamente.
Parla a encarou com atenção:
— Por enquanto, não — admitiu. — Estava mandando mensagens, depois parou de repente.
Umay bebeu alguns goles d’água e fechou a garrafa. Segurava-a com as duas mãos, olhando para um ponto fixo.
— Sabe… — Parla se aproximou mais —, eu não imaginei que você estaria tão calma depois de tudo.
Umay sorriu de leve, mordendo o lábio por um instante:
— Estou sofrendo — sussurrou —, mas não vou chorar mais. É inútil. Dói muito, especialmente… — calou-se, incapaz de continuar.
— Especialmente… o quê? — Parla não entendeu, inclinando-se mais para ela. — Umay? — perguntou com apreensão, virando-se para conferir se não havia ninguém ouvindo. Não viu Siren surgir da esquina. — Vocês tiveram alguma coisa?
Siren parou de repente. Umay estremeceu, apertando ainda mais a garrafa de água.
— Você e o Cem… tiveram? — repetiu Parla. — Umay?! — exigia uma resposta.
— Parla? — Umay se irritou, recostando-se no sofá. — Chega de me interrogar!
— Aqui estamos nós — Uraz segurou Siren pelo braço, e os dois se aproximaram do sofá onde as meninas estavam sentadas. — A vovó está no quarto?
— Mamãe disse que vocês deviam ir descansar — Umay endireitou-se.
— Ela esteve aqui? — o rosto de Uraz perdeu o sorriso imediatamente.
— Sim, só deu uma passada rápida no professor Reha — respondeu Parla no lugar de Umay —, levou o Yusuf com ela e saíram.
Siren não tirava os olhos de Umay. A pergunta de Parla a deixava inquieta, mas o que mais a preocupava era o fato de Umay não ter respondido nada.
— Çağla! — Umay se levantou de um salto e correu até ela.
Abraçou-a imediatamente.
— A Bahar disse que vocês estavam aqui — a voz de Çağla não tinha qualquer traço de vida. — Vou ficar com vocês.
Ela estava pálida, sem cor, como se tivesse perdido todo o brilho desde o enterro de Tolga.
— Çağla — Uraz a ajudou a sentar-se no sofá.
— Estou bem — Çağla ergueu a mão, cortando qualquer pergunta —. Temos a Gülçiçek, e a Bahar está ocupada.
— Ocupada? — Uraz franziu a testa na hora.
— Foi ver a paciente dela — Parla estalou os dedos. — Esra, acho.
Uraz relaxou na mesma hora. Siren revirou os olhos, certa de que dali em diante nada mais seria como antes.
— Sim, sim, estou bem — ouviram primeiro a voz de Nevra, antes de vê-la surgir da esquina.
Ela assentia enquanto ouvia alguém no telefone, o aparelho encostado ao ouvido, olhando distraída para o chão.
— Entendi, já falei com a Bahar, obrigada — assentiu de novo, ouvindo —, está bem — e encerrou a chamada, levantando a cabeça.
Só então percebeu que todos a olhavam.
— Já levaram? — apressou-se a perguntar.
Todos balançaram a cabeça em silêncio.
— Então vamos esperar — Nevra sentou-se junto das meninas e de Çağla, apoiando as mãos nos joelhos.
— Esperar — repetiu Uraz, afastando-se até a parede e encostando-se nela.
Siren fez o mesmo. Ela sabia que precisavam descansar, que o tempo estava perigosamente curto, e que à frente havia uma operação dificílima — e ninguém tinha como saber como tudo iria acabar…
***
Ele entendia que nada passaria impune. Olhos demais, conversas demais. Agora via e ouvia isso com uma clareza dolorosa — aquilo que antes ignorava. E, afinal, já tinha acontecido. Já tinha havido comentários, apostas, quando ele voltou… e ela se calou, tentando falar com ele, tentando alcançá-lo. E ele… Evren soltou um xingamento baixo, caminhando pelo corredor.
Já tinha passado várias vezes diante do quarto de Esra, na esperança de encontrá-la, ainda acreditando que conseguiriam conversar. Mas Bahar parecia ter desaparecido. Até desceu ao andar onde ficava o professor, mas não a viu em lugar nenhum. Ela não esperava junto com os outros na porta do quarto de Reha.
Seus passos desaceleraram ao ver Serhat saindo do quarto da filha, segurando o tablet diante de si, sem levantar os olhos. Evren poderia ter seguido adiante, mas não… agora não podia mais. Parou, e Serhat, percebendo que alguém o observava, levantou a cabeça. Seu passo diminuiu e ele parou completamente quando ficou frente a frente com ele.
— Você não tem cirurgia? — Evren quebrou o silêncio primeiro. — Não deveria estar descansando?
— Está tão confiante assim? — Serhat olhou o relógio. — Primeiro o professor Reha, depois uma cirurgia de doze horas?
Ele colocou o tablet debaixo do braço.
— Não era isso que sonhávamos, quando estudávamos? — lembrou. — Passar dias inteiros na sala de cirurgia?
— Isso ficou no passado. Agora somos responsáveis por vidas — Evren estava sério demais. — Nunca pensei que acabaríamos juntos na mesma sala de operação.
— Eu também não esperava, mas sabia — assentiu Serhat. — Quando aceitei o convite, sabia que isso ia acontecer.
— Já não somos amigos — Evren o encarou diretamente. — Agora somos apenas médicos. E, como médico, te pergunto: você tem certeza das suas forças? A cirurgia do professor vai levar umas seis horas, e nós — ele olhou o relógio — já temos só cinco. Você não vai conseguir.
— Eles são sua família? — Serhat deu um passo à frente.
— Eu quase… — escapou dos lábios de Evren.
— No seu estilo — sorriu de leve Serhat. — Isso significa que não.
Evren fechou as mãos em punhos.
— Não mexa com a Bahar — disse quase num sussurro.
— Nem continue — cortou Serhat. — Não é da sua conta o que há entre mim e Bahar.
Evren empalideceu.
— Entre nós?! Ela não está livre — sua voz tremia.
— E você está? — Serhat ouviu uma notificação no telefone, mas ignorou. — Você não sempre sonhou em ser livre como o mar? A vida toda! — lembrou. — Conseguiu? — inclinou-se para ele. — Seu desejo se realizou? Está feliz?
— Não se meta! — Evren estava prestes a avançar sobre ele. — Quer que a história se repita?
Serhat permaneceu sem expressão:
— Você não pode exigir honestidade quando… — pela primeira vez, surgiu algo parecido a um sorriso em seus lábios — …quando acha que ela é sua. Sério?
— Bahar… — Evren se atrapalhou — …é complicado demais.
— Para quem? — Serhat exigiu. — Ou talvez tenha sido você que complicou? — ele observou como as emoções passavam pelo rosto de Evren. — Eu vi como você a olha… — fez uma pausa, analisando seu rosto — …e vi como ela se afasta de você.
— Nem ouse! — explodiu Evren.
— O que te liga a essa família? Diz! — exigiu Serhat.
— Tudo! — respondeu Evren com firmeza. — Muita coisa para enumerar!
— E tarde demais para consertar — retrucou Serhat. — Você não mudou nada, Evren Yalçın.
— Não mexa com o pessoal — Evren apontou para ele. — Não é você quem vai me julgar!
— Nós dois sabíamos no que estávamos entrando. Você saiu antes, eu fiquei um pouco mais. — Suspirou. — Então, só trabalho? — moveu a cabeça levemente, mas voltou a vestir a máscara impassível.
— Só trabalho. Senão vamos comprometer a cirurgia — disse Evren.
Eles quase se cruzaram, mas as palavras de Serhat, lançadas às suas costas, fizeram Evren parar.
— Sobre o vídeo… eu não faço apostas. Eu apenas seguro o coração do paciente nas minhas mãos. — E seguiu andando.
Evren ficou parado no meio do corredor. Seu próprio coração batia tão alto que ele mal ouvia qualquer outra coisa…
***
…Ela tentava não ouvir nada. Bahar sabia que iriam falar pelas suas costas. Iriam comentar por muito tempo, ainda mais depois de terem dado um motivo tão claro. Mas, para si mesma, ela já tinha decidido… restava apenas um pequeno detalhe. Poderia nem ter pedido ajuda a Yusuf, poderia tê-lo poupado disso tudo, mas não havia mais ninguém em quem pudesse confiar. Uraz estava decidido demais. Siren ficava entre eles. Umay ainda não tinha se recuperado do rompimento com Cem… ah, Cem. Bahar suspirou, apertando o tablet com mais força — e logo fez uma careta.
