Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 2. PARTE 1

…era como se ele tivesse arrancado todo o ar do quarto com uma única frase… ou melhor, com uma única palavra – “vou voar”.
Bahar levou a mão à garganta; abria a boca, mas nenhum som saía. Seu coração batia alto, como se tivesse subido até a garganta, e o zumbido nos ouvidos a deixava praticamente surda.
— Bahar — Evren tentou segurar-lhe as mãos; assustado com o ataque de pânico dela, procurou abraçá-la, mas sem força, com cuidado, temendo assustá-la ainda mais.
Ela arfava, tentando puxar o ar, mas o ar não vinha. O suor brotou em sua testa, seu corpo tremia, e ela gritou sem som algum. Olhava para ele e, ao mesmo tempo, parecia não vê-lo.
— Bahar, Bahar, respira — ele conseguiu segurar-lhe as mãos, apertando-as de leve, e puxou-a suavemente para si. — Bahar, estou aqui, estou com você, está me ouvindo? Bahar… — ele a sacudiu com delicadeza, tentando capturar o olhar dela.
Evren segurou seu rosto com as duas mãos e aproximou-se ainda mais:
— Bahar — ele suspirou contra os lábios dela e encostou-se neles, soprando ar para dentro de sua boca entreaberta. — Bahar, respira — inspirou de novo, beijando-a.
Ela, como uma marionete em suas mãos, balançava de um lado para o outro, empurrando o peito dele com as mãos, sem vê-lo nem ouvi-lo.
— Respira, Bahar, respira — ele insistiu, soprando-lhe ar com um beijo. — Bahar, eu estou vivo, está ouvindo? Vivo!
— Não — murmurou ela com a voz rouca contra seus lábios. — Não… — agarrou-se aos ombros dele, fitando-lhe os olhos. — Não, Evren, não vá, não vá, eu imploro… não entre nesse avião, ele vai cair, Evren.
— Bahar… — ele encontrou o pulso dela e levou a mão dela ao próprio peito. — Está sentindo? Percebe? Eu estou vivo, vivo, Bahar — fez com que ela deslizasse a mão por baixo da camisa, para tocar sua pele, para que sentisse o batimento de seu coração.
Ela balançava a cabeça, recusando-se a acreditar.
— Eu estou vivo, Bahar, vivo — disse ele, com ternura nos olhos. — Calma, respira… inspira, expira — demonstrava o gesto, como se ela tivesse esquecido como se faz. — Assim… — inspirou e expirou, enquanto ela abria a boca sem som, engolindo ar como um peixe lançado na praia.
— Evren… — finalmente ela recuperou o fôlego, mas o coração ainda disparava como se tivesse corrido uma prova. — Eu não exijo mais nada… se quiser, trabalhe no hospital, se quiser, eu peço demissão… só não entre nesse avião — seu peito subia e descia pesadamente. — Não entre nesse avião — implorava, tocando-lhe o rosto com a mão trêmula.
Ainda lhe custava respirar; seus lábios tremiam, as palavras saíam com esforço, mas ela tentava formular o que sentia.
— Exija, Bahar — escapou, de repente, dos lábios dele. — Exija!
Ela pareceu não ouvir. Continuou a fitar seus olhos, levantou a mão e tocou seus cabelos, roçando-os com a ponta dos dedos.
— Eu sei que você já decidiu… — sussurrou ela, ainda ofegante. — Eu entendo, eu aceito… — inclinou-se para mais perto. — Que seja esta noite — disse de repente e o beijou por iniciativa própria.
Ela o beijava com uma ânsia quase desesperada, como se não quisesse soltá-lo, sem saber o que viria no dia seguinte. Vou voar ecoava em suas têmporas como marteladas. Ela não podia segurá-lo, apenas podia estar com ele, se ele permitisse… se ele mesmo quisesse. Queria sentir-se viva, precisava ter certeza de que ele também estava vivo.
Bahar afastou-se um pouco, encostando o rosto no dele. Abraçou-o com força, mas não conseguiu conter o tremor que percorria seu corpo.
— Não morra como Timur… — sussurrou, e uma nova onda de calafrios a percorreu.
— Eu estou vivo, estou aqui… — ele afundou o rosto em seus cabelos, percebendo que outra crise estava se aproximando.
— Que nós dois estejamos vivos — murmurou Bahar, roçando os lábios em sua face. — Quero estar viva, Evren.
Ele buscou novamente sua boca, permitindo que as mãos dela o apertassem contra si. Puxou-a mais para perto, deixando que a mão dela se infiltrasse sob o roupão, descobrindo que ela não usava nada por baixo. Cabelos úmidos… ela tinha acabado de sair do banho, percebeu de imediato, e algo nele se revirou por dentro — quantas vezes haviam tomado banho juntos para, depois, tomar café na cozinha? Ele murmurou algo contra os lábios dela, erguendo-a nos braços.
Era como se tivessem voltado a ser os mesmos Bahar e Evren de antes. Ele já não lembrava quem se levantou primeiro, quem tocou a mão do outro, quem puxou quem da cozinha. Haviam esquecido que não estavam sozinhos naquela casa. Não conseguiam mais falar, não conseguiam parar. Precisavam sentir um ao outro, e nem perceberam como chegaram ao quarto dela, subindo as escadas. Só quando ela girou a chave na fechadura, Evren soltou as mãos e desamarrou o cinto do roupão, deixando-o deslizar pelos ombros dela.
Ela não ficou atrás — puxou a camisa dele por baixo da calça, arrancando-a pela cabeça, sem querer perder tempo com botões.
— Evren… — pressionou-se contra seu corpo nu.
— Bahar… — ele a conduziu para a cama, acariciando-a sem parar.
Beijou-lhe o pescoço, no ponto onde antes sentia que o pulso dela batia só para ele. Ela estremeceu ao reconhecer o toque — aquele beijo. Como se não tivesse havido separação alguma. Colava-se a ele como se quisesse guardar o cheiro, o sabor, o toque… tudo o que pudesse manter na memória.
Ele queria envolvê-la inteira; tinha estado sem ela por tanto tempo que lhe parecera uma eternidade. As respirações se misturavam, reencontravam-se como se nada mais importasse. Cada gesto era ao mesmo tempo familiar e novo, como se a estivesse descobrindo outra vez. E a si mesmo — ao lado dela.
Não havia mais palavras. Não havia mais o que explicar. Apenas respiravam… sentindo-se vivos de novo.
***
…fazia muito tempo que ele não se sentia tão vivo. Estava deitado ao lado dela, tentando não se mexer, ainda sentindo os dedos dela roçarem sua pele. Ela não o segurava; apenas dormia profundamente, talvez pela primeira vez em muitas noites, finalmente encontrando um pouco de paz. Não pediu nada — apenas esteve ali. Viva. Real.
Evren não fechou os olhos. Ficou olhando para ela. Em silêncio. Longamente… como se ainda não acreditasse que ela estava ali, ao seu lado. Sentia uma vontade enorme de voltar a beijá-la, mas se conteve, permitindo que ela dormisse.
Mesmo assim, sua mão se moveu sozinha; os dedos tocaram seus cabelos, afastando uma mecha do rosto dela. A respiração calma dela quase o embalou. Movimentou-se de leve, temendo ceder ao impulso de buscá-la de novo, e ela precisava descansar. Vestiu-se devagar, sempre lançando um último olhar em sua direção. Abaixou-se lentamente. Encostou os lábios em sua testa, prendeu a respiração, como se quisesse guardar para sempre aquele cheiro, aquele calor, aquele silêncio do quarto. Endireitou-se com relutância e ajeitou o cobertor sobre ela.
Já na porta, olhou para trás, ficou parado por um momento… e saiu, fechando a porta com cuidado. Desceu as escadas lentamente. Seu olhar vago percorreu a sala de estar — nem percebeu que o rapaz já estava acordado, observando-o. Parou por um instante na entrada da cozinha e só então seguiu até a porta de saída… e foi embora.
***
Bahar despertava lentamente dos braços do sono. Primeiro, ouviu o canto dos pássaros lá fora. Depois, o som de uma porta em algum ponto da casa. Continuou deitada de lado, a mão deslizando pelo lençol em busca dele… vazio… mas ainda morno… Pela janela aberta, veio o som de um motor de moto. Ela abriu os olhos. Ele não estava mais lá. Nem na cama, nem no quarto. Suas coisas também não. Apenas o leve perfume no ar, como lembrança de que ele tinha estado ali. O som do motor se afastou… até sumir por completo.
Bahar virou-se, deitando de costas. Não chorou. Não tremeu. Apenas ficou ali, olhando para o teto, compreendendo que aquela noite não fora uma tentativa de manter — não, ela sabia que não poderia mantê-lo. Fora apenas a chance de ficar com ele por um momento. Não foi uma despedida, mas também não era esperança. Foi apenas uma presença que eles viveram juntos. Ela não pediu para ele ficar. Ele não pediu para ela segurá-lo. Eles apenas foram vivos por uma noite.
Piscou lentamente e se levantou. Prendeu o cabelo num coque, sem pressa. Fez tudo como sempre, como se nada tivesse acontecido… mas sabia que tudo já havia mudado. Começava a sua nova manhã — uma manhã onde Timur não existia mais, e nunca mais existiria. Era hora de sair do quarto e dizer isso às crianças, à Nevra. Todos teriam que aprender a viver de um jeito novo…
***
Se estava pronto para uma nova vida naquela casa, Yusuf não sabia. Sentado no sofá, ainda tentava entender o que tinha visto. Era, sem dúvida, Evren Yalkın. Ele o reconheceu, mesmo sem terem sido apresentados. Viu-o descer as escadas. Notou seu aspecto desalinhado. Não havia dúvida: ele passara a noite ali.
Yusuf se levantou e olhou pela janela. O rugido do motor da moto cortou o silêncio da manhã e se afastou, desaparecendo. Primeiro dia dele naquela casa… e já com perguntas que não sabia responder. Bahar dissera que ele tinha ido embora, mas ele estivera ali. Yusuf não entendia.
Dobrou a manta, guardou a almofada e foi até a cozinha. Não sabia o que fazer tão cedo naquele lugar estranho e, ao mesmo tempo, tão comum. Notou duas xícaras de café ainda cheias sobre a mesinha — intocadas. Levou-as para a pia, despejou o café frio, lavou e guardou. O estômago roncou. Na noite anterior, quase não haviam comido, e agora o corpo cobrava. Mas ele não sabia o que podia ou não fazer naquela casa.
Ficou parado no meio da cozinha, sem saber como se ocupar. Foi assim que Bahar o encontrou ao entrar.
— Ah, Yusuf — ela se sobressaltou, sem esperar vê-lo ali.
— Bom dia — ele se voltou para ela.
Bahar assentiu e suspirou. O olhar dela foi direto para a mesa, mas estava limpa — como se nada tivesse acontecido na noite anterior, como se ninguém tivesse vindo… A mão dela foi ao bolso, tocando o relógio de Timur. Mesmo sem café sobre a mesa, tudo o resto havia acontecido. Timur já não fazia parte de suas vidas.
— Bahar — Yusuf a observava atentamente.
— Hoje será um dia difícil, Yusuf — ela finalmente disse. — Muito difícil.
— Sinto muito — ele abaixou os olhos. — Meus pêsames.
Ela tornou a assentir:
— Vou preparar o café da manhã. Precisaremos de forças. — Havia algo de distante em seu olhar, mas Yusuf não sabia o que pensar.
— Eu ajudo — ofereceu-se.
Ela assentiu mais uma vez, e ele não insistiu em puxar conversa. Sabia que ela não estava com cabeça para isso. Em todo o tempo que se conheciam, era a primeira vez que ela não sorria. Por dentro, algo acontecia, embora mantivesse a calma por fora. Ele não sabia que tipo de relação unia Bahar e Evren. Sabia apenas que ela estava divorciada de Timur… e que Evren passara a noite naquela casa. Para Yusuf, era uma revelação. Mas entendeu que era melhor não comentar.
***
…ele ficou parado, em silêncio, quando entrou e viu Naz, de robe de seda, preparando apressadamente o café da manhã. Ela e Cem pareciam disputar alguma coisa, como se estivessem numa competição. Riam, trocavam provocações, empurravam-se de leve.
Ele os olhava, mas via outra cena — aquela cozinha, mas com Bahar, cozinhando juntos.
Evren franziu a testa, virou-se e quase tropeçou na mala junto à porta. Ele mesmo a havia feito, pronto para pegá-la e ir direto para o aeroporto.
— Evren, irmão! — Cem abriu um sorriso largo.
— Evren, bom dia — disse Naz, apoiando-se no balcão.
Ele os observava — pareciam tão à vontade ali, como se fizessem parte do cenário. Mas havia algo errado. Com Naz, tudo era mecânico, previsível. Sem surpresas. Sem explosões. Sem Bahar. Tudo simples demais… e dentro dele crescia uma tempestade: não era aquela mulher que ele queria ver na sua cozinha. Não era com ela que queria acordar. Não era a ela que queria beijar. Não era para ela que queria servir café de manhã. Não era com ela. Cerrou os dentes.
— Não — disse, com firmeza, pegando a alça da mala.
De repente, entendeu: não queria uma vida fácil — queria Bahar. Com todos os medos, teimosia, dores. Só Bahar.
— Evren — Cem se aproximou depressa —, entenda: no prédio da Naz, exterminaram baratas no edifício todo. Eu sugeri que ela ficasse aqui até o cheiro sair. Ela fez tanto por nós, não podia deixá-la num hotel.
As sobrancelhas de Evren se ergueram. Fez tanto por eles? Talvez fosse o contrário… talvez primeiro tivesse sido ele, depois Bahar… ou ambos juntos. Na verdade, a primeira tinha sido Bahar. Naz só dera um emprego a Cem.
Baratas… ele quase sorriu. Ele próprio já tinha inventado desculpas assim para poder ficar na casa de Bahar… fazia tanto tempo, parecia outra vida. E queria mais dessas situações absurdas — só com Bahar isso surgia naturalmente, encaixado no mundo único deles.
— Cem — disse Naz, enxugando as mãos no pano de prato —, Evren precisa se trocar para não perder o voo.
— Olha, a proposta da Naz para a América ainda está de pé — acrescentou Cem, aproximando-se —, e eu posso trabalhar com ela também. Assim, em duas semanas estaremos lá com você. — Pousou a mão no ombro de Evren. — Teremos uma nova vida, irmão. Vai, troca de roupa, tomamos café e te levamos ao aeroporto. Solta essa mala, vai… o café já está quase pronto.
Um leve sorriso tocou os lábios de Evren. Nova vida? América, rotina tranquila, tudo no horário, tudo claro… fácil. Ou Bahar — tudo confuso, imprevisível… mas era Bahar.
Olhou para Cem, para aquele entusiasmo. Ele também queria se sentir assim… mas só conseguia ser daquele jeito com ela.
— Por que você não está com Umay? — perguntou, de repente.
