Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?
CAPÍTULO 6. PARTE 1
…o silêncio se estendia entre eles, enquanto atrás dela, dezenas de olhos já estavam fixos neles. Bahar sentia aquilo com tanta intensidade que parecia ouvir não só os sussurros, mas cada respiração, cada risadinha contida.
Evren não tirava os olhos de Naz. Naz o encarava de volta. Bahar passava o olhar de um para o outro, como se tentasse adivinhar quem falaria primeiro.
— Isso precisa acabar — Bahar reagiu, finalmente, dando um passo na direção de Naz.
— O que você está fazendo aqui? — Evren se aproximou.
— Querem conversar? — Bahar perguntou baixinho, só para que os dois a ouvissem.
— Não temos mais nada para conversar — havia irritação na voz dele.
— Eu queria dizer que Cem… — começou ela.
— Ele fez o que vocês dois permitiram! — a voz de Bahar ficou mais dura. — Você — virou-se para Evren — nunca disse sim nem não. E você — olhou para Naz — tinha todo o direito de buscar a própria felicidade… e mesmo assim guardava para si uma esperança.
O rosto de Naz mudou. Evren empalideceu. Bahar respirou fundo. Teria querido se virar para ver se alguém os escutava, mas quanto a serem vistos, disso ela tinha plena consciência.
Um carro parou perto deles, e Yusuf desceu batendo a porta.
— Bahar — chamou ele, abrindo a porta do passageiro.
Ela olhou para ele. Uma saída… era como aquele “não posso”, quando abandonou o casamento e foi embora. Agora parecia fácil… mas depois seria difícil. Podia até ser com a cabeça erguida… mas depois? Depois o quê? Outra vez a incerteza, o vazio, o silêncio assustador.
— Você vem até aqui para se certificar se ainda tem alguma chance — Bahar continuou, sem soltar Yusuf, que a esperava pacientemente junto ao carro. — Quer forçá-lo a escolher? — perguntou ela. — Quer que eu acredite que foi por acaso que você acabou na cozinha dele? — sua voz falhou.
— Eu não moro com a Naz — interrompeu Evren.
— Eu sei — suspirou Bahar. — Você mora na minha casa. Sei que aquele vídeo é uma farsa. O que vem depois, Evren? — ela fitou os olhos dele.
Tudo parecia se repetir, como quando ela foi até a casa dele pedindo uma chance, e agora olhava de novo, com a mesma pergunta nos olhos. Isso a deixava desconfortável, como se o tivesse encurralado, exigindo dele uma decisão.
— Bahar — Evren estendeu a mão — vamos para casa.
Apenas duas palavras, e ela fechou os olhos. O batimento do coração abafava todos os sons da cidade viva. “Vamos para casa”, ecoava no ritmo do seu pulso, apertando tudo dentro do peito, dificultando a respiração.
— Você não é obrigado — sussurrou, balançando a cabeça, com um sorriso quase imperceptível, temendo acreditar, temendo até pensar… e depois? O que viria depois? — Não precisa.
— Mas eu te amo, Bahar — Evren não soltava a mão dela.
Naz deu um passo atrás assim que ouviu aquelas palavras.
— E eu te amo — murmurou Bahar, com lágrimas nos olhos, e sua mão tremeu.
O medo a paralisava, mas ainda assim ela estendeu a mão, que encontrou o calor da dele. Ele a puxou suavemente para si, e juntos foram até a moto. Evren sentia o tremor dela, o frio da mão, mas ela seguia com ele. Colocou o capacete e subiu atrás, abraçando-se forte à sua cintura.
Evren sorriu, os olhos marejados. Virou-se por um instante, como para ter certeza: era mesmo aquela mulher quem estava atrás dele, aquelas mesmas mãos o segurando? Ele levantou o descanso, girou a chave, e a moto deslizou suavemente para frente… apenas alguns segundos, e ele acelerou. O motor rugiu, levando-os pela estrada.
Yusuf entrou no carro e avançou devagar, deixando para trás as colunas diante da entrada do hospital…
***
Todos os olhos estavam voltados para as colunas diante da entrada do hospital. O ronco do motor se calou. Evren e Bahar haviam partido, Naz se dissolveu na multidão, e as enfermeiras, os assistentes, todos ainda permaneciam ali, olhando, como se não acreditassem no que acabara de acontecer.
— Aaaah! — suspirou Ahu quase sem voz e, em seguida, saltitou batendo palmas. — Eu falei, falei! — cutucou Ferdi no ombro e quase gritou: — Evren e Bahar estão juntos de novo!
— Isso não quer dizer nada — resmungou Ferdi, enfiando as mãos nos bolsos. Seu rosto parecia o de alguém que perdera não apenas uma aposta, mas meia vida.
— Quer dizer, sim! — Ahu quase dançava, pulando no mesmo lugar. — Eles foram embora juntos! Ele deu a mão pra ela, e ela — olha só, a minha mão! — agarrou o pulso de Ferdi e teatralmente o pressionou contra a própria palma. — E depois, os dois, numa só moto, sumiram no pôr do sol!
Ela revirou os olhos, apertou as mãos contra o peito e depois abanou-se, como se estivesse com calor.
— Você viu como ela se agarrou nele? — quase o abraçou, mas Ferdi recuou a tempo.
— Isso não significa que eles se reconciliaram — insistiu Ferdi, esticando o braço para conter o ímpeto dela. — Amanhã tudo pode ser diferente.
— Como assim?! — Ahu pôs as mãos na cintura. — Como poderia ser diferente? Você viu alguma coisa ou tá com menos quinze de miopia?
Ferdi bufou, virou o rosto, mas pelo jeito tenso dos ombros todos entenderam: ele tinha perdido a discussão, e isso era óbvio para quem quisesse ver.
***
…Evren desviava entre os carros. Às vezes virava um pouco a cabeça, e ela jurava ver um esboço de sorriso, o que fazia tudo dentro dela estremecer. O ronco do motor a ensurdecia, e dentro dela o mundo ficava cada vez mais abafado, como se todos os sons mergulhassem fundo na água, no coração de um oceano. Rostos, olhares, sussurros atrás dela, a gravidez ectópica, a América, o “não posso”, o vestido branco, a criança — tudo se misturava e caía sobre ela de uma vez. Sons demais, rostos demais, lembranças demais… tudo ao mesmo tempo. Como se o dia inteiro, os meses inteiros, todo o “antes” e o “agora” se espremessem em um único instante e a golpeassem no peito. O ar ficou espesso, viscoso. Sua respiração falhou.
Os dedos dela se cravaram com mais força no tecido da camisa dele, mas a pele parecia anestesiada, incapaz de sentir o que tocava. Uma fisgada aguda no abdômen cortou a respiração, apertando sua garganta como um torno. Nos ouvidos, um baque surdo e irregular de coração abafava todos os sons.
— Evren — quis gritar, mas dos lábios só escapou um chiado rouco.
Ele sentiu de imediato o tremor do corpo dela e reduziu a velocidade, puxando para a beira da estrada. Evren desceu primeiro, tirou o capacete e a segurou para ajudá-la a sair da moto. Retirou o dela também e deixou os dois sobre o banco. Segurava firme seu braço, mas Bahar parecia nem tocar o chão, como se a terra fugisse debaixo dos pés.
— Vem… — murmurou ele, abraçando-a com suavidade, conduzindo-a até um banco sob o velho castanheiro.
Sentou-a à sombra da copa ampla e se colocou ao lado.
— Bahar, olha pra mim — sua mão repousou nas costas dela, a outra apertava a mão gelada. — Eu tô aqui, respira.
Ela sacudia a cabeça, recusando abrir os olhos, mas a escuridão não trazia alívio. Imagens passavam em turbilhão: o vestido branco, o salão, rostos confusos, Jennifer, a criança, seu “não posso”, depois a partida dele para a América.
Não sentia os dedos dele apertando seu pulso; apenas percebia o coração disparando ainda mais, fazendo-a ofegar como se tivesse acabado de correr uma prova de cem metros.
— Evren, a barriga… — gemeu Bahar, abraçando-se, dobrando-se sobre os joelhos, como se isso pudesse aliviar a dor.
Evren empalideceu. Tocou sua testa — a pele fria, úmida. Dentro dele tudo se contraiu. Por um instante viu o passado retornar: a mesma palidez, os dedos finos sobre o lençol branco, o monitor marcando o ritmo lento. Ele, ao lado do leito dela, depois a cirurgia… e um novo fígado em suas mãos. O gosto metálico do medo voltou de uma vez, correndo frio pela espinha.
— Quando você fez os últimos exames? — agachou-se diante dela. — Você tá tomando os remédios? — nem disfarçava a aflição.
O medo pelo que vira nos exames antigos dela voltou à mente. Bahar, arfando, ergueu o olhar para ele:
— Tô — murmurou quase sem voz. — Semana passada… — contraiu o rosto. — Tá tudo bem… — fechou os olhos, tentando resistir a outro espasmo no estômago.
— Quando foi a última vez que você comeu? — ele reparava nos lábios esbranquiçados, tremendo.
Bahar abriu os olhos lentamente, ainda respirando com dificuldade, e sussurrou:
— Não lembro… — admitiu. — Café hoje, com a Jennifer.
— Bahar… — Evren segurou o rosto dela entre as mãos. — Respira. Olha pra mim. Tá tudo bem, você tá aqui. Eu tô do seu lado.
Ela parecia não ouvir, encarava os olhos dele sem enxergar, tudo borrado. Atrás deles, o barulho brusco de freios, uma porta se abrindo.
— O que houve? — Yusuf correu até eles, ajoelhando-se ao lado de Bahar.
— Água — Evren pediu seco, e o rapaz disparou.
Evren inclinou-se para ela, suavizando o tom:
— Me escuta… não é casamento, Bahar — sussurrou. — A gente só voltou a ficar juntos. O resto… depois, não tudo de uma vez.
Ela piscou e tentou focar o olhar nele. Os olhos trêmulos, o corpo todo sacudido pelos espasmos.
— Respira… comigo — ele não soltava seu rosto, mantendo-o entre as palmas. — Inspira… expira… devagar.
Ele marcou o ritmo até o tremor dela amansar. Yusuf voltou, estendeu a garrafa.
— Goles pequenos — disse Evren.
Ela bebeu o primeiro, sentindo a água aliviar a secura da garganta.
— A gente não tem pressa — repetiu baixinho ele. — Só caminhamos juntos.
Bahar fechou os olhos. O coração já não explodia nas têmporas, mas ainda retinia por dentro como um eco de pancada forte. O espasmo a soltava… devagar, como se resistisse a ir embora.
— O que houve? — Yusuf perguntou baixo, em pé atrás de Evren.
Bahar estremeceu de novo, e Evren apertou o rosto dela nas mãos:
— Não é casamento — repetiu. — Só estamos juntos outra vez. O resto vem depois.
As lágrimas encheram os olhos dela. Sua mão tremeu, caiu no ombro dele, e ela se entregou num abraço, encostando-se em seu pescoço.
— Respira… comigo — sussurrou Evren, afundando o rosto nos cabelos dela. — Inspira. Expira. Assim…
Bahar ainda se agarrava aos ombros dele, o rosto escondido em seu pescoço. Abriu os olhos devagar… a visão ia voltando, primeiro apenas contornos, depois formas. Passo a passo, tudo ganhava nitidez: carros passando, pessoas apressadas, rostos estranhos. Até viu Yusuf, mas não se intimidou — ao contrário, apertou Evren ainda mais. Afinal, agora estavam juntos, e isso lhe dava o direito de abraçá-lo sem medo. O coração já não rugia nos ouvidos, e a mão invisível que lhe apertava a garganta começava a afrouxar.
— Você tem medo — ouviu a voz dele.
Ela estremeceu e se afastou devagar. Olhou fundo nos olhos dele, e seu rosto traduziu tudo de uma vez: cansaço, confusão, raiva de si mesma.
— Eu tenho — admitiu. — Medo de tudo, de uma vez só. — Os lábios tremeram, mas ela se recompôs. — A criança… você quer. Mas e se não der certo? — encarou-o sem desviar. — E se eu não conseguir? E se eu travar de medo e não tiver coragem?
Atrás de Evren, passos se aproximaram. Yusuf, que ouvira parte da conversa, afastou-se com a garrafa vazia nas mãos. Evren encontrou seu olhar, respondeu com um leve aceno: estava tudo sob controle. Yusuf foi até o carro, mas não entrou. Ficou recostado na porta, atento, como quem espera qualquer sinal para ajudar.
— Bahar… — começou Evren, mas ela colocou os dedos nos lábios dele, forçando-o a ouvi-la.
— Eu só comecei a viver diferente agora — falou com pausas, escolhendo cada palavra para não feri-lo, nem a ele nem a si mesma. — Vinte e cinco anos de casamento… — engoliu em seco. — Vinte e cinco anos de casa. Café da manhã, roupa lavada, limpeza, cozinha… — suspirou. — A tábua de passar e a máquina de costura, como parte do cenário da minha vida. Meu mundo encolheu a quatro paredes. Eu deixei de ser alguém. Restou só o papel de mãe e esposa. — Apertou a mão dele. — Mas agora… — tentou sorrir, mas falhou, e continuou: — agora eu tenho trabalho, pessoas, cirurgias, eu salvo vidas… — lágrimas brilharam em seus olhos. — Eu acabei de abrir minhas asas. — A voz embargou. — E se tudo encolher de novo até virar só cozinha e fraldas?
Evren a fitava intensamente, quase de joelhos diante dela.
— Você acha que eu vou tirar isso de você? — perguntou.
Bahar passou os dedos pelos cabelos dele, depois pelas sobrancelhas, e enfim puxou-lhe a mão, obrigando-o a sentar-se ao lado dela no banco. Acima, os galhos poderosos do castanheiro balançavam preguiçosos, folhas amareladas farfalhando ao vento quente.
— Eu acho que nós dois podemos não dar conta — murmurou Bahar, virando-se um pouco para ele. — Tenho medo que, se eu errar, você vá embora de novo… ou eu fuja. — Baixou os olhos. — Você sabe que eu sei fazer isso.
— Eu sei — os lábios dele roçaram sua face. — Sei que você sabe fazer muitas coisas… que eu não sei. — A voz ficou baixa. — Então vamos atravessar isso juntos. Você me mostra. — Encostou o rosto ao dela. — Fraldas, papinhas de manhã… ou talvez panquecas no café.
Ela não conteve um sorriso.
— Só lembra que com panquecas não se pode brincar — murmurou, ainda sorrindo, depois ficou séria: — Você acha mesmo que isso não vai te assustar?
— Vai — confessou com franqueza. — Mas agora eu fico. Porque tudo isso, eu só quero com você. E sim… — assentiu, sorrindo suave. — Eu quero um filho com você. Mas nunca vou te pressionar. Vai ser a sua decisão. Teremos todo o tempo que você precisar.
Ela fungou e o abraçou, escondendo o rosto no peito dele.
— Até banho juntos vai ter? — perguntou baixinho.
— Muito em breve, quando chegarmos em casa — ele a apertou mais forte. — Mas antes vou te examinar e…
— O quê? — interrompeu, sem entender.
— Exame médico — explicou.
Bahar arregalou os olhos.
— Aliás — riu Evren — um exame de verdade. — Sorriu largo. — Vou checar seu fígado. — Ficou sério por um instante.
— Está tudo bem com ele — rebateu ela, pedindo com o olhar que ele continuasse.
Evren balançou a cabeça e riu.
— Vou checar mesmo assim — a teimosia soava clara. — Depois te coloco no banho, te deito na cama, preparo o jantar e levo até você. — Despejou tudo num só fôlego e calou.
Enquanto falava, os olhos dela iam se arregalando, e os dedos contavam um a um o que ele prometia. Quando acabou a mão direita, estendeu a esquerda… mas ele não continuou.