Olhou para a mão, sem entender por que os dedos ainda latejavam, como se o tapa tivesse penetrado sob sua pele… se os seus dedos guardavam essa lembrança, então como estaria o rosto dele?
Um homem de terno se aproximava, caminhando devagar, segurando uma pasta debaixo do braço.
— Doutora Bahar Özden — a voz dele era extremamente cortês, mas só o som já a fez sentir um desconforto estranho.
— Sim? — ela franziu um pouco a testa e instintivamente apertou o tablet contra o peito.
— Sou o observador da próxima cirurgia. Adem Yurdakul — fez uma pausa calculada. — Não nos conhecemos. Formalmente.
Bahar assentiu e estendeu a mão. Adem primeiro olhou para ela e só então apertou, segurando por mais tempo do que o necessário, com uma confiança fria e deliberada. Olhava-a diretamente, sem qualquer emoção no rosto.
— Se o senhor quiser consultar o regulamento da cirurgia… — disse ela, sentindo que algo dentro dela se encolhia só de vê-lo — …nossos documentos e protocolos estão prontos.
— Não tenho dúvidas disso — respondeu, pausando outra vez. — Dizem que você confia na sua intuição durante as cirurgias. — Nova pausa. — Que às vezes segue essa intuição com segurança demais.
Bahar quase se encolheu sob o olhar dele. As palavras não a atingiram diretamente, mas havia algo no tom que a deixava em alerta:
— Quando se trabalha com o coração, confiança não é luxo, é necessidade — respondeu, pigarreando.
Adem deu meio passo na direção dela:
— Também dizem que você sabe estar presente — mais uma pausa estudada, e Bahar esperou, paciente, que ele continuasse — …mesmo que “estar presente” signifique assumir os erros de outra pessoa.
Ele assentiu, como se tivesse certeza do que falava. Para ela, aquela frase não fazia o menor sentido — e, ainda assim, a fez estremecer sem saber por quê.
— Desculpe… — inclinou-se levemente para ele, virando a cabeça como para ouvir melhor — …o que o senhor quer dizer com isso?
— Às vezes o passado volta — disse lentamente — …para lembrar. — Pausa curta. — Até a sala de cirurgia, doutora.
Ele passou por ela, e Bahar ficou parada. Aos poucos, baixou o tablet e se virou, os olhos tomados por inquietação. O que exatamente ele quis dizer? O que sabia ou não sabia? Ela não entendia…
…E não queria entender. Sacudindo a cabeça, tentou afastar o torpor que o observador lhe provocara. Observador?! Já tinham passado por algo assim. Cirurgia, a mão, Evren… um frio percorreu seu corpo. Voltou-se — será que ele estava atrás de Evren? O que Evren tinha feito desta vez? Ela já não sabia mais.
Bahar avançou apressada, depois parou de repente, mudou de direção, voltou a girar sobre os calcanhares e parou outra vez. Não sabia para onde ir. A leve dor nos dedos voltou a se fazer presente, e ela sacudiu a mão, como se isso pudesse ajudar. Quase deu um sobressalto quando os dedos foram envolvidos pelo calor da mão dele.
— Evren… — soltou o ar num suspiro de alívio.
— Bahar? — ele a observava atentamente.
— Vamos… — disseram os dois ao mesmo tempo, apertando os dedos um do outro.
E, como conspiradores, seguiram rápido pelo corredor, até ouvirem vozes à frente, o que os fez parar e mudar de direção. Procuravam juntos um lugar onde pudessem se esconder, evitar mais olhares, mais cochichos. O fôlego já lhes faltava quando alcançaram a sala de curativos; entraram rápido, fecharam a porta, encostaram-se nela com as costas. Respiravam ofegantes, quase em uníssono, sem soltar as mãos.
CAPÍTULO 3. PARTE 4
Sozinhos… praticamente no escuro, apenas sua respiração, o zumbido do ar-condicionado e os sons da rua.
— Dói? — Evren segurou seus dedos com delicadeza e aproximou-os do próprio rosto. — Por que faz isso? As mãos precisam ser cuidadas. Seria melhor se você me tivesse chutado! Nunca mais se sacrifique pelas mãos! Você é cirurgiã, as mãos são importantes!
Os lábios dele tocaram sua palma. Os olhos de Bahar se fecharam, a respiração foi se acalmando, enquanto ele continuava a beijar seus dedos, como se pudesse aliviar a dor assim.
— Medicina alternativa? — finalmente ela falou, abrindo os olhos. — Foi forte? — As pontas dos seus dedos tocaram a bochecha dele, fazendo-o parar. — Vamos, — puxou-o em direção à maca.
Sem soltar sua mão, ela acendeu a luz e direcionou para o rosto dele, forçando-o a apertar os olhos. Ela o empurrou ainda mais perto da maca, e ele sentou-se, mas suas mãos permaneceram entrelaçadas.
— E você? — ele perguntou baixinho.
— O quê? — ela não entendeu.
— Método alternativo — lembrou ele, olhando profundamente em seus olhos.
Ela estava prestes a empurrá-lo de novo, mas desta vez suavemente — tocou seu ombro, observando a bochecha dele.
— Nada grave — murmurou ele, envergonhado, mas tão agradado pelo cuidado dela que poderia ter ficado ali para sempre. — Mas impressionante — admitiu — eu provavelmente teria feito isso comigo mesmo.
Bahar sorriu, e ele imediatamente assumiu a iniciativa. Precisou soltar os dedos dela, saltou da maca, levantou-a com facilidade e a sentou. Abria gavetas rapidamente, enquanto ela apenas o observava em silêncio. Passou algo nos dedos dela e cuidadosamente os enfaixou.
— Não tire até a cirurgia — pediu, inclinando-se para ela.
Suas testas quase se tocaram, e ele parou, então ela se inclinou um pouco, restabelecendo o contato.
— Por que confiou em mim? — perguntou tão baixinho que ela mal entendeu as palavras.
Seus dedos tocaram o cabelo dele, voltaram à bochecha. Ela tocava levemente, e ele fechou os olhos, apreciando aquele carinho efêmero dela.
— Eu simplesmente senti — sussurrou ela.
— Bahar — ele se moveu lentamente, milímetro por milímetro, até que a bochecha dele roçou a dela.
Ela não tinha certeza, mas pareceu-lhe que os lábios dele tocaram sua bochecha por um instante… ou talvez tenha imaginado. Ele procurou os dedos dela, e a palma de sua mão sentiu o calor agradável da mão dele.
— Durante a cirurgia, precisamos ser precisos — sussurrou Bahar.
— Se alguém vacilar, o outro cobre — continuou Evren, e ela ergueu a segunda mão, abraçando-o ainda mais perto. — Eu mato quem fizer isso.
— Não precisa, vamos conseguir — disse ela baixinho.
Esse “nós” fez o coração dele bater mais forte. Seus olhos se encheram de emoção. Isso ainda não significava que ela o aceitava — significava apenas que não caiu na provocação. Um pequeno passo em sua direção. Ele queria beijá-la quando ela o abraçava assim, confiante, naquele depósito, naquele silêncio, enquanto do lado de fora continuavam as apostas… mas simplesmente não ousava. Ainda era cedo, tudo era instável e incerto.
— Precisa descansar — disseram novamente ao mesmo tempo.
— Resta pouco tempo — continuou ela — a cirurgia vai durar algumas horas, Evren, você precisa dormir.
— Assim como você — ele não queria se afastar, queria ficar ali para sempre, apenas inalando o perfume dela, sentindo o calor do corpo, ouvindo o batimento do coração.
— Preciso verificar minha mãe — sussurrou ela, mexendo-se nos braços dele.
— Não importa, vou com você — ele se inclinou levemente, olhando em seus olhos.
— Ah, Evren — ela suspirou, franzindo a testa.
Ele franziu a testa também. Bahar estava confusa — não estava sozinha, nunca estivera. A frase surgiu novamente em sua mente inflamada. Não esteve, não está, e não estará, entendeu ele.