Cem tirou a mão do ombro dele na mesma hora. Naz pousou o pano no balcão. Bastou aquela frase para ela. Observava como os dedos de Evren apertavam a alça da mala. Sentia-se uma intrusa na vida deles.
— Esqueceu o que Umay disse? — a voz de Cem subiu. — Ela queria que fosse você naquele avião, Evren, e não o pai dela! Entende? E Bahar! Ela ficou calada — lembrou ele —, não disse nada à filha. Ela pensa o mesmo!
Na mente de Evren, voltou a cena na cozinha de Bahar, quando ela tivera um ataque de pânico só por ele dizer “vou voar”. Cem não fazia ideia.
— Bahar?! — ele largou a mala. — Eu mal consegui acalmá-la quando falei que ia para os Estados Unidos. Ela nem me deixou explicar que só precisava resolver uns assuntos e que voltaria para Pera! Foi tomada por um ataque de pânico, entende? Você sabe o que é um ataque de pânico, Cem?
— E você a defende?! — Cem fechou os punhos. — Depois de ela ter te deixado no altar?
— Ela não me disse “não” — ele finalmente percebeu o sentido do que Bahar havia dito —, ela disse “não posso”. — Pegou a mala de novo e a arrastou pelo corredor, em direção ao quarto.
Naz balançou a cabeça. Cada frase de Evren doía.
— Isso não significa nada, Evren! Vai perder o voo! — gritou Cem atrás dele.
— Não estou indo a lugar nenhum, se ainda não entendeu! — retrucou. — Já resolvi tudo com Jennifer por telefone. Devia ter feito isso ontem! — Parou, olhou para o irmão e continuou: — Acertar a transferência de um paciente para Pera, se ele quer que eu o acompanhe! Como fez aquela gestante que veio de outra cidade a Istambul só para ser cuidada pela Bahar. Ela a encontrou, apesar do próprio estado delicado. E sabe? Eu quero trabalhar com Bahar no mesmo hospital! Quero fazer parte da vida dela, não apenas ouvir falar ou ler notícias! Quero ver, quero estar presente!
— Vocês vão voltar? — a voz de Cem tremia.
— Vou estar por perto — respondeu Evren —, especialmente agora.
Ao ouvir isso, Naz fechou os olhos.
— Então você esteve por perto o tempo todo… mas não com ela — Cem gritou, sem se conter. — Ela não vai te dar uma família, Evren! Não vai te dar um filho! Não vai deixar você fazer parte da vida dela! Eles não precisam de nós! Não vê? Eles sempre nos rejeitam!
— E o que nós fazemos para que eles fiquem ao nosso lado, Cem? Só lhes viramos as costas, e sempre nos momentos mais difíceis! — disse ele, encontrando o olhar de Naz.
Estava suado, sentia o suor escorrer pelas costas e a testa úmida. Sentia vergonha, mas não podia se calar. Tocava em assuntos íntimos, ainda mais com estranhos presentes. E percebeu… Naz era uma estranha. Sim, com ela era fácil, mas ela não era a sua pessoa. Não era com ela que queria viver todos os altos e baixos. Não era ela que queria como mãe de seu filho.
Filho… haveria chance de ter um com Bahar? Nunca tinham conversado sobre isso. Não conversavam sobre tantas coisas… nem conseguiram viver juntos o luto pela perda do bebê. Pararam de falar, em algum momento. Conseguiriam voltar a falar agora? Ele não sabia.
— Você só pensa na Bahar! E eu?! — Cem gritou. — Eu sou seu irmão! E você só pensa nela, neles! E eles sempre vão te rejeitar!
— Então eu tenho que me tornar o homem com quem Bahar vai querer formar uma família.
Evren entrou no quarto, levando a mala, e fechou a porta. Encostou-se nela, fechou os olhos.
Terei chegado tarde demais? Ela já se cansou de esperar?
Só agora percebeu o quanto tinha sido tolo. O quanto havia sido impaciente… quando a felicidade estava a um passo, ele se virou e fugiu. Não só dela — fugiu de si mesmo.
***
…apenas eles, um círculo restrito de familiares e amigos próximos. Bahar e Rengin organizaram tudo em silêncio, quase sem trocar palavras. Não houve pompa, nem longos discursos. Cada um se despediu à sua maneira.
Depois veio o silêncio… olhares longos, que evitavam se cruzar, pois ninguém sabia como seria o depois. A casa, que antes ecoava a voz de Timur, agora estava parada — mas eles não podiam se permitir desmoronar. Bahar se manteve firme, prestando homenagem à memória do homem com quem viveu vinte e cinco anos de casamento.
Estranhamente, agora só se lembrava do que havia de bom. E também de Umay, Uraz, Leyla e Mert. Até Parla — todos eram uma continuação viva de Timur. Ele seguia vivo, nos filhos e netos.
Çağla esteve presente como uma sombra e logo partiu para o hospital, para ver o desconhecido que havia sobrevivido. Bahar não a impediu — entendia que, para ela, era mais fácil lidar com a perda de seu amado assim. Bahar sabia bem que apenas Evren sobrevivera; o único que não embarcou naquele avião — poderia ter ido, mas, graças ao pedido de Reha, ficou.
Evren esteve no funeral, chegou a ficar ao lado dela e dos filhos, mas não voltaram a trocar palavras. Ela não sabia como interpretar sua permanência… e nem queria saber. Naquela noite, tinham virado a página, colocado um ponto final.
Aceitou em silêncio o apoio dele: quando a conduziu pelo braço, quando abriu a porta do carro, quando lhe passou uma garrafa de água, quando pediu para que ela se sentasse.
Ao chegar em casa com todos, ele conversou com Rengin e, mais uma vez, desapareceu de sua vista. Tinha viajado? Partido? Ela não perguntou e ele não disse. Não precisava dizer mais nada.
Bahar serviu-se de chá e sentou-se à mesa da cozinha. Segurou a xícara, observando os peixes no aquário. Já não sentia aquele nó na garganta de medo por ele, pensando se teria embarcado ou não. Não respondia mais por suas escolhas. Naquela noite, precisaram apenas estar juntos; agora, cada um tinha o seu caminho.
Ela olhou para o telefone, mas não abriu de novo a mensagem de Cem. Bastava-lhe ter visto uma vez a foto de Naz, de robe de seda, na cozinha de Evren. Ela morava lá, no apartamento dele. Faziam café da manhã juntos. Bahar precisava cuidar da própria família.
— Mãe… — Umay sentou-se ao seu lado, apoiando a cabeça no ombro dela. — Vamos fazer como o papai queria? Eu vou estudar no exterior?
Bahar pousou a xícara e abraçou a filha. Beijou-lhe o alto da cabeça:
— Vamos fazer como você quer. Não como o papai queria. Ele será para sempre seu pai, mas ouça a si mesma, o que você deseja. — Acariciava-lhe os cabelos.
— Mãe, eu disse uma besteira — Umay escondeu o rosto no ombro dela —, mas isso não significa que desejei mal ao Evren… — suspirou. — Por que o Cem não entende? Por que foi embora e agora não fala comigo?
Bahar encostou o rosto nos cabelos da filha:
— Vocês são tão jovens, minha querida… tão jovens… — murmurou.
— Mas isso não significa que eu não ame… só não entendo… — confessou — por que tenho que correr atrás dele o tempo todo?
Bahar empalideceu, mordendo o lábio. Também passara muito tempo correndo atrás de Evren, até entender que era inútil. E agora, quando havia parado de correr, ele começou a aparecer por perto — e ela também não entendia. Ele vivia com Naz, e ainda assim estava ali, silencioso, ao lado dela. Talvez fosse apenas apoio, nada mais.
— Não, Umay… uma vez basta — disse Bahar, baixinho. — Você reconheceu que errou. Disse isso ao Cem, e basta. Todos nós erramos, tropeçamos, nos equivocamos. Não se pode viver com medo de errar.
— O problema é que eu não disse… — Umay quase chorava —, e ele não responde. Achei que viria com o Evren, mas não veio. Num dia como hoje, não veio… e depois? Como acreditar?
Bahar apertou o abraço.
— Vocês precisam conversar, minha filha. Você errou. Ele também pode ter errado. Se conseguirem seguir juntos, ótimo. Se não… aceitem.
— Como você e o Evren não conseguiram? — perguntou. — Ele mora com a Naz, não é? — Umay percebeu a tensão breve na mãe. — Então por que ele vem aqui? Isso te machuca, mãe.
— Não — respondeu rápido demais. — Não, querida. É só apoio. É humano.
— O Cem é muito estranho… — admitiu Umay. — E vai embora com ele para os Estados Unidos. Com a Naz também. Ele escreveu para a Parla. Sabe… — olhou para Bahar —, será que a Parla pode morar com a gente? Dividimos o quarto, vai ser bom.
— Pode, tia Bahar? — Parla surgiu na porta da cozinha. — Esta era a casa do papai. Quero viver aqui, tocar nas coisas que eram dele.
Bahar assentiu, estendendo-lhe a mão. A menina sentou-se ao lado oposto.
— Claro, querida. Se a sua mãe não se importar…
— Obrigada, tia Bahar — Parla a abraçou e beijou-lhe o rosto.
Bahar soltou um suspiro de alívio. Não estava pronta para que os filhos soubessem que Evren vivia com Naz. Não imaginava que Cem tivesse contado, e ainda à Parla.
— Vai ter espaço para todo mundo? — Yusuf apareceu na cozinha, e ela agradeceu a mudança de assunto.
— Vai, claro que vai — disse Bahar, firme. — Mamãe e o professor Reha vão para a casa dele. Nevra fica aqui por enquanto e depois na casa da mamãe. Você fica no escritório — olhou para Yusuf — e as meninas no andar de cima.
Ela olhou pela janela. Nevra estava sentada no jardim. Quase não se percebia sua presença nesses dias. Sempre tão vibrante, agora estava apagada, como Çağla.
Uraz e Siren entraram com as crianças no colo. Mert e Leyla logo estenderam os bracinhos para Bahar. Ela pegou Mert, sentando-o no colo, e afastou a xícara de chá para longe dele.
— Bahar… — Siren puxou uma cadeira, sentando-se.
Bahar fazia gracinhas para Mert enquanto todos se acomodavam.
— Mãe… — Uraz passou Leyla para Parla e sentou-se de frente para Bahar.
— Digam logo… — pediu ela.
— Mamãe vai voltar — começou Siren.
Bahar suspirou, já entendendo onde queriam chegar.
— Eu sei. Não sou contra. É o certo. A vida continua, meus queridos. Sim, o papai não volta mais, mas graças a ele tenho todos vocês… e esses dois anjinhos — beijou a bochecha de Mert e apertou a mãozinha de Leyla. — Vocês vão ser importantes para a Efsun, e eu sempre estarei por perto. — Tossiu, limpando a garganta. — Yusuf vai me ajudar em casa, não se preocupe, Uraz. Fico com a Umay e a Parla. Nevra fica conosco por um tempo. Amanhã já volto ao trabalho, e o Yusuf começa o estágio. Está tudo bem.
Na verdade, nem todos estavam bem. Esra precisava de cirurgia urgente. Doruk lhe enviava os resultados, e Bahar a acompanhava à distância, enquanto possível. Sabia que Serhat estabilizara a filha, mas ele também precisara viajar alguns dias para organizar a transferência ao hospital de Pera. Uns iam, outros chegavam, outros voltavam. A vida não parava — apenas seguia.
Bahar devolveu Mert à Umay e se levantou. Pegou a xícara, deu alguns goles, esvaziou o resto na pia, lavou, secou as mãos e olhou pela janela…
***
…ela não conseguia nem olhar para fora — a cabeça girava com tudo o que estava acontecendo.
— Evren, o comitê concordou e aprovou a abertura do departamento de transplantes sob sua chefia. Mas você decidiu transportar uma paciente dos Estados Unidos? — virou-se para ele, segurando o prontuário. — Sabe que não vou assinar documento algum. Não vamos sobreviver a um segundo golpe! Uma morte no ar?! Tem noção do impacto? Agora, depois da tragédia? Estamos por um fio!

CAPÍTULO 2. PARTE 2

— Já está tudo decidido — respondeu Evren com calma. — Eu fico. Assumi o cargo. Tenho um departamento — sou médico atuante. Eu e Jennifer cuidaremos da logística e dos riscos médicos — ele falava com foco. — O transporte será organizado: cápsula isolada, equipe de acompanhamento, ECMO e ventilação mecânica. Todos os protocolos serão cumpridos. Só preciso da sua assinatura e do acesso à sala de cirurgia.
— Você contornou o comitê? — Rengin colocou o prontuário sobre a mesa e cruzou os braços.
— O comitê jamais aprovaria uma despesa dessas — Evren suspirou. — Sim, há risco. Se ela morrer no trajeto, será um golpe duro. Mas se sobreviver e fizermos um transplante duplo... será a nossa vitória.
Ele esfregou a testa e se sentou. Só então Rengin percebeu o quanto ele estava exausto.
— Você cuidou dela nos Estados Unidos? — perguntou.
— Sim — ele já não escondia o cansaço. — Eu deveria ter viajado só por ela. Para participar da cirurgia.
Rengin levantou o prontuário:
— A paciente está instável. Coagulopatia, sinais de disfunção de múltiplos órgãos, alto risco de descompensação durante o voo… — ela o encarou. — Está falando sério? Quer arruinar tudo antes mesmo de começar? Depois do desastre, estamos sob holofotes. Perda de cirurgiões, investigação, questionamentos à gestão. Opinião pública. — Fechou os olhos por um instante. — Evren, consegue enxergar um passo adiante?
— Alya não é um caso midiático — ele continuou no mesmo tom sereno. — Mas pode se tornar um exemplo. Se conseguirmos, Perran voltará a ser associado à confiança. À vida.
— Você pretendia operá-la nos EUA. Chegamos até a marcar as datas. E agora me coloca diante de um fato consumado. O que aconteceu? — ela não conseguia entender suas ações.
Sim, Rengin havia conseguido que ele aceitasse sua proposta e ficasse, mas o que ele estava fazendo agora não cabia na sua lógica. Ele desafiava a todos, mas acima de tudo, a si mesmo.
— O doador foi para outro paciente. Ela está perdendo tempo — ele franziu o cenho. — No máximo dez dias. Encontrei um conjunto de órgãos compatível na Europa.
— Você está falando sério sobre transportar uma paciente com falência múltipla de órgãos através do oceano? — perguntou Rengin, dura demais.
— Ela vai para Perran. Para mim — Evren alongou o pescoço dolorido. — Eu vou montar a equipe.
— E como quer que eu explique ao comitê que, uma semana após perdermos cirurgiões, vou usar a aviação novamente? — ela indagou.
— Oficialmente — Evren pigarreou — será uma evacuação humanitária. Toda a documentação já está pronta.
— Mesmo que eu aceite — Rengin largou o prontuário. — Quem assumirá a responsabilidade? Você? Jennifer? Ou eu vou ter que responder por isso no tribunal depois?
— Está tudo preparado. Só falta o seu consentimento — ele pegou o telefone. — É a Jennifer — mostrou a tela.
