Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 1. PARTE 1

Risos, conversas e música vinham de todos os lados, mas era como se ela não visse nem ouvisse nada — apenas ele e ela, ali, tão próximos… mas não juntos. Cada movimento dele a fazia estremecer, ela sentia sua respiração na pele, chegou até a tentar enxergar seus olhos por trás dos óculos… mas em vão: as lentes escuras escondiam com firmeza o cativeiro do seu olhar.
Evren estava ao lado, guiando-a na dança, mas nada além disso. Suas únicas palavras tinham sido — não consegui ir embora, e só. Depois, convidara-a para dançar em silêncio, e bastou um toque para que o coração dela disparasse.
Há tanto tempo não ficava tão perto dele que aquilo lhe parecia estranho,
quase antinatural — sentir sua respiração, o calor das mãos dele sobre sua
pele. Bahar não sabia por quanto tempo aguentaria. Parte dela queria
desesperadamente se encostar mais, mas ele ainda mantinha distância, e ela
sentia… e entendia. Conhecia bem a paciência de ferro dele. Lembrava que,
quando colocava algo na cabeça, era impossível fazê-lo mudar de ideia. Mas… o
que ele tinha decidido? Ela não tinha resposta. Ir embora? Ficar? Essa
incerteza tirava o chão dos pés dela, enlouquecia… e, quando a música acabou,
desapareceu também o encanto da sua proximidade, junto com o calor das mãos
dele.
Um desconforto súbito tomou conta dela, a vontade de sumir sem que ninguém
percebesse. O burburinho das vozes a irritava; queria silêncio, paz, um momento
para se recompor, respirar fundo e aceitar que não devia ter criado esperanças.
Afinal, ele estava ali apenas como convidado do lado do noivo na festa de
casamento da mãe dela. Só isso. Apenas mais um convidado — mas não o mesmo
Evren que ela conhecera, que amara, que ainda amava. E, nesses meses, aprendera
a viver sem ele e seguir em frente.
Sim, ela tinha culpa. Com um sorriso de praxe, Bahar se levantou e foi em
direção à casa, desviando dos casais que dançavam. Agradeceu, em silêncio, aos
óculos que escondiam a tristeza nos olhos. Ela sabia que ele também tinha sua
parte de culpa, mas lembrava das palavras dele — ninguém com quem estive foi
você. E o que adiantava? O quê?
Engoliu em seco. Ele tinha se envolvido com outras, enquanto ela havia
colocado a própria vida em pausa. Pressionando a mão contra o peito, entrou na
casa e parou, encostando-se ao tecido leve da cortina de tule que cobria o vão
aberto. Mordeu os lábios para não chorar com a dor que a consumia… sabia que
não havia como alcançá-lo se ele decidira que os caminhos deles não se
cruzariam mais. Precisava aceitar, aprender a vê-lo com outras e tentar não
sofrer. Adaptar-se, como tinha feito ao trabalhar no hospital perto dele, mas
sem ele. Como agora — conseguira dançar tentando não sentir nada… mas, ainda
assim, uma lágrima escapou, e ela ergueu o rosto para o teto, implorando que o
choro parasse, que não estragasse a festa da mãe.
O som de passos. Ela reconheceu de imediato. Por quê? Por que ele a seguiu,
por que a procurava, por que continuava a atormentá-la? Não estava pronta para
vê-lo, muito menos naquele momento, com os olhos marejados. Bahar estremeceu,
apertou as pálpebras e acabou pisando no tule; os pés se enroscaram. Como um
filhote cego, tentou se desvencilhar, quase caindo, até sentir o calor das mãos
dele em sua cintura. Evren a segurou, mas sem puxá-la para si — apenas para que
recuperasse o equilíbrio.
— Por quê? — escapou de seus lábios.
— Você saiu tão de repente… está tudo bem? — A voz dele a confundia, penetrava
cada fibra do seu corpo. Será que não percebia? Antigamente ele sentia tudo
nela… será que simplesmente esquecera? Apagara da memória o que eram?
Se ele conseguia, ela ainda não sabia ser indiferente estando tão perto.
Não sabia ser uma estranha. Mas conseguiria — como ele. Precisava. Era hora de
aceitar, mesmo que a alma se partisse.
— Sim. — Ela assentiu, tentando se virar, e de novo se enredou no tule fino.
— Bahar… — Evren tentava soltá-la, mas quanto mais tentava, mais se enroscavam,
até ficarem frente a frente, totalmente envoltos pelo tecido leve.
— Evren… — As mãos dela, sem querer, pousaram nos ombros dele, apenas para
manter o equilíbrio, mas ela não conseguiu afastá-las. — Você não pegou o avião
— lembrou, como se isso a atormentasse, como se precisasse entender seus
verdadeiros motivos. Por mais que tentasse se convencer do contrário, no fundo
queria saber o que ele tinha decidido.
Ele ergueu os óculos, e ela, então, tirou os seus. Separando as mãos,
afastaram-se o quanto o tecido permitia. Poderiam se libertar facilmente, mas
permaneceram ali, olhando-se, isolados do mundo do lado de fora, em seu próprio
universo, por um instante voltando a ser o Evren e a Bahar de antes.
— Não fui… Rengin pediu que eu ficasse durante a conferência — confessou ele.
As sobrancelhas dela se ergueram, e a bolha perfeita deles se desfez em
cacos. Ela desviou o olhar, sem querer mais procurar respostas na escuridão dos
olhos dele.
— E no casamento… por quê…? — Não terminou, já se arrependendo do tom
inquisidor.
— Vim porque o doutor Reha pediu — suspirou Evren.
O rosto de Bahar se acendeu de indignação.
— Rengin, professor Reha… quem mais, Evren? Quem precisa pedir para você ficar
da próxima vez? Naz? Ou outra qualquer? Quantas ainda vão ser, Evren? Quantas
vai comparar… ou tentar comparar?
Os olhos dele se estreitaram; ele deu um passo à frente, cerrando os
punhos. Bahar ergueu o queixo, tomada pela onda de ciúme. Teria prazer em
empurrá-lo, mas, em vez disso, sua mão roçou o ombro dele, como se tirasse um
grão invisível de poeira. Ele, por sua vez, tocou uma mecha solta do cabelo
dela e a prendeu atrás da orelha. Assim, de repente, a bolha desfeita voltou a
ser inteira — apenas eles dois, por um segundo, sem rachaduras.
A respiração dele se tornou pesada, o olhar queimava… já não se escondia.
— Outras?! — escapou-lhe, e o olhar desceu, a mão tocou seu pescoço, a outra
sua cintura, com naturalidade, como se lembrasse perfeitamente do corpo dela.
— Evren… — O fôlego dela falhou, os lábios entreabriram.
Ele a puxou para si, firme, possessivo, inclinando-se para absorver cada
detalhe — o rosto, os lábios, o decote — como quem não via, não tocava, não
tinha por perto havia tempo demais. O hálito quente roçou seus lábios… o beijo
estava ali, a um sopro, depois de tantos meses de distância e desencontros… os
lábios quase se encontraram…
— O avião caiu! Foi uma tragédia! — gritaram lá fora. — Papai! Timur!
Tolga!
O mundo frágil deles se reduziu a pó.
— Timur? — murmurou ela, o nome escapando entre os lábios, quase tocando os
dele.
— Timur?! — repetiu Evren, com raiva e incredulidade.
Trocaram olhares por um segundo… depois ela se mexeu, tentando sair dos
braços dele. Ele apertou mais, como se não quisesse soltá-la; ela apoiou as
mãos em seus ombros, e ele a soltou bruscamente. Ela se virou.
— Umay! Uraz! — Bahar afastou o tule e correu para fora.
Um leve sorriso passou pelos lábios de Evren, mas logo ele cerrou os
dentes, enfiou as mãos nos bolsos, alongou o pescoço e saiu. Nada mudava. Tudo
se repetia… ela sempre escolhia qualquer um, menos ele.
***
Os gritos ecoavam por todos os lados. Umay chorava nos braços de Cem,
enquanto Çağla tentava ligar para alguém. Rengin mantinha Parla apertada contra
si. Uraz, com a mão trêmula, discava um número no telefone.
— Não é verdade, mamãe, não é… o papai não pode ter morrido, mamãe — Umay se
lançou nos braços de Bahar.
— Querida, calma, ninguém anunciou nada ainda, não é certo que tenha sido o
Timur — ela se interrompeu ao abraçá-la, — que o seu pai tenha morrido. Pode
ter sido um engano, entende? Apenas um engano.
— Por que ele pegou o avião? — Umay tremia. — Ele não queria… ele não queria
ir.
— Uraz? — Bahar se virou, mas o filho balançou a cabeça e se aproximou.
Abraçou-as, e ficaram ali, os três juntos, como se, num instante, tivessem
ficado órfãos.
Siren chegou perto e pousou as mãos nos ombros do marido, encostando-se às
suas costas. Evren, com o cenho franzido, um pouco afastado, encontrou o olhar
de Rengin, e depois o fixou no rapaz alto cuja foto Bahar lhe enviara. Yusuf
também estava de lado, assim como ele, enquanto os familiares e amigos digeriam
a terrível notícia. Gülçiçek abanava o rosto de Nevra, com Doruk ajudando.
Todos tinham algo para fazer, todos agiam, e Evren sentia-se deslocado, sem
saber como se ocupar naquele momento. Nem ele mesmo sabia… o que viria a
seguir, se tudo fosse confirmado? E o que exatamente isso significaria? Estava
pronto para essa notícia? Estava pronto para a possibilidade de Timur
desaparecer da vida deles… deles? Ele franziu mais o cenho. Por que, de
repente, pensara em deles?
— Parla, querida, não chore — Rengin acariciava as costas da filha —,
precisamos confirmar tudo, meu amor. Pode ser um erro, talvez tenha havido
sobreviventes.
— Como confirmar? — soluçou Parla. — Como sobreviver, mamãe? É um avião! Ele
caiu!
— Tolga, Tolga, atende logo esse telefone, pelo amor de Deus! — a voz de Çağla
veio de algum canto. — Ele não morreu, Bahar, não morreu — ela fixou a amiga
nos olhos. — Não agora, não depois de me pedir em casamento. Ele não podia! —
declarou com firmeza. — Não podia me deixar. Não! — Ela se recusava a
acreditar.
— Evren — Reha se aproximou.
— Professor? — Evren ergueu os óculos. — O que precisa que eu faça? — Lançou um
olhar a Bahar abraçando as crianças, percebendo que ela não tinha como dar
atenção a ele naquele momento. — O que podemos fazer? — corrigiu. — Cem! —
chamou o irmão.
— Alguém precisa ir ao hospital — disse Reha, levando a mão ao peito.
— Professor… — Evren o sentou numa cadeira —, não se agite. Vamos fazer assim:
o senhor fica aqui no comando. Agora é o mais velho da família. Cem — olhou em
volta —, fica aqui, junto da Umay. Ela precisa de você agora.
— E a irmã Bahar? — hesitou Cem, chamando-a de irmã pela primeira vez em muito
tempo.
— Timur não é marido da Bahar — respondeu Evren com dureza. — Timur é o pai da
Umay. Ela precisa de você agora. Esquece o resto. Bahar precisa de ajuda!
— Evren… — Cem, de repente, o abraçou. — Ainda bem que você não estava no avião
— murmurou, tremendo. — Eu não conseguiria sem você, já não conseguiria… —
confessou.
Evren o apertou com força. Nesse momento, seu olhar cruzou o de Bahar. Ela
estava sem óculos, e o olhar dela o atravessou como uma flecha, transmitindo o
alívio por vê-lo ali, no jardim. Ele percebeu que, se pudesse, ela o abraçaria
diante de todos. Mas afastou o pensamento imediatamente. Não devia pensar
nisso, não podia. O que ele mais temia estava acontecendo: ao lado dela, ele
voltava a acreditar neles.
— Não posso perder meu pai justo agora que o encontrei — o soluço de Parla
chegou aos ouvidos dele.
— Querida, ainda não se sabe… pode ser que Timur não tenha embarcado, ou que
haja sobreviventes — tentou convencê-la Rengin.
Ele via o esforço dela. Os olhos estavam vermelhos de lágrimas contidas. Só
Bahar se mantinha firme. Ela sentou Umay e a passou para Cem, enquanto Siren
não soltava a mão de Uraz. Bahar se aproximou de Nevra.
— Bahar? — pela primeira vez, Nevra não soube o que dizer.
Ela apenas pousou a mão no ombro da mulher e a apertou.
— Mãe — sussurrou, e Gülçiçek assentiu, entendendo sem palavras.
— Eu fico com ela, não se preocupe. Cuide das crianças, querida — Gülçiçek
sentou-se ao lado de Nevra e segurou sua mão. — Você não está sozinha, Nevra,
ouviu? Somos sua família! Família, aconteça o que acontecer!
Família! A palavra bateu forte em Evren, fazendo-o se contrair. Ele nunca
se tornara parte dessa família. Bahar dava um lugar para todos: para a amante
do ex-marido e a filha dela, até para aquele rapaz, Yusuf, que tinha se
encaixado tão facilmente na vida dela. Para todos… menos para ele. Ela o
recusara. Ele ajeitou a gola da camisa, sentindo-a apertar. Precisava agir, não
podia mais ficar parado.
— Rengin — Evren se aproximou com Bahar ao lado.
— Rengin… — Bahar tocou a mão dela —, você precisa ir ao hospital. Parla,
querida… — afagou os cabelos da menina —, vamos deixar a mamãe ir, para saber
de tudo. Você fica com a gente, meu amor. Não vai ficar sozinha.
Parla se virou e abraçou Bahar com força:
— O papai não morreu, tia Bahar… não morreu, né? Ele vai voltar pra gente? —
sussurrou.
Bahar trocou olhares com Rengin e Evren. Rengin enxugou as lágrimas.
— Rengin, temos que ir — disse Evren. — Bahar tem razão. Doruk! — chamou o
jovem.
— Parla, querida, preciso falar com Çağla — disse Bahar baixo, e fez um sinal a
Yusuf. Com um único olhar, ele entendeu e se aproximou, recebendo Parla nos
braços.
Ao sair, Evren apoiava Rengin pelo braço, enquanto Doruk a amparava do
outro lado. Já no portão, ele olhou para trás. Sentia o tremor de Rengin, mas o
que mais o impressionava era a firmeza de Bahar. Ela dava instruções calmas, e
todos seguiam para dentro. Com um braço, sustentava Çağla, que continuava
repetindo que Tolga estava vivo. Com o outro, segurava a mão da filha, sem
perder de vista Parla, Uraz ou Nevra. Ela era o pilar, a chefe da família. Pela
primeira vez, Evren a via diferente — não só como mulher, médica ou mãe, mas
como a líder que sustentava tudo. E isso fazia parte dela… assim como, agora,
ele próprio tinha a sua responsabilidade, que Rengin acabou verbalizando.
