Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?
CAPÍTULO 7. PARTE 1
— Doutor Aziz Uraz Yavuzoğlu, o senhor está de plantão hoje? — ele não permitiu que Bahar saísse; Sert Kaya a obrigou a voltar para a sala dos médicos, entrou ele mesmo e fechou a porta atrás de si.
— Sim, mas não tenho papel principal — murmurou Uraz, olhando confuso ora para Bahar, ora para ele. — Posso ser substituído e…
— O senhor é cirurgião? — perguntou Sert de forma cortante, interrompendo-o. — Ou apenas um menino correndo atrás da mãe?
Bahar mudou de expressão. Uraz fitava Sert sem saber o que responder.
— Não precisa tratá-lo assim — interferiu Bahar.
— Por quê? — Sert avançava, mas ela não recuou mais; parou no lugar, olhando-o diretamente nos olhos. — Porque é sua mãe, ou porque não consegue separar família do trabalho? A partir de hoje, a senhora será responsável pela documentação! — ordenou ele. — Tem, — olhou o relógio, — 48 horas para conferir todos os protocolos do ciclo de transplantes. Entregue-os pessoalmente a mim!
— Vou até a criança — disse Bahar com calma, sustentando o olhar dele. — É meu neto. Isso não é fraqueza nem capricho. Voltarei e farei seus protocolos.
— Não são meus protocolos! — elevou um pouco a voz. — É sua obrigação a partir de hoje! E sua escolha não é a favor do trabalho! — notou ele, voltando-se para Uraz. — Doutor Aziz Uraz, a primeira recusa de turno e o senhor será excluído da reserva principal! Aqui não existe mais, — olhou para os dois, — “família de trabalho”. Existe uma instituição. Não há mais nenhum parentesco!
— Há sim — disse Bahar com certa teimosia. — Não temos escolha — salvamos vidas e sustentamos uns aos outros. Isso é trabalho em equipe!
A porta da sala dos médicos se abriu e Evren apareceu no vão. Segurava prontuários nas mãos. Ao ver o olhar atônito de Uraz e a leve inquietação de Bahar, entrou de imediato e fechou a porta.
Sert nem se virou para ele.
— Palavras calorosas demais! — comentou com ironia, olhando para Uraz. — O senhor depende demais da família, doutor Aziz Uraz Yavuzoğlu. Não confio em sua autonomia, — fez uma pausa, — sobretudo depois do incidente da noite passada. Hoje ao amanhecer tudo poderia ter terminado!
Bahar virou-se imediatamente para Uraz. Fixava o rosto pálido dele, até que, de repente, ele corou, como se sentisse vergonha ou remorso… ela conhecia bem demais o filho… e Evren não disse nada… deveria ter dito? Ela olhou para ele, mas ele apenas franziu o cenho e se aproximou mais.
— Eu esperava que a sala dos médicos fosse um lugar para analisar erros! — continuou Sert. — E não para discutir coragem! — foi então que se voltou para Evren. — O senhor já revisou o erro do médico de plantão, professor?! Onde estão as explicações do ocorrido?
Bahar permaneceu em silêncio, sem compreender totalmente o que acontecera à noite. Evren franziu a testa, sem responder.
— Está satisfeito porque o transplante foi bem-sucedido? — Sert bufou. — O senhor quase arruinou tudo, professor Evren Yalçın!
Evren ficou ao lado de Bahar e cruzou os braços. Sert não pensava em parar.
— Acha que agora tudo lhe é permitido? — fixou o olhar em Bahar. — Entrou na sala de cirurgia e apagou todos os vestígios do crime! — já falava em tom mais alto. — Sabe a diferença entre uma equipe e uma matilha?
Bahar, Evren e Uraz ficaram em silêncio.
— Na matilha, sobrevive o mais forte! Na equipe, age quem sabe, — não desviava os olhos de Bahar, — não quem sente e nem quem quer ajudar! E muito menos quem corre em direção à família! Aqui não existem papéis familiares, nem mães, nem esposas, nem filhos! Só existem cirurgiões! Esqueçam quem é quem. Isso não importa, caso contrário — não são médicos! Há familiaridade demais dentro da sala de operações, — agora olhava para Evren e Bahar. — Não lhe parece, professor, que está se tornando o centro, e não o método? Com o senhor, — sua mão tremeu, mas ele não a levantou, não apontou para Evren, — mostraremos ao mundo casos de excelência e os submeteremos a um sistema rígido. O senhor é único, — parecia até um elogio, — mas isso não o isenta da disciplina! Excedeu o protocolo!
— A paciente está viva — observou Evren com calma.
— Ainda viva! O que é o senhor: herói ou transgressor, professor? — agora cobrava dele.
— Fiz tudo para que a paciente sobrevivesse! — Evren quase tomou a mão de Bahar, mas conteve-se.
— No hospital não pode haver centros de poder — rebateu Sert, e o elogio transformou-se em arma devastadora, — apenas estrutura. Aceita isso?
— Não — o ombro de Evren roçou no dela. — Não posso ser conveniente, sempre busco o resultado, — sustentou o olhar dele, — se isso lhe serve, então trabalharemos juntos.
— Coração e fígado — espera aplausos? — seu olhar queimava.
— O protocolo não foi violado — disse Evren. — Foram superadas recomendações, mas não a ética.
— Bonito discurso, — fez uma pausa antes de continuar, — para entrevista? O senhor sabe que o relatório do observador poderia ter sido diferente?
— Mas não foi — respondeu Evren com serenidade.
— Coincidência ou sorte? — Sert perguntou em tom áspero.
— Sou médico — Evren sentiu Bahar se encostar ainda mais em seu ombro, — se o que quer é obediência, terá, mas lealdade… essa não se impõe.
— Serão entregues a vocês casos difíceis — disse Sert de repente, mudando de assunto. — Serão filmados e exibidos. Seu trabalho será ser o rosto deste hospital, enquanto eu o purifico de parentescos, sentimentos e vínculos!
Uraz soltou o ar. Bahar se enrijeceu. Evren franziu ainda mais o cenho.
