Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 4. PARTE 1

Rengin ergueu as mãos num gesto mudo de interrogação e olhou para Evren. Atrás dela, pela janela, a noite já havia caído por completo sobre a cidade. Já deveriam estar todos descansando há muito tempo — afinal, a cada minuto se aproximava a operação de Alya… mas Rengin já não tinha tanta certeza de que a cirurgia realmente aconteceria.
— Não vamos aguentar mais um escândalo, Evren — foi tudo o que ela conseguiu dizer. — Ele é representante oficial do conselho. Se Adem Yurdakul apresentar uma queixa, tudo vai ruir. Nem o setor, nem você, nem eu teremos mais lugar neste hospital.
Evren se sentou no braço do sofá, apoiando as mãos nos joelhos:
— Ele não é o único que não suportou a perda — disse, olhando para o chão — mas é o primeiro que veio atrás de mim.
— Você tem mesmo certeza de que, naquela vez… — ela prendeu o fôlego por um instante — fez tudo o que podia? — temia até olhar para ele.
Evren soltou um som breve, quase um riso sem alegria, inclinando-se um pouco mais, como se suas forças também estivessem no limite:
— Eu não salvaria um paciente para depois ter que me justificar diante dos vivos. Não sou assassino nem advogado — declarou, com a voz calma e firme. — Existem protocolos; para Adem Yurdakul isso não basta — deu de ombros. — Você sabe como eu opero.
Endireitou-se, levantou-se e virou o rosto para a janela, enfiando as mãos nos bolsos da calça.
Rengin o observou. A postura demasiado ereta, o olhar distante… mas isso era apenas a primeira impressão. Já o conhecia um pouco — ele só estava escondendo tudo o que sentia. Via que Evren não desistia. Continuava lutando, tentando provar algo que talvez nem precisasse provar… ou precisava? Ela tinha a obrigação de perguntar, e fez isso:
— Se você disser que não é culpado, eu encerro o assunto — sussurrou.
Evren caminhou até a porta e, já com a mão na maçaneta, parou por um instante.
— Eu não sou culpado, e você sabe disso — ela o ouviu dizer. — Também sabe que não vou provar nada. Precisamos recuperar as forças — lembrou — temos pela frente uma cirurgia difícil. Alya. Isso é o que importa, Rengin; é nisso que devemos pensar. O resto é ruído. Estamos aqui para salvar vidas. É isso que conta!
Evren saiu, fechando a porta suavemente atrás de si. Não disse mais nada, nenhuma palavra sobre o passado. Esse era o Evren por inteiro.
Rengin levou a mão à boca e permaneceu imóvel no sofá. Poderia obter as informações com facilidade… mas para quê? Ainda não sabia como agir dali em diante. Pedir ao conselho para afastar Adem? Mas, se fizesse isso, colocaria em dúvida as ações de Evren como médico.
E se Adem Yurdakul ultrapassasse os limites da conduta profissional? O que aconteceria durante a operação? Conseguiriam lidar com a tensão, sabendo que o próprio time estava dividido?
— E se ele errar? — murmurou.
Rengin se levantou e andou pelo escritório. Sentou-se à mesa, ligou o computador… e imediatamente fechou todas as janelas abertas. Levantou-se de novo, foi até a janela, mas nem ali encontrou calma. As paredes pareciam apertá-la, enquanto uma dor surda lhe comprimia as têmporas.
Virou-se e saiu do gabinete. Só precisava andar. Os longos corredores do hospital podiam dar-lhe o mínimo de tranquilidade que seu corpo exigia. Deveria voltar para descansar, ou rascunhar um plano de ação próprio, mas apenas caminhava pelos corredores, passando pelas enfermarias, sem saber em que posição estaria no dia seguinte… se teriam um novo setor, se ainda haveria a lista de pacientes à espera de transplante… não sabia de nada. Por isso, apenas continuou andando, às vezes deixando os dedos roçarem a parede.
***
…Cem, levantando-se da cadeira num ímpeto, recuou até a parede assim que Bahar entrou. De braços cruzados sobre o peito, fitava-a com os olhos semicerrados, examinando-a, como se tentasse encontrar algum vestígio do que havia feito… e não encontrava nada. Jaleco branco, olhar tranquilo, apenas levemente inquieto, mas atento. Respiração regular, embora acelerada… ela simplesmente havia se apressado para chegar logo ao seu gabinete. Bahar parou diante dele, como sempre, com as costas retas e o olhar um pouco cansado, como se estivesse pronta para aparar qualquer golpe dele.
— E então? — Cem encarou-a com desafio. — Não acreditou, não é, irmã Bahar? Não acreditou… — repetiu, desta vez mais para si do que para ela.
Irmã Bahar. Havia muito tempo que ele não a chamava assim, mas ela lembrava bem de como ele, junto com Evren, havia se calado por longos meses, torturando sua filha com esse silêncio. E agora, na sua própria visão distorcida de vida, fazia algo inimaginavelmente cruel. Ela respirou fundo, percebendo o quanto aquele rapaz estava perdido. Tinha talento, mas o desperdiçava sem piedade, destruindo o próprio futuro — e nem se dava conta.
— Nem o vídeo do beijo serviu — disse Cem entre os dentes. — Devia ter sido mais sujo? É isso? Mais explícito?
As sobrancelhas de Bahar se ergueram levemente. Ela levou a mão ao peito, tentando controlar as emoções. Já acalmara tantas vezes os próprios filhos e, agora, diante dela estava um garoto crescido que apenas provocava, tentando manipular suas reações.
— Mais honesto? Mais verdadeiro? — perguntou. — Cem, o que você quer com tudo isso?
— Já que você está aqui, então o vídeo da sala de cirurgia também não funcionou — seus punhos se fecharam. — Mas eu vou encontrar um jeito! — deu um passo à frente, e Yusuf imediatamente se colocou ao lado de Bahar.
Yusuf não fez mais nenhum movimento. Apenas permaneceu perto, ligeiramente atrás dela, deixando claro que Bahar não estava sozinha.
— Ao fazer essas coisas, no que você estava pensando, Cem? — Bahar mantinha a mão no peito.
— Ele vai embora de qualquer jeito — respondeu Cem, irritado. — E eu também vou, e a Naz. Nós vamos ficar juntos! Vamos todos para os Estados Unidos! Evren vai trabalhar com Jennifer, e eu com a Naz!
Ao dizer isso, não tirava os olhos dela, como se tentasse invadir sua mente e descobrir se suas palavras a afetavam ou não.
— É vingança, Cem — Bahar suspirou, franzindo levemente o rosto. — Eu esperava que você ainda tivesse um pouco de consciência… mas parece que me enganei.
— O que você sabe sobre mim, irmã Bahar? — falou entre dentes, mas sua alma parecia gritar. — Você nunca me viu. Nunca me notou! Sempre foi contra mim e contra o fato de eu namorar a Umay! Mas não precisa mais se preocupar, não estou mais com a Umay! Entre nós acabou!
Ele nem percebeu que suas palavras haviam acertado o alvo. Bahar vacilou ligeiramente, a cor sumiu do seu rosto. Cem continuou seu discurso, cego a tudo.
— E daí que você não acreditou! Vai acreditar em outra coisa, quando vir os dois juntos de verdade. Só é preciso empurrá-los um pouco um para o outro — acrescentou num tom mais baixo — e então o irmão Evren vai esquecer você, vai esquecer que você existe. Melhor ainda, bem longe de todos vocês!
— Cem, não faz sentido continuar gravando vídeos ou me mandando fotos, nada disso é necessário — disse ela com calma. — A Naz é uma mulher inteligente, e você está agindo como um tolo.
— Acha que não vai funcionar?! — ele ergueu a cabeça, os olhos brilhando como se já estivesse imaginando um novo plano. — Ela me demitiu — confessou de repente — mas vai me recontratar quando estiver com o meu irmão Evren, porque eu vou ajudá-los! Nós vamos formar a nossa família. A Naz vai dar um filho ao Evren!
Bahar perdeu o fôlego, os dedos se contraíram levemente sobre o tecido do jaleco, enquanto ele prosseguia, um sorriso torto surgindo em seus lábios:
— Ele mesmo vai alimentar o filho com a colherinha com que a mãe dele o alimentava. É a única coisa que ele tem. A única. Você vai nos dar, vai devolver, irmã Bahar. Essa colher — ele avançou um passo, mas Yusuf ergueu o braço, impedindo-o de se aproximar — é nossa propriedade, não sua! Não é sua! Vocês não vão ter um filho juntos! Não vão! Mas o Evren e a Naz vão. A colher pertence a nós!
Bahar mal conseguia conter o tremor. As palavras de Cem lhe causavam uma dor insuportável. Um filho. O filho deles não tivera a menor chance. Nenhuma… ou talvez eles simplesmente não lhe dessem essa chance. Medo, confusão… e não pensaram, não avaliaram alternativas… não. Não podia se permitir pensar nisso agora. Não mais. Não devia.
— Eu divulguei o vídeo da sala de cirurgia — disse Cem, com um sorriso frio. — Sim, não funcionou, mas outra coisa vai. Agora você está na minha mira. Qualquer erro seu, e pronto: acabou sua carreira!
— Você queria que me demitissem? — sua voz soou rouca. — Você não percebe que atingiu o seu próprio irmão? — não conseguia esconder o tremor na voz. — A Jennifer está vindo para cá com a sobrinha, a Alya — falou baixo, fazendo Cem inclinar-se ligeiramente para ouvi-la. — Dentro de algumas horas será a cirurgia. Muito difícil. O Evren é o cirurgião principal. Se a operação fracassar, seu irmão perde tudo. Sem Jennifer, sem Estados Unidos. Ele vai estar sob investigação, Cem. Toda a cirurgia será supervisionada pelo conselho. É isso que você conseguiu. É a isso que levaram suas ações, Cem. Vão embora? — Bahar fez um gesto para Yusuf, que baixou o braço, e deu um passo à frente. — Mas não vai haver para onde ir, se o Evren perder tudo. Se a cirurgia dele fracassar, a carreira dele estará acabada. Essas são as consequências do que você fez, Cem. Era isso que queria?
Cem ficou vermelho, o rosto tomado pelo calor da raiva e da vergonha. Sacudiu a cabeça com força, recusando-se a acreditar no que acabara de ouvir.
— Não, isso é mentira! Foi você quem cometeu o erro — havia uma pessoa estranha na sua sala de cirurgia! — gritou.
Bahar deu um passo à frente e tapou-lhe a boca com a mão:
— Não grite! — sussurrou. — Era um médico da própria equipe do hospital. O estranho era o Evren, ele não estava na lista.
— Não… — murmurou ele contra a mão dela. — Não… — Cem levou as mãos à cabeça. — Eu não queria… — seus olhos ficaram vermelhos. — Eu pensei que você… que você…
Bahar apenas balançou a cabeça.
— Já sabem quem invadiu o sistema — prosseguiu com calma. — O Evren não sabe, e eu não vou contar a ele — acrescentou, antecipando as perguntas — mas outros vão contar. Não agora, depois da cirurgia. E virão as consequências, Cem. Você não vai conseguir evitá-las. Você cometeu um crime, e vai ter que responder por isso.
Ele deu um passo para trás, encostando-se na parede. A respiração tornou-se irregular.
— Feliz agora? — sussurrou. — Todos ficam mais tranquilos assim? Eu mesmo me tirei do caminho, não é? — parecia pequeno, perdido, apavorado. — Ele não vai querer saber de mim nunca mais. Vai me rejeitar… — o medo em sua voz era quase animal.
— Você feriu aquele que estava do seu lado — disse Bahar em tom baixo, aproximando-se da mesa e apoiando-se nela com uma mão. — Alguém que acreditava em você, Cem — olhou diretamente nos olhos dele. — Isso é pior que traição. O Evren pode perder tudo — reputação, licença… e o que você vai dizer a ele, Cem? Que queria que fosse diferente? Você não é uma criança. Você queria ir embora, mas agora não vai mais poder. Entende?
Os lábios de Cem tremeram, o olhar vacilava de um lado para o outro. Parecia à beira do choro. Bahar balançou a cabeça, levou os dedos aos lábios por um instante e, em seguida, estendeu a mão para ele. Ele olhou para aquela palma aberta. Ela estava ali, apoiada na mesa, mas não o rejeitava. Apesar de tudo o que ele havia feito, ela ainda lhe oferecia a mão. Cem soluçou e deu um passo à frente; ela o abraçou com um braço só. Ele se encostou nela, incapaz de se acalmar.
— Vão me prender? — murmurou contra o ombro dela. — O que vai acontecer comigo?
— Eu não sei, Cem — respondeu com honestidade. — Não sei como o Evren vai reagir, mas agora não podemos dizer nada a ele. A cirurgia é importante para todos — para o Evren, para o hospital. Seu vídeo gerou um impacto enorme, e ninguém pode prever como isso vai terminar. Ninguém. Yusuf, leve o Cem para casa. Fique com ele. Não o deixe sozinho.
— Irmã Bahar — ele apertou os ombros dela. — Isso é o fim?
— Não faça mais nada, Cem — pediu. — Vão para casa. O Evren vai até lá assim que puder. E quando chegar, ele vai saber de tudo.
Ela olhou para Yusuf, que apertou o ombro de Cem, obrigando-o a soltá-la. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas. Há apenas dez minutos ele a atacava com acusações, e agora a olhava como se ela fosse sua única salvação, como se pudesse corrigir todos os seus erros… Por que ninguém o tinha impedido antes? Ele tinha esperado que alguém o fizesse. Cem deixou-se conduzir relutante em direção à porta. Não queria ir… ali, com Bahar, havia paz, como se ela pudesse resolver tudo, como se ele pudesse se esconder atrás dela.
— Esperem — Bahar os deteve junto à porta. — Parem. Eu vou verificar.
Ela ajeitou o cabelo, fechou os olhos por um instante, respirou fundo duas vezes, abriu-os e foi até a porta. Ao abri-la, quase trombou com Evren, que já erguia a mão para bater.
— Evren — ela saiu rapidamente para o corredor, fechando a porta atrás de si.
Ele franziu a testa na mesma hora. O olhar dele ia da porta para ela, voltava à porta, depois para ela de novo.
— Bahar? — a voz dele estava tensa. — Quem está no seu gabinete? Está tudo bem? — havia um tom de alerta em cada palavra. — Quem você está escondendo?
— O que você está fazendo aqui? — ela se irritou, avançando sobre ele e forçando-o a recuar.
— O quê? — ele se surpreendeu, parando, obrigando-a a parar também.
— Por que não está dormindo? Evren, pelo amor de Deus, você é como uma criança… quer que eu te leve para a cama e te cubra com o cobertor? — disse, segurando-o pelo braço e conduzindo-o para a sala em frente.
***
Quanto mais se afastavam do seu consultório, mais suave ficava sua respiração — e mais forte seu coração batia. Ela não conseguia deixar de reagir à sua proximidade, ao aroma do seu perfume.
— Quem você está salvando desta vez? — ele a deixava conduzi-lo, com um leve sorriso nos lábios; poderia caminhar assim com ela para sempre.
Ele permitia que ela o afastasse do consultório, contanto que ficasse por perto. Bahar quase tropeçou — afinal, aquelas palavras estavam muito próximas da verdade. Ela não respondeu, e uma ideia cortou sua mente, fazendo-o estremecer.
— Ou você estava com o Serhat? — ele parou imediatamente e a fitou. — Sobre o que falavam? Foi ele que esteve no seu consultório? O que ele estava fazendo lá, Bahar? — a raiva clareou no seu tom, e ele já não conseguia conter suas emoções. — Bahar? — exigiu resposta. — O que ele lhe disse?