Ela assentiu, e ele iniciou a chamada de vídeo.
— Rengin, Alya é minha sobrinha — o rosto dela estava tenso, as palavras saíam rápidas. — Tudo deu errado. O seguro negou, o centro cancelou a cirurgia. Temos um doador. Compatível. Mas não confio mais em ninguém além do Evren. Se Perran aceitá-la, eu organizo tudo.
Rengin olhou para Evren:
— Você sabia? — franziu o rosto.
— Sim — respondeu ele. — Precisamos agir agora.
— O tempo é muito curto — Jennifer se intrometeu. — Eu só confio no Evren.
Rengin levantou-se e começou a andar pela sala. Ainda estava irritada, mas já não discutia. Não era com ele que estava zangada — era com a situação.
— Eu assino. Mas a responsabilidade será só sua — ela olhou firme para Evren. — Não temos direito a errar.
— Obrigada — suspirou Jennifer, encerrando a chamada.
Rengin não olhou para Evren. Aproximou-se da janela:
— Ou vamos decolar, ou vamos despencar até o fundo — murmurou.
Evren levantou-se:
— Chega de voos. Estamos apenas salvando vidas — pegou o prontuário da mesa. — Vou começar a montar as equipes e coordenar com a clínica doadora.
— Evren — Rengin se virou para encará-lo — você tem certeza?
— Isso não é heroísmo — ele parou na porta. — Estou apenas salvando vidas — disse. — Apenas faço cirurgias e, sim… — quase sorriu — vou precisar da Bahar.
Rengin não reagiu. Apenas o observou.
— Não estamos juntos — continuou ele, respondendo à pergunta silenciosa dela. — Só estou por perto. — Quase saiu, mas parou. — Não sei se cheguei a tempo ou se já perdi tudo.
— Vocês dois enlouqueceram — Rengin avançou até a mesa e apoiou-se nela com as mãos. — Não sei que risco vão correr amanhã, mas sei de uma coisa — ela o fitou — vocês são uma verdadeira equipe.
— Precisamos voltar a ser — agora, sim, surgiu um leve sorriso em seus lábios, e nos olhos acendeu-se uma centelha de esperança…
***
Ela só esperava que pudessem conversar — não pedia mais nada. Queria apenas se explicar, olhando-o nos olhos, dizer que estava errada. Umay sabia muito bem que ele não iria querer ouvi-la; conhecia Jem como poucos. Sabia que ele podia ficar meses em silêncio, sem dar uma palavra de explicação. Ela não queria repetir a separação do passado. Queria ser ouvida por ele.
Com dificuldade, convenceu-o a sair para a rua, e isso só com a ajuda de Naz. Agora, Jem estava a um passo dela, olhando demonstrativamente para o lado.
— Não me importa, Umay, o que você vai dizer — murmurou ele, examinando algo na parede. — Você não precisava ter vindo me procurar.
— Eu vim para dizer que estava errada — Umay tentava manter a paciência, engolindo com esforço a onda de emoção. — Eu não queria o mal para Evren, Jem, só falei sem pensar.
— Não queria? — Jem finalmente virou-se para ela. — Você queria que o Evren pegasse aquele voo no lugar do seu pai! Todos na sua família são assim — agem primeiro, pensam depois!
— Eu estava errada — insistiu ela, tentando manter a calma, apesar da ardência nos olhos. — Eu admito isso — sussurrou. — Me perdoa, por favor.
— Você desejou a morte do meu irmão! — explodiu ele. — E agora vem dizer que estava errada! Acha que é assim tão simples?
— Jem — Umay tentou encontrar o olhar dele — eu não quero te ferir. Só queria que a gente conversasse com sinceridade.
Ele riu com sarcasmo:
— Você, me ferir? Pode ser pior do que já está? — enfiou as mãos nos bolsos. — Primeiro, sua mãe humilhou o Evren na mesa de casamento, depois você desejou a morte dele, sabendo que eu não tenho mais ninguém!
Umay engoliu seco:
— Jem, por favor, não misture as coisas — pediu. — E eu não queria que o Evren... — calou-se, incapaz de terminar a frase.
Jem bufou e ergueu o queixo ainda mais, como se ela fosse um inseto insignificante. Umay se encolheu, desconfortável, mas manteve-se firme: tinha algo importante para dizer.
— Você não foi ao enterro do meu pai — sua voz estava rouca. — Foi escolha sua? Ou só orgulho ferido? — ela o encarava, como se ainda esperasse algo.
Umay ajeitou os cabelos e abraçou o próprio corpo, escondendo-se sob a sombra da árvore. Notou Naz quando esta saiu para se despedir de um cliente. Naz acenou, mas, antes de entrar, reparou nos dois.
— Não fui! — gritou Jem quase no rosto dela, empinando o peito para parecer maior, mas ainda assim a olhava de baixo — ela era mais alta e ainda iria crescer mais.
— E acha que isso foi certo? — perguntou Umay com cuidado. — Não estar ao lado num momento desses? Até o Evren esteve com a minha mãe — observou — ele ficou conosco, mesmo não estando mais juntos.
O tom agressivo de Jem pareceu chamar a atenção de Naz, que se aproximou com intenção de acalmá-lo.
— Nem você nem sua mãe sabem o que é ser o segundo! — ele quase avançou contra Umay. — Entendeu? Eles nunca vão ficar juntos! — aumentou a voz. — Sabe por quê? — sorriu com desdém. — Porque a Naz mora com o Evren! Porque agora tudo mudou! — quase gritava. — Agora temos nossa própria família! Vamos para os Estados Unidos! Juntos. E diga à sua mãe para parar de incomodar meu irmão. O Evren nunca vai voltar para ela. Nunca, Umay! Nunca!
— Me dói — Umay conteve o choro. — Mas não finjo que não sinto nada — murmurou. — Sinto muito que você não queira amadurecer. Acho que não estamos no mesmo caminho — admitiu de repente. — Não consigo ficar com alguém que sempre me vira as costas, sem que eu possa confiar no amanhã, ou em nós.
— Você tem razão! Agora tenho minha vida, estamos juntos com a Naz! — Jem falou com triunfo.
— Por favor, não mande mais fotos da Naz com o Evren para minha mãe — pediu Umay, enxugando uma lágrima. — Isso machuca muito, Jem, não faça isso.
— Ela reclamou com você, foi? — Jem sorriu, satisfeito consigo mesmo.
— Minha mãe não disse nada, vi por acaso — Umay balançou a cabeça. — Você não entendeu nada — sussurrou. — Sinto muito.
— Nós, Jem?! — a voz de Naz fez Jem se virar. — Eu não moro com o Evren! Não moro com vocês! — encarou-o. — Não vou para os Estados Unidos! Você inventou tudo isso, Jem! Que fotos, Umay? Do que está falando?
Jem empalideceu. Umay franziu o cenho, olhando de um para o outro.
— Jem, quero explicações — Naz limpou as mãos no avental. — América, família? O que significa isso?
— Ninguém me ouve, nem você, nem meu irmão — os ombros dele caíram, as costas se curvaram, parecia encolher, como se quisesse desaparecer. — Todo mundo acha que sabe tudo — desviava o olhar, incapaz de encará-los — mas ninguém entende que é melhor assim, se a gente for embora!
— Eu não estou brincando de família com você — Naz não desviou o olhar.
— Com elas é difícil — ele quase sussurrou, perdendo toda a agressividade diante de Naz — mas com você... com você é fácil.
— Eu não vou ser conveniente para você, Jem! Nem para você, nem para o Evren! — disse ela, abrindo o colarinho do uniforme.
Ela já tinha ouvido o bastante. Umay começou a recuar lentamente. A imagem de Jem que ela amara desmoronava. Já não sabia quem ele era. Sim, ela tinha errado, mas o que Jem fazia pelas costas das pessoas não tinha desculpa. Isso era mais do que erro — era mesquinharia. Virou-se e começou a se afastar.
— Você está demitido, Jem! — a voz cortante de Naz soou atrás dela, cansada das desculpas dele.
Umay se virou e cruzou o olhar com Jem. Preferia não ter visto. Ele ficou vermelho, arrancou o avental e o jogou aos pés de Naz.
— Eu... eu... — balbuciou, antes de sair correndo, passando por Umay sem sequer olhar para ela.
Umay ficou imóvel. Aquela conversa a deixara vazia por dentro. Indo ao restaurante, pensou que talvez pudessem continuar amigos... mas que amizade poderia restar? Talvez Parla estivesse certa desde o início, quando pedira para não se encontrar com Jem. Mas então, por que ela mesma trocava mensagens com ele às escondidas? Umay virou-se devagar e foi embora.
— Umay — Naz a alcançou. — Que fotos o Jem mandou? — perguntou, com a mão no peito. — O que tinha nelas?
Umay parou e se voltou:
— Sabe... isso já não importa — respondeu baixinho. — Não importa mais.
— Para Bahar e Evren importa — disse Naz, séria.
Umay sorriu e balançou a cabeça:
— Não... por favor, ninguém mais se meta. Já é complicado demais para eles. Muito complicado. Eles mal estão se mantendo de pé. Especialmente agora que o papai se foi.
— Você está tão madura... — Naz ainda franzia a testa.
Umay deu de ombros e se afastou. Naz a seguiu com o olhar. Atrás dela, no asfalto, o avental de Jem se agitava ao vento, mas não havia força suficiente para levantá-lo.
***
A cortina balançava com o vento. A sala estava vazia, todos já tinham ido embora. Umay saíra para algum lugar, Nevra subira para o andar de cima. Bahar cozinhava em silêncio na cozinha. Cada um vivia aquele dia à sua maneira. Uraz e Siren levaram as crianças para fora, estenderam uma manta e se deitaram juntos sobre ela. Gülçiçek e Reha, depois de se despedirem de todos, foram embora.
— Agora cada dia vai ser assim, sem ele — disse Parla, olhando pela janela para Uraz e Siren. — Eu só estava começando a conhecê-lo. Passei tão pouco tempo ao lado dele, sim... — encostou a testa no vidro — ele era um homem difícil, mas eu me sentia bem com ele — admitiu.
— Eu entendo você — respondeu Yusuf, sentado na poltrona e olhando para ela. — Eu perdi minha mãe. Ela se foi muito rápido e eu não pude ajudá-la em nada — apertou as mãos. — Meu pai, eu nunca conheci. Minha mãe sempre falava dele de forma simples — deu de ombros. — Eles não eram um casal, não eram uma família. Ela decidiu me ter sozinha, e eu não guardo rancor dele.
Parla se voltou para ele:
— Você nunca quis saber quem é seu pai? — perguntou.
Yusuf olhou para as próprias mãos:
— Eu sei — respondeu simplesmente.
— E nunca tentou falar com ele? — Parla se aproximou. — Quando descobri que Timur era meu pai, primeiro eu o rejeitei, depois começamos, aos poucos, a nos aproximar. Pai é algo muito diferente de mãe — disse ela, sentando-se à frente dele.
— Você está me dizendo isso porque agora moro aqui com vocês? Quer dizer, com a Bahar, nesta casa? — ele pareceu se enrijecer. — Quer que eu vá embora? — ainda não tinha certeza se aceitar a proposta de Bahar fora o certo.
— Não — Parla sorriu. — Não é isso. Pai é outro tipo de apoio na vida. Eu quase não conhecia isso, até viver. E, se você tem essa chance, Yusuf, eu gostaria que conhecesse o seu. Talvez ele fosse muito jovem naquela época, mas se agora souber que você existe, tudo pode mudar. Não quer dizer que você vá sair das nossas vidas, não é sobre isso.
Yusuf suspirou:
— Sinto como se fosse um hóspede aqui. Tudo me parece estranho. Sim, Bahar disse para eu ficar, que assim seria mais fácil estudar, que todos me ajudariam com os exames — assentiu. — Disse que amanhã já começo o estágio que sua mãe autorizou. Vocês estão todos por mim — seus olhos se avermelharam. — Isso é tão novo para mim — confessou. — Também quero ser útil para vocês — pigarreou. — Não quero ser um estranho.
— A tia Bahar vai se esforçar — disse Parla, tocando na mão dele com um sorriso. — Ela sabe criar calor e aconchego. Você vai se acostumar.
— E ela não vai mudar de ideia? — perguntou de repente Yusuf. — E se eu acreditar, e depois tudo acabar? — abaixou a cabeça.
— A tia Bahar? — Parla quase riu. — Não, ela não vai mudar de ideia.
— E ela disse sobre o Evren... que ele tinha ido embora, mas ele aparece por aqui — Yusuf escolhia bem as palavras, observando Parla. — Ela disse que ele seria meu professor, depois disse que não, mas Evren Yalkın ainda está em Istambul, e eu não entendo nada.
Parla deu de ombros:
— Sobre isso ninguém vai te responder — admitiu. — Sim, o tio Evren ainda está na cidade, pelo que entendi de uma conversa dele com a mamãe — ela olhou em volta. — Se é que não estavam falando de pacientes. Não sei.
— Sua mãe comentou que viriam novos médicos? — Yusuf se inclinou um pouco.
— Acho que ela discutiu algo com a tia Bahar — deu novamente de ombros. — Não sei, aconteceu tanta coisa.
Parla se voltou e pegou o relógio de Timur, que estava sobre a mesa:
— É tão estranho tocar nas coisas dele — confessou. — Sentar na poltrona onde ele se sentava — fungou levemente. — Nós moramos juntos por um tempo, mas não consigo lembrar exatamente como ele tomava café — disse baixinho.
— Minha mãe morreu na primavera. Eu parei de dormir, e não conseguia tirar a xícara de chá dela da mesa — contou Yusuf, olhando para a janela. — Ficou lá até todo o chá evaporar — fez uma pausa. — Depois, acabei lavando e guardando a xícara.
Parla passou a mão pelo braço da poltrona, como se buscasse lembrar de Timur.
— Sabe... — Yusuf levantou-se — eu vi a fechadura quebrada na cozinha, posso consertar — propôs, com um brilho súbito de interesse no olhar.
Parla olhou para ele:
— Lá está a tia Bahar — lembrou.
— Acha que vamos atrapalhar? — perguntou ele, um pouco cauteloso, mas sem perder o entusiasmo.
Parla sorriu e se levantou:
— Não, com certeza não vamos. Vamos lá — disse, seguindo em direção à cozinha.
Yusuf ficou parado por um instante. Lembrou-se de Evren, que estivera ali, no mesmo lugar, alguns dias antes, olhando na direção da cozinha, mas sem entrar. Gostaria de saber mais, mas não tinha coragem de perguntar a ninguém. Suspirou e seguiu Parla até a cozinha, onde Bahar já lhe perguntava alguma coisa. Yusuf quase sorriu — percebeu, de repente, que às vezes basta apenas estar por perto…
***
…Enfim, estavam juntos, só os dois. Gülçiçek jamais teria imaginado que tudo acabaria assim — que se casaria com o professor Reha, que moraria na casa dele. Arrumara a mesa da cozinha, escancarara as janelas para deixar o ar fresco entrar e chamara o marido. O casamento deles fora ofuscado pela notícia do acidente, depois a correria, o funeral… e agora, sentados frente a frente, tomando chá, pela primeira vez podiam saborear aquela felicidade tranquila.