— Eu sempre vou escolher o paciente, — ele olhava Sert diretamente nos olhos, — com protocolo ou sem, se quiser me afastar, então comece pelas estatísticas! — lançou Evren, encarando-o de frente.
— Emoções são péssimos conselheiros numa zona estéril! — concluiu Sert, como se tivesse colocado um ponto final.
Virou-se e saiu, deixando-os em certa perplexidade; ninguém havia vencido, ninguém havia perdido.
— O que foi isso? — Bahar foi a primeira a se recuperar.
— Ele quer me usar — disse Evren, pensativo, olhando para ela.
— Ele vai me demitir com certeza — Uraz segurou a cabeça com as mãos. — Mãe?! — exigia uma resposta dela.
— Eu vou permitir — disse Evren de repente. — Se não for eu, ele vai esmagar os outros.
— Evren… — Bahar apoiou a cabeça no ombro dele. — Você quer salvar a todos?
— Nem todos e nem sempre, — ele a envolveu com um braço.
Uraz os fitava, de braços abertos.
— Mãe?! — havia pânico em sua voz.
Bahar estremeceu; tentou se afastar de Evren, mas ele apertou ainda mais seu ombro, sem perceber que ela se contraíra de dor. Evren mantinha os olhos fixos em Uraz.
— Ah… — suspirou Bahar, o olhar dela se perdeu. — Certo, vou ligar para Siren, — tirou o telefone.
— O que está acontecendo? — Evren se alarmou.
— Mert está com febre, Siren não consegue baixá-la, e nós duas não podemos voltar para casa, — disparou Uraz, passando as mãos pela cabeça. — Ele vai nos demitir se formos embora.
— Bahar, — Evren pegou o telefone da mão dela, — então vou eu.
Ela se sobressaltou e ergueu a cabeça, fitando-o sem piscar.
— O quê? — Uraz congelou, mãos erguidas, encarando-os.
— Você não se importa, né? — perguntou Evren em voz baixa, e depois inclinou-se para ela; seus lábios tocaram a face dela. — Preciso começar a aprender a lidar com crianças — sussurrou ao ouvido dela. — Não estou forçando, — acrescentou rápido, como se se corrigisse. — Quem, se não eu?
Ela fechou os olhos, segurando firme a mão dele. Com a outra, parecia contar mentalmente:
— Dentes, barriguinha… — suspirou. — Garganta? Remédios… — mas ele não a deixou terminar, interrompeu.
— Eu resolvo, — apertou a mão dela. — Resolvo, calma, — seus olhos presos nos dela. — Confie em mim.
Uraz, agora com os braços caídos, abriu-os de lado, como se não entendesse nada do que estava acontecendo.
— Está bem… — suspirou Bahar.
— Vou esperar você em casa — disse Evren. Nesse momento, ela corou, as faces se tingiram de vermelho; não sabia onde se esconder, queria desaparecer.
Bahar fechou os olhos, ainda agarrada à mão dele, mas logo se endireitou, percebendo que precisava tentar confiar, como Evren lhe pedira, permitir que ele ajudasse a ela… a eles.
— Nós não salvamos apenas pacientes — murmurou. — Salvamos uns aos outros também, — olhou para o filho. — Uraz, você vai para os pacientes, — depois voltou-se para Evren. — Eu fico aqui e faço os protocolos, — a voz dela tremeu, mas ela já reunia forças. — Sert Kaya quer apagar a palavra “família” do hospital. Nós não vamos permitir isso.
Bahar soltou os dedos, largando a mão de Evren, devagar demais, como se não quisesse romper o contato, mas não tivesse escolha… Os olhares deles se encontraram, e naquele silêncio havia mais resistência do que em qualquer discussão, como se não suportassem ficar separados nem por um minuto…
***
Siren, sem largar o telefone nem por um minuto, andava de um canto a outro. Mert estava deitado no berço, a testa brilhando de febre, a respiração entrecortada, o peito subindo e descendo com a tosse. Ela ora pegava a toalha molhada, ora a largava de novo, tão apavorada ficava com cada suspiro do filho, que lhe parecia um assobio.
— Ele está sufocando — gritava ela, inclinando-se sobre o berço, a voz embargada, — sufocando!
Umay pegou Leyla nos braços e se afastou.
— É só febre — murmurou. — Ele está respirando, Siren.
— Aqui, água! — Parla entrou correndo no quarto, e logo atrás dela veio Nevra.
— Ele não precisa de água! — Siren arrancou a garrafinha de suas mãos e a colocou sobre a mesa. — Ele precisa de um médico! — parecia até ter esquecido que ela mesma era médica. Siren desbloqueou o telefone e, com as mãos trêmulas, tentava discar o número. — Onde está Bahar? Onde está Uraz? — não entendia ela.
— Mas você também é médica — sussurrou Umay, desviando o rostinho de Leyla.
Nevra hesitava perto da porta, depois criou coragem e se aproximou do berço. Colocou a palma da mão na testa do menino.
— Ele está com febre — disse, olhando para Siren. — Mas está respirando, está ouvindo? — falou com firmeza. — Não entre em pânico, melhor peguem o termômetro.
Parla e Umay a encararam surpresas. Sim, lembravam-se de que ela havia feito cursos junto com Gülçiçek, mas era a primeira vez que Nevra se mostrava assim, tomando iniciativa, em vez de se encolher num canto com o celular.
Siren, sem apertar a chamada, olhava para ela, confusa, como se não entendesse o que esperavam dela. Umay apertou Leyla ainda mais contra si. Parla foi até a mesinha e entregou o termômetro a Nevra.
— Siren, olha para mim — pediu Nevra. — Vamos tirar o excesso de roupa, medir a temperatura e esperar Bahar, ela já está a caminho.
Siren soluçou, torcendo as mãos:
— A caminho? — lágrimas rolaram por suas faces. — De verdade, a caminho?
— Já está vindo — confirmou Nevra com um aceno. — Você ligou para Uraz.
Siren voltou a se inclinar sobre o berço de Mert. Fitava o rostinho pálido dele, e começou a tremer de novo; o pânico a deixava sem forças para pensar com clareza.