— Você está com ciúmes, Evren — disse ela com voz firme, embora admitisse para si mesma que gostara daquele ciúme.
Ciúme... já não era indiferença fingida da parte dele. Ela olhava nos olhos dele. Há quanto tempo não sentia tais emoções. Há quanto tempo ele não se mostrava assim com ela — mas ainda era tudo tão confuso, tão incerto. Nem ela nem ele sabiam o que o amanhã reservava, e o “eles”... ainda não existia.
— Eu estou com ciúmes! — ele apertou seu pulso, concordando.
— Estamos à vista de todos — lembrou ela, deslizando a mão dele para seu cotovelo. — Vamos, vou colocá lo para dormir.
Agora ele a acompanhava pelo braço, e retomaram o caminho. Claro, ele percebeu que ela havia mudado de assunto com habilidade, evitando contar algo... e isso não lhe agradou. Não era característica da sua Bahar. Ainda assim, o assunto que surgira o interessava, e ele agarrou-se a isso.
— Você realmente vai fazer isso? — sua voz baixou, e ele olhou ao redor.
Seus olhos brilharam, um sorriso abriu-se nos lábios. Bahar deu de ombros, mas não conseguiu evitar sorrir de volta.
— Você deu de ombros — ele observou — como se isso não te afetasse, mas eu sei — virou-se e quase encostou o rosto no pescoço dela — como você respira quando se importa. Eu lembro, Bahar.
Seu sussurro fez-lhe estremecer dos pés à cabeça. Ela mal conseguiu mover as pernas, e soltou um suspiro de alívio ao chegarem à porta do consultório dele.
— Então quem esteve aí, Bahar? Já devo começar a me preocupar? — ele sussurrava, quase tocando o pescoço dela com os lábios, sem deixar de olhar ao redor.
— Vai — Bahar praticamente o empurrou para dentro do consultório e entrou logo em seguida. — Evren, o que está fazendo? — ela claramente se irritou. — Em algumas horas é a cirurgia, você já deveria estar dormindo!
— Você prometeu que me colocaria para dormir — emburrado, ele fez beicinho. — Estou esperando.
Ele poderia dizer: “sem você, não durmo...” mas não era hora — entendia que perdia esse direito. Bahar revirou os olhos, com um gesto suave tirou o roupão dos ombros dele e o pendurou no encosto da cadeira. Então virou-se para ele:
— Deite e durma! — ordenou, apontando para o divã. Queria perguntar algo, mas tinha o direito? Era apropriado agora?
Ela não compreendia o status dos seus sentimentos. Estavam apenas reaprendendo a interagir, lembrando aquilo que ambos gostavam — aquilo não se apagava da memória.
— E o resto? — Evren puxou a gola da camisa. — Vou dormir vestido?
Bahar parecia não ouvi-lo. Virou-se para o armário, abriu e puxou uma almofada, jogando-a sobre o divã, e novamente a indicou. Ele ficou parado ao lado. Então ela pegou sua mão e o conduziu até o divã; teve que empurrá-lo para que se sentasse. Ele se ajeitou e passou a balançar os pés como um garoto.
Ela percebeu que ele estava gostando daquele momento — prolongava-o para mantê-la mais tempo ao lado. Feliz por cada instante que passava com ela. Essa percepção aqueceu seu peito, e aquele calor se espalhou pelo seu corpo. Bahar se inclinou e tirou os sapatos dele.
Endireitada, encostou-se no ombro dele, e ele deitou-se no divã, sem desviar o olhar. Bahar pegou o cobertor no armário, desenrolou-o e virou-se para Evren.
— Cantarei uma canção de ninar — disse em tom severo, tentando ignorar o olhar fixo dele.
Ele ainda pensava no que dizer a ela. Estavam apenas próximos, tentando cuidar um do outro, mas o que viria depois — ninguém sabia. Ele entendia que estava completamente perdido, que ficou distante por tempo demais, e agora ela também não estava pronta para confiar novamente.
— Que pena — ele fez uma expressão triste, que logo deu lugar à esperança. — E deitar aqui do lado? — perguntou, puxando-se um pouco para dar espaço. — Aí eu durmo rapidinho — prometeu, aproveitando a chance de retê-la.
— Evren — Bahar se inclinou ligeiramente sobre ele —, você já vai dormir rapidinho — cobriu-o com o cobertor, e seus lábios roçaram a testa dele. — Dorme.
— E você? — ele esticou a mão debaixo do cobertor, os dedos tocando os dela.
— Eu vou para o meu quarto. Todos nós precisamos descansar, Evren, temos um dia difícil pela frente — ela o lembrou.
— E você vai ficar sozinha lá? — ele se ergueu de repente.
Estava prestes a se levantar, mas Bahar se inclinou sobre ele. Por um instante pareceu hesitar, e então o beijou — tão rápido, que ele mal teve tempo de perceber. Apenas sentiu os lábios dela tocarem os seus... e foi absurdamente pouco. Tão pouco, que até ficou desconfortável sentado ali.
— Dorme, Evren — pela primeira vez no dia, ele ouviu cansaço na voz dela.
Ela mesma não sabia por que o beijou. Talvez quisesse distraí-lo, ou... o que ela queria, afinal?
— Fica — ele não soltava a mão dela, seus dedos desenhavam círculos no centro da palma.
— Dorme, Evren — ela olhava para qualquer lugar, menos para os olhos dele, mas sua mão roçou o cabelo dele; instintivamente, passou os dedos pela cabeça dele e logo os recolheu.
— E você? — agora era ele quem se preocupava com ela.
— Primeiro acordo eu, depois você — prometeu, soltando-se dele lentamente e recuando. — Você vai acordar na hora.
— Alguém também precisa dizer pra você: dorme um pouco — murmurou ele, tentando sair debaixo do cobertor.
— Eu tô indo, Evren — ela virou-se suavemente e foi até a porta — senão, primeiro coloco você pra dormir, depois você coloca a mim... e aí a noite inteira vai ser isso.
— Por isso é mais fácil dormir juntos — insistiu ele.
— Você quer demais, Evren — disse ela, já abrindo a porta. — Dorme.
A porta se fechou suavemente atrás dela, e ele se viu obrigado a deitar. Sabia que poderia forçá-la a deitar-se ao seu lado, e talvez ela permitisse... mas o que isso lhe traria? Virou-se, puxou o cobertor até o queixo e ficou olhando para o teto. Queria que ela viesse por vontade própria, que o chamasse, que o deixasse estar ao seu lado — e isso ele precisava merecer, precisava reconquistar a confiança dela.
— E eu nem tô com sono mesmo — deu de ombros e fechou os olhos.
No instante em que os fechou, caiu em sono profundo.

CAPÍTULO 4. PARTE 2

Ela já deveria estar dormindo profundamente, mas ainda vagava pelos corredores do hospital. Rengin suspirou, esfregou os olhos, empurrou a porta da saída de emergência e saiu. Sentou-se na beira da escada e apenas respirou, abraçando os joelhos. Apoio o queixo sobre eles e olhou ao longe. Tantos anos havia passado dentro das paredes daquele hospital. A filha deles crescera, e em breve completaria dezoito anos, mas Timur jamais veria isso.
A porta rangeu, e um sapato masculino surgiu no seu campo de visão. Rengin quase soltou um riso abafado. Bastou pensar em Timur, e um homem apareceu naquele lugar — sendo que nunca, em todos aqueles anos, ela havia encontrado alguém ali.
— Não consegue dormir? — ouviu a voz de Serhat.
O novo médico. Ele também buscava seu próprio canto no hospital. Um lugar onde pudesse ficar sozinho. Um lugar para se firmar. Procurava seu território particular. Estranho ele ter escolhido justamente o dela.
— Você não acha que o hospital vive às custas dos últimos fios do nosso sistema nervoso? — perguntou ela, erguendo a cabeça para olhá-lo.
Serhat deu de ombros, virou-se um pouco e apoiou as mãos no corrimão:
— Sempre acostumei a pensar apenas por mim — admitiu com sinceridade —, por Esra. Isso se tornou o sentido da minha vida.
— Se a cirurgia da Aliye falhar, não haverá departamento, não haverá lista alguma — sussurrou Rengin.
— Só que a Esra escolheu a doutora Bahar — lembrou ele, virando-se de costas. — Se não houver transplante, a Esra não terá chance. Entende? — lançou-lhe um olhar de cima para baixo. — Agora estou no mesmo time que você. Tenho que pensar na minha filha e também na operação do Evren.
— Não quer, não é? — ela quase sorriu.
— Não é questão de heroísmo, nem de aceitar ou rejeitar ele como médico. Não, não sou tão obcecado assim — disse, dobrando uma perna e apoiando o pé num degrau. — Eu não sei o que quero mais: que tudo dê errado ou que tudo dê certo.
— Você e o Evren têm um conflito. Isso faz parte do seu passado — ela ergueu a mão, pedindo que ele a deixasse concluir. — Essa é a sua história, como cada um de nós tem páginas escuras e nem tanto na vida, mas não é sobre isso. Eu não vou aguentar se vocês dois, os dois principais cirurgiões, entrarem em guerra dentro da sala de operações.
— Eu sempre estive do lado dos meus — insistiu ele. — E o Evren não é dos meus. Mas talvez isso não importe. — Seus olhos se fixaram nela.
Ele olhava para o cabelo dela, que a brisa mexia levemente. Para seus olhos escuros, que pareciam ainda mais profundos contra o céu noturno. Ela estava tão frágil ali, sentada no degrau de ferro, abraçando os joelhos e apoiando o queixo neles. Ela calava, e ele também, observando sua cintura fina, os ombros frágeis sobre os quais carregava todo o hospital, todos que trabalhavam ali, até os pacientes, presentes ou futuros. Todos se equilibravam sobre aquela linha estreita coberta por um jaleco branco. Mas ela não parecia indefesa. Pelo contrário, sabia exatamente o que fazia, via o objetivo e ia em frente, apesar de tudo.
— Eu prometo fazer tudo que puder — ele estendeu a mão para ela. — Sabe, faz tempo que não me sinto necessário — esperou, paciente, que ela se movesse e tocasse seus dedos —, necessário para alguém além da minha filha.
Rengin suspirou e apertou a mão dele. Ele a ajudou a se levantar.
— Vamos, você precisa dormir — sussurrou Serhat, tocando seus cabelos, prendendo uma mecha atrás da orelha.
— Resolveu fazer parte da equipe? — perguntou ela, fitando-o nos olhos. — Ou é só pela sua filha?
Serhat manteve o olhar fixo no dela. Entendia que ela não perguntava por acaso — queria saber no que poderia confiar dali para frente.
— Você é… uma pessoa — finalmente conseguiu dizer, sem entender sua própria inquietação. — E carrega todo este hospital. Está na hora de, pelo menos um pouco, — ele hesitou, preso àqueles olhos, sem entender por que seus lábios a atraíam, — relaxar. Você é forte — afirmou —, mesmo dormindo, sua força permanece. Vamos.
Serhat a puxou, segurando firme sua mão. Rengin não andava assim com um homem havia muito tempo. Com Timur, isso era raro, apenas quando saíam de Istambul, e depois que voltaram a ficar juntos, a intimidade desapareceu de vez.
Ele a levou até seu consultório e entrou com ela. Ela se deitou no sofá, tirando os sapatos, que caíram no chão com um baque surdo.
— Está meio estranho — confessou, olhando para ele deitada. — Eu não sou nada sua.
Serhat estremeceu. Percebeu que quase se inclinara, quase deixara seus lábios tocarem sua testa. Como se fosse a coisa mais natural a fazer naquele momento — e fez:
— Quer que eu a cubra? — perguntou, virando-se para não ceder ao impulso.
— Não — ela se abraçou, tentando se aquecer.
— Mesmo assim, vou cobrir — disse, olhando ao redor do consultório.
Rengin fechou os olhos. Ouviu quando ele abriu portas, puxou gavetas… mas suas pálpebras estavam tão pesadas que não conseguiu abrir os olhos. Quase adormecendo, sentiu quando ele a cobriu. Quis agradecer, até tentou dizer algo. Fazia tanto tempo que não dormia na presença de alguém… Deveria se sentir constrangida, desconfortável, mas tudo parecia tão natural, com ele se movendo livremente ali, como se tivesse direito… e ela gostou. Pela primeira vez, um homem não a pressionava. Pela primeira vez, ela não precisava provar nada.
Um sorriso surgiu em seus lábios, e sua respiração se acalmou. Já não ouviu quando ele fechou a porta, deixando-a na quietude do seu consultório…
***
…Na calma da hora que precede o amanhecer, quando os pacientes ainda dormiam em suas enfermarias e os médicos de plantão cochilavam sobre o café da manhã, um som distante se fez ouvir. Não muito nítido, grave… depois, o vidro das janelas do bloco cirúrgico começou a vibrar. Só então veio o ruído das hélices, pesado, tão intenso que o coração parecia parar.
— Está chegando — sussurrou Rengin, afastando as persianas. Apertou os olhos contra a luz do sol que despontava. — Todos os blocos, prontidão — ordenou, apertando a caneca escura de café entre os dedos.
Conseguiu dar apenas alguns goles antes de o consultório, que parecia sonolento até poucos segundos atrás, ganhar vida de repente.
No telhado do prédio administrativo vizinho, um helicóptero pousou. A cidade estremeceu, como se um trovão houvesse caído. Três paramédicos, entre eles Ferdi, empurravam uma maca com uma cápsula transparente; logo atrás, desceu Jennifer. Ela abaixou os óculos e fitou Evren, que já se aproximava da cápsula.
Com as mãos apoiadas no vidro, ele buscou o rosto pálido de Aliye. Se não fossem os tubos, poderia parecer um manequim sem vida, como se participassem de algum experimento — como naquele episódio com a mão… Mas não. Era Aliye de verdade ali dentro, viva, respirando, ainda que por aparelhos.
— Evren — a mão de Jennifer pousou em seu ombro.
Ele se virou para ela de imediato, como se até aquele instante não tivesse notado sua presença. Olhou-a e viu a postura ereta, o olhar firme. Jennifer estava como uma corda esticada ao máximo, temendo que qualquer movimento a fizesse romper. Mas não agora, não depois de tudo que já haviam feito. Evren a abraçou por um breve instante.
— Você está aqui. Trouxe-a. Agora é conosco — disse, soltando-a. — Tudo pronto. Para a sala de cirurgia! — gritou, acenando com a mão.
Seguiram juntos, ele e Jennifer. À saída, já os aguardavam Bahar e Serhat; atrás deles, Rengin e Adem Yurdakul.
Seus olhares se cruzaram. Evren manteve-se firme, sem piscar. Adem sorriu levemente — quase cortês, quase humano —, mas sem um traço de compaixão. Era o tipo de sorriso com que um juiz anuncia a sentença, sem conceder a menor chance.
Evren engoliu em seco. Sabia que, a partir daquele momento, Adem se tornaria sua sombra. Tossiu, limpando a garganta, e desviou o olhar. Agora, todo o seu mundo se reduzia àquela pessoa deitada na cápsula transparente.
Levaram-na pelo corredor até o elevador, onde Siren, Uraz e a segunda equipe de cirurgiões e assistentes já aguardavam. Todos prontos.
— Sala preparada? Esterilização, instrumentos, sangue — tudo confirmado? — a voz de Evren ecoava pelas paredes.