— E sabe… — Evren parecia ignorar o apelo silencioso dela por mais promessas. Olhou de repente para Yusuf. — Família não são só aqueles a quem damos a vida. São também os que já estão ao nosso lado.
Bahar seguiu o olhar. Yusuf estava ali, discreto, testemunha involuntária mais uma vez, mas nos olhos dele havia calor, cuidado, presença. Podia ter ido embora, mas permanecia. Bahar entendeu: Evren não falava de Yusuf. Falava de Cem.
— Tá vendo — disse Evren, baixo, voltando-se para ela — nós já não estamos sozinhos.
— Você fala como se acreditasse que tudo é possível — murmurou, sem coragem de tocar o nome de Cem.
— Eu sei que é — respondeu ele. — Porque já conseguimos chegar até esse banco. Então vamos conseguir seguir adiante também.
— Você tem o dom de me fazer sorrir no pior momento — ela sacudiu a cabeça.
Bahar suspirou, e pela primeira vez sorriu sem dor.
— Esse é meu talento profissional — Evren a devorava com os olhos. — Depois da cirurgia, é o segundo. O primeiro… é ficar com você, onde quer que esteja.
Ela engoliu em seco, sentindo de forma aguda o desejo dele. Naquele silêncio, sob o castanheiro, ambos perceberam que a crise tinha ficado para trás, e um novo caminho se abria diante deles. Evren levantou-se devagar e a ajudou a se erguer. Caminharam juntos até a estrada.
— Evren… — Bahar apertou sua mão, nervosa. — E “casa”… é onde?
Ela estava junto da moto. Ele já segurava o capacete, pronto para lhe entregar, mas antes lançou um olhar para Yusuf, depois voltou a encará-la.
— Pra ser sincero, eu queria te levar direto pro mar, fugir com você num iate por alguns dias. Só nós dois. Eu sinto tanta falta de você… — murmurou, os olhos fixos nos lábios dela. — Mas… — suspirou, fitando-a nos olhos — por enquanto não podemos nos dar esse luxo.
— Então onde é nossa casa? — insistiu, o corpo tremendo outra vez.
— Minha casa é onde você está — abraçou-a. — Meu lar é ao seu lado. Eu já disse: vamos decidir as coisas devagar. Não tente colocar toda nossa vida numa decisão tomada às pressas, aqui na rua.
— Eu não entendo… — ela se agarrava aos ombros dele.
— Cem mora comigo — admitiu. Ergueu a mão pedindo silêncio. — E você tem Umay, os netos, Uraz e Siren, sua mãe, Reha, também Nerva, e Yusuf. Eu não posso arrancar você de repente da sua família.
— Mas você também é parte dela — respondeu rápido demais, o medo vibrando na voz.
— Por isso mesmo… vamos ficar na sua casa, se não se importar que eu me instale no seu quarto. — Fitava atentamente as expressões que atravessavam o rosto dela. — Afinal, alguém precisa garantir que você coma direito e durma bem. Depois decidimos juntos onde vamos morar. Quem sabe compramos uma casa ao lado da sua.
Bahar fechou os olhos por um instante, como se soltasse o ar preso, e ao abri-los de novo, o azul estava tingido de pânico:
— E o Uraz? — lembrou. — Ele ficou furioso com o vídeo e com a Naz.
— Deixa isso comigo — pediu Evren. — Não é sua preocupação. Já me entendi com seu filho antes, vou me entender outra vez.
— E a Umay? Ela terminou com o Cem… — Bahar enumerava, aflita. — E o Cem, o que vai ser dele?
Evren estalou o pescoço, só então respondeu:
— Eu falei com Rengin. O conselho exige explicações. — Confessou. — Disse ao Cem que, desta vez, ele vai responder por tudo.
— Evren… — Bahar se agarrou a ele, em sussurro. — Vai chegar a julgamento? Vamos deixar que chegue a isso? Você quer puni-lo?
— Escuta… — Evren recuou só o suficiente para encarar seus olhos. — Você tá tentando resolver tudo de uma vez. Mas o mais importante agora é você, sua saúde. Por isso vamos pra casa. Eu preciso te examinar, ter certeza de que está bem. Yusuf, vá na frente, a gente vai atrás — pediu ao rapaz.
Os olhos de Bahar se arregalaram, como se tivesse esquecido que ainda não estavam sozinhos. Seguiu o movimento dos lábios de Evren, e aquelas palavras a afetavam ao contrário. Atrás deles, o barulho de porta, o motor ligando.
— Cem vai pensar que isso é castigo seu — insistiu, sem desviar da boca dele. — Ele não vai te perdoar.
— Eu não preciso do perdão dele — respondeu brusco, o olhar preso no carro de Yusuf que se afastava.
— Ele tá perdido… — Bahar forçou-se a encarar seus olhos. — Precisamos ajudá-lo.
— Vamos ajudar, sim. — O tom dele ficou tenso. — Mas agora… vamos pra casa? — ofereceu-lhe o capacete. — Quer que eu ajude?
— Evren… e se ele fosse seu filho? — Bahar pegou o capacete das mãos dele. — E se você já tivesse um filho e nem soubesse?
Evren congelou por um instante.
— Eu realmente não sei — admitiu, enfim. — Mas isso não muda o fato de que eu quero um filho com você. E também preciso te examinar, e amanhã você vai fazer um ultrassom e todos os exames que eu pedir. Bahar… — aproximou-se mais — eu não tenho resposta pra todas as suas perguntas. Não é que eu não queira responder… é que eu ainda não sei.
— Mas precisamos procurar essa menina… — ela hesitou, corrigiu: — essa mulher. Precisamos saber.
— Bahar… — Evren segurou os ombros dela, suspirando. — Se não formos agora, vou ser obrigado a te examinar aqui mesmo, nesse banco.
Ela travou, mordeu os lábios, mas os olhos brilharam.
— Você não teria coragem… — sussurrou.
— Tem certeza? — ele tirou o capacete das mãos dela.
Com delicadeza, colocou-o sobre sua cabeça. Os dedos deslizaram por seus cabelos, demorando-se mais do que o necessário. Enquanto ajustava a fivela, ela ficou imóvel, deixando-o fazer.
Ele subiu primeiro na moto, depois ela. Suas mãos, de maneira tão familiar, abraçaram-lhe a cintura. Evren sorriu, percebendo o quanto sentira falta daquilo… das mãos dela em sua cintura. Ligou a moto, ergueu o descanso e entrou suavemente no fluxo da estrada…
***
O barulho dos carros vinha da estrada. O café já estava quase vazio, e pessoas de jaleco passavam apressadas, trocando de turno. Uraz, como um castigado, estava sentado num canto, apertando o copo de café com tanta força que parecia que iria esmagá-lo. Doruk espetava o garfo no salada como se fosse ela a culpada de tudo.
— Ele me colocou de propósito nesse plantão — explodiu Uraz, tão forte que a canudinho no copo de Doruk tremeu. — De propósito! Pra eu não atrapalhar!
— E eu? Também tô de plantão — respondeu Doruk, dando de ombros.
— Mas o que você tem a ver com isso?! — indignou-se Uraz. — Você nem mora com a gente!
— E o professor mora? — franziu o cenho Doruk, levando o copo à boca.
— Eu falei pra ele como isso ia acabar. Falei! — Uraz parecia conversar consigo mesmo. — Mas não, o professor sempre faz do jeito dele.
Doruk bebeu um gole de coca com toda calma e, sem levantar os olhos do prato de salada, comentou secamente:
— Ele sempre faz do jeito dele.
Uraz parecia não ouvir:
— Tudo se repete… — balançou a cabeça. — É tudo igual ao que aconteceu com meu pai. Minha mãe comete os mesmos erros. Minha mãe entrando no mesmo ciclo outra vez.
Doruk largou o garfo e levantou o olhar:
— Ela não ficou comigo de novo — a voz carregada de tristeza. — Mas mesmo assim, eu ainda sinto algo pela Bahar.
— Doruk! — Uraz se revoltou. — Você tá falando da minha mãe!
— Eu amo sua mãe, Uraz — disse ele simplesmente, dando de ombros.
Já tinha repetido isso tantas vezes em voz alta, mas ninguém nunca o levara a sério. Os dois ficaram em silêncio. Uraz o olhava como se quisesse retrucar, mas não encontrava palavras.
— Eu não vou deixar assim — disse, por fim. — Não vou deixar ele destruir tudo outra vez.
Doruk ergueu os olhos. Neles, teimosia e dor. Seu olhar gritava uma paixão não correspondida.
— E eu continuo amando ela — sussurrou, afastando o prato de salada pela metade.
O silêncio caiu entre eles. Na mesa ao lado, alguém deixou uma colher cair; o som metálico os fez estremecer.
— Nós somos dois idiotas — murmurou Uraz.
— Eu sou só um romântico — deu de ombros Doruk.
Uraz bufou e se levantou:
— Eu tô humilhado! Isso é uma maldição! Primeiro meu pai, agora o professor, e ainda você… — tremia de raiva.
— Não se preocupe, Uraz — disse Doruk com seriedade. — Eu vou cuidar de você quando virar seu padrasto.
Os olhos de Uraz quase saltaram das órbitas:
— Você é doente! — rosnou entre os dentes.
Alguns assistentes na mesa ao lado não aguentaram e riram da briga. Uraz e Doruk se viraram para eles.
— O que é que vocês estão olhando?! — gritou Uraz, agressivo demais.
O silêncio voltou à mesa vizinha. Os dois se entreolharam, depois saíram juntos do café. Mas, mal se afastaram alguns passos, o riso voltou a ecoar atrás deles…
***
O trinco da porta soou, seguido de uma risadinha, um sussurro, e Bahar e Evren cruzaram a entrada da casa dela. Ela tentou se soltar, mas ele apertou seus dedos com mais firmeza, não deixando sua mão escapar.
— Evren… — sussurrou, tentando se desvencilhar.
Ele apenas balançou a cabeça e a puxou consigo. Bahar corou assim que chegaram à sala.
CAPÍTULO 6. PARTE 2
Todos estavam reunidos na sala, como se fosse de propósito: Siren segurava Mert no colo, Umay estava no sofá com Leyla. Parla folheava uma revista, e Nevra, como de costume, estava mergulhada no celular. Todos levantaram os olhos ao mesmo tempo e olharam para eles. O som de passos se aproximou e Yusuf entrou na sala — e foi como se todos despertassem.
— Olá… — disse Siren, e seus olhos imediatamente caíram sobre as mãos entrelaçadas deles.
Parla fechou a revista. As sobrancelhas de Umay se arquearam levemente; ela olhou para Parla, depois para Siren — seu olhar gritava: “eu avisei vocês”. Nevra largou o telefone, confusa.
— Não olha pra eles — Evren inclinou-se ao ouvido de Bahar e a puxou em direção à escada.
Ela ficou ainda mais vermelha, as faces ardendo. Sentia-se como uma adolescente e tentou soltar a mão, mas Evren não permitiu. Pelo contrário, passou o braço por seus ombros e a conduziu para cima, sem dar explicação a ninguém.
— O que você está fazendo… — murmurou Bahar entre os dentes.
Evren diminuiu o passo no meio da escada e olhou para baixo. Os outros já estavam de pé, tinham se aproximado da escada e observavam incrédulos… e ele próprio mal acreditava no que vivia: estar na casa dela, diante de toda a família, e se sentir livre para agir assim.
— Umay, Yusuf — sua voz soou firme, tão alto que todos estremeceram. — Fiz um pedido de compras, deve chegar logo. Recebam e organizem tudo. Eu desço em seguida e vamos preparar o jantar.
— Espera… — Umay tentou detê-los, queria perguntar algo.
— Eu já volto — Evren a interrompeu sem permitir réplica. — Preciso examinar a Bahar. — Disse isso num tom tão sério que as palavras ficaram suspensas no ar.
Umay congelou. Siren empalideceu. Parla enrijeceu. Nevra levou a mão à boca. Só Yusuf olhava de um para outro.
— Examinar? — Umay foi a primeira a reagir. — Mamãe?!
O rosto de Bahar queimava. Pela primeira vez, ela não sabia o que responder. Pela primeira vez, não conseguia assumir o controle. Evren fazia o que queria… e ela deixava, incapaz de detê-lo.
— Evren… — sussurrou, cutucando-o de leve com o cotovelo. — Você vai assustar todo mundo.
Ele subiu mais alguns degraus, sem soltar sua mão. Bahar olhava envergonhada para os familiares.
— Evren… pelo menos solta a minha mão… — pediu baixinho.
Ele se inclinou mais perto e disse em voz alta, para todos ouvirem:
— Calma, eu não vou sequestrá-la. Devolvo pro jantar! — e ainda piscou para eles.
— Você é impossível… — murmurou ela.
— Exatamente — respondeu satisfeito, puxando-a para cima.
Bahar ficou ainda mais vermelha. A escada lhe parecia infinita. Evren achava que a piada havia quebrado a tensão, mas ela sabia que, na verdade, tinha plantado novas dúvidas.
Assim que a porta no andar de cima se fechou, todos começaram a falar ao mesmo tempo.
— Examinar? — repetiu Siren, a voz trêmula. — Quer dizer que alguma coisa está errada de novo?
— Vocês ouviram a respiração dela quando entrou? — sussurrou Nevra, apertando as mãos. — Pareceu que estava com febre.
— Será que o fígado de novo… — murmurou Umay, baixando os olhos. — E a gente nem percebeu.
— Ela só tá cansada — disse Yusuf, mas sem convicção.
Parla olhou pensativa para o andar de cima:
— Temos que perguntar pra tia Bahar! — e já se preparava para subir, porque ninguém mais tinha coragem.
— Não vai — segurou-a Siren, quando ela pôs o pé no primeiro degrau. — Se o Evren disse, ele vai cuidar.
Mas sua voz não tinha firmeza. Todos trocaram olhares. Nenhum deles conseguia se livrar da ansiedade por Bahar. Nenhum tinha coragem de ser o primeiro a desfazer o silêncio… todos esperavam por Evren, depositando nele sua única esperança.
***
Bahar o olhava. Assim que a porta se fechou atrás deles, Evren a virou para si, fitou seus olhos por um instante e, incapaz de se conter, colou a boca na dela com avidez.
— Senti sua falta… — murmurava contra os lábios dela, empurrando-a suavemente em direção à cama. — Muita falta… — balbuciava, sem parar de beijá-la, sem soltá-la dos braços.
Segurava-a firme, como se temesse que caísse, mas Bahar também se apertava contra ele, correspondendo com a mesma paixão, com o mesmo desejo que guardara em silêncio por tanto tempo.
— Senta… — Evren a apoiou e a fez se acomodar na beira da cama. Abaixou-se e tirou-lhe os sapatos.
O olhar dele a fazia arrepiar-se dos pés à cabeça; ela só queria abraçá-lo, beijá-lo. Mas, de repente, ele não avançava mais.
— Deita… — disse, deitando-a com cuidado. Beijava-a enquanto descia lentamente. Seus dedos abriram os botões da blusa. — Dobre as pernas… — murmurou, puxando a barra da blusa para fora da calça.
— Evren… — ela ergueu os braços para abraçá-lo, puxá-lo para cima e beijá-lo de volta. Já nem lembrava que lá embaixo toda a família a esperava pelo veredito dele.
Ele abriu a blusa, desceu a mão até a cintura dela. Aquele botão se abriu num instante, o zíper deslizou. Ele baixou a calça só um pouco… e parou, encarando-a. A cicatriz atravessava todo o abdômen. Lembrou-se de quando ele próprio havia feito o corte, dado os pontos. Duas vezes eles haviam passado por isso. Haveria uma terceira?
Os dedos dele pousaram no alto do abdômen, pressionando firme. Um suspiro escapou dos lábios dela. Bahar tremeu, mas ele continuou, sério, atento, examinando o fígado com as mãos como se não tivesse acabado de beijá-la com tanto fervor. Franziu o cenho, inclinou a cabeça, tentando sentir cada detalhe.