Umay distraía Leyla, Parla se abraçou a si mesma e se encostou na parede. Nevra pegou o termômetro e olhou para o visor… balançou a cabeça por trás de Siren, sem que ela visse. Umay fechou os olhos com nervosismo, rezando apenas por uma coisa: que Bahar chegasse logo… enquanto o silêncio era rasgado pela tosse sufocante de Mert.
***
Na sala dos médicos caiu um silêncio pesado assim que a porta se fechou atrás de Evren. Bahar fechou os olhos, mas logo os abriu de novo ao sentir um movimento ao seu lado.
— Por que foi ele? — Uraz apontava para a porta com a mão, inclinando-se sobre ela. — Quem ele pensa que é para decidir por todos nós? Ele nem sequer é da nossa família, mãe! — gritou Uraz.
Bahar ficou confusa por um instante, sem saber o que responder. No fundo, ela mesma se perguntava — por que justamente Evren, por que não ela?
— Eu devo estar ao lado do meu filho, ou você! Mas não ele! — Uraz fechou os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
Bahar levou a mão ao peito. Ficou imóvel no meio da sala, sem esperar uma explosão dessas do filho. Via como suas mãos tremiam, como ele andava de um lado a outro feito um animal preso em jaula.
— Uraz… — começou ela com cautela.
— Não! — gritou ele. — Eu sou o pai! Por que esse homem está sempre se metendo na nossa vida?!
— Uraz… — Bahar estendeu a mão para tocar nele, mas ele se afastou.
— Eu não vou permitir! — seus lábios tremiam, ele bateu com o punho na mesa. — Quem ele é? Quem?!
— Uraz… — ela se aproximou dele e, antes que ele conseguisse recuar, segurou o rosto dele com as duas mãos. — Mert — disse com calma, fitando seus olhos. — Mert está doente. Ele precisa de um médico. — não o deixava se afastar, não permitia que desse um passo atrás. — O médico já está a caminho. Confie. — e, dizendo isso, abraçou o filho, apertando-o contra o peito. — Agora não se trata de mim… — ela o mantinha firme em seus braços, esquecida da dor, esquecida de tudo. — É do Mert. — sua voz era suave, mas de forma alguma o acalmava.
Uraz, respirando com dificuldade, ficou imóvel nos braços dela. Estava pronto para continuar discutindo, chegou até a abrir a boca.
— Doutora Bahar Özden. Doutor Aziz Uraz Yavuzoğlu, compareçam imediatamente ao pronto atendimento! — soou pelo alto-falante.
— Ouviu? — Bahar afastou-se um pouco, olhando nos olhos do filho. — O paciente espera. — seus dedos pousaram no cotovelo dele.
— Eu não vou deixar isso assim — disse ele com raiva, entre os dentes.
Bahar apertou os lábios por um momento e assentiu:
— Eu sei — sussurrou. — Agora você não é pai, nem filho. Agora você é médico! Concentre-se, precisamos trabalhar.
Ela foi a primeira a se virar e sair da sala dos médicos; atrás dela, suspirando pesado, a seguiu Uraz…
***
Serhat a seguia a certa distância. Rengin segurava documentos nas mãos, distribuía instruções pelo caminho, e ele simplesmente caminhava atrás dela. Admirava o perfil dela, aspirava o perfume que ela usava. Gostava do jeito como ela se movia. Como se tudo estivesse sob o seu controle, como se tivesse o mundo inteiro nas mãos.
Rengin o ignorava, como se a conversa da véspera nunca tivesse acontecido, mantendo a decisão que já havia tomado, como se nada do que ele dissera tivesse qualquer peso.
— A cirurgia de transplante deve ser adiada até que os índices se estabilizem — disse Rengin, franzindo o cenho, ao entregar os documentos a um jovem assistente. Seguiu-o com o olhar. — Não podemos nos dar ao luxo de arriscar, não agora — acrescentou mais baixo, de forma que só Serhat ouviu.
— Talvez, às vezes, valha a pena arriscar — murmurou ele, atrás dela.
Rengin se virou imediatamente, e os olhares deles se cruzaram, mas ela não teve tempo de responder.
— Emoções são a pior ferramenta de um cirurgião — soou uma voz fria às suas costas.
O rosto de Rengin mudou por um instante, mas logo ela se recompôs e se virou. Sert Kaya se aproximava, as mãos cruzadas atrás das costas.
— Professora Rengin — o tom dele cortava como uma lâmina — a senhora raciocina como alguém que não é médico, e isso a torna perigosa. — não escolhia palavras, não se preocupava se outros colegas poderiam ouvir.
— O paciente não é um protocolo nem um cronograma — respondeu ela sem emoção na voz. — Ele tem um nome, tem uma família.
— Suas emoções podem matá-lo! — cortou Sert de forma ríspida. — O seu “espírito familiar” não salva vidas! — a voz dele vibrava de desprezo. — Ele as tira.
Rengin quis retrucar, mas a respiração falhou, as palavras ficaram presas. Serhat deu um passo à frente.
— Às vezes a família salva, sim — disse ele em voz grave. — Se não fosse pela professora Rengin, minha filha… — não terminou, a voz falhou.
— Professor Özer — Sert Kaya virou-se para ele. — O senhor também quer entrar para a lista dos sentimentais diletantes?
— Eu quero — interrompeu Serhat, aproximando-se mais dele — que olhe pelo menos uma vez nos olhos das pessoas que chama de “casos”.
O corredor mergulhou em silêncio. Rengin olhava para Serhat. Pela primeira vez em seu olhar surgiu gratidão, e em seus lábios quase nasceu um sorriso. Não lembrava de alguém que alguma vez tivesse tomado sua defesa. A vida inteira conquistara tudo sozinha, decidira sozinha, sem apoio, sem consultar ninguém.
Sert Kaya fez uma pausa; não escondia o desprezo que transbordava em seus olhos.
— Erros não se cobrem com a palavra “família” — disse em tom gélido. — Nos protocolos não existe esse termo! — cravou o olhar em Rengin, como um abutre. — Seus cirurgiões agem como querem! Um vai para casa porque o filho adoeceu. Outra decide o destino da paciente guiada por emoções, esquecendo todos os protocolos, e isso é crime; apaga provas de forma impensada… — deu um passo à frente. — É isso que chama de gestão, professora?