— Tudo bem — ele cedeu de repente — mas só por enquanto. Vou reconquistar a confiança de cada membro da sua família.
— Evren — sua mão cobriu a boca dele, fazendo-o ficar em silêncio — por favor — ela pediu. — Agora tudo está muito complicado.
— Não é o fim — murmurou ele em sua mão, e ela a retirou.
O telefone no bolso dela vibrou, e ela o pegou imediatamente. Evren esperou em silêncio, pacientemente, enquanto ela olhava a mensagem.
— Chegaram os exames do professor Reha — disse ela em voz alta.
— E o que dizem? — ele se sentou ao lado dela na maca, sem tentar espiar o telefone.
— O potássio dele está instável, e o ECG apresenta alterações — suspirou ela. — O INR está muito alto, o fibrinogênio no limite inferior.
Evren a puxou para si, e ela se encostou em seu ombro.
— O cardiologista já viu? — perguntou ele.
— Serhat já adiou a cirurgia — sussurrou ela, percebendo o instante em que ele se tensionou ao ouvir o nome dele — não podemos correr riscos, ainda mais agora.
Evren assentiu, acariciando seus cabelos. Seus dedos alcançaram sua trança, e ela gemeu.
— Não, não desfaz agora — pediu — não agora.
— Um dia — murmurou Evren — com Reha tudo ficará bem, e eu irei com Serhat, mas enquanto isso precisamos administrar plasma e observar. Não permitirei hemorragia na mesa — disse ele — estarei ao lado, vou auxiliar.
Bahar assentiu, lentamente saiu de seus braços e deslizou até o chão. Evren ainda estava sentado, olhando para ela. De repente, sentiu frio quando ela se afastou um pouco, quando deixou de tocar nele.
— Durma — pediu ela — bem aqui — deu um passo para trás, sem tirar os olhos dele.
— Você vai embora? — a voz dele caiu.
Ela apenas assentiu, sem dizer mais nada, sem explicar, abriu a porta silenciosamente e saiu. Evren permaneceu na maca, apoiando as mãos, olhando para a porta. Ele escutava os passos… ainda acreditava, ainda esperava que ela voltasse… mas não… ela foi para estar com a família… da qual ele tanto queria fazer parte…
***
…ele queria ser útil para todos, e se tornou. Yusuf estava sentado na sala dos seguranças, assistindo aos vídeos com eles. Não entendia como Bahar conseguiu convencer aqueles homens fardados a deixá-lo entrar, só sabia de uma coisa: ela fez um esforço incrível para que permitissem sua entrada.
— Cara, você tem certeza de que conhece quem estamos procurando? — perguntou um homem mais velho, ajustando a gola da camisa. — Já revisamos mais de uma hora de gravações de todas as câmeras.
— Sim, ele está definitivamente no hospital — Yusuf não tirava os olhos dos monitores. — Ele não saiu, as câmeras não registraram — passou a mão nos olhos sem interromper a observação.
— Ele aprontou alguma coisa? — perguntou o homem mais jovem, em alerta.
— Não — respondeu Yusuf rápido demais — apenas precisamos pregar uma surpresa nele.
Ele lembrava da tarefa de Bahar: encontrar Cem e imediatamente avisá-la… antes que ele aprontasse algo. Ela já havia murmurando isso para si mesma, achando que Yusuf não ouviria, mas ele captou a frase, e isso o preocupou. Ainda não havia esquecido a conversa de Umay e Parla sobre Cem. Como aquele cara conseguia dar tanto trabalho e preocupação para todo mundo?
— Mas não é ele aqui? — o jovem segurança voltou um pouco o vídeo — não é essa a pessoa que você procura? — perguntou, e Yusuf viu um rapaz parecido com Cem, com um notebook na mão e boné puxado sobre os olhos, espiando pela porta e depois correndo para a escada.
— Quando foi isso? — Yusuf olhou para o quadro congelado.
— Meia hora atrás — bocejou o segurança mais velho, espreguiçando-se.
Ele não percebia perigo algum em Cem, que estava sentado de forma descontraída.
— Então é pela escada — Yusuf levantou-se da cadeira — e como chegar a essa ala? — perguntou, franzindo levemente a testa.
— Aqui também está ele — o segundo segurança pausou o vídeo — essa é a ala direita, você precisa ir para o corredor do outro lado, perto do elevador — apontou em direção ao corredor. — Tem internet estável lá — acrescentou, sem motivo aparente.
— Obrigado — Yusuf abriu a porta e saiu.
Olhou ao redor e começou a andar pelo corredor, aumentando o passo gradualmente. Será que Cem não entendia que havia câmeras por todo o hospital? Yusuf percebeu pela primeira vez como podia ser paradoxal passar despercebido. Cem se escondia em um prédio onde todos o viam — e ninguém o notava.
Em sua mente girava apenas um pensamento: “encontrá-lo antes de Evren”. Ele não sabia exatamente o que Bahar queria dizer, mas sentia que agora mais dependia dele do que ele imaginava…
***
— Eu entendo tudo — sussurrou Çagla. — Agora ele está com a família, não está sozinho, e isso é certo, ninguém deve ficar sozinho. E eu preciso ir.
— Mas você está conosco — Bahar a abraçou — você é nossa família, e nós somos sua.
Çagla suspirou, seu rosto quase sem expressão:
— Eu quero tanto a minha — mal conseguiu pronunciar. — Um filho, um homem, alguém para querer correr para casa, por quem — entende, Bahar? Eu estava a um passo disso, e então aquele avião me tirou Tolga, e os seus filhos perderam o pai — ela olhou para as meninas — e agora Parla está com vocês. Você nunca fica sozinha, e eu estou cansada de estar sozinha — admitiu. — Desde que me lembro, sempre estive sozinha.
— Você não vai ficar sozinha — disse Bahar, erguendo-se. — Hoje você vai com as meninas e Nevra para a nossa casa, vai ficar no meu quarto — ela sugeriu. — Amanhã, uau — suspirou — quando a operação acabar, vou tentar chegar logo, depois do bypass, mas você não estará sozinha. Umay, Parla, Nevra, Mert e Leyla — ela sorriu ao se lembrar dos netos.
— Não — Çagla recusou de repente — eu não posso mais usar a sua família, me esconder por trás dela de todos os meus medos, erros e falhas. Não, minha pequena, não posso mais me esconder atrás da sua família. Chega.
— Çagla, querida, eu não posso deixar você voltar sozinha para casa — Bahar não a soltava do abraço.
— Quanto tempo mais você vai fingir, pegando seu neto ou neta nos braços, que não pensa no seu filho com Evren? Vocês poderiam ter tido um bebê igualzinho — Çagla tocou levemente o nariz dela. — Você não fala sobre isso. Evren fica em silêncio. Vocês perderam isso e nem conversaram entre si, não viveram — ela acenou — e depois pode não haver mais momento para isso. Simplesmente não existir, nunca — seus olhos ficaram vermelhos. — Só restarão perguntas para si mesma — por quê, para quê, como — e ninguém jamais responderá. Só vazio e perguntas no silêncio, mas tão altas que rasgam por dentro, despedaçam a alma, e não há como colar, juntar.
— Çagla — foi tudo que Bahar conseguiu dizer.
Ela abraçou sua fiel amiga com força.
— Conversem — Çagla pediu de repente — por favor, conversem um com o outro, mesmo que não seja por vocês, nem um pelo outro — soluçou — por minha causa, por mim, por Tolga. Nós já não temos essa chance, e vocês têm. Não a percam, Bahar. Que ao menos alguém viva aquilo que nós não conseguimos. E Evren…
— Calma — Bahar colocou a mão nos lábios dela — não agora — pediu, olhando para Uraz.
— O quê? — Çagla se virou.
Uraz quase dormia, apoiado no ombro de Siren, que acariciava seus cabelos, piscando com frequência, lutando contra o sono.
— Preciso mandá-los descansar — suspirou Bahar e soltou as mãos, verificando o telefone e guardando-o no bolso — a operação está próxima e eles estão exaustos. Todos serão necessários, todos devem estar prontos, ainda tem esse observador do conselho, mas para quê ele está aqui — deu de ombros, sem entender. — Rengin — lembrou — preciso falar com Rengin, mas antes vou mandar todos para casa.