— A parte legal está concluída — respondeu Rengin com firmeza, sem encarar Adem, que registrava tudo no tablet. — O mais importante é não errar — acrescentou, quase num sussurro.
— Aliye já está aqui. Isso já é parte da vitória — comentou Serhat, andando atrás dela.
— Doutor Evren — a voz de Adem fez todos pararem por um segundo —, o senhor tem certeza de que está à altura?
— Pergunte a ela — respondeu ele, sem virar o rosto. — Se disser “não”, eu me retiro.
— O coração dela mal resiste — disse Jennifer, tirando os óculos e encarando o desconhecido com o tablet. — Vocês têm apenas algumas horas. Depois, falência dos órgãos — lembrou, voltando-se para Evren.
Seguiram para o bloco cirúrgico, com Adem logo atrás, registrando imagens, digitando anotações. Ele observava, através do vidro, todos se preparando na zona estéril. Evren sentia seu olhar como se o outro estivesse parado às suas costas. Algumas vezes, seus olhares se encontraram no reflexo do espelho; e, assim que Evren terminou de se lavar, Adem interrompeu com outra pergunta, entrando na zona estéril:
— Está tudo pronto? — perguntou, num tom neutro, sem emoção, observando-se no espelho.
— Para a cirurgia, sim — respondeu Evren, de mãos erguidas, pronto para o procedimento.
Para Adem, no entanto, o tempo parecia não existir. Fazia anotações devagar, como se vivesse numa realidade paralela. Só depois de fechar uma aba no tablet, levantou o olhar:
— Espero que siga o protocolo — continuou, com voz monótona. — Se decidir correr riscos, terei que interromper tudo. — Tirou os óculos e limpou as lentes.
— Se teme tanto soluções fora do padrão — respondeu Evren, com um traço de tensão na voz, ainda imóvel, mãos levantadas —, então não entende como funcionam os órgãos, como se conduz uma operação.
O rosto de Adem permaneceu inalterado, olhar fixo e vazio, como se não percebesse que estava atrasando o cirurgião já pronto para entrar na sala. Não notaram que Bahar havia surgido na porta da sala de operações.
— Eu sei como corações param — disse ele, sem desviar os olhos de Evren. — Estarei ali, atrás do vidro. — Então deu um passo em sua direção, obrigando Evren a recuar para evitar o contato.
Ele não tinha medo. Apenas não queria romper a esterilidade.
— Com um único toque, posso parar tudo. Lembre-se disso, professor! — pela primeira vez, a voz de Adem carregou uma nota de autoridade.
— Se o senhor tem assuntos pessoais para resolver, faça isso depois — interveio Bahar, sem sair da sala de cirurgia. — Agora temos um paciente à espera, e o senhor está nos atrasando. Vai registrar isso também? — perguntou de repente. — Indique o horário e o motivo de estar aqui — a voz de Bahar soou cortante.
Até mesmo Adem, abaixando o tablet, ficou imóvel.
— Na zona estéril, existem regras próprias, Adem Yurdakul — lembrou Bahar. — E eu tenho autoridade para retirar qualquer um daqui, inclusive o senhor.
— Doutora Bahar, o professor Evren estava presente quando minha esposa morreu — disse Adem num tom calmo e habitual, mas tão frio que provocava arrepios. — O hospital nunca forneceu toda a documentação. Não a culpo, doutora, mas, se fosse a senhora, manteria distância. Com licença, preciso estar presente durante a operação.
Adem virou-se e saiu da zona estéril.
Um arrepio percorreu o corpo de Evren, e ele abaixou as mãos… ao fazê-lo, tocou o tecido do traje cirúrgico. Engoliu em seco, foi até a torneira e abriu a água. Ficou parado, observando o fluxo, enquanto o coração batia tão forte que o som parecia preencher os ouvidos.
Bahar o olhava de costas. Ele parecia não vê-la, fixo na água, imóvel. Aproximando-se em silêncio, ela despejou sabonete sobre as mãos dele. Seus dedos se tocaram por um instante, e ele soltou o ar, como se não tivesse respirado até aquele momento. Encontrou o olhar dela no espelho. Ela estava ali, não fazia perguntas. Seus movimentos tornaram-se mais tranquilos, mais seguros; a respiração, mais ritmada. Ele sabia que não agora, mas depois ela perguntaria. E, de repente, sentiu uma tempestade dentro de si… queria que ela perguntasse, queria que ela fosse a primeira a falar, mas ela permanecia em silêncio, mesmo tão próxima. E ele também silenciava, percebendo o quanto desejava ter de volta a sua Bahar — aquela que o entendia num meio gesto, num meio olhar. Aquela com quem respiravam em uníssono… e sabia que, por enquanto, essa respiração conjunta restava apenas na sala de cirurgia. Por todo o resto, ele teria que lutar de novo. Evren cerrou os dentes.
Juntos, voltaram a lavar cuidadosamente cada milímetro da pele. Evren encarava o próprio reflexo. Bahar, a ele. Ambos sabiam que, se ele errasse, Aliye morreria. E que, mesmo que sobrevivesse, ele ainda teria que responder pelo protocolo. Muitos, naquele hospital, dependiam de seus gestos, de suas ações, de suas decisões. Tudo ou nada.
Desligando a torneira com o cotovelo, Evren lançou um olhar a Bahar, e os dois entraram na sala de cirurgia…
***
…Luz intensa e esterilidade absoluta — tudo estava pronto na sala de cirurgia, mas o ar parecia carregado, como antes de uma tempestade. Aliye jazia na mesa, conectada aos aparelhos. Todos na sala olhavam para Evren.
Do outro lado do vidro, Adem Yurdakul acomodara-se melhor, posicionando o tablet sobre a mesa. Puxou o monitor para mais perto, testou o microfone e até colocou uma garrafinha de água ao lado.
— Pressão estável — anunciou Siren.
— Fazendo a incisão — disse Evren, baixando o bisturi. — Fenestração… tesoura.
Uraz estava ao lado, entregando-lhe cada instrumento citado, os olhos fixos nos movimentos precisos e controlados do cirurgião. Tremia de expectativa, ansioso por participar diretamente. Sim, não gostara de ver Bahar sair atrás de Evren e voltar com ele, mas aquilo era só trabalho. Apenas trabalho.
— Há um desvio — observou Bahar —, a artéria está mais baixa. Pelas imagens, deveria estar uns cinco milímetros acima.
Serhat, inclinado ao lado dela, conferiu:
— Confirmo, há deslocamento — e olhou para Evren.
Era a primeira vez que operavam juntos, a primeira vez que lutavam pela mesma vida… não apenas uma, mas muitas, se conseguissem. Serhat se agarrava à chance do futuro da filha — e aquele futuro, eles o criavam com as próprias mãos.
— Qual é a decisão? — perguntou ele.
Adem inclinou-se um pouco, aproximando o microfone. Seus dedos tremiam levemente; estava pronto para intervir a qualquer momento, toda a atenção focada em Evren.
— Vou seguir pela arcada inferior, fazer a sutura lateral — respondeu o cirurgião, sem levantar a cabeça. — Sem estabilizador — acrescentou, após uma pausa.
— Isso é uma solução não protocolar — soou imediatamente a voz de Adem pelo microfone. — Na última vez, também trabalhou sem estabilização — o silêncio tomou a sala, quebrado apenas pelos sons dos equipamentos. — E terminou em fibrilação.
Evren estremeceu; o suor brotou em sua testa.
— Estou mantendo a pressão — disse Serhat, cruzando o olhar com o colega. — O coração está estável. Tem certeza?
Evren olhou para as próprias mãos. Bahar percebeu um leve tremor nos dedos dele.
— Gaze para o doutor — ordenou ela, com voz firme.
Ele ergueu os olhos, e ela sustentou seu olhar. Ficaram frente a frente, respirando no mesmo compasso.
— Tenho certeza — exalou ele, e voltaram a se inclinar sobre a mesa.
Fez a incisão. Adem praticamente se ergueu, curvando-se sobre o vidro para tentar enxergar melhor.
— Fazendo a sutura — a voz de Evren estava mais baixa, como se suas mãos trabalhassem por conta própria.
— Pouquíssimo sangramento — relatou Serhat.
— Linha preservada — confirmou Bahar. — Tudo estável.
Rengin suspirou. Sentada ao lado do observador, viu Adem cair pesadamente na cadeira, cerrando os dentes. Lentamente, tirou um lenço do bolso do paletó e enxugou a testa. Jennifer, junto à parede, mantinha as mãos cerradas em punhos. Ouvia tudo, mas mantinha os olhos fechados, com medo de olhar.
— Shunt colocado, fluxo presente — anunciou Serhat, entregando o instrumento ao assistente.
Todos voltaram-se para os monitores, que apitavam.
— Ritmo estável — disse Evren. — Continuamos.
— Arritmia — a voz de Adem voltou pelo microfone. — Parem. Estão violando o protocolo.
Rengin apertou um botão, cortando o áudio dele, e encarou-o:
— Está atrapalhando meus cirurgiões, desestabilizando-os! Pare, ou serei obrigada a reportar!
Ahu, atrás dela, também fazia anotações no tablet. Adem não respondeu, e Rengin reativou o microfone.
— Ele sabe o que está fazendo — disse Bahar, controlando a cavidade abdominal.
— Vou proteger o fígado — disse Uraz, finalmente conseguindo participar.
— Um minuto — avisou Serhat, trabalhando rápido para conectar os vasos.
— Fibrilação — anunciou Siren. — O coração não está retomando.
— Adrenalina? — os olhos de Evren buscaram os de Serhat.
Naquele instante, todo o resto se dissolveu. Eram apenas médicos lutando por uma vida. A operação, por alguns momentos, transformara-os em uma equipe. Serhat assentiu:
— Adrenalina.
— Adrenalina na artéria coronária — ordenou Evren.
— Pare! Isso não está no protocolo! — quase gritou Adem.
Rengin levantou-se e empurrou-o pelos ombros, forçando-o a sentar novamente.
— Redução fraca dos vasos hepáticos — anunciou Bahar.
— Pressão em queda — confirmou Siren.
Evren e Serhat trabalhavam para reiniciar o coração. Siren, Bahar e Uraz lutavam pela função do fígado.
— Cateter — a voz de Uraz tremia.
— Pare! — gritou Bahar. — Cateter errado. Quem administrou esse medicamento?
— Prescrição fora do protocolo — a voz vinda do microfone já não recebia reação de ninguém.
— Eu pensei… na tabela… — o assistente júnior tentava se justificar.
— Aqui não se pensa. Aqui se sabe — disse Evren, erguendo as mãos junto com Serhat, e o novo coração de Aliye voltou a bater. — O coração está funcionando!
As lágrimas rolaram pelo rosto de Jennifer; ela deslizou pela parede até o chão, escondendo o rosto nas mãos. Rengin soltou o ar, apertando a borda da mesa até os dedos ficarem brancos.
— Saia — ordenou Bahar ao assistente — agora mesmo. Uraz, aja.
Ela prendeu o olhar do filho, ajudou-o a recuperar o fôlego, só então voltou-se para Evren.
— Fígado estabilizado — anunciaram Siren e Uraz ao mesmo tempo.
— Ela está viva — sussurrou Bahar, olhando nos olhos de Evren.
— O coração bate sozinho. Há contrações — disse Serhat, sorrindo sob a máscara.
— Registrem. Vamos fechar — os olhos de Evren brilhavam.
Jennifer soluçava, sentada no chão, encostada à parede. Rengin deixou a cabeça cair sobre os braços, apoiada nos cotovelos sobre a mesa.
— Conseguimos — disse Serhat, recuando para deixar a segunda equipe concluir a operação.
— Ela vai viver — murmurou Evren. — Agora ela tem uma chance.
Adem não desligou o tablet de imediato. Sentado diante do monitor, parecia não ouvir as felicitações, não ver as lágrimas de Jennifer, nem notar os cirurgiões retirando as luvas.
Ele reviu a gravação. O momento exato em que o coração de Aliye começou a bater. Rebobinou. Adiantou de novo. Seu dedo pairou sobre o botão de “apagar”. Mas não o pressionou. A tela apagou sozinha pelo temporizador. Ele observou o próprio reflexo no vidro negro. Só então recostou-se na cadeira. Sem palavras. Sem gestos. Sem veredicto. Apenas levantou-se e saiu.
Rengin levou a mão à boca, e Jennifer finalmente se ergueu, apoiando as mãos nos ombros dela. Ahu permanecia em silêncio, atrás das duas. Ninguém sabia o que viria a seguir; todos entendiam apenas uma coisa — Aliye tinha uma chance. Agora, tudo dependeria de como seu corpo aceitaria os órgãos doados.
Serhat tirou o jaleco e deixou a sala de cirurgia. Ainda não compreendia totalmente o que haviam feito. Não sabia se o departamento continuaria existindo ou se o conselho proibiria… mas tinham acabado de trabalhar lado a lado com Evren, como uma única equipe, como sonhavam nos tempos de faculdade. Não se tornaram amigos, mas Evren poderia ser o médico de sua filha. E ele não podia negar que Evren era um excelente cirurgião, mesmo que quebrasse protocolos.
Bahar e Evren saíram logo atrás de Siren e Uraz. Uraz estava radiante, elogiando Evren, enquanto Bahar e Siren trocavam olhares. Num ímpeto, o rapaz chegou a abraçar Evren.
— Mas na minha casa não vai entrar, professor, o senhor é só médico — murmurou ele. — Não vou mais permitir que machuque minha mãe, mas vou aprender com o senhor.
Evren deu-lhe um tapinha no ombro, sem tirar os olhos de Bahar. Ela apenas o olhou de relance, sorriu e voltou-se para Siren. Estava feliz por ele, e ele queria celebrar com ela aquela pequena vitória… embora nem soubesse se era vitória ou derrota. Sentiu novamente uma fisgada no coração.
Ela estava ao seu lado, mas não compartilhava seus altos e baixos. Era sobre isso que Rengin falara, quando disse que ele não estivera presente. Agora Bahar estava, mas como espectadora, e isso o sufocou. O peito apertou, o ar lhe faltou.
— Você agiu fora do protocolo — lembrou Bahar, alcançando-o.
— Não vai me abraçar? — escapou-lhe dos lábios.
As sobrancelhas dela se ergueram levemente. Ela olhou ao redor. Todos se felicitavam, e ela apenas o abraçou por um instante, recuando logo em seguida. Um momento breve… e ele percebeu o quanto sentia falta de seus abraços, de suas conversas… só agora começava a entender o que havia perdido.
— Não vai perguntar sobre aquela mulher? — sussurrou ele.
Ela deu de ombros, procurando Siren e Uraz com o olhar.
— Vou com as crianças — disse, quase sorrindo, mas com um olhar triste. Poderia dizer muito, mas preferiu o silêncio.
Bahar saiu abraçada a Siren e Uraz. Caminhavam juntos, como uma família. Ele os observou, ouvindo as vozes alegres, e permaneceu parado. Bahar se afastava, como se não tivesse interesse pelo que acontecera com aquela mulher, com Naz.
O rosto dele empalideceu. Percebeu, de repente, que ela apenas estivera ali para apoiá-lo, mas nada mais havia mudado entre eles. Nem ouviu as conversas baixas às suas costas. Sabia que havia apostas — lembrava-se disso.
