Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 5. PARTE 1

Evren entrou devagar no apartamento e fechou a porta atrás de si. Deu um passo e logo tropeçou em um par de tênis, empurrando-os para o lado com o pé. Depois se abaixou e pegou o cabide do chão. Nunca tinha visto sua casa tão bagunçada.
Yusuf estava de pé perto da janela, as mãos meio escondidas atrás das costas, como se não soubesse o que esperar. Ele e Evren nunca tinham conversado de verdade; sim, já tinham dividido a mesma mesa, sim, já tinham estado juntos na casa de Bahar, mas nunca tinham sido apresentados. Cem segurava a mochila diante do peito, pronto para disparar a qualquer momento.
— Vai embora? — perguntou Evren em voz baixa. Um leve aceno de cabeça, e Cem largou a mochila no chão.
— Achei que você mesmo ia me expulsar… — murmurou Cem, baixando a cabeça.
Evren se virou para Yusuf.
— Eu não o teria deixado sair — respondeu o garoto, um pouco sem jeito diante do olhar firme de Evren. — Bahar… — não terminou a frase, apenas deu de ombros.
Era muito mais fácil quando Bahar estava por perto. Com ela, tudo parecia simples; sem ela, ele não entendia aquele homem fechado. Evren atraía e afastava ao mesmo tempo.
— Sempre Bahar — resmungou Cem. — Só Bahar — disse mais baixo, caindo pesado na cadeira perto da mesa. — Em todo lugar Bahar… — falava como se o próprio nome tivesse se tornado insuportável para ele.
Evren manteve os olhos em Yusuf, ignorando Cem.
— Você fez o certo — disse com calma, aproximando-se. — Ainda não fomos apresentados oficialmente. Eu sou Evren Yalçın.
— Yusuf — respondeu ele, estendendo a mão. Evren a apertou com firmeza.
— Amanhã às oito em ponto, no meu consultório. Estarei esperando. — Falou curto, como se desse uma ordem. — Vou ser seu mentor, se você realmente quiser isso.
Yusuf olhou para ele surpreso. Então era verdade: Bahar tinha falado com Evren, tinha decidido. Ele não perguntou nada além — não quis saber se Yusuf tinha mesmo vocação, apenas disse para vir, como se o resto não importasse.
Um sorriso escapou do rosto de Yusuf, os olhos brilharam. Nem conseguiu responder; apenas assentiu. Havia muito tempo não sentia tamanha alegria. Será que o universo enfim tinha respondido ao seu chamado, trazendo as pessoas certas para ajudá-lo a realizar seu maior sonho — tornar-se médico?
— Amanhã começa tudo — suspirou Evren. — Mas agora, nos deixe a sós, por favor.
Yusuf lançou um último olhar para Cem e encontrou a fúria em seus olhos. Ele nem escondia o ressentimento: bem diante dele, uma nova história estava nascendo, enquanto a sua própria parecia chegar ao fim. Yusuf era acolhido na família, recebia um futuro; Cem, pelo contrário, era deixado de lado. Naz o havia demitido. E agora Evren, certamente, também ia rejeitá-lo. Só que não na frente do odiado Yusuf.
Cem observou Yusuf guardar o celular no bolso, acenar para Evren… O irmão mais velho o acompanhou até a porta, recolhendo pelo caminho os objetos que Cem havia espalhado. Eles pareciam esticar o tempo, deixando-o na incerteza e no silêncio. E aquele último olhar, na soleira da porta — como se Yusuf quisesse abraçar o irmão, mas conteve o impulso e simplesmente foi embora. Não era nada dele, então por que tanta atenção? Por que conquistava tão fácil a confiança de todos, enquanto Cem não entendia… por que para um tudo, e para ele nada?
O clique da fechadura, e o silêncio tomou conta do cômodo. Evren começou a arrumar as coisas devagar. Cem apenas ficou sentado. Esperava qualquer reação — até mesmo um soco, uma bronca, um grito. Mas o irmão apenas organizava a bagunça.
Cem reparou que alguns objetos escorriam das mãos de Evren, mas ele apenas os recolhia em silêncio. Não o via havia dias, e agora, tão perto, ele nada dizia. Então por que tinha vindo? Para quê mandar Yusuf embora?
Depois de arrumar tudo, Evren preparou café — e Cem se espantou quando o irmão também lhe entregou uma xícara.
— Parece que pra você acabou? — Evren quebrou o silêncio e foi até a janela.
Cem ficou imóvel, a xícara nas mãos. Evren havia lhe servido café, mesmo depois de tudo o que tinha feito? Bahar com certeza já tinha contado tudo. Ele encarou as costas do irmão. Observou como o tecido da camisa se esticava quando ele levantava a mão para beber, e como relaxava quando a baixava.
O olhar de Evren se perdeu no Bósforo. Já nem lembrava a última vez que tinha saído no iate. Agora sentiu uma vontade imensa de fazer as malas, levá-la e sumir no mar por alguns dias, só os dois. Imaginava Bahar andando descalça pelo convés, talvez usando apenas uma camiseta dele… talvez nem isso por baixo… sim, ela ficaria furiosa, mas ele saberia transformar a fúria em ternura, depois em doçura, até que só restasse a conversa sem fim, ou o silêncio compartilhado. Não, silêncio não — disso ele já estava farto. Evren suspirou e tomou outro gole. Eram apenas sonhos, tão distantes que pareciam impossíveis na realidade deles, ainda mais com as trapalhadas de Cem tirando-lhe o chão.
— Não parece — Cem quebrou o devaneio, pousando a xícara na mesa sem ter dado um único gole. — Eu estraguei tudo.
— E o que você quer agora? — Evren não se virou. Continuava olhando para longe, lutando para manter a imagem de Bahar na mente. Ela tinha lhe pedido, suplicado para ser paciente, e ele se esforçava, mesmo com a vontade de sacudir Cem até perder o fôlego. A raiva lhe queimava, mas só bebia o café e cerrava os dentes.
— Fala alguma coisa, pelo menos — pediu Cem, desesperado.
Evren se virou devagar. Apertava a fina alça da xícara com tanta força que os dedos estavam brancos. Sua respiração era pesada, profunda.
— Espera que eu diga “vai embora”? — perguntou. As lágrimas marejaram os olhos de Cem, os lábios tremiam. — Estou com raiva, decepcionado, mas não vou desistir de você! — disse duro. — Eu te aceitei como parte da minha família. Você é minha responsabilidade. Mas, desta vez, pelas suas ações você vai responder sozinho! Isso não é mais só uma pulseira, Cem!
Cem saltou da cadeira, os punhos cerrados, o corpo tremendo. Evren havia cutucado a ferida mais dolorosa: o lembrete de seu erro.
— Você manda fotos da Bahar — Evren fez uma pausa, se contendo para não gritar. — Você edita um beijo com Naz. Como conseguiu isso, hein? — Sua voz falhou, mas ele continuou. — Invade a rede do hospital, solta vídeos… O que você está tentando provar, Cem? — Evren cravou os olhos nos dele. — Mostrar para todos que é “o ruim”? Confirmar a imagem que criou de si mesmo nos olhos dos outros? Isso é só a sua visão distorcida de você, nada mais! — A voz saiu seca, cortante.
— Ninguém me ama — e isso é verdade! — gritou Cem. — Você foi obrigado a ficar como meu tutor! Obrigado! E agora não precisa mais de mim, vai me expulsar! Então fala logo: vai embora, Cem!
Ele soluçou e caiu em prantos.
— Eu não estou te expulsando — respondeu Evren. — Eu não expulso nem pessoas, nem cachorros.
Cem ergueu a cabeça, o queixo levantado, as lágrimas ainda rolando pelo rosto. Tentava enxugá-las com o dorso da mão, mas não conseguia parar, e elas continuavam caindo.
— Você está me comparando com um cachorro? — perguntou baixo. — Sou um filhote pra você, não é? Um cachorro que escapa do controle, que você pode acariciar quando quiser… ou chutar quando não quiser? Você ficou dias sem dar notícia, não estava nem aí! — a mágoa transpareceu em sua voz. — Custava me ligar?
— Você acha que se eu não atendi, isso te dá direito de fazer o que quiser? — Evren abriu os braços. — Eu não sou seu pai, Cem. Você é apenas meu meio-irmão!
— E se tivesse acontecido algo comigo? — Cem assoou o nariz. — Você ficou em silêncio, porque não queria me ver, nem me ouvir! Por minha causa, você levou um tiro!
Evren empalideceu. As lembranças eram muito vívidas: o ferimento, os problemas com a mão… só Bahar tinha ficado ao seu lado, só graças a ela podia operar novamente.
— Eu nunca joguei isso na sua cara! — lembrou Evren. — Está com pena de si mesmo?! — os músculos de seu maxilar se contraíram. — No tribunal, ninguém vai sentir pena. Lá, lágrimas não vão te ajudar!
— Eu posso pegar cadeia? — murmurou Cem, assustado. — Você não vai deixar isso acontecer, vai?
— Pode ir parar no tribunal — Evren terminou o café.
— Não! — gritou Cem.
Ele correu até Evren e tentou abraçá-lo, mas o irmão se afastou um pouco, indo até a pia.
— Você não vai deixar, né? — Cem o seguiu de perto. — Evren, irmão?!
— Quando invadiu as câmeras do hospital, lembrou que eu era seu irmão? — Evren abriu a torneira. — Quando mandou fotos da Bahar, pensou em mim, em como isso me afetaria? Como vai justificar o que fez? Da última vez você roubou a pulseira pra vender — ele voltou a lembrar —, agora invadiu as câmeras pra destruir a carreira da Bahar… O que vem depois, Cem? E esse vídeo com a Naz? — apertou a xícara com tanta força que ela estalou em sua mão… e, junto com a água, uma fina linha vermelha desceu pelo ralo. — Como você fez aquilo?
— Evren… — Cem pegou uma toalha e lhe entregou. — Redes neurais… — confessou.
— Você queria prejudicar a Bahar — Evren aceitou a toalha, meio contrariado, lavou a mão e a enfaixou. — Mas acabou ferindo a si mesmo. E vai responder por isso — repetia de novo e de novo.
— Você não vai me proteger? — perguntou Cem, pálido, quase inaudível.
Evren abriu o armário, fechando os olhos por um instante. Sentiu o perfume dela, como se Bahar estivesse ao seu lado. A lembrança de quando ela bateu nele com a mesma porta veio tão vívida, que ele quase a viu diante de si. Pegou o kit de primeiros socorros, tratou o corte e colou o curativo.
— Vou caminhar esse percurso com você até o fim — Evren sentou no braço do sofá. — Não vou mais esconder, nem encobrir, nem calar — assentiu. — Mas vou estar ao seu lado.
— Não entendo — Cem recuou um passo. — Eu te protegi, você usou meu sangue! — jogou na cara dele.
Evren riu de leve. Esperava esse momento.
— Eu já respondi por isso — disse baixo. — Mas pode publicar também, contar pra todo mundo. Por que não? — encarou-o. — O que tem de errado nisso, por que não compartilhou ainda? Você já me expôs ao conselho com aquele vídeo da cirurgia. Por sua causa, meu departamento está sob investigação. É isso o que conseguiu, Cem: todos os olhares voltados pra mim.
Cem ficou em silêncio, olhando-o debaixo das sobrancelhas.
— Não tem nada a dizer, né? — assentiu Evren. — Pois então vou repetir: eu vou estar ao seu lado. Você não vai ficar sozinho. Mas por cada decisão, vai responder sozinho — a voz saiu dura, implacável. — Mesmo que todos virem as costas, eu não vou desistir de você. Mas há limites. Da última vez erramos ao encobrir tudo.
Cem estremeceu e apontou para o lado:
— Eles já desistiram, a própria Umay veio me dizer que acabou! — gritou quase histérico. — E agora você de novo com a Bahar?! E eu? Onde fico nessa história? — a raiva transbordava. — Você diz que não vai me abandonar, mas também não quer me ajudar!
— Eu não estou com Bahar, nem com Naz — Evren levantou-se de repente.
— Vamos pra América! — Cem se atirou a ele. — Só nós dois!
— Você não entendeu nada! — Evren agarrou seus ombros. — Eu a amo! — gritou, encarando-o nos olhos. — Eu amo a Bahar, entenda isso de uma vez por todas! Eu quero estar com ela, e só com ela! Não preciso de Naz, de América, não preciso de nada sem a Bahar! — sua respiração estava pesada. — Quero operar ao lado dela, quero ver suas conquistas, quero ela na minha vida, pra vivermos juntos cada momento!
— Mas você foi pros Estados Unidos, ela te deixou! — gritou Cem, fora de si. — Ela não vai te dar um filho!
Evren o empurrou com força. Até ergueu a mão, e Cem encolheu-se, esperando o golpe, os olhos arregalados. Evren baixou o braço lentamente e deu um passo em direção a ele.
— Eu não fugi dela — apertou seus ombros e o forçou a encarar seus olhos. — Eu fugi de mim mesmo, Cem! Eu não dei conta de mim! E você? Por que deixou a Umay? Onde estava sua cabeça? Onde estão suas próprias escolhas? Ou tudo o que você sabe fazer é agir pelas costas, falsificar, se meter em sujeira? É essa vida que você quer? Você veio até mim fugindo dos que te perseguiam. Vai passar a vida fugindo?
Cem respirava ofegante, em silêncio, os olhos presos nos dele.
— Eu me calei, e você fez o mesmo? Acha certo? — Evren o sacudiu. — Por que só me imita? O que a Umay te fez? Por que parou de falar com ela? Por que não foi ao enterro do pai dela? Você é uma criança, precisa que tudo seja desenhado pra entender?! Eu não vou fugir mais, Cem! — soltou seus ombros e recuou. — Não vou desistir dela! Vou reconquistar a confiança dela, a nossa!
— Você é um traidor! Está me traindo, traindo a nós! — gritou Cem. — Primeiro queima tudo que tinha a ver com ela, e agora diz que a ama de novo?! — lágrimas ficaram presas em seus olhos. — Como é que eu devo entender isso, Evren?
— O que você queria conseguir com aquele vídeo da Naz? — Evren avançou um passo, e Cem recuou. — Pra que mandou pra Bahar aquelas fotos da Naz naquela cozinha, como se eu morasse com ela?! Queria que ela me odiasse?
— Mas ela acreditou, não acreditou? Acreditou? — Cem ergueu o queixo desafiador.
Evren deu um passo brusco, agarrou-o e o virou de costas, torcendo-lhe o braço:
— E você não é traidor? — sussurrou em seu ouvido. — Não me traiu, não traiu a nós, quando montou esse vídeo? Não traiu a minha confiança, a minha fé em você? Nem você, nem eu sabemos o que é ter uma família de verdade — disse já mais baixo, soltando-o.
— Você nem queria me assumir! — gritou Cem com mágoa.
— Não queria — admitiu Evren. — Mas assumi a tutela porque você pediu, porque você quis.
— E agora não quer mais, porque eu não sou do jeito que você esperava? — Cem cerrou os punhos.
— Você destrói tudo só pra provar que não merece? — Evren encarou direto. — Mas eu não acredito nisso! — disse firme.
— Você falou que não ia me proteger! — gritou Cem.
— Eu disse que estaria ao seu lado, e que você não é uma criança — lembrou Evren, caminhando até a porta. — Disse que vai responder pelos seus próprios atos! — abriu a porta com um puxão. — Quer sair, então vai!