Rengin empalideceu, mas não desviou o olhar.
— Isso é caos! — concluiu Sert Kaya.
— Isso é o fator humano — retrucou ela. — Nós não tratamos órgãos, tratamos pessoas!
— E por isso — ele inclinou-se um pouco em direção a ela — seus médicos quase perdem pacientes — cortou, — aqui não é um conselho de família, professora Rengin, aqui é um hospital!
Rengin permanecia calada, encarando-o, sem recuar.
— Se não fosse a professora Rengin — Serhat estava pronto a colocá-la atrás de si — esse caos já teria desmoronado. É ela quem sustenta tudo o que o senhor despreza chamando de família!
Os cantos dos lábios de Sert se contraíram; quase sorriu.
— Ah, então é isso — disse com certo interesse, observando-os. — Agora entendo por que o professor Özer defende com tanto ardor a diretora. — seus olhos se estreitaram. — Motivos pessoais em vez de profissionais?
Rengin corou, abaixando o olhar. As palavras dele atingiram em cheio, não porque estivessem certas, mas porque de repente percebeu: realmente lhe importava que Serhat tivesse se posicionado ao lado dela. Esse fato ardia mais que todas as acusações.
— Às vezes o pessoal nos impede de errar — Serhat não recuou.
Sert quase riu, como se tivesse todas as cartas em mãos.
— É justamente o pessoal que leva aos erros! — declarou em tom gelado e, sem esperar resposta, virou-se e foi embora.
Seus passos ecoavam pelo corredor, longos e duros, como se o próprio hospital repetisse suas palavras frias.
Rengin não respondeu, ardia de humilhação. As palavras de Sert Kaya feriam direto no coração. Só Serhat, parado ao seu lado, não a deixava cair de vez. Ela ergueu os olhos: ele a olhava como se quisesse tomar o golpe em seu lugar, e pela primeira vez em muito tempo ela sentiu vontade de confiar.
— Obrigada — sussurrou.
— Às vezes os protocolos são estreitos demais para a vida — os olhos dele escureceram de uma raiva contida.
Eles se viraram e seguiram juntos pelo corredor, e a cada passo a distância entre eles diminuía, até que suas mãos se tocaram, de leve, por acaso, e nesse contato havia mais que em qualquer palavra… e então se separaram, cada um para o seu lado.
***
Bahar e Uraz entraram apressados por um lado, enquanto do outro já empurravam a maca com uma jovem mulher. Um só olhar bastou para Bahar — o rosto pálido, os lábios arroxeados. O marido segurava suas mãos, mas mal se mantinha de pé. Bahar vestiu as luvas no caminho, recebendo-as de Ferdi.
— Paciente, 29 anos — começou logo o paramédico, a voz em ritmo acelerado. — Transplante de fígado há um ano e meio. Gravidez de 24 semanas.
Tudo ao redor congelou por um instante. Bahar e Uraz não reagiram, apenas trocaram olhares por frações de segundo. E então, tudo voltou a se mover.
— Dores, vômitos, pressão caindo — continuou o paramédico.
— O bebê, salvem o bebê… — gemia a mulher, agarrando o ventre.
— Exames, rápido! — a voz de Bahar tremia levemente. — Ultrassom! — ordenou. — Conectem ao monitor!
— Disseram que era permitido! — o marido agarrou a manga do jaleco de Bahar. — Já se passou um ano e meio! — sua voz subiu de tom. — Disseram que podíamos! Queríamos tanto esse filho! Por que agora dizem que é risco?!
— A pressão está caindo — a voz de Uraz soava aflita. — Funções hepáticas… — ele apenas balançou a cabeça.
Bahar se inclinou sobre a paciente, o olhar correu para o monitor… hesitou, parecia confusa.
— Chamem o professor Evren Yalçın, urgente! — escapou de seus lábios antes que pudesse pensar.
Uraz virou-se bruscamente, ereto.
— O quê? — não acreditava. — Ele foi embora, mãe — lembrou ele.
A voz dele soou mais alta que os bipes das máquinas. Bahar fechou os olhos por um segundo, como se também se assustasse por ter chamado Evren.
— Eu não sou mãe — disse, abrindo os olhos. — Eu sou a doutora Bahar Özden. Continuamos.
Uraz tremia. Ouvia suas palavras, mas não reagia.
— Salvem meu bebê… — murmurava a mulher.
— Não! — gritou o marido. — Salvem minha esposa! Que ela viva!
— Se o fígado falhar, não haverá nem ela, nem o bebê! — a voz de Bahar soou seca, distante.
Uraz estremeceu, olhando para a mãe.
— Mas nos prometeram… — o marido soluçava. — Disseram que depois de um ano seria possível… — sua voz falhava; inclinou-se sobre a esposa, segurou seu rosto entre as mãos. — Você é minha vida, não vou aguentar sem você…
— Meu bebê… por favor… — implorava ela, respirando com dificuldade.
— Primeiro a mãe — disse Bahar de repente. E logo acrescentou: — Lutaremos por ambos. — o olhar dela não se afastava do monitor.
Uraz estava ao lado, os dedos tremiam. Seus olhos corriam do monitor para o rosto de Bahar. As palavras se o fígado falhar pulsavam em sua cabeça. Olhava para a paciente e via a mãe, como se fosse ela quem estivesse ali, tentando ser salva. Involuntariamente afrouxou o colarinho da camisa, puxando o botão.
Na tela, o coração do feto batia irregular, como se se afogasse junto com a mãe.
— O que fazer? — soluçou o marido.
— Ainda não a perdemos… — disse Bahar em voz baixa.
O homem não resistiu; caiu de joelhos ao lado da maca, agarrando-se a ela. A mulher já não continha as lágrimas, que corriam pelo rosto, enquanto os lábios murmuravam sem som: bebê… bebê.
O monitor apitou: os batimentos do bebê desaceleraram.