— Bahar, eu levo as meninas e Nevra — Çagla segurou e apertou sua mão, chamando sua atenção.
— Obrigada — Bahar suspirou aliviada — Yusuf está ocupado, não pode. Obrigada a você.
— Bahar, lembre-se do que eu te pedi — Çagla olhou nos olhos dela.
Bahar baixou a cabeça por um instante e assentiu. Não sabia quando nem como, mas talvez algum dia surgisse o momento para essa conversa com Evren, mas definitivamente não agora. Tudo estava muito confuso e complicado para começar… e por quê agora?
Bahar beijou Umay e Parla. Nevra a abraçou e colocou um copo em suas mãos.
— Beba pelo menos um pouco de chá, você não comeu nada — sussurrou, como se envergonhada de suas palavras.
Bahar assentiu, entendendo que para sua sogra todas essas demonstrações de cuidado eram novidade, mas ela tentava. Nevra, pela primeira vez na vida, tentava demonstrar cuidado do jeito que podia… e estava conseguindo. Algo estava acontecendo com Nevra, mas Bahar ainda não a questionava, dando-lhe tempo para aceitar a morte de Timur. Cada um lidava como podia.
Bahar sacudiu Uraz, e Siren mal conseguiu levantá-lo. Foram para a sala de descanso.
— Bahar, você também descanse — disse Siren, bocejando e balançando a cabeça, lutando contra o sono.
— Está bem, não se preocupe — Bahar acompanhou as crianças, espiou o quarto.
Reha e a mãe dormiam. Ele na cama, a mãe no divã ao lado. Bahar ajeitou o cobertor de Reha, conferiu os dados nos monitores. Se inclinou e beijou a mãe na bochecha, e só então saiu.
Parou perto da porta, e só ao colocar a mão no bolso lembrou-se do que queria fazer. Virou-se imediatamente e seguiu pelo corredor…
***
… Este corredor e a porta do quarto eram muito familiares para ele. Ele passou por ali tantas vezes, esperando por Bahar, logo após o incidente com o vídeo, mas agora Evren não a procurava. Ele estava ali com outro propósito.
Bahar saiu da sala de curativos, deixou-o sozinho, mas de alguma forma lhe deu um novo fôlego. Só ela sabia realizar esses pequenos milagres; sempre, depois de falar com ela, surgiam novos horizontes, e ele conseguia realizar coisas sobre as quais antes sequer pensaria. E se pensasse, não teria coragem.
Evren entendia que outros médicos provavelmente não agiriam assim. Ele não estava procurando pacientes, de forma alguma. Ele apenas queria continuar o que havia começado na sala de cirurgia. Queria que o coração dela batesse, que ela visse sua filha crescer, dar os primeiros passos. Com esse pensamento, bateu na porta e entrou.
Esra estava deitada na cama. Não dormia. Doruk conferia os dados e os registrava no tablet. Fiel assistente de Bahar. Evren quase sorriu. Doruk ainda não percebia que também já era médico, continuava desempenhando funções de assistente. Ele lançou-lhe um olhar torto, os lábios comprimidos numa linha fina. Doruk apertou um botão e deixou o tablet sobre a mesinha.
Evren se aproximou, e Doruk se posicionou diante dele, como se pudesse detê-lo. Poderia? No quarto, o zumbido dos aparelhos era constante, havia tensão e certa fadiga no ar. Esra abriu os olhos imediatamente quando ele chegou mais perto, olhando-o com atenção.
— Olá, sou o professor Evren Yalkyn — disse ela, ouvindo sua voz masculina e calma.
— O quê? — em sua voz se notava apreensão, e as mãos foram imediatamente para a barriga.
— Está tudo bem — Evren levantou a mão — não se preocupe. Você não me conhece, mas eu participei da sua cirurgia.
— Professor — Doruk tentou se colocar à frente dele, mas Evren se aproximou mais da cama.
— Não sei se alguém falou com você sobre o transplante — disse baixinho, olhando ao redor.
Ao ver a cadeira, indicou:
— Posso sentar? — perguntou.
Esra assentiu, sem afastar as mãos da barriga. Evren se acomodou na cadeira. Agora seus olhos estavam no mesmo nível. Ele estava acostumado a conversar com pacientes assim, e para a jovem era mais fácil compreender tudo o que ele queria dizer.
— Seu coração está esgotado — disse calmamente, sem desviar o olhar — e suas palavras imediatamente provocaram uma reação em seu corpo: os monitores apitaram, mostrando sua ansiedade, mas externamente ela se manteve firme.
Evren lançou um olhar rápido: a curva do pulso havia mudado um pouco, mas nada crítico.
— Isso não é novidade para mim, doutor — respondeu ela com voz firme, mas os olhos brilhavam com lágrimas. — Ouço isso desde que nasci, mas, como vê, ainda estou viva. Você não me surpreendeu. Sei que meu coração parou, a doutora Bahar me contou — fez uma pausa, acariciando a barriga — ainda vou dar à luz minha menina. Deixarei a ela uma filha saudável, a doutora Bahar garantiu que minha bebê está bem. Meu filho não conseguiu — soluçou — mas minha filha terá força, e meu coração suportará, me ajudará a levar meu bebê a termo. Ele vai aguentar.
Doruk baixou as mãos sobre o encosto da cama e apertou com força, os nós dos dedos ficaram brancos. Ele não tentou mais impedir Evren; num instante, passou a estar do lado dele. Estava pronto para convencer a jovem a fazer o transplante, porque o milagre realizado por Bahar precisava continuar.
Evren olhou atentamente para os monitores e estendeu a mão; ela permitiu que tocasse seu pulso. Checou o pulso, como se não confiasse totalmente nos aparelhos, e só então continuou.
— Após a parada, a contratilidade do coração está criticamente baixa. Estamos mantendo você medicamente, mas o que queremos — ele fez uma pausa, sem retirar a mão do pulso dela, olhando em seus olhos — se queremos que você não apenas sobreviva até o parto, mas esteja com sua filha depois, precisamos nos preparar para o transplante.
Falou de forma clara, calma, sem pressão. Doruk estava atrás, assentindo silenciosamente.
— Vemos progresso — continuou Evren — mas os recursos do corpo estão no limite. Sua filha sente tudo o que você sente.
Os lábios de Esra tremeram, e Evren apertou sua mão suavemente. Sua outra mão caiu sobre a cama, os dedos agarraram o lençol, mas ela não chorou; continha as lágrimas, concordando com tudo o que ele dizia — tudo o que ela sentia, sua bebê sentia também.
— Dói — finalmente sussurrou — estou com medo — desviou o olhar por um instante, olhando pela janela, sem enxergar a cidade, apenas as estrelas mal visíveis no céu noturno. — Quero ouvir… que ela diga “mamãe”. Quero estar presente quando ela der os primeiros passos — sua voz falhou.
— Então dê a si mesma uma chance — ele não soltou sua mão, continuou apertando suavemente. — Você deu a sua filha, e a si mesma?
Doruk pigarreou atrás dele, como se algo tivesse preso sua garganta, mas Evren nem se virou, continuou:
— Isso não é uma obrigação, é uma oportunidade. Posso colocá-la na lista de espera — fez uma pausa, e ela se voltou para ele, então continuou — estarei ao seu lado se decidir seguir esse caminho. Não posso prometer que um órgão aparecerá rapidamente. Mas se você não estiver na lista, não teremos sequer a chance de salvá-la.
Esra ficou em silêncio, sem desviar o olhar. Tantas coisas giravam em sua cabeça, todas as dificuldades, consequências e riscos. Ninguém ousou quebrar o silêncio. Só ela podia escolher — trilhar esse caminho ou não.
O rangido da porta quebrou o silêncio do quarto, passos se aproximaram, e Serhat parou junto à cama.
— Esra? — sua voz mostrava tensão imediata. — O que está acontecendo?
Evren retirou lentamente a mão e levantou-se da cadeira.
— Só estávamos conversando, professor — respondeu, encontrando seu olhar.
Serhat estremeceu, mas logo se recompôs, colocou as mãos atrás das costas e ficou ereto. Seu olhar estava frio, profissional, mas uma sombra de algo pessoal passou por ele. Algo que não podia ser revelado diante de Esra. Imediatamente escondeu todas as emoções atrás de uma expressão impenetrável.