— Satisfeito? — não aguentou, erguendo o corpo. — Eu disse que estava tudo bem… — a voz dela saiu trêmula, rouca.
A mão dele a empurrou de volta contra o colchão. Mais uma vez pressionou, fazendo-a se contorcer. Ela agarrou seu pulso, arqueando-se sob o olhar dele.
— Você acha que eu tô satisfeito?! — o sussurro grave a fez estremecer.
Ele percorreu a cicatriz com a ponta dos dedos, do início ao fim, e depois seus lábios repetiram o caminho.
— Evren… — ela apertou os ombros dele, puxou a camisa até quase arrancá-la.
Ele se ergueu, e a boca dele tomou a dela num beijo feroz. Ela respondeu com igual intensidade, abraçando-o, arqueando-se, até que o peso do corpo dele a esmagasse por inteiro. Mas nem isso bastava. As mãos dele percorriam sua pele com voracidade, buscavam o fecho do sutiã. Então rolou para trás, trazendo-a consigo. Bahar envolveu sua cintura com as pernas, sentou-se sobre ele, enquanto ele explorava suas costas até alcançar a peça de roupa.
— Eu te quero… — escapou dele, e ela se inclinou para beijá-lo, respiração misturada.
O fecho estava quase solto, a pele quase à mostra… mas uma batida insistente na porta os fez parar.
— Mamãe! — a voz de Umay soou perto demais. — Mamãe, tá tudo bem? O que aconteceu?
O pequeno grito de Bahar escapou contra os lábios dele; envergonhada, ela escondeu o rosto em seu pescoço. Evren praguejou baixinho, fechando os olhos. Ainda tinha uma mão no fecho, a outra já quase empurrava a alça pela pele do ombro. Segurava-se com dificuldade.
— Evren… — sussurrou ela, mexendo-se em seus braços, tentando se afastar. Mas ele a manteve junto.
— Shhh… — ajeitou a alça de volta no ombro dela, deixou o fecho em paz. Passou os dedos pelos cabelos dela, depois a deitou com cuidado. — Tá tudo bem… — murmurou.
— Mamãe? — a batida de Umay continuava, impaciente.
Evren rolou para o lado e se levantou. Soltou um suspiro pesado, abotoou rápido a blusa dela, ajeitou os cabelos dela e os próprios. Inclinou-se, quase tocando seus lábios, mas desviou e beijou-lhe a face antes de se endireitar.
— Umay! — a voz dele saiu firme. Enquanto arrumava a calça e a camisa, completou: — Está tudo bem. Sua mãe só está cansada. Já vou descer, vamos preparar o jantar.
O barulho cessou. Bahar permaneceu imóvel na cama. Evren não deixara a filha entrar — eram novas regras, estabelecidas ali mesmo. Bahar cobriu o rosto com as mãos, o rubor queimando as bochechas. Ele ainda hesitou na porta, olhou-a uma última vez. No olhar dele, a mesma paixão, mas também firmeza. Em outros tempos, ela teria corrido para resolver, acalmar todos, preparar o jantar. Mas não agora. Tudo estava mudando, e ela aceitava. Aprendiam a viver juntos, não apenas a estar lado a lado. E ela não queria impedi-lo. Gostava de sentir que ele estava assumindo.
— Você descansa… — disse Evren, molhando os lábios. — Eu cuido de tudo.
Saiu, deixando-a sozinha no quarto, com o coração disparado e a lembrança ardente do toque dele. Mas cumprira apenas um dos itens da longa lista de promessas. Bahar suspirou, pousou as mãos sobre o ventre e ficou olhando o teto, sem entender por que permanecia imóvel se não sentia sono algum. Então se ergueu.
Primeiro pensou em tomar banho, chegou até o banheiro, mas parou no meio do caminho. Fechou a porta e voltou. Ele disse que me daria banho. Andava sem rumo pelo quarto, às vezes levando a mão ao abdômen, sentindo a fome crescer, mas sem coragem de descer.
Parou diante da cômoda, abriu uma gaveta. Mexia nas caixinhas, abrindo e fechando, até encontrar uma. Tirou-a dali, o coração apertado, a respiração rápida. Pensou por alguns segundos… e então um sorriso brotou em seus lábios. Bahar abriu a caixinha…
***
Rengin abriu a porta e saiu do consultório. Os corredores do hospital já estavam quase desertos, em alguns trechos até haviam apagado parte das luzes. Ela trancou a porta, guardou as chaves na bolsa. Caminhava pelo corredor, e o som dos saltos ecoava nas paredes.
Seu passo vacilou ao ver Serhat vindo em sua direção. Por um instante quis desviar, até pensou em voltar atrás… mas não poderia fugir dele para sempre. Então, Rengin continuou, indo ao encontro dele. Quando se cruzaram, trocaram olhares.
— Boa noite — disse ela, ajeitando a bolsa no braço.
— Boa noite — respondeu Serhat, enfiando as mãos nos bolsos.
Ficaram ali, em silêncio, lembrando-se do que havia acontecido há pouco tempo. Lembravam bem do que tinham permitido a si mesmos em seu consultório.
— Olha… — a voz de Rengin baixou — vamos esquecer. — Propôs. — Fingir que não houve nada. Vai ser mais fácil assim.
Serhat a observava com atenção.
— Está bem — concordou, assentindo com a cabeça, embora permanecesse tenso. — Você tem razão.
— Como está a Esra? — perguntou Rengin.
— A pressão está controlada, a falta de ar ainda aparece, mas o quadro é estável — respondeu no automático, em tom médico. — A terapia funciona, por enquanto ela aguenta bem o esforço. — Admitiu, no fim, a eficácia do tratamento de Evren e Bahar.
Rengin inclinou levemente a cabeça.
— Perguntei não como médica… — disse, andando devagar pelo corredor.
Serhat a seguiu com o olhar, depois apressou o passo para alcançá-la:
— Ela adormece toda noite com medo de não acordar, medo de que o coração não resista. E eu… — a voz falhou, ele soltou o ar — eu não posso fazer nada. Sei bem demais qual é o diagnóstico dela.
Rengin assentiu, suspirou, mas não respondeu. Caminharam até o elevador. Ela apertou o botão, virou-se:
— E o professor Reha? — entrou no elevador, e ele entrou logo atrás.
Serhat suspirou.
— Ele tenta se manter firme, mas percebo o cansaço. — A voz dele suavizou.
Rengin o encarou diretamente.
— Isso eu perguntei como médica. — Falou em tom neutro.
Ele hesitou um instante, franzindo a testa.
— Você faz de propósito? Quer me confundir? — perguntou.
Ela apenas o olhava, e então ele continuou:
— A pressão ainda oscila. A reabilitação depois da cirurgia de ponte de safena está mais lenta do que eu esperava. — Saíram juntos do elevador. — Vamos precisar intensificar a observação e incluir exercícios de respiração.
Serhat já não sabia com quem falava: com a diretora, com a colega médica ou com a mulher. Caminhava atrás dela, consciente de que tinha errado ao concordar antes. De repente, parou, como se tomasse uma decisão, e deixou escapar:
— Eu não quero fingir que nada aconteceu. — Disse, dominado pelo impulso.
Rengin quase tropeçou, virou-se para ele. Haviam acabado de combinar, haviam chegado a uma resolução — e ele virava tudo de cabeça para baixo. Ela o encarava surpresa, confusa, sem saber como reagir. Então se virou bruscamente, pegou as chaves e apressou-se para o estacionamento. Já perto do carro, as chaves tremeram em seus dedos e caíram no asfalto com um som seco.
Serhat a acompanhava com o olhar: como ela destrancava o carro, entrava, partia. Continuou parado mesmo depois que as luzes vermelhas desapareceram na noite. Ficou ali, sozinho, entre as colunas da entrada do hospital…
***
Evren estava parado na entrada da cozinha, observando os familiares dela. As sacolas já estavam sobre a mesa. Siren tentava organizar tudo, mas a geladeira estava lotada, e ela olhava perdida para dentro. Umay e Yusuf ainda seguravam algumas sacolas. Parla abria o armário e guardava os grãos na prateleira. Nevra se acomodara no sofá pequeno — o cantinho preferido de Bahar.
Evren sorriu, arregaçou as mangas e entrou. Todos se viraram de imediato; em seus olhos, a mesma pergunta — como estava Bahar? Mas ele não respondeu, como se nem fosse cogitar isso.
— Onde está a mamãe? — Umay não aguentou, encarando o vão vazio da porta. — O que houve com ela?
Os olhos de Evren brilharam:
— Bahar está descansando. Ela precisa de repouso. — Cortou qualquer outra pergunta. — O arroz aqui… — apontou para Parla. — Os legumes na pia — disse a Yusuf. — O peixe na geladeira por enquanto — acrescentou para Siren.
— Evren… — Umay bateu a sacola na mesa e foi até ele. — O que aconteceu com a mamãe? — tocou o braço dele.
Evren se virou para ela; já segurava uma faca.
— À primeira vista, tudo está bem. Mas amanhã farei um ultrassom. — O tom dele era sério, enquanto baixava a faca. — Ela dorme pouco, quase não come. — Olhou para todos. — Por isso, agora ela descansa, e nós cozinhamos.
Umay o encarava desconfiada, sem saber se acreditava. A inquietação continuava viva só com aquela frase. Parla, por outro lado, observava-o com curiosidade — ainda ontem ele era apenas visita, e agora se comportava como dono da casa, e ninguém ousava contrariá-lo. Nevra lançou um olhar a Umay, que seguia desconfiada.
Yusuf lavou os legumes, depois virou-se:
— Posso ajudar, professor? — ofereceu.
Evren pousou a mão em seu ombro e olhou-o firme:
— Aqui em casa eu sou Evren pra você. No trabalho — professor. — A voz saiu calma. — E sim… — colocou a faca na mesa. — Vem, preciso da sua ajuda.
Os dois saíram juntos, deixando Siren, Umay, Nevra e Parla.
— Alguém pode me explicar? — Umay abriu os braços. — O que houve lá em cima? O que tem com a mamãe? Por que ela não desce? E se estiver doente? Vou até ela! — decidiu.
— Não vá… — Siren segurou-lhe a mão. — Vamos confiar no Evren. — Pediu. — Bahar deve descer para o jantar. E se ela realmente tiver adormecido, você vai acordá-la? Umay, ela dormiu tão pouco ultimamente.
— Eu só quero olhar… — tentou se soltar.
— Se fosse algo sério — Siren insistiu, puxando-a — o professor estaria com ela agora. Não percebe? Já estaríamos todos no hospital! Mas olha pra ele… — baixou a voz — está tranquilo, os olhos até brilham. Isso significa que está tudo bem.
— Eles se reconciliaram? — Parla interrompeu, olhando pela janela.
O barulho de um motor veio do lado de fora: o carro de Yusuf saía do pátio.
— E onde o professor mandou o Yusuf, se acabaram de chegar? — Umay apontava indignada. — Tem certeza de que está tudo bem? E se for buscar remédios? Quem mais ele mandaria? Só o Yusuf, não você! Olha — espiava pela janela — ele ainda está no telefone!
Siren se aproximou para olhar. Evren realmente falava ao celular. Estava de costas para elas, a postura um tanto rígida, parecia dar ordens.
— Não é remédio, com certeza… — murmurou Siren, mas a dúvida já tinha se instalado. — Ele não pode ter assuntos próprios? — irritou-se. — Pode ser até trabalho.
— Se for trabalho, então esquece o jantar — Umay resmungou, jogando-se no sofá ao lado de Nevra e cruzando os braços. — Vai acabar indo embora, levando a mamãe junto. Se reconciliaram, vão trabalhar juntos de novo… e pronto, não vamos mais vê-la. Já ficou dois dias fora de casa, agora isso! — fez um beiço, emburrada.
— Obrigado, Uraz. — A voz de Evren ecoou da sala. — Continue monitorando, em duas horas quero análise de controle! Nada de novidades sem me ligar antes. — Encerrou e voltou à cozinha.
Pegou de imediato a faca e começou a cortar a carne. Todos o observavam em silêncio. Era estranho para todos ver um homem comandar a cozinha. Timur só uma vez tinha se aventurado, e nem deu tempo de acostumar.
— O que foi? — Evren se virou para eles. — O jantar não vai se preparar sozinho.
Siren foi a primeira a reagir. Pegou os legumes da pia. Parla despejou o arroz numa tigela e olhou para ele:
— Tia Bahar está mesmo bem? — perguntou baixinho.
A faca parou por um segundo. Evren ergueu os olhos, fitou Parla, depois os demais:
— Ela está bem. — Respondeu tranquilo. — Só cansada. Precisa descansar. O resto… não é da conta de vocês. — Uma única frase, e as fronteiras estavam traçadas.
Umay corou de raiva, prestes a discutir, mas Nevra tocou sua mão, implorando em silêncio que não insistisse. Ela, porém, não cedeu.
— Desculpe, mas é da nossa conta. — A voz dela tremeu. — Ela é minha mãe. Temos o direito de saber! Se houver qualquer coisa… — engasgou, mas não desviou o olhar.
Evren pousou a faca na tábua e se endireitou. Sua voz soou baixa, dura:
— Eu estou com ela. Sou o homem dela. Também sou médico. Não vou permitir que nada a machuque. — Fez uma pausa. — Nem mesmo a doença. É só isso que precisam saber.
Siren soltou o ar devagar, mas a tensão permanecia. Pela primeira vez, Evren não permitia interferência. Pela primeira vez, traçava limites — e todos teriam que se acostumar, respeitar.
— Vamos nos acalmar — pediu Siren. — Bahar está descansando, discutir não vai mudar nada.
Evren já voltara a cortar a carne, preciso como com um bisturi. Parla entregou a tigela com arroz a Siren e se afastou.
— Olha só… até corta a carne como se fosse cirurgia… — sussurrou para Nevra e Umay.
Nevra pegou o celular. Umay virou o rosto. Siren lavava o arroz. A discussão tinha deixado marcas; a ansiedade persistia. Umay queria despejar mil perguntas, mas pela primeira vez entendeu: não tinha direito a todas as respostas. Voltou-se para a porta, mas Bahar não aparecia. Quis subir, entrar no quarto da mãe… mas sabia: algo tinha mudado. Entrar assim, sem mais, já não era possível. Então levantou-se e foi até Evren.
Ele lançou um olhar de lado, e ela pegou uma segunda tábua, uma faca. Evren parou um instante, depois sorriu e diminuiu o ritmo, deixando-a acompanhar, aprender a segurar a lâmina com firmeza.
Siren acendeu o fogão, Parla cortava os legumes, Nevra, contrariada, largou o celular e pegou a tigela de cogumelos.
A cozinha, que há pouco era só tensão e medo, de repente parecia uma pequena sala de cirurgia: cada um com seu “instrumento”, e o cirurgião-chefe era Evren.
Aquele jantar era seu primeiro compromisso coletivo, sua primeira tentativa de aprenderem a ser uma família. Evren acendeu o interruptor, e a cozinha se encheu de uma luz suave…
***
A luz suave do abajur iluminava o quarto do hospital. Na mesinha ao lado da cama estavam uma caixinha de biscoitos, um jornal e uma revista. Reha, recostado nos travesseiros, observava atentamente a esposa. Gulchichek, resmungando algo, tentava se ajeitar na poltrona dura.
— Você sempre escolhe as cadeiras mais desconfortáveis… — riu ele, puxando a ponta do cobertor. — Quer trocar? Eu fico na poltrona e você na cama.
Gulchichek bufou, mas finalmente encontrou uma posição aceitável.
— De jeito nenhum. Você fica aí. O que o médico disse? — ajeitou a blusa, colocou as mãos no colo e olhou para o marido. — Eu não me casei com um professor de medicina para ele não me obedecer.