— Evren… você… — ela hesitou, enquanto ele e Doruk a seguravam —, você vai
fazer isso? — murmurou.
— Eu vou ao reconhecimento — respondeu ele no mesmo tom. — Nenhum de vocês
precisa passar por isso. Eu vou sozinho.
A sombra de Timur ainda pairava sobre ele, mas, naquele instante, havia
apenas o peso de uma competição que chegara ao fim sem vencedores nem vencidos,
só com a inevitabilidade de uma tragédia iminente… ou já consumada, à espera
das consequências.
— Pode ser que ele esteja vivo — disse, ajudando-a a se sentar no carro. — Eu
dirijo — pegou a chave da mão dela…
***
Ela queria ouvir o som do motor do carro do ex-marido. Pela primeira vez em
alguns anos, ela o esperava — esperava que ele viesse. Que entrasse como
sempre, dissesse algo, cutucasse cada um com uma frase ou lhe lançasse uma
provocação. Timur. Bahar preparou chá e pegou a bandeja com as xícaras. Levou
tudo para a sala, onde todos permaneciam em silêncio. Já não havia lágrimas,
mas, sempre que o telefone tocava, todos se sobressaltavam e ficavam imóveis. O
tempo se arrastava, os segundos pareciam parar, como se o ponteiro não tivesse
pressa de avançar.
Timur. Agora, ela mal conseguia lembrar das coisas ruins. Só via, diante de
si, o sorriso dele, o olhar bondoso. Sim, haviam vivido muita coisa boa — e
essas lembranças agora passavam, cena após cena, pela sua mente. De vez em
quando, ela conferia o telefone, imaginando se não teria perdido alguma
mensagem, se talvez Evren tivesse escrito enquanto ela estava fora da sala. Mas
o aparelho permanecia mudo; apenas notificações das redes sociais se
acumulavam, e ela as apagava sem ler. Não queria responder a ninguém, não
queria falar. Eles mesmos ainda não sabiam de nada. Até os netos estavam
calados, sem exigir a atenção de sempre.
— Era melhor o papai não ter entrado naquele avião — murmurou Umay —, era
melhor… ele não queria voar! Não queria, mamãe!
Çağla, de pé junto à janela, tamborilava o pé no chão e girava no dedo o anel
que Tolga lhe dera ao pedi-la em casamento.
— Querida… — Bahar deu um passo na direção dela.
— Era melhor se o Evren tivesse estado naquele avião… e tudo ficaria melhor!
Entende?! — escapou-lhe, e Bahar congelou. — Só o Evren!
A cor desapareceu do rosto de Bahar. Ela ficou olhando para a filha, sem
saber o que responder. Depois, seu olhar passou por todos: Umay, Uraz, Çağla,
Parla, Nevra. Era como se silenciosamente concordassem com Çağla. Só Cem se
levantou de repente:
— O que você está dizendo, Umay? O Evren é meu irmão! — protestou.
Umay escondeu o rosto nas mãos, chorando:
— Não estaríamos aqui, não estaríamos esperando por notícias… nossa vida
continuaria. O papai estaria vivo! — sussurrou, entre soluços.
— Mas não à custa da vida do meu irmão! — Cem não acreditava no que ouvia.
Bahar tocou o ombro do rapaz, mas ele se afastou.
— Vocês… vocês… — ele não conseguia terminar.
— Cem — Bahar chamou, tentando encontrar o olhar de Çağla.
— Talvez fosse melhor se nenhum de vocês estivesse na nossa vida! — explodiu
ele e saiu correndo de casa.
Bahar não o deteve. Ficou olhando, perdida, para os seus. Para a sua
família. Ainda ouvia, ecoando nos ouvidos, a frase de Cem: mas não à custa da
vida do meu irmão. Olhou para Çağla, Parla, Uraz, Umay, Nevra. Será que todos
pensavam o mesmo? Bahar cambaleou. Não disse uma palavra; apenas se virou e
saiu, apoiando-se na parede. Pela primeira vez, não encontrou resposta… nem
tentou impedir Cem.
— Umay… — a voz de Gülçiçek veio de longe —, como pôde, querida?
Bahar sentou-se na cozinha, o olhar preso nos peixes nadando no aquário.
Observava-os, respirando com dificuldade, inspirando e expirando devagar. Levou
a mão ao peito, incapaz de imaginar o que sentiria se Evren tivesse estado
naquele avião. O coração perdeu o compasso. Mas… há poucas horas, ela tentava
se obrigar a viver sem ele. Sem ele não significava… sem ele neste mundo. Não.
Queria que ele estivesse vivo. Vivo! Que estivesse bem, mesmo longe dela, mas
vivo e feliz.
— Mamãe… — Umay apareceu na porta da cozinha. — Mamãe, eu não queria dizer
isso, você sabe, não sabe? — choramingou. — Mamãe?
Parla vinha logo atrás, colada a ela, tentando, como a prima, encontrar o olhar
de Bahar. Bahar fechou os olhos por um instante e estendeu o braço; as meninas
correram e se sentaram, uma de cada lado. Ela as abraçou, e elas a abraçaram de
volta.
— Eu não queria que Evren estivesse naquele avião — Çağla entrou na
cozinha. — Mas o Tolga está vivo! — repetia como um mantra. — Ele está vivo! Eu
sinto que está!
— Está vivo, querida, Tolga está vivo — Bahar concordou, de repente.
— Sim, estamos apenas esperando. Ele vai ligar… ou alguém vai ligar. Mas ele
está vivo! — Çağla cruzou os braços. — Não estamos chorando, certo? Ainda é
cedo para lágrimas! — disse, no seu tom habitual.
Bahar respirou fundo. Estranhamente, não conseguia se lembrar de mais nada
de Timur, além do sorriso e dos olhos gentis — traço que ele transmitira aos
filhos. Via isso nos olhares deles, nos sorrisos… seria só isso? Agora mesmo,
ao encarar Uraz, que entrava com Siren, era como ver o olhar de Timur. Todos,
um a um, foram para a cozinha, bastou Bahar sair da sala.
— O chá ficou na sala — comentou Bahar. — Alguém traz ou vamos todos para
lá?
E todos pararam. O tempo, outra vez, parecia suspenso…

CAPÍTULO 1. PARTE 2

Ela não podia parar nem por um minuto. Ahu seguia Rengin de perto, listando o que já tinha sido feito e o que ainda precisava de atenção. Só agora Rengin percebia plenamente o valor da ajuda de sua assistente. Era a sua mão direita perfeita — nem conseguia imaginar o que faria sem ela.
— O comitê está aguardando a sua explicação. Eles não gostaram do fato de dois médicos renomados estarem naquele avião, e também querem saber por que foi escolhida exatamente essa companhia aérea — relatou Ahu, num tom neutro.
— Você preparou o relatório? — perguntou Rengin, sem diminuir o passo.
— Sim, já está na sua mesa — Ahu, nos saltos altos, acompanhava de perto a sua chefe. — Quero avisar que o comitê será categórico, e a senhora precisa estar pronta para perguntas duras.
Rengin parou diante do elevador:
— Estamos com muitas lacunas na equipe — comentou, apertando o botão. — Há novidades? — Tentou falar num tom firme, mas a voz ainda vacilou.
Ahu baixou os olhos e balançou a cabeça:
— Nenhuma até agora. As buscas continuam. Assim que houver notícias, nos avisam. O professor Evren foi para o local do acidente.
— Ahu… — Rengin entrou no elevador — preciso ter a lista de candidatos… — parou no meio da frase.
A jovem mordeu o lábio. Sabia muito bem o que Rengin estava passando, e via como ela se mantinha firme. Ainda não havia notícias, mas, como diretora, Rengin precisava garantir o funcionamento ininterrupto do hospital. Ali salvavam vidas a cada minuto, e ela tinha de apresentar ao comitê soluções concretas. Ahu entendia isso perfeitamente.
— Os candidatos… — suspirou. — Eu já pensei nisso. Desculpe. A lista com nomes que podemos convidar já está na sua sala. Marquei quem pode entrar para o quadro fixo, mas a decisão é sua. Por enquanto, é apenas uma sugestão.
— Eles não vão me demitir — disse Rengin, avançando até as portas do elevador, que se abriram.
— A senhora tem razão. Não há motivo, ainda mais com propostas já prontas — Ahu tentava animá-la, mas nem ousava perguntar sobre Bahar, Uraz ou Siren. Tantos médicos afastados de uma vez… Quem deles conseguiria voltar ao trabalho amanhã? — A Bahar tem pacientes marcados — acrescentou, como se fosse algo natural. — Direcionei a maioria para outros médicos, mas uma paciente insiste em ser atendida apenas por ela.
Já à porta do gabinete, Rengin segurou a maçaneta. Engoliu em seco, sem coragem de encarar Ahu. Não sabia o que iria acontecer no dia seguinte… nem na próxima hora. Até agora, tudo o que tinham era a notícia do acidente, e, enquanto não se confirmasse a lista de mortos e feridos, ainda restava esperança.
— É urgente? — foi tudo o que perguntou antes de empurrar a porta.
— É uma gestante, cerca de cinco meses. Recusa-se terminantemente a ser atendida por qualquer outro médico. Quer apenas a Bahar. Disse que só confia nela, que só ela poderá salvar os bebês — explicou Ahu, fechando a porta atrás de si. — Talvez seja mesmo urgente, mas ela não deixa ninguém examiná-la.
Rengin franziu o cenho e sentou-se à mesa:
— Por que tanta insistência? — perguntou em voz baixa, pegando uma folha.
— Ela afirma que só a Bahar pode ajudá-la, que mais ninguém vai conseguir. — Ahu permaneceu ao lado da chefe.
— Gêmeos? — Rengin não levantou os olhos, percorrendo as linhas do relatório, tentando se concentrar nas frases formais.
Não podia se permitir pensar. Precisava trabalhar — era o que se exigia dela naquele momento, enquanto Bahar sustentava a família inteira. Rengin tinha de vencer a batalha no hospital, para que todos tivessem para onde voltar. Esses pensamentos eram o que a impedia de chorar, de se deixar levar pelas lembranças de Timur, de seu passado complicado, quando estiveram juntos, mas nunca realmente lado a lado. Será que agora não restaria nada? Restava sim — restava a filha deles, Parla…
***
Bahar tinha filhos, Rengin tinha a filha… e ela? Çağla estava junto à janela, olhando para a escuridão. O dia inteiro esperando notícias, mas os telefones permaneciam mudos. E, quanto mais o silêncio se prolongava, menos chances restavam. Ela podia repetir mil vezes que Tolga estava vivo, mas, a cada minuto, a fé se desfazia. A esperança a abandonava, sufocando-a dentro daquela casa. Observava Bahar e seus filhos, olhava para Parla, filha de Timur e Rengin. Todos tinham algo… e ela só tinha o anel no dedo.
Por que o destino era tão cruel? Justo agora, depois de tantos anos, ela encontrara o homem certo. Tinham sido tão felizes, mas a vida não lhes permitiu aproveitar plenamente — como se alguém lá em cima decidisse que seu papel era ser eterna sombra da amiga Bahar. Çağla balançou a cabeça: não, queria a sua própria vida, o seu homem, o seu filho. Tolga.
Ela levou a mão ao ventre. Nunca tinham conversado a fundo sobre ter filhos. Apenas comentou que as chances eram pequenas, mas existiam.
— Eu não aguento mais — murmurou. — Não aguento… — repetiu mais alto, virando-se.
— Çağla — Bahar se aproximou imediatamente.
— Não consigo ficar aqui. Já se passaram tantas horas, e eles não dizem nada! — encarou Bahar com desafio. — Por que o Evren não diz nada?! Por que ele não liga?
— Querida… — Bahar tentou abraçá-la.
— Não — ela se esquivou. — Ele tem medo de dar a notícia por telefone? — deu um passo em direção à porta.
— Çağla… — Bahar a seguiu, sem perder de vista. — Tenha calma, precisamos de paciência.
— Eu não tenho mais! — gritou quase. — Não posso esperar sem saber! Vou até lá! — e saiu correndo.
— Çağla, não faça loucura! — Bahar gritou atrás dela. — Não vão nos deixar entrar na área do acidente! Mamãe, fique com as crianças! Nevra, Reha Bey, por favor, Siren… — pediu no caminho, já saindo. — Çağla, para! — berrou, ouvindo o motor ligar.
Bahar mal conseguiu entrar no carro antes que a amiga acelerasse e saísse do portão.
— Eles vão nos deixar passar — Çağla afirmou. — Você é a ex-esposa dele, mãe dos filhos. Eu, noiva sem documentos… mas você tem o direito de saber, Bahar! — despejou num fôlego só.
— Çağla, por favor… — Bahar quis tocar-lhe a mão, mas temeu atrapalhar na direção.
— Eu não vou nos matar, se é isso que pensa! — respondeu ríspida. — Quero ser feliz! Tenho esse direito! Não vão tirá-lo de mim, não! E você também será feliz! Todos seremos! Chega! — freou tão bruscamente que os cintos apertaram no corpo, deixando marcas.
— Çağla… — Bahar soltou o ar, sentindo a dor — vamos conversar.
— Não quero! — balançou a cabeça. — Não quero e pronto!
— Respira… — Bahar insistiu, tocando-lhe a mão. — Para onde vamos? O que vamos fazer?
— Não sei. Mas precisamos fazer alguma coisa — disse baixo, encarando a frente. Assim que o sinal abriu, acelerou de novo.
Bahar se sobressaltou quando o telefone vibrou em suas mãos.
— Quem é? Que notícias? — Çağla perguntou sem olhar. — Fala, Bahar! Pra onde eu vou? — quase freou no meio da rua.
— Para o hospital — Bahar respondeu, com dificuldade.
Çağla apertou mais o volante, ligando a seta:
— Eu disse! Eu sabia que o Tolga estava vivo! — sussurrou, teimosa.
— Não corra… — Bahar levou a mão ao peito.
— E o Timur? — Çağla perguntou.
— Ainda não se sabe… — Bahar começou, mas foi cortada.
— É o Tolga! — Çağla bateu no volante. — É ele, o Evren que diga!