— Para a sala de cirurgia! — a voz de Bahar calou o marido da paciente.
Ele a fitava de baixo para cima. Uraz não tirava os olhos da mãe — como se gritasse em silêncio: E se amanhã for você deitada aqui?…
***
O homem limpava o suor da testa com as mãos trêmulas. Seus olhos não se desviavam da porta da sala de cirurgia. Lá dentro estavam sua esposa, seu filho, e já fazia mais de uma hora que ninguém lhe dizia nada.
— A pressão está caindo — a voz do anestesista abafou por um instante o apito dos monitores.
— Magnésio! — Bahar inclinou-se sobre a mesa. — Controle da pressão!
— Plaquetas: sessenta mil — anunciou o jovem assistente.
— Preparar plasma! — a voz de Bahar quase não expressava emoção. — Imediatamente! — levantou o olhar para o monitor, realizando um ultrassom ali mesmo, sobre a mesa cirúrgica.
Pela segunda vez no dia fazia um ultrassom durante a cirurgia. O coração do feto batia de forma irregular, com falhas.
— Desaceleração! — murmurou Uraz. — Mãe, o bebê!
— Doutor! — interrompeu Bahar, entregando o aparelho de ultrassom ao assistente. — Prioridade é a mãe. Mantemos os dois enquanto pudermos. Comecem a infusão de plasma! — ergueu a cabeça. — Esteroides?
Mas ninguém teve tempo de responder. Os monitores apitaram — o coração do feto desacelerava ainda mais.
— Setenta… — informou o anestesista. — Cinquenta.
Os cílios de Bahar estremeceram por trás da máscara.
— Segurem. — sua voz era firme, controlada. — Continuem com o plasma.
O som do monitor atingiu seu peito como um soco. Na tela surgiu uma linha reta. Bahar permaneceu em silêncio, sem desviar o olhar dos monitores.
— Assistolia fetal! Sem batimentos! — anunciou Uraz, fitando Bahar.
— Pressão cento e vinte por oitenta — disse o anestesista.
— A mãe está estabilizada — Bahar inclinou-se sobre a mesa. — Perdemos o bebê…
Uraz não tirava os olhos dela. Não via a paciente — era Bahar quem estava deitada naquela mesa… era nela que injetavam plasma. O zumbido em seus ouvidos abafava todos os sons. Mal via, mal ouvia… era como se estivesse perdendo a própria mãe naquela sala de cirurgia… como se tivesse que fazer a escolha impossível: o bebê ou a mãe. Esperava dela a ordem — “bisturi” — mas Bahar permanecia calada.
Ele a observava. Viu os cílios dela estremecerem, os dedos dentro das luvas se contraírem.
— O feto não resistiu — repetiu ela. — Continuamos a estabilizar: pressão, plasma, controle da coagulação. Induziremos o parto em algumas horas, agora é arriscado, assim como a cesariana.
CAPÍTULO 7. PARTE 2
O anestesista assentiu. Os assistentes se moveram apressados, alguém coletava exames. Uraz não ouvia os detalhes. Para ele, soara apenas uma frase: o feto morreu, a prioridade é a mãe. Como se fosse a própria Bahar recebendo o diagnóstico. Ele não esperava ouvir “vamos estabilizar”; queria ouvir “nós a salvamos”.
— Paciente para a UTI — Bahar afastou-se da mesa. — Controle dos parâmetros a cada hora. Transplantologista em observação!
Bahar tirou as luvas, a touca e as jogou no recipiente de materiais usados. Esforçava-se para não olhar para o filho. Sentia na pele o pânico dele, mas saiu da sala, retirando o avental estéril.
Assim que apareceu no corredor, o marido da paciente lançou-se contra ela. Com a mão trêmula agarrou seu braço, obrigando Bahar a recuar.
— O que aconteceu com minha esposa? O quê?! — ele se impôs sobre ela, quase a encurralando.
— O bebê não resistiu — respondeu Bahar com voz firme e constante, apesar da respiração acelerada. — Nós o perdemos. Agora nossa única prioridade é sua esposa.
— Ela está viva?! — gritou ele. — Minha esposa está viva?!
Apertou os ombros dela, quase a imprensando contra a parede.
— Cuidado! — Uraz, acabando de sair da sala de cirurgia, avançou até eles. — Solte-a! Sua esposa está viva!
O homem afrouxou as mãos, e Bahar deu alguns passos para o lado, franzindo o rosto.
— E o bebê? — ele parecia não compreender. — Ele não está… vocês o tiraram, não é?
— Não — Bahar balançou a cabeça, quase imperceptível. — Estamos estabilizando sua esposa. Agora não é possível, o risco de hemorragia é muito alto.
— Tirem-no! Agora! Vocês devem… são obrigados a tirar o bebê! — gritou ele.
— Neste momento, não podemos — esforçava-se para falar com calma.
Uraz manteve-se ao lado dela, impedindo o homem de se aproximar.
— Mas ele está dentro dela! Precisa ser retirado! Agora! Ele vai matá-la! — o homem levou as mãos aos cabelos. — Vai matá-la, vai matá-la… Como… — deu um passo em direção a Bahar, e ela recuou — como ela pode… — buscava os olhos dela — como ela pode ficar com ele dentro, morto?
— É assim que se faz — Bahar manteve as mãos erguidas, juntas ao peito, como em prece, tentando explicar. — Precisamos estabilizá-la. Pressão, função hepática, sangue… — suspirou. — Quando estiver seguro, induziremos o parto. Não hoje — balançou a cabeça. — Amanhã. Vinte e quatro horas. Não temos o direito de arriscar a vida dela agora.
— Vinte e quatro horas… com o bebê morto… dentro… — ele não acreditava no que ouvia.
— É a única chance de ela sobreviver — disse Bahar, e virou-se para ir embora.
O homem cobriu o rosto com as mãos, encostou-se na parede e deslizou até o chão. Uraz respirava com dificuldade, olhando para as costas de Bahar. Sentia-se como aquele homem… como se fosse ele. Como se fosse ela, Bahar, quem estivesse na UTI… como se fosse nela que houvesse um filho morto, como se tentassem estabilizá-la… Tudo parecia se repetir, só que agora ainda mais doloroso.