— Com quem você se casou afinal? — Reha forçou um ar sério. — Com o professor ou com o homem? — As sobrancelhas erguidas, o tom carregado de ironia.
— Pelo que já entendi… — ela respirou fundo, tentando não ceder à provocação — me casei com um teimoso que, mesmo depois da cirurgia, continua mandando em todo mundo! — segurou a mão dele. — Mas ainda assim eu obedeço você. — Sorriu, acariciando os dedos dele.
Reha apertou-lhe a mão, lançou um olhar rápido à porta, como se temesse que alguém os ouvisse.
— Às vezes penso que somos como adolescentes… — suspirou, fitando-a. — Um amor tardio.
Ela baixou os olhos.
— Mas verdadeiro. — murmurou, corando. — E sabe… — riu baixinho, erguendo o olhar — é por isso que não tenho medo. Mesmo que seja difícil, juntos é mais fácil.
Reha sorriu, soltando um suspiro.
— Só me promete uma coisa, Gulchichek. Se os médicos começarem a discutir sobre mim, você não vai brigar como Bahar faz pelos pacientes dela.
— Eu já estou brigando! — ela se exaltou. — Só que com você! — inclinou-se, tocando-lhe o rosto. — Porque você não me obedece!
Ele a olhava com gratidão, ternura, uma calma rara. Depois de tantos anos de solidão, tinha encontrado uma família de verdade. E sabia: cada membro da família de Bahar o protegeria como um dos seus.
Gulchichek ajeitou o cobertor dele, roçou os lábios em sua face e se endireitou.
— Descansa. — pediu. — O resto decidimos depois.
— Depois… — repetiu ele, sorrindo suavemente.
— Os remédios. — lembrou ela, pegando a revista na mesinha.
Reha tomou o copinho que a enfermeira deixara, engoliu os comprimidos, devolveu o copo vazio. Olhou para Gulchichek. Ela folheava a revista, sem ler, apenas virando páginas.
— Você está pensando nela. — disse ele.
— Em quem? — ela ergueu os olhos.
— Na Bahar. — respondeu direto.
Ela quis negar, mas apenas baixou o olhar em silêncio.
— Você teme que ela e Evren fracassem de novo. — continuou Reha. — Mas talvez já seja hora de deixá-los decidir sozinhos.
Gulchichek abraçou a revista contra o peito.
— E você… — disse baixinho, magoada. — Se preocupa mais com eles do que conosco.
Reha parou. O silêncio durou alguns segundos, apenas os aparelhos soavam. Ele então tocou os dedos dela:
— Porque vejo neles a nós. — suspirou. — E temo que cometam os mesmos erros, que percam tempo.
Ela o olhou, mas não respondeu. Ele sorriu, suavizando o peso das palavras:
— Sabe onde devíamos estar agora? — um sorriso maroto surgiu.
— Onde? — perguntou ela, séria.
— Numa ilha. Casinha simples, areia branca, o mar a dez passos… — fechou os olhos, pintando a cena. — Eu numa rede, e você reclamando porque esqueci de passar protetor nas costas.
Ela bufou, mas os cantos dos lábios se curvaram.
— Mas estamos num quarto de hospital, e seu único “mar” é o soro. — quis trazê-lo de volta à realidade.
— Mas estou com você. — retrucou ele. — Sim, é nossa lua de mel. Não é uma ilha, é um quarto… mas o importante é que você é minha mulher, e eu seu marido. Estamos juntos. — A voz ficou baixa. — Bahar e Evren também sonham só com isso: estar juntos. Talvez eles também precisem acreditar que tanto um quarto de hospital quanto a cozinha de casa podem ser lugares de felicidade.
Ela sorriu com tristeza. Inclinou-se e encostou o rosto ao dele.
— Um dia… — a voz dele virou sussurro — nós vamos, sim. Para uma ilha. Eu prometo. — Apertou-lhe os dedos. — E você vai usar um chapéu enorme.
Gulchichek não respondeu. Encostou a cabeça no ombro dele. O riso suave, o carinho, o toque: a ansiedade dava lugar ao aconchego. Dois adultos aprendendo a ser um casal — na doença e na alegria.
***
Sim, ela também aprendia a ser parte de um casal. Acostumava-se a não estar mais sozinha. Bahar saiu do quarto e foi até o das crianças. Entrou na penumbra, onde apenas o abajur lançava sombras quentes. Leyla dormia de braços abertos, o coelhinho branco ao lado. Mert ressonava no berço. A babá se levantou ao vê-la, mas Bahar a deteve com um gesto.
Inclinou-se sobre os netos, ajeitou o cobertor, beijou os cabelos de Leyla, depois a bochecha de Mert. O coração dela se apertou de ternura, de um calor doce por dentro.
— Durmam bem, meus amores… — sussurrou.
Fechou a porta devagar. No corredor, apoiou-se no corrimão, franzindo o rosto ao sentir outro espasmo no abdômen. Esperou passar. Sabia: se não comesse algo, pioraria. Passou a mão pela barriga, respirou fundo e desceu lentamente as escadas. Seguia o som de vozes e de louças batendo.
Mas o burburinho cessou quando ela surgiu à porta. Bahar parou no batente, encostou-se no marco, sorrindo ao ver todos servindo a mesa, ocupados.
— Bahar! — Siren foi a primeira a notá-la, mas se calou quando Evren levantou a cabeça na mesma hora.
— Mamãe! — Umay correu em sua direção.
Evren deixou a faca, contornou a mesa e chegou primeiro a ela, antes da filha.
CAPÍTULO 6. PARTE 3
— Por que você se levantou? — perguntou ele, fitando os olhos dela. — Eu disse pra você descansar. — E afastou uma mecha de cabelo de seu rosto.
— Quero ajudar. — Bahar deu um passo para dentro, mas Evren a segurou pelo braço e a levou até a mesa da sala de jantar.
— Você vai descansar! — declarou, sentando-a na cabeceira da mesa.
Bahar suspirou. Com aquele tom de voz, discutir era quase impossível.
— Então, pelo menos um café… — pediu, olhando para Umay.
— Eu faço! — Umay se animou imediatamente.
— Café nenhum! — a voz de Evren soou tão firme que todos congelaram.
Mesmo assim, Umay ergueu o queixo e apertou o botão da cafeteira. Olhava para Evren de propósito, desafiando-o, enquanto preparava o café para a mãe. Evren, porém, encheu um copo de água da jarra e, antes que Umay entregasse a xícara, ele a tirou de suas mãos e passou para Siren.
— Até o jantar — só água. — Estendeu o copo para Bahar.
Ela ficou em silêncio. Ainda não sabia como reagir àquela nova dinâmica, mas compreendia uma coisa: não poderia mais agir como antes. Antes teria apaziguado, desviado a energia de Umay para outra coisa. Mas agora decidiu confiar em Evren, deixá-lo encontrar espaço naquela família, como já havia deixado que ele cozinhasse para todos. Sempre fora rápida em se antecipar — e nem sempre isso tinha sido bom… sobretudo para ela mesma.
Bahar estendeu a mão, tocou o copo. Foi então que Evren viu: no dedo anelar da mão direita brilhava um anel… seu anel. O mesmo que ele havia colocado nela ao pedir em casamento. Por um instante, tudo desapareceu: a cozinha, as vozes, o burburinho. Só havia ela, e o brilho do metal renascido em sua mão. O peito dele se apertou, a respiração falhou, como se o mundo tivesse parado.
Ele não respirou até se dar conta de que não era sonho, era real. Seus olhos se encheram de lágrimas, e ele nem tentou disfarçar. Apertou a mão dela junto ao copo, inclinou-se e a beijou — diante de todos. O beijo foi tão longo que não restaram dúvidas a ninguém: Bahar e Evren estavam juntos de novo.
— Você senta. — murmurou ele, mas com firmeza. Certificou-se de que ela segurava o copo e soltou seus dedos. — Não levanta.
Todos observavam. Siren levou as mãos ao rosto para esconder o sorriso. Umay recuou devagar, sem perceber que sorria largamente com lágrimas nos olhos. Parla mordeu os lábios para não soltar um comentário. Nevra virou-se para a janela, mas até no reflexo era possível ver seu sorriso.
Estava claro: Evren e Bahar estavam de volta. Ainda não casados, mas retornando ao instante onde tudo começara: o pedido, o “sim”.
— Finalmente… — sussurrou Siren, sorrindo, enxugando a lágrima que escorria.
— Eu não disse? — murmurou Umay, com leve ironia, lamentando apenas que Uraz não estivesse ali para ver. Já pegava o celular para contar.
— Então é mesmo verdade… — suspirou Parla, baixando os olhos.
— Graças a Deus… — murmurou Nevra, quase inaudível.
— Ééé… — a voz soou hesitante. Yusuf entrou na cozinha. — Evren… fiz tudo que você pediu, e… — parou, confuso ao ver todos de olhos vermelhos. — O que aconteceu?
Evren abriu um sorriso largo, foi até ele e, de repente, o abraçou forte, batendo-lhe nas costas.
— Deixa lá em cima, perto da porta. — murmurou só para Yusuf. — Está tudo bem. Vai lavar as mãos. — Depois, alto, para todos ouvirem: — Vamos jantar.
— Ahhh… — Yusuf piscou, apontou para a porta e voltou-se a Evren. — Tá bom… — respondeu, saindo sem entender nada.
— Muito bem! — Evren esfregou as mãos, radiante, como quem tivesse acabado de ganhar o maior prêmio no cassino.
— Evren… — Bahar pousou o copo vazio sobre a mesa. — Se você não se apressar, eu vou morrer de fome. — A mão no abdômen, uma leve careta de dor.
Ele foi até ela, segurou-lhe os ombros, beijou-lhe a face.
— Não vou deixar você morrer de fome. — murmurou, sorrindo.
Pegou o copo, e tudo ao redor ganhou ritmo acelerado. Em cinco minutos, a mesa estava posta, e todos sentados. A sala se encheu de vozes, talheres tilintando, risadas, pequenas discussões, piadas, provocações. A vida na casa de Bahar fervia, recomeçando em um novo compasso…
***
No trabalho tudo fluía, a vida fervilhava — mas em casa a esperava silêncio absoluto e escuridão. Rengin fechou a porta atrás de si e por um instante encostou a testa no batente, como se isso pudesse aliviar o peso dos ombros. Tirou os sapatos devagar, alinhou-os no canto, deixou a bolsa na poltrona e acendeu o abajur. A luz amarelada espalhou penumbra pela sala, projetando sombras longas nas paredes.
Sentou-se na poltrona, esticou as pernas, mexeu os dedos dos pés, fechou os olhos. Ficou assim por uns cinco minutos, até sentir o corpo relaxar lentamente. Depois pegou o celular. Nos grupos de trabalho — escalas, perguntas dos assistentes — as mensagens não paravam de surgir. Rengin rolou a tela sem atenção. Quando abriu os contatos, os dedos pararam no nome “Bahar”. Deslizou sobre a tela, mas não ligou.
“Pra quê incomodá-la? Ela já tem preocupações demais. Parla está com ela”, pensou, deixando o telefone de lado. Parla não ligara nenhuma vez naquele dia — já estava virando costume. No fundo, Rengin entendia a filha: não era o mesmo ficar o dia todo sozinha em casa ou estar rodeada por Umay, Nevra e as crianças na casa de Bahar. Não podia se magoar com ela. Cada uma vivia à sua maneira a ausência de Timur. E, no fundo, não era por Timur… Parla apenas se cansara de estar só. Sempre estivera só, enquanto Rengin trabalhava, construía a carreira… a filha crescera sozinha.
Rengin pegou uma garrafa de vinho tinto no armário. A rolha estalou baixo, o líquido fino encheu a taça. O primeiro gole veio áspero, mas o sabor não preenchia o vazio. Olhou o próprio reflexo no vidro escuro da janela: forte, confiante, impecável… e absolutamente sozinha.
Os pensamentos voltaram a Serhat. O olhar dele no corredor do hospital, a frase calma, mas firme: “Eu não quero fingir que nada aconteceu.” Ela apertou a taça, furiosa consigo mesma por permitir aquela fraqueza — e, ao mesmo tempo, aquecida, porque sabia que ele falara sério, sem jogos. Não entendia aonde aquilo podia levar, nem se queria começar algo novo.
Por um instante imaginou a casa de Bahar: o barulho de pratos, as risadas, as discussões no jantar, a bagunça viva. Já a sua realidade era o tic-tac do relógio e o vinho, que só ressaltava o silêncio.
O celular voltou às mãos. A tela acendeu, o nome “Bahar” ainda em primeiro lugar. Os dedos hesitaram sobre o botão de chamada. Mais um segundo e poderia ouvir sua voz. Rengin suspirou, largou o telefone e se afundou na poltrona. Ligou a TV — e a desligou logo em seguida, incapaz de suportar o zumbido vazio das notícias.
— Eu dou conta… — sussurrou, tomando outro gole. Afundava-se no silêncio da própria casa, sob o brilho frágil do abajur.
Um gole. Silêncio. Só ela e seu reflexo no vidro. Mais um gole. Mais silêncio.
***
O quarto do hospital tinha sua calma interrompida apenas pelo zumbido dos aparelhos. Alya dormia, respiração regular, mas o rosto continuava pálido. Uraz lançou um olhar ao monitor que registrava os batimentos e depois à bolsa de soro.
Jennifer estava sentada junto à janela, folheando uma revista, mas na verdade observava a sobrinha muito mais do que lia.
Uraz anotava os parâmetros no tablet quando o celular vibrou no bolso. Pegou sem pensar. Uma mensagem de Umay. Ao abrir, congelou. Quase deixou o aparelho cair. A foto mostrava a sala de jantar de casa: Evren ao lado de Bahar, beijando-lhe a face, segurando-lhe os ombros. E na mão da mãe brilhava um anel. O anel. Uraz cerrou os dentes; os músculos do maxilar saltaram. Levantou-se bruscamente, já pronto para correr até em casa, explodir tudo. Mas parou, encostou a testa na porta.
O telefone vibrou de novo. Outra mensagem de Umay. Agora, um close da mão da mãe, o anel em destaque, com a legenda: “Eles estão juntos de novo. Eu te disse, Uraz! E você não acreditou!”
Ele fechou os olhos, sentindo o sangue ferver. “Nunca!” — gritou a mente.
O aparelho atrás dele apitou. Uraz virou-se a contragosto. O gráfico da pressão caíra bruscamente. Alya se mexeu, soltando um gemido. Ele correu para a cama. Jennifer largou a revista e levantou-se.
— Droga… — murmurou ele, ajustando o soro. Pegou uma seringa, aumentou a medicação mais rápido do que devia.
Sabia que não se fazia assim. Mas a raiva sufocava a razão.
— O que você está fazendo? — Jennifer agarrou-lhe o braço. — Tem certeza de que pode aplicar tão rápido?
— Eu sou médico! — cortou ele. — Eu sei o que faço.
— Vou ligar pro Evren. — Ela puxou o celular.
— Não! — a voz de Uraz tremia. — Eu sei o que estou fazendo!
Mas o monitor disparou em alarme: o pulso disparava. O rosto dele empalideceu. Sabia que errara na dosagem, que forçara demais o corpo.
— Meu Deus… — Jennifer levou a mão à boca. — Eu vou ligar!
— Não! — Uraz arrancou-lhe o telefone. — Me dê uma chance! — implorou.
Ele regulou o fluxo, colocou oxigênio, monitorava a respiração. Os minutos arrastavam-se como horas. Pouco a pouco, os números estabilizaram. O bip do monitor voltou a ser regular.
Uraz caiu na cadeira ao lado da cama, limpando o suor da testa. Sabia que não fora erro de interno — mas sim do filho de Bahar, que perdera o controle. As mãos ainda tremiam, embora tentasse se convencer de que tudo estava sob controle.