Cem deu um passo em direção à porta, mas parou. Evren bateu a porta de volta com força.
— Eu estou com raiva — murmurou Evren, cerrando os punhos. — Raiva de você e de mim mesmo. Raiva por não ter percebido, por não ter te impedido, por não ter sido o apoio que você precisava. — Aproximou-se mais de Cem. — Você cometeu um crime — continuou Evren. — Da primeira vez, passaram a mão na sua cabeça, chamaram de fraqueza. Mas desta vez, foi de propósito!
— Eu não sabia o que fazer… — disse Cem mais baixo, a cabeça baixa. — Vocês parecem tão adultos, tão certos de tudo… mas vocês também — ergueu os olhos para o irmão — vocês também erram.
— Erramos, reconhecemos, corrigimos — respondeu Evren. — E você já é adulto o suficiente pra entender isso e não ficar esperando alguém te segurar. Você não precisa repetir os meus passos. — Suspirou. — Tem que ter suas próprias escolhas, suas decisões, sua própria cabeça no lugar. Você fez o que achava certo, mas nem tudo que você faz é certo.
Evren soltou o ar, sentindo-se exausto, esvaziado. De novo viu Bahar naquela mesma cozinha, lembrando dos momentos juntos, e o peso de seus próprios erros lhe caiu como uma pedra.
— Quer que eu fique? — soluçou Cem. — E se tiver processo? — havia medo em sua voz. — Quem eu vou ser depois? O que vai acontecer comigo?
— Vamos enfrentar juntos — Evren pôs a mão em seu ombro. — E depois você recomeça do zero.
— É possível? — Cem não acreditava. Tocou a mão de Evren e a apertou.
Evren deu de ombros:
— Eu recomecei — admitiu, afastando-se.
De novo olhou para o Bósforo. Na sua mente, via Bahar no convés do iate, usando a camiseta dele, os cabelos acariciados pela brisa, o rosto molhado pelas gotas do mar. A imagem o assombrava, o atraía irresistivelmente.
— É possível, tudo é possível — murmurou Evren, virando-se e sumindo em seu quarto.
Ele não queria acreditar em outra coisa. O retrato de Bahar no iate era tão forte, tão vivo, que só queria que aquilo se tornasse real… mesmo sem saber ainda como.
***
— A gente vai conseguir, não vai? — perguntou Çağla, afastando-se um pouco na cama para abrir espaço para Bahar.
Bahar apenas bocejou, em silêncio, sem responder. Queria acreditar nisso, mas ainda não estava pronta para fazer promessas. Primeiro precisavam passar pela noite, que as células continuassem se dividindo, depois a transferência, e que desse tudo certo, que não houvesse uma gravidez interrompida, que não viesse um aborto. Bocejou de novo, sem saber como colocar tudo aquilo em palavras.
— Anda, deita aqui comigo — Çağla bateu com a palma no colchão.
Bahar estava quase dormindo sentada ao lado da amiga. Piscou algumas vezes, até que se levantou da poltrona.
— Só um pouco, vou deitar um pouco — murmurou.
— Quantos dias você já está no hospital? — Çağla já tinha se recuperado um pouco da anestesia, e seu espírito combativo começava a voltar.
Bahar tirou os sapatos e se enfiou ao lado do corpo quente de sua leal amiga, virando-se de lado.
— Assim, minha passarinha — Çağla, fazendo uma careta, puxou o cobertor sobre as duas. — Você fez bem em insistir para a Siren e as crianças irem pra casa. Não precisava todo mundo acampar aqui. Basta você e a mãe Gülçiçek. A Nevra vai cuidar delas. — Virou-se de frente para Bahar.
Bahar resfolegou, e logo as duas caíram na risada.
— A Nevra cuidando de alguém… — conseguiu dizer Bahar, enxugando as lágrimas de tanto rir.
— Nem parece verdade que ela mudou tanto — admitiu Çağla, tocando de leve o nariz de Bahar com o dedo. — E se não der certo? — perguntou baixinho. — Eu não vou aguentar perder de novo. — A voz falhou.
Bahar imediatamente levou o dedo aos lábios dela, pedindo silêncio.
— Você não precisa ser forte o tempo todo — sussurrou. — Vamos passar por isso juntas.
— Como você passou? — Çağla a encarou.
O rosto de Bahar mudou, ela se virou de costas, os olhos fixos no teto.
— Você nunca falou com o Evren sobre o bebê, não foi? — insistiu Çağla.
— Sobre o quê? — Bahar encolheu os ombros, sem piscar. — Ele sabia que tinham conseguido salvar a trompa. Foi só medicação, deu tempo… quase não doeu, só depois — murmurou.
Çağla ficou olhando em silêncio, apoiada na mão.
— No começo eu até fiquei feliz — confessou Bahar. — Sabe, mas ele… ele ficou arrasado. A gente nunca tinha conversado sobre filhos, ele sempre disse que não queria. E de repente aquele olhar, tão de menino, e eu entrei em pânico… — cobriu a boca com a mão, respirou fundo e continuou: — eu me assustei e fugi do casamento. E ele foi embora da minha vida. Mas você já sabe de tudo isso… — fungou, tentando segurar as lágrimas.
— Do que você teve medo, Bahar? — Çağla acariciava seus cabelos, vendo as lágrimas escorrerem pelas bochechas.
Sabia que estava cutucando uma dor imensa, mas não conseguia parar.
— Faltou coragem… — sussurrou Bahar entre soluços. — Eu sempre decido pelos outros. Até hoje… — fungou de novo e virou-se para ela — eu decidi por você. Não deixei você pensar, te obriguei a agir rápido.
— Você agarrou uma chance, minha passarinha — Çağla encostou a testa no ombro dela. — Isso é diferente.
— Ele é verdadeiro, amiga — Bahar pousou a mão em seus cabelos. — E eu deixei o meu escapar. Nós só ficamos em silêncio, como se, não falando, nada tivesse acontecido.
— E se você tivesse ficado? — Çağla murmurou contra o ombro dela.
— Talvez estivesse grávida agora — Bahar esboçou um sorriso frágil. — Ou talvez em pânico, como sempre… mas pelo menos não teria essa sensação de chance perdida. Eu tive minha chance. Você disse “sim” à sua. Eu não consegui… — abriu os olhos, enxugou as lágrimas e se virou de frente outra vez. — Eu não deixei acontecer na minha vida. — Baixou a voz. — Mas você é mais corajosa do que pensa. Você escolheu acreditar.
Ela suspirou e sorriu, quase sem lágrimas agora.
— E você e o Evren, como estão? — Çağla ainda insistia, mesmo vendo Bahar quase dormindo. Queria conversar.
Bahar murmurou algo, sem abrir os olhos.
— O quê? — Çağla se aproximou mais.
— Ele me beijou na frente de todo mundo — respondeu Bahar, de olhos fechados. — Não estou dormindo… só vou descansar um pouco.
— Então descansa — Çağla sorriu de leve. — E você?
— Dei um tapa na cara dele — resmungou Bahar, virando-se para o outro lado. — Agora ele anda atrás de mim, dorme no meu sofá… e a Naz também, me beijou também… — a voz já arrastada, quase dormindo, até que se calou de vez.
— Como é que é? — Çağla se ergueu na cama, com uma careta. — Bahar, que sofá? Que que a Naz tem a ver? Quem beijou quem?
Sacudiu-a pelo ombro, mas Bahar já dormia profundamente, respirando tranquila.
Çağla fez biquinho, cruzou os braços e deitou ao lado dela. A curiosidade a consumia, mas acordar Bahar seria crueldade. Ela precisava descansar de verdade.
Mesmo assim, a pergunta não saía da cabeça: o que Evren fazia no sofá dela… e em qual sofá? Da sala ou do quarto?
Çağla estreitou os olhos, olhando para Bahar adormecida.
— Você está escondendo alguma coisa de mim, passarinha… com certeza está escondendo.
E ainda assim sorriu, soltando um suspiro. Pela primeira vez em dias, sentiu que tudo ia dar certo. Sim, Tolga já não estaria ao seu lado. Suspirou triste, mas um bebê viria. Ia dar certo. Ia dar certo com Bahar também. Se Bahar tinha planejado, ia acontecer. Com esse pensamento, fechou os olhos e adormeceu quase de imediato, um sorriso nos lábios.
***
O sorriso não saía de seus lábios. Yusuf estacionou o carro, fechou o portão e parou no meio do pátio da casa de Bahar. Estava pronto para dançar e gritar de alegria com todas as forças. Há apenas alguns dias, achava que não tinha lugar ali — e agora esse pensamento havia desaparecido por completo.
Não se lembrava da última vez que tinha se sentido assim. Parecia que todas as estrelas piscavam para ele. De braços abertos, ficou olhando o azul-escuro do céu. Era como se abraçasse o próprio firmamento… ou como se o céu o abraçasse. Riu leve, natural.
— Onde você esteve? — ele só então ouviu a voz triste de Umay.
Yusuf se virou e a viu sentada no degrau da casa.
— Você sumiu um dia inteiro, talvez mais — continuou ela. — Sim, eu sei que a mamãe te levou… — lembrou, — mas depois disso, desapareceu. — Abraçou o corpo, inclinando-se um pouco na direção dele. — Que negócios você tem com a minha mãe?
Yusuf ainda sorria. Nem mesmo as palavras “que negócios você tem com a minha mãe” o incomodaram. Ele sabia que não era ciúme.
— Você viu o Cem? — perguntou Umay de repente.
Aos poucos, o sorriso dele foi se apagando. Suspirou e sentou-se ao lado dela. Umay olhava para frente, esperando a resposta. Yusuf balançava levemente o corpo.
— A partir de amanhã… eu sou aluno do professor Evren Yalçın — disse baixinho, como se revelasse um grande segredo.
— Está falando sério? — Umay virou-se, os olhos brilhando. — Ele realmente vai te aceitar? A mamãe resolveu tudo?
— Finalmente nos apresentamos de verdade. Eu só o tinha visto em sua casa, sentado à mesa, mas nunca havíamos falado. Hoje, ele mesmo me disse. — Yusuf sorriu de novo. — Até o último momento, não acreditei. Mas amanhã às oito em ponto, ele vai me esperar no consultório.
— Evren é um bom médico — disse ela com um leve sorriso.
Yusuf franziu a testa, olhando em volta para se certificar de que ninguém os ouvia.
— É só isso que escuto de todo mundo: que ele é bom médico. Mas e como pessoa? Por que ninguém fala disso? Todos repetem a mesma coisa… que é bom médico. Mas pessoa? Vocês, a Bahar… são boas pessoas. Vocês me ajudam.
— Minha mãe move montanhas pelos outros — suspirou Umay. — Pena que não faz o mesmo por si mesma.
Yusuf a observou com atenção. Queria insistir, mas decidiu não pressionar. Até porque ele mesmo não tinha respondido sobre Cem.
— Posso cuidar da Bahar no hospital — ofereceu. — Vou passar bastante tempo lá agora.
Umay deu uma cotovelada leve no ombro dele.
— Por quê? — atrás deles, soou a voz sonolenta de Uraz.
Yusuf e Umay se viraram. Ele estava no batente da porta, bocejando, com duas garrafinhas de água nas mãos.
— Amanhã começa o estágio — explicou Yusuf, levantando-se de imediato.
Uraz assentiu, coçando a cabeça.
— Uraz? — Siren apareceu na porta. — O que vocês ainda fazem aí fora? Entrem, já está tarde.
— Temos que dormir cedo. Amanhã é dia cheio — Yusuf estendeu a mão, ajudando Umay a se levantar. — O professor Evren disse: oito em ponto! — não conseguia conter a felicidade.
O rosto de Uraz se transformou:
— Ele te aceitou como aluno? — perguntou. — O que isso significa?
— Uraz — Siren tocou o braço do marido — chega! — exigiu, tentando conter a explosão.
— Que estude no hospital o quanto quiser, mas na minha casa esse professor não põe mais os pés! — declarou firme.
— Ele não mora com a Naz! — rebateu Umay, irritada. — Não se meta nisso, Uraz, por favor.
— Não me importa com quem ele mora. Depois daquele vídeo, não entra mais aqui! — retrucou ele, voltando-se para a irmã. — Não quero ver a mamãe sofrer de novo por causa dele.
Yusuf recuou um pouco, escutando atento. Não esperava essa reação. Evren havia estado com todos à mesa, até dormira naquela casa. O próprio Uraz se mostrara entusiasmado durante a cirurgia. Mas então… aquele vídeo havia mudado tudo? Uraz nem sabia que fora Cem quem o montara. Poderia Yusuf contar? Ficou em silêncio, quase se escondendo nas sombras.
— Uraz, não é a nós que cabe decidir! — a irritação tomou conta de Siren. — Ele não te fez nada!
— A mim, não. Mas à mamãe, sim — insistiu Uraz. — Não quero que ela perca o sono outra vez ou vá parar no hospital como da última vez!
— Chega! — cortou Siren. — Bahar vai decidir. E você — empurrou o dedo contra o peito dele — vai aceitar o que ela disser, mesmo que amanhã Evren entre nesta casa! Mesmo que fique no quarto dela, você vai ficar calado!
— Não! Nunca! — bateu o pé Uraz.
— Ele vai vir, Uraz — disse Umay em voz baixa. — Pode apostar, ele vai.
— Você não entende nada! — gritou Uraz. — Não sabe de nada!
— Quer dizer que eu sou criança e você o adulto que sabe de tudo?! — explodiu Umay. — Pois eu te digo: desta vez eles vão se casar de verdade! Vai ter casamento, Uraz, casamento de verdade! E a mamãe não vai fugir! — empurrou-o de lado e entrou correndo, batendo a porta do quarto.
Casamento? Então já tinha havido um antes? Ou não? Yusuf ainda não sabia de nada direito, mas entendeu uma coisa: seus estudos ali poderiam enfrentar obstáculos. Uraz podia mesmo atrapalhar a entrada de Evren. E aquela era a casa dele.
Yusuf observou Umay subir apressada as escadas e desaparecer atrás da porta.
— Ele não vai entrar mais nessa casa! — repetiu Uraz, olhando para Siren.
— Esta é a casa da Bahar, e ela é quem decide, não você! E se ela disser que Evren vai ensinar Yusuf aqui, é isso que vai acontecer, e você vai aceitar! — respondeu ela firme, subindo a escada. — Vamos dormir!
— Você realmente quer ver ele ir embora de novo, e a mamãe sem forças para voltar? — Uraz lançou um olhar pesado a Yusuf antes de entrar.
Então a casa era da Bahar… Yusuf respirou fundo. Mas, ao cruzar o olhar com Uraz, sua alegria desmoronou. E se ele realmente pudesse atrapalhar sua chance? Yusuf não queria ser pedra no caminho de Bahar com o filho dela. Não queria trazer problemas — mas parecia que bastava o nome de Evren para que os problemas surgissem sozinhos.
De pé no batente, levantou os olhos para o céu. Ele parecia mais baixo, mais escuro. As estrelas, que minutos antes brilhavam tanto, agora estavam apagadas. Yusuf suspirou e fechou a porta atrás de si.
***
Evren abriu a porta devagar, entrou em silêncio no quarto e a fechou atrás de si. Caminhou para dentro com passos leves, tentando não fazer barulho. Primeiro, olhou para os monitores dos aparelhos e só depois pegou o prontuário. Abriu-o, conferiu os resultados dos exames e, ao mesmo tempo, lançou o olhar pela sala.