— Foi a Rengin que escreveu — admitiu Bahar. — O Evren está calado. Um passageiro está sendo levado para o hospital.
— Por que ele se cala nessa hora?! — Çağла explodiu. — Vai dizer que está ocupado? Com o quê? — no semáforo, olhou para a amiga. — Justifica segurar distância agora? Está falando sério?
Bahar soltou um suspiro pesado:
— E você quer mesmo que eu diga com o que o Evren está ocupado nesse momento?! — a voz dela tremeu, mas subiu de tom. — Ou acha que seria melhor que fosse eu, você ou a Rengin a ir para o… — a voz falhou, e ela se calou, sentindo outra fisgada no peito.
O coração latejava com um peso estranho. Não sabia o que responder a Çağла — nem sabia quem queria que fosse aquele passageiro: Timur, Tolga, Yıldırım ou outro qualquer.
— Desculpa — murmurou Çağла de repente. — Não queria descontar no Evren.
— Tudo bem… — Bahar respirou fundo. — Está tudo bem.
Disse em voz alta, mas sabia que não estava. Seja qual fosse o desfecho, todos olhariam para Evren — porque ele não estava naquele avião. E o fato de ele ter ficado fora tinha sido a melhor decisão para os dois. Ela não sabia o que seria deles dali em diante, mas o principal era: ele estava vivo. Nunca mais aviões. Nunca.
— Mais um quarteirão e eu vou ver o Tolga — Çağла afirmou. — Vou abraçá-lo. Não vão me impedir!
Bahar fechou os olhos. Não sabia por quem rezar, e não desejava o mal a ninguém. Melhor se ninguém tivesse embarcado naquele voo.
Ninguém as esperava no hospital. Bahar procurou Doruk com o olhar — tinha mandado mensagem, ele leu, mas não respondeu. Isso a inquietou.
— Çağла… — Bahar mal acompanhava o passo acelerado da amiga.
— Quero vê-lo! — gritou Çağла, entrando apressada.
— Çağла! — Bahar correu atrás.
— Qual andar? — Çağла martelava o botão do elevador com desespero.
— Senhora Bahar… — uma voz suave soou ao lado.
Bahar, ignorando o chamado, tentava telefonar.
— Doruk, atende, por favor… — murmurou.
— Vamos, Bahar! — Çağла já estava dentro do elevador.
— Senhora Bahar! — a voz soou muito próxima.
No instante seguinte, uma jovem surgiu à frente dela, quase derrubando-a. Segurou-lhe os braços, e o telefone de Bahar caiu no chão. Tentando se equilibrar, ela sustentou o corpo da moça grávida, impedindo a queda. Olhou, confusa, ora para ela, ora para Çağла no elevador.
— Bahar, anda logo! — Çağла batia o pé, impaciente.
— Eu sabia que você viria hoje… sabia! — sorriu a jovem, apertando-lhe mais as mãos. — Você vai salvá-los, não vai? — disse, antes que seu rosto se contraísse de dor, os olhos se revirassem e ela tombasse sobre Bahar.
Bahar a segurou firme:
— Socorro! — gritou, descendo com a jovem ao chão, sem deixá-la cair.
As portas do elevador se fecharam diante dos seus olhos, levando a amiga para cima…
***
Rengin inclinou a cabeça para trás. A conversa com a direção tinha sido muito difícil.
— Você falou muito bem — Ahu colocou um café diante dela. — Já enviei os convites; amanhã chegam os primeiros candidatos.
Rengin balançou a cabeça:
— Ainda não sabemos de nada e já estamos procurando substitutos… — murmurou, quase inaudível, tocando de leve a xícara.
— A senhora está garantindo o funcionamento ininterrupto do hospital — Ahu contornou a mesa e ficou diante dela. — Por enquanto, são apenas convites.
— As notícias demoram demais… — sussurrou Rengin. — Você entende bem o que isso significa.
— Não — Ahu acenou, recusando-se a aceitar. — O professor Evren ainda não chegou e… — não terminou, pois uma batida na porta a fez se calar e virar-se. — Ah, não… — olhou atentamente para quem entrava, tentando adivinhar a notícia. — Chegou.
— Ahu… — disse Rengin, levantando-se e tocando o peito por um instante antes de baixar a mão.
A assistente assentiu e saiu rapidamente, embora também quisesse ouvir as últimas notícias.
— E então? — Rengin se apoiou na mesa, desconfiando das próprias pernas.
— Trouxe um ferido — a voz de Evren carregava cansaço.
Rengin fechou os olhos e abaixou a cabeça, recusando-se a acreditar no pior. Continuou de pé, segurando-se à mesa.
— Não é o único? — conseguiu perguntar, temendo a questão que queria mesmo fazer.
— Estamos aguardando — Evren esfregou a têmpora, com uma expressão de dor. — Por enquanto, sem identificação — tirou o paletó e o colocou no braço.
Ela o observou. A falta de informações corroía a todos. Em casa, as crianças aguardavam notícias, e eles ali, sem saber de nada, apenas com a certeza de que a vida continuava — de qualquer jeito.
— Eu não quero esperar mais — Rengin mudou o rumo da conversa, o olhar firme. — O que você decidiu? Preciso saber! — a voz dela soou resoluta.
Evren trocou o paletó de braço, depois o jogou no sofá. Alongou os ombros:
— Você quer falar sobre isso agora? — ergueu ligeiramente as mãos, quase as colocou nos bolsos, mas desistiu, apenas arregaçando as mangas da camisa. Não estava acostumado a paletós e gravatas.
— Justamente agora! — ela não aceitou desculpas. — Fiz a você uma proposta vantajosa: ou aceita, ou recusa. Evren, você não tem mais cirurgias marcadas aqui! Não pode continuar assim.
— Posso trabalhar enquanto… — não terminou.
— Não posso deixá-lo entrar no centro cirúrgico — declarou, calma, mas categórica. — Acabou.
— Mas nesta situação… — ele não entendia a inflexibilidade.
— Pra quê? — ela saiu de trás da mesa. — “Enquanto” não serve! A vida não é provisória — ou é, ou não é — disse, firme. — Preciso montar uma equipe de médicos de excelência, preciso manter a pesquisa ativa! Tudo o que você faz nos Estados Unidos pode fazer aqui, e mais. Você terá seu próprio departamento. Pode montar sua equipe, treinar novos assistentes. Somos uma excelente base, e você pode ser parte da nossa equipe.
— Por que eu ficaria aqui? — escapou, sem conseguir conter o tom irritado.
Havia raiva e frustração na voz. Voltou dos EUA como uma estrela… atravessou o corredor sob aplausos, quase sem olhar para Bahar. E ela resistiu. Continuou trabalhando, aprendendo. Aceitou que ele tentasse seguir sem ela. Ele quase nunca falava sobre Bahar, já queria encerrar o assunto — mas Rengin não.
— Eu não sou o Tolga, Evren — ela se aproximou. — Vou perguntar direto: o que você fez para que Bahar o escolhesse? — olhou-o nos olhos. — Você a culpa por ter se levantado da mesa, mas ela não é “apenas” uma mulher, e você sabia disso! Ela é mãe, avó, tem família. Desde que se casou com Timur, nunca mais ficou sozinha; e, quando se divorciou, a responsabilidade pelos filhos aumentou ainda mais. Ela não pode se dar ao luxo de pensar só nela!
O olhar dela não o soltava, e ele permaneceu calado, deixando-a falar.
— Alguma vez você pensou no que ela vive? Pensou que qualquer decisão dela ricocheteia em todos? Ou vocês, homens, só querem massagear o ego e depois sofrer porque “não foram escolhidos”? Não escolhidos?! — quase sorriu, amarga. — Ainda vai dizer que ela não o escolheu? Desculpe — deu um passo atrás —, não sou sua terapeuta. Mas vou falar pela minha experiência: quando vocês viram as costas, sobra para a mulher toda a responsabilidade. Ela escolhe se vai ter filhos ou não, precisa trabalhar, criar as crianças, cuidar da casa… ela decide por todos.
Pegou um copo, serviu água, bebeu metade e continuou:
— Se você e Bahar vão ficar juntos ou não, é problema só de vocês — mudou de tom, súbita. — Mas quero sua resposta ainda hoje. Amanhã essa vaga será preenchida! E digo mais — quase virou de costas —, Bahar aprendeu a trabalhar sem você. Conseguiu trabalhar ao seu lado. Você a ajudou a voltar à profissão… mas ela se tornou médica sem você. Esse capítulo já passou.
— Eu não sou o Timur, não me compare a ele! — Evren disse entre dentes, e ela estremeceu ao ouvir o nome.
— Então quem é você? — perguntou, sem virar-se. — Quem é você, Evren? Só mais um médico? Existem muitos especialistas. Sim, talvez não como você, mas… — suspirou — a questão é: hoje os pacientes vêm aqui para serem atendidos por Bahar. Ela é uma boa médica, vai ser a melhor. Você e eu sabemos disso. Ela foi esposa por 25 anos, é mãe, avó. Eu sou só médica e mãe. E você, quem é? Por que ela deveria escolher você? Bahar não vai esperar anos… — encostou a testa no vidro frio, olhando a cidade iluminada. — Eu não conheço essa Bahar. E você?
Evren fechou os punhos com força, pronto para responder — mas uma batida na porta e Doruk entrou apressado. Olhou Evren por um segundo, pensou, e voltou-se para Rengin:
— Não reconheço a nossa Bahar — exclamou. — Ela decidiu operar, matar um dos bebês! Não é a Bahar que eu conheço.
— O que a Bahar vai fazer? — perguntaram Rengin e Evren ao mesmo tempo.
— Aquela paciente — Ahu surgiu à porta — de quem falei. Bahar a examinou, fez os exames e espera os resultados para operar. Veio com Çağla — explicou.
— A Bahar salvaria os dois bebês e a mãe — Doruk passou as mãos pelos cabelos, quase arrancando-os. — Ela salvaria todos. Professora, faça alguma coisa! Ela salvou os filhos de Siren e Uraz, tem que salvar esses também. Precisamos de um milagre!
— Calma, Doruk! — cortou Evren, já se virando para sair.
Queria ver a paciente, ouvir Bahar, entender por que ela tomou essa decisão. Confiava nela — talvez porque era Bahar. Já estava a caminho da porta, quando:
— Professor Evren — Rengin o deteve com o olhar —, prepare-me o relatório da última cirurgia. Precisamos trabalhar, e você precisa decidir.
— Eu sei… farei isso — respondeu, entendendo a frase não dita.
Rengin saiu com Doruk e Ahu, deixando-o sozinho. Ele ficou olhando para a porta fechada. Lá fora, a vida seguia. Lá fora, estava Bahar, estavam os pacientes, os médicos… todos juntos. E ele, apenas ao lado. Enquanto ela tomava decisões difíceis, ele só observava. E, pela primeira vez, percebeu o quanto aumentara a distância entre ele e todos os outros. Antes, essa posição isolada lhe parecia confortável. Agora, tudo nele protestava. Não queria ser só um espectador enquanto eles se tornavam uma família — e ele, apenas um visitante.

CAPÍTULO 1. PARTE 3

E agora? Ela estava parada diante do elevador, olhando para o botão. Subir? Descer? Ficar naquele andar? Bahar suspirou, mas não levantou a mão. Não tocou no botão.
— Posso ajudar? — uma voz masculina, desconhecida, rompeu o turbilhão de seus pensamentos, fazendo-a estremecer. — Desculpe, assustei você.
Ela apenas balançou a cabeça, sem encará-lo, e quase encostou a testa na parede fria, buscando acalmar a mente. Não queria falar. Bahar ainda processava a decisão que tomara: teria de dizer a uma futura mãe que um dos bebês teria de ser sacrificado para que o outro tivesse chance de viver.
— Quer um pouco de água? — a mesma voz insistiu. — Posso levá-la para tomar um ar. Isso ajuda a clarear a cabeça.
Bahar franziu a testa. Como ele sabia que ela precisava exatamente disso — um pouco de ar, para sentir novamente o chão firme, para recuperar a confiança perdida há tempos? Força, ela ainda acreditava ter; sabia que só podia contar consigo mesma. Mas… no que mais podia ter certeza? Antes, teria respondido: no Evren. Mas não agora… ele continuava fugindo — dela, deles, de si mesmo.
Antes, ela teria ido até ele, o abraçado, e tudo voltaria ao lugar. Teria sentido um novo fôlego, um impulso… Não. Precisava parar de pensar nele, ou enlouqueceria. E ele… — enfiou a mão no bolso, tirou o celular. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. Guardou de novo. Era o esperado: ele não ligara, não escrevera. E o estranho é que ela já estava acostumada a esse silêncio.
— Posso lhe fazer companhia em silêncio — a voz masculina insistiu, entrando cada vez mais em seus pensamentos.
Bahar suspirou, virou-se um pouco e apoiou o ombro na parede. O homem a imitou, encostando-se de lado, cruzando os braços no peito e fitando-a.
— Por enquanto, você não está nada silencioso — disse Bahar, arrancando um leve sorriso dele.
Olhos escuros, leves fios grisalhos nos cabelos ondulados, alto, de postura firme. Ela inspirou: o perfume dele não era doce, mas envolvente, agradável, a abraçava como um manto invisível. Ele permanecia ali como se fosse o mais natural do mundo estar parado diante dela. Algo nele inspirava confiança, embora, por um instante, nos olhos dele tivesse surgido algo difícil de definir — ou talvez fosse só impressão dela.
E então ele se calou, permitindo que ela o observasse. Era bom ter aquela pausa no meio do caos do dia: apenas ficar ali, olhando para alguém que não conhecia.
— Gosta de ficar assim, parado? — Bahar notou a leve elevação das sobrancelhas dele, o quase-sorriso contido antes de voltar a ficar sério. — Imagino que tenha um motivo para estar aqui, certo?
A leveza sumiu de seu rosto. Ele desviou o olhar, e ela percebeu um peso sobre os ombros dele, embora ele não dissesse nada. Não, não sinta pena dele, advertiu-se. Nenhum outro Timur na minha vida. Timur… Bahar suspirou, vendo, na memória, o olhar e o sorriso do marido.
— Com licença — endireitou-se e virou-se para a porta do elevador.
O homem apertou o botão. Ele fez o que ela não conseguira fazer. Bahar se enrijeceu. Sabia que tomara a decisão certa, só precisava comunicá-la à paciente. Nessas horas, era Evren quem a apoiava, entendia sem palavras… antes. Não agora.
Quando as portas se abriram, o desconhecido deu um passo à frente:
— Por favor — convidou, cedendo passagem.