— Viu? — disse, mas a voz falhou. — Está sob controle.
— Você está brincando com a vida dela, garoto. — a voz de Jennifer foi baixa, mas seu olhar pesava mais que uma sentença.
***
…ela se sentia como se estivesse em um tribunal, aguardando a sentença — todos pareciam ansiosos, apressando o momento em que ela e Evren subiriam as escadas. Bahar captava os olhares misteriosos de Siren, os risinhos de Parla e Umay, as sobrancelhas erguidas de Yusuf, que parecia nem entender do que riam. Só Nevra se afastara para o canto da sala, sentada na poltrona, enterrada no celular, fingindo não se importar. Bahar, porém, sentia-se mais uma vez sob o foco de dezenas de olhos — só que agora de sua própria família — e suas faces não paravam de corar.
Antes, Evren sempre ia embora após o jantar. Mas agora era diferente: ele estava decidido a ficar, a viver com ela. Seria a primeira noite dele em sua casa. E Bahar temia exatamente esse momento — levantar-se e, diante de todos, subir com ele, não às escondidas, mas à vista de todos. Corava só de pensar nisso.
As vozes foram diminuindo. O jantar terminara, e a casa mergulhava numa calma acolhedora, presente nos sorrisos e olhares. Evren e Yusuf, com as meninas, recolheram a mesa; Bahar permaneceu sentada à cabeceira, segurando a xícara de café, ouvindo o barulho da louça na cozinha.
— Vamos. — A voz dele soou como sentença.
Ela ergueu os olhos e viu a mão estendida. Bahar corou de imediato, percebendo os olhares da família.
— Evren… todos estão vendo… — murmurou, envergonhada.
— E daí? — ele perguntou baixinho, fazendo-a deixar a xícara e levantar-se. Depois, em voz alta: — Boa noite a todos! — puxando-a em direção à escada.
Siren riu baixinho, Parla não conteve o riso, Umay revirou os olhos, Nevra virou-se para a janela mas, mesmo ali, brilhou um sorriso. Yusuf apenas coçou a cabeça, sem entender a comoção.
Evren não soltou a mão dela, firme, até chegarem ao andar de cima. Bahar corava mais a cada degrau. Pararam diante do quarto dela. Um grande malão preto estava encostado na porta.
— Você… — ela o encarou nervosa. — Você trouxe suas coisas?! Quando?!
— Pedi pro Yusuf. — Evren encolheu os ombros, empurrando o malão para dentro. — Eu já o tinha preparado pra viagem aos Estados Unidos.
Ao ouvir a palavra, o rosto de Bahar perdeu toda a cor.
— Então por que não foi?! — exclamou, batendo de leve no ombro dele.
Evren quase riu. Fechou a porta atrás dela, girou a chave e a puxou contra si, prendendo-a entre ele e a porta.
— Porque meu lugar é com você. — sussurrou, firme. — Não desfiz as malas porque planejava buscá-las hoje.
— Você… — ela tentou bater nele de novo, mas ele segurou a mão dela, levando-a aos lábios. Beijou não só a pele, mas o anel no dedo dela.
— Você já me respondeu, Bahar. — A voz dele se suavizou. — Você está usando o anel.
— Você é insuportável… — murmurou, e suas mãos repousaram nos ombros dele.
Queria retrucar, mas a boca dele roubou o fôlego dela. Sua espinha pressionada contra a porta, as mãos dele firmes em sua cintura — e o mundo desapareceu. O rubor ainda ardia em suas faces, mas junto a ele queimava o desejo, impossível de esconder. Bahar sorriu em meio ao beijo ardente, perdeu-se nele, os dedos cravados na camisa dele, como se temesse que ele sumisse de novo.
— Evren… e se ouvirem… — ela tampou-lhe os lábios com a mão, respirando rápido.
Ele riu contra a palma dela, apertando-a ainda mais contra si, sentindo o peito dela subir irregular sob a sua mão.
— Que ouçam. Todos já sabem. Eu não vou mais me esconder. — murmurou.
Ele afastou a mão dela, mas ela imediatamente cobriu o rosto. Evren abriu os dedos dela, beijando a tímida curva do sorriso escondido. Bahar tinha a impressão de que o calor de suas bochechas podia iluminar o quarto. Sussurrou o nome dele, trêmula.
Lá de baixo, um riso escapou — de Parla ou Umay. Bahar reconheceu mesmo com a porta fechada e, envergonhada, escondeu o rosto no pescoço dele. Mas bastou que Evren a apertasse ainda mais contra si, e todos os sons externos desapareceram. Só restava o sopro de suas respirações, o compasso acelerado dos corações.
Os beijos dele se tornaram mais famintos, a ponto de Bahar tentar empurrá-lo. Mas ele não recuou, pelo contrário — a segurou mais firme, como se tivesse medo de que ela escapasse. E então, quase assustado com sua própria intensidade, suavizou. Os lábios deslizaram pela bochecha dela, pela têmpora, até a testa, onde ficaram. Sentia o tremor dela sob seus toques. O ritmo dele se aquietava, e Bahar percebia que essa mistura — tempestade e ternura — a enlouquecia mais do que palavras.
Ele segurou a mão dela, beijou cada dedo e a conduziu devagar até a cama. O coração dela disparava. Mordeu o lábio para conter o sorriso, escondendo o rosto no ombro dele, ruborizada até as orelhas. Evren a deitou suavemente e foi abrindo os botões da blusa. Em vez de pressa, depositava beijos em cada pedaço de pele revelado, detendo-se na cicatriz, percorrendo toda sua linha com os lábios. Suas mãos delinearam a cintura dela.
— Não tenho pressa… — murmurou. — Temos a noite inteira, e todas as outras que virão. Quero saborear cada suspiro seu.
Os beijos dele desciam do rosto até a clavícula, calmos e ainda assim famintos. Cada toque parecia marcar que ela era dele — e só dele. Ela tremia, os olhos marejados.
— Eu tinha medo… de que você nunca mais me tocasse… — sua voz falhou.
Ele ergueu o rosto, prendeu o olhar dela.
— Bahar, esperei tempo demais. — beijou-lhe os lábios. — Mesmo que tivesse de esperar mais anos… eu esperaria. — soou como um juramento.
Ela sorriu entre lágrimas, envergonhada do próprio sorriso, quase cobrindo o rosto. Evren deitou-se ao lado, voltando a beijá-la — ora ardente, ora suave. As mãos dela o puxavam, como se não quisessem soltá-lo.
O quarto enchia-se apenas da respiração e dos sussurros deles. Ele segurava as mãos dela contra o lençol; ela se debatia rindo, corando. Até que o cotovelo dele esbarrou na mesa de cabeceira: um copo caiu, rolando pelo assoalho.
— Evren… eles ainda não dormiram… — sussurrou Bahar, apavorada com o próprio tom alto demais.
Ele tomou seus lábios num beijo rápido, e Bahar deixou escapar um gemido suave, o coração saltando — e se tivessem ouvido lá embaixo?
— Eles estão lá… e nós aqui. — murmurou ele, firme, a ponto de fazer-lhe tremer os lábios.
Os dedos dele tocaram o pescoço dela, e outro suspiro escapou, mais alto do que ela queria. Bahar tapou a boca com a mão, mas mal teve tempo de respirar quando a cama rangeu sob o movimento deles.
— Você prometeu ser discreto… — sussurrou, corando. — E está se comportando como se…
— Como se? — ele arqueou a sobrancelha.
— Como se quisesse que a casa inteira aplaudisse. — murmurou, fitando-o nos olhos.
— Então que se preparem para aplaudir. — riu Evren, beijando-lhe a palma da mão.
Ele segurou o olhar dela — e parou por um instante. Quantas vezes temera aquele passo? Quantas vezes imaginara que ela o afastaria, que o riscaria da vida de novo? Mas ali estava ela, as faces em chamas, os lábios trêmulos, o anel brilhando no dedo… e ele entendeu: não havia mais volta.
Beijou-a de novo, e de novo, até que o embaraço dela cedesse lugar ao desejo. Até que a noite, do lado de fora, se tornasse cúmplice deles.
— Bem-vindo ao lar, Evren… — sussurrou Bahar, segurando-lhe os ombros.
— Você é a minha casa, Bahar. — respondeu ele, a voz baixa, rouca.
Os lábios dele queimavam, as mãos seguiam pelas linhas conhecidas — e, ao mesmo tempo, redescobertas — do corpo dela. Bahar sentia as últimas barreiras caírem, como se ele tirasse não só as roupas, mas também os anos de dúvida e solidão.
Evren a beijava com tanta fome que sua cabeça girava. Ofegava com a proximidade, com o calor dele, com o fato de cada gesto prolongar o próprio desejo dela. Apertava-se contra ele, e cada suspiro se transformava num só ritmo compartilhado.
O corpo dela respondia ao dele, e já não conseguia conter os sons que escapavam a cada movimento. Enterrava o rosto no pescoço dele, não mais por timidez, mas porque não havia outra forma de conter os gemidos. Os lábios dele percorriam sua pele, a respiração quente incendiava, e cada beijo afirmava: agora ela era só dele.
Evren sussurrava o nome dela como se fosse um juramento. A voz dele tremia de sentimento, afastando qualquer sombra de medo ou dúvida. Naquela noite, eram apenas um para o outro — sem barreiras, sem olhares alheios, sem interrupções.
E Bahar fechou os olhos, dissolvendo-se nos braços dele. Pela primeira vez, compreendeu: sua casa não eram as paredes, mas sim o abraço dele, a respiração dele, o amor dele entrelaçado ao dela.
Os corpos se moveram em sintonia, e Bahar se deu conta de que, pela primeira vez em muito tempo, não temia o futuro. Porque o futuro começava ali — nos braços dele, naquela noite que pertencia só aos dois. Sem batidas na porta. Sem ninguém que ousasse interromper…
***
A luz fraca do abajur não incomodava o sono de Jennifer. Ela adormecera na poltrona, o jornal ainda preso entre os dedos.
Uraz, inquieto, revisava os registros do prontuário, conferia os números nos monitores. O olhar sempre voltava às telas, depois à ficha, depois outra vez ao gráfico.
Congelou ao ouvir o gemido de Alya. Ela se mexeu na cama.
— A cabeça dói… — murmurou. — Minhas mãos tremem… — a voz era fraca, mas ela tentava não reclamar.
Os lábios estavam esbranquiçados, os dedos tremiam tanto que mal respondiam. Uraz lançou um olhar assustado para Jennifer, mas ela ainda cochilava.
— É normal… — sussurrou, inclinando-se sobre a paciente. — Aguente só um pouco… — falava com firmeza, mas o coração disparava no peito.
Ele havia acelerado a medicação, aumentara a dose. Convencera-se de que assim o enxerto ficaria mais protegido. Mordia o lábio olhando para o soro. “Não é um erro. É melhor assim. Precisa ser assim”, repetia mentalmente, mas a ansiedade crescia dentro dele, como se andasse sobre gelo fino.
— É normal… — murmurou outra vez. — Tem que ser assim.
— Normal? Tem que ser?! — Jennifer despertou de súbito, erguendo-se da poltrona. — Olhe pra ela! Está pálida! Ligue para o Evren! Agora! — exigiu.
— Não! — respondeu ele com uma convicção teimosa. — Eu consigo. É só efeito colateral, de manhã estabiliza. Não vamos acordar ninguém no meio da noite! Estou fazendo exatamente o que o professor determinou!
Jennifer ajeitou o cobertor, passou a ponta dos dedos pela face da sobrinha e tentou sorrir para ela. Mas levou a mão à boca, com medo de que a voz denunciasse sua aflição. Quis pegar o telefone de novo, mas o olhar de Uraz — obstinado, quase desesperado — a deteve. Talvez ele estivesse certo. Talvez não fosse necessário incomodar Evren.
Alya gemeu outra vez, apertando os olhos. Uraz segurou-lhe o pulso, acompanhava o monitor. Sentiu o coração dela acelerar e praguejou baixinho, mas não pegou o celular. Não discou.
E a noite pareceu interminável. Cada bip do monitor soava no peito dele como pancada de martelo. Tentava manter o rosto sereno, mas os dedos tremiam ao escrever no prontuário, registrando os parâmetros a cada meia hora, como se, no fundo, precisasse provar a si mesmo que ainda estava no controle…
CAPÍTULO 6. PARTE 4
Mesmo estando no hospital, ela fazia questão de manter tudo sob controle. Para Gulchichek era importante que Reha comesse algo preparado por ela mesma. Levantou-se ainda de madrugada, saiu discretamente do quarto e voltou algumas horas depois. A penumbra ainda dominava o ambiente; só a luz branca do abajur ao lado da cama iluminava as roupas de cama igualmente brancas.
Entrou em silêncio, trazendo um termo e alguns potes. Reha já estava sentado, com um jornal médico sobre os joelhos. A mão dele ia de tempos em tempos ao peito, o rosto contraído, os lábios ressecados.
— Trouxe sopa — anunciou, fitando-o com atenção. — Quentinha. Nada desse caldo de hospital, mas de verdade, caseira. — disse com orgulho, colocando os pacotes sobre a mesinha.
Reha tentou sorrir, repousando o jornal.
— Você resolveu transformar meu quarto em restaurante? — perguntou, limpando discretamente o suor da testa.
— Melhor restaurante do que cemitério. — cortou ela, percebendo o suspiro dolorido. — Está de novo segurando o peito? — estreitou os olhos.
— Só estava deitado de mau jeito. — respondeu rápido demais, desviando o olhar.
Gulchichek sentou-se ao lado e pegou a mão dele.
— Reha, não minta pra mim. — forçou-o a encará-la. — Pensa que não vejo? Fica pálido quando se levanta. Fecha o rosto quando acha que não estou olhando.
— Não quero que você se preocupe. — fixou os olhos na parede, encarando a paisagem de uma pintura.
— Mas eu já me preocupo! — a voz dela tremeu de leve. — Você é médico, sabe melhor que eu: esconder a dor só piora! E pra mim isso é… — a respiração dela falhou. — É viver de novo no medo. Primeiro Timur, com Bahar… e agora você. Eu não suportaria outra vez.
Reha voltou-se, os olhos suavizados.
— Tenho medo de ser fraco diante de você, Gulchichek. — confessou. — Passei a vida sendo o que ampara os outros. E agora não consigo me levantar sem dor… não consigo dormir sem remédios.
— E eu tenho medo de perder você se continuar fingindo que está bem. — apertou a mão dele. — Não quero o professor que finge força. Quero o homem que amo, com todas as fraquezas.
Ele silenciou, abaixou a cabeça e então apertou os dedos dela.
— Então me perdoe. — disse baixinho. — Vou tentar ser sincero. Mesmo que pareça ridículo.
Gulchichek sorriu através das lágrimas, puxando a cadeira para mais perto.
— Assim está combinado. — ajeitou o travesseiro dele. — Primeiro toma a sopa, depois os remédios. Sem desculpas. — ordenou em tom firme. — Chega. A vida toda você deu aulas, agora é a minha vez de falar.
— Com esse controle todo… — murmurou Reha, divertido. — Nem preciso mais de professor.
— Claro que não. — bufou ela. — Agora você tem uma médica-chefe em casa.
Gulchichek tirou o jornal do colo dele e o deixou na mesa de cabeceira. E, pela primeira vez em dias, os dois riram com leveza…
***
Depois de tantos dias, ele finalmente dormira em paz. Evren acordou primeiro, quando a luz suave já se infiltrava pelas cortinas. Virou-se de repente — e o fôlego lhe escapou. Por um instante pensou que tudo da noite anterior tivesse sido apenas um sonho… mas não. Bahar estava ao lado, a mão segurava a beira do lençol, o anel brilhava nitidamente em seu dedo, e nos lábios dela permanecia um sorriso leve. Sonhava algo bom, e Evren não quis nem imaginar com quem ou com quê. Queria ser ele o centro de todos os pensamentos dela.