Não viu Bahar. Reha dormia tranquilamente, mas Gülçiçek abriu os olhos de imediato e se sentou no sofá. Evren desviou o olhar, percorreu os dados com os olhos e fechou o prontuário.
— Desculpe… — murmurou. — Eu pensei… — parou no meio da frase, olhando em volta.
Gülçiçek se levantou, ajeitou os cabelos e se aproximou dele.
— Pensou que ela estaria aqui? — perguntou com calma.
Evren deixou o prontuário sobre a mesinha.
— Não… — hesitou, enfiando as mãos nos bolsos do jaleco, sem saber o que fazer com elas. — Sim… — confessou, encarando a mãe de Bahar. — Só queria saber como ela está.
— Não acho que ela gostaria de te ver agora — Gülçiçek olhou para o marido, que seguia dormindo, e voltou-se para Evren. — Ela está muito cansada. Muito.
Evren não desviou o olhar do rosto dela.
— Vem comigo — disse Gülçiçek.
Eles saíram do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.
— Sente-se — ela apontou para o sofá, e ambos se acomodaram. — Faz tempo que não conversamos. — Pousou as mãos sobre os joelhos.
Ela olhava para a frente, ouvindo a respiração contida de Evren ao lado.
— Bahar não é de ferro, Evren. Ela pode fingir, mas é frágil — disse, entrelaçando os dedos nervosamente. — Se for preciso, ela carrega uma casa inteira nos ombros.
— Eu não queria que ela fizesse tudo sozinha — falou baixo, olhando para as linhas da própria mão. — Eu só… não entendia… — engasgou, depois de uma pausa continuou: — não entendia como era estar ao lado.
— Talvez essa seja a diferença entre homens e mulheres — um sorriso suave surgiu em seus lábios. — Nós não esperamos que estar junto seja “do jeito certo”. — Virou-se para ele. — Só queremos que estejam junto.
Evren ergueu os olhos para ela.
— Eu não digo a ela o que fazer, nem qual escolha tomar — em seus olhos havia um brilho de tristeza. — Porque ela também tem o direito de errar, Evren. E o direito de ser feliz. — Sorriu com doçura, sem esconder a melancolia. — Às vezes, talvez, felicidade e erro sejam a mesma coisa. Ser feliz em errar… e ainda assim ser compreendida.
Evren engoliu seco, baixando a cabeça:
— Perdi muita coisa… — admitiu. — Quero estar ao lado dela… — levantou os olhos. — Mas será que mereço?
— Não cabe a você decidir — a firmeza soou em sua voz. — Se quiser ficar, fique. Se quiser ir, vá. Mas não ponha a culpa dela acima do direito dela de amar.
Evren ficou sem palavras, prendendo o ar, apenas olhando para Gülçiçek.
— Ela sempre soube que você era especial — continuou. — Agora só precisa saber que, se estiver ao lado dela, não será sombra nem luz. — Levantou-se. — Meia-sombra já houve demais na vida dela.
Com um aceno, voltou para o quarto junto ao marido. Só então Evren soltou o ar, respirando fundo como se buscasse oxigênio depois de muito tempo. Sentou-se sozinho, ainda ouvindo as palavras de Gülçiçek ecoarem em sua mente. Poucas frases, mas cada uma lhe atravessara a alma.
Olhou para a porta por onde ela desaparecera. É assim que as mães falam com seus filhos… Pensou em quantas vezes vira Bahar conversar com Uraz e Umay desse jeito. E em como ele mesmo fora privado disso quando a mãe morreu.
Levantou-se devagar e seguiu pelo corredor. Sabia que Bahar estava no hospital, simplesmente sentia. Se não estava com a mãe, só havia um lugar onde poderia estar. O passo tornou-se mais firme, mais rápido. Depois daquela conversa, ele precisava vê-la, ouvir a voz dela.
Bateu de leve e entrou. Foi recebido pelo silêncio — e pelo sorriso de Çağla. Ela acenou, levando o dedo aos lábios em sinal de silêncio.
O coração de Evren vacilou e depois disparou… fazia tanto tempo que não a via dormir. Só uma semana se passara desde a última vez que observou seu sono — mas para ele, parecia uma eternidade.

CAPÍTULO 5. PARTE 2

Bahar estava deitada de lado, a mão sob a bochecha, respirando calma e ritmadamente.
— Ela está aqui… — sussurrou Evren, agachando-se diante da cama.
Ele tinha vontade de cobri-la de beijos, de despertá-la com um deles. Dormia tão doce, como um bebê, que mal conseguia conter o impulso.
— Está dormindo — murmurou Çağla, apoiada no travesseiro. — Achei que não ia se permitir descansar… mas dormiu a noite inteira e ainda dorme. — Sorriu.
Evren apenas a contemplava em silêncio. Ergueu a mão, quase afastando os fios de cabelo do rosto dela, mas parou no ar, temendo perturbar o sono. Seus dedos tremiam.
— Você está com a cara de uma criança que acabou de ganhar o presente tão esperado — sorriu Çağla de canto.
— Só não a acorde — pediu ele. — Deixe dormir mais um pouco. — Também sorriu, lançando um olhar a Çağla. — E você, como está?
— Bem — respondeu ela, ficando séria por um instante, mas logo uma chama viva brilhou em seus olhos. — Você ainda vai ter sua chance de dizer tudo a ela.
— E se não? — Evren se alarmou.
— Agora não, mas depois sim. Por isso, por enquanto, só olha… e respira mais baixo — pediu ela. — Às vezes acho que ela escuta até no sono, especialmente quando você está perto.
Evren inclinou a cabeça.
— Dorme como se quisesse fugir de todas as conversas… — sorriu, os olhos fixos nela.
Já fazia muito tempo que não a olhava assim: sem pressa, sem máscaras.
— Ou talvez só queira não ser forte por uma vez — completou Çağla.
E acabaram mesmo a despertando. Primeiro Bahar se mexeu, as pálpebras tremularam. Franziu levemente a testa e então abriu os olhos — deparando-se direto com o olhar dele. Piscou e se sentou de súbito, quase esbarrando nele.
— Quanto tempo dormi? — perguntou com a voz rouca, sem desviar os olhos de Evren.
Ele continuava ali, imóvel, olhando para ela como se não conseguisse parar. Seu jeito sonolento, os cabelos desgrenhados… aquilo o enternecia, e poderia ficar assim por toda a eternidade.
— Pouco — respondeu Çağla mais alto, sentando-se também. — Mas com certeza mais do que nas últimas duas noites.
— Você… o que faz aqui? — Bahar tentava ajeitar os cabelos, a roupa, tudo ao mesmo tempo, nervosa e desajeitada.
Já tinha esquecido como era acordar sob o olhar dele. Não, não tinha esquecido… mas fazia tanto tempo que agora isso a deixava constrangida.
— Queria te ver — disse ele simplesmente.
Bahar se levantou, obrigando-o a recuar e a levantar-se também. Virou-se para Çağla, fez um gesto rápido, depois voltou-se para Evren. No olhar dela havia pânico.
— Preciso ir — agora à aflição se somava a ansiedade. — Já devia estar lá faz tempo… — apontou para a porta. — Que horas são? Eu não planejava dormir, tinha que supervisionar tudo… — virou-se para Çağla.
As sobrancelhas de Evren se ergueram. Já não se lembrava da última vez que a vira assim, atrapalhada, vulnerável. Via a máscara tentando se recompor, mas para ele ela estava ainda mais linda naquela manhã.
— Você não precisa correr — murmurou, quase tocando a mão dela.
— Eu… — ela se virou para ele, os olhos misturando raiva e ternura, embaraço e irritação. — Preciso verificar… — escapou da sala às pressas.
— Bahar! — chamou Evren atrás dela.
— Corre, minha passarinha, corre — suspirou Çağla, deitando-se de novo. — Só não esquece de respirar… — acrescentou mais baixo.
Evren abriu os braços, frustrado. Há instantes ela dormia, depois estava ali diante dele… e num piscar de olhos, já tinha sumido.
— Caso complicado o de vocês — murmurou Çağla, ajeitando-se. — Mas você é persistente. — Segurou o riso. — Acho que isso é amor mesmo.
Evren resfolegou, esticando os ombros:
— Ela vai me aceitar de novo — disse, sorrindo.
Çağla fechou os olhos, escondendo as lágrimas que vinham. Estava feliz por Bahar e Evren. Mesmo que ainda não tivessem resolvido seus problemas, dariam um jeito. Superariam tudo. Para ela restava apenas esperança e fé. Tolga não voltaria… mas ainda poderia ter um filho. E faria de tudo para que ele tivesse a chance de nascer.
***
…Para que Çağla pudesse ter o bebê, Bahar precisava acompanhar todo o processo. Corria pelo corredor, prendendo o cabelo às pressas, enquanto se culpava por ter dormido demais. Já tinha tomado banho, trocado de roupa, passado pelo quarto de Reha e Gülçiçek, e agora se dirigia direto ao laboratório, desviando apressada de todos que cruzavam seu caminho.
Chegou a pensar ter ouvido Evren chamá-la — ou foi só impressão? — mas, não estando pronta para falar com ele, acelerou ainda mais o passo. Ainda se repreendendo por ter perdido tempo dormindo, passou correndo pela porta do quarto de Esra, apenas apontando de relance, como se acrescentasse à lista mental: “Verificar depois.”
O aroma de café chegou até ela, e em seguida a voz de Rengin. Quase a avistou — e a ele também. Evren vinha com dois copos de café, e Bahar dobrou a esquina bruscamente, chocando-se contra uma figura sólida.
— Mas o que… — escapou de seus lábios, os braços se agitando no ar.
— Cuidado — disse Serhat, segurando-a para que não perdesse o equilíbrio.
Ele ia acrescentar algo, mas não teve tempo.
— Em meia hora quero os protocolos dessa cirurgia — soou a voz severa de Rengin.
— Depois da videoconferência, deixo tudo pronto — respondeu Evren com firmeza.
O rosto de Serhat se transformou, o olhar inquieto. Bahar empalideceu. Ambos deram um passo ao mesmo tempo e se chocaram de novo, agarrando-se pelas mãos para não cair. Giraram a cabeça em busca de saída e, juntos, avistaram a porta da escada.
Bahar foi a primeira a correr. Serhat a alcançou, abriu a porta e deixou que ela passasse. Entraram e fecharam atrás de si. Ofegantes, olharam um para o outro e depois para a porta, prendendo a respiração, atentos a qualquer som.
— O que você está fazendo aqui? — sussurrou Bahar, virando-se para ele.
— E você? — ele respirou fundo. — Está se escondendo de alguém?
— Assim como você — Bahar tentou recuperar o fôlego.
Serhat semicerrava os olhos, tentando decifrá-la.
— Você sabe bem por que estou aqui — ela se irritou. — Já basta de apostas e brincadeiras. — Cortou pela raiz. — E você, por que foge da Rengin?
Ele desviou o olhar, ajeitando nervoso a gola do jaleco.
— Como está o Reha? — Bahar mudou de assunto, com esforço para não sorrir.
— Estável — exalou, aliviado por não ter que responder. — Sob soro, a pressão controlada, estou acompanhando. — Interrompeu-se, depois completou: — Eu justamente ia vê-lo. — Inclinou levemente a cabeça. — E a Esra?
— Também estável — Bahar baixou os olhos, com culpa. — Ontem estive com ela… mas hoje ainda não. Não vi os exames de hoje.
Serhat relaxou um pouco.
— Acho que a manhã foi meio… caótica. — Tentou falar num tom leve.
— Pode-se dizer que sim — Bahar levou a mão ao peito, sentindo o coração bater forte.
— Temos nos encontrado com frequência — comentou ele.
O rosto de Bahar corou de imediato.
— Trabalhamos no mesmo hospital — retrucou.
— Em andares diferentes — insistiu ele.
Ela cortou com um gesto, recusando-se a dar corda àquela conversa. Frequentemente se esbarrava com Evren, quando descobrira o próprio diagnóstico… mas tinha proibido a si mesma de pensar nisso.
— Devemos parecer ridículos — Serhat sorriu de lado. — Ficamos aqui, esperando eles irem embora.
— Fugir é o jeito mais eficiente de não encontrar — murmurou Bahar, o olhar subitamente entristecido, quase diminuindo de tamanho diante dele.
— É tão pesado assim pra você? — perguntou ele de repente.
Ela o encarou, e ele viu lágrimas em seus olhos por um breve instante, antes que o olhar voltasse a ser sereno, controlado.
— Nem imagina — admitiu. — Mas o pior é o medo. Não sei o que quero… e se… — calou-se, pousando a mão sobre o peito, como se pudesse acalmar coração e alma.
Serhat fechou os olhos um momento, apoiando-se na parede.
— Você não é a única. — Sua voz saiu rouca. — Eu me escondo daquela médica porque sinto que ela me enxerga por inteiro… e eu não estou pronto.
— E eu fujo de quem parece ainda querer ver aquela que eu já não sei se existe. — Bahar suspirou.
— Talvez seja porque você já se permite ser outra, uma nova. — Abriu os olhos.
— Como assim? — ela franziu a testa.
— Só falta alguém que olhe pra você de outra forma. — Ele pareceu aliviar-se ao dizer.
Bahar ficou em silêncio, refletindo.
— Preciso ir — murmurou, caminhando até a porta. — Primeiro ao laboratório, depois ver a Esra.
— E eu vou até o professor Reha — disse Serhat atrás dela.
Nenhum dos dois teve coragem de tocar a maçaneta. Ficaram escutando, como se ainda não acreditassem que já podiam sair.
— Boa sorte pra nós — sussurrou Bahar, abrindo a porta.
— Você vai aguentar tudo, Bahar. Mesmo que agora não acredite nisso — disse Serhat, sorrindo ao vê-la de costas.
Mas ela já não ouviu. Caminhava rápido, às vezes desacelerava para escutar, mas sem parar, sempre em frente.
***
Evren deixou que ele entrasse primeiro e o seguiu. Era a primeira vez que Yusuf estava no consultório dele. Observava tudo com cuidado, com medo de fazer algo errado e despertar uma reação negativa… por que pensava assim dele? Talvez porque ninguém nunca lhe dissera que tipo de homem Evren realmente era.
— Aposto que você não tomou café da manhã — Evren lhe estendeu um copo de café quente.
Yusuf piscou e aceitou:
— Como adivinhou? — perguntou com a voz rouca.
Evren soltou um resmungo. O garoto lhe agradava e incomodava ao mesmo tempo. Era educado, comedido, respeitoso… mas havia algo nele que o deixava nervoso. E o que mais lhe irritava: agora era Yusuf quem dormia no escritório da casa de Bahar.
Evren jamais tinha imaginado isso. Ele planejava ocupar aquele quarto… na verdade, queria mesmo era estar no quarto dela. Mas precisava agir por etapas: primeiro, entrar na casa; depois, alcançar o segundo andar, perto do quarto dela; e só então chegar ao próprio quarto de Bahar. Nunca pensara que no caminho se colocaria esse garoto de olhos inteligentes.
— Então não tomou café? — Evren apontou para a cadeira. Yusuf se sentou e deu um gole no café.
— Na verdade, não — murmurou sem jeito.
— Lembre-se: não quero você chegando às aulas de estômago vazio — Evren colocou diante dele um kebab e uma garrafinha de ayran. — Quero você raciocinando, não desmaiando em uma sala de cirurgia. — Tomou um gole do próprio café. — O respeito ao paciente começa pelo respeito a si mesmo. Primeiro cuide de você, depois salve os outros. Coma. — Pegou um pedaço para si.