Bahar engoliu em seco e entrou. Precisava ir até a paciente, com quem estava havia algumas horas. Ainda não vira Çağla. Não sabia quem havia sido trazido ao hospital, quem era o sobrevivente, se estava sozinho ou não.
— Qual é o seu veredicto? — ele voltou a falar.
Bahar o encarou, sem entender a pergunta.
— No que está pensando tanto? Pode compartilhar, se quiser — sugeriu ele.
As sobrancelhas dela se ergueram levemente. As portas se abriram, e eles saíram no corredor.
— Ficar calado não é o seu forte — comentou ela. — Aliás, quem é você? E por que deveria lhe dizer o que penso? — soltou, caminhando à frente.
Ele a seguiu, sem diminuir o passo.
— Não deveria vir atrás de mim — disse ela, olhando por cima do ombro.
— É que vou para o mesmo lado — respondeu.
— E se eu virar? — insistiu Bahar.
— Depende para onde. — O olhar dele percorria as portas e paredes.
— Diga logo o que procura — ela parou junto a uma porta.
Ele também parou, passando a mão na testa para enxugar um leve suor.
— Não cansei você, andamos devagar — observou Bahar. — Ou está passando mal? — franziu o cenho.
— Talvez queira entrar logo? — respondeu, ríspido.
— Talvez não devesse me dizer o que fazer — replicou ela, virando-se para ele, encostando-se à porta, braços cruzados. — Sabe que está num hospital e está me seguindo?
— Bahar, aqui está você! — Rengin se aproximou a passos rápidos.
Doruk e Ahu pararam logo atrás.
— Estou perto do quarto da minha paciente — disse Bahar, lançando um olhar ao homem antes de se voltar para Rengin.
— O que decidiu fazer? — perguntou Rengin.
— Fazer o quê? — interrompeu o homem.
— E o senhor é…? — Rengin virou-se para ele.
— Também quero saber — Doruk avançou, instintivamente se colocando entre eles.
— Não pretendo discutir diagnóstico no corredor, muito menos com estranhos por perto — Bahar indicou o homem com a cabeça. — Vamos para o meu consultório. Doruk, por favor, peça para trazerem os resultados dos exames; já devem estar prontos.
Com as mãos nos bolsos, Bahar ia seguir, mas o homem voltou a falar:
— Então vou com vocês — disse, apertando os lábios.
— Por que está aumentando o tom? — Doruk o encarou, erguendo o queixo para olhá-lo nos olhos.
— Segurança? — Rengin olhou para Ahu. — Chame.
— Vocês só precisam fazer o seu trabalho — ele olhou o relógio. — Quero saber qual decisão foi tomada. Quero ver os resultados dos exames — disse, encarando Bahar.
— É médico? Quem o senhor pensa que é? — irritou-se Bahar. — Percebe que está tirando o meu tempo?
— E a senhora ainda não respondeu o que pretende fazer! — agora foi ele quem se exaltou.
— Vou chamar a segurança — avisou Ahu.
— Trata todos os familiares de pacientes assim? — o homem já se controlava com dificuldade. — Já que está aqui — olhou para Bahar — apesar do acidente de avião, significa que a Esra a encontrou. Quero saber qual decisão tomou. Quero saber quando vai interromper a gravidez da minha filha!
Rengin arregalou os olhos. Já bastava o choque de ver Bahar decidir deixar apenas um dos fetos; agora o pai exigia interromper toda a gestação.
— A Esra é maior de idade? — Rengin endireitou a postura. — Então ela tem direito de tomar decisões sozinha. Se quiser ter um bebê… ou dois, será escolha dela! O senhor é pai, mas não é quem decide!
Bahar fechou os olhos; as têmporas pulsavam. Mais um pouco e a cabeça explodiria.
— Desculpe, senhor, mas a professora Rengin tem razão. Sua filha é maior de idade e decide por si — Bahar conferiu o celular de novo.
— Ela só pode decidir se não colocar a própria vida em risco! Quero ver os exames da minha filha! — exigiu. — Quem vai decidir sou eu!
— O senhor não é o médico dela… — começou Bahar.
— Mas eu sou médico! Sou o médico dela! — interrompeu. — E ela tem um problema no coração, coisa que com certeza não contou à senhora. Eu a acompanho desde que nasceu. Ela não podia engravidar, muito menos parir!
Bahar franziu o cenho. Agora entendia a palidez, a falta de ar, o suor frio da moça. Ficava claro que, além da gestação complicada, havia histórico cardíaco.
— O senhor tem razão, ela não mencionou, mas os exames mostrariam e eu faria testes complementares — Bahar não recuou.
— Eu vou ter meus filhos, pai! — a voz veio da porta. Esra, de roupa hospitalar, apoiava-se no batente. — Por que veio? Por que está fazendo escândalo? Eu disse que encontraria a doutora Bahar, e encontrei. Ela vai salvar a mim e aos meus bebês, como salvou os netos dela. Você não vai me impedir de ser mãe, não vai me tirar essa chance! — lágrimas brilhavam nos olhos. — Eles vão respirar, os dois, e vão me chamar de mamãe. E você, pai, vai ser avô! O melhor avô do mundo!
— A sua doutora Bahar não está em condições de avaliar seu estado, o marido dela estava naquele avião! — o homem deu um passo em direção à filha. Por mais imponente que fosse, seus olhos suavizaram ao vê-la.
Bahar sentiu vontade de dizer ele não é meu marido, mas se calou. Importava agora? O pai examinou a filha com o olhar, até sorriu brevemente, mas logo a sombra voltou ao rosto.
— Você é a minha menina, Esra. Não vou deixar arriscar a vida! Não vou! — disse com firmeza.
— Eu não sou a mamãe — Esra segurava o batente com uma mão, mal se mantendo em pé; com a outra, protegia o ventre.
— Por favor — Rengin interveio —, vamos todos nos acalmar e entrar no quarto. — Tornou-se muito séria. — Nada de conclusões precipitadas. Vamos analisar os resultados com cuidado, e a doutora Bahar fará tudo o que estiver ao seu alcance.
Bahar olhou para Rengin, surpresa. A sempre pragmática Rengin queria um milagre? Esse milagre em que todos pareciam acreditar… mas que ela sabia ser impossível desta vez. O que havia com todos? Compreendia Esra, mas Doruk, Ahu, até Rengin a olhavam como se pudesse criar magia com um gesto.
O olhar de Bahar se perdeu. Queria correr… correr até ele. Só ele a entenderia, não lhe cobraria um milagre. E, no entanto, ela também desejava um. Tocou o celular no bolso do jaleco. Precisava parar de buscar apoio nele. Ele estava apenas por perto, não com ela.
— Esra — voltou-se para a moça —, vamos para o quarto. Estou aguardando os resultados; não deve se agitar. — Ignorou o pai, afastando-o levemente. — Se não quiser… — hesitou —, se seu pai a fizer sofrer, pode pedir que não o deixemos entrar.
— O quê? — ouviu atrás de si.
— Também deveria ter informado sobre o seu diagnóstico — continuou Bahar, ajudando Esra a deitar-se. — O que há com seu coração?
— Pode perguntar a mim — o pai se aproximou.
Bahar lutava para manter Esra na cama. O homem, agora ao lado, tinha o rosto tomado de preocupação.
— Vai salvar meus bebês? Os dois? — a voz de Esra tremia.
O ceticismo do pai era palpável. Queria ouvir a resposta de Bahar, pronto para reagir. Não era uma discussão profissional: vidas estavam em jogo.
— Como pretende fazer isso com uma cardiopatia congênita grave? — a voz dele foi baixa, mas soou como sentença.
Bahar semicerrrou os olhos. Aquela informação mudava tudo. Precisava tomar uma decisão que definiria o destino de três vidas.
— Esra, confie em mim — disse, suave, mantendo o olhar na paciente. — E eu preciso falar com o seu pai.
— Não! — Esra agarrou-lhe a mão. — Ele vai estragar tudo!
A porta se abriu. Rengin apareceu com os resultados.
— Acho que todos devemos ir ao meu gabinete. Ahu… — Rengin olhou para a assistente.
— Certo — bastou um olhar para que Ahu se virasse e saísse pela porta.
***
— As portas não têm culpa — comentou Naz calmamente, quando Cem bateu nelas com força mais uma vez. — Por que você está aqui? Por que não está com Umay?
O rapaz murmurou algo e começou a cortar as batatas com fúria.
— Com esse humor, não devia nem encostar nos alimentos — ela limpou as mãos no pano.
— Vamos todos para a América? — Cem largou a faca sobre a mesa e se virou para ela. — Você já tem uma proposta. Posso trabalhar com você, você viu o que eu sei fazer, e o irmão do Evren tem emprego. Vamos juntos e esquecemos tudo. Esquecemos de tudo — ele enxugou o suor da testa com a manga do avental, cansado.
Naz cruzou os braços, virou-se de costas para a mesa e se apoiou nela, ligeiramente inclinada:
— Sair é fácil, mas se livrar dos pensamentos não é tão simples — suspirou.
— Entende? — Cem ergueu os braços, parando diante dela — Lá, longe, tudo vai ser mais fácil. O irmão Evren e você, vocês vão conseguir. Ele fica bem com você. Vocês vão se casar, ter filhos, filhos de vocês. Vão formar uma família. O irmão Evren quer um filho. Bahar não conseguiu, eles perderam. E ele estava tão feliz… Ele quer um filho, quer muito.
Naz empalideceu. Eles até já tinham tido um filho… ou poderiam ter tido.
— Ele ama a Bahar — sua voz soou resignada.
— E daí? — ele abriu os braços. — E depois? Ela se levantou da mesa. Ela abandonou ele no casamento! Ele não vai perdoá-la, isso não se perdoa! E eu não vou perdoar, não vou! — seus dentes se cerraram.
Naz baixou a cabeça. Ela entendia perfeitamente que tudo entre Evren e Bahar era complicado, mas também via que os sentimentos deles ainda estavam vivos. Por mais que Evren tentasse mudar de vida, Bahar o atraía como um ímã. Será que ela queria lutar contra esse sentimento? Será que queria se colocar entre os dois?
— E o que você tem a ver com isso, Cem? Por que você tem que perdoar a Bahar? Isso não é da sua conta — ela balançou a cabeça.
Cem ficou vermelho, as faces queimando:
— Ele é meu irmão! — quase gritou.
— A Bahar te fez alguma coisa ruim? — Naz o encarou de baixo para cima. — O que exatamente a Bahar te fez, Cem? Como ela te ofendeu?
O rapaz estremeceu:
— Foi o Timur — escapou de seus lábios, e ele se calou.
— Bahar não é o Timur — Naz baixou as mãos e apoiou-as na bancada. — Já se sabe alguma coisa?
Cem corou de novo:
— Sabe o que a Umay disse? Sabe? Que quem devia estar naquele avião era só o irmão Evren, no lugar deles. Entende agora? — ele lançou um olhar desafiador.
— Cem — Naz se endireitou, deu um passo até ele e o abraçou —, a Umay não queria nada de ruim, ela só está preocupada com o pai.
Ele tentou se soltar do abraço:
— E o que o irmão Evren fez para eles, para tratarem ele assim? O quê? — gritou. — Só estragam tudo, primeiro o pai dela, depois a própria irmã Bahar magoou o Evren, e agora a Umay! Não quero vê-los! Quero ir embora, por favor, Naz — ele avançou e apertou as mãos dela —, vamos todos juntos. Você, eu e o irmão.
— Cem — Naz o abraçou de novo —, não é tão simples assim.
— É simples, muito simples. Vocês é que complicam tudo — dessa vez ele se deixou abraçar. — Eu já falei com o irmão Evren sobre a Umay. Eu disse a ele, para que soubesse! Ele não vai ficar com a irmã Bahar, ele não tem mais cirurgias, nada mais o prende aqui. Nada! Vamos embora? — ele se inclinou levemente para trás e fitou os olhos dela. — Vamos começar do zero, sem a irmã Bahar e sem a Umay.
Naz suspirou, passando a mão na cabeça dele. Seu olhar se fixou na parede. Nem Evren, nem a própria Bahar, nem mesmo Cem falavam muito sobre o passado, mas agora, quando Cem, levado pela emoção, revelou um pouco, ela entendeu uma coisa: que ainda tinha uma chance…
***
— Você fala de uma chance mínima, mas você mesmo acredita nela? — o homem bateu a palma da mão na mesa.
Rengin estava sentada à sua frente — Serhat Özer, cardiologista de primeira categoria. Como não o tinha reconhecido logo? Já tinha lido seus artigos na internet mais de uma vez. Bahar estava ao lado dela, concentrada nos documentos que Ahu havia impresso e trazido.
— Acha que eu não quero salvar os filhos dela? Salvá-la? — ele se levantou de repente e começou a andar de um canto ao outro. — Quero, mas não posso arriscar a vida da minha única filha! Já perdi a mãe dela! Todos nós aqui somos médicos, sabemos que às vezes, para que um milagre aconteça, é preciso parar a tempo!
Ele parou, respirou fundo, aproximou-se da mesa, puxou a cadeira e sentou-se novamente. Bahar levantou os olhos dos documentos. Serhat estendeu a mão, e ela lhe entregou os resultados dos exames.
— Ela já tem taquicardia em repouso. O que vai acontecer no terceiro trimestre? — perguntou ele, mais calmo, como se naquele momento fosse apenas médico, e não pai.
— Hipóxia em um dos fetos, e o outro com nutrição insuficiente — constatou Bahar.
— Se não tomarmos uma decisão, vamos perder todos! Será que já não basta brincar de Deus? — Serhat não queria ouvir nenhum argumento.
— Bahar, você sempre escolheu a vida — Rengin tamborilava os dedos nervosamente na mesa.
— Salvar não significa vencer a morte — Bahar se levantou e foi até a janela. — Um bebê, uma chance, uma vida.
— Não! — Serhat se ergueu da cadeira. — Eu sou contra! Nenhum risco para minha filha. O que significa “uma vida”? Você está propondo uma cirurgia — o feto tem uma grave malformação cardíaca, agenesia renal, atraso no desenvolvimento! Quem você quer salvar?
— O segundo feto tem parâmetros normais no ultrassom, atividade cardíaca dentro da faixa, fluxo sanguíneo adequado, é absolutamente saudável, mas no momento… — Bahar não concluiu.
— Esra pode entrar em trabalho de parto prematuro devido ao estresse no organismo e à cardiopatia já existente — interrompeu Serhat. — Como pretende controlar o estado dela diante de uma possível descompensação da insuficiência cardíaca durante a operação?