Seus lábios roçaram o ombro nu dela. Aproximou-se, encostou o rosto no pescoço dela, mergulhou nos cabelos, murmurando palavras indistintas, temendo despertar aquele instante… mas ela já abria os olhos, acordada pelo beijo. Sorriu, espreguiçou-se e puxou o lençol para si, mantendo os olhos fechados, tentando prolongar aquele doce despertar nos braços dele.
— Você chegou a dormir? — sussurrou, sem abrir os olhos.
— Fiquei te olhando. — respondeu com aquele tom que sempre lhe arrepiava a pele.
— Você é médico ou carcereiro? — provocou, sorrindo, ainda entre o sono e a vigília.
— Sou apenas seu. — murmurou, beijando-lhe a têmpora.
A mão dele deslizou por baixo do lençol e repousou sobre o ventre dela.
— Ainda sente espasmos? — perguntou baixinho, beijando-lhe o pescoço.
— Evren… acabamos de acordar! — ela abriu os olhos, franzindo a testa. — Vai começar de novo?
— Claro. — sussurrou ao ouvido. — Primeiro eu te beijo, depois te examino. Essa é a minha terapia.
Ela riu, e para impedir que a mão dele avançasse mais, virou-se rápido sobre ele, prendendo-o contra o colchão. Os cabelos caíram-lhe sobre o rosto. Os dois se beijaram com avidez, profundos.
— Eu sentia falta disso… — murmurou contra a boca dela. — Das manhãs contigo. — as mãos dele apertaram-lhe a cintura. — Não quero te soltar.
— A casa está cheia de gente… — lembrou ela, ofegante. — Eles pensam que ainda estamos dormindo.
— Pois que pensem. — retrucou, puxando-a contra si. — Mas você vai tomar café da manhã, entendeu? Ontem vi seus lábios… — e roubou-lhe um beijo intenso. — Estavam secos.
Ela corou, escondeu o rosto no ombro dele.
— Você é insuportável. — sussurrou.
— Mas sincero. — sorriu Evren. — E teimoso. Vou preparar o café de todos, não se importa?
Ela ergueu o olhar. Nos olhos dele havia desejo, ternura e um cuidado que quase a fez chorar.
— Não. — respondeu, beijando-o. — Mas sei que não vai só cozinhar. Vai organizar tudo e arrastar todos para ajudar.
Ele a puxou de volta, beijou-a e murmurou contra seus lábios:
— Mas café só depois da comida. — e a beijou de novo.
Bahar pegou o travesseiro e, rindo, acertou-o com ele. A almofada voou ao chão. Vermelha, rindo e ofegante, ela saltou da cama e correu para o banheiro. A porta se fechou com um clique suave.
Evren riu, sentou-se na beira da cama. Escutou a água correndo por alguns instantes, passou a mão pelos cabelos e foi atrás dela.
Bahar deixava a água quente deslizar pelos ombros e pescoço, olhos fechados. Sob o vapor, ainda sentia a noite na pele. Estremeceu ao ouvir a porta se abrir e a voz dele:
— Golpe de travesseiro é válido… mas acho que esqueceu: eu tenho a chave de qualquer porta. E, de qualquer forma, você vai tomar café da manhã. — insistiu.
Ela se virou, o rubor maior que o do vapor.
— Evren! Você não é normal!
— De jeito nenhum. — respondeu, fechando a porta atrás de si. — Senão não te amaria.
Ele avançou, e o coração dela bateu mais rápido que as gotas contra o azulejo. As mãos dele pousaram em seu rosto, depois deslizaram para os cabelos. Beijou-a devagar, como se fosse a primeira vez.
— Até debaixo do chuveiro você pensa em comida? — murmurou ela, quando ele se afastou.
— E você acha que estou brincando? — sorriu. — Vou te alimentar, nem que seja à força.
Ela balançou a cabeça, encostou-se ao peito dele.
— Teimoso… — suspirou.
— Minha arma secreta. — beijou-lhe a testa. — Na sala de cirurgia, com você… e até na sua cozinha.
Riram juntos. Evren a apertou contra si, e o riso se transformou em beijo ardente. A água deslizava pelos corpos, apagando as últimas barreiras entre eles…
***
Rengin apagou algumas linhas do documento, esfregou os olhos cansados e bocejou, cobrindo a boca com a mão. Piscou várias vezes, tentando afastar o sono, e voltou a encarar a tela. Quase não dormira à noite: em sua própria casa sentira um incômodo inexplicável e, ao acordar ainda de madrugada, viera direto para o hospital, onde mergulhou nos papéis. Agora, poucas horas depois, a exaustão voltava, as pálpebras pesavam, o corpo pedia descanso.
Estendeu a mão para a xícara de café, mas estava vazia. Ia se levantar para preparar outra quando bateram à porta. Nem teve tempo de responder — um homem alto, magro, de terno preto, entrou carregando várias pastas.
— Quem é o responsável pela segurança da informação? — perguntou de imediato, sem sequer cumprimentar.
— Bom dia, — respondeu Rengin, erguendo as sobrancelhas. — Desculpe, mas o senhor é...?
— Sert Kaya. Conselho de Medicina Estratégica. — Ele avançou e colocou uma pasta sobre a mesa dela. — Coordenador temporário desta instituição. Quem responde? — repetiu, fixando os olhos nela.
Entrara em sua sala como quem invade território alheio — sem dar espaço para formalidades.
— Depende do nível de acesso, — Rengin manteve o olhar firme e se levantou. — Mas imagino que esteja falando da invasão do arquivo das câmeras de vigilância?
— Não é invasão, — interrompeu com voz cortante. — É crime! — Cada palavra saía como um disparo, curta, dura, definitiva. — Filmagem em sala cirúrgica. Transmissão não autorizada. Isso é um golpe na reputação! Quero saber o que a senhora fez. Ou preferiu abafar o caso?
— Já identificamos o responsável, — respondeu com calma contida, embora a voz soasse mais dura. — Ele não é funcionário. Fizemos uma investigação interna.
— Funcionário de cozinha de restaurante. — Sert completou por ela. — Meio-irmão de um dos seus cirurgiões principais. Quer que eu acredite nessa “investigação”? Onde está o protocolo? Onde está a denúncia na promotoria?
Rengin saiu de trás da mesa, foi até o armário, pegou uma pasta e a colocou diante dele.
— Todo o material está reunido. A decisão de encaminhar está em fase de deliberação.
— Deliberação com quem? — exigiu.
— Inclusive com a paciente, que esteve entre a vida e a morte naquela cirurgia, — respondeu, controlando o tremor dos dedos. — Consideramos relevante o fato de que ele… — fez uma pausa, encarando-o nos olhos — reconheceu o que fez.
— Não sou psicólogo, doutora. Sou coordenador. Sua compaixão é problema seu. — Deu um passo à frente. — Daqui em diante, quem decide sou eu.
Abriu outra pasta que trazia nas mãos e tirou um documento.
— Minha ordem. — colocou diante dela. — Dentro de uma semana, todos os materiais devem ser entregues à promotoria.
Rengin ficou em silêncio, sem saber quais palavras usar.
— Não sou seu inimigo, doutora, — disse sem alterar o semblante. — Mas este hospital não é uma cafeteria familiar. É uma instituição. Protocolo. Ordem. Responsabilidade! Vocês deixam as emoções contaminarem a sala de cirurgia!
— Pois bem… seja bem-vindo, — respondeu Rengin com esforço, cruzando os braços. — Pelo visto, começou sem introdução.
— Introduções são para quem tem tempo. E vocês não têm. Nem direito ao erro. — ele ajustou a gravata.
— Se isso é uma apresentação, — ela ergueu o queixo, — soa mais como acusação.
— Não acuso, — Sert inclinou levemente a cabeça. — Constato fatos. Um passo em falso — e o departamento será fechado. Está preparada para responder por isso?
— Todos os dias. — ela cravou os olhos nele. — Respondo diante dos pacientes, não diante de… — hesitou — curadores.
— A partir de agora, — a sombra de um sorriso tocou-lhe os lábios, mas os olhos permaneciam frios, — responde diante de mim. Não jogo em equipe, professora Rengin, eu a lidero. Vocês se permitiram demais! — arremessou outra pasta sobre a mesa dela.
O olhar dela caiu no nome em destaque: Çagla. Então ele viera preparado. Seus passos já estavam mapeados em protocolos e relatórios.
— Fiz o que considerei necessário para a paciente, — disse, levantando a cabeça.
— Considerou que era o certo, — retrucou, os dedos tamborilando na mesa, cada toque marcando como sentença. — Neste hospital não existe “certo” ou “errado”. Existem protocolos. E a senhora tem obrigação de cumpri-los.
— Protocolos não salvam uma criança se fecharmos os olhos para o óbvio. — devolveu o olhar firme.
— E emoção salva? — sorriu de canto, mas sem alegria. — Suas ligações pessoais com a doutora Bahar e sua família já ultrapassaram todos os limites. Está se esquecendo!
— Não me esqueço! — a caneta rangia entre seus dedos, mas ela não desviou os olhos. — Eu sou médica!
— Não, — Sert inclinou-se para ela, o tom baixo e cortante. — A senhora é parte de um sistema. E se não sabe ser engrenagem, será substituída. Lembre-se disso.
O silêncio que se seguiu pesou como chumbo. Rengin sentiu-se esmagada pelo sussurro dele, mais cruel que um grito. Sert se endireitou, deixou mais uma pasta sobre a mesa, como ponto final.
— Pessoas morrem. Máquinas seguem funcionando. Escolha seu lado, doutora. — disse, antes de se virar e sair.
A porta fechou-se atrás dele. Rengin afundou-se na cadeira, os dedos ainda apertando a caneta até embranquecer os nós. O leve rastro de perfume no ar e a sensação de que haviam acabado de declarar guerra pairavam no gabinete. O campo de batalha estava aberto — e o nome dela já estava na primeira linha de fogo.
***
As luzes de freio se apagaram e o motor silenciou. Bahar saltou imediatamente da moto e começou a mexer no fecho do capacete, mas os dedos tremiam e a trava não cedia. Evren tirou o próprio capacete, aproximou-se e, inclinando-se, com um movimento ágil soltou o laço apertado do queixo dela. O capacete deslizou facilmente de sua cabeça, revelando o rosto dela, e o olhar dele permaneceu ali mais tempo do que deveria. Bahar virou-se depressa, as bochechas coradas de repente.
— Não me olhe assim, — murmurou, desviando os olhos.
— Assim como? — a voz dele soou preguiçosa, quase como um ronronar. — Só estou verificando se minha paciente está bem.
— Paciente? — ela o encarou. — Ou mulher?
Ela olhava em volta, como se temesse novamente dezenas de olhares sobre os dois.
— Bahar, nós saímos de casa como se estivéssemos fugindo, — resmungou ele, dando um passo em sua direção.
Ela imediatamente acelerou o passo.
— Às vezes é a única forma de evitar perguntas desnecessárias, — disse, escondendo o embaraço no movimento apressado.
— Perguntas… ou outra coisa? — ironizou ele, acompanhando-a.
— Você gosta tanto assim de atenção?! — retrucou ela.
— Só da sua, — respondeu tranquilo, e isso a fez andar ainda mais rápido. — Então por que fugimos? — insistiu, exigindo resposta.
Sim, o anel brilhava em seu dedo, sim, eles tinham saído juntos do hospital no dia anterior, sim, ele já vivia em sua casa… mas ainda assim Bahar não conseguia se livrar do constrangimento interno. Ele praticamente a alcançou.
— Fugimos, — ela ferveu de indignação. — Com o barulho que você fez à noite, até os surdos teriam ouvido! Como vou encarar todo mundo?
— Eu? — ele fingiu inocência. — Acha mesmo que eu fui mais barulhento que você?
— Evren! — ela se virou, os olhos faiscando. — Não estamos sozinhos na casa, será que você não entende?!
Evren a alcançou, segurou-lhe o braço e ajustou o ritmo dos passos dela.
— E você foi silenciosa? — sussurrou bem junto ao ouvido dela, fazendo-a corar ainda mais. — Tem certeza de que fui eu quem fez barulho? — os lábios quase roçaram a bochecha dela. — Bahar… depois que a luminária caiu, de qualquer forma teremos de encarar todos.
— Você é insuportável! — exclamou ela, acelerando de novo.
— Mas honesto, — retrucou, agarrando-lhe novamente o braço.
O toque dele queimava mais do que o sol da manhã. Ela oscilava entre o rubor e a palidez caminhando ao lado dele. No rosto dele, porém, havia um sorriso satisfeito, tão revelador que ela quase pediu que ele parasse de sorrir assim.
— Não esqueceu que hoje tem ultrassom e exames, — ele falou de propósito mais alto, provocando-a enquanto segurava firme seu braço, impedindo que escapasse.
Bahar girou-se bruscamente, a raiva faiscando nos olhos dela, tão forte que não deu tempo de disfarçar:
— Se você repetir na frente de todos “exames” ou “consulta”, eu te estrangulo, — disse entre dentes.
— E eu vou repetir, — murmurou ele ao ouvido dela. — Porque adoro ver você irritada.
— Que exames? Você mesmo insistiu para que eu tomasse café da manhã! — lembrou ela, ainda furiosa. — Agora vamos nos atrasar por sua culpa, e de quem será a responsabilidade?
— Minha, — ele concordou sem hesitar, os cantos da boca se curvando num sorriso ainda mais amplo, quase predador. — Sempre serei culpado, se for por você, — inclinou-se, pronto para beijá-la, mas ela escapou de novo, apressando o passo. — Até pela forma linda como você se irrita de manhã ou se atrasa por minha causa.
As bochechas de Bahar ardiam.
— Claro que sua, — resmungou teimosa. — Você não é só médico, Evren. Você é meu homem. Meu homem que me atrapalha até na ida ao trabalho, — completou, mas a voz já trazia mais calor do que raiva.
Ele diminuiu o passo, obrigando-a a parar também. Quando ela se virou, as sobrancelhas erguidas, o olhar dele fez seu coração disparar. Naquele instante, só queria abraçá-lo, esconder o rosto no ombro dele, respirar nele.
— Estou pronto para te atrapalhar todas as manhãs, — disse com voz grave, fazendo-a estremecer. — Sou médico e sou homem. E vou cuidar de você. Sempre. Sem parar.
— Às vezes acho, — murmurou, a voz trêmula, — que você se esconde atrás dessa palavra — “cuidado”.
Evren ficou sério na hora:
— Bahar, — o tom firme cortou o ar, — há coisas com as quais não se discute. — E ela acabou encostando o rosto no pescoço dele. — Eu sou responsável por você.
— Fala como se já fôssemos casados, — resmungou.
— Seremos. Questão de tempo. — ele tocou os lábios na têmpora dela. — E não haverá cancelamento.
Ela fechou os olhos. Essa firmeza dele era o que sempre desmontava suas defesas. E ao mesmo tempo a assustava. Suspirou, colando-se a ele, como se esquecesse que minutos antes tinha vergonha de andar ao lado dele. O embaraço se misturava à sensação de estar rendida.
— Você é insuportável, — murmurou, roçando os lábios no pescoço dele.
— Mas sou seu, — ele a encarou, acariciando-lhe o rosto com os dedos. — E o melhor de tudo — é que no fim você sempre me ouve.
Bahar afastou-se só o suficiente para encarar seus olhos. Queria retrucar, mas a respiração falhou.
— Evren… estão olhando, — sussurrou, sem conseguir se afastar de verdade.
— Que olhem, — ele sorriu. — Todos já sabem.
As bochechas dela queimavam, o coração batia tão forte que parecia audível. Ele se inclinou, os lábios quase tocando os dela. Esqueceram que já estavam dentro do pronto-atendimento, à vista de todos.