— Podemos conversar com você? — sua voz tremia levemente.
— Claro — assentiu Evren. — A decisão é sua — olhou para Esra.
— Papai — Esra se levantou levemente na cama, e Doruk correu para segurá-la. — Papai, e se eu puder viver? Não apenas viver, mas com ela, por ela? Não posso tentar? — sua pergunta pairou no ar…
***
O ar na escada estava pesado. Assim que Yusuf fechou a porta, um cheiro de desinfetante lhe atingiu o nariz. Estava claro que a limpeza e a desinfecção haviam sido feitas recentemente, como indicava o aviso na porta. Ele fez uma careta, sem conseguir imaginar como alguém podia passar tanto tempo ali respirando tudo aquilo.
Yusuf se movia com extrema cautela, atento a cada som, parando frequentemente. Aproximou-se lentamente do corrimão e olhou para baixo, depois ergueu a cabeça e encontrou o olhar de Cem por debaixo do boné.
Eles se encararam por alguns segundos, e então Cem correu escada acima, e Yusuf saiu atrás dele. Cem sabia perfeitamente que vinham atrás dele… mas era tarde demais, tudo estava tarde demais. Passaram muito tempo procurando por ele, e por muito tempo haviam se esquecido dele. Ele já enviara tudo o que queria, para onde queria. Um sorriso sinistro voltou a se formar em seus lábios.
Ele subia correndo, pulando dois degraus de cada vez, inalando o ar com avidez. Martelos batiam em suas têmporas, uma dor aguda lhe atingiu o peito, e ele ficou sem fôlego. Quase deixou o laptop cair, e foi nesse instante que Yusuf o alcançou. Agarrou-o pelo cotovelo e, com um movimento brusco, o virou para si.
— Precisamos conversar — disse, firme.
— Por quê? — Cem explodiu, tossindo em seguida.
O nariz de Yusuf ardia e queimava, os olhos lacrimejavam.
— Bahar disse — Yusuf procurava com os olhos uma saída — você vai comigo.
— Nem pensar — Cem segurou a gola da camiseta, amassando o tecido com os dedos.
— Você se intoxicou — constatou Yusuf, pegando-o pelo braço — se continuar fazendo besteira, vai queimar os pulmões, se já não queimou.
Cem hesitou, e Yusuf tomou o laptop de suas mãos. As pernas de Cem tropeçavam, mas Yusuf o conduzia com segurança pelo corredor.
— Para onde está me levando? — Cem, apesar da fraqueza e da respiração difícil, tentava resistir. — Eu não ligo para ninguém! — disse, exasperado.
Yusuf parou em frente ao escritório e empurrou a porta.
— Parece que eles também não. Entre — conduziu Cem para o escritório de Bahar, sentou-o na cadeira e só então fechou a porta. Subiu nas pontas dos pés e colocou o laptop sobre o armário.
— Todos eles acham que podem me pisar — tentou se levantar. — Me devolve o laptop, devolve — a voz era fraca, mas ainda havia luta. — Você acha que é fácil pra mim? Sabe como é ser um nada? Nem mesmo um reserva, só uma sombra?
Yusuf encheu um copo de água e o ofereceu a Cem:
— Beba — disse, curto, e abriu a janela, deixando entrar o ar da noite. — E respire!
Cem se inclinou sobre o copo e bebeu de uma vez. O peito subia e descia descontrolado, os olhos ficaram vermelhos, suor apareceu na testa, e o rosto empalideceu.
— O quê? — Cem tentou se levantar, mas as pernas tremiam, e ele voltou a sentar.
Yusuf encheu novamente seu copo a partir do jarro e se afastou até a porta:
— Agora você está com ela, não é? — tirou o boné e jogou-o no chão. — Ela era minha! — riu com raiva.
Yusuf encostou-se à porta. Teria prazer em bater naquele rapaz convencido, que nem percebia o que estava fazendo… e ele claramente tinha feito… estava no hospital para ter certeza de que tudo tinha dado certo.
— Já a despediram? Hein? Despediram? — respirava pesadamente.
O rosto de Yusuf se transformou — então Cem havia feito algo a Bahar. Ele a machucou? Muitas coisas passavam pela cabeça, mas em voz alta disse apenas uma frase:
— Você é um idiota!
— E eu não me arrependo — os olhos de Cem ardiam com raiva — ela mereceu, mereceu tudo, especialmente por abandonar meu irmão Evren. Abandonou-o na mesa de casamento. Saiu de lá, do próprio casamento, e agora vai sair deste hospital! — já não se controlava, quase gritava, mas a voz estava fraca, rouca… e ele tossiu, curvando-se. — Eu queria que ela sofresse… ao menos um pouco, como eu.
— Sinto muito por você, Cem. De verdade. Você queria ser notado — então, agora foi.
Yusuf fechou os olhos por um instante — agora algo começava a fazer sentido — eles queriam se casar, por isso ele passava a noite com ela ou perto dela… ou talvez não. Não, ele ainda não entendia nada. Não se casaram, mas ao mesmo tempo pareciam estar juntos, mas não juntos… não, ele se recusava a compreender… só precisava esperar por Bahar.
Bahar. Lembrando-se dela, imediatamente pegou o celular e enviou uma mensagem curta. Depois de enviar, olhou novamente para Cem, que só causava repulsa, vontade de se lavar…
***
— Trataram a escada? Bloquearam o acesso? — Rengin perguntava a Ahu, apesar da hora avançada, ainda estavam no trabalho.
— Sim, tudo foi feito conforme o plano, colocamos a fita, afixamos os avisos — respondeu sua fiel assistente. — Descobri quem burlou a proteção — acrescentou, já em um tom mais baixo.
Rengin quase se sentou à mesa, mas parou e a olhou:
— Quem? — perguntou apenas com os lábios.
— Rengin — Bahar apareceu na porta do escritório.
— Cem vazou o vídeo da sala de cirurgia, nos incriminando, ele… — Ahu parou e se virou para a porta.
— Que vídeo? — Bahar fechou a porta atrás de si. — Mais um?
— Mais um? — Rengin se tensionou. — O que está acontecendo, afinal?
— Teremos que prestar contas — continuou Ahu, olhando para Bahar — sobre por que nossa proteção é tão fraca.
Bahar se aproximou.
— Que vídeo é esse de que você fala? — perguntou Rengin. — Ahu, algo que eu não saiba? — olhou para ela.
— O vídeo da sala de cirurgia que caiu nas redes sociais, e o conselho recebeu um relatório do observador — disparou Ahu — e o vídeo do grupo geral, não sei de mais nada. Esse observador pode escrever um relatório que nos impeça de abrir o setor de transplantes.
Bahar suspirou mentalmente e sentou-se no braço do sofá. Pressionou a mão contra a testa, comparando todos os dados que já possuía.
— Esse Adem Yurdakul é um tipo muito desagradável — Bahar comentou. — Cem aparentemente quis me prejudicar — ergueu o olhar para Rengin — mas acabou atingindo Evren.
— Você acha que ele está se vingando de você dessa forma? — Rengin não entendia.
Ahu se inclinou levemente, ouvindo atentamente, sem perder uma palavra.
— Acho que ele simplesmente não sabe o que está fazendo, e temo que possa ser tarde demais — havia cansaço na voz de Bahar.
— Já é tarde. Ahu, vai — descanse um pouco — Rengin sentou-se no sofá ao lado de Bahar. — Tudo bem, depois — acenou.
Ahu se endireitou. Virou-se lentamente e foi devagar até a porta. Continuava escutando, mas nem Rengin nem Bahar disseram mais nada até que a porta se fechou atrás de Ahu.
— Eles vão me demitir, e Evren também — Rengin confessou. — A brincadeira de Cem pode custar a reputação de Evren.
Bahar permaneceu em silêncio. O vídeo do beijo de Naz, feito por Cem, agora lhe parecia infantil perto do que ele havia feito inicialmente.
— Ele ainda está no hospital, pedi a Yusuf que o encontrasse — sussurrou Bahar, sentindo que não tinha forças nem para se levantar.
As ações de Cem, sorrateiras, pelas costas, desarmavam-na literalmente. Ela podia enfrentar inimigos externos, resistir ao sistema, mas quando alguém próximo a golpeava pelas costas, isso a derrubava.