***
Por que era tão difícil aceitar a morte? Não, ela não podia dizer que havia falhado… pelo contrário, fizera tudo o que estava ao seu alcance. Bahar, num gesto habitual, passou a mão pelo rosto, sem notar que os dedos tremiam. A luz branca do corredor feria os olhos. A mulher estava viva, mas o filho dela… o filho permanecia dentro dela, um peso morto no ventre da mãe.
Por um instante, Bahar apoiou-se na parede, diminuiu o passo, inclinou-se levemente para a frente. Apenas por um instante, depois expirou fundo e se endireitou devagar. Por dentro, tudo fervia, mas o olhar permanecia firme, o rosto sem traço de emoção.
Deu alguns passos e então o viu.
Sert Kaya estava encostado à parede, como se simplesmente esperasse alguém ou passasse por ali. As mãos pendiam soltas, o olhar tranquilo, quase indiferente — mas atento demais, fixo demais para ser coincidência.
Bahar deslizou os olhos por ele, rápida, quase indiferente, como faria com qualquer outro colega. Enfiou as mãos nos bolsos do jaleco e seguiu em frente. Não queria nem pensar no que ele poderia ter visto: seu tremor, sua ansiedade, sua dor ou cansaço. Apenas passou por ele, e ele permaneceu lá, imóvel junto à parede, sem dar um passo. Como se já fosse parte invisível, inseparável daquele corredor… daquele hospital.
***
Evren, certificando-se de que a respiração de Mert já estava regular, saiu para o corredor, deixando Siren no quarto das crianças. Ele sorria, passou a mão pelos cabelos, como se sacudisse de si um leve estado de bem-estar. Os filhos de Siren e Uraz, os netos de Bahar, tinham sobre ele um efeito estranho. Nunca imaginara quão doce podia ser a convivência com crianças tão pequenas, mesmo quando Mert não estava bem.
Passou diante do quarto de Bahar, mas não entrou — não queria estar ali sem ela. Aspirou o ar ruidosamente, e as lembranças da noite anterior o invadiram de imediato. Tudo o que acontecera atrás daquelas portas fechadas agitava sua mente, despertando nele o desejo impaciente de reviver aquele momento, de estarem outra vez a sós, escondidos ali. Mas, por enquanto, era apenas desejo — Bahar ainda estava no hospital… e ele se pegou sentindo saudade. Queria abraçá-la, beijá-la, e girou os ombros, tentando afastar a tentação.
Desceu as escadas com passo rápido e encontrou Umay na sala. Ela segurava Leyla, e a menina, ao vê-lo, estendeu os bracinhos para ele. Evren abriu um sorriso e se aproximou, mas não teve tempo de pegá-la: a vibração do celular no bolso o deteve.
Evren tirou o telefone. Olhando para a tela, hesitou por alguns segundos, depois atendeu.
— Cem? — disse em voz baixa, e Umay se sobressaltou, fitando-o.
Ele virou-se de imediato, percebendo o deslize, mas era tarde demais. Umay ouvira, entendia quem lhe ligava.
— Agora você mora com ela, não é? Com eles? — disparou Cem, sem cumprimentos. — Você tem outra família agora? Disse que estaria comigo, mas foi embora e nunca mais voltou! Mandou aquele cara buscar a mala! Você me abandonou, Evren! Me deixou sozinho! Você prometeu que me ajudaria!
Evren virou-se, encontrou o olhar de Umay e cerrou os dentes. Como pôde ser tão descuidado?
— Eu disse que estaria por perto — respondeu baixo, afastando-se alguns passos, mas Umay o seguia sem querer, ainda com Leyla nos braços.
— Por perto?! — Cem gritou ao telefone. — Onde você está agora? Com ela, com eles, não comigo! Você devia ter me impedido! Você é meu irmão mais velho! Você devia!
— Eu não sou seu pai, Cem — disse Evren com firmeza. — Você invadiu o sistema, decidiu sozinho. Ninguém te obrigou. — lembrava, lutando para manter o tom calmo, ciente de que Umay o escutava. — São suas escolhas, e você vai responder por elas.
Cem ficou em silêncio, só a respiração pesada atravessava a linha.
— Então você me abandonou! — explodiu ele.
— Não — murmurou Evren. — Se quer que eu continue ao seu lado, pare de culpar os outros pelos seus erros. Comece a pensar.
A ligação caiu; os toques curtos soaram. Evren suspirou, guardou o telefone no bolso e se virou. Leyla piscava sonolenta, mas ainda estendia os braços para ele.
— Posso? — perguntou em voz baixa.
Umay assentiu e entregou-lhe a menina. Evren a acolheu contra o peito, e o calor da respiração dela roçou seu pescoço. Algo nele se revirou — nunca segurara assim o próprio filho… será que nunca aconteceria? Os olhos se encheram, vermelhos; levantou o olhar para Umay. Os olhos dela também brilhavam de lágrimas. Ele entendia: ela ouvira toda a conversa.
— Ele gritou com você — sussurrou ela, pigarreando.
Evren apenas assentiu, abraçando Leyla com mais força.
— Ele te chamou — continuou ela, limpando uma lágrima.
Evren estremeceu com aquelas palavras. Pela primeira vez percebeu como a filha de Bahar havia crescido. Ontem ainda era adolescente, agora diante dele estava uma jovem. E em seu olhar misturavam-se ciúme, dor, desilusão e a ternura que ainda sentia por Cem, junto com a compreensão de que aquilo já ficara no passado.
— Estranho, não é? — sorriu de repente. — Ele te chama, e você está aqui, segurando no colo a filha de outra pessoa como se fosse sua.
Evren quis responder, mas não encontrou palavras; apenas apertou Leyla contra si. Umay desviou o rosto, soluçou, e pela primeira vez deixou transparecer a dor. Evren quis alcançá-la, abraçá-la, mas não teve tempo: ela já se afastava, sumindo na sala…
***
Ela queria se esconder de todos. Bahar entrou em seu consultório, fechou a porta atrás de si e apoiou-se nela de costas, os olhos cerrados. Ficou assim por alguns minutos, depois caminhou até a poltrona e se deixou cair, como se não tivesse mais forças para ficar de pé. Cobriu o rosto com as mãos; os ombros tremiam levemente, a respiração tornou-se irregular.