— Na ilha tudo vai ser diferente — começou Reha. — Lá… ninguém vai depender de como seguro um bisturi — disse, olhando por cima da xícara de chá. — Não vai haver salas de cirurgia. Só nós. E o mar.
Gülçiçek tomou um gole e fitou o marido:
— Você entende que agora não podemos partir, não é? — perguntou. — Eu não posso deixar a Bahar nesse momento. Não posso, Reha — estendeu a mão, e ele apertou seus dedos.
— Sim, eu entendo. Só estou sonhando — sorriu ele. — Por enquanto é só um sonho — levou a mão dela aos lábios e a beijou.
— Você não vai, na ilha, procurar outra clínica, vai? — ela percebeu que ele empalidecera e semicerrara os olhos, como se perdesse o foco.
Ele piscou algumas vezes, depois franziu o rosto e levou a mão à têmpora, por um instante apenas — mas nada escapava ao olhar de Gülçiçek.
— Reha… — desta vez ela apertou mais a mão dele. — Eu não quero te perder. O coração… não é só um órgão.
— Deve ser pressão — tentou se esquivar. — Calor, abafamento.
— Reha, talvez seja hora de parar de operar — disse ela, com cautela.
— Não posso deixar o hospital de vez ainda — suspirou. — É temporário — tomou um gole. — Para ser sincero… — olhou para ela — estou muito cansado, nem tenho palavras para descrever — admitiu, franzindo levemente o rosto. — Eles precisam de mim. Agora não posso sair.
— Reha — Gülçiçek não soltava sua mão — você pode apoiar com palavras.
Ele a olhou longamente e, por fim, exalou, acenando de leve com a cabeça:
— Eu sei… mas, não sei por quê, minhas mãos sempre procuram o bisturi — sorriu. — Na ilha tudo será diferente — enviou-lhe um beijo no ar. — Não agora… lembro, é só um sonho — piscou, respirando fundo, sem dar atenção ao suor que começava a surgir em sua testa…
***
…Ele ergueu os óculos escuros primeiro à testa, depois os prendeu na cabeça, e entrou no pátio. Evren observava os netos pequenos de Bahar, via Siren e Uraz brincando com eles sobre a manta, perto da piscina. E não conseguia afastar a ideia de que eles próprios poderiam ter, dali a alguns meses, um bebê assim. O filho deles… um menino, teimoso e espontâneo como ele, ou uma menina, radiante como Bahar.
Uma criança. Engoliu seco, tomado por uma vontade imensa de segurar um bebê nos braços. Sem pensar, avançou para o jardim, contornou a casa e parou. Uraz se abaixava para pegar Mert do chão. O pequeno imediatamente agarrou os cabelos do pai, espiando por sobre seu ombro para Evren. Siren foi a primeira a notá-lo, trocando Leila de braço antes de se virar.
— Professor? — chamou-o.
Uraz olhou para trás, franzindo um pouco a testa ao ver a pasta nas mãos de Evren.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, parado atrás de Siren.
Evren entendia perfeitamente o tom dele — todos naquela casa, sem querer, esperavam más notícias. E ele mesmo não sabia bem em que categoria encaixar o que viera dizer.
— É trabalho — respondeu sem entusiasmo, guardando as chaves da moto no bolso.
Sim, viera por trabalho, mas sabia que não era só isso que o trouxera àquela casa.
— A Bahar chamou todos para a mesa — disse Siren, quase se virando, quando Leila estendeu os bracinhos para Evren, sorrindo para ele.
Ela não o convidara. Uraz também permanecia calado. Só a pequena se esticava para ele, sorrindo com sinceridade, enquanto Mert o fitava de longe, seguro nos braços do pai.
— Posso? — perguntou Evren, estendendo os braços e prendendo a pasta debaixo do braço.
Siren olhou para Uraz e só então passou a menina para ele. O coração de Evren apertou. Era a primeira vez que segurava um bebê tão pequeno. E não era um bebê qualquer — ela carregava no rosto os traços de Bahar. As covinhas nas bochechas, os cílios longos, os olhos enormes, como se refletissem o mundo inteiro. Evren mal conseguiu conter o tremor nas mãos, mal conseguia se manter firme. Segurava-a como se fosse o bem mais precioso do mundo… Como pôde não querer filhos?
Agora não entendia aquilo. Como pôde recusar algo tão milagroso? Bahar… ele só queria ter um filho com ela, com mais ninguém. Por que entendera isso tão tarde? Talvez ela tivesse razão quando dissera que se encontraram tarde demais… Tarde? Não, ele se recusava a aceitar isso.
Evren estremeceu e ergueu o olhar para a casa, para a janela — e encontrou o dela. Ela estava parada junto à pia, olhando para ele e para Leila, sem piscar. Na mente dele, uma única pergunta martelava: será que era tarde demais? Será que chegara atrasado? Será que não havia mais chance? Bahar baixou a cabeça devagar e voltou a lavar as folhas sobre a mesa, como se não o tivesse olhado um instante antes. Como se ele não estivesse ali, na rua, com a neta dela nos braços. Ele se recusava a aceitar que ela já não acreditava neles. Recusava-se a aceitar que ela havia se conformado.

CAPÍTULO 2. PARTE 3

A boca estava seca. Leila estendeu a mãozinha e puxou os óculos dele da cabeça. E ele simplesmente ficou ali, olhando enquanto Bahar, depois de lavar as folhas, sacudia a água na pia, virava-lhe as costas e se afastava da janela para o fundo da cozinha — sem lhe dar atenção, sem deixar escapar qualquer emoção pelo fato de ele ter vindo.
— Professor, não deixe ela colocar tudo na boca — pediu Siren.
— Princesa… — Evren soltou delicadamente os óculos dos dedinhos dela. — Vamos até a vovó — disse, baixinho.
Se há meio ano ele ainda era recebido com facilidade e calor naquela casa, agora vinha por conta própria, consciente de que ninguém mais entregaria de bom grado o que tinham de mais precioso — Bahar. Tarde demais, ele aceitara o fato de que ela nunca estivera sozinha, que sempre tivera uma família, e que a família era algo essencial para ela. E agora, ele próprio teria de fazer algo para que ela decidisse deixá-lo entrar nessa família. Porque ele queria isso. Evren percebeu, de repente, que queria muito fazer parte da família dela.
Atrás dele, Uraz murmurou algo, e Siren respondeu baixo. Evren já aceitava tudo sem irritação, entendendo que a culpa por aquela reserva vinha dele mesmo. Que se os filhos dela eram cautelosos com ele, era porque ele deixara espaço para isso acontecer. Antes, no casamento de Gülçiçek e Reha, ainda havia sorrisos — por outra razão, mas havia. Agora, tudo mudara. Bahar não abrira a porta para ele, não o recebera na entrada. Seu olhar apenas deslizou por ele quando trouxe um prato quente e o colocou sobre a mesa.
Um olhar simples, impossível de decifrar. Estranho… antes, ele sempre conseguia sentir o que havia por trás. Agora, ela conseguia se fechar. E, de novo, não havia ninguém para culpar além dele próprio. Uraz acomodou Mert na cadeirinha e aproximou-se; Evren, sem entusiasmo, devolveu-lhe também Leila e pegou a pasta, mantendo-a à frente do corpo — precisava ocupar as mãos com algo.
Evitou olhar para a escada. As lembranças eram vivas demais: eles subindo juntos há poucos dias, se beijando… ele descendo depois, tentando não fazer barulho. Sacudiu a cabeça — teria mesmo acontecido? Ou fora um sonho que quis tanto acreditar que acabou tomando por realidade? Talvez não tivesse havido aquela noite. Talvez estivesse só se agarrando à ideia. Bahar não podia ser tão distante… tão indiferente.
Nevra desceu e se sentou. Uraz e Siren ficaram ao lado das crianças. Parla e Yusuf entraram juntos, conversando. Yusuf?! Evren o fitou, sentindo a irritação crescer. Pela primeira vez, desde que cruzara aquela porta, algo lhe pesava: o que aquele rapaz fazia na casa de Bahar? Eles nem sequer tinham conversado sobre o estágio dele, sobre seus estudos… nada. E o garoto parecia tão à vontade…
Yusuf cruzou o olhar com ele e agarrou o encosto da cadeira. Evren não sabia o que queria dele, mas algo o incomodava profundamente — talvez o jeito como Bahar falava com o rapaz, como se o conhecesse há anos. Ela apontou-lhe um lugar à mesa, e Yusuf sentou-se de imediato, ainda lançando olhares a Evren. Todos estavam acomodados, menos Bahar, Evren e… Umay, que não aparecia.
Bahar continuava a ignorá-lo — ou, melhor, a agir como se tivesse mil coisas a fazer. Atendia a cada um, mas passava por ele como se não estivesse ali.
— Evren — ouvir seu nome, dito ao mesmo tempo por Bahar e Umay, quase o fez estremecer.
Esperara tanto para que ela o chamasse… que, quando aconteceu, nem percebeu de qual das duas viera primeiro. Aproximaram-se por lados opostos, apontando para a mesma cadeira — de frente para Bahar, mas do outro lado da mesa. Ela se sentou à cabeceira assim que todos estavam acomodados.
O jantar começou. Nevra calada. Ele também. Bahar dizia algo aqui e ali, mas nunca para ele. Ninguém perguntou por que tinha vindo ou por que se sentara com eles. E, de repente, Evren se sentiu apenas um convidado naquela casa… quando poderia ter sido parte da família, se tivesse tido mais paciência e compreensão. Sim, tivera paciência — mas nos lugares errados. Agora, eles viviam sem ele. Sem Timur. E davam conta.
E havia ainda o telefone dela… vibrando, piscando com notificações sem parar. Quem a escrevia tanto? Será que ela conhecera alguém, e ele ainda não sabia? Bahar olhava a tela de vez em quando, lia algo, ou simplesmente apagava a notificação.
Evren não conseguia comer, apesar da fome. Bebia água, forçava um pedaço de comida, engolia com dificuldade. Queria falar com ela, encontrar um instante a sós, nem que fosse na cozinha — olhar-lhe nos olhos e saber que aquela noite tinha acontecido, que ela lembrava, que não fora invenção dele. Sua Bahar não se comportaria assim. Ela teria se traído com um gesto, um olhar. Mas essa Bahar, quase desconhecida, não deixava escapar nada.
Para ele, aquela noite era um farol. Não podia ter sido à toa. Ela não o teria levado para o quarto, não teria pedido amor, para depois agir assim. Precisava atravessar a parede que ela ergueu. E pedir? Por que permitira que ela tivesse de pedir? Pegou o olhar dela, finalmente — e entendeu: ela o colocara no pedestal… e o tirara de lá com a mesma facilidade.
Quis ajudar a tirar a mesa, mas o afastaram de maneira tão natural que só lhe restou levantar-se e sair do caminho. Depois, todos ficaram para o chá. Bahar comia pouco, mas comia. Ele, nada. Esperou pacientemente até que as pessoas começassem a se dispersar.
Quando Bahar enfim foi à cozinha, Evren pegou os documentos e, no caminho, cruzou com Yusuf, que praticamente lhe bloqueou a entrada — como se quisesse impedi-lo. Evren lançou-lhe um olhar duro e passou.
Parou na cozinha. O barulho da água não abafava as vozes na sala, mas ninguém invadia aquele espaço. Era a primeira vez, naquela noite, que estavam sozinhos.
Ela lavava a louça, sem se virar. Ele colocou os documentos sobre a mesa, abriu o armário, pegou um pano e simplesmente se colocou ao lado dela. Ela o olhou de relance, continuando o que fazia. E ele começou a secar prato por prato. Um leve sorriso passou por seu rosto — como antes, quando faziam tudo juntos: cozinhavam, arrumavam a mesa, tomavam café lado a lado.
Bahar terminou de lavar a louça e enxugou as mãos. Continuava em silêncio, enquanto o celular, sobre a mesinha ao lado do aquário, seguia emitindo sinais. Alguém claramente exigia a atenção dela — mas Evren queria que essa atenção fosse só dele.
Bahar se aproximou da mesinha e pegou o telefone. Evren virou-se com a última xícara nas mãos, secando-a. Ela desbloqueou a tela e franziu a testa, lendo algo. Depois contornou a mesa e sentou-se no banco, afastando a pasta que ele havia trazido. Continuava a ignorar tudo que vinha dele, assim como o próprio Evren… e, ainda assim, aceitara a ajuda dele na cozinha.
Ele sorriu. Encontrara as xícaras preferidas dela, ligara a cafeteira, colocara o pó. Sabia que, de soslaio, ela o observava — mas permanecia muda. Ele também. Fazia tanto tempo que não ficavam sozinhos numa mesma sala, sem que ninguém entrasse. E, quando isso finalmente aconteceu, ele percebeu que não sabia direito o que fazer.
Fez o café, colocou-o sobre a mesinha ao lado dela, depois trouxe um potinho com biscoitos e sentou-se junto.
— O que você está fazendo, Evren? — perguntou ela.
Por dentro, tudo nele vibrou ao ouvir a voz dela. Ela o olhou. Não se levantou, não saiu. Aceitou o café que ele preparara e servira para ela.
— Tomando café — respondeu ele, sem conseguir tirar os olhos dela. As sobrancelhas dela se ergueram levemente.
Havia quanto tempo não era assim? Só os dois, ela com roupas caseiras, enquanto na outra sala estavam os filhos e netos. A família dela… ainda só dela. Ele sorriu, embora seus olhos continuassem tristes.
O telefone dela apitou novamente, e Bahar baixou o olhar para a mensagem. Evren cerrou os dentes. Aquilo já beirava o limite da sua paciência. Lutava para se controlar, tentando entender o que o dominava. Não… ele sabia. Queria que ela largasse o celular e o olhasse, para que ele pudesse dizer o motivo de ter vindo — porque era importante. Muito importante. E disse em voz alta:
— Eu preciso de você, Bahar.
Ela se sobressaltou e desviou os olhos da tela. Reagiu — não como ele conhecia, mas de forma contida, como se tivesse enterrado os próprios sentimentos. Ainda assim, ele notou uma nota de tristeza no olhar dela. Isso o encorajou.
— Temos uma única chance — continuou, atento a cada microexpressão dela. — A paciente tem um processo aderencial severo. Eu não consigo sem você. Só você sabe como salvar nesse caso.
Bahar manteve o olhar firme no dele. Ele falava da paciente, mas parecia falar deles também. Ela inspirou, ele também. Ela soltou o ar, ele também. Respiravam juntos, na calma cortada apenas pelas vozes vindas da outra sala. A casa vivia, e Evren sentiu o calor desse ritmo.
— Não vim para te convencer — murmurou, sem desviar o olhar dos lábios dela. — Vim dizer que não farei sem você. Não porque eu não consiga… mas porque ela vai sobreviver se fizermos juntos.