Ele mesmo não havia tomado café. Cem não dormira a noite inteira, sentado na sacada olhando o Bósforo. Evren não o perturbou — sabia que o irmão precisava de tempo para digerir o que tinha feito. Ele próprio também precisava esfriar a cabeça. Quando estava saindo, Cem lhe perguntou:
— Vai me deixar? Não tem medo de que eu fuja?
Evren parou na porta.
— Não tenho nada a temer. Decida como quer viver daqui pra frente. O que planeja? Como se vê em alguns anos, em dez? — segurava o capacete nas mãos. — Eu vou aceitar qualquer escolha sua. Você é meu irmão, mas a responsabilidade pelas decisões é sua.
Agora, diante de Yusuf, Evren notava a diferença. Quase da mesma idade, ambos órfãos, mas Cem ainda tão imaturo, e Yusuf… já tão adulto.
Comia o kebab, mexia no celular, evitando encará-lo para não deixá-lo desconfortável. Ainda assim, algo dentro dele queimava. Era a frustração: não conseguira falar com ela. Aqueles poucos instantes no quarto de Çağla não bastavam. Chegou a escrever uma mensagem, quase a convidando para se encontrarem na varanda… mas apagou antes de enviar. Será que ela já tinha comido? Ou correra a salvar vidas esquecendo de si mesma? Esse turbilhão de pensamentos se estampava em seu rosto, sem que percebesse.
Yusuf terminou o ayran, levantou-se e jogou a garrafa no lixo. Lavou as mãos e voltou.
Evren também foi à pia, ainda carrancudo, remoendo a mesma pergunta: ela comeu ou não? Raspou os dentes, secou as mãos e pegou o tablet. Sentou-se diante de Yusuf, que já tinha aberto o caderno e preparado caneta e lápis.
— Vamos começar com um dos casos mais difíceis — disse Evren, procurando a pasta.
— Alya? — Yusuf se inclinou, ansioso, o lápis suspenso sobre a folha em branco.
Evren o encarou de esguelha:
— Mulher, 23 anos. Esra Özer. Candidata a transplante de coração. — Sua voz era firme. — Ela está grávida.
Yusuf levantou a cabeça de súbito, o rosto perdendo a cor.
— Özer? — repetiu.
— Sim! — o tom de Evren saiu duro. — Algum problema?
— Não… — Yusuf baixou os olhos e começou a anotar. — Já ouvi esse sobrenome na casa da Bahar — explicou, sem notar que a letra saía tremida, irregular.
Evren massageou a nuca. Reagia com nervosismo demais ao fato de o rapaz viver naquela casa… viver, enquanto ele próprio ainda tentava conquistar esse espaço. Aquilo o corroía.
— Ela estava grávida de gêmeos — explicou, esforçando-se para soar calmo. — Um dos fetos precisou ser retirado por indicação vital. — Fitou Yusuf. — A cirurgia foi feita pela doutora Bahar.
Yusuf anotava meticulosamente, sem levantar os olhos.
— Agora a gestação continua, mas o estado é instável. Observação 24 horas — Evren inspirou fundo.
— Nós… — Yusuf ergueu os olhos do caderno — vamos ver a Bahar?
Evren se endireitou na cadeira. Ele mesmo desejava vê-la. Mas ouvir da boca de Yusuf esse desejo o incomodou profundamente. Já bastava dividir a atenção dela com filhos, netos, mãe… agora ainda esse garoto?
— Primeiro: para você, ela é doutora Bahar! — respondeu ríspido. — Segundo: ela não precisa estar na enfermaria dia e noite!
— Mas ela trabalha aqui, professor — disse Yusuf, confuso com a mudança de tom.
— O fato de trabalhar aqui — repetiu Evren — não significa que você vá encontrá-la a toda hora! Sua tarefa é ouvir mais, observar mais, pensar mais. — Enumerou. — As perguntas, anote. Vamos discutir no fim do dia. Por enquanto, você não é aluno. Só observador.
Levantou-se, pegou um jaleco no armário e lhe entregou.
— E não esqueça de respirar — acrescentou, agora mais brando. — Vamos.
Saíram juntos do consultório. Yusuf vestia o jaleco em movimento. Evren lançou apenas um olhar rápido para a porta fechada do escritório em frente. Bahar não estava lá. Ele sentia isso. Do contrário, já teria entrado, nem que fosse para obrigá-la a comer.
Passaram por Ferdi, que conversava com alguém e parou um instante para observá-los. Evren não deu atenção aos sussurros atrás de si. Ele e Bahar voltavam a ser assunto nos corredores. As apostas cresciam. Cerrou os punhos.
— Bom dia, professor Evren — Uraz se aproximou com o tablet. — A Alya está relativamente estável, revisei todos os parâmetros. — Falava sem olhar para ele.
Enquanto isso, Ferdi e alguns assistentes pararam de lado, encarando-os.
— Temperatura 37, pulso 92, pressão normal — continuou Uraz, caminhando ao lado deles, enquanto se afastavam dos colegas curiosos. — Bilirrubina e AST dentro da normalidade, ALT um pouco elevado.
— Diurese? — Evren lançou apenas uma palavra.
— Restabelecida, sem edemas. — Uraz levantou os olhos do tablet para olhar para ele.
Yusuf quase tropeçou. Ontem mesmo Uraz praticamente gritava que não queria ver o professor na casa deles, e agora falava com ele tão tranquilamente.
— Acho que podemos suspender o ciclosporina até o fim da semana — concluiu Uraz.
Evren parou e se virou para ele:
— Nível de creatinina? — perguntou, franzindo levemente a testa.
Uraz piscou, começou a procurar no tablet:
— Não verifiquei — admitiu com sinceridade. — Mas a coagulação já está normalizando — sua voz perdeu firmeza, a insegurança surgiu — risco hepático não há.
— Alya não é apenas um caso hepatológico, ela também tem um coração transplantado — lembrou Evren. — Com ALT acima do normal e ciclosporina, a função renal é crítica. — Fitou Uraz. — Solicite creatinina e ureia, além de sódio, potássio e proteína total. E não esqueça: se pretende suspender ciclosporina, controle de C0 é obrigatório.
— Vou providenciar, professor — Uraz assentiu rápido demais, sentindo-se culpado. — Desculpe, me precipitei — murmurou mais baixo, olhando ao redor, como se temesse que alguém tivesse ouvido sua falha.
— Não se apresse em declarar “estável” — a voz de Evren saiu calma. — Se não enxerga o todo, ainda não é estável. Você é médico, Aziz Uraz, e acompanha pacientes com órgãos transplantados. Nossa tarefa é garantir que eles se adaptem.
— Entendido, professor — Uraz desligou o tablet e apressou-se a ir até a paciente.
— Estranho — escapou dos lábios de Yusuf.
— O quê? — Evren não entendeu.
Yusuf balançou a cabeça, querendo evitar a resposta, mas Evren agarrou-se àquela deixa, ávido por saber o que ele quis dizer.
— O quê? — repetiu, parando no lugar.
Yusuf quase revirou os olhos, mas conteve-se. Engoliu em seco.
— E então? — Evren cruzou os braços no peito.
Yusuf entendeu que ele não sairia dali sem uma resposta. Por um instante, esqueceu até que havia pacientes esperando. Evren queria ouvir, e parecia sentir que isso tinha relação com Bahar.
— Eu não entendo bem como ele se relaciona com o senhor — murmurou Yusuf, corando. — Acho que ele mal suporta você… — hesitou — em casa. Mas aqui, é diferente.
— Ele não tem obrigação de me amar — respondeu Evren, ainda com a testa contraída, mas retomando o passo. — Casa é uma coisa, aqui é outra. Aqui, todos vestimos o jaleco branco. — Lembrou. — Respeito à profissão começa quando você não mistura pessoal com trabalho.
Yusuf assentiu, percebendo de repente que, naquele momento, nascia dentro dele um respeito novo pelo próprio Evren. Ainda não o conhecia bem, mas cada detalhe o tornava mais interessante.
Ele se deteve um instante diante da porta do quarto.
— Observe, não interfira — murmurou Evren. — Nenhuma pergunta, nem à paciente, nem aos familiares, nem aos médicos.
Yusuf assentiu. Estremeceu ao cruzar a soleira. Paredes brancas, o som suave dos aparelhos… e uma jovem bonita no leito. Yusuf a observava tímido: olhos escuros, cabelos ondulados, traços delicados.
— Paciente Esra Özer, 22 semanas de gestação — informou um dos assistentes, entregando o prontuário a Evren.
— Bahar — sussurrou Yusuf, feliz, ao vê-la entrar no quarto.
— Doutora Bahar — corrigiu Evren com frieza, sem sequer se virar. — Chame-a pelo título!
— Bom dia — Bahar estendeu a mão. Evren lhe entregou a ficha.
Por um instante, seus dedos se tocaram. Ela não o olhou, mas ele não conseguiu desviar o olhar dela. Estava de jaleco limpo, cabelos presos com um prendedor curioso, de onde um pequeno olho, enfeite, surgia entre os cachos acobreados.
— Saturação 92, pressão controlada — disse ela, olhando a ficha. — O exame de eletrólitos já saiu?
— Sim, já saiu — Doruk entrou apressado. — Estou abrindo agora — ligou o tablet.
— Estou feliz que tenha vindo — murmurou Evren, aproximando-se dela. Entregou de volta o prontuário.
A respiração de Bahar vacilou por um segundo — só ele percebeu. Sorriu de leve, baixou a cabeça para esconder. Ela, no entanto, voltou os olhos aos monitores.
— Qual o plano? — perguntou Serhat, entrando de jaleco em pleno movimento. Ele parecia apressado, como se não quisesse perder nada.
— Já que vocês estão juntos — notou ele —, significa que aconteceu alguma coisa?!
Estendeu a mão pedindo a ficha, mas Evren não se moveu para entregá-la.
— Papai — Esra se ergueu um pouco na cama, e Doruk correu para ajudá-la.
Papai? Yusuf deu um passo para trás, quase se escondendo atrás de Evren. Apertava o caderno contra o peito, braços cruzados, encarando o homem sem piscar.
— A paciente tem dois médicos responsáveis — lembrou Evren. — Os demais, apenas observam.
— Tenho direito de ver o prontuário — insistiu Serhat, a mão erguida, exigindo em silêncio.
— Já alinhamos a conduta — Bahar ficou ao lado de Evren, seus ombros quase se tocando.
— Eu queria… — começou Serhat, o olhar tenso.
— Não — cortou Evren com firmeza. — Agora é momento de exame. O senhor, como pai, pode permanecer, mas sem interferir.
— Estão deixando minha paciente nervosa! — Bahar ergueu-se em defesa de Esra. — Como médico, o senhor sabe: ela não pode se agitar!
— O que há com minha filha? — Esra apertou as mãos sobre o ventre. — O que há com o meu bebê?
Bahar apontou calmamente para Esra, olhando de modo firme para Serhat. Doruk tomou a mão da paciente, sussurrando algo tranquilizador.
— Estão fazendo um conselho médico aqui? — Renngin apareceu na porta. — Alguém vai me dizer o que está acontecendo? — fitou Serhat.
Ele hesitou, encarando-a:
— Queria discutir a conduta com os médicos. Temos divergências.
— Pai… — Esra revirou os olhos, voltando a se deitar. — Eles nem disseram nada ainda e você já está contra!
Renngin olhou para todos:
— Então vamos discutir na sala dos médicos — decidiu —, não no quarto da paciente.
— O que estão me escondendo? — a voz de Esra tremeu.
— Querida — Bahar se aproximou dela, sentando-se à beira da cama —, não estamos escondendo nada. Com sua filha está tudo bem, ouviu? — segurou-lhe o pulso, suavemente.
Sentiu o pulso, observando ao mesmo tempo os monitores.
— Batimentos do feto normais, pressão estável — disse em tom brando. — Estamos monitorando a cada meia hora. Não se preocupe, está tudo certo. Seu pai não concorda, mas ele está sempre contra, então você já devia estar acostumada — concluiu com calma, tentando tranquilizá-la.
Yusuf não conseguia tirar os olhos de Bahar.
— Bahar! — Serhat protestou, e Yusuf olhou imediatamente para ele.
— Doutora Bahar! — corrigiu Evren, erguendo a voz. Yusuf ergueu as sobrancelhas surpreso: não era só com ele que Evren exigia esse tratamento. — Não levante a voz para ela, professor Serhat! — avançou um passo.
— Professor Evren, professor Serhat, saiam da sala imediatamente! — ordenou Renngin.
Yusuf ficou boquiaberto. Era a primeira vez que via Evren perder o controle. Pela primeira vez, ele parecia humano, não apenas um médico automático, cheio de frases prontas. Tudo que dizia respeito a Bahar o desestabilizava — agora Yusuf tinha certeza disso.
Bahar, por sua vez, pousou com cuidado a mão de Esra sobre a cama e se levantou. Lançou um olhar cortante a Evren, depois a Serhat.
— Doruk, acompanhe por favor — disse em voz calma. Foi a primeira a sair.
Evren a seguiu de perto, Yusuf deslizou atrás dele como uma sombra. Serhat veio logo depois, e Renngin fechava a fila.
— Bahar… — Evren tocou-lhe o cotovelo. — Pode esperar só um instante? — seus dedos a seguraram com suavidade.
— Eu preciso… — a voz dela falhou. Olhou para ele. — Eu preciso checar… já estão preparando a sala de cirurgia… — sussurrou.
Os olhos de Evren se arregalaram. Fitava-a em silêncio. Bahar também silenciou, sem desviar o olhar. Sua mão se ergueu, ajeitou o colarinho do jaleco dele; seus dedos roçaram levemente o peito dele e logo se retraíram, como se tivessem se queimado. Seu coração tropeçou no ritmo por um instante.

CAPÍTULO 5. PARTE 3

— Eu preciso ir… — sussurrou Bahar.
— Bahar, Evren, quero conversar — a voz de Serhat invadiu aquele frágil mundo deles. — Rengin? — ele se virou para ela, tentando conquistar seu apoio.
— Ah… — suspirou ela, dando um passo atrás, — preciso fazer uma ligação urgente. — Tirou o celular do bolso e, ao passar por Bahar, pegou-a pelo braço. — Vamos — murmurou quase sem mover os lábios.
— Evren Yalkın, — a voz firme de Serhat ecoou pelas paredes.
— Serhat Özer, em meia hora no meu escritório. Falaremos sobre sua filha, — o tom de Evren não prometia nada de bom. — Agora estou ocupado.
— Tem certeza de que podemos deixá-los sozinhos? — Bahar perguntou baixinho, deixando-se guiar.
— Eles precisam colocar tudo pra fora, — assentiu Rengin. — De qualquer jeito, vão acabar falando. Nós não somos mães para separar dois meninos brigando em cantos opostos… Mais cedo ou mais tarde, isso teria que acontecer.
— Ah… — Bahar suspirou e parou assim que viraram a esquina. — Eu não aguento, — confessou em voz baixa, — tudo ao mesmo tempo de novo… — apoiou as mãos nos joelhos, quase se curvando.
— Por que está fugindo do Evren? — perguntou Rengin. — O que houve agora entre vocês?
Bahar endireitou-se, apertando a mão contra o peito:
— Nem eu sei… — murmurou. — Ele me olha de um jeito… e eu não estou pronta… é demais. Não entendo — admitiu.