Dois filhos… dois filhos em um único dia. E ainda Mert doente. Ela afastou as mãos, o olhar fixo em um ponto distante. Suas próprias palavras ainda ecoavam em sua cabeça — prioridade, a mãe — como se tivesse desistido, como se tivesse parado de lutar pela própria vida. Um arrepio atravessou seu corpo, o peito apertou de tal forma que lhe faltava ar.
Uma criança… e se fosse ela no lugar da paciente? E se estivesse agora na UTI… e o filho deles já tivesse morrido? E Evren, pacientemente, a estabilizando para depois induzir um parto artificial. Bahar fechou os olhos, virou um pouco a cabeça, tapou a boca com a mão como se tentasse conter um grito mudo. Não queria imaginar… mas não conseguia evitar. Uma imagem atrás da outra surgia, e todo o horror que cairia sobre sua família se repetia diante de seus olhos.
Sou mãe. Sou avó. Tenho dois filhos adultos, devo pensar neles… mas por que penso em mais uma criança? Será possível ainda ter outro filho? Não…
Bahar levantou-se da poltrona e foi até a pia. Abriu a torneira, mas permaneceu imóvel. Apenas olhava a água girando em espiral até sumir pelo ralo, sem se mover, apenas respirando. Depois ergueu devagar o rosto e encarou o espelho. Olhos vermelhos, ombros tensos, olheiras profundas.
Uraz vai perguntar… certamente vai. E eu vou ter que responder. O que direi? Que quero um filho de um homem que ele não aceita? Que ainda penso em ser mãe?… Mas que responsabilidade posso alegar, que exemplo ofereço a ele… se eu mesma ajo sem responsabilidade?
Bahar juntou um punhado de água e o jogou no rosto, depois outro, e outro. A água trouxe-lhe um pouco de alívio; a palidez não se dissipou, a respiração não voltou ao normal, mas ao menos conseguia se sustentar em pé, ainda apoiada na pia. Voltou a encarar seus próprios olhos no espelho. A mão tremeu, subiu até a têmpora, prendeu atrás da orelha uma mecha solta. Passou a ponta dos dedos pela face, quase sem tocá-la, como se verificasse se ainda não havia enlouquecido.
Não será isso o fim? Para mim, para Evren, para meus filhos, para todos nós?
Ela se deteve no reflexo, e apenas o ruído da água encobria o zumbido em seus ouvidos. O coração se apertava, o peito sufocava, e ainda assim não conseguia desviar o olhar, como se sua própria imagem pudesse trazer respostas. Bahar fechou os olhos, rompeu o contato. Recusava-se a encarar a loucura que, por vezes, brilhava em seus olhos.
— Basta… — sussurrou, soltando o ar. Abriu os olhos, a mão espalmada sobre o peito, tentando acalmar a pontada. Desligou a torneira, voltou à mesa e sentou-se. — Basta… — repetiu, como se desse uma ordem a si mesma: não pensar mais.
O consultório mergulhou em silêncio. Os pensamentos zuniam como um enxame em sua mente febril; a confusão se estampava em seu rosto… e apenas a batida na porta a obrigou a se recompor de imediato. Endireitou-se, ajeitou o jaleco; no rosto, nenhuma emoção, apenas um olhar calmo e neutro. Fitou a porta.
— Entre — disse, com voz tão controlada que não deixava escapar nada do que se passava dentro dela…
***
O quarto estava banhado por uma luz suave. Sobre a mesinha repousava um copo com água e uma revista. Reha, apoiado em travesseiros, estava sentado na cama. Já ia estender a mão para o caderno e a caneta, mas Gülçiçek segurou sua mão.
— Agora não — pediu baixinho. — Primeiro, escute o médico.
Serhat conferiu o pulso, depois inclinou-se, encostando o estetoscópio no peito do professor. Escutou os batimentos por alguns segundos em silêncio, então se endireitou e assentiu.
— Pressão estável, ritmo regular — disse com alívio. — Os pontos estão limpos, cicatriz sem sinais de inflamação. Nada de inchaço.
Reha semicerrrou os olhos, e Gülçiçek quase lhe acertou com o jornal que tinha nas mãos.
— Isso significa que o essencial está feito — confirmou Serhat. — O coração está reagindo bem. — Consultou os dados no tablet. — Em alguns dias poderemos lhe dar alta.
— Em alguns dias? — repetiu Reha, franzindo a testa. — Amanhã já serve. — Acenou com a mão. — Estou me sentindo melhor que meus assistentes depois das provas.
— Você fez uma cirurgia no coração, Reha — apertou-lhe a mão Gülçiçek. — Escute o médico, por favor.
— E eu estou escutando — sorriu ele, erguendo as sobrancelhas. — Ele disse “alguns dias”. Eu proponho arredondar para menos.
— Eu proponho ficar no clássico — Serhat conteve um sorriso. — O corpo precisa de tempo para se adaptar, a carga sobre o coração deve se distribuir, os pontos cicatrizarem em paz. Não vamos testar tudo isso em casa, professor, certo?
— Justamente! — apoiou Gülçiçek, inclinando-se para o marido. — Disseram “alguns dias”, então serão alguns dias.
— Ah, que maravilha casar… — suspirou Reha teatralmente. — Agora tenho dois professores: um de medicina, outro de vida conjugal.
— E ambos querem que você esteja vivo e saudável — cortou Gülçiçek, mas na voz havia ternura.
— Então me rendo — sorriu ele, apertando a mão dela. — Certo, professor, obedecerei ao médico.
— Excelente — assentiu Serhat. — A regra da alta não é só ter parâmetros estáveis, mas também a disposição do paciente em colaborar.
— Dois contra um… — resmungou Reha, mas Gülçiçek lhe deu um leve tapa na mão, fazendo-o calar.