Bahar o ouvia. Não se afastou. Não pegou mais o telefone. Apenas olhava nos olhos dele. Depois, levou a xícara aos lábios e bebeu um gole. Não era a varanda, mas eles voltavam a tomar café, voltavam a falar de trabalho… ou ao menos tentavam.
— Alya é minha paciente — prosseguiu Evren, puxando a pasta de volta. — Se errarmos, ela não sobrevive nem à anestesia.
Bahar ficou séria. Não lembrava de tal paciente — talvez tivesse aparecido enquanto ela estava ocupada com o funeral e com Esra.
— Eu também tenho uma paciente, Evren — respondeu enfim. — É um caso difícil: um dos gêmeos não recebe nutrição suficiente, mas está saudável; o outro tem uma patologia e precisa ser retirado. — Ela falava de modo quase mecânico, já resignada ao procedimento. — A mãe tem problemas cardíacos, o risco é altíssimo. Ela pode não sobreviver à cirurgia.
— O que há com o coração? — Evren tomou um gole de café.
Bahar balançou a cabeça:
— Se ela resistir, levar a gravidez até o fim e der à luz, então poderemos começar a procurar um doador. Mas o pai diz que é muito complicado — suspirou.
— Por que esperar tanto? — questionou ele. — O departamento já está funcionando. Posso incluí-la na lista, ela entraria na fila.
Bahar pousou devagar a xícara e virou-se para ele:
— Departamento? Lista? Do que está falando, Evren? — não queria fazer a pergunta, mas teve de fazê-la.
Meu Deus, como ela estava linda… Ele prendeu o fôlego com a proximidade dela. O coração acelerou, a respiração ficou mais profunda. Aquela faixa no cabelo… e a vontade dele de tirá-la, soltar os fios para que caíssem sobre os ombros… para que, ao beijar-lhe o pescoço, pudesse mergulhar neles.
— O quê? — interrompeu os próprios pensamentos. — O hospital abriu o departamento de transplantes.
Bahar estremeceu, ficando praticamente a poucos centímetros dele. Agora era ela quem reagia à proximidade, ao perfume dele, ao calor do corpo dele. Já ia se afastar, quando ele pousou a mão sobre a dela, detendo-a, impedindo-a de aumentar a distância.
— Quero conhecer a sua paciente — disse ele, apertando levemente a mão dela. — Podemos conduzir o caso juntos, como o meu.
Bahar pareceu confusa, e ele reconheceu esse traço. Quase sorriu, mas conteve-se. Para recuperar a confiança dela, precisaria de toda a paciência que tinha.
— Alya, 31 anos, falência múltipla de órgãos após resposta inflamatória sistêmica complicada por crise autoimune — continuou ele, acariciando com o dedo a palma dela para que não se afastasse. — Endometriose profunda e processo aderencial, risco alto de hemorragia durante transplante duplo.
Bahar escutava atentamente, sem interromper. Não perceberam quando Uraz espiou pela porta, seguido por Siren, que tocou o braço dele; atrás, apareceu Yusuf. Todos ficaram imóveis, ouvindo o relato do caso complexo.
— Aderências muito densas. Se forem lesionadas, ela pode morrer antes mesmo da incisão no fígado. Eu não a levo para a mesa sem você, Bahar — manteve o contato físico, a única concessão que ela lhe fizera. — Ela quer manter tudo, mesmo que nunca possa engravidar. Só precisa saber que pode. Eu prometi a ela. — Suspirou. — E à Jennifer. E sei que você não vai permitir que retirem o que pode ser preservado.
— O que Jennifer tem a ver com isso? — Bahar inclinou-se um pouco mais.
O nome a deixou tensa. Jennifer significava América — e, no entanto, ele ainda estava ali, diante dela, falando de um novo departamento. Não entendia nada além dos diagnósticos… mas então, por que falar em lista?
— Transplante duplo? — Uraz foi o primeiro a reagir, entrando na cozinha. — Me coloquem na equipe — pediu.
— Eu também quero participar — respondeu Siren, sem hesitar. — Professor, se precisar de ajuda, estou à disposição. Qualquer bloco, qualquer função.
Yusuf tentava esconder o tremor nos dedos, olhando em volta, aflito, à procura de uma caneta e um bloco para anotar tudo o que ouvia.
Evren mantinha os olhos em Bahar:
— Vim pedir a você como médico para médica — disse, ignorando todos os outros, ciente de que, de repente, despertara a curiosidade da família dela. Isso podia interessá-los ainda mais depois… mas, agora, só importava Bahar e o que ela sentia por ele, nem que fosse apenas como colega. — Você não abandona mulheres à beira do abismo — continuou. — Alya precisa de você. Eu preciso de você. Jennifer precisa de você.
— Mamãe é necessária para todos nós — disse Umay, entrando na cozinha e pegando uma maçã da fruteira.
Evren soltou a mão de Bahar com relutância. Só então percebeu que todos haviam migrado para a cozinha, exceto os pequenos, que deviam estar com a babá… uma pena. Teria gostado de segurá-los, mas haveria tempo para tudo. Ele sentira o leve tremor dela quando ela se inclinara na direção dele — e isso era suficiente por agora. O objetivo era Bahar, e com ela ele estava pronto para operar, para vencer ou fracassar, desde que fosse junto.
— O comitê aprovou a cirurgia. A logística já está resolvida. Jennifer embarca amanhã cedo com Alya — informou Evren, tomando um gole de café.
— A paciente vem dos Estados Unidos? — Bahar franziu o cenho. — No estado em que está? Evren… — levantou-se do sofá — …ela não vai sobreviver ao transporte. Como pôde permitir isso? — virou-se para ele.
Todos os olhares se voltaram para Evren. Só Umay, encostada na geladeira e mordendo a maçã, observava com curiosidade.
— Transplante duplo… — repetia Yusuf, os olhos brilhando de entusiasmo. Agora olhava para Evren como se ele fosse um deus.
— Se tudo correr bem — Evren pousou a xícara vazia na mesinha — e vai correr — disse, querendo acreditar —, conseguiremos a acreditação, o departamento receberá financiamento extra do fundo. Poderemos ajudar também a Esra. Dar a ela uma chance de levar a gravidez até o fim e dar à luz, Bahar. — Fixou-se só nela. — Vamos encontrar um coração para ela.
Os olhos de Yusuf se arregalaram ainda mais. Mal conseguia ficar parado, mordendo os lábios para não disparar perguntas. De repente, desaparecera a dúvida sobre morar na casa de Bahar. Sim, valia a pena. Agora ele entendia o que ela queria dizer quando falava de ter muitos médicos em casa, e de discutir casos assim. Queria que Evren fosse seu professor.
Bahar apoiou as mãos na mesa e inclinou-se para ele:
— Alya vai morrer no voo, Evren. Do que você está falando? — inclinou-se ainda mais.
Evren também se apoiou, aproximando-se tanto que suas testas quase se tocaram:
— Cápsula — disse apenas. — O conjunto de órgãos — coração e fígado com tipagem HLA compatível — já está a caminho de Perran. Bahar… sua palavra? — Olhavam-se nos olhos, apoiados na mesa, na cozinha dela.
— Bahar… — apressou Siren.
— Mamãe… — Uraz coçou o rosto, nervoso.
Todos pareciam prender a respiração, esperando a resposta dela.
— Você vai ficar no hospital? — Bahar percebeu, de repente. — Abriram um departamento só para você? E a Rengin concordou com isso? — a surpresa era evidente.
O murmúrio de decepção percorreu o ambiente — não era essa a resposta que esperavam.
— Então o Evren não vai embora, mamãe — constatou Umay, ainda comendo a maçã. — Vai ficar em Istambul.
Bahar ouvia e não ouvia a filha. Estava fixada no rosto de Evren, reparando agora nas olheiras, na barba por fazer — ele estivera barbeado naquela noite, ou teria arranhado a pele dela. Então ficara. Não tinha ido embora. Uma sobrancelha se arqueou, a outra manteve-se contraída. Ela puxou uma cadeira e sentou-se à frente dele. Evren sentou-se no sofá.
Bahar apoiou os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos, balançando-se levemente. Sentia vontade de pegar a pasta e analisar, mas ainda não compreendia exatamente a proposta dele. Afinal, ele vivia com Naz… mas agia de forma estranha com ela.
— Vamos fazer assim — Evren empurrou-lhe a pasta —: você analisa o meu caso, eu analiso o seu. Depois trocamos impressões.
Umay lavou as mãos e as enxugou na toalha, enquanto Siren, Uraz e Yusuf reviravam os olhos, ansiosos para conhecer o caso de Alya.
Bahar inclinou a cabeça e fechou os olhos por um instante. Tudo era instável… mas não podia negar que estava interessada. Não por vaidade médica, mas porque queria salvar vidas pelo valor que tinham, como com Esra. E se ela realmente tivesse uma chance — que Evren podia oferecer? Talvez Serhat não visse o óbvio, não por não querer, mas por não conseguir, como pai.
— Está bem — assentiu, finalmente.
Pegou o celular, desbloqueou-o, abriu a conversa com Doruk e estendeu para Evren:
— O Doruk me envia tudo — explicou. — Tem coisas na galeria. Veja. É a evolução de alguns dias. Amanhã ou depois farei a cirurgia; não podemos esperar mais, ou o segundo feto e a própria Esra estarão em risco.
Já abria a pasta de Alya. Uraz e Siren se inclinaram sobre os ombros dela, enquanto Yusuf se sentava ao lado de Evren, aproximando-se um pouco mais. Queria se lembrar de como se liam aqueles exames.
— Evren, Evren… — repetia Bahar, analisando os dados.
— Bahar… — ele levantou os olhos do celular —, Alya é sobrinha da Jennifer.
— Evreeeen… — ela prolongou o nome, colocando os óculos.
Yusuf olhava de um para o outro, sem entender nada. Queria ouvir alguma explicação, mas Evren permanecia em silêncio. Yusuf mexeu-se no assento, fitou Bahar, mas ela também não dizia nada. De repente, todos se calaram, imersos: uns na pasta, Evren no telefone. Uraz já se preparava para puxar uma cadeira, e Siren praticamente se pendurava em Bahar.
Ao passar as fotos, Evren congelou. Olhava, incrédulo, para a imagem de Naz, de avental, na cozinha dele. Yusuf pigarreou e desviou o olhar, afastando-se um pouco — estava vendo algo que não deveria.
— Saiam — ordenou Evren, de repente, com voz dura.
Bahar o encarou por cima dos óculos, surpresa.
— Pedi para todos saírem — repetiu ele, levantando-se e segurando o telefone dela.
Bahar franziu o cenho, ainda meio perdida na leitura do caso de Alya.
Yusuf recuou até a porta. Havia visto claramente a mulher bonita de avental e, ao lado dela, Evren. Uma foto banal… mas por que ele reagira assim? E por que aquela foto estava no celular de Bahar?
— Professor… — começou Uraz.
— Saiam — reforçou Evren, apertando o telefone.
— Uraz… — Siren segurou a mão do marido.
Bahar apenas assentiu. Fazia muito tempo que não via Evren daquele jeito, e ele não estava brincando. Não sabia, porém, o motivo. Assim que todos saíram, ele colocou o telefone diante dela e abriu a foto.
— O que é isso? — perguntou.
Bahar fechou os olhos por um momento, depois os abriu, soltando um breve riso, recostando-se na cadeira. Olhou para ele:
— Você está me perguntando? — replicou. — Está exigindo explicações? — a voz dela tremia. — Nessa foto não sou eu. E mesmo que fosse, eu teria esse direito — acrescentou, calma.
— A Naz não é minha amante — disse ele, baixando a voz e as palavras.
— Mas vocês moram juntos — retrucou Bahar, fechando a pasta.
— Eu não moro com a Naz — respirava com dificuldade.
— É o que você diz. Mas os fatos… dizem o contrário — ela nem tentou se levantar.
Tomaria um café, ou talvez o jogasse nele, se a xícara não estivesse vazia.
— De onde você tirou essa foto? — Evren estava agora de pé, atrás dela.

CAPÍTULO 2. PARTE 4

— Isso não importa — ela deu de ombros, olhando para os peixes.
— Importa sim, Bahar — Evren se inclinou e apertou seus ombros — importa muito, porque eu não moro com a Naz, não tenho nada com ela.
— Talvez você não more com ela — ela se esforçava para não reagir à proximidade dele — mas, pelo visto, ela sim. Evren, sério, não me interessam as relações de vocês.
— Eu não tenho relação nenhuma com ela, nenhuma, nunca tive e não tenho — ele lhe dizia isso praticamente ao ouvido. — Você acha mesmo que, depois da noite com você, eu iria me jogar nos braços de outra?
— Você foi embora, Evren — Bahar observou calmamente. — Foi embora, não explicou nada, não disse nada. Só hoje eu descubro que você ficou em Istambul, que tem um departamento lá, mas sabe… — ela parou por um instante e depois continuou — quer você fique ou vá embora, já não importa. Nada importa.
Ela estava calma demais. O tom, controlado demais. Ele estava pronto para gritar e quebrar tudo, e ela se tornara uma estátua de gelo: voz uniforme, tom nivelado, nenhuma emoção.
— Importa, Bahar, importa — sussurrou Evren e encostou a bochecha na dela.
— Já não importa mais. Considere que nada aconteceu — ela fechou os olhos, incapaz de não reagir à proximidade dele, à sua ternura, ao toque tão dolorosamente familiar.
— Aconteceu — ele assentiu e esfregou a bochecha na dela — aconteceu sim, lembro-me muito bem. Não preguei os olhos enquanto você dormia tranquila. Lembro de cada respiração sua.
— Evren, eu não acredito em você — murmurou Bahar, apertando os olhos com força para não chorar.
— Quem fez isso, Bahar? — ele exigiu a resposta.
— Você mesmo, Evren. Você fez tudo isso sozinho — sussurrou ela, mexendo-se de leve, como se quisesse se libertar dos braços dele.
— Eu… — ele cerrou os dentes e não terminou a frase.
— Você sempre vai embora, Evren — continuou ela. — Qualquer deslize meu, e você me dá as costas.
Agora ela estava sentada de costas para ele, e ele, de pé atrás dela, apertava seus ombros. Tão perto, a poucos centímetros um do outro, incapazes de se encarar.
— Vou fazer você acreditar — sussurrou ele junto ao ouvido dela. — Eu não vou mais embora.
— Isso são só palavras, Evren — ela abriu os olhos e voltou a olhar para os peixes.
— Mas eu vou ficar assim mesmo, aqui, com você, nesta casa, até que me aceite — ele fechou os olhos e encostou a bochecha na dela. — Eu preciso de você como mulher, como médica, como mãe, como pessoa. Preciso de todas as suas faces, Bahar.
— Não faça promessas vazias, Evren — pediu ela.
— Eu vou ficar assim mesmo, Bahar, mesmo que não seja já, como você decidir — ele se virou lentamente e encostou os lábios na bochecha dela, depois se endireitou e soltou suas mãos.