— Não saber o que se quer… — Rengin fechou os olhos, murmurando, — isso me é tão familiar.
— E você, o que tem com o Serhat? — Bahar perguntou direto. — Do que é que você tem medo?
Rengin empalideceu e lançou um olhar em volta:
— Se ao menos eu soubesse… — sussurrou. — Nem eu mesma me entendo — confessou.
— Mmm… — Bahar apenas murmurou e lhe deu um tapinha no ombro.
Mal tiveram tempo de respirar, Bahar se virou. Reconheceu o som daqueles passos.
— Depois… — murmurou e disparou para longe.
Ela correu até a escada, fechou a porta suavemente atrás de si e levou a mão à boca para abafar a respiração ofegante. Encostou-se na porta, atenta aos sons além dela. Depois recuou devagar e sentou-se num dos degraus. Abraçando os joelhos, entrelaçou os dedos e deixou a cabeça cair sobre eles. Ainda assim estremeceu quando a porta rangeu, mas não levantou o rosto.
Bahar gemeu em silêncio, consciente de que não poderia fugir dele para sempre. Evren a encontraria, cedo ou tarde.
— Posso sentar aqui contigo? — ouviu a voz dele.
— Se não falar nada… — sussurrou, erguendo o rosto e apoiando o queixo nos joelhos.
Ela o observava de soslaio, enquanto ele se sentava ao lado. Notou que ele deixara um pequeno espaço entre eles, mas, mesmo assim, ela aspirava com avidez o perfume dele. A proximidade a deixava estranhamente inquieta: a respiração presa, um aperto no peito, o coração batendo tão forte que a ensurdecia. Apertava os dedos com mais força, para que ele não percebesse que tremia.
— Posso ao menos ficar sentado contigo? — Evren quebrou o silêncio.
— Só se não me olhar como fez no hospital, — murmurou ela. — Foi insuportável… — confessou. — Aquele teu olhar.
Evren sorriu. Os olhos dele brilharam. Ela percebia tudo, mas escondia com habilidade… e ele não entendia como. Ainda assim, ela reagia a ele, à sua presença, e isso lhe devolvia esperança.
— Eu não sabia que se podia amar assim, — murmurou ele, — de querer apenas ficar ao teu lado e ter medo até de me mexer… — engoliu em seco, olhando para ela, — com medo de te espantar.
Bahar suspirou, ainda evitando seus olhos.
— Estou cansada demais de ser forte, — disse baixinho.
— Eu vejo como te pesa, — assentiu ele. — Eu também estou cansado de sempre chegar tarde demais — admitiu.
Bahar deu de ombros:
— É porque você sempre vem atrás de mim… e não ao meu lado.
Evren a fitou em silêncio e, de repente, sorriu:
— Então vou me sentar mais perto. — Aproximou-se. Ela se enrijeceu no mesmo instante, mas ele não parou até ficar quase colado a ela. Agora seus ombros e quadris se tocavam, embora ele não a tocasse de fato. — Achei o lugar onde você se esconde de mim?
— Aqui sempre tem alguém se escondendo… — murmurou Bahar. Sentia o calor do corpo dele, mas não se afastava. — Serhat se escondia da Rengin… e eu, de você.
— Então quer dizer que se escondia aqui com Serhat? — ele se virou para ela, intrigado.
Bahar corou, e aquele traço de ciúme na voz dele a fez virar-se. Ficaram rosto a rosto. Evren esqueceu Serhat no mesmo instante. Ela respirava, e o sopro dela roçava os lábios dele. Fitava-o nos olhos, incapaz de desviar.
— Vou te beijar agora, — murmurou ele.
— Não… — ela exalou, quase inaudível, — sou eu que vou te beijar.
Evren piscou, sem acreditar no que ouvira. Inclinaram-se juntos, e seus lábios se encontraram num beijo suave, tão esperado, sofrido ao longo daqueles meses de separação… Não era reconciliação, mas a certeza de que seus sentimentos ainda estavam vivos.
— Eu te amo, — sussurrou Evren contra os lábios dela.
— Eu é que te amo, — Bahar pousou a cabeça no ombro dele, e ele a envolveu nos braços.
— E o que vamos fazer agora? — perguntou, com medo do silêncio entre eles, aquele silêncio que já durava meses, despedaçando suas almas.
— Ainda não sei, — ela admitiu. — E tenho medo.
— Mas nós vamos conseguir, não é? — Evren a apertou ainda mais contra si.
Bahar, escondendo o rosto no pescoço dele, respirava fundo, absorvendo-o, sentindo que aquele era o lugar mais seguro do mundo — os braços dele. Pouco a pouco, foi se acalmando, compreendendo que fugir já não adiantava.
— Não vai mais se esconder de mim? — ele perguntou, como se lesse seus pensamentos.
Bahar apenas deu de ombros, sem dizer nada, e depois o cutucou de leve na cintura.
— O que foi? — perguntou ele, sorrindo.
Ela estava em seus braços, sem se debater, sem pressa de ir embora. Sentavam-se no degrau da escada, e atrás da porta os aguardavam pacientes que acreditavam que seriam salvos por eles… mas, naquele instante, eram eles que se salvavam, um ao outro, a si mesmos. Evren não estava pronto para soltá-la, e Bahar não estava pronta para se levantar.
— O que foi? — repetiu ela, mexendo-se em seus braços, e ele afrouxou um pouco o abraço. — Não me olhe assim, — Bahar apoiou as mãos nos ombros dele. — Senão eu vou te beijar, e preciso ir para a sala de cirurgia, é a Çağla — lembrou.
— Eu é que vou te beijar, — ele chegou a inclinar-se, mas ela o deteve.
— Isso não significa nada ainda, — tentou olhá-lo de forma severa.
Mas nos olhos de Evren cintilaram faíscas travessas; ele voltava a ser aquele Evren de quem ela havia se apaixonado. Ela começava a reconhecê-lo… mas eles já não eram os mesmos Bahar e Evren. Tinham mudado. Tudo à volta havia mudado. Nada permanecia imóvel.
— Significa sim, e muito, — ele se inclinou e seus lábios roçaram a face dela. — Vou te soltar agora, — sussurrou, — porque acredito em ti, porque é pela Çağla. E eu vou esperar, vou estar ao teu lado. Você vai dar a ela a chance de ser mãe, Bahar. Porque você é minha, doutora Bahar, só minha. Você é o meu milagre!
Bahar se soltou lentamente de seus braços e, com a mesma lentidão, levantou-se:
— Não é assim… — ela recusava-se a dar explicações. — Eu ainda não sei de nada… — sua voz carregava confusão e um leve pânico.
— Eu também não sei, — Evren se ergueu junto dela.
— Ah, não! — Bahar apoiou as mãos contra o peito dele, mas movê-lo era difícil. — Nem pense em sair comigo, nem logo depois de mim. Nem tente!
— E o que vamos fazer, então? — ele se mostrou um pouco perdido, e ela, aproveitando o instante de hesitação, deslizou porta afora.
— Eu sei lá? Inventa você — ele a ouviu dizer, antes que a porta se fechasse.
Evren riu baixinho. Pela primeira vez em muitos meses, sentiu-se leve. Pela primeira vez, voltou a sentir esperança. Ela tinha razão: o que acontecera ali não significava uma solução, não resolvia todos os problemas. Mas trazia a possibilidade de acreditar que ainda havia algo entre eles.
Desceu os degraus devagar, sentindo como se seus passos acompanhassem o ritmo da respiração dela, que ainda lhe ficara gravada. Nos lábios, ainda o gosto de seu beijo — tão estranho, porque não era uma recompensa, não era uma vitória… era apenas uma chance. Uma chance que poderiam perder, se corressem rápido demais.
Ele sabia: da última vez, perdera o controle porque queria tudo de uma vez — até mesmo um filho. E então Bahar fugira não só dele, mas também de si mesma, daquilo que não cabia em sua vida já complicada.
Hoje, pela primeira vez, sentia que podia simplesmente esperar. Já não temia tanto ouvir dela um “não”. O medo verdadeiro era outro: que ela voltasse a se fechar. Que tudo entre eles ficasse preso no passado, sem possibilidade de mudança.
Temia que ela se tornasse novamente apenas a “doutora Bahar” para todos, inclusive para ele — e não aquela mulher que, há pouco, estivera sentada ao seu lado, confessando que tinha medo.
E ele sorria, porque depois de tantos meses, percebia que finalmente não caminhava atrás dela… mas ao lado. E, mesmo que ela ainda não admitisse, ele já sabia: naquele dia, tinham dado o primeiro passo um em direção ao outro. Isso significava que ainda era possível.
Seria mesmo? O corredor parecia mais longo que de costume. Cada passo pesava nos joelhos, como se ela ainda corresse, embora caminhasse devagar, dando a si mesma tempo para recuperar o fôlego. Bahar ainda sentia o olhar dele, mesmo através da porta fechada, através das paredes — tão intensamente quanto ainda sentia o calor de seu ombro, o cheiro dele.
Aquele beijo… quente demais, honesto demais, perigoso demais. Ela sabia: bastava dar mais um passo em direção a ele — e seria arrastada de novo para aquele redemoinho, onde tudo desaparecia, restando apenas ele.
Não queria acreditar que pudessem recomeçar do zero, mas sabia: se ele conseguisse caminhar ao lado dela, e não atrás… talvez, só talvez, eles ainda tivessem uma chance.
Ela sacudiu a cabeça, voltando lentamente à realidade. Agora precisava cuidar de Çağla. Bahar suspirou, e seu andar tornou-se mais firme.
O único lugar onde conseguia se esconder dos próprios pensamentos era a sala de cirurgia. E foi para lá que se apressou…
***
Ele não tinha pressa. Evren caminhou até o elevador e apertou o botão. Talvez alguém lhe lançasse olhares, mas ele não os via. Ainda sentia Bahar em seus braços, o calor do corpo dela, o perfume… parecia envolto inteiramente por ela. E, no entanto, seu rosto não deixava transparecer nada.
Evren saiu no seu andar e seguiu até o consultório, onde Yusuf o esperava pacientemente. O rapaz não havia entrado, permanecia encostado à parede, revisando anotações, fazendo algumas marcações. Evren sorriu… Aquele que, uma hora antes, lhe parecera um obstáculo, agora se tornaria seu guia para a vida dela, para sua casa, para o segundo andar, para o quarto dela.
Quase riu de si mesmo — por que havia se irritado e não enxergara essa possibilidade antes? No fim, bastava olhar sob outro ângulo. Era o que sempre dizia a seus alunos: basta uma perspectiva diferente, outra abordagem — e a cirurgia se tornava possível. Era só garantir acesso.
— Vamos — disse Evren, abrindo a porta.
— Tenho perguntas sobre a Esra, professor Evren, — Serhat estava de pé, junto à janela, segurando o prontuário.
Evren aproximou-se da mesa. Agora entendia por que o rapaz ficara lá fora. Yusuf fechou o caderno e se encolheu num canto, esforçando-se para ser invisível, obedecendo às instruções de Evren: não interferir, não questionar.
— Acho que a tática de tratamento escolhida por você não é a mais adequada! — Serhat atirou o prontuário de Esra sobre a mesa.
Evren ajeitou os papéis e o encarou:
— Acho que você não está na posição para contestar isso agora. — Indicou a cadeira, mas Serhat ignorou o gesto, e Evren prosseguiu: — Não estamos combatendo consequências. Estamos lutando para que ela sobreviva.
— Ela não é só paciente! Você está falando da minha filha! — Serhat lembrou, dando um passo à frente.
Yusuf recuou contra a parede, apertando o caderno.
— Estou falando como médico dela, — a voz de Evren era fria. — Eu sou responsável pelo coração dela. A Bahar conduz a gestação. Todo o resto são suas emoções pessoais.
— Emoções?! — Serhat apoiou as mãos na mesa. — É você quem me fala de emoções? Já esqueceu dela?!
A tensão no ar fez Yusuf estremecer. Já estava pronto para sair, mas Evren o conteve com um único olhar.
— Cuidado… — Evren inclinou-se em direção a Serhat, — está cruzando a linha.
— Não importa quantos méritos você tenha! — Serhat não recuava. — Não vê o que está acontecendo diante dos seus olhos? Faz o mesmo com a Bahar! — disse com raiva.
Evren se moveu, fechando o punho.
— Não se atreva! — sua voz endureceu. — Isso não é da sua conta! Não cabe a você dizer o que devo fazer! Não estamos sozinhos aqui! — lembrou. — Não peço sua permissão. Peço que não atrapalhe!
Serhat girou a cabeça, lembrando-se por um instante de Yusuf no canto. Mas logo voltou a Evren.
— Você não tem o direito de arriscar a vida dela! — disse em tom cortante. — Vai adiar a cirurgia só por causa de um bebê que talvez ela nem consiga levar até o fim?!
— Estamos lutando por ambos, — respondeu Evren, com voz controlada. — Porque ainda há uma chance. Amanhã, pode já não haver.
— Isso é loucura, Evren Yalkın! O coração dela está em estado crítico! Já perderam um embrião! Aquilo foi um aviso! O que virá depois?
— Foi uma decisão, — Evren sustentou o olhar, mesmo sentindo o suor despontar na testa. — Certa, urgente, precisa.
O silêncio caiu no consultório. Yusuf mal respirava. Nunca tinha visto um médico falar assim com familiares. Pela primeira vez estava do outro lado — observando como futuro médico. Via Serhat lutar como pai, e Evren, defender sua conduta médica. Ética e sentimentos se misturavam diante dele.
— Estamos no limite, mas ainda não o ultrapassamos, — disse Evren em tom mais baixo. — Você fala comigo não como médico, mas como pai tomado pelo medo.
— Claro que tenho medo! — Serhat estremeceu. — É minha filha, entende? Minha! — bateu no peito. — Já perdi minha esposa, não vou deixar que você… — a voz dele falhou.
Yusuf baixou os olhos, incapaz de suportar aquela dor.
— Não vai deixar quem? — perguntou Evren. — A mim, como médico? Ou a Bahar?
— A Bahar sabe o que faz. Mas você… — a voz de Serhat tremia.
Ele ergueu o queixo, tentando se controlar.
— Serhat, — Evren o olhava firme. — Se quer realmente salvar sua filha, precisa deixar de ser o médico dela. Precisa permitir que nós a salvemos!
— O quê? — ele ficou atônito.
— Você é o pai. Não consegue avaliar com clareza o estado dela. Vai se desesperar com cada oscilação. Vai entrar em pânico. Sua obstinação te deixa cego!
Serhat respirava pesadamente, incapaz de esconder o estado em que estava. Yusuf olhava para ele com tensão, e para Evren com respeito. Viu o professor soltar o encosto da cadeira, contornar a mesa e se aproximar de Serhat.
— Eu não tenho medo, — disse Evren, a voz agora mais calma. — Não porque não sinta, mas porque sei o que faço. Confie a sua filha a mim. Confie como médico. Não como homem. Não como ex-amigo. Como profissional. Como um bom médico.
O silêncio voltou. Do lado de fora, a vida seguia, mas ali dentro tudo parecia suspenso… até que Serhat quebrou o silêncio, após longa pausa:
— Se algo acontecer com ela… — não conseguiu terminar.
Yusuf se mexeu nervoso, limpou o suor da testa, sem saber onde pôr as mãos, para onde olhar. Sentia-se deslocado.