Evren virou-se e caminhou na direção oposta. Precisava urgentemente de ar, pois ainda teria que ouvir o veredicto de Adem Yurdakul… mas, estranhamente, isso já não lhe importava tanto. O departamento sem Bahar não lhe despertava interesse. Não bastava trabalhar ao lado dela. Ele precisava dela… precisava muito… amava-a. Amava-a de um jeito que doía, rasgando seu coração em pedaços…

CAPÍTULO 4. PARTE 3

…Essa parte da casa era a preferida de Bahar. Sempre havia silêncio ali. Os peixes nadavam vagarosamente no aquário, refletindo os brilhos da luz, enquanto manchas de sol repousavam sobre as almofadas do sofá. Nevra sentou-se no pequeno sofá e colocou a xícara de chá sobre a mesinha. Não gostava de se lembrar dos tempos em que maltratava Bahar, quando estava do mesmo lado que Timur… e agora Timur já não existia mais. Ele jamais entraria nessa casa, que nunca chegou a ser verdadeiramente dele… assim como ela nunca conseguiu ser mãe para ele. Não o havia gerado, e Uraz, o mais velho, não era seu pai, mas, por alguma razão, ela ainda permanecia parte daquela família, sem laços de sangue.
Nevra tomou um gole de chá e pegou o celular. Após ler uma mensagem, respondeu e o deixou de lado.
— A vovó ligou e disse que o Reha está estável, estão aguardando os resultados dos exames — bocejando, Umay entrou na cozinha. — Mamãe acabou de passar por lá. Siren e Uraz também estão. Parece que deu tudo certo. Não sei, mas agora estão esperando alguma coisa.
— Vamos tomar café e ir direto para o hospital — Nevra apertou a xícara com as duas mãos e recostou-se no sofá.
— Dormi tão mal… — confessou Umay, sentando-se ao lado dela e apoiando a cabeça em seu ombro.
Nevra a abraçou de forma desajeitada e acariciou-lhe os cabelos.
— Yusuf não voltou para casa — Parla, de pijama, entrou na cozinha. — Aqui estamos só nós, a babá, Mert e Leyla — disse ela, olhando pensativa para Umay. — Onde será que ele está?
— Ficou no hospital, mamãe pediu para ele — lembrou Umay, fechando os olhos.
Parla as observou por um instante e depois sentou-se do outro lado de Nevra. Nevra pousou a xícara e abraçou também sua outra neta. Estava aprendendo a demonstrar cuidado e atenção, mas ainda lhe saía de forma tímida e truncada. As meninas, no entanto, não comentavam nada. Sabiam que o telefone dela acendia com frequência com novas mensagens; ela as lia rapidamente, às vezes sorrindo.
— O Cem não escreveu mais? — perguntou de repente Parla, num tom baixo.
Nevra se enrijeceu. Estava entre as duas netas, mas ambas pareciam ter perdido todo o ímpeto habitual, encostando-se a ela. Umay balançou a cabeça. Nevra olhou primeiro para uma, depois para a outra. As duas permaneciam quietas. Umay suspirava de olhos fechados, enquanto Parla fixava o olhar num ponto distante.
— Você pode me perguntar — arriscou-se ela, apertando levemente o ombro de Parla. — Não precisa ser adulta o tempo todo.
Parla passou o dedo pela borda da mesa:
— Eu quase não conheci meu pai — sussurrou. — Agora me arrependo tanto do tempo perdido, do tempo que poderíamos ter passado juntos, mas eu estava tão zangada com ele… — fez uma pausa, olhando para fora da janela, antes de continuar. — Ele abraçava de um jeito diferente, não como a mamãe — confessou.
— De um jeito diferente — concordou Umay.
Nevra as apertou ainda mais contra si. Não estava acostumada a ficar assim, sentada no sofá de Bahar com as meninas.
— Você tem lembranças para guardar — murmurou Parla.
Nevra suspirou. Tudo o que ela lembrava do passado lhe trazia dor. Poderia ter dado tanto amor a Timur, mas se tornara prisioneira das próprias convicções.
— Eu nunca tive avô — continuou Parla. — O pai da mamãe eu nem conheci, só pouco antes de ele morrer. Mas tenho uma avó — ela olhou para Nevra. — Será que o pai do papai, vovó? Ele também seria nosso avô.
Nevra ficou imóvel. Demorou a encará-la.
— A Leyla nunca disse — suspirou. — Nunca, nem quando estava grávida, ficamos sabendo de nada. Só contou que ele tinha família.
Umay abriu os olhos e a fitou.
— Família — sussurrou Parla — isso significa que podemos ter tias ou tios, irmãs, irmãos.
Umay se enrijeceu. Nevra franziu o cenho:
— Leyla disse que ele nunca iria aparecer — não gostava nada daquele rumo na conversa.
O telefone dela voltou a acender, e Nevra o virou com a tela para baixo.
— E se ele aparecer? — questionou Umay, atenta. — Então o papai nem sabia quem era seu verdadeiro pai.
— Eu nunca mais perguntei para a Leyla — admitiu Nevra. — Na época, achei que era melhor não mexer no passado.
— Nem sabemos com quem o papai se parecia… seria bom ver uma foto dele — Parla continuava olhando pela janela. — Ele pode estar vivendo em algum lugar por aí.
— Acho que eu não gostaria de saber — disse de repente Umay. — Nem imaginamos que tipo de pessoa ele é. Talvez não ficasse feliz em nos conhecer. Se a vovó Leyla ficou em silêncio, é porque tinha um motivo.
— Meninas — Nevra as abraçou com mais força. De repente, percebeu que era bom estar assim com elas, mesmo que fosse algo novo para si. — Às vezes, as crianças não conhecem seus pais, acontece… — fez uma pausa — e às vezes os pais não sabem que têm filhos — sua voz baixou — ou desconfiam, mas têm medo de admitir. — É assim… às vezes a gente vive a vida inteira ao lado de pessoas que não conhecemos, ou que temos medo de conhecer.
O celular de Nevra apitou com uma nova mensagem, e ela sorriu de canto. As meninas trocaram olhares.
— Você está com alguém? — perguntou Parla, cautelosa.
— Na minha idade… — Nevra se atrapalhou, abaixando as mãos, e pegou a xícara.
— E por que não? — disse Umay, muito séria. — Vovó, para o amor não existe idade. Só que a gente insiste demais em convencer a si mesma do contrário.
— São só mensagens — Nevra pôs a xícara sobre a mesa e abanou-se com as mãos. — Nós apenas fomos jantar juntos.
— E agora vocês conversam no aplicativo — Parla lhe deu um leve empurrão no ombro.
— É… — Nevra sorriu, um pouco mais à vontade.
— É ótimo que você também tenha alguém, vovó — sussurrou Umay, virando o rosto para esconder as lágrimas. — Olha só — ela enxugou uma lágrima —, a vovó Gulcicek se casou com o doutor Reha, por que você não poderia seguir o exemplo? — apoiou a cabeça no ombro dela, olhando para os peixes no aquário. — Mesmo que não saibamos o nome dele, você vai nos apresentar, não vai? — apertou-se mais contra ela.
— Eu sou a favor de aumentar a família, vovó — concordou Parla. — Precisamos muito de coisas boas acontecendo.
Nevra, já sem se constranger, pegou o celular e respondeu a todas as mensagens recebidas… e, pela primeira vez, sentiu vontade de escrever primeiro…
***
…Cem foi o primeiro a quebrar o silêncio:
— Por que você não pergunta nada? — perguntou ele, parando perto da janela e olhando para o Bósforo.
Yusuf preparou um chá para si. Sentia-se um pouco deslocado naquela cozinha alheia, mas reparou que tudo fora feito com muito bom gosto. O que mais o fascinava era a vista para o estreito, para a ponte. Pegando torradas e a xícara de chá, seguiu em direção à varanda.
— O que é que eu deveria perguntar? — encolheu os ombros.
— O que vai acontecer agora? — Cem mordeu o lábio, desconcertado, como um menino pequeno.
— Você acha que alguém sabe? — ele abriu a porta da varanda e saiu.
Cem foi atrás, parando no vão da porta. Yusuf se aproximou da beira e tomou um gole de chá.
— Claro… você foi logo aceito — disse Cem de repente, num tom áspero. — Abriram as portas da casa para você. Bahar trata você com carinho.
— E você ainda está esperando aprovação? — ele se virou para encará-lo. — Por que então se afasta de todo mundo?
— Não tenho oito anos — retrucou Cem, irritado.
— Mas se comporta como se tivesse — observou Yusuf, apoiando-se no parapeito e olhando as pequenas lanchas deixando o cais.
Cem ficou em silêncio. O medo lhe cintilava nos olhos. Ele realmente não sabia o que estava fazendo quando enviou o vídeo. E agora não tinha ideia no que aquilo tudo ia dar. Temia as consequências — afinal, foi o que Bahar lhe disse. Olhou para o relógio: Evren ainda não tinha voltado, nem ligado, nem mandado mensagem. Ou não sabia de nada ainda… ou será que simplesmente o havia apagado da vida?
Yusuf colocou a xícara sobre a mesinha:
— Eu larguei os estudos porque minha mãe ficou doente e fui trabalhar. Quando ela morreu, precisei cuidar de toda a papelada — começou, com voz calma. — Comprava a comida, fazia minhas escolhas. Eu não tinha tempo para ficar com raiva do mundo — voltou-se para olhá-lo. — Eu simplesmente vivia. Entende? Eu precisava viver.
— Quer dizer que você teve que ser forte? — Cem ergueu o queixo.
Yusuf o observou com atenção:
— Por que você está sempre atacando? — perguntou, mas como Cem permaneceu calado, ele continuou: — Eu não tive escolha — precisava viver. Queria que eu fosse roubar? — ao ouvir isso, o rosto de Cem perdeu toda a cor. — E você tem escolha. E o que faz? Publica um vídeo pelas costas deles e espera aprovação?
Cem mordeu o lábio, o olhar perdido, e depois se agachou, encostando as costas na parede.
— Eles podem me prender, não é? — murmurou.
Yusuf se virou para ele:
— Podem, e você sabe disso — respondeu com tranquilidade, e acrescentou: — mas também podem te dar uma chance.
Cem segurou a cabeça com as mãos:
— E se eu estragar tudo de novo? — perguntou baixinho.
— Então vai ter que começar do zero. Só não espere que alguém venha te salvar. Você já não é mais uma criança, Cem — disse Yusuf, e calou-se.
Da rua subia o som da vida da cidade: buzinas de barcos, fragmentos de frases vindas do calçadão… e na varanda, o silêncio se instalou.
— E você tem certeza — Cem voltou a falar primeiro — de que eles precisam de você?
— E você tem certeza de que não precisam? — pela primeira vez, havia um tom duro na voz de Yusuf. — Admita que você se odeia. Admita que espera que alguém venha e te salve. Só que… até pode haver quem queira salvar, mas o que você está disposto a fazer? O que você vai colocar na mão estendida para você?
Cem, cobrindo o rosto com as mãos, baixou a cabeça e começou a chorar. Yusuf virou-se lentamente, deixando o olhar deslizar pela superfície lisa do estreito. As ondas se refletiam nos seus olhos, e um sorriso surgiu em seus lábios, como se um sonho tivesse se realizado. Não de verdade… mas ele sempre sonhou em viver à beira-mar, acordar com o som das gaivotas. Queria desesperadamente andar numa daquelas lanchas, sentir o salpicar da água na pele, o vento no rosto, e todo o horizonte aberto diante de si…
Yusuf tentava ignorar os soluços atrás dele. Respirava fundo, como se morasse naquele apartamento, como se pudesse sair para a varanda para ver o nascer do sol ou se despedir do entardecer. Ficou ali, apenas respirando, enquanto tivesse essa chance…
***
…Nas últimas vinte e quatro horas, foi a primeira vez que eles puderam relaxar um pouco na sala dos médicos e simplesmente tomar um café. Os tablets estavam largados sobre a mesa, todos já sem máscaras e luvas. Alguns sentados, outros recostados na parede — todos cansados, ainda um pouco tensos.
Bahar tirou a touca e suspirou; involuntariamente, olhou para a porta… mas Evren não estava à vista, e ela sabia que ele não viria. Uraz andava em volta da mesa, inquieto. Siren apoiou-se no armário, esperando sua caneca encher de café.
— Sim, a cirurgia foi genial — decretou Uraz —, mas, para ser sincero, nós não sabemos nada sobre o professor Evren.
Bahar congelou no meio do movimento, antes de se sentar no sofá. Virou-se para olhar o filho, em silêncio, como se quisesse entender o que mais ele queria saber.
— Sabemos que ele cresceu num orfanato e depois foi adotado — continuou Uraz, sem parar de andar nem por um instante.
Bahar balançou a cabeça e sentou-se.
— Sabemos que ele salvou muitas vidas — insistiu Uraz, apesar da cotovelada que Siren lhe deu na costela.
— Ele fez um transplante sob supervisão — acrescentou Doruk. — Concordem comigo — lançou o olhar por todos —, o professor estava tenso. Era risco demais.
— A mão dele não tremeu — disse Bahar. — Ele estava sendo observado! E não recuou!
— O que você vê nele, mãe? — explodiu Uraz.
Bahar se levantou devagar do sofá. Todo o sangue sumiu de seu rosto.
— Nós não sabemos onde ele esteve nos últimos dez anos, a quem operou, não sabemos nada! Quantos morreram na mesa dele? — Uraz aproximou-se até parar bem diante dela. — E você o defende de novo? Ele é só um médico — lembrou. — Um médico.
— E quem é você para julgar? — perguntou ela com calma, encarando o filho. — Você lembra onde estava e o que fazia quando eu salvei seus filhos junto com o professor Evren?
Siren levou a mão à boca.
— Estávamos todos sob pressão — continuou Bahar —, mesmo com gente duvidando da gente! Não somos obrigados a defender ninguém, mas somos obrigados a ser uma equipe — apertou a touca nas mãos e foi em direção à porta —, somos obrigados a ser uma equipe para salvar vidas, e hoje provamos isso, mesmo sob mira!
Quase saiu, mas se virou, olhando para todos:
— Algum de vocês estava naquela sala de cirurgia para julgar? — abriu os braços. — Vocês não têm esse direito! Ele está aqui como cirurgião, como qualquer um de nós! Ou melhor — quase sorriu —, como o cirurgião principal! E você, pelo que me lembro, queria aprender com ele — disse para Uraz.
O rosto de Uraz se incendiou de raiva. Siren tentou acalmá-lo, mas ele a ignorou.
— E vou — bateu com o punho no próprio peito. — Você mesma disse que ele é o cirurgião principal, ele tem obrigação de ensinar, somos um hospital-escola.
— Então lembre disso: se o deixarmos duvidar de si mesmo, ele vai embora — não por culpa, mas por se sentir sozinho. E agora, nenhum de nós está sozinho — somos uma equipe!
— Você está mesmo do lado dele? — rosnou Uraz, entre dentes.
— Estou do lado da justiça — respondeu Bahar, firme. — Sem ele, sem mim — apenas a equipe e o trabalho em equipe. Do contrário, cada um de nós estará só lado a lado, e não juntos!
Ela se virou e saiu da sala dos médicos. Seu café, intocado, esfriava sobre a mesa.
— Então ela não está mais apaixonada… — murmurou Doruk, pensativo. — Bahar escolheu uma posição.
O silêncio caiu na sala. Cada um começou a perceber que o papel de um cirurgião não é um status, e sim uma escolha. A escolha de estar presente no momento difícil… e, ainda assim, ficou no ar uma pergunta não dita: e se ela não está com ele… então está com quem?…
***
…Rengin entrou com ele no próprio gabinete. Tentava manter a postura, apesar de sentir um frio por dentro só de olhar para Adem Yurdakul. Ele permanecia em silêncio, deixando que ela fechasse a porta. Adem segurava uma pasta fina junto com o tablet debaixo do braço. Seu olhar percorria o gabinete dela com calma.