— Faremos a redução seletiva com monitoramento contínuo da atividade cardíaca, com preparo e suporte prévios — Bahar se voltou para eles. — Não há alternativa: mantendo os dois fetos, o risco de morte para todos é muito maior.
Rengin ergueu a mão, pedindo silêncio:
— Vamos raciocinar com calma — pediu. — Temos duas opções viáveis: ou interromper a gravidez por completo, ou fazer a redução seletiva. A terceira opção — esperar e rezar por um milagre — não funciona, todos nós sabemos disso.
Serhat cerrou os punhos:
— Como diretor deste hospital, você precisa entender os riscos! — sua voz tremia de tensão. — O coração da minha filha já está no limite, ela não vai aguentar uma carga dupla.
Bahar aproximou-se dele:
— Eu entendo o seu medo, mas se não fizermos nada, todos vão morrer. O segundo feto está com ótimos índices. Podemos salvar uma vida saudável. Sua filha pode ser mãe, e você não tem o direito de tirar isso dela!
Rengin abriu a pasta de documentos:
— Vamos analisar o protocolo. Temos resultados da ecocardiografia, CTG de ambos os fetos, dados da dopplermetria. Tudo indica que o segundo feto é viável. Com o acompanhamento correto, há chance de levá-lo até o termo de viabilidade.
Serhat sentou-se novamente, passando a mão pelo rosto.
— E se ela não aguentar? Se o coração falhar? Não posso arriscar a vida dela.
Bahar sentou-se ao lado dele:
— Vamos elaborar um plano detalhado de acompanhamento. Monitoramento cardíaco constante, suporte hormonal, repouso absoluto. Aos primeiros sinais de agravamento, hospitalização imediata. Faremos de tudo para minimizar os riscos.
Rengin assentiu:
— Não podemos ignorar a chance de salvar ao menos uma criança.
Serhat fechou os olhos e balançou a cabeça:
— O tempo está contra nós. Quanto antes decidirmos, maiores as chances de sucesso.
Rengin juntou os documentos:
— Às vezes, para que a árvore sobreviva, é preciso cortar um galho, para salvar o tronco. É doloroso, mas a árvore viverá e, na primavera, dará novos brotos — ela quase tocou a mão dele, mas não o fez.
— Antes, eu acreditava que podia salvar todos — disse Bahar, fazendo Serhat se virar para ela. — Talvez eu até tenha tido sorte. Agora entendo que, se ao menos um bebê nascer saudável e ela viver, se tornar mãe — isso já é uma vitória. Não é um milagre — ela quase sorriu — ou talvez seja exatamente o milagre, só que de outro tipo, mais terreno, real — completou em voz mais baixa.
Serhat não respondeu. Levantou-se e andou pelo consultório.
— Você pode acompanhar pessoalmente os indicadores da sua filha — disse de repente Rengin —, já que sua filha escolheu Bahar como médica, você pode se transferir para o nosso hospital — sugeriu. — Temos vagas. Esra ficaria internada por alguns meses — acrescentou —, e o senhor poderia ficar perto dela, se entendi bem.
Serhat aproximou-se da mesa, apoiando as mãos no encosto da cadeira. Olhou ora para Bahar, ora para Rengin.
— Preciso conversar com minha filha — disse, por fim, e saiu do consultório.
Não disse nem sim, nem não. Bahar o entendia. Ele era médico e pai ao mesmo tempo, como ela, no passado, havia lutado pelos netos. Mas havia outra coisa que lhe interessava.
— Começou a contratar novos funcionários? — ela se voltou para Rengin.
— Bahar, agora não — Rengin se levantou.
Bahar estava pronta para fazer mais perguntas, mas Rengin tinha razão — não era o momento.
— Já se sabe quem é o sobrevivente? — ela decidiu perguntar.
Rengin apenas balançou a cabeça.
— Preciso ver Çagla — disse Bahar, levantando-se, arrumou a cadeira e saiu do consultório…
***
Ela já estava acostumada a percorrer aqueles corredores, depois de tantos meses praticamente morando no hospital desde a partida dele. Bahar caminhava devagar, como se cada passo lhe custasse esforço. Por que pensava cada vez mais em Evren? Não haviam se cruzado nem uma vez naquela noite, e, no entanto, houvera um momento em sua casa… se não fosse a notícia do acidente de avião, talvez eles… não. Bahar engoliu em seco.
— Professor Evren, seus documentos estão prontos — uma voz chamou seu nome, fazendo-a parar. — Só falta a sua assinatura, e pronto.
Ela ficou imóvel junto à parede, apenas o observando enquanto ainda podia. Assim, de longe, sem coragem de se aproximar, sem a chance de falar com ele sobre a cirurgia que se aproximava. Ele provavelmente já sabia do caso e poderia lhe dizer as palavras certas, aquelas que tocavam fundo e traziam calma.
Talvez, sem querer, ela ainda esperasse que ele viesse até ela, mesmo sem nutrir muita esperança — afinal, em toda a sua prática médica, aquele era o primeiro caso assim. O Evren que ela conhecia já teria vindo procurá-la, mas não o Evren que agora assinava papéis. Ela ainda não conseguia aceitar que alguém pudesse mudar tanto, ou então… será que, na verdade, nunca o conhecera de fato?
“Assinatura, e pronto.” Só agora ela entendeu o sentido daquelas palavras. Pronto. Bahar apoiou-se na parede. Ele havia feito sua escolha, tomado sua decisão. Um leve sorriso tocou seus lábios. De repente, ela quis vencer a distância de dez passos e abraçá-lo, sentir o calor dele e se deixar envolver… e depois, pronto… mas não se moveu, e ele também não.
Evren parou, cruzando o olhar com o dela. Ele não tinha novidades, caso contrário teria se aproximado. Mesmo que os dedos ardessem de vontade de tocar sua pele, mesmo com o aperto no peito e as pernas vacilando, prontas para dar um passo, ela apenas o olhava. Era estranho que tivessem perdido até a capacidade de conversar normalmente. Isso lhe era incompreensível, mas ela não queria mais se impor. Tinha feito tudo que podia. Estava pronta para ir ao encontro dele… se ele desse apenas um passo na sua direção, ela faria o resto do caminho.
— Quer que eu entregue os documentos para a professora Rengin? — perguntou a mesma moça que tinha trazido os papéis para Evren assinar.
— Eu mesmo — respondeu ele calmamente.
Bahar assentiu. Sorriu com doçura, virou-se e continuou andando. Para que ficar parada olhando para ele? Já bastava. Chega de se torturar com uma pergunta cuja resposta já tinha. E, afinal, o que ele poderia lhe dizer depois das palavras de Umay, que Cem ouvira? Antes, ela teria tentado explicar… agora, para quê? Talvez fosse até melhor que as coisas tivessem acontecido assim. Melhor assim.
Ainda assim, involuntariamente, ela diminuía o passo, esperando ouvir o som familiar de passos atrás de si, mas ele não a seguiu. E isso também era para o melhor.
— Bahar? — Çagla levantou para ela um olhar cansado.
— Querida — Bahar se sentou no banco ao lado da amiga. — Por que ainda está aqui? — abraçou-a. — Por que fica na porta desse estranho? Ou você realmente acha que é ele?
— Ele está completamente sozinho, entende? — Çagla se aninhou no ombro dela. — Sozinho. Ninguém o procura. Ninguém vem vê-lo.
Bahar apertou-a ainda mais contra si.
— Eu fiquei para que ele não ficasse sozinho — sussurrou Çagla.
— Às vezes ficamos por causa da memória — Bahar assentiu, sem discutir ou tentar convencê-la do contrário.
— E por causa da esperança — suspirou ela.
— E você, por que está aqui? — Çagla se afastou um pouco.
— Chegou uma grávida, o caso é complicado — Bahar balançou a cabeça, sem entrar em detalhes.
Ficaram em silêncio por um momento, e depois se abraçaram novamente.
— Você precisa ir até ela, não é? — murmurou Çagla.
— E você precisa ir para casa. Vai lá para nossa casa ou me espera — sugeriu Bahar, de olhos fechados.
— Não vou sair do hospital — Çagla se soltou com cuidado. — Vou ficar aqui e não vou arredar pé.
Ela já não insistia mais que Tolga estava vivo, parecia apenas precisar estar naquele hospital, no lugar onde ele trabalhara. Estar onde poderiam tê-lo levado, se o tivessem encontrado.
— Eu vou esperar — Çagla fechou os olhos e se recostou.
— Então eu também fico aqui um pouco com você — Bahar fez o mesmo, fechou os olhos e encostou-se no banco.
— Vamos ficar em silêncio? — perguntou Çagla baixinho.
Bahar apenas assentiu, sabendo que a amiga não veria o gesto, e não disse mais nada… Não percebeu quando uma lágrima deslizou por sua face — afinal, ele não tinha dado o passo. Bahar mordeu o lábio e fechou os dedos com força. Sorriu, sem abrir os olhos…
***
Seus olhos já estavam secos havia muito tempo. Ela não chorava mais, não lamentava. Com a saída de Bahar e Çagla, todos os demais pareciam ter medo de quebrar o silêncio que havia tomado conta do lugar. Sentavam-se e esperavam pacientemente por notícias. De vez em quando, Uraz ou Siren subiam para ver as crianças, e depois desciam novamente.
— Estranho… — disse ela tão baixo que Gulçicek precisou se inclinar na direção de Nevra para ouvir — eu não sou a verdadeira mãe dele, mas por que dói tanto?
Nevra olhou para Reha, enquanto Gulçicek passava o braço pelos ombros dela.
— Eu não sabia como me relacionar com ele. Ele era só um garoto — falou com certa confusão. — Primeiro, estranho… depois… — ela conteve um soluço — não o amei de imediato. Não como mãe. Mas acabei amando. Ou não tenho esse direito?
Reha lhe entregou um copo d’água e sentou-se ao outro lado.
— O amor não é um contrato — disse ele num tom suave. — Nem sempre ele começa no parto. Às vezes nasce do hábito, de um olhar, da dor… — enquanto ele falava, Nevra deu um gole. — Mas tudo isso também é real.
— Lembra quando ele ficava doente, mesmo já adulto — disse Gulçicek com doçura, lançando olhares ocasionais para Umay, Parla e Yusuf —, ele sempre corria para você, ligava, mesmo que tivessem brigado.
— E agora não sei quem devo ser — confessou Nevra. — Não sou mãe, mas dói, dói demais — apertou a mão contra o peito. — Não sei como viver com isso.
— Basta amar — Reha tirou o copo das mãos dela. — O resto, o tempo resolve.
Nevra fungou, mas conteve as lágrimas. E assim ficaram, os três no sofá, no silêncio da sala de estar, onde antes reinavam discussões, desavenças e mágoas. Quem diria que Gulçicek se tornaria seu apoio…
***
…ele tinha sido seu apoio por todos aqueles 23 anos… ou ela para ele. Serhat segurou a maçaneta da porta, mas hesitou antes de entrar no quarto da filha. Vinte e três anos atrás, não conseguiu salvar sua esposa, mãe de Esra. Ele tinha medo do parto, medo de perdê-la durante o nascimento — e perdeu. O coração dela não resistiu ao dar-lhes uma filha… e, junto com a vida, deixou também a doença.
Serhat sabia que tudo estava se repetindo. Naquela época, ele não insistiu — confiou. Agora, não confiava em ninguém, nem em si mesmo. Soltou a maçaneta e entrou.
O som das máquinas, paredes claras salpicadas por quadros coloridos. A cama, os fios, o monitor. Já tinha visto aquilo milhões de vezes, mas era apenas a segunda em que alguém tão próximo estava deitado ali.
— Eu não vou abrir mão dos meus filhos — Esra ergueu-se devagar, apoiando-se nos travesseiros.
De cabeça baixa, Serhat assentiu e sentou-se à beira da cama.
— Já perdi uma vez. Não vou suportar perder de novo — admitiu.
— Pai — ela tocou sua mão com cuidado —, nós não sabemos quanto tempo ainda tenho. Um coração doador não serve para mim, e o meu pode parar a qualquer momento.
Os ombros dele cederam. Apertou a mão dela e a levou aos lábios, tocando-a com tanta suavidade que ela sentiu a umidade de suas lágrimas.
— Salvo tantas pessoas… todos, menos você — murmurou, incapaz de conter o choro.
— É por isso que quero dar à luz. Quero que você tenha alguém por quem viver — Esra se aproximou e o abraçou. — Você nunca se casou de novo, nunca quis trazer outra mulher para casa.
— É possível amar a vida sabendo que o preço dela é a vida de outro? — ergueu os olhos marejados para ela. — Eu vejo o quanto você é forte — sussurrou —, mas quero vê-la viva, feliz.
— Mamãe morreu me dando à luz… — ela o fitava atentamente — eu a entendo tanto — lágrimas rolaram por seu rosto —, ela me escolheu em vez de mais alguns anos ao seu lado. E você — aproximou-se ainda mais, apertando-o num abraço firme —, você não me culpa pela morte dela, certo? Então não culpe os meus bebês. Deixe-os viver. Eles estão saudáveis, você não pode permitir que ninguém tire isso deles.
Um gemido escapou de seus lábios, e ele a envolveu com força, como se pudesse absorver toda a sua dor, todos os seus medos… mas não podia. Nem mesmo tinha coragem de lhe dizer que o menino não era viável, e que apenas a menina tinha uma chance — uma chance frágil, entre a vida e a morte, enquanto a própria mãe estava em estado crítico.
— A doutora Bahar ainda não veio, pai… você não deixa? Por que ela não vem? Meus bebês estão bem? — a voz de Esra tremia em seus braços.
— Ela virá em breve, é sua médica — respondeu, afastando-se levemente para segurar o rosto dela nas mãos. — Você escolheu a melhor, querida. Ela vai cuidar dos bebês, e eu, de você — sorriu através das lágrimas.
— O que quer dizer? — seus olhos se arregalaram.
— Me ofereceram um cargo aqui. Já que quer ficar internada, estarei por perto — disse ele.
— Você não vai mais tentar me dissuadir? — perguntou com cautela.
— Sempre… todos os dias, a cada instante. Mas é sua escolha. Eu vou ficar. Mas, meu Deus, como é difícil aceitá-la com o coração… — confessou.