— E agora? — Rengin olhou para Bahar.
CAPÍTULO 3. PARTE 5
Bahar permaneceu em silêncio, sem saber o que fazer a seguir. Como interromper toda aquela sequência de acontecimentos que Cem havia desencadeado? Com o vídeo de Naz, ela ainda poderia de alguma forma estabelecer um diálogo com ele, mas agora… mesmo assim, não desistia dele, simplesmente não podia.
— Ele se perdeu — sussurrou, envolvendo o rosto nas mãos. — É como uma criança pequena, buscando reconhecimento, e, ao não recebê-lo, comete erros.
— Temos a cirurgia de transplante duplo — lembrou Rengin, levantando-se — e você diz que ele se perdeu? O que mais ele pode fazer?
Bahar se levantou lentamente e assentiu. Nem mesmo percebeu a vibração no bolso. Leve, imperceptível, como o toque da asa de uma borboleta, o som da mensagem não penetrou em sua consciência.
— Podemos realizar esta cirurgia, aconteça o que acontecer — disse Bahar, enfiando as mãos nos bolsos.
— E depois? — Rengin permaneceu de pé, à sua frente.
— Lutar — suspirou. — Provar que somos bons médicos.
— Bahar, Cem nos colocou em uma posição ruim, mostrou a todos como violamos os protocolos — lembrou ela, dirigindo-se à porta —. Na sua sala de cirurgia havia um estranho com roupas de rua, eu tenho que dizer que o coração estava aberto?
— Às vezes, é preciso quebrar protocolos para salvar vidas — respondeu Bahar, seguindo-a.
— Você nem se arrepende? — escapou de Rengin.
— Arrepender do quê? De Evren ter salvado Esra? A filha do nosso novo cirurgião cardíaco? — Bahar retrucou. — Não, não me arrependo, e quebraria esses protocolos novamente.
— Vocês vão me enlouquecer — Rengin ficou irritada. — E depois, no tribunal, vou ser eu quem responde por todos vocês?
Seguiam pelo corredor, sem perceber exatamente para onde, apenas caminhando.
— Nós salvamos vidas, você responde — Bahar observou com racionalidade. — Este é um hospital, somos médicos, e nossa obrigação é salvar vidas.
— E ajudar uns aos outros, nada? — Rengin lançou um olhar de canto para ela.
— Primeiro precisamos resolver a questão da segurança — lembrou Bahar. — Se Cem conseguiu, qualquer outro programador conseguirá também.
— Hacker — corrigiu Rengin. — Ele é um hacker! E não foi por causa dele que Evren foi ferido? E agora ele mesmo causou o golpe?
Bahar empalideceu. Tudo era exatamente assim; da última vez, as ações de Cem levaram à tragédia, e agora tudo se repetia, só que com apostas ainda maiores.
— Evren ainda não sabe — Bahar tropeçou, mas se manteve firme —. Vamos conseguir…
***
— Ela aguentou — uma voz dura de Serhat chegou até eles. — O coração de Esra funcionava abaixo do normal desde que nasceu, mas ela resistiu. Nós nos adaptamos. Suporte, ajustes na terapia — conseguimos lidar! Você ao menos imagina por um instante como é isso?
— Ela sobrevive — com soro, medicamentos, vivendo em constante medo. Você sabe disso, Serhat. Isso não é vida — Evren estava diante dele. — É esperar o fim!
Rengin e Bahar começaram a andar mais rápido, ouvindo as vozes que chegavam até elas. Rengin olhava para trás, temendo ver o observador do conselho. Só faltava ele testemunhar o conflito entre dois cirurgiões principais; então a operação de Aliya estaria em sério risco.
— Qualquer transplante é uma loteria — Serhat avançava. — E você sabe disso, Evren! Rejeição, complicações, infecções, UTI de novo e de novo…
— Não digo que será fácil — Evren respondeu com calma. — Mas vejo: este coração esgotou todos os seus recursos! — ele quase tocou o peito dele com o dedo. — Eu o segurei em minhas mãos — sua voz firme mostrava que falava com conhecimento. — Você é pai, e está ganhando tempo, eu entendo — assentiu.
— Você não entende — gritou Serhat — porque você mesmo recusou se tornar pai!
— Porque ela disse que foi você quem foi pai daquela criança! — a voz de Evren aumentou. — Ela disse que era você, que você é o pai do filho dela!
Serhat empalideceu. O peito subia e descia com dificuldade, suor surgia na testa.
— Mas me disseram que era você — não acreditava em Evren, mas logo se afastou, a realidade era mais importante que o passado. — A criança — um sorriso amargo distorceu seus lábios — ela está grávida — ele agarrou a cabeça, se virando. — Sempre fui contra isso, contra a gravidez dela. Pedi para interromper a gravidez, — aproximou-se de Evren — como você pediu a ela, lembra? E eu pedi a ela. Pedimos juntos. Tudo se repete, só que agora não é apenas uma garota com quem nos divertimos, é minha filha, Evren! Minha filha!
— Todos cometemos erros, você e eu. O passado não pode ser revertido, não pode ser corrigido — a voz de Evren ficou mais baixa. — Eu não teria interferido se não achasse que ela tem uma chance. Uma chance real! E você também tem! Chance de vida ao lado da filha, — segurou seus ombros, sacudiu levemente tentando alcançá-lo — ao lado, Serhat, ao lado, não apenas em fotografias!
— Evren, devagar — Bahar tentou tocar sua mão, mas ele não a via nem ouvia, e sua mão escorregou do braço dele.
— Serhat — Rengin ainda olhava por sobre o ombro — acalme-se.
— Você fala como se a conhecesse melhor que eu. Como se o coração fosse apenas uma bomba. Mas é minha filha! — Serhat não notou Rengin. — Imunossupressão nesse estado? Pode matar ambas! Mãe e filho!
— Às vezes, para salvar alguém, é preciso deixar de ser apenas pai. É preciso ser médico — era impossível parar Evren. — Serhat, seja médico!
— Devagar — implorou Rengin, em todos os cantos via Adem Yurdakul com seu olhar frio.
— Acalme-se — Bahar puxou Evren para si.
Os homens não reagiam de jeito nenhum, como se não as vissem nem ouvissem.
— Vi muitas vezes pacientes se perderem. Mudarem — disse ele amargamente, sem esconder a dor. — Como se com o coração velho se fosse a memória. Tenho medo de perdê-la — mesmo que sobreviva. Não será mais minha filha!
— Você tem medo não do transplante — Evren entendeu — tem medo de que ela se torne outra. Mas não pode decidir por ela.
— Como nós dois decidimos por ela? — lembrou Serhat. — Você e eu decidimos, recusamos, mandamos interromper a gravidez! Nos afastamos dela! Já pensou se ela a interrompeu ou deu à luz? Você não tem filhos? Tem certeza disso, Evren? Tem certeza de que ela não teve o filho? Seu ou meu?
Bahar empalideceu. Tudo dentro dela se contraiu. Foi como um golpe do passado. Uma criança para dois, existia ou não? Do que estavam falando? Uma garota, aborto…
Ela não podia deixar de pensar em seu próprio filho, em ter interrompido a gravidez. E agora Serhat falava do passado de Evren, de eventos que não se encaixavam no Evren que ela conhecia. Era como se o passado dele os alcançasse de repente.
— Serhat — Bahar tocou sua mão — por favor, pare, não precisamos de escândalos agora. Evren — virou-se para ele — não agora, vocês vão conversar e decidir sobre Esra depois. Todos precisamos descansar. Estamos sob observação, ouça-me! — sua voz subiu.
Evren viu Bahar tocar o braço de Serhat, tocar nele. Dentro dele algo ferveu; uma hora antes Serhat o acusava de todos os pecados, mas a culpa era deles dois. Ele nem sabia se Bahar ouvira tudo e entendia. Irritava-o apenas que ela os tocasse. Uma onda percorreu seu corpo. Ele não permitiria, jamais, que Serhat tocasse Bahar. Não. Nunca!
— Você acha que pode apenas marcar um coração na fila — a voz de Serhat ficou mais baixa, mas penetrante — E se o coração não servir? — a pergunta fez Evren desviar o olhar dos dedos de Bahar sobre o braço de Serhat para os olhos dele — E se ela não sobreviver? Você não segurou a mão dela quando ela estava sufocando!