— Café? — ofereceu Rengin.
Adem se aproximou da janela, de onde se via a cidade em toda a sua beleza.
— Tiveram sorte de a cirurgia ter sido relativamente bem-sucedida — disse, sem se voltar para ela. — Se qualquer um dos parâmetros tivesse saído do limite, o conselho teria recomendado o afastamento de Evren Yalkın — virou-se lentamente para encará-la — e não só isso.
Rengin não arqueou sequer as sobrancelhas, embora por dentro sentisse como se uma mão invisível, que lhe apertava a garganta, começasse a afrouxar.
— Eu levei isso em consideração — respondeu num tom firme, sentindo a pressão interna diminuir.
Adem semicerrrou os olhos por um instante — o bastante para que ela percebesse a reação.
— Você assumiu responsabilidade demais — continuou ele. — No meu relatório está registrado: você está emocionalmente envolvida com a equipe. Isso a torna vulnerável.
Rengin cruzou os braços:
— Talvez isso me torne uma verdadeira líder!
Ele a observou em silêncio, depois se aproximou da mesa:
— O conselho está seriamente considerando uma redistribuição — colocou a pasta sobre a mesa. — Se você não estabilizar a equipe, perderá o direito de realizar transplantes.
Rengin fechou os olhos por um momento — perder os direitos significava que, afinal, eles tinham aprovação. Quase sorriu.
— Eu vou mantê-los juntos — disse baixinho, sem demonstrar emoção. — Porque aqui não é apenas uma equipe. Aqui são pessoas que são mais que uma família.
Adem tirou um lenço do bolso e, sem levantar os olhos, limpou as lentes dos óculos:
— O conselho autoriza a abertura do departamento — confirmou, validando os pensamentos dela —, mas você continuará sob vigilância. Se sua equipe falhar… — guardou o lenço e recolocou os óculos — toda a responsabilidade cairá sobre você. O resultado foi alcançado, mas o clima emocional não é estável!
Rengin girou levemente a cabeça, andou até a mesa, virou-se e o encarou. Agora era ele quem aguardava sua resposta.
— Está esquecendo que eles são pessoas vivas, não máquinas! — disse, sentando-se na beirada da mesa e apoiando as mãos no tampo.
— Tem certeza de que eles não vão arrastar uns aos outros para o fundo? — questionou ele, segurando o tablet. — Especialmente agora, com a licença em risco?
— Justamente por estarmos sob risco é que nos mantemos firmes. Nós nos mantemos firmes — assentiu ela. — O medo é temporário. O profissionalismo é um sistema!
Os lábios dele quase se moveram, como se fosse ironizar, mas conteve-se:
— O conselho quer estabilidade, não genialidade à beira de um colapso nervoso! — sua respiração estava mais rápida, e gotas de suor surgiram em sua testa.
— Genialidade e estabilidade não são conceitos excludentes — observou ela. — O que mais quer dizer?
Adem meteu a mão no bolso, mas não tirou o lenço:
— O conselho continuará monitorando. Você está sob responsabilidade pessoal. Qualquer falha — e você será a primeira a ser afastada! Registrei que a tensão está no limite!
Rengin assentiu:
— Estamos em modo de sobrevivência — recordou. — Perdemos pessoas queridas, perdemos membros da equipe — engoliu em seco —, alguns perderam parte da família.
Adem levantou um pouco o queixo, lançando-lhe um olhar impassível:
— Não teme que a próxima cirurgia seja emocionalmente inviável?
Rengin suspirou:
— E você não teme que, se eu sair, tudo desmorone?
— Quem teme é quem está preso por laços — respondeu ele, pela primeira vez, sem a habitual pausa. — Eu apenas observei — lembrou, e então fez uma pausa propositada para que ela o olhasse —, mas, pessoalmente… — e aqui a voz dele suavizou — vou lamentar se você perder.
Ela viu respeito em seus olhos.
— Nós não vamos perder — levantou-se da mesa. — Porque não temos direito ao erro!
Adem quase sorriu pela primeira vez. Inclinou levemente a cabeça, seu olhar a atravessando. Virou-se devagar… e saiu rapidamente do gabinete. Rengin estremeceu, como se tivesse levado um choque, quando a porta se fechou com um clique suave. Sentou-se na beirada da mesa… as pernas já não a sustentavam. O coração batia forte no peito, ela entreabriu os lábios, respirando pela boca.
Os pensamentos giravam como um enxame em sua cabeça — eles realmente se tornaram como uma família para mim. E talvez… isso seja minha fraqueza? Ou minha força? Nem ela mesma sabia responder, mas entendia uma coisa: tinham uma chance. Sobreviveram… mas agora começava o mais difícil… continuar vivendo…
***
…o importante agora era seguir em frente, mas ela não conseguia dar um único passo. Rengin apoiava as mãos sobre a mesa; sentia que, se levantasse a cabeça naquele momento, tudo desabaria. Só percebeu as batidas na porta quando esta já se abria. Estremeceu. Quem mais poderia ser? Será que ele tinha voltado… e para quê? Um arrepio nervoso percorreu seu corpo, e os dedos apertaram a borda da mesa.
— Desculpa — Serhat fechou a porta com cuidado atrás de si. — Vi ele sair — murmurou, aproximando-se.
— Então saiu — respondeu ela, num tom abafado, com a cabeça baixa.
Ele ficou parado, hesitando em se aproximar mais. Por alguns segundos, só respiraram. Serhat via que ela se mantinha firme por um fio — e já nem sabia ao certo por que tinha vindo: para perguntar? Para ficar?
— Eu queria… — ele pigarreou — queria perguntar uma coisa.
Rengin ergueu a cabeça lentamente. Fitava-o sem medo de mostrar fragilidade. Não tinha medo dele, nem de ser verdadeira na presença dele. Ele via sua força, via também sua fraqueza.
Aproximou-se mais. Ficou diante dela, incapaz de formular de imediato a pergunta que tanto o inquietava. Ontem mesmo teria dito “não”, mas hoje queria desesperadamente ouvir um “sim”. O único som no gabinete era o da respiração de ambos, até que ele tomou coragem:
— A Esra… — olhou ao redor, como se verificasse se não havia ouvidos indiscretos — tem alguma chance?
Rengin soltou o ar. Serhat também tinha medo, e mesmo assim estava ali, deixando que ela sentisse esse medo tão de perto.
— Sim — sussurrou ela. — Se houver um doador, ela terá um coração… se… — suspirou, sem concluir.
— Obrigado por não mentir para mim — murmurou Serhat.
Rengin respirou fundo. Tentou se levantar, mas perdeu o equilíbrio. Serhat deu um passo rápido e segurou-a pelo cotovelo.
— Nós estamos bem? — ele a olhava nos olhos, sentindo sua respiração.
— E quem somos nós, Serhat? — sussurrou ela. — Médicos? Pais? Líderes? Ou apenas pessoas cansadas de salvar todos, menos a si mesmas?
Estavam muito próximos, próximos demais, e nenhum dos dois se afastou.
— Se você cair agora — a voz dele estava rouca —, tudo desmorona.
Rengin colocou a mão no ombro dele, devagar, como quem busca apoio. Serhat estremeceu. Seus dedos tocaram de leve a face dela, e ela permitiu, não se afastando.
Ele a abraçou, puxou-a para mais perto… estava tão cansado de estar sozinho… sentia a solidão dela em cada fibra de sua alma.
Sem perceber, se beijaram — lentamente, sem pressa, sem urgência. Ela permitiu… respondeu, apertando-se contra ele. E então foi ela quem o beijou.
***
…os lábios dele ainda guardavam a lembrança daquele beijo. Serhat vestiu o jaleco. Rengin ajeitou a própria roupa. Não se olhavam; apenas um tremor passava por seus corpos. O ar no gabinete estava tão pesado que dava vontade de abrir a janela.
— Se você disser “nunca” — murmurou ele, olhando para o chão —, não vou perguntar “por quê” — tocou de leve o pulso dela, sentindo a batida acelerada.
Rengin soltou a mão com cuidado, pousando-a sobre o colo, depois a levou ao abdômen.
— Não vou dizer nada — virou-se de costas para ele. — Não sei — deu de ombros —, não sei o que foi isso.
Serhat assentiu, sem que ela visse. Foi até a porta, olhou para trás, como se quisesse falar algo, mas se calou. Abriu a porta em silêncio e saiu.
Rengin ouviu a porta fechar atrás dele. Só então cobriu o rosto com as mãos e se curvou para frente, apenas respirando. Não queria dar nome ao que acabara de acontecer, ainda sentindo o tremor no corpo, ainda sentindo o toque dele na pele… permaneceu assim por muito tempo, percebendo cada célula do corpo voltar à vida. Ficou em silêncio, apenas respirando…
***
…ficando sozinha no silêncio do gabinete, ela apenas respirava, revisando no monitor os últimos resultados dos exames de suas pacientes. Houve uma batida hesitante à porta, quase educada. Bahar ergueu os olhos por cima dos óculos.
— Sim? — franziu levemente o cenho.
A porta se abriu e Adem Yurdakul entrou. Parou no limiar, segurando uma pasta fina e um tablet.
— Se veio para julgar — ela tirou os óculos e os pousou sobre a mesa —, eu entendo, mas não vou permitir. Um cirurgião não é Deus! Ele não pode garantir o desfecho — olhou-o nos olhos —, mas pode segurar um coração nas mãos e fazê-lo bater. Pode fazer o que está ao seu alcance — não piscou. — Hoje, ele fez isso!
— É só um minuto — respondeu ele num tom neutro, aproximando-se até ficar diante dela. — Não vou tomar seu tempo — fitou-a atentamente.
Bahar não tentou se levantar. Sentada diante dele, a mesa parecia um limite entre os dois. Dois lados, uma missão, inúmeros conflitos. Ele representava o sistema, ela não permitia que se humilhasse médicos.
— Apenas… — pigarreou — apenas queria lhe dizer pessoalmente.
As sobrancelhas dela se ergueram um pouco.
— Cinco anos atrás, perdi minha esposa — o rosto de Bahar não se moveu —, o professor Evren Yalkın estava naquela cirurgia. E eu… — ele se calou.
Bahar o observava sem pena, sem medo, apenas com atenção.
— Eu não consegui perdoar — admitiu enfim —, nem a ele, nem a mim.
— Não sou juíza para você — sussurrou Bahar.
Parecia que Adem não a ouvira; precisava despejar o que guardara por tanto tempo:
— Se ele tivesse errado hoje… eu me sentiria aliviado — quase sorriu. — É triste, não é? — buscava compaixão no olhar dela.
— Não, não é triste — disse ela bem baixo.
— Ele é um bom médico — reconheceu pela primeira vez. — Eu só não queria que ele fosse um bom médico — confessou em voz alta.
Bahar suspirou, entrelaçando os dedos. Adem se virou em direção à porta. Com a mão na maçaneta, disse sem olhar para ela:
— Sim, ele não é culpado, mas carrega a morte alheia como se fosse dele — suspirou. — Acho que ele sempre precisou de alguém que não tivesse medo de olhar na mesma direção — virou a cabeça, encontrando o olhar dela — e não desviar.
Adem saiu tão silenciosamente quanto entrara. Bahar permaneceu sozinha, sentindo o peso das palavras dele. Levantou-se devagar, pegou o jaleco no cabide e o colocou nos ombros.
Queria apenas respirar, e por isso se viu diante da porta para o terraço. Desde a primeira vez que conversaram ali, sempre parava por um instante antes de sair, como se fosse dar um primeiro passo. Difícil… fácil… simplesmente.
Empurrou a porta. A cidade respirava diante dela… e ele estava junto ao parapeito, sem jaleco… mais como um visitante que como médico. Ela caminhou devagar em sua direção.
Evren segurava um copo de papel, mas parecia ter esquecido de beber. Olhava para um ponto fixo, mas ela sabia que ele já sentira a presença dela. Ele sabia quem vinha. Bahar parou atrás dele.
Quantas histórias aquele terraço guardava. Quantas palavras ditas e, mais ainda, não ditas, entregues ao vento. Ficaram em silêncio, ela atrás dele.
— Ele veio falar comigo — disse ela primeiro.
Evren assentiu, sem se virar.
— Disse que você não é culpado — ela deu um passo e tirou o copo de sua mão.
Ainda estava cheio, mas o café já havia esfriado.
— Não é bem assim — suspirou ele. — Eu não errei… mas também não salvei.
Evren baixou a cabeça.
— Nenhum de nós é perfeito, Evren — disse ela suavemente, colocando o copo sobre o parapeito.
Estavam tão próximos que seus ombros quase se tocavam, quase como antes… só que não era mais como antes. Evren se virou, e seus olhares se encontraram.
— Pensei que você não viria — murmurou —, que iria embora.
— Eu já tinha ido… porque, naquela época, não estávamos prontos — disse ela, olhando-o nos olhos.
Evren estremeceu, uma sombra cruzou seu rosto. Silêncio dos dois lados. Já tinham dito muito, mas o essencial permanecia sem palavras — e essa era a verdade.
— Ambos — murmurou ele —, ambos não estávamos prontos — admitiu enfim.
Um leve sorriso tocou os lábios de Bahar:
— Agora eu vejo você — vivo, real, imperfeito, não o vencedor — você, Evren — suspirou. — E por que não perguntei? Porque escolhi o seu lado desde o início. Eu não lutei contra você, eu estava ao seu lado.
Evren estremeceu de novo, estendendo a mão lentamente. Seus dedos tocaram a mão dela com cuidado, inseguros.
— Ainda quer ficar ao meu lado? — sussurrou, sem desviar o olhar.
Os dedos dela se moveram sob os dele, e ele os apertou levemente, percebendo que, assim como na sala de cirurgia, não podia errar… ou podia? Ela errava, ele errava… nenhum dos dois era perfeito. Precisavam apenas aprender a aceitar os erros um do outro.
Ele soltou o ar, como se até então não tivesse se permitido respirar. Ficaram lado a lado, em silêncio, com a cidade se estendendo diante deles. A cidade respirava sua própria vida. Bahar estava ali… e esse “estar” já bastava por enquanto. Talvez ele quisesse mais — calor, atenção —, mas Evren sabia que teria de reconquistar a confiança dela passo a passo… ainda mais se ela permitisse, ainda mais se lhe desse uma chance.
Ela dava? Ele olhou para ela e encontrou o olhar de seus olhos azuis. Longo, atento… como sentira falta daqueles olhos, do calor dela, do seu perfume, da simples presença ao seu lado, de um toque… e os dedos dela se moveram de novo em sua mão, e ele apertou a palma dela com mais força… e o mundo ganhou novas cores. Um sorriso se abriu em seus lábios, seus olhos brilharam. Só ela podia devolver-lhe a vida com a simples presença, dar-lhe milhões de motivos para continuar.
Mas ela não sorria, e ele franziu a testa.
— O que foi? — perguntou.
— Logo vão levar o Reha para a cirurgia e… — ela virou-se para as janelas do hospital, mas não soltou a mão dele — há um grande problema, Evren, muito grande.
— O quê? — ele se tensou, sentindo os dedos dela tremerem na sua palma.
— Você precisa falar com a Rengin — começou ela.
— Se for sobre o departamento… — interrompeu ele.