— Você vai estar ao lado dela de qualquer forma, — disse Evren, pousando a mão em seu ombro. — Mas agora — apenas confie em nós. Não interfira. — Pegou o prontuário de Esra da mesa. — Você não abre mais esse prontuário. Não olha para os monitores quando estiver no quarto dela. A partir de hoje, é apenas o pai dela.
— Você não tem filhos, não entende! — explodiu Serhat. — E se tiver, nem sabe disso!
Evren empalideceu. Serhat mais uma vez ultrapassava o limite entre pessoal e profissional.
— Ela tem que viver a qualquer custo. A qualquer! — exigiu.
— É justamente por isso que Bahar conduz a gravidez e que Esra está na lista de espera, — respondeu Evren, contendo-se.
Serhat cerrou os dentes, fechou os olhos por um instante e, de repente, virou-se e saiu.
Yusuf mal teve tempo de respirar, muito menos de compreender o que presenciara.
— Perguntas? — ouviu a voz dura de Evren.
— O quê? — gaguejou Yusuf. — Eu… — fitou o professor e baixou a cabeça. — O senhor… — não terminou.
— Eu não assumo nada que não possa cumprir, — entendeu Evren. — Sente-se. — Massageou o pescoço e lançou um olhar ao relógio.
— Quero aprender isso, — murmurou Yusuf.
Evren permaneceu em silêncio, calculando o tempo mentalmente.
— Estude esses prontuários, — apontou para uma pequena pilha sobre a mesa. — Abra os dados dos pacientes no tablet e compare os exames. Analise.
Falava enquanto contornava a mesa.
— Professor, não vou com o senhor? — Yusuf o deteve junto à porta.
— Não. — Evren hesitou por um instante. — Agora sou parente do paciente, — sua voz falhou. — Preciso ir.
Yusuf chegou a se levantar, com enorme vontade de acompanhá-lo. Nunca o vira assim, tão desarmado. Evren mudava diante de seus olhos — do médico duro e seguro para o homem comum, vulnerável.
— Não, — disse categoricamente, abriu a porta e saiu, deixando Yusuf sozinho no consultório.
***
Se tudo desse certo, ela nunca mais estaria sozinha. Çağla permanecia de olhos fechados.
— Procedimento de transferência de embrião único, — a voz de Bahar soou como o primeiro acorde de uma nova melodia na vida de Çağla. — Estágio de blastocisto expandido, no 6º dia após a fecundação.
A sua própria música da vida. Çağla entendia que Bahar falava para o registro cirúrgico, mas permitiu-se desligar, viver na sua realidade interior. Uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto, sem que notasse. Porque ela o via — Tolga, sorrindo para ela… e, se sorria, era sinal de que tudo daria certo. Que o filho deles sobreviveria. Que ela conseguiria levá-lo até o fim e dar-lhe à luz.

CAPÍTULO 5. PARTE 4

Çağla tentava não ouvir a conversa de Bahar com o especialista em reprodução e o embriologista. Confiava nela por completo. Estava certa de que, sem Bahar, nada disso seria possível.
— O cateter passou pelo canal… — por mais que não quisesse escutar, as palavras chegavam até ela.
Bahar mantinha os olhos fixos no monitor — uma gota, quase um ponto de luz… silêncio, e de repente desapareceu da tela.
— Paciente estável, — informou o embriologista sem desviar o olhar. — Transferência concluída. Embrião na cavidade uterina.
— Hora registrada, — acrescentou o assistente.
— Ela está em casa? — sussurrou Çağla.
Não teve tempo nem de abrir os olhos. Bahar inclinou-se, tocando-lhe o ombro por cima do lençol:
— Sim, — murmurou, — agora tudo depende dela… e de você.
— Cinco minutos de repouso, — disse o especialista, em tom neutro. — Depois levamos ao quarto.
Eles deixaram a sala devagar, e Bahar ficou sozinha com Çağla.
— Se ela se fixar, — murmurou Bahar, — será o começo de uma nova vida.
— E se não… — Çağla procurou a mão de Bahar e a apertou. — Vai ficar na memória que tentamos, minha passarinha.
Bahar quase não conteve as lágrimas. A fé de Çağla ia fundo demais, tocava pontos que ela evitava pensar, porque então a tomava uma onda de pânico que a sufocava. Mas agora era impossível não pensar.
Uma criança. Poderia ela e Evren terem um filho nas circunstâncias em que viviam? Não… não agora. Não quando ela mal se equilibrava, quando dava os primeiros passos como médica, quando Timur já não estava, quando Evren… Não. Tudo era confuso demais. Não. Bahar voltou a proibir-se de pensar nisso, como fizera meses antes. Não era esquecimento… apenas não se deixava afundar naquele silêncio apavorante, cheio de perguntas sem resposta. Onde ela ficara sozinha. Onde ele já não estava.
…Mas ele estava. Evren permanecia encostado à parede, incapaz de tirar os olhos da porta. Já se passara mais de dez minutos desde que os médicos saíram, e nada. Franziu o cenho, deu um passo, enxugou o suor da testa — e, de repente, as portas se abriram. Enfermeiros empurraram a maca com Çağla, e Bahar veio logo atrás, já sem máscara, segurando a touca nas mãos.
O olhar dela percorreu o corredor e parou nele. Ele estava ali de novo, tão perto. E isso doía, como se revivessem aqueles dias em que ela descobrira a gravidez… depois a ectópica… depois o silêncio. E esse silêncio ainda a apavorava. E outra vez eles não diziam nada.
Evren não se aproximou. Apenas esperou. A maca passou por ele, e Bahar também. Seguiu atrás sem lhe dirigir palavra, sem esboçar sorriso. Olhava para frente, mas nada via, como se um véu lhe cobrisse os olhos. Nem notava que seus lábios tremiam, que suas pernas mal a sustentavam.
Bahar deixou os enfermeiros saírem com a maca vazia, entrou no quarto de Çağla e virou-se para a parede. Encostou a testa, tentando se acalmar; os dedos arranhavam o reboco, os lábios se abriam num grito mudo.
— Bahar, — ouviu a voz de Çağla. — Bahar.
Pressionando a mão contra a boca, Bahar enxugou as lágrimas, arrumou os cabelos, forçou quase um sorriso e aproximou-se. Olhava para a amiga com ternura, como se nada sentisse, como se estivesse tudo bem.
— Não sinto nada, — a frase de Çağla foi como um golpe, arrancando-lhe o ar. — Nenhum peso, nenhum calor… — Bahar engoliu seco, apoiando a mão na cabeceira. — Apenas um vazio… — a voz de Çağla atravessava o zumbido nos ouvidos. — E se ela não se fixar?
— Querida… — a voz de Bahar falhou, — ela não precisa dar sinal de si agora. — Inclinou-se, ajeitou-lhe uma mecha de cabelo. — Ainda não se mexe. Agora ela luta… assim como você. O que precisa é repouso absoluto. Eu… eu volto logo.
Bahar até sorriu. Inclinou-se, beijou-lhe a testa, arrumou os fios e lançou um olhar rápido aos monitores. Confirmou que tudo estava em ordem, percorreu a sala com os olhos e saiu.
Andava pelo corredor sem saber para onde ia. Só diante da porta de vidro hesitou, abriu-a e saiu à varanda.
A luz do sol a cegou, obrigando-a a fechar os olhos. As lágrimas rolavam sem freio. O sol, o dia, o ar pesado e quente… tudo pesava como o fardo sobre seus ombros, esmagando-a, impedindo-a de avançar.
Ficou parada junto à porta, levantando o rosto ao céu azul sem nuvens. Tremia, soluçava em silêncio. Os lábios quase se curvavam em ironia contra si mesma… pois tudo ao redor parecia desafiar a tempestade dentro dela.
— Vem cá, — primeiro ela ouviu a voz dele, depois sentiu o abraço.
Evren a envolvia com força, acariciava-lhe os cabelos, as costas, até que ela conseguiu respirar de novo. Então segurou-lhe a mão e a levou ao canto mais distante da varanda, longe de olhares. Ali, Bahar soltou a mão dele, e ele não insistiu. Apenas a fitava, sem julgamento, sem cobrança… olhava como aquele Evren que ela conhecia, que amara. Aquele que lia seus pensamentos, que sentia sua respiração.
— Você veio, — foi ela quem quebrou o silêncio, virando o rosto e enxugando os cantos dos olhos.
— Teria vindo antes, — disse Evren, aproximando-se, — se também não tivesse fugido… se nós dois não tivéssemos corrido em direções opostas.
Bahar estremeceu e se virou para ele, ainda mantendo a mão junto à boca, como se a qualquer momento precisasse abafar um grito mudo. Fitava seus olhos, como se tentasse compreender se poderia falar ou se, outra vez, seria inútil. Será que ele a ouviria agora? Será que ela o ouviria? Estariam prontos para conversar? Para falar de verdade — e serem escutados?
— Passei tempo demais me recompondo, — sussurrou. — Eu tive medo, — repetiu, reunindo coragem. — Não da gravidez, não de você. Tive medo de me perder, de voltar àquela vida doméstica… fraldas, papinhas… — olhou nos olhos dele. — Casamento por obrigação. Medo de ver desaparecer tudo o que conquistei.
— Sempre te disse que não queria filhos, — ele se aproximou ainda mais, protegendo-a do sol abrasador. — Não porque não amasse… — suspirou. — Eu simplesmente não sabia como ser pai. Eu mesmo nunca tive um. Nunca tive família, só sobrenomes trocados, quartos novos. Não queria dar isso a um filho.
Bahar baixou os olhos, mas logo os ergueu de novo, sondando-o com timidez:
— Mas quando você soube… — falou com cautela, como se temesse não ser compreendida, — você ficou tão feliz.
Evren desviou o olhar por um instante, mas voltou a encará-la:
— Eu não sabia que era capaz, — murmurou. — E, de repente, eu quis. — Confessou. — Quis tanto, que até eu mesmo me assustei. Tive tanto medo de te perder, que deixei de enxergar qualquer outra coisa. — Suas mãos encontraram as dela, apertando-as com delicadeza. — Deixei de te enxergar, Bahar. Me deixei levar pelo impulso de te fazer minha esposa. Corri para criar uma família… — a voz falhou. — Para ter o que nunca tive. — Ele não terminou a frase; em vez disso, envolveu-a num abraço, apertando-a contra si. — E quando você foi embora, de vestido, e eu fiquei ali com as alianças… nem assim percebi que você tinha razão. Não estávamos prontos. Bahar… — apertou-a contra si com tanto cuidado, como se ela fosse frágil, prestes a quebrar-se. — Eu devia ter ficado. Não devia ter te pressionado. — Sussurrou. — Só devia ter estado ao teu lado.
— Evren… — as mãos dela repousaram sobre os ombros dele, abraçando-o com força. — Dói tanto quando você diz “devia”… — murmurou. — Sinto-me tão culpada por não ter conseguido priorizar, por não ter conseguido te amar mais do que você merecia. — Ela afastou-se um pouco, buscando seus olhos. — E se eu tiver que te deixar? E se com a Naz for diferente? Talvez dê certo com ela. Seria mais fácil. Você sabe disso. Ela é livre, não tem obrigações.
— Eu não quero o fácil, Bahar, — Evren balançou a cabeça. — Eu não quero a Naz. Eu quero você!
Eu quero uma família com você! Eu te amo, Bahar!
— Mas você entende que ela pode te dar um filho? — sua voz tremia, como se tivesse medo até de acreditar nas palavras dele. — Você mesmo disse que agora quer.
— Quero um filho teu, Bahar. Não apenas um filho. Você entende a diferença? — Evren estava sério, firme. — Eu não amo a Naz. Não quero formar família com ela. Não quero preparar café para ela de manhã. Não quero vê-la no convés do meu iate, vestindo minha camiseta.
Bahar sacudiu a cabeça. As palavras dele eram promessas tão fortes… mas ainda assim, ela tinha medo de acreditar. Medo de que não houvesse mais chance para eles.
— E se eu não conseguir? Se eu não tiver coragem? Se não der certo? — a voz dela ganhou um tom de pânico, o olhar desviando-se. — Não posso te privar do direito de ser pai, Evren.
Ela se sentia de novo encurralada. Mesmo nos braços dele, mesmo o abraçando, crescia dentro dela uma vontade desesperada de se soltar… e fugir.
Evren a puxou suavemente para mais perto e seus lábios tocaram os dela com delicadeza. Beijou-a uma vez, depois outra, até sentir que ela parava de tremer em seus braços.
— Então vamos apenas viver, — murmurou. — Se algum dia decidirmos, se der certo ou não, existem caminhos, e poderemos falar sobre eles. Você quer resolver tudo aqui e agora, como se houvesse garantias. Mas não existem garantias, Bahar. Existe alguma garantia na vida? — perguntou. — Não sabemos o amanhã. Podemos desejar, podemos planejar, mas certeza nunca teremos. Se falarmos um com o outro, se nos ouvirmos, vai dar certo para nós. — sussurrou Evren.
Bahar suspirou, desfazendo-se em seus braços, aninhando-se em seu pescoço. Pela primeira vez em tanto tempo, podia abraçá-lo assim, em paz, como antes.
— E se tivesse dado certo… — perguntou num fio de voz, sem esconder o tremor. — Se não fosse ectópica?
A mão dele pousou sobre sua cabeça, os dedos brincando entre os fios:
— Eu só te faria uma pergunta, — disse baixinho. — Você teria feito um aborto?
Ela abriu os olhos, olhando ao longe, para a cidade que se estendia diante deles.
— Não, — murmurou. — Era o nosso filho, Evren. Eu não conseguiria. Entraria em pânico, sim. Ficaria apavorada, sim. Mas abortar, não.
Ele sorriu. Ela também, sem perceber. De qualquer forma, ela teria escolhido a vida.
— Bahar, — ele a fez inclinar-se levemente, suas mãos segurando o rosto dela. — Eu aprenderia a ser pai todos os dias, — falou olhando em seus olhos. — A pegaria no colo sem saber trocar fraldas. Eu não sei nada disso, mas tentaria, entende? Pela primeira vez, desejei algo maior. Desejei contigo. Eu aprenderia com você o que é ser pai.
As lágrimas marejaram nos olhos dela. Agarrava-se forte a seus ombros:
— E mesmo assim eu teria medo… — confessou num soluço contido. — Tentaria ser perfeita. Me esconderia atrás de protocolos médicos, listas, horários. — De repente, abraçou-o com tanta força, como se temesse que ele a afastasse. — Quando tudo acabou… — murmurou quase inaudível, — não senti medo. Não. Só um vazio. — Olhava por sobre o ombro dele, para a cidade viva. — Porque não tivemos nem chance de nos despedir dessa possibilidade. Nunca falei sobre isso. Nem contigo. Nem comigo mesma.
— Nós dois abrimos mão da chance, — Evren a apertou ainda mais, fechando os olhos. — Não porque não quiséssemos, mas porque não sabíamos como segurar.
Ficaram em silêncio, abraçados. Nenhum queria soltar, nenhum queria fugir. Nada escondiam mais, mas também não sabiam o que viria depois.
— Sabe o que é estranho? — Bahar deslizava os dedos pelas costas dele. — Hoje, a Çağla teve uma chance. Resgatamos um blastocisto da trompa, cultivamos, transferimos para o útero… Agora é só esperar. Se o HCG subir, ela estará grávida.
— Sei que parece inacreditável, mas é possível. Você mesma fez. — Evren sorriu. — E se déssemos uma chance a nós? — perguntou com cautela. — Nós dois… você se arriscaria?