— Serhat — Bahar estava pronta para abraçá-lo, apenas para acalmá-lo.
— Segurei outros. Enterrei pacientes que não entraram na lista porque alguém hesitou. Porque o medo… ou o passado atrapalhou os médicos — Evren continuava, agora mais baixo, sem gritar.
De repente percebeu que não tinha do que se envergonhar. Todos ali tinham um passado. Rengin, Bahar, Serhat… e ele mesmo. Ele sabia do passado deles, agora eles conheciam o dele… e estava bem. Que saibam, talvez seja certo.
— Você simplesmente não está pronto para deixar ir a Esra que conhecia antes — continuou Evren — e ela fugiu para Bahar. Sim. Eu errei — admitiu — assim como você. Mas agora a aposta é maior: a vida dela, Serhat. Não sua culpa. Nem minha. Aquela situação nos ensinou muito: você criou uma família, eu fugi — admitiu. — Estou falando da chance dela! Chance para ela e sua filha, que pode crescer com você ou você ficará apenas com a neta. Então o que escolherá, Serhat?
— Evren?! — Bahar estremeceu, pronta para abraçá-lo, apenas para acalmá-lo, nunca, nunca ouvira ele falar com tanta dor.
— Você escolhe de novo! Faz os outros escolherem! — disse Serhat, com o coração apertado. — Mas isso não te torna certo. Você errou — concordou — e agora não erra? Não pode errar de novo?
Evren cerrou os dentes. Ele errou muitas vezes, sim, e escolheu pelos outros… e, principalmente, por eles, por Bahar… e nisso estava seu erro. Agora ele admitia, mas por que tudo era tão difícil de perceber? Por que, no momento em que ela se levantou da mesa, ele só se lamentava e a culpava? Não tinha respostas.
Bahar e Rengin se colocaram entre eles ao mesmo tempo, separando-os cuidadosamente. Bahar ficou à frente de Serhat, Rengin à frente de Evren. Juntas, cuidadosamente, estabeleceram a distância.
— Precisamos respirar — sussurrou Bahar — por favor, Serhat, vamos.
— Precisamos nos acalmar, Evren — repetiu Rengin.
Bahar segurou o braço de Serhat, e juntas seguiram para o terraço. Rengin conduziu Evren para seu escritório. Os homens andavam ao lado delas. Não eram conduzidos, mas, após liberar a tensão, estabeleceram temporariamente limites. Não havia paz, nem acordo, mas um estado em que era possível trabalhar… com apostas diferentes, tanto pessoais quanto profissionais.
O avião se aproximava a cada minuto, trazendo a jovem moribunda cuja vida eles haviam prometido salvar — se conseguissem ser equipe a tempo…
***
…eles nem de longe pareciam uma equipe. Cada um por si. Cada um em seus próprios pensamentos, suas ambições, e o tempo até a operação era catastróficamente curto.
Bahár levou Serhat ao terraço e imediatamente soltou sua mão, diminuindo um pouco o passo. Ela caminhava um pouco atrás dele. Serhat se dirigiu ao parapeito. Ali, parou e apoiou as mãos na borda. Ele ficou de olhos fechados, tentando normalizar a respiração, os cantos de seu jaleco eram levemente levantados pela brisa. Ela se aproximou dele e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Serhat, você sabe que a contratilidade miocárdica está quase no limite — disse Bahár em voz baixa, virando-se. — Estamos mantendo-a com medicação.
Ela passou a tratá-lo por “tu”, e isso aconteceu de forma natural. Encostou as costas no parapeito. O olhar dele se perdeu no horizonte, enquanto ela observava as janelas do hospital. Em cada uma, havia um paciente com sua própria história, seus problemas, seus medos. Eles podiam curar o corpo, mas a alma era mais difícil de tratar, pois muitos tinham sido feridos, maltratados. Bahár suspirou. Serhat e Evren haviam acabado de revelar suas histórias, mas ela ainda não queria pensar sobre o que ouviu. Ela apenas sabia que Evren tinha um passado além de sua infância difícil.
— Isso não é para sempre, quer dizer — respondeu Serhat.
Sua respiração quase se normalizou. Ele limpou o suor da testa e até se endireitou, colocando as mãos nos bolsos, agora apenas ficava de pé. Inabalável, centrado, parecia pronto para aceitar tudo o que ela dissesse. Mas qual máscara ele estava usando dessa vez: pai, médico, interlocutor, conhecido, colega?
— Tu mesmo sabes e compreendes tudo — continuou Bahár sobre o tema de Evren, mas parou, dando-lhe tempo para absorver, aguardou um pouco. — Para que o feto seja viável, são necessárias pelo menos seis semanas.
— E o que tu propões? — ele estremeceu e se virou para ela.
Bahár permaneceu em silêncio, observando como ele se acomodava, copiando involuntariamente sua postura, e seu olhar começou a percorrer as janelas.
— Colocar Esra na lista e iniciar a preparação — Bahár virou a cabeça para ele.
Ele empalideceu, a respiração voltou a ficar rápida, interrompida, superficial:
— Eu não consigo — sussurrou.
— Pergunta à Esra o que ela quer — sua voz transmitia calma, mas ele não conseguia controlar a respiração. — A decisão é dela, Serhat, não tua — continuou Bahár, cruzando os braços sobre o peito — vou prevenir tuas perguntas — ela olhou em seus olhos. — Esra veio até mim, ela conhecia minha história, todos sabem disso, inclusive tu. Fiz duas transplantes. Passei por tudo sozinha. Tu não podes afirmar que eu não sei. Eu sei, passei pelo rejeitamento e pela segunda operação. Evren realizou ambas.
— Cometeu um erro? — escapou dos lábios de Serhat.
As sobrancelhas de Bahár se levantaram:
— Ele é um bom médico, e tu também sabes disso! Meu corpo não aceitou o primeiro órgão, e as circunstâncias da vida não favoreceram a estabilidade — respondeu ela calmamente. — E tu, Serhat, não cometeste erros? Por que acusas Evren? Achas que tens direito a isso? Quem te deu esse direito? Quem és tu para julgar?
Serhat encolheu os ombros e os abaixou. Ela atingia-o com palavras como um soco no estômago.
— Por que o defendes tanto? Quem ele é para ti? — agora ele se irritou. — O que vos liga?
Bahár quase sorriu e se inclinou levemente para ele:
— E tu ainda não sabes? — perguntou. — Não fizeste apostas?
— Apostas? — surpreendeu-se ele. — Que tipo? — agora franziu a testa.
Bahár balançou a cabeça e voltou-se para as janelas do hospital:
— Com quem Evren ficará — confessou ela. — Todos estão discutindo isso. Fazem apostas. Engraçado, não?
— Não entendi — Serhat coçou a têmpora.
— Evren praticamente se tornou meu marido — confessou Bahár — mas eu fiquei com medo. Tive medo de me casar de novo. Cometi um erro, levei até o casamento. Projetei a experiência anterior de casamento para o futuro com Evren, levantei-me da mesa, o deixei. Não consegui.
Serhat ainda franziu a testa, observando seu perfil. Depois riu baixinho:
— Evren não aprende nada — de repente resumiu. — Fez a escolha por ti? — propôs ele.
Bahár estremeceu, virou-se abruptamente para ele:
— Dá vontade de dar um tapa — disse calmamente, embora por dentro tudo estivesse fervendo. — Mas Evren disse para poupar as mãos — balançou a cabeça. — E ele tem razão. Precisaremos das mãos na operação. E agora todos nós precisamos descansar. Tens tempo para pensar, mas quem decide será Esra — sua voz tornou-se firme. — Apenas ela. Nesta situação, tu não és médico — és o pai dela. E como pais, não escolhemos pelos filhos. Aprendemos a aceitar suas escolhas.
Seu olhar penetrante fez-o estremecer.
— Desculpa — de repente levantou as mãos em sinal de paz. — Tu foste sincera, e eu comecei a ser rude.
— Tu não és minha pessoa, Serhat — ela deu de ombros e foi embora. — É muito simples. Tu não podes me ferir com palavras, apenas me irritar, nada mais.