— Não. É o Cem — Bahar mordeu o lábio, soltou o ar do peito. — Tenho medo de que seja muito sério — balançou a cabeça. — Agora ele realmente se meteu em encrenca, e não é mais só sobre a pulseira, Evren — sua mão subiu, quase tocando os cabelos dele, mas recuou —, é melhor você falar com a Rengin — pediu.
— Você está me assustando — havia inquietação na voz dele.
Bahar não teve tempo de responder: o celular no bolso vibrou e logo tocou. Tirou-o e, vendo quem era, mostrou para Evren:
— Cagla — sussurrou —, preciso atender. Rengin — lembrou, tocando de leve o peito dele com o dedo, antes de se afastar rapidamente, atendendo enquanto andava.
— O quê? — o grito dela chegou até ele; ela parou por um instante. — Quando? — o passo acelerou. — Onde você está? — e ela começou a correr.
Evren partiu atrás dela. Corria sem nem saber por quê, apenas sentia que era necessário… que precisava estar com elas… com as duas.

CAPÍTULO 4. PARTE 4

— Bahar, para onde estamos correndo? — Evren a alcançou perto do elevador.
— Çağla está na recepção, ela respirava com dificuldade, a mão no peito enquanto apertava o botão.
— O que aconteceu? — ele afastou sua mão do botão, envolvendo-a na sua.
— Não sei… — seu olhar era aflito, e ele não conseguia tranquilizá-la, restabelecer aquele contato de antes, não funcionava mais.
Ela se desvencilhou e saiu disparada em direção à escada rolante. Bahar pulava dois degraus de cada vez, querendo chegar o mais rápido possível até sua amiga. Evren não ficou para trás — a angústia dela o contagiou.
— Bahar, você está me assustando! — gritou ele enquanto descia, também pulando degraus.
Parecia que ela não ouvia nada: o pulso batia nos ouvidos, ela não conseguia pensar.
— O que? — exalou ela, tirando o cartão da mão de Ferdi.
Doruk já estava conectando os sensores. Lançou um olhar lateral para Evren. Ferdi havia passado um jaleco para Evren, que o vestiu. Ferdi ofereceu luvas para Bahar, mas ela entregou o cartão de Çağla e se voltou para ela.
— Paciente, 44 anos, começou Doruk.
— Pare! — interrompeu Bahar, examinando rapidamente a amiga. — O que houve, Çağla? — ela apoiou as mãos nos ombros de Çağla.
Os lábios dela tremiam. Cobria a barriga com as mãos, como se protegesse algo extremamente precioso.
— Não sei…, sussurrou, queima aqui embaixo, do lado esquerdo, uma dor surda, fraqueza e sangramento — não é menstruação. Perdi a conta… — olhou para Bahar — quantos dias se passaram desde o… ocorrido?
Bahar ficou pálida. Evren estremeceu.
— Quando foi a ovulação? Você estava monitorando, não? — perguntou Bahar, observando Evren medir-lhe o pulso e comparar com os monitores.
— Sim, ela assentiu, imóvel no leito — Quantos dias se passaram? — repetiu a pergunta.
Bahar olhou para Evren como perguntando — quando você trouxe o relógio de Timur?
— Cinco, talvez seis, ele balançou a cabeça, incapaz de contar — Me perdi nos dias, confessou — quando preparava a cirurgia da Aliya.
— Cinco, confirmou Bahar, virando-se para Çağla.
— Eu e ele…, os olhos de Çağla se encheram de lágrimas, antes… eu lembro… teve ovulação.
— Calma, Bahar inclinou-se para ela, sentindo o tremor — agora vamos fazer um ultrassom, ouviu? Imediato. — endireitou-se — Doruk, solicite exame de sangue para Beta HCG, ordenou.
— Doruk também é médico, lembrou Evren, recebendo um olhar repreensivo.
— Você é médico, Doruk, não mais assistente! — defendeu Evren.
— Este não é o momento para isso, reagiu Bahar com impaciência.
— Ele tem seus próprios pacientes! — insistiu Evren, visivelmente exasperado.
— Vou coletar o sangue, disse Doruk, estendendo a mão, e Ferdi prontamente lhe entregou tudo o que precisava.
— A dor irradia para as costas, continuou Çağla enquanto Doruk coletava sangue e Evren observava de relance, é como se o chão sumisse debaixo de mim — senti ontem…
Bahar encostou-se na bochecha dela, acariciou seus cabelos.
— Isso não é psicossomático, eu sei, Bahar, ela soluçou — há algo vivo lá dentro, entende?
— Pode ser qualquer coisa, sussurrou Bahar em seu ouvido.
— É minha última chance, Bahar — não tenho mais óvulos, e a idade… — Çağla agarrou seus ombros, afastou as mãos da barriga — só você consegue fazer algo por mim. Não é gravidez ectópica, certo, Bahar? — a voz ficara mais alta.
Um silêncio denso caiu sobre o ambiente. Evren recuou abruptamente, como se tivesse sido atingido. Bahar paralisou-se, imóvel sobre Çağla, inclinada sobre ela. Ferdi arregalou os olhos. Doruk empalideceu. Além da cortina fina que separava o grupo, a vida continuava – ali, parecia haver um vácuo.
— Sem dramatizações, por favor, disse Bahar, endireitando-se lentamente, com olhar calmo e movimentos decididos. Uma única palavra — e ela reuniu toda sua força, suprimindo as emoções, e fez um sinal com a mão.
Ferdi trouxe rapidamente o aparelho de ultrassom. Evren afastou-se. A respiração ficou pesada, o olhar tenso, suor surgia em sua testa… era como se revivesse aquele momento — só que ela não era a paciente agora, era Cela. Bahar ajeitou o cabelo, prendeu com um lápis, sorriu para a amiga, mas o olhar permaneceu firme… não vazio, não distante — vivo, e um pouco enigmático.
Ele nunca a vira assim — parecia que naquele instante Bahar desconectara de tudo, exceto de sua paciente — já nem era mais amiga, mas um caso médico que exigia solução.
— Então são seis dias, Çağla murmurou, voltando-se para o monitor — mas Bahar olhou para Evren, que se pôs de pé, bloqueando-a — quanto à ovulação, tenho certeza, olha pra ele.**
Bahar continuou o exame. Doruk e Ferdi estiveram atrás dela. Evren ficou à frente. Çağla olhava nervosa ora para Bahar, ora para Evren — ninguém falava.
— Passem todos, por favor, ordenou Bahar, afastando-se um pouco da maca.
— O que? — tentou se levantar, mas Evren a deitou novamente.
— Vou fazer outro ultrassom, com calma, pediu Bahar — preciso de outro ultrassom.
— O que você viu? — exigiu Çağla, apertando o lençol. O quê?
— É cedo demais, foi tudo o que Bahar disse — então chamou: Evren?! — olhou para ele com uma pergunta silenciosa.
Ele pareceu preso no chão, incapaz de se mover. Tentou encontrar o olhar dela, tentar entender sua emoção, mas nada conseguia decifrar… ela realmente se tornara uma médica — uma verdadeira médica — não deixava transparecer o que sentia, até que quisesse. Evren deu um passo com esforço, e os três saíram para além da cortina.
— Bahar, chamou Çağla com ansiedade.
— O útero está vazio, sussurrou Bahar — preciso examinar o endométrio. Espere um pouco, pediu ela.
Çağla recostou-se no travesseiro. Mordia os lábios enquanto as lágrimas deslizavam pelas bochechas. As palavras de Bahar ecoavam nos seus ouvidos — útero vazio.
Ao escutá-las, Evren cerrou os punhos. Queria destruir todo o setor de emergência, mas apenas ficou ali, parado perto da cortina, com as pernas ligeiramente afastadas, olhando fixamente à frente, como se pudesse ver através do tecido, como se pudesse ler Bahar.
— O endométrio está espesso, ouviu a voz baixa de Bahar, como antes da implantação.
A voz calma e controlada deveria tranquilizá-lo, mas não… dentro dele uma tempestade já se formava. Tinham perdido seu bebê, e não haviam conversado sobre isso, nem sobre a perda… tudo foi rápido demais… E agora Çağla, um lembrete vivo do que havia sido perdido.
— Há líquido na trompa esquerda, ele mal conseguiu entender as palavras, e as seguintes o fizeram se apoiar no balcão — uma pequena formação, cerca de 0,7 cm.
Evren fechou os olhos. Tudo estava se repetindo. Uma dor intensa o atravessou. O corpo enrijeceu, o ar faltou… Olhava para a cortina. Como ela estava? Como Bahar estava vivendo aquilo? Queria puxar o tecido, entrar, apertá-la contra o peito, acariciar seus cabelos, estar ao lado dela… mas só conseguia respirar com dificuldade. E ela… continuava. Bahar não podia parar.
— O quê? — a voz de Çağla saiu abafada, como se toda sua vida tivesse sido drenada junto à pergunta.
Evren encostou a testa na estrutura metálica. Estava tenso ao extremo, tentando ouvir a sentença de Bahar… ele já sabia qual era, mas não entendia por que ela não a dizia… até Çağla já tinha percebido, e Bahar permanecia em silêncio… por quê? Evren fechou os olhos e engoliu seco.
— Pode ser… uma blastocisto precoce, Bahar começou, mas não era o que Evren esperava ouvir, nem o que Çağla imaginava. Talvez ainda não tenha se implantado, mas está lá. Eu sei que parece loucura, mas se agirmos agora — temos uma chance, só algumas horas — e parou de falar.
Evren prendeu a respiração. O coração batia tão forte que pulsava nos ouvidos. Inclinou-se, tentando absorver cada palavra dela.
— Eu posso tentar, a voz de Bahar o fez abrir os olhos.
Ele não acreditava no que ouvia. As lágrimas já haviam se acumulado nos olhos, mas ele sorriu. Aquela era Bahar… sempre tentando onde os outros desistiam. Ela não largava a esperança… ela tentava… mesmo que não fosse pelo caminho tradicional… como ele próprio faria. E ele estava feliz por estar ali, vivendo isso com ela.
— Doruk, a voz de Bahar estava firme, prepare a sala de cirurgia. Quero um especialista em reprodução e um embriologista. Imediatamente!
— Mesmo que seja experimental, estou dentro, disse Çağla, agarrando-se à chance. Bahar não tinha desistido.
— Vamos fazer uma laparoscopia. Eu lavo a trompa, se encontrarmos o embrião, seguiremos o protocolo de incubação e tentaremos cultivá-lo, explicou Bahar, levantando-se.
Evren reconheceu o som das rodinhas no chão.
— Não é oficial, nem de manual, mas é a única chance, Çağla. Sua e dele.
— Eu confio em você, disse Çağla. Evren sorriu. Ele também confiaria em Bahar… e confiaria mesmo. Passo a passo, lembrou a si mesmo. — Vai.
Com essa permissão, tudo se colocou em movimento. Doruk saiu correndo para um lado, Ferdi para o outro. Empurraram Çağla rumo ao elevador, e Evren não se afastou de Bahar. Estava colado a ela, como uma sombra.
Ela lutava pela vida quando qualquer outro já teria desistido. Ela acreditava. Ela dizia sim à vida — essa era Bahar.
— Evren, finalmente ela se dirigiu a ele, pousando a mão em seu cotovelo.
— Bahar, ela evitava seus olhos, olhava para qualquer outro lugar.
— Daqui pra frente, sigo sozinha, disse, e sua mão escorregou do braço dele. — Reha, Cem, lembrou.
— Não se preocupe com Reha, respondeu ele prontamente — eu cuido disso, estarei por perto. Serhat é um bom médico.
— Cem, ela estremeceu. Seu olhar percorria as paredes do corredor.
— Eu falo com Rengin, disse ele, apertando sua mão gelada.
— O notebook dele está no meu gabinete, em cima do armário. Yusuf colocou lá, ela quase virou o rosto. Sim, Yusuf está na sua casa com Cem. Evren, por favor, não faz besteira, — e aí, ela o encarou. Ele é seu irmão. Sua responsabilidade. — sussurrou. São nossos. Do jeito que são.
— Bahar, ele franziu o cenho — então o vídeo, Naz… — finalmente as peças começavam a se encaixar.
— Evren, ela encostou a testa em seu ombro por um instante e logo se afastou, Naz é uma bobagem comparado ao que ele fez, disse, dando-lhe um tapinha leve no ombro. Naz, seu tom mudou — ela o fitava, como tentando decifrar.
— Bahar, não há nada. Nunca houve, Evren se perdia naquele azul profundo… mas algo mudou no olhar dela ao lembrar de Naz e dele com ela.
— Agora não, ela cortou, de súbito se tornando a doutora Bahar — aquela que ele ainda estava aprendendo a conhecer, que queria descobrir, fazer parte da sua vida. — Çağla. — e entrou no centro cirúrgico.
Evren ficou ali parado, ainda sentindo o perfume dela, o calor da pele em seu ombro. Ela estava perto, mas ainda não com ele — mesmo assim, o calor se espalhava em seu peito. Com gestos tão pequenos, ela lhe dava esperança, como se dissesse: ainda há algo possível… ou talvez nada precise mudar… só seguir em frente, de um novo jeito.
Çağla. O bebê. Ele suspirou e caminhou pelo corredor… não haviam conversado, era como se ele não existisse… Evren olhou para trás. Lá dentro, na sala de cirurgia, Bahar lutava sozinha pela vida.
“Não agora”… ecoou a frase dela.
Se não agora… então quando?
***
…isso ficaria para depois. Agora ele precisava falar com Rengin e, em seguida, correr até os familiares de Bahar, até os seus mais próximos. Ele prometera que estaria com eles durante a cirurgia de Reha. Queria muito ficar e assistir, ver tudo com os próprios olhos, mas a promessa feita o obrigava a se afastar da sala de cirurgia de Bahar.
Evren nem teve tempo de sair do andar — foi Rengin quem veio em sua direção, com Ahu caminhando apressada ao lado, e Ferdi logo atrás. Rengin não apenas caminhava — ela avançava com firmeza, e seu olhar tenso não prometia nada de bom.
— O que está fazendo, Evren?! — atacou ela logo de cara. Adem Yurdakul acabou de sair do hospital, ainda estamos sob observação do conselho… e você resolve quebrar todos os protocolos de novo?! — tentou passar por ele, mas Evren abriu os braços, bloqueando a passagem:
— É a Çağla, Rengin. Bahar sabe o que está fazendo. Confia nela, disse ele, firme como uma parede diante dela. Não, Rengin. Não! Não temos tempo. Não interrompa a cirurgia — eles merecem uma chance!
Rengin lançou um olhar para Ahu e Ferdi, depois voltou os olhos para Evren, inclinando-se em sua direção:
— E como você pretende justificar isso no protocolo? — sussurrou. Como vai descrever a cirurgia? Lá dentro estão um embriologista e um especialista em reprodução, lembra?
— Preparação para FIV, murmurou Evren. Você conhece o procedimento. Bahar está realizando a coleta de óvulo.
Rengin levantou as mãos num gesto de dúvida:
— Óvulo? — perguntou em voz baixa. Ou…?
— Escuta… — Evren tentava controlar a respiração — ela está lutando.
Rengin fechou os olhos por um instante.
— Como sempre, — balançou a cabeça. Vocês agem, e sobra pra mim responder. — Tentou passar de novo, mas ele segurou de leve seu cotovelo.
Ahu e Ferdi estavam logo atrás, como se esperassem uma ordem de Rengin. Esticavam o pescoço tentando ouvir, mas Evren e Rengin falavam baixo demais. E então, juntos, eles se viraram e seguiram.