Ela não se virou. Evren pegou as xícaras da mesa e foi até a pia. Lavou-as, enxugou e colocou na prateleira. Encostou-se de costas na bancada e olhou para as costas retas dela. Ela estava em silêncio, ele também. Ele era paciente o bastante, ela sabia disso, mas não sabia para onde ele direcionaria dessa vez a sua vontade de ferro. Ela não acreditava nas palavras dele, nem nos seus gestos, mas acreditava no médico.
— Vamos para a sala de estar, lá, na mesa grande, todos vão ficar mais confortáveis — ele parecia ler seus pensamentos.
Ele se aproximou, ajudou-a a se levantar e empurrou a cadeira para o lugar. Estava pronto para entrelaçar os dedos aos dela, mas ela se apressou em afastar as mãos. Então, ele apenas indicou a sala com um gesto e pegou a pasta da mesa.
— Você não está pensando em se instalar na minha casa, está? — ela perguntou muito baixo.
— Você acomodou o rapaz, o Yusuf, se não me engano — observou ele — então deve haver lugar para mim também. Já podia ter nos apresentado.
— Ele mora no escritório — Bahar não ia ceder. — Não há quartos livres.
— Arranje um lugar para mim na sua casa! — o tom dele trazia notas de exigência. — No seu quarto tem um sofá — ele conhecia bem demais a casa dela, o quarto dela.
— Na sala de estar há vários — retrucou ela.
— Posso me ajeitar aqui mesmo na cozinha, ao lado do fogão. Aqui é quentinho, comida e café por perto, e você passa muito tempo aqui — ele tentou brincar, embora não estivesse com ânimo para isso.
— Você não desiste, não é? — perguntou ela baixinho, sem se virar.
— Nunca mais — ele estava pronto para beijar-lhe a nuca.
Ele queria abraçá-la, acalmá-la, convencê-la, mas sabia que ela não estava pronta para aceitar nada disso.
Assim que entraram na sala, todos os olhares se voltaram para eles, mas ninguém disse nada. Bahar foi a primeira a sentar-se à mesa, abriu a pasta, pegou uma caneta. Evren — ao lado dela. Os outros se aproximaram, como se nada tivesse acontecido, e começaram a discutir a operação em si.
Yusuf já desistira de tentar entender a relação deles; envolvido no planejamento da cirurgia, esqueceu o que tinha visto e ouvido. Umay se acomodou numa poltrona, desenhando algo no tablet. Parla desceu com a cabeça enrolada numa toalha. E mesmo quando Bahar se afastou da conversa para pentear-lhe os cabelos, continuou participando da discussão, defendendo seus argumentos.
Evren se deliciava com tudo aquilo — com a forma como ela controlava tudo sem revelar o que sentia por dentro. E ele não queria mais se afastar dela. Mesmo que ela ainda não o aceitasse, ele continuaria em sua casa… sim, por enquanto como hóspede…
***
…será que ela poderia ir até a casa de Bahar e tornar-se sua hóspede, assim como a filha dela?
Rengin esfregou os olhos, cansada, e afastou-se do monitor. Lá fora já fazia tempo que anoitecera, e ela ainda estava em seu gabinete, sem vontade de voltar para o vazio de sua casa. Sabia que Parla tinha se instalado provisoriamente com Bahar e, curiosamente, ela própria sentia-se atraída para aquele lugar onde havia calor, aconchego, conforto. Bahar, de algum modo, conseguia criar ao seu redor um ambiente de lar, não importava onde estivesse. Mesmo ali, no hospital, na sala dos médicos, era em torno dela que todos se reuniam. Ela se tornara para todos aquele fogo no centro da casa, que aquece e acolhe. O que havia nela que Rengin própria não possuía, ela não sabia dizer.
Levantou-se e foi até a janela. O que havia de tão especial em Bahar que até Timur, mesmo vivendo com ela, voltava-se de novo para Bahar? Suspirou. Agora nunca mais saberia. Timur não estava mais ali — nunca mais entraria, nunca mais escreveria, nunca mais ligaria. A história deles tinha terminado, e eles nunca tinham conseguido vivê-la de fato — tudo foi em pedaços, às escondidas, em segredo de Bahar. E quando surgiu a chance de formar com Timur uma família de verdade… simplesmente não deu certo.
— Não — sussurrou Rengin, afastando-se da janela.
Voltou para a mesa decidida a trabalhar a noite inteira nos documentos, só para não pensar, não se culpar, não tentar justificar de alguma forma as atitudes de Timur. Precisava deixar o passado, aceitá-lo e soltá-lo para poder seguir em frente. Conseguiu manter Evren, ou talvez ele mesmo quisesse ficar, mas juntos haviam conseguido: o novo departamento, que ontem existia apenas no papel, hoje já funcionava.
E agora, aquele caso.
Rengin pressionou as têmporas com os dedos. Queria acreditar em Evren, queria acreditar nele, mas como era difícil apoiar-se apenas na fé quando exames e protocolos diziam o contrário.
A leve vibração sobre a mesa a fez voltar devagar para a realidade, distraindo-a por um momento daqueles documentos que já estavam assinados — e que em poucas horas se tornariam vitais, pois o avião vindo dos Estados Unidos já estaria a caminho, e eles precisariam receber uma paciente para um transplante duplo… se ela sobrevivesse ao voo.
«Como está a Esra? Alguma evolução?» — uma mensagem curta de Serhat.
Simples, seca, médica. Rengin ficou olhando para aquela frase, tentando entender quem a havia escrito: o médico ou o pai? E como responder? A quem? Ao médico, ao pai? E por que ela estava pensando nisso? Nem teve tempo de começar a digitar — ele ligou, e ela atendeu.
— Estou ouvindo — Rengin fechou os olhos, apoiando os cotovelos na mesa.
— Como está a Esra? — a voz aflita de Serhat chegou nítida.
— Estável. Bahar está no controle de tudo — respondeu ela seca e formalmente.
— Bahar não apareceu no hospital — havia um tom leve de desaprovação em sua voz — é o Doruk que está com minha filha o tempo todo.
— Hoje enterramos Timur — Rengin baixou a cabeça, sem saber ao certo por que lhe dizia aquilo — Bahar também é humana, mas ela está cuidando da sua filha, Serhat. Está sempre em contato, acompanha todos os exames. Mais que isso, provavelmente amanhã será Bahar quem fará a cirurgia.
— Não — respondeu ele, brusco. — Não, não comecem sem mim! Vou chegar o mais rápido possível, mas preciso de tempo.
— Serhat, você é o pai da Esra, mas não vou permitir que esteja na cirurgia! — Rengin abriu os olhos e girou uma caneta entre os dedos.
— Eu vou estar lá! — não era um pedido, era uma ordem.
— Do que você tem medo, Serhat? — ela foi direta demais.
Ele não respondeu. Então ela continuou:
— Esra, sua filha, escolheu Bahar como médica. Ela confia nela. Confie você também — pediu com calma, procurando a pasta do caso de Esra sobre a mesa. Ao encontrá-la, abriu — todos os protocolos estão sendo seguidos, Serhat.
— Não se trata de protocolos — a voz dele mudou.
— Eu entendo — o tom de Rengin suavizou — é difícil controlar os outros… — suspirou — mas tento acreditar neles. Quando tudo desmorona, sempre há alguém em quem podemos nos apoiar. E eu confio em Bahar e em Evren.
— Evren? Evren Yalçın? — ele repetiu. — Ele também vai estar na cirurgia?
— Evren? Não. Essa é a cirurgia de Bahar. Ele tem a própria — está preparando um transplante duplo para uma paciente dos Estados Unidos.
— Não — a voz dele voltou a ser categórica. — Não, Rengin — não deixe Evren Yalçın chegar perto da minha filha — pediu.
— Não estamos falando de transplante de coração para sua filha, mas ela… — Rengin não terminou.
— Não. Eu vi como vão embora aqueles que recebem um transplante. Eu operei tantos corações, retirei tantos para transplante… e nem todos se adaptaram. Ainda mais no caso da Esra. Não a iludam, não deixem Evren chegar perto dela. Ele vai dar uma falsa esperança. Não!
Rengin piscou e levantou-se. Começou a andar pelo gabinete, ouvindo-o. As emoções dele a contagiaram.
— Eu sei como Evren Yalçın trabalha. Não! — concluiu Serhat.
— Ele é um bom médico — disse Rengin. — Um profissional. Você não pode decidir por sua filha, mesmo sendo o pai. Se chegarmos ao ponto de transplante, será Evren Yalçın quem cuidará dela — falava em frases curtas, quase como se ditasse um relatório.
— Você fala como uma administradora — comentou ele, com certo desagrado.
— E eu sou, Serhat — Rengin sentou-se no braço do sofá, cruzando as pernas. — Continuo em movimento, não porque não possa parar, mas porque não há outra opção.
— Ele não sabe parar. Ele vai tentar salvar, mesmo quando é hora de deixar ir! — disse Serhat, num desabafo.
— E talvez seja exatamente isso que você e Esra precisem — retrucou Rengin — que Evren vá até o fim, como Bahar encontrou uma saída para sua filha?
— Isso não é questão de técnica. É sobre a Esra, minha filha. Ela não é experimento de ninguém. Não é redenção. Não é oportunidade para alguém provar alguma coisa — as palavras dele atingiram em cheio.
Rengin balançou a cabeça, como se quisesse afastá-las, mas sabia que havia verdade nelas. Afinal, fora isso que decidira ao confiar em Evren — autorizando a transferência da paciente, permitindo que ele agisse como queria. E aquilo podia ser tanto o fracasso quanto uma nova chance.
— Por que acha que Evren precisa provar alguma coisa? — perguntou ela, afastando os próprios receios. — Ele só está fazendo o trabalho dele. Como você fará quando assumir o cargo! Não é ele que o assusta, é a chance que sua filha tem — suspirou — entendo o seu medo, mas a pergunta não é para ele, é para você.
Rengin tirou um sapato e mexeu os dedos. A conversa tinha sido pesada, deixando-lhe um gosto amargo. Serhat exigia dela, e ela sabia que trabalhar com ele não seria fácil.
— Você disse que enterrou Timur — ele quebrou o silêncio, mudando bruscamente de assunto — como você está? — fez uma pergunta muito pessoal.
Rengin ficou imóvel e endireitou-se, a postura rígida, o olhar fixo no nada:
— É a primeira vez que alguém me pergunta isso — admitiu, piscando — não achei que gostaria que me perguntassem.
— Você disse “nós”, então ele foi importante para você — ele soltou o ar, como se aliviasse a pressão.
Rengin tocou o pescoço com a mão:
— Importante, como pai da minha filha — não sabia por que estava dizendo aquilo.
— Meus pêsames. Eu sei como é perder alguém próximo — disse ele, e o silêncio voltou.
Rengin foi quem se despediu primeiro, apertando o telefone na mão. Voltou-se para a janela, ainda sentada no braço do sofá, olhando a escuridão da noite, as luzes da cidade, sentindo a insegurança e o medo recuarem pouco a pouco, dando lugar à esperança.
Sentiu que, naquela conversa, pela primeira vez em muito tempo, não se explicara, não se justificara — apenas fora ela mesma. Então sabia que conseguiria. Que daria conta de tudo. Teria sua própria equipe: Bahar, Evren, Serhat, Uraz, Siren, Doruk e muitos outros médicos. Montaria um quadro tão sólido que o prestígio do hospital subiria ainda mais.
Rengin sorriu, sentindo-se, pela primeira vez, parte de sua própria equipe — que talvez ainda não fosse completa, que talvez nem soubesse que era uma equipe… mas que um dia, com certeza, seria.
***
— Já somos praticamente uma equipe — disse Evren com a voz cansada, lutando para conter um bocejo.
Os olhos dele estavam vermelhos. Já tinha tomado várias canecas de café, mas nem isso o ajudava a vencer o sono. A mesa da sala de estar de Bahar estava coberta de papéis. Tinham impresso tudo o que Jennifer enviara. Enquanto analisavam, consultavam no tablet de Umay o modelo 3D dos órgãos, girando-o de todos os ângulos. O roteiro da cirurgia já estava praticamente definido.
— Sim — Uraz espreguiçou-se e levantou-se da cadeira — vai ser uma cirurgia muito longa.
— Todos nós precisamos descansar bem antes dela — Siren apoiou a cabeça no ombro do marido, quase adormecendo.
Apoiando-se mutuamente, subiram para o andar de cima. Bahar sorriu ao vê-los sair, depois recolheu em silêncio as canecas sujas e levou-as para a cozinha. Involuntariamente, esperava que ele a seguisse, que voltassem a ficar juntos na cozinha. Quase sorriu ao ouvir passos; suas mãos pararam, e ela ficou imóvel, deixando a louça na água. A respiração ficou irregular, o coração acelerou… ainda reagia a ele. Engoliu seco e… suspirou, voltando a lavar as xícaras. Mas quem entrou na cozinha foi Yusuf. Trazia umas pequenas tigelas e, depois, foi ele quem pegou o pano e secou todas as xícaras e pires.
— Amanhã vou ver o que há de errado com a máquina de lavar louça — disse baixo, bocejando e cobrindo a boca com a mão. — Vou consertá-la — olhou para as próprias mãos, um pouco sem jeito, e acrescentou: — Se não conseguir, teremos de chamar um técnico.
Bahar assentiu, secou as mãos e nada respondeu; simplesmente aceitou. Seu olhar foi para o vão vazio da porta. Ele não viera, não pedira mais nada, mas também não tinha ido embora… Então o que queria? Ou será que tinha ido, em silêncio, como preferia fazer antes? Franziu levemente a testa e voltou para a sala… já estava pronta para ver a cadeira vazia… mas não, ele estava ali. A cabeça caída para a frente. Bastara fechar os olhos para adormecer.
— Evren? — ela tocou o ombro dele, e ele quase tombou sobre ela. Bahar só teve tempo de se pôr ao lado, abraçando-o para não deixá-lo cair. — Evren… — sua mão tocou os cabelos dele — há quanto tempo você não dorme? — murmurou, olhando para trás.
— Bahar, vou dormir… — Yusuf saiu da cozinha, viu-a segurando Evren e se aproximou imediatamente.
— Ajuda-me — pediu ela, segurando Evren de um lado enquanto Yusuf o apoiava do outro. — Evren, por favor, levanta… — disse baixo, tentando não interromper o sono dele.
Sabia muito bem que médicos conseguiam adormecer assim, num instante, depois de muito tempo sem dormir — e que, com ajuda, conseguiam andar mesmo dormindo. Evren resmungou alguma coisa, mas movia as pernas; a cabeça balançava no ritmo dos passos.
Quase o deixaram cair quando cada um tentou conduzi-lo para um lado diferente — Yusuf para a escada, Bahar para o sofá. Ficaram imóveis, olhando um para o outro, sem entender.
— Ali — Bahar indicou com a cabeça o sofá.
— Por que não lá em cima, no seu quarto? — perguntou Yusuf, bocejando.
— O quê? — Bahar quase o largou.
— Ah… — Yusuf despertou de repente; o rosto ficou vermelho. — Não foi isso que quis dizer, desculpe.