— E o que eu devo fazer agora para me tornar? — ele apressou-se atrás dela. — Bahár? — de repente percebeu que precisava dela, como pessoa, amiga, colega. — Bahár, não quero perder tua confiança.
Bahár caminhava com as mãos nos bolsos à frente dele:
— Não precisas fazer nada, precisa-se merecer, e tu estás muito longe disso — ela abriu a porta. — Sim, tu és médico de Reha — lembrou — mas esse é teu trabalho — dando de ombros, virou-se, pegou o celular, parou por um instante, e depois praticamente correu, assim que leu a mensagem.
Serhat a observava com admiração. Aquela mulher fascinava. Podia ser doce, rígida, podia ser diferente… simplesmente era incrível… sua voz ainda ecoava em sua mente — não dor, não decepção. Verdade… e ele a ouvia muito raramente…
***
— Isso é raro para o nosso hospital, Evren, concentra-te! — Rengin deixou-o passar à frente, entrou atrás dele e bateu a porta do seu gabinete.
Ele entrou mais fundo no gabinete e parou. Toda a sua energia ele tinha gastado no corredor, na conversa com Serhat, e ainda… virou-se e olhou para o lado… Bahar tinha ido com ele. Ela tinha ido acalmar Serhat, ela não o escolheu. Foi com outro. Agora, em algum lugar ali, talvez segurasse a mão dele. Evren estremeceu. Sua imaginação inflamável desenhava uma cena após a outra. Ao chegar aos abraços, ele inconscientemente fechou os punhos e cerrou os dentes.
— Evren, — Rengin estava prestes a estalar os dedos à frente dele só para chamar sua atenção, — qualquer falha — e podemos perder não apenas a paciente, mas também a licença de transplante! Sem departamento, sem nada! Nenhuma pesquisa, nada! Ficarás sem trabalho!
Ele estremeceu e lentamente virou-se para ela:
— Esra também é importante, — Evren engoliu em seco, tentando não pensar no que Bahar poderia estar fazendo agora, perto de Serhat.
Ele ainda estava franzido, respirava com dificuldade, como se não conseguisse encher os pulmões por completo. Mas Bahar não escolheria Serhat… não escolheria… sim, ela acreditou nele, que aquele beijo foi apenas uma provocação… mas ela estava livre, Serhat também… Evren sentiu-se mal e desabotoou alguns botões da camisa, como se isso pudesse ajudá-lo a respirar.
Rengin, sem notar o estado dele, aproximou-se da mesa e pegou o tablet. Ligando-o, encontrou imediatamente a aba necessária e examinou os dados.
— Esra ainda tem tempo, — constatou ela, colocando o tablet sobre a mesa. — Nós a estabilizamos, está em compensação medicamentosa. Por enquanto — está estável, — suspirou.
Evren massageou o pescoço, tentando aliviar a tensão, mas seus olhos continuavam voltados para a janela, como se pudesse ver o terraço. Eles tinham ido para o terraço? Toda a cor saiu de seu rosto. Ele já os via lá, será que de novo? Sentiu todo o ar sair de seus pulmões. Como se no gabinete de Rengin tivesse se formado um vácuo, e ele não conseguisse respirar — Bahar e Serhat no terraço. Ela podia fazer tudo o que quisesse… afinal, era exatamente sobre isso que Rengin e Çagla o tinham alertado. Só agora ele começou a entender — sobre o que exatamente falavam.
— Você entende que isso é um precedente, — Rengin virou-se para ele. — Não vamos apenas tratar Alya, devemos provar que o hospital é capaz de lidar com casos assim! Evren, — ela finalmente estalou os dedos, mas não diante do rosto dele, ficando à distância. — Se a operação de Alya falhar, Esra não terá entrada — porque não haverá departamento! Ouça-me!
— Quero colocá-la na lista, — conseguiu balbuciar, virando-se novamente para a janela.
— Quer colocá-la na lista, — Rengin exalou aliviada, ao menos ele começava a participar da conversa.
Sim, ele não era simples, ainda mais difícil de lidar… como Bahar conseguiu contato com ele — isso ultrapassava sua compreensão, e nem precisava saber disso. O que mais lhe interessava era que ele era um bom médico.
— Eu entendo você, — concordou, olhando-o atentamente, — tem certeza de que agora age como médico, e não como alguém que deseja… consertar algo?
Evren congelou por um momento, como se tivesse petrificado. Ela permaneceu em silêncio, deixando-o absorver o que disse. Depois, colocou as mãos nos bolsos e voltou-se para ela. Agora, ela via à sua frente um médico. Ao tocar em um assunto pessoal, ele fechava-se instantaneamente, e assim era mais fácil se comunicar, ele era apenas um médico… um bom médico.
— Percebeu? — ela se encostou na mesa e cruzou os braços. — Ambas as pacientes — mulheres jovens, ambas com patologia cardíaca, ambas à beira do limite.
Evren franziu a testa, mas ao menos agora a ouvia.
— Uma estará em breve na mesa de cirurgia, a outra ainda está decidindo, — ela diminuiu um pouco o tom e reduziu a pressão.
Rengin ainda pensava se deveria falar sobre Cem agora… e percebeu que não, precisava reunir Evren e focá-lo na operação. Essa era sua prioridade como administradora.
Ele apenas ficava ali ouvindo… ao menos agora ouvia, e ela continuou.
— Estou aqui, não para tratar, estou aqui para que não fechem o hospital e para que todos tenhamos trabalho, — disse com tom calmo. — Podem discutir entre si, gritar, lembrar do passado — é direito de vocês, vocês se permitem muito, — ela abriu os braços e depois apontou para a mesa e o sofá. — Depois encontro-me aqui com o observador e devo explicar por que o seu conflito não destruirá o hospital, por que podemos realizar essa operação, — respirou fundo e continuou. — Tenho medo, Evren, — admitiu. — Não podemos permitir falhas. Equilíbrio delicado demais, olhos observando demais.
— Não vou falhar nesta operação! — Evren finalmente começou a responder. — Se o conselho enviou esse observador atrás de uma sensação, ele terá — só não a que espera! — queria sorrir, mas não podia, estava furioso com tudo, com a forma como o pressionavam, mas ele mesmo escolheu esse caminho e estava pronto para seguir. — Minhas mãos estão no sangue! — acenou Evren, — mas estão limpas! Você me pede para ser médico e depois — parar de ser humano. Isso não funciona, Rengin! Já perdi pacientes, sei o que é enterrar uma chance, — tropeçou nas palavras, ele mesmo enterrou uma chance na vida quando o medo dela foi tomado como recusa. Ele balançou a cabeça, juntando os pensamentos. — Você pede perfeição para o relatório, mas eu escolho ser real — para aqueles cujos corações estão em minhas mãos!
— Se você perder o controle durante a operação, não será uma falha, — suspirou Rengin, balançando a cabeça, — será o fim e o colapso de tudo.
— Não vou perder o controle, mas ela pode morrer, — ele silenciou, ponderando o que diria, e então continuou. — Isso te deixa mais tranquila?
Rengin empalideceu, sim, eles também consideraram essa possibilidade. Significava que tudo poderia não sair como planejado, que o curso da operação poderia mudar completamente. Ela ficou em silêncio, pois agora, com o observador no hospital, não podiam errar. Não podiam. Ela permaneceu em silêncio, e então Evren continuou:
— Você tenta me tornar seguro, mas um médico seguro salva o protocolo, — lembrou ele, — não a pessoa. Não vou falhar nesta operação, — repetiu. — Mas não permitirei que o medo nos paralise antes do primeiro corte por causa de algum observador.
— Adem Yurdakul, — sussurrou Rengin, chamando-o pelo nome, tornando-o real e não apenas um fantasma vagando pelos corredores do hospital. — Ele foi enviado pelo conselho. Estará na sala de cirurgia, não me decepcione, Evren.
— Yurdakul? — Evren pareceu estremecer. — Não, — sentou-se no braço do sofá, como se suas pernas não o sustentassem. — Está muito pior do que eu pensava.
— Você o conhece, — ela não conseguiu esconder a preocupação.
— Ele não é apenas um observador, — a voz de Evren tremia. — A esposa dele morreu na minha mesa. Ele quer terminar o que começou. — Adem Yurdakul veio buscar minha alma…