— Vamos só observar, propôs Evren, e entraram na sala ao lado, a de observação.
A luz ali era suave, e além do vidro, Bahar já havia iniciado o procedimento. Evren se aproximou da janela — o coração batia num ritmo irregular, ansioso. Ela estava lá, completamente concentrada, sem imaginar que estavam assistindo.
— Çağla, Tolga… precisamos tentar, sussurrou Evren.
Rengin sentou-se em uma cadeira, desviando o olhar. Não conseguia encontrar uma forma de justificar o que se passava ali dentro.
— E agora, Evren? O que pretendem fazer? Bahar entrou sem um plano definido, disse, observando as costas dele, os ombros tensos.
— Ela tem o plano dela, respondeu Evren na hora, sem tirar os olhos do vidro.
— Isso é loucura, murmurou Rengin, escondendo o rosto nas mãos, inclinando-se para frente.
Ela sabia que não poderia interromper a cirurgia — era a Çağla quem estava lá. Mas também não fazia ideia de como explicaria aquilo ao conselho, caso pedissem os relatórios.
— Acesso laparoscópico à trompa esquerda, disse Evren. Isso entrará no diário cirúrgico. Extração de líquido claro, e após uma pausa, completou: da região ampular.
Rengin quase gemeu mentalmente:
— Isso nunca foi feito, murmurou. É tudo teoria.
— Mas isso não significa que seja impossível, rebateu Evren. Ele encostou a testa no vidro, prendeu a respiração. Um tremor atravessava seu corpo. Os dedos estavam brancos de tanta tensão.
Rengin pensou em se levantar, mas não conseguia nem olhar. Bastava ver Evren — a tensão, a paixão, a fé cega nas mãos de Bahar.
— Escuta, murmurou ele, ligando o áudio da sala cirúrgica. Isso é o limite do possível!
— Você ainda não escolheu onde se fixar, a voz tranquila de Bahar soou. Deixa eu te dar uma chance de encontrar um lar.
Rengin fitou as costas de Evren. Havia muito tempo que não o via assim — tão completamente tomado por algo. Aqueles dois estavam fazendo algo incrível. Verdadeiramente além dos limites do possível. Ela fechou os olhos.
— Formação microscópica identificada, em forma de gota, com suspeita de blastocisto precoce, ouviu-se a voz do embriologista.
— Incrível, — disse a voz masculina do especialista em reprodução. Ainda não implantado, mas se sobreviver até amanhã nesse meio… podemos tentar a transferência.
— Não é um embrião, — a voz de Bahar era contida, sem emoção, nem alegria, nem ansiedade, apenas constatação. — É uma chance. Para Çağla e Tolga.
— Transferido para meio de cultivo, — anunciou o embriologista, e o som fez Rengin abrir os olhos.
Evren sorriu com os olhos marejados. Ela conseguiu. Desligou o som e se virou para Rengin.
— Isso ainda não quer dizer nada, Evren, — a voz de Rengin tremia, apontando para a sala de cirurgia.
— O ultrassom revelou uma anomalia tubária. A laparoscopia extraiu líquido, — seus olhos, vermelhos pelas lágrimas, brilhavam de entusiasmo. Bahar acabara de fazer algo que parecia impossível. — Identificaram a blastocisto. Agora vem a incubação e a transferência, como em uma FIV convencional. Não é mágica, Rengin. É técnica inovadora para casos complexos.
— E se não se desenvolver? Já pensaram nisso? Se nem mesmo começar a se dividir? — perguntou Rengin.
Evren afastou-se da janela e sentou-se ao lado dela:
— Saberemos amanhã, — ainda ofegante. — Sem previsões. O importante é que tentamos.
Ficaram sentados diante do vidro, onde os instrumentos já estavam sendo retirados. Çağla fora levada. Bahar não estava mais visível. Evren compreendia por que ela lhe pedira para estar com sua família — agora, Bahar estava com os especialistas, acompanhando, lutando por aquela vida que tinha uma minúscula chance.
Rengin precisava mudar o foco, ou sua cabeça explodiria. Suas pernas quase não a sustentavam.
— Bahar falou com você? — perguntou ela, soltando um suspiro e se endireitando.
Ela não interrompeu a cirurgia — tinha planejado, mas não conseguiu. Não podia fazer isso com Çağla. Nem com Bahar.
— Sobre o quê? — Evren demorou a entender.
Sua mente vagava para aquele dia, cinco meses atrás, quando a própria Rengin lhes dera o diagnóstico — gravidez ectópica — e sugerira a única solução. Será que teriam tido uma chance como essa? Será que teriam enfrentado tudo o que Çağla estava disposta a enfrentar?
Rengin tocou de leve seu ombro:
— Não seria o caso de vocês, disse ela calmamente. A implantação já havia ocorrido. Você entende isso. Não teria funcionado.
O olhar de Evren endureceu. Não queria discutir isso com ninguém. Ele e Bahar nem sequer haviam conversado sobre. E tudo que Tolga dissera naquele dia não era nada do que ele precisava ouvir.
— O que o Cem fez? — perguntou diretamente, limpando o suor da testa.
Sim, o coração ainda batia acelerado, o peito apertava, e a respiração era difícil. Mas ele não queria falar sobre o filho perdido com ninguém além de Bahar.
Rengin o encarou em silêncio.
— Bahar disse que eu devia falar com você sobre o Cem, — lembrou ele. — O que ele fez além do vídeo com a Naz?
Rengin cobriu a boca com a mão. Também havia aquele vídeo do beijo… Cem o fez e jogou no grupo dos médicos. Ela franziu a testa, olhando nos olhos de Evren:
— Cem teve acesso ao sistema de vigilância, — falou com esforço. — Ele baixou as imagens da cirurgia de Bahar — quando você entrou, quando Serhat apareceu. — ela fez uma pausa, lutando contra o impacto do nome do homem que recentemente… a beijara. Ele publicou tudo online. Achava que iria comprometer Bahar… — ela respirou fundo, — mas quem ficou exposto foi você. Seu novo setor. E foi por isso que mandaram Adem Yurdakul.
Evren demorou a entender. Olhava para ela e suas palavras pareciam se encaixar devagar em sua mente.
— O quê? — a voz saiu rouca quando a ficha caiu.
— Ele quebrou o código de ética. Invadiu a rede interna. Baixou os vídeos do nosso servidor e os divulgou, — disse Rengin, desviando o olhar. — Isso é crime, Evren. Não é só infração administrativa.
Evren cerrou os punhos.
— Por quê? — escapou dele, entre dentes cerrados.
— Queria separar vocês, talvez. Você e Bahar. — ela deu de ombros. — O que se passa na cabeça dele…
Evren levantou-se, caminhou até o vidro. A sala de cirurgia já estava vazia, sendo higienizada, talvez para receber o próximo paciente. Seu corpo tremia levemente. Permanecer ali era um esforço. Queria ir até Cem. Queria sacudi-lo… talvez até socá-lo… gritar com ele. Mas ficou parado, consciente de que não era o momento. Bahar. Naz. O vídeo. Crime.
— Talvez tenha se assustado, — sugeriu Rengin.
— Levei ele pra minha casa. Ele me procurou. Pediu que eu cuidasse dele, — Evren não conseguia nem olhar nos olhos dela. — Ele é meu irmão. Mas eu não sei o que fazer.
Pela primeira vez, sentia-se verdadeiramente atordoado com as atitudes de Cem. A traição pelas costas… até gritar parecia inútil.
— Você tem que conversar com ele. O conselho quer um relatório, — disse Rengin. — Haverá consequências, Evren. Mesmo sendo seu irmão. Os dois precisam estar preparados.
Evren se virou devagar para ela — “São nossos. Somos responsáveis por eles,” — lembrou-se das palavras de Bahar. Ele nunca se esquivou, mas agora… agora, simplesmente não sabia o que fazer.
— E depois? — perguntou ele, com um traço de confusão na voz.
Rengin levantou-se. Agora conseguia se aproximar do vidro. Não havia mais Çağla, nem Bahar.
— Já sentiu que alguém próximo virou quase um estranho? — perguntou.
Evren a olhou, surpreso.
— Mas o Cem não é estranho. Ele é frágil. Não percebeu que você é o porto seguro dele, — disse ela. — E você… não viu que ele tem medo. No fundo, ele é como uma criança, Evren. Como aquelas que agem errado só para chamar a atenção dos pais.
— Ele não é um monstro, Rengin, — disse Evren.
Mas então… quem era? Quem era capaz de ferir Bahar assim? De espalhar suas imagens, sabendo que isso a machucaria? Quem fazia vídeos de um beijo com Naz e os divulgava? Quem era esse Cem? Talvez ele nunca o tivesse conhecido de verdade.
— Parla queria contar à Bahar sobre mim e Timur, — confessou Rengin. — Fez uma colagem com fotos nossas e queria entregar à Bahar por meio da Umay. Timur impediu a tempo. Crianças fazem o que acham certo. O que acham justo. — ela suspirou. — Não prometo nada, mas tentarei defendê-lo… se você me disser que ele é… influenciável. Entendo que ele está perdido. — desviou o olhar. — E sabe… nisso ele se parece com você. Você aprendeu a se calar. Ele, a gritar. — franziu ligeiramente a testa. — Mas os dois não sabem pedir. E os dois fogem no primeiro vendaval. Mas existe responsabilidade adulta, Evren — não é proteger, é responder. Por si, pelo irmão… — fez uma pausa, — por Bahar. Como hoje. Aqui.
Evren quase sorriu — ela estava absolutamente certa.
— Ela disse “não agora,” — confessou ele, de repente. — E se for tarde demais? — pela primeira vez, ela ouviu medo em sua voz — e ele não o escondia.
— Primeiro fala com o Cem, — suspirou Rengin. — Depois com a Bahar. Com clareza. Sem raiva. Sem mágoa.
Evren fechou os olhos. Então, juntos, encostaram os ombros na parede, olhando para a sala de cirurgia sendo lavada, esterilizada, apagando todos os rastros… menos os do registro cirúrgico. Ali tudo permanecia, impresso em palavras. E eles apenas… ficaram em silêncio.

CAPÍTULO 4. PARTE 5

 … esse silêncio e essa quietude começaram a corroê-lo por dentro. O medo de ser preso deu lugar a um desejo selvagem de fazer alguma coisa. Lá fora, o sol já se inclinava para o zênite, pintando o Bósforo de laranja. Algumas iates se apressavam para zarpar e não perder o pôr do sol, enquanto outras retornavam ao cais. Tudo ao redor deles se movia — e eles simplesmente permaneciam sentados.
Cem saltou de pé, sem conseguir mais suportar a cena: Yusuf serviu outra xícara de chá e fez um brinde — para si mesmo e para ele, como se nada estivesse acontecendo. Cem atirou o prato de lado. Ele bateu na parede e caiu no chão, estilhaçando-se em pedacinhos. O brinde caiu por cima do prato, com a manteiga para baixo.
Yusuf pousou a xícara na mesa, e Cem começou a se agitar pelo apartamento. Agarrava tudo ao alcance, metia no mochilão ou atirava para o lado, sem se importar com a bagunça que espalhava, quebrando a ordem habitual no apartamento de Evren. Ah, Evren — um riso torto surgiu nos lábios de Cem. Tudo pertencia a alguém, menos a ele. Ele era um intruso. Pois bem, tiraria todos desse incômodo de tê lo por perto.
— O que está fazendo? — perguntou Yusuf, atento.
— Arrumo minhas coisas e vou embora — respondeu Cem, de modo brusco.
— Para onde? — Yusuf ergueu-se.
— Tanto faz — rosnou Cem, enchendo a mochila com o carregador do celular, os fones de ouvido — Não aguento mais ficar aqui. Não aguento! — meteu a camiseta no mochila, esmagando-a. — Evren não fala nada, não aparece, não liga nem manda mensagem! Aqui está tão silencioso quanto um necrotério! — gritou Cem, com a voz desgarrada.
Yusuf contornou a mesa:
— Você já esteve em um necrotério? — perguntou, com calma.
Cem sequer o ouviu:
— Parece que já decidiram tudo — seu olhar corria de um lado para o outro, como ele mesmo. — Sem mim!
— Ninguém está te expulsando — tentou acalmar Yusuf — Estamos apenas esperando. Sei como esperar dói.
— Não quero que decidam como se livrar de mim! — explodiu Cem — Eu vou sair por minha conta! Não suporto olhar para Evren com aqueles olhos — entendo tudo! — disse, com fúria. — E Bahar? Onde está ela? Por que ninguém me informa o que vai acontecer?
Cem abriu o armário e arrancou o casaco do cabide. Pegou rapidamente um tênis e, ao deixá-lo cair, ainda o chutou com força.
Yusuf se esquivou a tempo para não ser acertado; o tênis voou pela janela, não quebrou o vidro, mas bateu com um baque seco e caiu no chão.
— Você não vai a lugar algum — disse Yusuf em tom baixo — Não vai sair daqui!
Cem parou, parou de correr, de enfiar as coisas na mochila. Congelou por um instante, voltou-se para Yusuf:
— Você não pode me impedir! — sorriu, amargo. E pendurou a mochila no ombro esquerdo.
— Posso sim — a firmeza entrou na voz de Yusuf — Porque prometi a Bahar! E porque, se você sair agora — tudo acaba.
— Já acabou! — explodiu Cem.
— Não. O fim é quando você estiver morto. Aí é tarde demais para consertar qualquer coisa — continuou Yusuf — Se você está vivo, respirando — ainda há saída! Sempre! E você quer consertar tudo — ele assentiu com a cabeça — só que tem medo de que não te perdoem. Então, quer fugir. Fugir de você mesmo, das pessoas, da polícia? Quer fugir o resto da vida?
Cem jogou a mochila no chão:
— Não sei o que é ser necessário — falou com o coração apertado — Você também não tem pais, mas ainda é necessário para alguém? Por que escolheram você e não a mim? — gritou.
— Tenho um pai — ele se corrigiu — um pai biológico, e sim, para ele eu não sou necessário. É escolha dele, e eu aceito isso. Não me imponho, mesmo sabendo quem ele é e onde está — confessou. — E você nunca descobrirá, se fugir — disse, mantendo-se próximo à porta. — Mas, se ficar, aos poucos, entre dor e silêncio — poderá saber. Eles não te expulsaram, foi você quem fugiu.
— De que adianta saber que ele existe e não procurá lo? — Cem olhava para ele, confuso — Por que não foi até ele quando sua mãe morreu?
— Não é orgulho — deu de ombros Yusuf — É aceitação. Não porque eu não gostaria de ir — até gostaria — mas porque ele sabe que existo e escolhe não participar da minha vida, e esse é o direito dele.
Cem ficou sem jeito. Baixou a cabeça, sentou-se no chão e abraçou os joelhos. Lembrou-se tão claramente de si mesmo… e agora parecia que invadira a vida de Evren… Talvez tivesse sido isso mesmo… fugia então também, fugia porque cometeu um erro e procurou proteção no irmão mais velho que sabia de sua existência, mas que escolheu não estar com ele.
— Ele não virá — sussurrou Cem, estremecendo.
— Virá. E você não precisa arrombar a porta — ele se sentou no braço do sofá — Você tenta fugir, mas espera que o impeçam. Cem, eu vou te impedir. Você não está sozinho.
Cem olhou para ele uma última vez e, então, baixou a cabeça novamente… o silêncio voltou, junto com a angústia e a espera sufocante na quietude…
***
… todos ficaram em silêncio, e Evren entrou bem no meio dessa quietude de espera. Todos os membros da família de Bahar se viraram para encará-lo; estava claro que esperavam ver ela — não ele… pois bem… teriam que se acostumar.