Ele afastou os cabelos do rosto dela, secou-lhe as lágrimas sem se importar com as próprias, que continuavam caindo, e continuou:
— Se… se eu ficar sozinho… eu vou criar. Você sabe disso, eu prometo. Mas você… você não ouse me deixar — disse, apertando-a contra o peito…
***
Fazia tempo que ninguém o abraçava assim, apertando-o contra o peito. Yusuf observava como toda a família de Umay se apoiava mutuamente. Tinham-no acolhido também, convidando-o a fazer parte daquele círculo, sem deixá-lo ir. Sim, ele havia concordado, quase sem pensar, em ajudar Bahar quando ela correu atrás de Çagla. Só depois soube que Çagla era grande amiga dela. E assim, em uma só noite, conheceu quase todos — menos o professor Evren. Não chegou nem a se apresentar; Bahar não teve tempo, e depois o professor foi embora. Yusuf acabou ficando como que preso naquela sala de estar — não dava para sair, mas também era difícil permanecer.
— Acho que vou embora — disse ele, olhando para Umay.
Era mais uma tentativa de se libertar daquela casa, sem entender por que queria tanto ir… e ao mesmo tempo não queria. Gostava de observar aquela família, na qual se tornara um hóspede inesperado, mas será que podia continuar ali depois de tudo o que acontecera? Antes do acidente aéreo, Bahar tinha prometido cuidar dos estudos dele, até dissera que tinha encontrado um professor para ajudá-lo, e o professor Reha aceitara a ideia. Mas isso foi até o momento em que anunciaram a tragédia.
— Não, — Umay enxugou uma lágrima que escorria pelo rosto — não agora, não nos deixe. Mamãe vai vir atrás de você de qualquer jeito, por favor — ela se aproximou mais — não vá. Ela já tem preocupações demais.
— Justamente por isso — disse Yusuf, quase num sussurro — não quero atrapalhar.
— Você não entende — ela tocou a mão dele — mamãe vai te trazer de volta mesmo assim. É melhor esperar aqui.
— Umay tem razão — disse Parla, pousando o copo vazio na mesinha — melhor você não sair.
— Não entendo… — ele hesitou — por quê agora? — admitiu, confuso.
— Eu também não entendi o que falei — suspirou Umay. — E o Cem… — ela discou o número dele mais uma vez — não atende, não lê as mensagens.
— Ele claramente está magoado — observou Yusuf — não é nada agradável.
— Você o feriu — sussurrou Parla.
Umay se levantou de repente e ficou diante deles:
— Sim, eu disse, admito — falou baixo, gesticulando — mas não queria fazer mal nenhum, simplesmente escapou, foi o nervosismo… isso precisa mesmo ser levado tão a sério? Até mamãe entendeu. Por que ele fugiu?
— Quem, exatamente? — perguntou Siren, que se aproximava enquanto Uraz subia as escadas.
— Por que não me deixam simplesmente ser? Por que tudo é levado tão a ferro e fogo? — explodiu Umay. — É para eu passar a vida toda controlando cada palavra? Como viver assim? Viver com medo de dizer algo errado, de agir de modo diferente do que esperam? Que vida é essa, onde não se pode ser quem se é?
— Ah, Umay… — Siren a abraçou — a vida às vezes é muito difícil.
— Não — Umay se debateu, mas assentiu — sim, eu disse, admito. E sabe, estou muito zangada! — quase bateu o pé. — Aqui — ela olhou em volta pela sala — só estão os mais próximos, e? Onde está ele? Onde está o Cem? Num momento como este, ele deveria estar comigo! Isso é um capricho meu? Uma brincadeira? — ela encarou todos e continuou: — E se ele não está ao meu lado agora, neste momento… — soltou o ar bruscamente, olhou todos nos olhos e, de repente, abraçou Siren com força, como se pedisse proteção pela primeira vez — então, isso não é amor de verdade.
Siren a apertou contra si, percebendo o quanto a menina tinha amadurecido em seus braços.
— Todos nós cometemos erros — disse Siren suavemente.
— Concordo — sussurrou Umay, escondendo o rosto no ombro dela — mas não num momento como este…
***
E, ainda assim, ela encontrou um momento para sair até o terraço. Foi uma decisão consciente — já tinha ido antes, e agora, enquanto ele ainda estava em algum lugar naquele hospital, precisava aprender a estar ali, primeiro com ele por perto… e depois, sem ele. Sem querer, já começava a aceitar a decisão dele de ir embora de vez. Talvez fosse o certo — muita coisa já havia sido dita, e sobre ainda mais eles tinham permanecido em silêncio.
Bahar se aproximou da borda, encostou os pés contra a parede baixa e inclinou-se ligeiramente para a frente, apoiando as mãos no parapeito. A noite envolvia a cidade adormecida, salpicada de luzes, mas ela não as via — tinha os olhos fechados e apenas respirava.
Dessa vez, as lágrimas não caíam. Inspirar… expirar… apenas a brisa fresca acariciava seus ombros. De manhã tinha sido o casamento de sua mãe; ele aparecera, dançara com ela… e depois quase se beijaram. Então veio a notícia do acidente, e depois Esra… Bahar baixou a cabeça, sem entender como ainda estava de pé. E ainda tinha pela frente uma conversa com a paciente, e depois a preparação para a cirurgia. Sabia que a operação seria em poucos dias — primeiro precisavam estabilizar a própria Esra.
O corpo inteiro de Bahar se enrijeceu ao ouvir passos se aproximando…

CAPÍTULO 1. PARTE 4

…Mas num instante a esperança se dissipou tão rápido quanto surgira — não era ele.
Alguém se aproximou e o perfume já conhecido chegou até ela. Bahar não abriu os olhos; permaneceu como estava, apoiada com as mãos e os pés contra o parapeito, levemente inclinada.
— Acho que cheguei na hora errada — ele quebrou o silêncio primeiro.
Bahar suspirou, abriu os olhos e se virou. Olhou-o de soslaio, apoiou as costas no parapeito, cruzou os braços e fixou o olhar nas janelas do hospital.
— Se veio até aqui, é porque quis fugir das pessoas — continuou Serhat, apoiando as mãos no parapeito e contemplando a cidade iluminada.
— E o que você está fazendo aqui? — a pergunta saiu mais ríspida do que ela pretendia.
— Vim respirar um pouco, lá dentro está abafado — sua mão tocou o peito — e aqui também aperta no peito, mas não precisa me salvar — esboçou algo que lembrava um sorriso, sem olhar para ela.
Bahar soltou um leve som de deboche e quase sorriu, embora seus olhos tivessem brilhado com umidade. Ele havia traduzido com precisão o que ela mesma sentia — o coração inquieto e nenhuma saída, exceto aceitar.
— Nem vai me oferecer um copo d’água? — ele virou-se um pouco para fitá-la.
— Salvar você é o que eu não vou fazer — Bahar respondeu quase sorrindo, segurando o choro.
"Você sempre salva todo mundo?" — a frase, mesmo não dita, fez desfilar na mente dela um caleidoscópio de lembranças: o sorriso dele, a proposta na sala de cirurgia. As pernas tremeram, mas ela se manteve firme.
— Você é como um fio desencapado: é só tocar que sai faísca — observou ele.
— E você não está acostumado que médicos também se cansem? — ela mexeu levemente os ombros, tentando dissipar a tensão. — Mas não se preocupe, a cirurgia da sua filha só vai acontecer quando estabilizarmos o coração dela.
Ela fechou os olhos e ergueu o queixo, como se oferecesse o rosto à luz distante das estrelas.
— Desculpe a rispidez — disse num tom mais suave —, é que hoje foi assim… — fez uma pausa — ou talvez a vida seja assim.
— Não — ele continuou de costas para as janelas —, é você que é assim — verdadeira, sem o jaleco.
Bahar abriu os olhos na hora e até baixou a cabeça, conferindo — mas sim, estava de jaleco. Franziu o cenho e o olhou.
— Jaleco de proteção — ele explicou, sem fitá-la. — Acho que poucos te veem assim, de verdade. E você encara o medo todos os dias, mas hoje também vi… como você tem medo. Você ainda não entrou para ver Esra, o que significa que está pensando, calculando, procurando outras opções.
Os olhos de Bahar ficaram vermelhos e ela se apoiou no parapeito, quase se sentando.
— Não tenho o direito de ter medo — sussurrou.
— Por que não? — ele se surpreendeu. — Eu tenho. Coloco um soro na minha filha e tenho medo. Prescrevo um remédio, entendo tudo, mas não sei qual reação ela vai ter… e tenho medo de novo. Tenho medo que ela adormeça — hoje, por exemplo — e não acorde mais. Tenho medo há 23 anos, desde o dia em que ela respirou pela primeira vez. E também vejo que você está sozinha, mas não recua — se isso me assusta, não sei — confessou.
Bahar suspirou:
— E se essa for a minha escolha? — perguntou com calma, sentindo as pernas pararem de tremer.
— Escolha… — ele deu de ombros — foi o que eu disse para Esra: que era a escolha dela. Minha esposa tinha um coração para ela e para a filha. Agora minha filha tem um coração para três. Um coração doente, que mal suporta essa carga — e essa é a escolha dela, mas eu não aceito. Não consigo.
Bahar levantou a mão e tocou o ombro dele.
— Às vezes é muito difícil aceitar a escolha do outro. Mas, de algum jeito, é preciso, para seguir em frente. Cada um tem o direito de fazer sua escolha, tomar sua decisão… e os outros, de se conformar com isso.
— Você ainda nunca matou uma vida, certo? — perguntou ele de repente. — E também acha difícil fazer isso com o coração. Com a cabeça, já decidiu; mas o coração… não aceita.
Bahar se endireitou de repente, tirou a mão do ombro dele, mas não respondeu de imediato. A pergunta era direta demais — profissional, pessoal, dolorosa.
— Você sempre faz esse tipo de pergunta nos terraços? — quebrou o silêncio por fim.
Serhat sorriu de lado, mas não conseguiu esconder a tristeza nos olhos.
— Aqui não dá para bater a porta, ela está longe… mas dá para virar as costas e ir embora, como fazem os fortes — inclinou-se um pouco ao notar que ela começou a se virar, mas parou — ou pode tentar me empurrar daqui — apesar da seriedade do tema, tentou brincar.
Bahar soltou o ar e os olhos brilharam — dessa vez não de lágrimas, mas de um riso contido.
— Cuidado, professor — falou sem perceber que usava aquele título com outro médico pela primeira vez —, você ainda não sabe do que sou capaz.
— Já desconfio — ele assentiu com seriedade, antes de acrescentar: — Mas se você atirasse pessoas como arremessa diagnósticos, aqui teríamos um hospital com pouso vertical.
E então ela riu — de verdade: um riso um pouco rouco, breve, mas o primeiro de todo o dia.
Ele se virou para ela:
— Assim está melhor — disse com um olhar suave.
— O quê? — perguntou ela, ainda sorrindo.
— Bahar sem o jaleco… é muito interessante — comentou Serhat.
— Então… fique, professor — ela disse, olhando para as estrelas e depois voltando-se para ele.
— Só se prometer que não vai tentar me salvar — respondeu baixinho, quando ela ficou ao seu lado.
E os dois olharam para longe — ora para a cidade, ora para o céu. Olharam para lugar nenhum, para onde a solidão deixava de ecoar tão alto. Por um instante, deixaram os diagnósticos para trás, fora daquele terraço. Apenas dois seres humanos, que por um momento se permitiram — estar vivos…
***
Ela estava tão viva. Ele não conseguia acreditar no que via. Era exatamente essa Bahar por quem ele se apaixonara. Era assim que ele a conhecia. Seu único impulso era correr até o terraço e envolvê-la nos braços. Queria fazer parte daquela alegria, daquele riso. Queria estar com ela para analisar juntos aquela cirurgia — incomum à primeira vista, não inédita na medicina, mas a primeira dela — quando seria preciso interromper uma vida para salvar outra. Queria estar ao lado dela, mas limitava-se a olhar, vendo que aquele momento ela partilhava com outro homem.
Ele não o via de frente, apenas suas costas. Mas percebeu que era alto, pois Bahar parecia tão pequena ao lado dele — e aquilo lhe soava estranho, errado. Não era com outro que ela deveria estar ali. Deveria ser com ele. Ele é que devia estar ao lado dela naquele silêncio, naquele riso, naquela decisão. Era a ele que ela deveria contar sobre sua escolha, sobre como chegara a ela.
— Eu não reconheço a nossa Bahar — Doruk parou ao lado de Evren, enfiando as mãos nos bolsos. — Ela está diferente, como se tivessem trocado.
— Ela está rindo — Evren a observava, fascinado pelo sorriso triste, mas percebendo também que ela tinha conseguido relaxar.
Notava isso pela linha dos ombros, pelo jeito das mãos, pela postura, pelo modo como virava a cabeça ao olhar as estrelas.
— Justo agora? — irritou-se Doruk. — Ninguém sabe o que aconteceu com o professor Timur, depois essa cirurgia… e ela está ali, com ele, rindo?! — indignou-se.
— Quem é ele? — Evren quase enfiou as mãos nos bolsos, mas parou, apoiando uma delas na parede enquanto continuava a encarar Bahar e o desconhecido.
— O pai da nossa paciente, a grávida — explicou Doruk. — Bahar decidiu fazer a redução seletiva.
— Então é a decisão certa — respondeu Evren sem hesitar. — Significa que é o que ela sente ser o melhor.
Doruk virou-se para ele, arregalando os olhos:
— A nossa Bahar vai matar um bebê?! — lembrou.
— Doruk, você é médico. Deve avaliar o quadro todo — disse Evren com calma, sem desviar os olhos de Bahar.
Ele cerrou os dentes quando a viu tocar o ombro do desconhecido — de leve, como se fossem velhos conhecidos. Evren, mesmo agora, não compreendia totalmente o quanto tinha se afastado dela.
— Como ela pode rir agora? — Doruk encostou a testa no vidro, tentando enxergar melhor na penumbra.
— Talvez porque, se não rir, enlouqueça — respondeu Evren, entre dentes.
— Ela já estava enlouquecendo quando você não estava aqui. Praticamente morava no hospital, incapaz de sair para esse maldito terraço ou voltar para casa, onde todos a olhavam com reprovação — Doruk apontou para a porta. — Eu e Yıldırım tentamos fazê-la dormir primeiro, depois comer… — enumerava, contando nos dedos — e quando você voltou, praticamente a destruía todos os dias e não se importava! Como se não bastasse, estragou o aniversário dela e depois apareceu como convidado de honra no casamento da mãe dela! — disse com raiva contida. — E agora, quando ela finalmente ri com outro, você resolve se perguntar?!