Ela ficou em silêncio, desenhando formas nas costas dele. Evren mal respirava, esperando. E só relaxou quando ouviu sua resposta.
— Só se você trocar fraldas, ajudar nas mamadas, — disse enfim, — e eu não vou fugir, mesmo que tenha medo.
Ele se inclinou, os lábios tocando sua face.
— Eu te amo, — murmurou.
— E eu te amo, — suspirou Bahar, estremecendo.
— O que foi? — ele percebeu a tensão dela de imediato.
— E o Cem? Você falou com ele? — perguntou, afastando-se um pouco apenas para olhar em seus olhos. — O que vai acontecer?
— Está tudo bem, — ele beijou sua testa. — Não se preocupe. São meus assuntos, eu resolvo.
As sobrancelhas dela se ergueram levemente, pensativa. Depois, soltou-se com cuidado de seus braços, e ele a deixou ir.
— Não faça isso, — pediu ela. — Não repita meus erros. Quantas vezes te escondi minhas preocupações, e no fim só nos afastamos. — Suspirou, apertando-lhe a mão.
Evren franziu o cenho, refletindo.
— Só não quero te arrastar para isso… — sua voz soava incerta.
— Ou estamos juntos, ou não estamos, Evren. Não existe meio-termo. — Ela soltou sua mão, virou-se e começou a se afastar.
Bahar não pressionou mais, não pediu nada. Deixou-lhe espaço para decidir. Pela primeira vez, nenhum exigia nada do outro. Pela primeira vez, apenas falavam do que queriam, do que temiam.
Evren inspirou fundo e foi atrás dela. Sem pressa, dando-lhe espaço para andar, mas sem permitir que se afastasse demais. Ela já tinha deixado a varanda e seguia pelo corredor. Por um instante, voltou o rosto. Seus olhares se encontraram através do vidro. Nos olhos dela não havia cobrança, nem súplica — apenas espera. Evren assentiu com leveza. Ela quase sorriu… e seguiu em frente.
***
…podiam seguir em frente, o relatório estava pronto.
Ahu quase voou para dentro do gabinete, apertando a pasta contra o peito como se fosse um troféu:
— Então… — exalou, sem fôlego, colocando a pasta sobre a mesa de Rengin, — a cirurgia foi oficialmente considerada satisfatória? — havia tremor em sua voz, mas também esperança. — Nós conseguimos?
Rengin não ergueu os olhos de imediato. Folheava os documentos, e o silêncio entre elas tornava-se quase palpável.
— “Satisfatória”… — disse enfim, sem levantar a cabeça. — Palavra que geralmente cobre a expectativa de fracasso. — Fechou a pasta com calma.
A esperança vacilou nos olhos de Ahu. Nenhuma reação no rosto de Rengin — e isso a deixava ainda mais nervosa. Qualquer coisa que não entendia tirava-lhe o chão.
Seus dedos tamborilavam inquietos sobre a mesa; depois levantou-se e foi até a janela. Não sabia se devia se alegrar ou se preocupar. Rengin abriu a janela e respirou fundo.
Ahu a observava em silêncio, esperando a resposta.
— Conseguimos, mas a que preço, — suspirou por fim Rengin.
— O departamento vai continuar funcionando? — Ahu decidiu perguntar. — O professor Evren vai poder operar? Temos a professora Jennifer no hospital, — lembrou Ahu, — ela pode convencê-lo a voltar para a América.
Rengin voltou-se lentamente para ela. Estranhamente, Jennifer lhe importava menos do que deveria.
— Professor Evren… — disse pensativa, franzindo o cenho. — Ele tem o departamento, tem pacientes. Não creio que vá.
Ela até teria dito a Ahu que, enquanto Evren estivesse ocupado com Bahar, e Bahar com ele, ninguém teria poder de influenciá-lo… mas não podia falar isso em voz alta.
— Ufa… — Ahu soltou o ar e se deixou cair no sofá; as pernas já não a sustentavam, como se tivesse sobrevivido a uma batalha desigual. — Achei que seria pior, — admitiu.
Rengin apenas a fitava. Ahu se encolheu sob aquele olhar e levantou-se de repente.
— O quê? — perguntou apenas com os lábios.
— Acabamos de abrir a próxima porta, — Rengin cruzou os braços.
Ahu ligou imediatamente o tablet, pronta para executar qualquer ordem que viesse, mas sem saber ainda o que esperar.
— O quê exatamente? — perguntou, impaciente. — Outro supervisor? Fiscalização? Relatórios? O quê?
— Um curador, — respondeu Rengin.
Ahu desligou o tablet, deixando os braços caírem.
— Entendi direito? — fitou-a. — Não um observador, não um conselheiro… mas alguém que vai… — hesitou, como se tivesse medo da palavra, — comandar? — completou em voz mais baixa.
— Sim. Temporariamente, — Rengin sustentou o olhar dela. — Temporariamente. — Repetiu. — Mas você sabe como é… o temporário às vezes se prolonga por muito tempo.
Os dedos de Ahu tremiam levemente. Ela calculava mentalmente as possibilidades e, resignando-se, perguntou:
— Quem é?
Rengin se calou por um instante, como se pesasse cada sílaba.
— Sert… Kaya, — disse lentamente, como se o próprio nome tivesse peso.
Ahu franziu o cenho, piscando, tentando lembrar.
— Nunca ouvi falar, — confessou.
Rengin deu de ombros:
— Talvez seja melhor assim, — desviou um pouco o olhar, mas seus dedos se crisparam no apoio da cadeira. — Pessoas assim costumam ser colocadas quando querem tirar todos do eixo.
— Um teste de resistência? — Ahu captou rápido.
Endireitou-se, encarando o vazio.
— Por “excesso de emocionalidade dos médicos” decidiram nomear um curador temporário, — Rengin voltou-se para a janela. — Oficialmente, “gestor provisório do processo clínico”. Na prática… — suspirou, — alguém que vai interferir em cada decisão nossa.
— E acha que ele… — Ahu não terminou.
— Depois de hoje, não tenho certeza de mais nada, — admitiu Rengin, aproximando-se da janela. — Tenho a sensação de que esse homem vem para cá não só para trabalhar.
Ahu captou algo a mais no tom dela — como se por trás daquele nome houvesse algo oculto, algo ainda desconhecido. Baixou a cabeça em silêncio. Morria de vontade de sair dali e investigar, mas não podia sem permissão, não podia deixar Rengin sozinha…
***
…ela não o deixava sozinho depois da cirurgia. Gülçiçek permanecia ao lado da cama do marido, velando seu sono… e, no entanto, no rosto dele repousava um leve sorriso. Ela balançou a cabeça, sentada na poltrona ao lado, e deixou escapar uma risadinha. Estava claro que ele sonhava com algo agradável.
No sonho, ele estava de uniforme — terno impecável, camisa branca, cinto, distintivo. “Inspetor Reha” estava parado no cais, fitando Gülçiçek. Nas mãos dela, um enorme chapéu, e fingia não notá-lo.
— A senhora está presa, madame, — a voz dele soava grave, um pouco rouca.
Ela se voltou para ele com afetação, fingindo espanto, ergueu as mãos, abanou o chapéu:
— Com que direito? — exclamou, num falso protesto, mas os olhos brilhavam.
— Pelo direito de que desobedeceu ao marido e ao médico ao mesmo tempo, — deu um passo em direção a ela. — Vou ter que isolá-la.
— E onde exatamente… vai me isolar? — as sobrancelhas dela se arqueavam.
— Numa ilha deserta, — sorriu Reha. — Sem testemunhas. Só você, eu… e algemas.
— Isso já é abuso de poder, — ela mal continha o riso, abanando-se com o chapéu.
— É terapia conjugal, — rebateu ele, arrancando o chapéu das mãos dela e atirando-o de lado. Depois fez estalar as algemas, fechando-as suavemente em seus pulsos.
Ele claramente sonhava com algo interessante. Gülçiçek riu baixinho, observando-o. Reha mexeu os ombros, como se fosse começar a dançar, e murmurou algo incompreensível.
— E o que é isso, professor? — sussurrou ela, acariciando a mão dele, inclinando-se sobre ele.
— Inspetor, para você sou Inspetor Reha, madame, — ele piscou e abriu os olhos.
Focalizou o olhar nela e sorriu. Sorriu de verdade, a ponto de fazer brotar lágrimas nos olhos dela.
— Um sonho, — murmurou. — Mas… — piscou de novo, — poderíamos… bem… repetir.
— Reha! — riu ela, balançando a cabeça, mas uma chama se acendeu em seu olhar. Inclinou-se ainda mais: — Quer que eu vista a camisola vermelha?
Nesse instante, a porta do quarto se abriu de leve. Bahar surgiu no batente, parando ao perceber que interrompia algo.
— Eu… é… posso? — perguntou com cuidado, sem ousar entrar.
Gülçiçek endireitou-se de imediato, arrumando os cabelos, e Reha pigarreou, assumindo uma seriedade forçada.
— Claro, entre, — disse, lançando à esposa um olhar rápido, como se prometesse realizar tudo o que acabara de sonhar.
Bahar se aproximou.
— O senhor está em ótima forma hoje, professor, — sorriu, sem notar que corava.
— Mantendo o padrão, — respondeu ele com ar inocente.
Gülçiçek não conteve uma risadinha, cobrindo a boca com a mão. Bahar, sentindo que era melhor não saber ao certo o que ele quisera dizer, preferiu não perguntar. Mas algo nela se aqueceu com aquela cena, a ponto de parecer que até os aparelhos na sala emitiam sons mais leves. Decidiu se retirar depressa, para não atrapalhar, e já saindo pensou que… talvez fosse com eles que deveria aprender a leveza.
***
…e essa leveza acabou se transmitindo a ela também. Bahar caminhava pelo corredor sorrindo. Ao dobrar a esquina, deparou-se com Jennifer. Ela estava parada diante do gabinete de Bahar, encostada de ombro na parede, fitando um ponto fixo, sem piscar.
O passo de Bahar vacilou. Não se falavam havia meses, desde o dia do casamento fracassado com Evren, e depois ele partira para a América. Toda a separação deles estava, de um modo ou de outro, ligada ao nome de Jennifer.

CAPÍTULO 5. PARTE 5

— Jennifer, — Bahar se deteve ao lado dela, já pronta para abrir a porta do próprio gabinete, mas mudou de ideia.
A americana estremeceu e a olhou. Sempre alegre, vibrante, agora parecia exausta, abatida.
— Você tem cinco minutos? — perguntou, um sorriso quase impecável surgindo em seus lábios.
Bahar tocou sua mão com cuidado. Jennifer fechou os olhos por um instante, inclinando-se levemente em sua direção, e Bahar a abraçou.
— Vamos tomar um café, — sugeriu Bahar. — Você não comeu nada, não é?
Bahar sabia: Jennifer já não conseguia esconder-se atrás do sorriso. Tentava manter a pose, mas a ansiedade e a preocupação com Alya a consumiam, drenando-lhe as forças.
— No primeiro andar tem um café, — disse Bahar, apertando o botão do elevador.
Já sentadas, quando as xícaras foram servidas, Jennifer falou primeiro:
— Queria agradecer pela cirurgia. E pela Alya, — exalou, segurando a xícara com as duas mãos. — Eu sabia que só vocês, você e o Evren, conseguiriam. — Tomou um gole, observando Bahar com atenção. — Que só o Evren aceitaria este caso. Eu entendia… dupla transplante, coração, fígado… — calou-se, baixando o olhar. — As chances de estabilidade nos primeiros dias são mínimas, — a voz lhe falhou, — mas vocês estão conseguindo.
— Isso é mérito do Evren, não meu. É a ele que deve agradecer, — Bahar sorveu um gole e fechou os olhos por um instante: desde o amanhecer sonhava com aquele café.
— Ouvi falar do que você passou: o observador, a esposa dele, a morte… — Jennifer balançou a cabeça.
Bahar abriu os olhos e fixou o olhar nela:
— Alya ficará no hospital pelo menos mais duas ou três semanas, — respondeu num tom firme, evitando qualquer detalhe que envolvesse Evren. — Agora estamos na “janela de vulnerabilidade”: imunossupressão profunda, enxertos ainda em adaptação. — Falava sem alterar a expressão. — Precisamos estabilizar a dose de manutenção, garantir ausência de sinais de rejeição — nem na ecocardiografia, nem na bioquímica, nem na sorologia. — Deu outro gole e concluiu: — Imagino que o Evren já tenha explicado isso a você.
— Sim, — assentiu ela, pousando a xícara e pegando a colher. — Só depois poderemos pensar em transferência. Transportá-la agora, mesmo para uma clínica bem equipada, é arriscado. — Mexia o café lentamente.
— Risco grande demais, — concordou Bahar. — Qualquer estresse, qualquer infecção, e a perderemos.
Jennifer prendeu o olhar em Bahar por alguns segundos.
— E como está você com o Evren? — perguntou de repente. — Fui eu quem o mandou para cá, afinal. — Pousou a colher, afastando a xícara. — Lá, na América, com ele era… impossível. Aqui é o lugar dele.
Bahar quase se sobressaltou, controlando-se com esforço.
— Não quero falar sobre isso, — respondeu firme.
Tomou outro gole, e o calor da xícara a envolveu de forma estranha — lembrando a cena de Reha e Gülçiçek minutos antes, mas logo transformando-se em algo mais denso, mais inquietante.
Jennifer permaneceu em silêncio, a cabeça levemente inclinada, observando-a com atenção excessiva — como um médico examina uma imagem em busca de um diagnóstico oculto. Nos olhos dela havia aprovação, mas também um desafio sutil, como se testasse se Bahar suportaria aquele olhar sem desviar.
Bahar não desviou, mas também nada acrescentou. Jennifer ergueu ligeiramente os cantos da boca, satisfeita com o que vira, e terminou o café.
— Pois bem… veremos, — disse baixinho, levantando-se da mesa.
***
…na mesa do canto da cozinha, Nevra estava sentada tomando chá, distraindo-se de tempos em tempos com o celular. Umay, de pé, folheava uma revista, depois a fechou e virou-se para a janela. O entardecer tingia o céu de tons alaranjados. Tirou o telefone do bolso, ligou-o, mas logo o desligou com irritação e o enfiou de volta no bolso do short.
— Mamãe não está, talvez eu devesse ir ao hospital, — pensou em voz alta. — Passo para ver a Çağla… — Umay olhou para Nevra, mas esta parecia não ouvi-la.
Estava no mesmo cômodo, mas perdida em pensamentos, atenta apenas ao celular. Umay apertou os lábios. Até a avó tinha uma vida, algo acontecendo… enquanto a dela parecia suspensa.
Já se acostumara ao silêncio de Cem… ainda esperava mensagens, mesmo sabendo que era inútil. Estava acabado, embora doesse admitir.
Andava de um lado a outro na cozinha: ajeitava o cabelo, espiava pela janela, tirava o telefone do bolso e tornava a guardá-lo.
— Talvez eu vá mesmo? Rapidinho! — repetiu pela terceira vez. — Só passo na Çağla e volto com a mamãe!
— Umay, — Nevra nem levantou os olhos do celular. Um leve sorriso surgia-lhe nos lábios enquanto os dedos corriam pela tela. — Você ouviu o que Bahar disse: Çağla não deve ser incomodada agora.
— Mas… — Umay mordeu o lábio, sentindo a irritação crescer.