O toque agudo do celular rompeu o ar. Ela se sobressaltou e recuou. Evren praguejou baixo, pegou o telefone e viu o visor. Seu semblante ficou imediatamente sério.
— Jennifer, — disse secamente.
— Alya, — disseram os dois ao mesmo tempo.
Bahar desviou o olhar, escondendo no meio-gesto tanto o constrangimento quanto a pontada de decepção. Mas o estrondo da porta fez ambos se virarem. Um homem entrou correndo, roupas manchadas de sangue, carregando uma jovem inconsciente nos braços. O sangue escorria pelos cotovelos dele.
— Ajudem! — gritou, a voz quebrando. — Não sei o que está acontecendo com ela!
— Bahar, — Evren deu um passo instintivo à frente, protegendo-a.
— Evren, Alya, — lembrou ela, passando ao lado dele. — Vai! — disse firme, já deixando o embaraço de lado e assumindo a postura de médica.
Evren hesitou, mas Bahar largou a bolsa no chão e já calçava as luvas.
— Maca! — ordenou ela. — Abdômen rígido… pulso fraco… possível ruptura!
— Ela está grávida… — o homem gaguejava. — Eu tentei… eu sou médico…
— Que tipo de médico? — cortou Bahar, percebendo de canto que Evren, ao telefone, já corria para fora.
— Veterinário… — murmurou ele, sem fôlego.
Por um instante todos congelaram.
— Para a sala de cirurgia! — determinou Bahar. — Agora!
A maca desapareceu por trás das portas. Ferdi pegou a bolsa de Bahar e balançou a cabeça:
— Já estavam prontos para se beijar na recepção, — resmungou com desaprovação.
Até ontem não acreditava que estavam juntos. Mas hoje, todas as provas estavam diante dos olhos.
CAPÍTULO 6. PARTE 5
Bahar caminhava ao lado, segurando a maca, fixando o olhar no rosto pálido da garota, tão jovem, não devia ter mais de vinte anos. Os enfermeiros empurravam a maca pelo corredor. Ela franziu a testa ao ver as manchas de sangue que apareciam no lençol branco. Bahar não conseguia entender as palavras que o homem murmurava, seguindo-a de perto.
— Ela está grávida — Bahar finalmente conseguiu decifrar seu resmungo.
Ele falava como se estivesse se justificando. Bahar olhou para ele.
— Você é veterinário? — perguntou ela.
— Eu… sim, — sua fala era confusa, — eu sou veterinário, — desviou os olhos. — Eu apliquei uma injeção… — tinha medo até de encará-la.
— Que injeção?! — exigiu ela, apertando o pulso da jovem.
Com dificuldade, sentiu o pulso, e o ritmo não lhe agradou em nada.
— Prostaglandinas, — no meio do murmúrio dele, ela reconheceu o nome, e seu coração gelou.
Ela imediatamente se voltou para ele:
— Você aplicou esse medicamento nela? — sua voz era gelada, o fôlego curto de tanta raiva.
— Foi ela que implorou! — o homem explodiu, aproximando-se de Bahar. — Eu não queria… O pai dela me mataria, — respirava ofegante. — Eu não tive escolha!
Bahar não se conteve, seu olhar vacilou, e por um instante brilhou um traço de reprovação. Esse instante bastou.
— Eu não queria! — ele quase gritou, reagindo àquela micro-expressão. — Ela implorou! Eu não podia perder minha família, eu tenho esposa, filhos!
— Você não faz ideia do que fez, — Bahar se recompôs com esforço, sua voz firme e fria. — Isso não é tratamento. É um crime.
O rosto dele se contorceu numa careta. De repente, agarrou o braço dela, como se quisesse obrigá-la a ouvi-lo.
— Eu estava salvando ela! — seus dedos apertavam seu cotovelo com força, quase torcendo seu braço. — Ela mesma pediu essa injeção!
As palavras ecoavam nas paredes. Bahar empurrou seu peito com a mão, mas ele não se mexeu. Seus dedos a seguravam com uma força mortal, machucando, deixando marcas vermelhas em sua pele.
— Solte-me! — Bahar o empurrou com o ombro. — Você não a salvou, — tentava se soltar, mas era inútil. — Você a destruiu!
Nesse instante, as portas se abriram e Rengin surgiu no corredor. Atrás dela, um pouco mais distante, vinha Ahu, com o tablet apertado contra o peito.
— Bahar, — Doruk apareceu correndo, vindo do canto.
— Bahar, — Ferdi surgiu do outro lado.
O homem a empurrou com tanta força que ela bateu contra a parede, o ar escapou do peito, a vista escureceu. Ferdi e Doruk se lançaram sobre ele, prensando-o contra a parede.
— Foi ela que quis! A culpa é dela! Eu a amava! — gritava ele, engasgando com as próprias palavras.
Bahar ajeitou o jaleco, ainda ofegante pela luta, voltou-se para a garota, sem notar que as marcas vermelhas dos dedos dele manchavam sua manga.
— Para a sala de cirurgia, — ordenou, respirando com dificuldade, a mão apoiada nas costas, mas sem deixar escapar um gemido de dor. — Agora mesmo!
— Segurança! — a voz de Rengin soou dura. — Chamem a polícia, rápido!
O rosto de Ahu empalideceu, os dedos crispados em torno do tablet. Ela olhava para Rengin e entendia que teria de registrar tudo aquilo.
— Quero um cardiologista! — Bahar entrou atrás da maca no centro cirúrgico, apagando do rosto toda emoção, voltando num segundo a ser apenas médica…
***
Nada era simples. Evren entrou e captou a situação de imediato. Os monitores apitavam de forma alarmante. O rosto pálido de Aliya, sob as pálpebras, sombras azuladas. Jennifer, com os olhos vermelhos de tanto chorar, estava ao lado, segurando firme a mão dela. Uraz estava diante do monitor, as mãos trêmulas, evitando encarar diretamente.
— O que aconteceu à noite? — sua voz cortou o ar, fria, incisiva.
— Queixa de dor de cabeça, tremores, — murmurou Uraz. — Controle de pressão e pulso a cada meia hora.
Evren aproximou-se do leito. Colocou os dedos no pulso de Aliya, levantou as pálpebras, iluminou com a lanterna, fixou os olhos no monitor.
— Overdose, — declarou sem hesitar. — Sangue imediatamente para dosagem de tacrolimus.
— Eu disse a ele que tinha que te chamar ainda de noite! — a voz de Jennifer falhou.
Ela se lançou em direção a Evren, como se nele estivesse a única salvação. Evren assentiu, sem desviar o olhar da paciente.
— Você estava certa, — disse em tom breve e firme, voltando-se ao assistente. — Sulfato de magnésio, em bolus! Gluconato de cálcio, intravenoso! Aumentar a infusão, mas sem sobrecarregar o fígado. Monitorar enzimas e ECG a cada trinta minutos. Tacrolimus — suspenso. Passar para esquema básico, dose mínima.
Evren estava absolutamente concentrado. Uraz enxugava o suor da testa, nervoso. Jennifer apertou ainda mais a mão de Aliya.
— Evren, — ela o olhava como a um salvador, — o coração dela… está… batendo rápido demais…
Enquanto continuava os procedimentos, Evren não disse uma única palavra…
***
Ela não conhecia a palavra “não” quando acreditava que existia ao menos uma chance. Onde outros recuavam, Bahar ia até o fim, mesmo que fosse uma luta contra a própria morte.
— Sinais de hemorragia intra-abdominal maciça, — disse ela, fazendo o ultrassom diretamente na mesa de cirurgia.
— Pressão sessenta por quarenta, — a voz do anestesista a deixava nervosa.
— Estou perdendo ela, — Bahar levantou a cabeça. — Onde está Serhat?!
— Estou aqui, — ele entrou correndo na sala de cirurgia, com as mãos erguidas.
— O coração está instável, — ela soltou um suspiro de alívio. — Você segura o ritmo, eu entro na cavidade abdominal, — ordenou rapidamente.
— Parem, — a voz de Rengin soou cortante, obrigando-os a congelar por um instante e virar-se para ela.
A enfermeira já ajudava Serhat a vestir roupas estéreis e luvas. Bahar voltou-se para a paciente.
— Você tem ideia do que está fazendo? — Rengin, ainda à porta, com a máscara no rosto, não ousava entrar. Atrás dela, Ahu surgia com o tablet na mão. — Isso é um caso criminal. O Conselho vai exigir protocolo, — sua voz tremeu. — Sert Kaya já está a par do que está acontecendo!
— Se ficarmos escrevendo protocolo, ela morre, — Bahar assentiu para Serhat, sem sequer perguntar quem era Sert Kaya.
Ela não desviou mais o olhar para Rengin, seus olhos estavam presos à paciente.
— Eu a salvei! A culpa é dela mesma! — os gritos do homem vinham do corredor.
— Temos um minuto, — Serhat aproximou-se da mesa, sem ainda tocar na garota.
Rengin olhou para o rosto pálido da menina, para os lençóis ensanguentados, para os monitores apitando em alerta. Cerrou os dentes e rosnou:
— Façam! Eu assumo toda a responsabilidade, — virou-se e saiu. — Registre tudo, — ordenou a Ahu. — Ferdi, onde está a polícia?
Ela se calou ao vê-lo. Sert Kaya surgiu na curva do corredor. Passou sem diminuir o passo, apenas lançou para Rengin um olhar frio, cortante. Foi o bastante: ele tinha visto. Ele tinha registrado tudo. Ahu se encolheu contra a parede, enquanto Rengin permaneceu firme na entrada da sala de cirurgia, como se, se fosse preciso, impediria até mesmo ele… o próprio Sert Kaya.
***
Ela mesma tinha permitido que tudo chegasse àquele ponto. Jennifer não encontrava paz, enquanto Evren literalmente trazia Aliya de volta do mundo dos mortos.
— Evren, o coração, — exclamou novamente.
— Estou segurando, — respondeu ele brevemente, acompanhando o ritmo.
— Você alterou a dose? — agora seu olhar se cravou em Uraz.
— Eu quis me precaver, os níveis de enzimas… — começou ele.
— Primeiro a paciente, — Evren o cortou de forma dura. — As explicações depois.
Inclinou-se sobre Aliya, checou novamente o pulso. Um minuto depois, o monitor estabilizou o ritmo, a pressão subiu um pouco. Evren se endireitou e só então olhou para Jennifer.
— A crise passou, — anunciou com calma, mas a tensão ainda estava nos olhos. — Os sintomas vão diminuir, — soltou o ar. — Tivemos sorte de não acabar pior.
Jennifer olhava para Evren. As lágrimas ainda brilhavam em seus olhos. Ela não soltava a mão da sobrinha. Evren se voltou para Uraz:
— Depois da ronda, no meu consultório, — disse em tom baixo. — Vamos discutir suas ações. Aqui não é lugar.
Uraz assentiu, cabeça baixa. Fingiu aceitar as palavras de Evren — mas por dentro se fechava, como se se preparasse para outra batalha. Os lábios empalideceram de raiva contida. Nenhum músculo do rosto se moveu, mas nos olhos brilhou aquela teimosia que não conhecia a palavra “lição”...
***
Isso não era nada parecido com uma aula para um assistente novato. Não era aprendizado, era pesadelo: sua primeira cirurgia com a doutora Bahar tinha se transformado em um inferno.
— Pressão 60 por 40! — o anestesista não tirava os olhos dos monitores.
— Acesso! — Bahar fez a incisão e o sangue jorrou, inundando a mesa. — Pinça!
O assistente, pálido como um lençol, atrapalhava-se, as mãos tremendo, a pinça escorregando.
— Eu… não alcanço…, — murmurou ele.
— Me dá isso! — Bahar praticamente arrancou o instrumento de suas mãos.
— Pulso caindo, — o olhar de Serhat estava fixo no monitor. — Adrenalina em bolus! Magnésio na veia! Se a pressão despencar, o coração para!
O monitor explodiu em um bipe estridente.
— Estou perdendo ela! — a voz de Bahar falhou. Seus braços estavam cobertos de sangue até os cotovelos, os dedos escorregando pelos tecidos. — Não encontro a fonte!
— Pressão quarenta por vinte! — gritou Serhat. — Assistolia!
O monitor sustentou um som agudo, contínuo. Na tela, uma linha reta. O assistente estava paralisado.
— Meu Deus…, — o instrumento caiu de suas mãos.
Bahar fechou os olhos por um instante.
— Não vou te entregar…, — abriu-os novamente e, com ambas as mãos, foi mais fundo, como se quisesse arrancar a morte de dentro da garota. — Está me ouvindo, pequena? Aguenta firme!
Um estalo, e a pinça entrou no lugar certo. O sangue parou de jorrar. O monitor apitou irregular… depois de novo… até que surgiu um ritmo constante.
— Temos pulso! — gritou Serhat. — A pressão está subindo!
— Ela vai viver, — Bahar, trêmula de tensão, ergueu os olhos.
Do lado de fora da sala, Rengin assistia. Seus dedos estavam tão cerrados que os nós se embranqueceram. Ao lado dela, Ahu já digitava algo no tablet. A polícia levava o homem detido.
— Foi ela que quis! Eu a amava! — suas palavras, como flechas disparadas, atravessavam as paredes, atingindo em cheio todos que acabavam de vencer a batalha contra a morte, garantindo à garota o direito de viver…
***
Ele tinha o direito de tomar decisões. Era médico, repetia Uraz para si mesmo ao entrar no gabinete do professor. Evren estava sentado à mesa, sem levantar a cabeça. Escrevia algo no prontuário, enquanto Uraz permanecia em pé diante dele, como um aluno chamado à diretoria. O silêncio era quase absoluto, apenas o som da caneta riscando o papel preenchia o espaço. Finalmente, Evren ergueu o olhar.
— Você entende o que fez? — perguntou Evren, deixando a caneta de lado.
— Eu… — Uraz apertou as mãos atrás das costas, nervoso, — aumentei a dose para reduzir o risco de rejeição.
— Reduziu o risco? — Evren quase sorriu, mas em seus olhos não havia nada de humor. — E você viu o que aconteceu com ela à noite? Tremores, taquicardia, dor de cabeça. Se o nível tivesse subido mais um pouco, — ele apontou bruscamente para o prontuário, — ela não teria sobrevivido até de manhã.
— Eu não quis prejudicar, — murmurou Uraz, abafado.
— Nenhum de nós quer, — cortou Evren. — Mas medicina não é querer. É conhecimento, cálculo, responsabilidade! Você acelerou a infusão, — disse ele sem alterar o tom. — Viu os índices, sabia do risco. E mesmo assim insistiu!
— Eu a estava perdendo! — explodiu Uraz. — A pressão caía, eu precisava agir!
— Agir não significa atropelar tudo! — Evren bateu a palma da mão sobre a mesa. — Você não está numa academia, Uraz. É médico. E médico responde não só pelo que faz, mas pelas consequências. Você deu a mais. Achou que se garantiria, mas excesso é ameaça tanto quanto falta. A proteção de um transplante não vem da dose, mas do equilíbrio.
Uraz se calou, olhando para o chão.
— Se não fosse o corpo dela resistindo, se não fosse sorte, — Evren continuou, agora mais baixo, — estaríamos falando de outra coisa.
— Mas eu estabilizei os índices… — murmurou Uraz, em defesa fraca.
— Você quase destruiu tudo, — cortou Evren. — Lembre-se: médico não é herói. Médico caminha passo a passo. Um erro custa uma vida. Entende isso?
Uraz assentiu em silêncio, os punhos cerrados.
— Você estabilizou por cinco minutos. Eu — por vinte e quatro horas. Essa é a diferença entre “segurar” e “tratar”, — Evren levantou-se, contornando a mesa. Aproximou-se até quase encostar nele.
— Grave isso: médico não pode agir pelo medo, — sua voz soou menos dura, mas firme. — Você estava com medo. Viu sua mãe, viu a dor dela, lembrou-se do sofrimento… e decidiu se prevenir. Mas seu medo quase matou a paciente.