Bahar soltou o ar, sem querer saber por que ele achava que Evren devia dormir no quarto dela. Conduziram-no até o sofá e o sentaram. Yusuf desapareceu assim que se certificou de que Evren estava seguro e não corria risco de cair no chão.
Bahar nem teve tempo de falar — o rapaz já tinha sumido escada acima, deixando-os a sós.
— Teimoso do inferno — murmurou ela para si mesma, jogando uma almofada no sofá — conseguiu o que queria — resmungou, ajeitando a cabeça dele no travesseiro e, em seguida, levantando-lhe as pernas. — Fez de tudo para eu acabar te dando um lugar na minha casa, Evren.
Bahar estava quase com vontade de bater nele, mas apenas ajeitou as pernas dele e sentou-se. Desatou os cadarços, tirou-lhe os sapatos e os colocou no chão ao lado do sofá. Ele não se mexia — apenas dormia, deixando que ela fizesse o que quisesse. Suspirou, pegou uma manta leve e cobriu-o. Ficou um instante a observá-lo dormir no sofá da sua sala. Sabia muito bem que Evren não dormira por vários dias, mantendo-se firme para concluir o trabalho… mas piedade era a última coisa de que precisava agora.
Virou-se bruscamente e subiu para o quarto. Fechou bem a porta… estava prestes a se afastar, mas voltou e girou a tranca. Só depois de testar a maçaneta, certificando-se de que estava bem fechada, foi para o banheiro, tirando a roupa pelo caminho. Nem sabia ao certo de quem estava se trancando: dele… ou de si mesma.
***
…e ela realmente voltou a fugir… fosse de si mesma ou dele, nem tentou entender.
Bahar acordou muito cedo, tomou um banho rápido e desceu. A primeira coisa que fez foi verificá-lo — ele dormia. Estava exatamente na mesma posição em que ela o deixara na noite anterior, sem sequer ter se mexido. Bahar sorriu e passou em silêncio para a cozinha.
Preparou o café da manhã às pressas, cuidando para não fazer barulho e não interromper o sono de Evren. Ainda não estava pronta para falar com ele. Sim, sabia agora que ele ficara, sim, tinha entendido que ele trabalhava no hospital e que teria seu próprio departamento, mas ela também tinha suas próprias responsabilidades. Como mãe, já tinha feito tudo o que precisava fazer.
Bahar sorriu ao olhar a mesa posta. Conferiu novamente os talheres, certificando-se de que havia para todos. Só então pegou a bolsa e saiu de mansinho para a rua, decidida a cuidar de suas obrigações como médica.
Já estava quase na porta quando sentiu seu cotovelo preso por uma mão firme.
— Fugindo? — a voz rouca, ainda sonolenta de Evren, quase lhe tirou o chão sob os pés.

CAPÍTULO 2. PARTE 5

— O quê? — ela se virou, olhando para ele por cima dos óculos.
— Para onde você vai com tanta pressa? Por que não me acordou? — ele esfregou os olhos, ainda sem ter despertado direito.
Bocejou, parado no batente da porta da casa dela. Só que, desta vez, era ele quem estava dentro e ela já do lado de fora.
— O café da manhã está na mesa — ela apontou com o dedo por cima do ombro dele, na direção da cozinha.
— Espera por mim, me dá uns cinco minutos e vamos juntos — Evren não pretendia deixá-la ir embora.
Ela o olhou por cima dos óculos:
— Você tem tempo, eu não — respondeu com calma — e, claramente, precisa de um banho e de roupas limpas — observou Bahar, proibindo-se de sentir pena dele, evitando reparar no seu aspecto amassado. — Desculpa, estou com pressa — virou-lhe novamente as costas.
— Eu queria discutir sobre a sua paciente — Evren tentou ajeitar os cabelos com a mão.
— Então é o seguinte — ela se irritou visivelmente — café da manhã, banho, e eu vou para o hospital. Lá a gente se encontra. Por que está tão preocupado? Você acha que vou fugir para mais longe que o hospital? — avançou um passo na direção dele. — Ou está com medo de voltar sozinho para sua casa, já que a Naz está lá, e ter de se explicar?
Evren também deu um passo na direção dela, atravessando o batente:
— Eu não moro com ela! — sussurrou, sem desviar o olhar dos lábios de Bahar. — Nunca morei. Será que você quer acreditar nisso só porque é mais fácil? — aspirou o ar — ou será que tem medo de ir comigo, de ficar sozinha comigo na minha casa?
Bahar sorriu de canto, controlando-se para não ceder, resistindo à vontade de abraçá-lo:
— Evren, você não precisa me provar nada. Ainda não entendeu? — tentou recuar, mas ele não a deixava.
— E se eu quiser? — Evren molhou os lábios, aproximando-se ainda mais, os olhos fixos nos dela — e se eu não quiser tirar você do meu campo de visão?
Ela engoliu em seco e apoiou as mãos no peito dele:
— Vai ter essa oportunidade — concedeu, inclinando-se levemente. — Te vejo no hospital — empurrou-o de leve e escapou.
Evren resmungou atrás dela, enquanto Bahar seguia seu caminho, sorrindo. Pela primeira vez em seis meses, havia leveza no seu passo…
***
…mas a leveza desapareceu assim que ela cruzou a porta do hospital e mergulhou nos casos dos pacientes. Doruk entrou apressado em seu consultório com um monte de prontuários, mas a primeira coisa que ela pediu foram os dados de Esra… e eles não a alegraram em nada.
— Ele prometeu estar comigo — soluçou Esra, deitada de lado, de costas para Bahar, olhando pela janela. — E agora ele está a caminho… — encolheu as pernas; se pudesse, teria abraçado os joelhos ao peito. — E se ele não chegar a tempo?
Esra tinha vindo a Istambul para ficar com Bahar, fugindo do pai, mas agora era justamente da presença dele, do seu apoio, que mais sentia falta.
— Não podemos mais esperar. Agora é o momento mais adequado — Bahar estava prestes a sentar-se na beira da cama e pousar a mão no ombro dela, como mãe, como pessoa, não como médica, mas conteve-se. — Você já tomou a sua decisão.
Esra virou-se e a olhou:
— A senhora disse que um dos fetos está se desenvolvendo normalmente, e o outro… — a voz falhou, os olhos encheram-se de lágrimas — eu nem sei como chamá-lo.
— Minha querida — Bahar acabou sentando-se na cama; sua mão pousou sobre o ombro da jovem — isso não é culpa nem sua, nem dele. O segundo feto nunca foi viável desde o início.
Esra levou a mão à boca, chorando baixo:
— Mesmo assim me sinto uma assassina… como se estivesse escolhendo um e… simplesmente desistindo do outro.
— Você não está escolhendo, Esra. Está preservando — Bahar a olhava com atenção. — O segundo feto tem múltiplas anomalias de desenvolvimento, incompatíveis com a vida. Um tem chance. E você também. Precisamos reduzir a carga sobre o miocárdio, Esra. Esse é o único caminho certo.
— Síndrome da transfusão feto-fetal… síndrome do gêmeo — assentiu ela, tentando não desabar. — Eu já tinha ouvido tudo isso, mas, por mais que se explique, ainda tenho muito medo… e ele não está aqui comigo.
Bahar suspirou e abriu os braços, esquecendo que, minutos antes, decidira não cruzar essa linha. Esra se ergueu e caiu em seu abraço. Bahar sabia que não se devia criar um vínculo tão próximo com a paciente, mas também percebia que aquela moça precisava de um pouco de cuidado, de algo quase materno, de que fora privada desde o nascimento.
— É um caso raro, mas não sem esperança. Nós já preparamos tudo. Você só precisa acreditar. O resto é por nossa conta — tirou as luvas e passou a mão pelos cabelos dela, ajeitando-os.
— Você não é como meu pai — sussurrou Esra, segurando-lhe a mão — você é mais calorosa.
Bahar soltou-a devagar e se afastou. Levantou-se e enfiou as mãos nos bolsos do jaleco:
— Esra, eu não vou recuar — disse, virando-se para sair do quarto.
Seguiu direto para o setor onde Çagla permanecia desde a internação, sem ter saído do hospital. Virou à direita e parou ao ver Evren abraçando Çagla.
— Você sabe que foi insuportável — ouviu a voz dela.
Bahar se encostou à parede e andou lentamente na direção deles, tentando não fazer barulho. Havia muito tempo que não os via juntos, e não queria atrapalhar… mas também não conseguia simplesmente ir embora. Aquela cena a puxava para perto, lembrando tempos em que os três eram felizes.
— Não mude, Çagla — pediu ele — apesar de tudo, por mais difícil que seja.
— Se você tivesse ficado naquela época, tudo teria sido diferente — ela ainda se mantinha colada nele. — Mas estou feliz que tenha voltado… e ficado.
— Eu não sabia que voltar seria tão difícil — ele fechou os olhos, como se relaxasse pela primeira vez desde que chegara dos Estados Unidos.
— E eu não sabia — ela se afastou um pouco, mas manteve as mãos nos ombros dele — que você era capaz de guardar tanta dor… mas agora vejo. — O olhar ficou triste. — Só não entendo por quê.
Ele abriu os olhos e fitou-a:
— Eu me seguro… — disse baixo — não porque seja forte… — os olhos avermelhados — mas porque não quero destruir mais nada ao meu redor.
— Evren — Çagla o abraçou de novo, fechando os olhos — você não imagina a falta que senti de você… de você vivo e verdadeiro.
— Acho que ainda não voltei… — confessou — não consigo voltar.
Eles permaneciam abraçados no corredor, perto do quarto de um sobrevivente ainda inconsciente. Bahar estava quase ao lado deles quando os dois sentiram sua presença e se viraram juntos.
— Olha só quem chegou — Çagla deu um tapinha no ombro dele, sorrindo, mas com o olhar triste. — O diagnóstico mais difícil da sua vida, não é, Evren?
Ele deu um passo para o lado, cedendo espaço para Bahar se colocar entre eles. Estava barbeado, vestia uma camisa de linho bege e calças um tom mais escuras, por cima o jaleco. Ajustou o colarinho sem desviar o olhar, como se deixasse Bahar inspecioná-lo, checando se seguira todas as recomendações, e só então respondeu:
— Não é um diagnóstico, Çagla. — O olhar preso em Bahar. — É um estado crônico, que não requer tratamento. Só aceitação.
— Até com estágios, Evren? — por um instante, Çagla voltou a ser a de antes; seus olhos brilharam.
— Sim. E quero muito a remissão — assentiu ele, resistindo à vontade de tocar a mão de Bahar, tão perto estava.
— Diagnóstico é algo que se trata — interveio Bahar.
— E o que é, para você, remissão? — insistiu Çagla.
— É quando ela está perto — disse Evren, baixo. — Aquele raro estado em que consigo dizer quem sou, quem quero ser… quando consigo respirar… quando meu coração funciona direito.
— E é justamente sobre o coração que eu queria falar — Bahar respirou fundo e olhou para Çagla. — Querida, você precisa descansar um pouco. — Deu um passo e abriu os braços.
— Estou bem, meu passarinho — respondeu Çagla, abraçando-a.
— Siren vai trazer suas coisas. Mas, Çagla — Bahar se afastou só o suficiente para olhar nos olhos dela — é preciso aceitar, minha querida.
Falava com a voz mais suave possível, sem desviar o olhar.
— Eu não posso ir embora, não posso — sacudiu a cabeça. — Não enquanto ele não acordar.
— Ele vai acordar, vai ficar bem. O professor Evren vai acompanhar o estado dele de perto — Bahar lançou um olhar a Evren.
Não conseguiu não olhar. Ele estava irresistivelmente atraente. E aquele perfume dele… ficara nela quando ele abraçara Çagla, e agora Bahar o absorvia ao abraçar a amiga.
— Estou pronto — disse ele, sério — tanto para o coração quanto para o paciente. — Como se lembrasse que estava ali, ao lado, sem se intrometer, até ser chamado.
— Evren, não é hora para brincadeiras — irritou-se Bahar, e Çagla se endireitou, recuando um passo. — O coração da Esra pode não aguentar! E esse paciente pode não acordar! E ainda a sua paciente… de novo coração, e ainda o fígado… — respirou fundo, tentando se acalmar. — Por que todos têm problema no coração? E não ouse me olhar assim! — ainda estava zangada. — Acha que devo estar feliz porque você ficou?
— Só estou ao seu lado, Bahar — ele quase tocou a mão dela, mas ela colocou na dele o prontuário de Esra. — Vou continuar ao seu lado.
— Se tanto se interessa por corações, estude um de verdade — disse ela, voltando-se para Çagla. — Querida — a voz ficou mais doce, embora ela ainda tremesse, o que não escapou a Çagla — vamos para o meu consultório.
Evren as acompanhou com o olhar. Bahar levava Çagla pelo braço — e o sorriso dele se suavizou, o olhar se acalmou. Ele percebeu a emoção dela: estava irritada. O que significava que não se escondia mais atrás da frieza, não fingia indiferença… e isso, por enquanto, bastava para que ele não desistisse… mesmo que fosse à distância.
***
…ele avaliava atentamente a distância da casa de Bahar até o hospital, calculando quanto tempo levaria para ir de manhã com seu carro velho. Yusuf tinha se instalado na cozinha, servido uma grande caneca de café e espalhado sobre a mesa os resumos que conseguira preparar no dia anterior, anotando fragmentos de frases enquanto acompanhava de perto a discussão sobre a futura cirurgia. Tentava não pensar no fato de que, naquela manhã, ninguém se lembrara dele, como se todos tivessem se esquecido, embora tivessem prometido que ele teria prática antes do início das aulas.
Bem, nem todos — Bahar se lembrara dele, colocara um lugar à mesa para ele, mas não estava lá. Quando desceu, encontrou Evren sozinho, terminando o café de pé junto à mesa, comendo o resto do café da manhã. Evren lançou-lhe um olhar sério, apenas acenou com a cabeça, colocou a xícara na pia e saiu, sem dizer mais nada. Yusuf simplesmente não o entendia. Evren falava pouco com todos, mas muito quando o assunto era medicina. Cada frase era direta, com peso. Yusuf notara que a própria Bahar ouvia atentamente seus argumentos, mas também que Evren prestava atenção quando ela se opunha às suas decisões. Observar os dois juntos era fascinante. Ele sorriu, lembrando-se da discussão que tiveram sobre a cirurgia de Aliya — e também de Jennifer, cuja presença parecia incomodar Bahar de forma especial.
Yusuf colocou a xícara sobre a mesa e pegou uma folha em branco tamanho A4. Minutos depois, os primeiros contornos de um coração começaram a aparecer. O lápis quase não tocava o papel enquanto ele desenhava de memória o coração de Aliya. Achou curioso que Bahar tivesse deixado Evren lá embaixo. Mais curioso ainda fora a reação dela quando ele tentou levar Evren para o quarto dela, e ela — para o sofá. Entre aqueles dois havia claramente algo acontecendo, mas o quê?
— Você está desenhando? — Umay entrou na cozinha.