Doruk o fitou intensamente e continuou:
— Bahar está para matar um bebê — isso é o que importa! Isso eu não entendo! Mas você… você continua sem ver e sem ouvir nada!
O rosto de Evren mudou, mas ele permaneceu em silêncio.
— Em casa, as crianças a esperam; no quarto, a paciente… e ela está no terraço, rindo! — Doruk balançou a cabeça. — A nossa Bahar sempre salva todos! Essa outra… — deu de ombros — não a conheço. Foi você que a transformou nisso e ainda por cima a defende!
Já se afastava, mas parou, olhou para Evren e disse:
— Talvez ela já tenha se conformado… — falou de forma pensativa. — Se conformado… — assentiu, examinando o rosto de Evren — aceitado. Talvez seja até melhor assim.
E, dizendo isso, foi embora, deixando Evren sozinho diante da porta para o terraço, onde Bahar e o desconhecido permaneciam. Eles já não conversavam. Apenas olhavam para longe. Ela já não o tocava. Estavam lado a lado — como um dia ele próprio estivera com ela.
Talvez ela estivesse apenas cansada. Talvez quisesse apenas silêncio…
E então um suor frio percorreu suas costas: de repente, ele percebeu que ela já não o esperava.
E essa descoberta o atingiu como um choque…
***
— Espero que a gente não acabe chocando demais o Evren — disse Naz, de pé ao lado de Cem, diante da porta do apartamento.
— Não, estamos fazendo tudo certo — respondeu Cem com um sorriso, abrindo caminho para que ela entrasse. — Vamos dizer, como combinamos, que os vizinhos de cima inundaram o seu apartamento… — ele acendeu a luz e colocou a bolsa dela no chão — ou que estão dedetizando baratas — acenou com a mão, sugerindo mais ideias — ou qualquer outro tipo de inseto, você escolhe. O importante é que nossas versões batam. Então… — esfregou as mãos, satisfeito.
Naz balançou a cabeça, olhando ao redor:
— O Evren vai perceber que estamos mentindo.
— Não — Cem deu um passo na direção dela —, primeiro: ele não tem mais cirurgias. Segundo: ele não está trabalhando no hospital. Terceiro: nada mais o prende aqui, especialmente depois do que aconteceu… e principalmente depois do que a Umay disse!
— Cem… — Naz segurou o pulso dele —, eu não seria tão categórica. Entendo que a Umay exagerou, foi pura emoção, não acho que ela realmente pense assim.
— Não importa! — Cem afastou a mão dela com um gesto e sorriu. — O que importa é que você está aqui, no quarto ao lado do do meu irmão Evren. Amanhã cedo, fazemos o café juntos, como naquele dia… até que a Bahar apareceu para atrapalhar! E não vamos deixar mais ninguém invadir o nosso mundo!
— Cem, você realmente não entende que, agora, é a Umay que precisa de você? — perguntou Naz, sentando-se no sofá.
— Pra quê? — ele insistiu, teimoso. — Pra quê, se é assim que ela pensa sobre o Evren?
— É o ressentimento falando. Talvez algum mal-entendido… mas agora que se trata do pai dela… — Naz buscava as palavras certas.
— Foi ele quem destruiu a minha carreira no teatro! — explodiu Cem. — Ele arruinou a minha estreia e me mandou preso antes do espetáculo!
Naz franziu o cenho:
— Era você no vídeo? — confirmou. — Era você desde o início!
— Foi há muito tempo, não importa — Cem afastou a questão com a mão e se jogou no sofá em frente a ela. — Foi uma besteira, mas ele não tinha o direito de arruinar a minha vida assim!
— Cem, a sua ação foi a causa; a atitude do Timur foi a consequência — Naz tentou organizar a situação. — Não estou defendendo o Timur — levantou as mãos —, de forma alguma. Mas primeiro veio o seu ato, depois a reação. É isso que estou tentando dizer.
Cem franziu o cenho, mas logo balançou a cabeça, como se afastasse até a sombra da dúvida:
— Nossa missão é ir para os Estados Unidos o quanto antes! Todos juntos!
Naz suspirou e balançou a cabeça:
— Eu entendo que você não quer falar sobre a Umay. Sei que as palavras dela te machucaram… mas será que você consegue fugir do seu próprio coração? — perguntou.
— Se o Evren conseguiu, apesar de dizer que “ninguém é a Bahar”, então eu também consigo — Cem recostou-se no sofá, satisfeito.
"Ninguém é a Bahar" — a frase perfurou Naz como um espinho. A cada conversa, ela descobria mais sobre o passado do Evren. Às vezes sentia que tinha uma chance — como agora, com a decisão de se hospedar temporariamente ali —, mas, depois de ouvir certas coisas, as dúvidas voltavam. Observava Cem com leve tensão: não entendia aquele ar leve diante da vida… ou talvez fosse só uma máscara, um fingimento. Talvez ele escondesse seus verdadeiros sentimentos atrás do sorriso e dessa vontade de fugir, por não saber lidar com eles, por não saber encarar seus erros, admiti-los e viver com esse peso.
— Vamos tomar um café — sugeriu Naz, levantando-se.
— Eu levo a sua bolsa — Cem saltou do sofá, contente por ela ter parado de fazer perguntas.
Naz sabia que quanto mais conversasse com Cem, menos confiança teria nas próprias decisões. De um lado, não estava fazendo nada de errado: Evren e Bahar não estavam mais juntos. De outro, os sentimentos deles ainda eram muito recentes… mas também havia ela, e o seu próprio direito a um futuro. Ela queria uma família, queria um filho — exatamente o que, segundo Cem, o próprio Evren também queria. Sim, ele nunca tinha dito isso diretamente, mas ela interpretara assim pelas palavras do rapaz. Se essa interpretação estava correta, não sabia.
Ela ligou a cafeteira, sentindo um certo estranhamento ao tocar nos objetos que o Evren usava. Aquilo despertou nela uma vontade maior de fazer parte da vida dele. Foi até o sofá e ajeitou uma almofada, captando de repente o perfume dele. Sorriu. Quis apertá-la contra si, como se abraçasse o próprio Evren, mas conteve o impulso. Olhou para o corredor, onde Cem tinha desaparecido, e sentiu uma forte tentação de espiar o quarto dele… será que Bahar já tinha estado ali? Esse pensamento queimou na sua mente. Causou-lhe um incômodo imediato, e ela se apressou a afastá-lo. Não podia se precipitar, ou estragaria tudo.
Precisava pensar em si mesma e no que queria — especialmente agora que Evren não se opunha. Ele não a prendia, mas também não a afastava — apenas deixava as coisas fluírem. E juntos, eles estavam bem. Era nisso que ela devia se apoiar… e não na pergunta se Bahar já tinha estado ali ou não.
***
Não, ela não podia mais adiar a conversa com Esra. Depois de revisar atentamente os documentos mais uma vez, Bahar foi direto ao quarto da filha de Serhat. Após o encontro no terraço, ela havia voltado ao próprio consultório, enquanto ele retornara para junto da filha. Ele não lhe fizera perguntas, mantendo bem claras as fronteiras entre o papel de pai da paciente, o de médico e o de simples conhecido. Havia muito tempo Bahar não sentia tamanha leveza ao falar com um homem, simplesmente permitindo-se ser quem era — sem atuar, sem esconder seus medos, sua dor, sua ansiedade.
Ao entrar no quarto, aproximou-se da cama. Serhat captou seu olhar e se levantou da poltrona. Foi para o outro lado e segurou a mão da filha.
— O que está acontecendo comigo? — Esra se sentou, apertando as mãos sobre o ventre.
— Recebemos os resultados do rastreamento e do ultrassom — Bahar falou com voz calma e uniforme, sem tirar os olhos dela. — Um dos fetos — o menino — apresenta patologias graves.
Os olhos de Esra se encheram de lágrimas:
— Um filho, pai… eu tenho um filho — foi a primeira vez que soube o sexo, e nem chegou a compreender de imediato o sentido do que Bahar dissera.
Olhou para Serhat, que continuava segurando sua mão.
— Esra… — Bahar se aproximou — ele tem uma cardiopatia congênita grave e malformações renais. Mesmo que chegue ao parto, as chances de sobrevivência fora do útero são mínimas.
— Mesmo? — o olhar de Esra ia de Serhat para Bahar. — Pai, diz que vai ficar tudo bem com o meu bebê. Pai, salva os meus filhos! — não gritava, mas a voz trêmula era suficiente para arrancar lágrimas dos olhos de Serhat e apertar a garganta de Bahar. — Mesmo? Então existe uma chance? — virou-se para Bahar. — Existe!
— Teoricamente, sim. Mas, na prática, não. Ele precisaria de cirurgia imediata, longa reanimação… e tudo isso enquanto o outro feto — a menina — está saudável, mas sofrendo com a falta de recursos.
— Uma filha? — Esra voltou-se para Serhat. — Pai… um filho e uma filha… — lágrimas escorreram. — Eu vou ter um filho e uma filha.
— Calma, querida, não se precipite… — ele pigarreou.
— Precisamos tomar uma decisão — prosseguiu Bahar. — Se tentarmos manter os dois, há risco de perder os bebês e você, Esra. Ninguém sobreviverá. Se retirarmos o feto com patologias, daremos uma chance ao outro.
— Você quer matar o meu filho? — Esra murmurou, quase inaudível. — O meu bebê vivo? — puxou a mão, livrando-se do toque de Bahar.
— Analisei os dados por muito tempo — Bahar manteve o tom estável. — Considerando o estado do seu sistema cardiovascular, você já está em zona de descompensação. É uma gestação gemelar dicoriônica, mas mesmo assim a sobrecarga ao coração aumentará de forma exponencial.
— O que isso quer dizer? — Esra ficou tão pálida que parecia prestes a desmaiar. — O que… vai acontecer comigo?
Serhat imediatamente olhou para os monitores; seus dedos buscaram o pulso da filha. Não lhe bastava a leitura das máquinas — precisava sentir, ele mesmo, o coração dela batendo.
— Quer dizer que, se a gestação seguir completa, a probabilidade de um desfecho fatal para todos é muito alta. Estou falando não só como médica, mas como mãe — Bahar voltou a tocar a mão dela, e Esra permitiu. — Estamos lutando por uma vida. Recomendo a redução seletiva. Isso dará uma chance ao seu coração de aguentar. E dará a um bebê a chance de nascer vivo.
— Então eu vou ter um filho? — Esra piscou, tentando assimilar. — Pelo menos um? Uma menina, você disse? E o menino… meu filho… — mordeu o lábio, impedindo-se de chorar.
— Sim — Bahar assentiu. — E você terá a chance de ser mãe, de estar presente.
Serhat acariciou o cabelo da filha:
— Querida, eu sei como isso soa, como se tivesse de escolher entre um filho e uma filha. Não é assim — fez com que ela o olhasse. — Eu perdi a sua mãe, mas daria tudo para, naquele momento, ter alguém como Bahar ao nosso lado. Agora temos a chance de não perder nem você, nem o bebê.
— Como vou viver com isso depois? — perguntou ela.
Serhat suspirou, e então Esra assentiu:
— Está bem… — lágrimas rolavam — está bem, façam como acharem melhor. Eu confio em vocês. Eu escolhi você, e o papai está aqui, ele confia em você. Sei que outros teriam interrompido a gravidez inteira, sem me dar nenhuma chance.
— Esra… — Serhat ficou pálido — você sabia da patologia?
— Eu só queria um milagre, pai — confessou. — Um milagre que só a Bahar poderia fazer.
Bahar levou a mão ao peito, mas logo a abaixou. Por que todos esperavam milagres dela? Não estavam vivendo num conto de fadas… era a vida real.
— Querida, ela vai realizar — disse Serhat. — Vai te dar a chance de ser mãe e conhecer sua filha. E eu vou estar aqui. Amanhã começo a trabalhar aqui mesmo, então vou te vigiar 24 horas por dia, querida — ele se inclinou e beijou-lhe a testa. — Nós vamos conseguir. Juntos, como sempre conseguimos. Eu não quero te perder, entende? — segurou o rosto dela nas mãos, olhando-a nos olhos. — Estou pronto para criar seu filho. Aceito tudo. Mas não vou suportar se você…
As lágrimas de Bahar vieram. Era a primeira vez que testemunhava uma demonstração tão intensa de amor paterno. Conhecia pouco Serhat, mas entendia algo com clareza: o vínculo entre os dois era fortíssimo. Ele colocava tudo aos pés da filha. Até transferiu-se para o hospital onde ela estava, exercendo ao mesmo tempo o papel de médico e de pai.
Bahar virou-se silenciosamente e saiu do quarto. Sua parte naquele dia estava feita. À frente havia uma cirurgia difícil, no dia seguinte ou no outro — dependendo dos exames. Agora, precisava ir para casa, para junto dos próprios filhos, e enfrentar com eles o que a vida lhes reservava.
Ao verificar o celular, parou subitamente: “Eu sei que você fez tudo certo. Você é médica por dom de Deus. Você é o milagre, Bahar!”
Ela cambaleou. Olhou ao redor e apoiou-se na parede. Pela primeira vez em seis meses, ele lhe havia escrito. Suas mãos começaram a tremer. A tela apagou. Tentou religar o aparelho, mas não conseguiu… e quase deixou o telefone cair.

CAPÍTULO 1. PARTE 5

Evren sabia de tudo, e entendeu a decisão dela sem sequer perguntar, aceitando-a sem reservas. Ela olhava ao redor, incapaz de esconder o desejo agudo de vê-lo. Bastou uma única mensagem dele para que voltasse a sentir a necessidade da sua presença. Por quê? Por que ele fazia isso, se já tinha tomado uma decisão? Ela não o compreendia, mas ele tinha esse jeito: desaparecia, e depois surgia no momento mais crítico. E agora — uma única mensagem, e ela não conseguia respirar.
E, ainda assim, respirou. Bahar endireitou-se e seguiu em frente, mas as pernas não obedeciam. O corpo se movia, mas o coração parecia ter ficado exatamente no lugar onde ela abrira a mensagem dele.
Passou na sala de Çağla e tentou convencê-la a ir junto, mas ela recusou-se terminantemente. Primeiro, Bahar sentou-se ao lado dela, mas Çağla insistiu para que fosse ver as crianças. Não permitiria que ela tivesse que escolher entre ela e as crianças. E Bahar concordou. Levantou-se novamente e foi embora sem olhar para trás, por vezes levando a mão ao peito, já acostumando-se àquela sensação apertada.