— Nada de “mas”, — respondeu Nevra, fazendo mais alguns toques rápidos na tela, lendo algo e soltando um risinho, visivelmente entretida na conversa.
— Você nem está me ouvindo! — Umay parou diante dela.
— Estou sim, — arrastou Nevra, sem tirar os olhos do celular. — Até entendo. Você quer ir a um lugar onde, por enquanto, não precisa estar.
— Você viu as mensagens do Yusuf? — perguntou Parla, entrando na cozinha com o celular na mão.
— Então agora você também fala com o Yusuf pelas minhas costas?! — explodiu Umay. — Vai se meter de novo na história dos outros?
Parla baixou o celular, confusa, fitando a irmã.
— Primeiro foi o Cem, agora o Yusuf?! — Umay cerrou os punhos.
— Eu só falei com ele porque foi necessário, — retrucou Parla, recuperando-se rápido. — Eu não flertei! — declarou com firmeza.
— Ah, claro! — zombou Umay. — Eu vi vocês se abraçando na beira-mar! Se isso não é flerte, então o que é?
— Eu não corro atrás de qualquer um que me sorri, — irritou-se Parla, ligando o celular de propósito e abrindo a conversa diante de Umay.
— Meninas… — suspirou Nevra, recostando-se no sofá com o celular na mão, sorrindo para a tela. — Que barulho!
— Vovó, — Umay revirou os olhos, — está flertando? Já faz quase uma semana que você não larga o telefone. Uma avó casou, a outra começou um namoro novo e nem apresenta pra gente. — Cruzou os braços.
— E daí? — Nevra arqueou a sobrancelha, sem se distrair da tela. — Às vezes uma semana significa mais que anos. E por que eu teria que apresentar logo? Além disso, quem disse que vocês não podem conhecer gente nova também?
— Ótimo conselho, — murmurou Parla, mordendo uma maçã. — Nossa avó mandando a gente sair pra arrumar namorado… queria que nossas mães ouvissem isso.
— Vocês é que estão com inveja, — observou Nevra com um sorriso misterioso, digitando mais uma mensagem.
— Está usando óculos cor-de-rosa, vovó, — retrucou Parla, sem perder a chance.
— Dá pra ouvir vocês da rua, — comentou Siren, entrando com sacolas de compras. — O que foi agora?
— Quero ir ver a Çağla, — disparou Umay. — Mamãe deve ficar de novo no hospital à noite. Eu queria ir até lá, não aguento mais ficar aqui, está entediante!
— Como se a gente te prendesse, — resmungou Parla, terminando a maçã.
— E fazem bem, — disse Siren, entregando uma sacola a Umay, e começaram a guardar os mantimentos juntas. — Bahar volta pra casa hoje à noite.
— Tem certeza? — Umay franziu o cenho, sem se permitir criar esperança.
— Deve voltar, — assentiu Siren, lançando um olhar em direção à porta. — E as crianças? — perguntou.
— Se comportaram bem, — respondeu Parla. — Ah, e já limparam a piscina, encheram de água. — Acrescentou. — Dá pra usar.
Siren fechou a geladeira e se virou para ela:
— Vamos esperar pelo papai, — disse, pondo as mãos na cintura. — Ele está de plantão hoje.
Umay revirou os olhos — a ideia de nadar todos juntos não lhe parecia divertida, ainda que devesse ser.
— Então a mamãe volta mesmo? — insistiu, tirando o celular do bolso sem ligá-lo.
— Deve, — respondeu Siren com firmeza, lavando as mãos antes de subir as escadas, como se desse por encerrado o assunto.
Umay mordeu os lábios, entendendo que não fazia sentido ir ao hospital agora… e que não tinha coragem de incomodar Bahar.
***
Ele decidiu ver Alya antes de sair. Evren abriu a porta do quarto silenciosamente e entrou; atrás dele, Yusuf seguiu com o bloco de notas na mão, tão calado quanto.
Uraz estava sentado numa cadeira ao lado da cama de Alya, com o tablet no colo, resmungando para si mesmo:
— Tudo normal, tudo dentro dos parâmetros… mas ele vai aparecer de novo e arranjar alguma coisa pra criticar.
Nem percebeu quando Evren já se aproximava da cama.
— Temperatura? — perguntou Evren, sem cumprimentos, com os olhos fixos nos monitores.
— Trinta e seis vírgula oito, — a voz de Evren fez Uraz se sobressaltar. — Pulso 88, saturação 96. Pressão estável.
— E os exames laboratoriais? — insistiu Evren, folheando o prontuário sem olhar para ele.
— Creatinina 1,0. Ureia normal. Eletrólitos dentro dos limites, — respondeu Uraz, levantando-se. — Tudo igual há duas horas. — Mal conseguiu conter um bocejo.
— Tempo de protrombina? — a voz de Evren permaneceu calma, mas incisiva.
— Normal, — cortou Uraz, e não resistiu em completar: — Professor, tenho a sensação de que o senhor procura problemas onde não existem.
Evren afastou os olhos do monitor e o encarou:
— Uraz, — o tom baixo não escondia a firmeza. — Quando um paciente passou por um transplante duplo, eu não procuro problemas, eu os previno. — Fez uma pausa. — Enquanto ela estiver neste quarto, vou perguntar tudo o que considerar necessário!
— Mas o senhor está vendo que está estável, — resmungou Uraz, teimoso, fixando o olhar no tablet.
— Estabilidade em casos assim é apenas temporária, — retrucou Evren com dureza. — Podemos perdê-la em uma hora, se deixarmos passar uma alteração de potássio ou uma mudança no ECG. Essas coisas começam antes mesmo de aparecer na bioquímica. Se algo te “parece” — isso é problema seu. No trabalho você cumpre minhas ordens!
Ele voltou ao prontuário de Alya, correndo os olhos pelos exames.
— Potássio? — perguntou, sem encontrar o dado. Folheou as páginas.
— Estava normal, — respondeu Uraz, olhando de baixo. Estava claro que não gostava de se justificar.
— Perguntei o valor atual, — Evren ergueu os olhos para ele.
— Ainda não saiu o resultado, mas tenho certeza… — começou Uraz.
— Ter certeza é ter números! Ter resultados! — cortou Evren, firme. — Solicite imediatamente.
— Está implicando comigo, professor, não é impressão minha, — explodiu Uraz. — Estou de plantão, vou acompanhar a paciente a noite toda. Eu sei o que tenho de fazer!
Yusuf recuou para o canto do quarto, observando as costas de Evren. Não conseguia nem anotar as frases — a conversa entre eles estava carregada demais de algo pessoal.
— Não é implicância. É conferência, — a voz de Evren era inflexível. — É meu dever.
— E eu sou o responsável por ela esta noite, — retrucou Uraz, cruzando os braços. — Temos métodos diferentes.
— Temos o mesmo método, — deu um passo à frente Evren. — Salvar a vida da paciente! Não se trata do seu ou do meu ego! Muito menos de você “permitir” ou não!
— Aqui e em casa, — Uraz aproximou-se também, a voz baixa mas cortante, — são coisas diferentes.
Evren meneou a cabeça:
— Você é o médico de plantão, eu sou o médico responsável. — Olhou firme nos olhos dele. — Nem no hospital, nem na casa de Bahar, Azis Uraz, você nunca vai me impor condições. Nunca!
Uraz respirava pesado, encarando-o. O olhar de Evren permanecia sereno, firme.
— No hospital, — continuou Evren após uma pausa, — podemos decidir juntos. — Fez-lhe essa concessão. — Mas a palavra final é minha.
Uraz bufou, lançando-lhe um olhar de desprezo:
— Colocou-me de plantão hoje de propósito? — sussurrou. — Para poder ir até a nossa casa enquanto estou aqui?
— Em casa, — respondeu Evren, calmo, — quem decide é Bahar.
O silêncio caiu no quarto. Uraz fechou os punhos, frustrado porque Evren não lhe dava uma resposta clara — nem sim, nem não. Ele queria arrancar dele alguma reação, mas não conseguiu.
Evren apenas lançou-lhe mais um olhar, depois voltou ao prontuário, fazendo anotações e checando os monitores. Uraz suportava a presença dele em silêncio. Evren verificou o soro, os cabos, conferiu novamente os sinais vitais.
— Continue monitorando. Relatório de hora em hora, — disse num tom já neutro.
— Então… se eu fico de plantão hoje… quer dizer que vai para a nossa casa? — Uraz ainda arriscou.
Evren estreitou os olhos, sustentando-lhe o olhar:
— Para onde eu vou, decido eu, — respondeu calmo, mas de modo a encerrar o assunto.
Yusuf prendeu a respiração. Quando Uraz murmurou algo em protesto e recebeu uma advertência fria de Evren, o jovem interno endireitou-se, como se ele mesmo tivesse levado a lição — não apenas médica, mas também pessoal. Observou como o professor sabia impor limites e mudar de tom conforme a situação.
Quis perguntar sobre os exames de Alya, mas lembrou-se do conselho da manhã: “observe, ouça, anote”. Desta vez não escreveu nada. Apenas saiu atrás de Evren, com uma estranha sensação de cansaço… mas um cansaço bom.
***
Ela estava exausta. Bahar só percebeu isso quando saiu do quarto de Esra e fechou a porta atrás de si. O estômago se contraía em espasmos — já nem se lembrava da última vez que tinha comido. As pernas tremiam levemente de tanto esforço. Tudo o que queria era chegar em casa, tomar um banho e simplesmente se jogar na cama.
— Como está a Esra? — a voz de Serhat soou bem perto de seu ouvido, quase a fez pular de susto de tão inesperada.
— Os parâmetros estão estáveis, — Bahar levou a mão ao peito, como se assim pudesse acalmar o ritmo acelerado do coração provocado pelo susto. — Mas ainda é cedo para relaxar.
Serhat a observava com atenção:
— Tem certeza de que a conduta é a correta? — havia cautela em sua voz.
— Tenho, — Bahar deu alguns passos pelo corredor, lentamente. Ele a acompanhava, sem desviar os olhos. — Pode olhar o quanto quiser, — suspirou. — A conduta é a certa, caso contrário eu não a teria escolhido.
Ele a acompanhou até o elevador e chegou a apertar o botão.
— Sou grato a você, — disse de repente, — mesmo quando parece que só questiono.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram, mas não sorriu. Quase se apoiou na parede enquanto esperava o elevador, mas se conteve. Já tinha visitado Çagla, passado no quarto de Reha… mentalmente riscava sua lista de afazeres: concluído, concluído. Agora, podia finalmente ir para casa.
— Eu sei, — respondeu, tentando não fechar os olhos para não adormecer ali mesmo. — Você é pai, é natural. Mas precisa confiar nos médicos também, mesmo sendo médico.
— Pareço estar sempre interrogando? — insistiu Serhat, entrando com ela no elevador.
Bahar o olhou, sem entender por que ele também descia.
— Sabe que a Esra hoje sorriu? — disse de repente.
Serhat se sobressaltou; a cor sumiu de seu rosto.
— Faz tanto tempo que não vejo ela sorrir… — murmurou.
Bahar baixou os olhos por um instante, depois voltou a encará-lo:
— É um bom sinal, — admitiu. — Significa que estamos no caminho certo.
— Obrigado, — ele apertou a mão dela. — Obrigado por não desistir.
— Eu entendo, — saíram juntos do elevador. — Parece que nada vai dar certo.
— É exatamente isso que me assusta, — ele ajustou o passo ao dela.
— Então pare de nos interrogar, — pediu Bahar. — Pare de exigir parâmetros clínicos a cada minuto.
Ela parou no meio do saguão e o encarou. Ele também a fitava… e então sorriu.
— Sorriu, — sussurrou, os olhos marejados por um instante. — É você quem dá forças a ela. E não só a ela.
— Se isso é uma tentativa de transformar em assunto pessoal, vou te cortar agora mesmo, — a voz dela soou seca, o olhar duro.
— Por que tanta cautela? — ele esboçou um sorriso contido, mas endireitou os ombros, como se a resposta dela lhe aliviasse um peso.
— Todos temos um passado, Serhat. Não mexa no meu, — Bahar lançou um olhar impaciente à porta de saída. Queria tanto sair dali, entrar num táxi… — Táxi, — murmurou, tirando o celular da bolsa ao se dar conta de que ainda não havia chamado.
— Eu te levo, — ele segurou sua mão. — Não precisa de táxi.
Bahar piscou, olhando para ele. Balançou a cabeça em silêncio:
— Não tenho energia para te ouvir tanto, — confessou. — Você simplesmente não sabe calar.
— Está me dizendo que está correndo pra casa só pra dormir? — ele sorriu.
— Olha… — Bahar se virou discretamente, como se checasse se alguém os observava. E de fato viu: Ferdi espiava de trás da coluna, Ahu atrás dele apoiada em seu ombro, e mais alguns assistentes novos.
Bahar cerrou os dentes. Vigilância continua, pensou. Mas o que havia de tão interessante em vê-la conversando com Serhat no saguão?
— Sobre o quê? — ele insistiu, esperando a continuação.
— Não é sobre isso, — despistou Bahar, decidindo não mencionar Rengin. — O que Esra precisa são médicos — sem disputas, sem emoções desnecessárias.
— Quer dizer o quê? — Serhat franziu a testa. — Vai me afastar? Isso não soa nada amigável.
Bahar acabou sorrindo, balançou a cabeça, tocou-lhe a mão de leve:
— É por amizade. Fale com a Rengin, — deu um tapinha em seu ombro e caminhou em direção à saída.
Alguns passos depois, um esforço a mais, e enfim respirou aliviada ao deixar para trás aquelas paredes de hospital. Amava o trabalho, mas o cansaço pesava. Sacudiu a cabeça, piscou algumas vezes para afastar o sono e ligou a tela do celular: era hora de chamar um táxi.
— Bahar? — da sombra de uma coluna surgiu Naz. — Se vai chamar táxi, não precisa. Eu te levo, — ofereceu-se.
Bahar congelou com o celular na mão, olhando para ela sem reação.
— Eu te levo, — Naz forçou um meio sorriso. — E a gente conversa.
— Sobre o quê? — Bahar perguntou fria.
— Sobre ele. Sobre a foto, — Naz pigarreou. — Sei que tudo pareceu… errado. Evren nem quis me ouvir. — Parou, respirou fundo, depois sustentou o olhar de Bahar. — E, sim… eu não moro com ele.
— Por que veio, Naz? — Bahar guardou o celular na bolsa. Agora entendia por que Ferdi, Ahu e os outros estavam no saguão, à espreita. Já tinham visto Naz e esperavam para ver o desenrolar.
— Cem, — Naz se remexeu, desconfortável. — Eu descobri.
— Veio confirmar como eu reagi à foto, ao vídeo? — Bahar a encarou. — Quer saber se ainda tem chance? No que está apostando, Naz?
— Sei que você está cansada, eu entendo, — Naz assentiu. — Mas talvez este seja o momento certo de dizer a verdade.
Naz se calou. Bahar só ouvia a própria respiração… e um som crescente, grave: primeiro distante, depois mais próximo. O coração reagiu antes que o pensamento entendesse. O ronco do motor encheu o ar até que uma moto preta freou bruscamente diante delas.
Evren tirou o capacete. Sem desviar o olhar, veio direto em direção às duas.
— Evren? — a voz de Naz misturava surpresa e algo mais.
— Bahar? — os olhos dele encontraram apenas os dela.
— Naz? — Bahar virou ligeiramente a cabeça.
E entre eles caiu o silêncio…
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