— Sim — sorriu Yusuf — aqui é o lugar mais tranquilo.
— Mamãe também gosta da cozinha, especialmente desse cantinho — Umay abriu a geladeira e pegou uma jarra de água gelada. — Quer que eu sirva um pouco?
— Não, obrigado, já tenho meu café — ele se afastou um pouco, cedendo espaço para que Umay se sentasse ao lado dele. — Está tudo bem com você?
Umay olhou de lado para ele, sem virar totalmente, e voltou-se para o desenho.
— Está tudo bem — disse, passando o dedo pelo contorno do coração. — Mamãe vai organizar tudo, não se preocupe — repetiu.
— Para vocês todos é tão importante que eu fique… — Yusuf apoiou os cotovelos na mesa, segurando o lápis — e, por enquanto, só consigo consertar o que está quebrado. Consegui arrumar a máquina de lavar louça — contou. — Tinha uma borracha solta, troquei, limpei tudo e agora está perfeita.
Umay assentiu:
— Mamãe ainda gosta de lavar a louça à mão às vezes, isso acalma ela — pegou o desenho — mas você fez bem, ela vai ficar contente. — Observou o esboço. — Você desenha muito bem, é uma ótima visualização. Acredite, em poucos dias você vai começar a acompanhar todos, só dê um tempo para a mamãe.
— Ele ainda acha que pode simplesmente me mandar mensagem… não entendo — Parla entrou apressada na cozinha e parou ao ver Yusuf e Umay à mesa.
Umay pousou a folha sobre a mesa e recostou-se na cadeira, observando a irmã e entendendo de imediato de quem se tratava. Desta vez Parla não escondeu que Cem lhe escrevera.
— Ele não veio ao enterro do pai, e agora escreve como se nada tivesse acontecido — suspirou, sentando-se ao lado de Yusuf. — Me faz sentir culpada.
— E o que ele escreveu? — perguntou Umay e, depois de pensar, acrescentou: — Quer saber? Não importa o que ele escreveu. Não importa mesmo. — Cruzou os braços e cruzou as pernas.
Yusuf olhou para Umay, depois para Parla. Estava entre as duas, preso, sem ter como se levantar e sair; teve de ficar e ouvir.
— Ele disse que ficou completamente sozinho — Parla largou o telefone na mesa, ignorando as notificações. — É verdade que ele pediu demissão?
— Pediu? — Umay ergueu as sobrancelhas. — E de quem é a culpa?
— Ele escreve de um jeito que nem dá vontade de responder — admitiu Parla.
Umay se inclinou para frente para encarar a irmã:
— E ele não te disse o motivo? — agora ela também sentia a raiva crescer. — Ele aprontou tanto… — parou, engolindo o resto da frase, e recostou-se de novo.
— O quê, exatamente? — Parla também se inclinou, tentando capturar o olhar dela.
— Não basta ele não ter vindo ao enterro do papai? — Umay voltou a se inclinar.
— Será que vocês não podem sentar uma ao lado da outra? — interveio Yusuf, mas elas o ignoraram.
— Tudo bem eu, ele estar bravo comigo, mas você é amiga dele — lembrou Umay — e ele não foi nem até você, nem até mim, Parla. Isso é amigo? Um amigo que te faz sentir culpada?
— Escutem — Yusuf bateu na mesa com a mão — você não precisa se justificar para ele — olhou primeiro para Umay e depois para Parla — e você muito menos. Vocês são família, e isso importa. E também importa estar presente nos momentos mais difíceis. Eu… — levantou-se, obrigando Umay a soltá-lo — vou para o escritório. — Recolheu os papéis da mesa, pegou a caneca de café e saiu da cozinha.
Umay e Parla o acompanharam com o olhar. Depois, Umay pegou o copo de água e bebeu um gole.
— Não vai me dizer o que mais o Cem pode ter aprontado? — Parla estendeu a mão para o telefone, mas não chegou a tocá-lo.
Umay deu de ombros:
— É curioso você não me culpar… afinal, fui eu quem disse — lembrou.
Parla se aproximou dela e virou-se de lado:
— Todo mundo sabe que você não quis nada de mal para o Evren — sussurrou.
— O Cem não entende isso — respondeu Umay, virando-se para ela.
— Talvez ele só estivesse procurando um motivo — disse Parla baixinho.
Umay suspirou:
— É mais provável… — admitiu — tomara que eu esteja enganada.
Parla suspirou e abraçou Umay. Não disseram mais nada. Apenas o telefone de Parla continuava a vibrar, anunciando outra mensagem…
***
…precisava contar, precisava compartilhar. Não conseguia guardar tudo aquilo para si.
— É tudo rápido demais! — Doruk entrou na sala dos médicos, agitado. — Ontem: América. Hoje: consultório em frente e um departamento inteiro. E ela já está discutindo pacientes com ele! — jogou o prontuário de Esra sobre a mesa.
— Estamos falando da vida de uma paciente, Doruk — Siren pegou o prontuário e o abriu. — Esra é candidata a transplante de coração.
— Não é dos pacientes que estou falando! — indignou-se Doruk. — Achei que tivesse acabado, que eu tivesse uma chance… mas com ele ela é diferente!
— O que você quer dizer com isso, Doruk? — Uraz se endireitou na cadeira. — Está falando da minha mãe — lembrou.
— A voz dela muda quando fala com ele — Doruk parecia nem ouvir Uraz — comigo é como se estivesse dando instruções, mas com ele… é diferente. Até agora, falando sobre a paciente, eles conversavam numa espécie de linguagem própria. O que significa isso de “eu estarei por perto”? Por que ele tem que estar na cirurgia? Ele nem faz parte da equipe!
Siren e Uraz trocaram olhares. Talvez antes tivessem concordado com Doruk, mas ontem à noite tinham visto outra coisa.
— Doruk — Evren apareceu à porta — preciso do último exame cardíaco de Esra, todos os parâmetros.
Doruk se virou para a voz, endireitando-se como se pudesse parecer mais alto:
— Professor, o senhor se adaptou rápido demais — não queria obedecer tão facilmente. — Essa é uma paciente da Bahar.
— E minha futura paciente também — disse Evren com calma.
— Quer dizer que agora este é o seu território? — a respiração de Doruk acelerou, ficou rasa. — Eu também tenho meu consultório, a Bahar tem o dela. Nós já não somos assistentes, professor.
— Cada um tem seus pacientes, Doruk — rebateu Evren — e o coração não está só no peito de Esra; há outros órgãos além do coração. — Sorriu, depois ficou sério. — Doruk, isso é importante para a paciente, é importante para a Bahar. Traga-me os exames e me dê acesso a toda a evolução, não só aos últimos dados. — Deu as instruções e saiu.
— Viram? Viram? Ele já está mandando em tudo aqui! — irritou-se Doruk. — “Importante para a paciente, importante para a Bahar”, como se eu não soubesse!
Siren deu de ombros:
— Eu fico do lado do professor. Quero entrar para a equipe dele — disse num tom desafiador. — É um caso interessante, e claramente não é o único.
— Eu também — animou-se Uraz. — Transplante duplo — fez um gesto com o dedo — ainda fico repassando mentalmente cada etapa da cirurgia.
Doruk cruzou os braços:
— Eu fico na equipe da Bahar — soltou. — E hoje temos cirurgia, não vou perder de jeito nenhum!
— Boa sorte — Uraz deu um tapinha no ombro dele — mas, por enquanto, leva logo os exames para o professor. Ele não pode perder tempo correndo atrás de você, Doruk.
Siren olhou pensativa para o marido. Até ontem ele estava desconfiado de Evren, mas bastou o professor compartilhar um caso médico para Uraz mudar de lado. Enquanto isso, a própria Bahar continuava extremamente cautelosa ao falar com Evren — não o deixando se aproximar demais, mas permitindo que ficasse por perto. E, surpreendentemente, Evren não parecia ter a menor intenção de recuar…
***
…ela não podia mais recuar — tinha de fazê-lo: retirar um dos fetos para dar chance ao outro. Dar a Esra a possibilidade de ser mãe. Havia dias que se preparava para isso, emocional e psicologicamente.
— Parâmetros instáveis — Bahar e Rengin analisavam juntas os exames de Esra. — O coração não vai aguentar mais um pico de pressão. A pressão arterial está instável — a amplitude oscila, a FC é irregular, a dispneia aumenta.
— Você excluiu TTTS, mas sem a redução do segundo feto… a sobrecarga do ventrículo direito da mãe será inevitável — observou Rengin.
— Preciso de um cardiologista — Bahar olhou para Rengin.
— Serhat está a caminho — informou.
— Não estou falando do Serhat — Bahar levantou-se. — Ele não pode entrar na sala cirúrgica. Eu não tenho direito a erro.
— Eu não disse que ele estaria — Rengin refletiu. Apenas repassava a informação que ele pedira para não começarem sem ele.
— O risco pré-operatório pela ASA é, no mínimo, classe III. Pedi um anestesista com experiência em ICC — continuou Bahar.
— Ela não vai tolerar ventilação mecânica se o coração falhar. Só uma tática de precisão — Rengin olhou para Bahar. — Professor Reha?
— Já está se preparando — Bahar manteve-se ereta. — Doruk deveria ter avisado. A sala já está pronta — fez uma pausa, decidindo se devia ou não falar, e acabou revelando: — Evren está estudando o prontuário de Esra; considera colocá-la na fila para transplante.
Rengin franziu o cenho. Serhat era contra o transplante, e elas ainda não tinham discutido isso a fundo.
— Sabe… — Bahar já estava perto da porta — o novo departamento é uma boa oportunidade para o hospital.
— Bahar — Rengin a fez virar-se — Evren tinha seu próprio departamento na América, era chefe, e mesmo assim escolheu o nosso hospital. Decidiu começar do zero. Equipe, base, pacientes.
Bahar apenas a olhou, sem demonstrar reação. Rengin prosseguiu:
— Aliya é a reputação dele, Bahar.
— Ele sabe o que faz — respondeu, olhando através de Rengin.
— Tem certeza? — insistiu. — Tem certeza mesmo do que ele está fazendo?
— Evren não arriscaria a vida de um paciente. A dele, sim, mas não a do paciente.
— Então agora ele está arriscando a reputação? — Rengin queria ouvir confirmação, precisava acreditar que não errara ao confiar nele.
Bahar suspirou e deu de ombros:
— Ele pretende salvar Aliya. — Assentiu. — E sim, está arriscando tudo.
Rengin empalideceu, mas Bahar continuou:
— Só que Aliya não tem outra opção. Evren e Peran são a única chance dela. — Pôs a mão na maçaneta. — Os órgãos doados já estão a caminho.
— Ela não é a única — observou Rengin. — Ele adiou o segundo paciente, Juliana, por causa de Aliya.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram: mais um paciente vindo da América. Sobre ele, Evren nada havia dito. Ela percebia que recebia dele as informações de forma dosada, quase como se ele decidisse quando e quanto contar.
— Aliya é caso de emergência, Rengin — afirmou Bahar. — Evren fará tudo. Ele está montando a equipe.
— Você faz parte da equipe dele? — Rengin não queria deixá-la ir.
Bahar respirou fundo:
— Sim, faço parte da equipe dele — hesitou — assim como ele faz parte da minha. Desculpe, minha paciente me espera.
— Que seja pela vida — pediu Rengin. — Mesmo que seja só uma chance. Você está pronta, Bahar!
Bahar prendeu os cabelos num coque, pegou o prontuário de Esra e saiu. Seguiu pelo corredor, quase sem ver ninguém. Desceu pela escada rolante. Roupa cirúrgica, touca. Lavou as mãos demoradamente, observando pelo vidro a preparação de Esra para a cirurgia.
— Estou contigo, Bahar — Siren abriu a torneira e ensaboou os braços até os cotovelos. — Vai dar certo.
— Bahar, estou aqui — Doruk posicionou-se do outro lado.
— Estou pronto — Reha entrou na sala de preparação.
Bahar assentiu e, mãos erguidas, entrou na sala de cirurgia. A instrumentadora vestiu-lhe o avental estéril, enquanto ela examinava os monitores.
— Pressão instável. Dopamina no mínimo. Suporte mantido — avaliou de imediato. — Não sobrecarreguem! — sua voz não tinha um traço de nervosismo.
As luvas foram colocadas. Bahar aproximou-se da mesa cirúrgica. Reha ficou à sua frente; ao lado dele, Doruk. Siren posicionou-se junto a ela.
— Respirem fundo — Bahar mantinha as mãos erguidas. — Sabemos o que estamos fazendo.
— Coração instável — disse Reha, a voz cansada mas firme. — Monitorando o pulso.
— Paciente sob anestesia — informou o anestesista. — Linhas principais e monitorização instaladas.
— Vamos começar. Bisturi — Bahar lançou mais um olhar aos monitores. — Reduzir a pressão.
— Pressão diastólica reduzida, FC 92… mantendo por enquanto — Reha cambaleou levemente, mas ninguém percebeu, exceto Siren, que monitorava os aparelhos.
— Sistólica acima de 160 — relatou ela.
— Nitroprussiato, devagar! — Reha fez uma careta.
O apito agudo dos monitores congelou a sala — menos Bahar, que continuava seu trabalho.
— Assistolia! — avisou Siren.
— Professor Reha — Bahar não levantou a cabeça. — Estou quase concluindo a retirada.
— Professor! — gritou Siren.
Bahar ergueu o olhar justamente quando o som contínuo do monitor se tornava ensurdecedor. Reha segurou a borda da mesa, o rosto pálido. Deu um passo para trás, como se buscasse apoio, e desabou diante dela.
— Doruk! — Bahar baixou os olhos.
— Tem pulso, mas fraco — ouviu.
Por um instante, pareceu que tudo ruía. Ela suspirou, mãos ainda erguidas. O coração de Esra quase não batia. O professor Reha estava inconsciente. Sabia que precisava continuar. O olhar correu pela sala em busca de resposta, até parar nele.
— Bahar, estou aqui — Evren entrou na cirurgia assim que ouviu o código de emergência.
Era como se estivesse esperando por esse momento. Seus olhares se encontraram. Ela não pediu, mas ele entendeu sem palavras. Bahar assentiu — breve, firme, como uma ordem. Sabia que ele estaria ao seu lado. Assim que lhe entregara todos os dados de Esra, confiara nele. Não pediu, mas seu apelo silencioso foi claro.
— Assistolia — disse Siren, enquanto Reha era retirado da sala. — Estamos perdendo a paciente. Desfibrilador?
— Não — a resposta de Evren foi cortante; já estava pronto: avental, máscara, luvas. — Abdome aberto, contato com eletrodos é perigoso. Compressão direta é o único caminho.
— Evren, não a deixe ir — Bahar prosseguiu a operação, sem erguer a cabeça.
— Evren Yalçın, tire as mãos do coração da minha filha! — Serhat irrompeu na sala, segurando a máscara no rosto. — Eu vi você destruir um coração! Não toque nela!
A sala ficou imóvel. Apenas o monitor continuava a marcar o tempo — num bip constante e angustiante…
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