Gülçiçek estava sentada no sofá, apertando nervosamente as mãos. Nevra permanecia ao seu lado. Siren mexia em um tablet. Parla mantinha-se próxima de Umay. Uraz deu um sobressalto ao vê-lo, mas Evren, ignorando totalmente seu olhar, foi direto até Gülçiçek.
— A cirurgia correu sem complicações — informou ele, dirigindo-se a Gülçiçek — o professor Reha já está na UTI sob observação. O professor Serhat logo virá falar com vocês.
Gülçiçek desatou a chorar, pressionando um lenço contra o rosto. Nevra abanava as mãos diante dela, tentando acalmá-la. Os demais permaneceram em silêncio por um instante, como se demorassem a compreender o que acabaram de ouvir.
— Evren estava na cirurgia — foi Siren quem saiu primeiro do torpor.
Uraz apertou os lábios, lançando um olhar reprovador.
— Com que direito você fez isso? — explodiu Uraz — Quem te chamou?
— Uraz! — Siren moveu levemente a cabeça, tentando conter o marido.
— Siren — Evren virou-se para ela — por favor — ele ignorava completamente Uraz e seus olhares furiosos. — Umay — ele olhou para a filha de Bahar.
— Procurando o apoio delas — disse Uraz, levantando a voz. — Você não é da nossa família!
— Uraz! — disseram Siren e Umay ao mesmo tempo.
— Quarto 357, terceiro andar, ala esquerda — continuou Evren, sereno — lá está a Çağla. Bahar está ocupada, alguém precisa estar com ela. Já está despertando da anestesia.
— O que houve com ela? — exclamou Umay, levantando-se do sofá.
Parla a seguiu de imediato, tornando-se uma sombra involuntária de sua meia-irmã.
— O que houve com a Çağla? — sussurrou Siren.
— Depois — respondeu Evren secamente. — Por favor, eu fico aqui um tempo. Depois eu troco com vocês.
— Você não é nosso parente — disse Uraz, aproximando-se. — Vá para casa, para a sua Naz, é lá que está sua família!
Siren e Umay congelaram. Parla olhou assustada para Uraz. Nevra lançou um olhar, mas não se afastou de Gülçiçek; ofereceu-lhe água ao ver que a cor havia desaparecido de seu rosto.
Evren ignorava completamente Uraz. Ao ver o estado de Gülçiçek, franziu o cenho e foi até ela.
— Ai… — o copo escorregou das mãos de Gülçiçek, e ela levou a mão ao peito.
Todos correram imediatamente em sua direção, cercando-a.
— Vovó! — gritou Umay.
— Vovó, o que foi? — Uraz ficou desnorteado.
— Todos para trás! — ordenou Evren, ajoelhando-se diante dela. Segurou-lhe o pulso, verificando o pulso. — Dêem espaço, deixem entrar ar, respire, senhora Gülçiçek, apenas respire. Seu marido está bem, agora é sua vez de se acalmar, senão vai acabar na mesma ala que ele.
Ele falava com firmeza, e ela olhou para ele ainda segurando o peito. Aos poucos, começou a respirar junto com ele.
— Está tudo bem — ele quase sorriu — É só um pico de estresse — ele ainda segurava o pulso dela. — Seu marido está bem, e você também.
— Obrigada, Evren — murmurou Gülçiçek.
Ainda estava pálida, mas sua respiração se regularizou. Siren arrastou Uraz para perto da parede, com vontade de lhe dar um tapa, enquanto ele ainda tentava se justificar:
— Ele mora com a Naz, o que ele está fazendo aqui? — irritou-se Uraz.
— Estou aqui não por ser parte da sua família — disse Evren, pegando o copo das mãos de Umay e entregando-o à Gülçiçek, só então levantando-se — mas porque Bahar me pediu. Porque ela faria o mesmo. Porque eu quero estar aqui. Com vocês. Umay, Siren — ele lembrou — Çağla. Não quero que ela acorde sozinha — ele fez uma pausa, e completou — E Bahar também não gostaria.
Ele não disse mais nada. Evren afastou-se até a janela, enfiou as mãos nos bolsos e ficou ali. Estava um pouco à parte, mas via todos claramente, pronto para intervir a qualquer momento.
Uraz bufava do outro lado da sala, os punhos cerrados, os lábios pálidos de raiva, mas não insistiu mais para que ele saísse. Siren, junto com Umay e Parla, seguiu até Çağla, mas antes disso, abraçaram Gülçiçek, beijando-a nas duas faces. Nevra cruzava discretamente as mãos no colo, observando tudo. Evren viu a tristeza em seus olhos — e também o quanto ela havia mudado. Aquela mulher, que teve um impacto tão profundo na vida dele… se não fosse por ela, ele jamais teria ido parar num orfanato…
***
… era como se Bahar tivesse esquecido de casa, da família, de tudo no mundo. Seu universo se reduziu a uma única célula. No laboratório de embriologia, ouvia-se apenas o zumbido suave dos aparelhos. Ela e o embriologista estavam juntos diante do incubador, iluminado por uma luz suave, olhando para ele com uma esperança microscópica.
Bahar vestia um uniforme estéril. Ficava um pouco atrás do embriologista, sem atrapalhar, tentando até respirar com mais suavidade. Observava como ele ora se debruçava sobre o microscópio, ora voltava os olhos para o monitor, e depois retornava novamente.
Bahar sabia que poderia ter saído dali — aquilo não era da sua alçada direta — mas simplesmente não conseguia. Precisava ver com os próprios olhos aquela vida. Não permitia a si mesma duvidar, nem por um segundo, de que haviam conseguido.
— Temperatura? — perguntou em um sussurro, não se contendo.
— Trinta e sete — respondeu o embriologista, sem desviar os olhos do monitor. — Meio ambiente próximo ao natural. PH estável.
Bahar deu um passo à frente, quase sem perceber. Com as mãos nos bolsos do jaleco, não conseguiu conter o leve tremor nos dedos. Olhava fixamente para o monitor, sem piscar. Quando soltou o ar, prendeu a respiração novamente — até que um ponto apareceu na tela.
— Está viva — murmurou o embriologista, e após uma pausa, acrescentou — está se dividindo — agora havia triunfo em sua voz — cento e vinte e oito células. Começou. Fase de blastocisto expandido. Está estável!
Bahar inspirou profundamente, fechando os olhos por um instante. Suas pálpebras tremiam. Não era alívio — era esperança. Daquelas que dá medo acreditar.
— Ela escolheu viver — sussurrou Bahar, quase sem som.
O embriologista se virou para ela e a olhou com respeito. Não era o olhar de um médico, mas de alguém que acabara de presenciar um milagre, que tocara aquela magia com as próprias mãos.
— Amanhã é a transferência — sussurrou ele. — Se tudo continuar assim, vamos tentar.
— Ela já tem um nome — uma lágrima deslizou por sua bochecha — mas ainda não sabe disso. Só resista… estou com você.
O embriologista voltou a olhar para o monitor, e juntos ficaram ali, observando o núcleo brilhante, pulsante. Bahar sabia que ele poderia dizer que eram apenas células — mas ela já sentia que havia alguém ali… alguém que se agarrava à vida com toda a força…
***
… a persistência — sempre fora a marca mais forte de Çağla. Sempre determinada, ativa, alegre… agora, porém, estava irreconhecível. Um pouco perdida, pálida, deitada na cama de olhos fechados, com as mãos pressionadas sobre o ventre. Assim que Siren, Umay e Parla entraram no quarto, ela abriu os olhos para ver quem era. Claramente não era quem ela esperava — então voltou a fechá-los.
Umay puxou uma cadeira para mais perto da cama. Parla se afastou até a janela e ligou o celular. Siren pegou o prontuário médico e começou a ler com atenção. Seus dedos tremiam ao virar as páginas.
— Como você está? — perguntou Umay baixinho. — Quer um pouco de água?
— Agora não — respondeu Siren antes que Çağla dissesse algo, fechando o prontuário. — É melhor só umedecer os lábios. Daqui a duas horas, talvez um pouco de água, em goles pequenos. Como você está? — perguntou então, voltando-se para ela.
Çağla focou os olhos nela e viu o que segurava.
— A cabeça está um pouco tonta — sussurrou Çağla, observando Siren deixar o prontuário na mesinha.
— É o efeito da anestesia — respondeu Siren, olhando para ela com uma certa cautela.
— Foi algo sério? — preocupou-se Umay. — Que cirurgia foi essa? E onde está a mamãe?
— Eu também quero ver sua mãe — Çağla passou a língua nos lábios ressecados. — Quando ela vai vir? Por que está demorando tanto?
Umay olhou para Siren, mas esta já umedecia uma gaze com água. Entregou-a a Umay, que gentilmente umedeceu os lábios de Çağla.
— Vamos esperar a Bahar juntas — sussurrou Siren, puxando outra cadeira. — Ela vai vir, com certeza — esforçou-se para sorrir.
Sentou-se ao lado de Umay. Parla ergueu os olhos do celular, observou-as por um instante e depois voltou a se concentrar na tela.
— Você está grávida? — perguntou Umay em tom muito baixo.
Çağla soltou um soluço e mordeu o lábio para não chorar. Siren olhou para Umay e balançou a cabeça levemente, tentando, com o olhar, fazê-la calar. Apertou a mão de Çağla. Assim que ouviu a pergunta, Parla largou o celular e se aproximou.
— Estava — confessou Çağla. — Ainda tenho esperança — completou.
— Como assim? — Parla olhou para Siren, que abaixou a cabeça, evitando o olhar.
Agora foi Siren quem lançou um olhar firme para Parla, pedindo silêncio. Çağla fechou os olhos de novo, mantendo as mãos no ventre. Umay virou-se para Siren, tentando perguntar com os olhos, e Siren respondeu da mesma forma — apenas pedindo que esperasse, em silêncio.
— Você não está sozinha — sussurrou Umay, quando o diálogo silencioso terminou, mesmo sem ter recebido respostas.
— Nós somos sua família — murmurou Siren, mesmo que Çağla não estivesse vendo.
— Estamos aqui com você — completou Parla, dando de ombros. De fato, não entendia tudo ainda — nem ela, nem Umay — mas queria apoiá-la.
— Obrigada — respondeu Çağla, também em voz baixa. — Que a Bahar venha logo… — havia súplica em sua voz.
Umay inclinou-se e acariciou seus cabelos. Ela compreendia que Tolga não voltaria… assim como seu pai… e se Çağla perdesse o bebê — seria mais um golpe, um golpe duplo.
Sim, essa não era a mesma Çağla de antes. Ali estava uma mulher que parecia ter colocado a vida em pausa. Paralisada numa espera silenciosa. Só Bahar poderia devolver-lhe a esperança. Bastaria uma palavra… um simples “sim” — e ela voltaria a seguir em frente. Siren compreendia isso, mas as meninas nem sequer podiam imaginar o que se passava na alma de Çağla.
Parla enrolava uma mecha de cabelo no dedo, mas não pegava mais o celular. Umay encostava a palma da mão na face de Çağla. E apenas Siren tentava entender de verdade o que Bahar havia feito — e o que estaria fazendo agora… porque, naquele momento, ela própria também prendia a respiração a cada ruído vindo da porta, esperando… quem sabe… ouvir o som conhecido dos passos dela…
***
… o som dos passos dela ecoava pelos corredores. Caminhar pelos andares tornara-se um hábito — ultimamente, era a única coisa que a acalmava. Especialmente depois da morte de Timur. Rengin nem conseguia explicar por quê fazia isso. Talvez, no fundo, quisesse ver Timur surgindo de algum canto. Talvez, sem perceber, esperasse que ele aparecesse do nada.
Ela sabia perfeitamente que isso jamais aconteceria, mas mesmo assim continuava andando, recordando os encontros, as conversas — afinal, toda a vida deles tinha se passado naquele hospital. No início, escondiam o relacionamento porque Timur era casado com Bahar. Depois, não havia mais o que esconder… mas nada fazia mais sentido. Nem para ela, nem para ele. Era como se tudo tivesse terminado com o divórcio dele e de Bahar… e agora, havia Serhat.
Seu passo vacilou, e ela engoliu em seco, num sobressalto. O que tinha feito? Aquilo não era dela, não era como ela. Era como se tivesse sido tomada por um feitiço… Como agora… Primeiro o viu saindo do corredor, só depois escutou seus passos pesados, como se ele estivesse tentando conter algo dentro de si… e ele realmente estava. Agora ela tinha certeza disso.
Teria se escondido na parede, só para que ele não a notasse… mas ele notou. Seus olhares se cruzaram, e ambos pararam, a poucos passos um do outro.
— Boa noite — cumprimentou ele, seco, desviando o olhar. Enfiou as mãos nos bolsos.
— Já é noite — respondeu ela, tossindo levemente, sem entender por que sua voz falhou. Baixou os olhos.
— Só vim ver um paciente. O professor Reha — explicou ele, mexendo sem necessidade no botão da camisa.
— Eu também estava indo vê-lo — disse ela, tentando manter a voz firme. Sentia as palmas das mãos úmidas.
Ficaram em silêncio, sem saber como continuar. Rengin ajeitou o cabelo, e sem saber o que fazer com as mãos, enfiou-as nos bolsos do jaleco. Serhat olhava para os lados, sem decidir se devia passar reto ou continuar ali.
Talvez ficassem assim por mais tempo, se Bahar não tivesse surgido abruptamente, abrindo a porta com força. Quase trombou com os dois, parou de repente a meio passo.
— O quê? — soltou ela, com um único olhar rápido para os dois.
Imediatamente voltou-se para a porta do quarto de Reha. Eles estavam bem ali, e seus olhos pediam apenas uma resposta:
— Está tudo bem? — parecia apressada, como se não tivesse tempo para delicadezas.
— Só nos cruzamos — deu de ombros Serhat. — Eu estava indo ver o professor.
— Coincidência — disse Rengin quase ao mesmo tempo. — Eu também — assentiu.
Bahar olhou primeiro para Rengin, depois para Serhat. Seus lábios tremeram levemente, mas ela se conteve.
— Professor Serhat, se o senhor vai ver Reha, então eu vou ver a Çağla — disparou ela.
Serhat assentiu e imediatamente se pôs em movimento, como se até então estivesse paralisado. Bahar apenas lançou um olhar para Rengin e seguiu na direção oposta — mas parou perto da porta da escada e se virou:
— Você está bem? — perguntou, abrindo a porta.
— Sim — respondeu Rengin depressa demais. — E você? A Çağla?
Bahar apenas balançou a cabeça e desapareceu atrás da porta. Rengin soltou o ar e pressionou as mãos contra as faces em chamas. Virou-se bruscamente e foi para o outro lado… longe do quarto de Reha e de seu médico…
***
— Só porque ele é médico, não quer dizer que eu tenha que esperar por ele! — explodiu Cem mais uma vez, dando um chute na própria mochila.
Yusuf o observou, mas permaneceu em silêncio. De fato, já esperavam há muito tempo — quase um dia inteiro sem ligações, sem mensagens, como se todos os tivessem esquecido.
— E aí, como se sente? — Cem olhava para Yusuf com desafio. — Quando te esquecem, te ignoram? Eu odeio isso — disse entre os dentes, com amargura.
— O quê? Ou quem? — ecoou a voz de Evren, que acabava de abrir a porta do apartamento.
Ele não entrou. Ficou ali, parado no batente, encarando Cem diretamente nos olhos…
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