Uraz cerrou o maxilar, incapaz de responder. O rosto queimava de raiva e vergonha ao mesmo tempo.
— Me diga, Uraz, — a voz de Evren ficou mais baixa, mas ainda mais cortante, — você queria provar algo para mim? Ou para si mesmo?
— Para mim, — ele forçou as palavras. — Que eu consigo.
Evren parou por um momento, depois se afastou e voltou à mesa.
— Você é um bom médico, Uraz, — disse, agora com um tom levemente mais brando, — mas por enquanto é perigoso. Perigoso para si mesmo e para os outros. Porque em suas ações ainda há mais emoção do que conhecimento. Você está aprendendo. Vai errar. Mas se esconder os erros, se fingir que consegue quando não consegue, você vai perder o paciente.
Uraz ergueu os olhos:
— Então vai contar para minha mãe? — havia amargura em sua voz.
Evren o fitou longamente.
— Não, — respondeu enfim. — Não faz sentido. Mas você vai lembrar dessa noite para o resto da vida. E nunca mais vai se permitir tratar um paciente para alimentar o próprio ego.
Ele sustentou o olhar, depois suavizou a voz:
— Eu sei que você sente raiva de mim. Por causa da Bahar. Porque pensa que repito os erros de seu pai. Mas quando você está na enfermaria — você não é filho, nem menino ressentido. É médico, — Evren olhava direto em seus olhos. — E ou você aprende a separar esses papéis, ou não salvará ninguém.
Essas palavras pesaram mais que qualquer grito. Uraz ergueu os olhos, e pela primeira vez neles surgiu não raiva, mas confusão.
— Dessa vez eu corrigi. Da próxima — talvez não dê tempo. Pense nisso, — Evren quase se sentou na cadeira, mas parou. — E mais uma coisa, — seus olhos se fixaram nele, — se da próxima vez você se encontrar sem saída — me ligue. Mesmo de madrugada. Mesmo se achar que eu vou acabar com você em pedaços. Melhor eu — do que a morte na sua consciência.
Uraz soltou o ar e saiu do gabinete. No corredor, encostou as costas na parede e fechou os olhos. Por dentro, ainda fervia. Mas junto com a raiva nasceu algo inesperado — vergonha… uma vergonha devastadora.
***
Ela se sentia exausta, esgotada. As portas da sala de cirurgia se abriram. Bahar saiu para o corredor. Seus olhos brilhavam, o rosto pálido — a tensão ainda não tinha passado. Atrás dela veio Serhat, limpando o suor da testa com a manga e apoiando-se na parede.
— Ela vai viver, — Bahar suspirou.
Rengin estava próxima, braços cruzados. Atrás dela, Ahu digitava sem parar no tablet, registrando cada detalhe.
No corredor apareceu um homem alto, de terno impecável. Seus passos eram firmes, o caimento perfeito, o olhar — frio. Parou diante deles. Seu olhar percorreu Bahar, Serhat, depois se fixou em Rengin. Não havia curiosidade em seus olhos, toda sua presença exalava uma coisa só — controle absoluto.
— Hoje vocês salvaram uma vida, — disse com calma, como quem conclui um relatório, — mas ao custo do protocolo. — Deu um passo à frente. — Da próxima vez não se iludam. O Conselho não protege infratores, — nenhum músculo em seu rosto se moveu. — O protocolo não é papel. É a sua defesa. Quebrem-no de novo — e o setor será fechado.
Bahar se inflamou, prestes a responder, mas Rengin segurou seu braço, impedindo-a.
— Nós assumimos o risco, — disse ela em tom neutro. — Eu o assumi.
— Perfeito, — os cantos da boca dele se moveram em algo que lembrava um sorriso. — Vou registrar isso.
Ele recuou, virou-se e seguiu adiante, deixando atrás de si apenas o rastro de um perfume caro.
— O que ele quis dizer? — Bahar franziu a testa, ainda ouvindo os passos dele se afastando.
— Depois, — respondeu Rengin, firme. — Agora — pacientes.
Ahu permanecia um pouco afastada, olhando para Rengin. Em seus olhos havia mais perguntas que palavras. Perguntas para as quais Rengin não tinha resposta…
***
Ele entendia por que tinha que responder. Uraz caminhava a passos rápidos, os dentes cerrados, mas o som dos passos o traía — duros demais, irregulares demais.
— Uraz, — alguém o chamou suavemente.
Ele se virou bruscamente. Junto à parede estava Jennifer. Esperava reprovação, mas ela o olhava com um cansaço que transmitia mais compaixão do que acusação… e isso o atingiu ainda mais fundo, trazendo-lhe uma culpa maior.
— Estava escutando? — perguntou ele, irritado.
— Não, — respondeu calmamente. — Eu lembro da noite, e vi como o Evren corrigiu.
Uraz desviou o olhar, como se tivesse medo de que ela enxergasse a vergonha em seus olhos.
— Você acha que se torna adulto quando aprende a tomar decisões, — continuou Jennifer. — Mas, na verdade, a gente se torna adulto quando aprende a reconhecer os próprios erros.
— Eu não sou fraco, — escapou-lhe, cerrando os punhos, pronto para socar a parede.
— Isso não é fraqueza, — ela balançou a cabeça. — É força. Força é admitir que você precisa de ajuda.
As palavras dela soavam em uníssono com o que Evren acabara de lhe dizer. E isso pesava ainda mais em Uraz, porque ambos estavam certos, mas ele se recusava a aceitar.
— Você se parece muito com a sua mãe, — suspirou Jennifer. — Ela também sempre acha que consegue dar conta de tudo sozinha, mas até ela precisa de alguém ao lado, — ela fez uma pausa, escolhendo as palavras, e então completou: — Você ainda vai aprender, — Jennifer esboçou um sorriso, mas ele não se formou. — Só não faça isso à custa da vida de alguém, — virou-se para ir embora.
Jennifer caminhava pelo corredor, ligeiramente trêmula, enquanto Uraz permanecia parado, como que preso ao chão. As palavras dela cortavam como lâminas, mais fundo e mais doloroso que qualquer acusação. Ele ficou em silêncio, incapaz de responder. Ainda se negava a reconhecer que sua teimosia não era apenas sua própria dor, mas também um reflexo da mãe, de tudo o que Bahar carregava.
Uraz abaixou os olhos para o chão. No peito nascia algo novo, estranho — e não era raiva, nem mágoa… era responsabilidade. Ele era responsável por Aliya… e falhara, mas devia responder diante de Evren, de Jennifer, da própria Aliya… de si mesmo. Se era tão parecido com a mãe, então precisava aprender a estar ao lado, e não apenas a discutir — esse pensamento lhe atravessou a mente, permitindo que finalmente respirasse fundo…
***
Ela finalmente permitiu-se respirar fundo. Bahar caminhava pelo corredor, apertando o tablet contra o peito. Queria silêncio, um pouco de paz, mas o hospital fervilhava como uma colmeia. De manhã, cirurgia, depois a visita aos pacientes; conseguira ainda passar um minuto com Reha e Gülçiçek, e até dar uma olhada em Çağla. Apenas evitava Uraz e Siren — e, por ora, conseguia. Involuntariamente olhava para trás, esperando que algum deles surgisse de repente e a obrigasse a encarar… mas ainda não estava pronta para isso.
Assim como não estava pronta para ficar tanto tempo sem ele. Bahar suspirou, puxando o ar com força… não o via desde cedo; tinham se passado apenas algumas horas, mas já sentia uma falta imensa dele, da voz, dos abraços. Ainda custava a acreditar que estavam juntos de novo… mas sim, estavam. Ela baixou os olhos para a mão: no anelar direito brilhava o anel que não queria mais tirar.
Olhou outra vez, certificando-se de que não havia crianças por perto, e franziu o rosto ao sentir a dor latejante no braço. Mas bastou ouvir o som dos passos dele para que seus lábios se curvassem num sorriso. Logo os dedos dele a envolveram, e Evren a puxou suavemente em direção à escada, sem uma palavra. Assim que a porta se fechou atrás deles, ele a girou contra si, mergulhando no olhar dela.
— Você está com a cara de quem lutou com o próprio Hades, — disse, analisando-a com aquele olhar que a fazia estremecer.
— E você, — ela ergueu uma sobrancelha, — consegue sorrir apesar de tudo?
Evren se virou, como se verificasse se estavam realmente a sós.
— Por você, sempre vou sorrir, — murmurou com a voz baixa, grave.
Ela revirou os olhos, mas pousou a mão sobre a dele, e o canto dos lábios tremeu:
— Isto é um hospital, Evren, — lembrou.
— Mas estamos na escada, — ele avançou um passo, — o lugar perfeito para te roubar entre os andares.
— Evren… — ela tentou recuar, mas ele segurou a mão dela e a puxou de leve.
Foi tão natural estar encostada ao peito dele, como se sempre tivessem estado assim. O coração dela disparou, e ele a envolveu mais forte… até que uma fisgada de dor atravessou-lhe as costas e o cotovelo.
— Ah… — escapou-lhe involuntário, e ela se contraiu.
— O que foi isso? — ele se alarmou, afastando-se apenas o suficiente para olhar-lhe nos olhos.
— Nada, — endireitou-se rápido, tentando escapar do abraço. — Só cansaço.
A mão dele deslizou pelas costas dela, e ela estremeceu.
— Isso não é cansaço, — disse em tom baixo. — O que você está escondendo de mim, Bahar?
— Às vezes faz bem para um homem não saber de tudo, — respondeu, conseguindo se soltar.
— Eu não sou só homem, — ele arqueou um sorriso, mas o olhar seguia sério. — Também sou médico. Você sabe que vou descobrir de qualquer jeito.
— Como está a Aliya? — perguntou ela, mudando de assunto, ajeitando a gola do jaleco dele e dando um passo atrás.
— Estável, — respondeu ele, ainda franzindo a testa, percebendo que ela se afastava, criando espaço entre eles. — E a sua paciente?
— Viva, — disse ela do mesmo jeito contido. — E o Uraz? — arriscou, com cuidado.
— Você parece uma investigadora, — Evren desviou o olhar.
— Porque você está fugindo da resposta, — ela percebeu imediatamente que ele escondia algo.
— E se, em vez de fugir da resposta, eu fugir com você? — ele avançou um passo, e nos olhos dele brilhou aquela chama conhecida.
Bahar franziu o cenho, mas não teve tempo de retrucar: os braços dele já a rodeavam pela cintura.
— Evren… — advertiu ela, apoiando-se nos ombros dele.
— Vamos, doutora Bahar, — sussurrou quase em seu ouvido. — Ao menos aqui na escada me deixe ser só um homem, — roçou o rosto no dela.
Ela revirou os olhos, mas os cantos da boca traíram um sorriso.
— Aqui é um hospital, — lembrou em sussurro.
— Então vamos fingir que é uma consulta, — ele riu baixo, puxando-a para mais perto.
Ele a apertou contra si, e ela se encolheu de leve com a pressão do abraço.
— O que há com você? — o olhar dele tornou-se clínico, atento demais. — Isso não é cansaço.
— Para, — ela se soltou com delicadeza e, para esconder a dor, franziu a testa, fingindo raiva. — Você de novo no modo médico?!
— Quem, se não eu? — ele devolveu, olhando direto nos olhos dela. — Acha que não vou notar?
— Você é insuportável, — murmurou ela, dando-lhe um leve tapa no braço.
— Mas você me ama? — provocou, sem recuar.
Bahar olhou ao redor, certificando-se de que estavam sozinhos, e se ergueu na ponta dos pés para beijá-lo rápido.
— Lembre-se do ultrassom, — murmurou ele contra os lábios dela, segurando-a para que não se afastasse.
— Não tenho tempo, — respondeu, roubando-lhe outro beijo para calá-lo.
— Vou arrumar tempo, — murmurou no beijo. — Em casa você vai estar inteira ao meu dispor. Vou achar um jeito de te convencer… — os olhos dela se arregalaram, já ia protestar.
Mas antes que conseguisse, ele tomou seus lábios num beijo rápido e exigente. Ela congelou por um segundo e depois se afastou.
— Preciso ver meus pacientes, professor Evren, — disse em tom firme, apesar da respiração acelerada.
— E se eu não quiser deixar você ir, doutora Bahar? — insistiu ele, sentindo que ainda era muito pouco depois de tantos meses longe dela.
— Vai ter que querer, — ela deu-lhe um tapinha no ombro, virou-se e saiu para o corredor.
Evren a acompanhou com o olhar e entendeu: havia algo que a preocupava, mas não sabia o quê…
***
Ele conhecia muito bem todos aqueles regulamentos. Sert Kaya estava diante do painel de vidro, observando-o em silêncio. Bahar entrou na sala dos médicos e parou. Ficou alguns segundos olhando para as costas dele — eretas, como se fossem talhadas em pedra.
— Precisa de ajuda? — ela perguntou.
— Doutora Bahar, — disse ele, sem se virar.
— Sim, — ela manteve o olhar fixo, — está se familiarizando com os protocolos? — perguntou.
— Nem todos se dão ao trabalho de lê-los, — Sert se virou lentamente para ela.
Bahar apertou o tablet contra o peito e o encarou. Não o conhecia — alto, mais velho, magro — mas entendia perfeitamente que era alguém do Conselho.
— Você é uma daquelas que “sente”, — havia tanto gelo na voz dele que ela quase recuou.
— Prefiro ouvir o paciente a seguir cegamente instruções, — respondeu com sua habitual franqueza.
— É exatamente assim que os erros acontecem! — ele a fitava com certo interesse.
— É exatamente assim que os milagres acontecem, — retrucou.
— Seus milagres quase custaram a vida da garota, se acreditarmos no relatório, — observou ele.
— A garota está viva! — ela não desviou o olhar.
— Isso não é justificativa! — a voz dele soou cortante.
— É o resultado! — ela não recuava.
— Nos seus olhos não há nem sombra de medo, — ele deu um passo à frente, o ar pareceu ficar mais denso. — Isso é bom, — aproximou-se de forma quase ameaçadora, invadindo seu espaço. — Apenas não confunda confiança com impunidade!
— E você não confunda ordem com verdade! — ela falou firme, sem baixar o tom.
Ele a avaliou em silêncio. Havia algo nela que claramente o irritava e atraía ao mesmo tempo. Aquela mulher não era do tipo dele: não tinha medo, não se submetia, não fugia.
— Vou ter que vigiar você de perto! — rompeu, enfim, o silêncio.
— Eu não me escondo, — respondeu ela, calma.
Sert Kaya a encarou por um longo instante e então se virou devagar, saindo da sala. Assim que a porta se fechou, Bahar permitiu-se soltar o ar preso.
— Mãe, aí está você! — Uraz entrou apressado.
Bahar levou a mão direita para trás do corpo, nervosa. O que mais temia naquele dia a alcançara — agora olhava nos olhos do filho, esperando acusações.
— O Mert está com febre alta! — o olhar de Uraz corria perdido de um lado a outro; e aquilo não era nada do que ela esperava ouvir.
— O quê? — ela deu um passo em sua direção, pousando a mão sobre a dele. — O que aconteceu?
— Não sei, Siren não consegue controlar, — suas mãos tremiam um pouco. Agora ela entendia por que ainda não tinha cruzado com Siren — ela simplesmente não estava no hospital. — Você pode ajudar? Eu ainda estou ocupado, o professor e a Aliya… — ele não chegou a pronunciar o nome dele.
— Claro, — a mão dela tocou a face do filho. — Uraz, acalme-se, só vou me trocar, — disse, dirigindo-se à porta. — E… — não terminou a frase, porque deu de frente com Sert.
— Então é assim que vocês resolvem as coisas? — a voz dele era puro gelo. — Primeiro as crianças, depois os pacientes?