Ela pensou em passar na sala de Rengin, mas, ao ouvir a voz de Evren assim que entreabriu a porta, fechou-a devagar, virou-se e foi embora. Já não tinha forças. Não queria pensar em nada. Precisava ir para casa, para os filhos, para os netos…
***
— Ela já deveria estar em casa com os filhos e netos, e ainda está aqui! — Evren estava parado junto à mesa de Rengin. — Espero que você não a deixe operar hoje — disse ele, largando alguns documentos sobre a mesa. — Ela está no limite! Assim como você — acrescentou.
Rengin fechou os olhos por um instante e esfregou a têmpora, revelando o cansaço. Silenciosa, pegou a pasta e começou a folheá-la enquanto Evren andava pela sala.
— Você não está pronto para perdê-la, está? — perguntou, sem tirar os olhos dos documentos. — Pode bancar o super-herói, mas tem medo que ela não escolha mais você, e mesmo assim não faz nada. E Bahar não vai fazer mais nada.
Rengin fechou a pasta e recostou-se na cadeira. Evren se sobressaltou e virou-se para ela:
— O que você quer dizer? — não entendeu ele.
— Quero dizer que vocês dois erraram, mas Bahar admite isso, e você? — ela insistiu.
— É assim que você lida com o estresse? — Evren alongou o pescoço. — Atacando a mim? Vai lá, compare-me com Timur também.
Rengin empalideceu:
— Você não é ele — balançou a cabeça. — Não é, mas também não é melhor — observou. — Pode se esconder atrás de palavras bonitas — levantou-se —, mas veja, você mesmo trouxe os documentos, podia ter deixado. Você está procurando um jeito de ficar, porque sabe que ela ainda está aqui.
— Estou aqui porque sabemos o motivo — lembrou ele.
— Às vezes você é insuportável — Rengin enfim admitiu seu temperamento difícil. — O que decidiu, Evren? Estou contratando novos funcionários, me autorizaram a iniciar pesquisas, continuamos como centro de formação… — enumerou —, então, se for embora agora, não terá tempo nem de se despedir. Ela está mudando. E em algum momento você vai ser passado para ela.
— Não é você quem tem que me dizer isso — sua voz subiu, mais dura.
— E quem então? Bahar? Ela não vai dizer mais nada! Não te pergunta mais se vai embora ou se fica. Ela segue vivendo. E você? O que decidiu? — Rengin foi até a janela. — Não peço que responda agora — fixou o olhar na cidade noturna —. Quando decidir, diga-me pessoalmente.
Evren cerrou os punhos. Ele detestava ser encurralado, mas era exatamente assim que se sentia agora. E ninguém o estava encurralando — ele próprio se colocara nessa situação, da qual era difícil sair. Entendia tudo o que Rengin dizia, entendia e aceitava, mas nada respondia; por dentro, porém, fervia.
Estava com raiva, pronto para quebrar alguma coisa ou bater em alguém… mas o paradoxo era que, além de si mesmo, não tinha a quem culpar. Era ele o responsável pelo que estava acontecendo.
Com irritação, puxou o telefone e atendeu automaticamente:
— Estou ouvindo — apenas uma frase curta, sem nem olhar quem ligava.
Rengin, assim que o ouviu atender, virou-se na hora para ele. Observava atentamente como seu rosto mudava de expressão.
— Sim… entendi, vou — respondeu ele, breve, contido, a voz abafada; só a respiração pesada denunciava sua luta interior.
— São eles? — Rengin segurou o encosto da cadeira.
Evren deu um passo até ela e a ajudou a sentar.
— Sim — entregou-lhe um copo d’água.
— Então vá — ela levou o copo aos lábios com a mão trêmula, — e depois… — os olhos se encheram de lágrimas — volte… se decidir.
Evren apertou a mão dela por um instante. Olhou para a porta, atrás da qual talvez estivesse Bahar… ou talvez ela já tivesse ido. E se fosse tarde demais? Virou-se e saiu.
Ele não disse se tinha decidido ir embora ou ficar. Rengin ficou sozinha em seu escritório, ouvindo o próprio coração bater nos ouvidos. Sabia perfeitamente que agora tudo mudaria. Que nunca mais seria como antes. Embora já nem soubesse direito como era esse “antes”...
***
…foi assim no passado. Bahar entrou no pátio e ficou olhando para a casa. Imaginou Umay olhando pela janela, Parla talvez segurando uma xícara, mas sem beber. Uraz, com o olhar preso no notebook, embalando Leyla nos braços. Siren trocando a roupa de Mert. Gülçiçek conversando baixinho com Reha no sofá da sala. E Nevra parada no meio da sala, com o telefone na mão.
Foi assim que deixou a família — mas agora tudo era diferente. Na sala estava também Yusuf, e todos olhavam para ela, esperando notícias. Bahar pousou o telefone na mesinha com um gesto cansado e abraçou a filha, o filho, Siren, depois Parla. Aproximou-se de Nevra, apertou-lhe a mão e encostou-se de leve ao ombro dela, antes de se deixar envolver pelo abraço seguro da mãe de Gülçiçek. Todos permaneceram em silêncio, compreendendo. Em seguida, pediu a todos que fossem descansar, apesar da falta de novidades.
Bahar certificou-se pessoalmente de que havia lugar para todos. Até deixou Yusuf na sala, sem permitir que fosse embora.
— Agora você está com a gente, entende? — disse simplesmente. — Não, não estou te prendendo, mas peço que confie em mim — pediu. — Você vai estudar. Vai se tornar médico! Nunca é tarde. E tem espaço para todos!
Yusuf baixou a cabeça. Não conseguia entender como alguém podia simplesmente entrar numa família e permanecer nela, ainda mais num momento tão difícil.
— E se… — começou ele.
— Sem “e se” — cortou Bahar, entregando-lhe roupa de cama. — Arrume você mesmo, por favor — pediu com voz cansada.
— Vocês já têm preocupações demais — escapou dos lábios de Yusuf.
Bahar virou-se para ele e sorriu:
— E se você tivesse chegado exatamente na hora certa? — perguntou. — Ninguém sabe, então não vejo sentido em recusar. Aqui, você terá quem cuide de você. O professor Reha, Siren, Uraz, eu.
— Você disse que o professor Evren seria meu mestre — lembrou Yusuf. — Eu tenho interesse em doação de órgãos. Mamãe… — não terminou.
Bahar suspirou:
— O professor Evren provavelmente não poderá, ele vai embora — conseguiu dizer em voz alta pela primeira vez —, mas há muitos médicos no hospital — ela sorriu, subindo o primeiro degrau —, por exemplo, amanhã começa um novo médico, o cardiologista Serhat Özer.
— Quem? — Yusuf empalideceu e apertou o cobertor contra o peito.
— Você não se interessa por cardiologia? — Bahar subiu mais alguns degraus e parou. — Uma paciente chegou hoje, tem cardiopatia congênita e está grávida. Antes de tudo, são vidas humanas — observou —, mas também casos interessantes, incomuns, que despertam curiosidade para pesquisa.
Yusuf engoliu em seco:
— Então meu mestre não será Evren Yalçın? — perguntou.
Bahar suspirou e sentou-se no próprio degrau, já sem quase nenhuma força:
— Eu te apresentei Evren como um médico genial, e é verdade — assentiu —, ele é um ótimo médico, mas há muitos outros bons médicos. Vamos começar com algo, você verá o programa, e a doação de órgãos sempre pode voltar à pauta — concluiu cansada, levantando-se com esforço. — Yusuf, por favor, não me force a ter que te trazer de volta sempre, porque eu não vou desistir de você, lembre-se disso. Por enquanto, durma aqui, depois decidimos qual será seu quarto.
As pernas quase não a obedeciam. Segurando-se no corrimão, subiu devagar, sentindo o olhar de Yusuf nas costas. Poderia conversar mais com ele, mas não hoje. Queria apenas tomar um banho e deitar na cama. Entrou no quarto, fechou a porta e começou a tirar a roupa. No chuveiro, deixou que a água morna escorresse pelo rosto, tentando lavar o cansaço do dia.
Permitiu que a água percorresse o corpo, observando debaixo dos cílios os filetes que deslizavam pela pele… se ao menos fosse tão fácil lavar também os pensamentos tristes. Tudo aquilo que gerava incompreensão.
Teimosamente afastava as lembranças daquele mesmo banho, quando as mãos dele queimavam sua pele… fazia tanto tempo que quase se perdia na memória… quase. Ela lembrava de tudo. Bahar desligou a água e se enrolou na toalha. Olhou-se no espelho e viu, na mente, ele a abraçando por trás, os lábios tocando sua pele.
Sua mão tocou o pescoço, exatamente onde ele gostava de beijá-la, sabendo que ela gostava. Bahar sorriu, percebendo que já não havia tristeza. Apenas aceitação. Secou-se, pendurou a toalha no encosto da cadeira, vestiu o roupão. Por algum motivo, deu-lhe vontade de tomar um café e respirar um pouco de ar fresco. Aproximou-se da janela e afastou a cortina. A casa já dormia, mas ela continuava ali, olhando para fora, sentindo vontade de beber café, mas sem se mover.
Ela sabia por que tinha essa vontade. Porque eles costumavam, depois do banho juntos, enrolados nas toalhas, tomar café na cozinha e conversar sobre tudo… e foi exatamente de conversar que haviam desaprendido, em algum momento.
Bahar suspirou e já ia se afastar da janela, mas o barulho de um motor de moto a fez voltar.
— Evren? — sussurrou, olhando pela janela.
Virou-se de repente e correu para a porta. Não sabia de onde lhe vinham forças, mas chegou rápido à entrada, sem perceber que as abas do roupão se abriam um pouco, o cinto frouxamente amarrado. Conseguiu abrir a porta antes que ele batesse.
— Bahar — suspirou Evren, olhando os cabelos molhados, o roupão mal posto.
O peito dela subia e descia com força, e a cada respiração o decote se abria mais, deixando-o ver… mas não era apenas ver. Ele lembrava perfeitamente… lembrava da maciez do corpo dela… e, com esforço, ergueu o olhar para o rosto dela, engolindo seco.
— O quê? — murmurou ela, apoiando-se no batente.
Evren ficou em silêncio, e Bahar fechou os olhos. Percebeu de imediato que ele não tinha vindo por ela… mas para contar algo. Ele permaneceu calado até que ela abrisse os olhos e controlasse a dor no peito. Só então ele enfiou a mão no bolso e lhe estendeu algo. Colocou um relógio na palma dela. Bastou um olhar para que ela entendesse. Um soluço escapou, a mão cobrindo a boca, e ele a abraçou de imediato, apertando-a contra si.
Ficaram assim, no limiar da porta: ela dentro, ele fora. Ele a envolvia, sustentando-a. Esperou pacientemente até que ela se acalmasse, o rosto escondido em seu pescoço. Ela respirava o perfume dele, absorvia o calor e a força de seu corpo. Ele estava simplesmente ali, com ela, naquele instante. Sua mão acariciava-lhe as costas, subindo sob os cabelos, sem nenhuma intenção sexual — apenas presença.
Lentamente, relutante, ela se afastou, e ele deixou, observando seus olhos. Ela fechou o roupão, apertou o cinto, deu um passo atrás. Ele continuava a olhá-la, como se não conseguisse ver o bastante.
— Vai entrar? — perguntou ela, baixinho.
Ele assentiu e deu um passo. Bahar recuou, e ele entrou, fechando a porta. Ela virou-se e foi para a cozinha, ouvindo seus passos atrás… o som mais familiar e querido depois de tantos meses.
Evren lançou um olhar rápido para a sala e franziu o cenho. Viu um rapaz no sofá — não esperava por isso, nem entendeu a própria reação —, mas esqueceu-o assim que viu Bahar, parada e incerta no meio da cozinha. Aproximou-se, sua mão encontrou a dela, e os dedos se entrelaçaram. Conduziu-a até um pequeno sofá e a fez sentar.
— Vou fazer café para nós — murmurou, beijando-lhe o topo da cabeça.
Fez isso sem pensar, como se fosse natural. Mas Bahar não reagiu. Olhava para um ponto fixo, desconectada da realidade. Na cabeça, girava apenas uma pergunta — e agora? E agora?
Ela observava Evren movendo-se pela cozinha. Ele conhecia cada canto, sabia onde tudo ficava, que café ela gostava… mas, ainda assim, era um Evren diferente. Ela sentia isso — e nem conseguia explicar para si mesma. Tudo estava diferente. Ficou em silêncio, observando-o, apertando na mão o relógio de Timur, cujo ponteiro havia parado. Parado para ele, mas para eles o tempo ainda seguia.
Evren sentou-se ao lado dela, aproximando-se mais. Estava pronto para abraçá-la, mas deteve-se ao encontrar o olhar dela. Ela apenas respirava e o fitava.
— Vai ficar tudo bem — sussurrou ele, ajeitando-lhe os cabelos.
Ela balançou a cabeça:
— Agora nada mais será como antes — respondeu.
— Vai ser diferente — concordou ele.
As sobrancelhas dela se ergueram levemente:
— Diferente como? — perguntou, inclinando-se um pouco para ele.
Ele acompanhou o movimento, e suas testas se tocaram. Não ficavam tão próximos assim havia muito tempo, mas o motivo agora era outro, mais profundo.
— Como vou dizer isso às crianças? — continuou ela.
— Você não está sozinha — murmurou Evren, o sopro quente de sua respiração tocando o rosto dela.
— É justamente isso, eu sempre estive sozinha — confessou, e suas mãos tocaram os ombros dele.
Numa, ela apertava o relógio parado do ex-marido; com a outra, segurava o ombro de Evren como se buscasse apoio… mas não conseguia encontrá-lo, a mão escorregando.
— Bahar, não… não diga isso — pediu ele, segurando o rosto dela entre as mãos.
— Mas é verdade, Evren. Estou tão cansada… — admitiu. — Muito cansada.
Ele fitou os olhos dela:
— Eu sei… não vai ser fácil, vai ser difícil — sussurrou.
Ela assentiu:
— Você acha que eu tenho medo de dificuldades? — disse com leve ironia. — Tudo o que eu faço é lidar com elas — sorriu e suspirou. — Eu praticamente já me acostumei com a sua ausência na minha vida — falou olhando nos olhos dele, o sopro de suas palavras roçando os lábios dele, quase tocando-os.
Ele estremeceu, engoliu em seco, prendendo o olhar no dela:
— Eu vou para os Estados Unidos — disse de repente.
… Ao ouvir isso, as mãos dela deslizaram de seus ombros…
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