— Pois obedeça! — sorriu para Serhat, que quase caiu na risada; começava claramente a reconhecer em quem Bahar herdara certos traços. — Chega de discutir com médicos!
Serhat riu enfim, balançou a cabeça e saiu do quarto. Agora tinha certeza de onde vinham algumas características de Bahar.
Gülçiçek sorriu satisfeita, feliz por ter tido a última palavra. Reha resfolegou de propósito, mas os olhos brilhavam de carinho…
***
— Para onde você está me levando? — Umay fungou, limpando os olhos.
— Fala baixo — sussurrou Parla, puxando a irmã. — Anda logo, ou vamos perder tudo.
— Perder o quê? — Umay insistiu, mas mesmo assim a seguiu.
— Olha só… — Parla espiou pela esquina e logo se escondeu de novo. — Mas com cuidado! — alertou em sussurro.
Umay, na ponta dos pés, contornou Parla e olhou. Nevra avançava devagar em direção ao portão, olhando para trás a cada passo. Erguia os braços como se tivesse esquecido alguma coisa, abanava o rosto tentando se recompor, mas o sorriso não saía de seus lábios.
— Viu? — Parla tentava espiar por cima do ombro da irmã. — Pra onde será que vai escondida, e ainda toda arrumada? — cochichou.
— Shhh! — desta vez foi Umay quem a silenciou, cutucando-a com o cotovelo.
Os pensamentos em Cem desapareceram da mente de Umay assim que Parla a arrastou para aquela aventura. As duas espiaram juntas. Nevra, sem notar nada, saiu do quintal. As meninas correram até o portão e pararam, ofegantes, antes de espiar novamente.
Nevra se aproximou de um carro preto, grande, de vidros escuros, estacionado um pouco afastado da casa. A porta do passageiro se abriu por dentro, e ela se enfiou rapidamente no banco da frente. As meninas se entreolharam e, abaixadas, foram atrás.
Ismail estava ao volante. Nevra ergueu as mãos e as apertou contra o peito.
— Eu queria trazer… — ele se calou, virou-se ainda mais para ela. — Sorvete. Dondurma. De pistache. Você disse que gostava… mas estava tão calor, não ia aguentar no caminho. — falou quase como uma desculpa. — Então pensei… talvez você quisesse algo doce.
Nevra iluminou-se com as palavras dele, o olhar baixou para a caixa sobre os joelhos dele, depois voltou ao rosto dele.
— Você parece um menino — murmurou, lançando um olhar rápido para a casa.
— E você, uma garota que fugiu escondida — retrucou Ismail.
Nevra corou e desviou o olhar.
— Não sei se isso é certo… — baixou a cabeça, as mãos entrelaçadas no colo. — Esses tempos… e Mert doente…
Ismail imediatamente estendeu a mão, pousando-a sobre a dela.
— E eu mal consegui te convencer a vir — disse baixo. — E mesmo assim tenho medo que na próxima vez você não apareça.
Ela apertou a mão dele em silêncio.
— No hospital… — lembrou-se ele de repente. — Vão mudar protocolos. O conselho está pressionando. — contou. — Achei que você devia saber…
Encontrou o olhar dela e perdeu o fio.
— Desculpa… esqueço tudo quando você está perto.
Nevra abaixou o rosto, mas sorria.
— Às vezes… isso nem é ruim — sussurrou, olhando para ele, sem desviar. — Só não sei se é certo a gente se encontrar…
— Certo é você ter vindo — respondeu logo, a voz mais firme. — Já me sinto melhor só de ver você.
— E eu quero doce — murmurou Nevra, olhando para ele de modo significativo.
Os olhos de Ismail brilharam, se arregalaram um pouco; respirava fundo, depois se recompôs, pegou a caixa e estendeu para ela.
— Hoje é com água de rosas… — disse, rouco.
Nevra pegou a caixa, abriu: lokum coberto de açúcar de confeiteiro. Pegou um pedaço, levou aos lábios. Fechou os olhos, saboreando, lambeu os lábios e depois a ponta dos dedos. Seus olhares se encontraram, e os dois riram, até que de repente silenciaram, encarando-se.
— Vamos ficar com medo um do outro por quanto tempo? — escapou dele.
— E se tudo isso for errado? — ela baixou a cabeça, envergonhada.
— Talvez seja exatamente certo — respondeu baixinho. — Porque se esperarmos o “momento ideal”, ele nunca vai chegar.
Nevra ergueu os olhos, e neles dançava a inquietação.
— Ismail… nós não somos crianças.
— Justamente — replicou. — Temos menos tempo que as crianças.
O silêncio voltou, perfumado pelo aroma de rosas e açúcar.
— Com quem será que ela está? — sussurrou Umay, tentando enxergar os vultos dentro do carro.
— Um homem? — Parla apoiou-se no ombro dela.
— Sim — disse Umay. — É um encontro secreto, com certeza. — cochichou, os olhos brilhando.
— Ela é adulta — retrucou Parla. — Você acha que não teria direito a encontros? — sua voz soava duvidosa.
— Pois está claro que tem — bufou Umay. — Olha só!
De novo se esticaram para espiar pelas janelas. Não ouviam as palavras, apenas viam as mãos que se buscavam… e recuavam em seguida.
***
O corredor se estendia como uma longa faixa branca. Bahar caminhava devagar, como se as pernas não lhe obedecessem.
— Vamos — disse Rengin, tocando de leve o braço dela, guiando-a suavemente.
— Ainda tenho protocolos… — começou Bahar, quase no automático.
— Os protocolos podem esperar — interrompeu-a com doçura Rengin. — Agora há algo mais importante.
Bahar suspirou, consciente de que ela tinha razão. Por pouco se deixara afundar nos próprios medos… e havia algo maior em jogo. Mas outro temor a corroía: passara o dia inteiro evitando as perguntas de Çağla, e agora parecia que a levavam direto ao cadafalso — ao quarto dela. E, de fato, mal entraram, Çağla se ajeitou na cama, sentando-se mais ereta sobre os travesseiros, e Rengin fechou a porta atrás delas, como se cortasse toda rota de fuga.
— Vieram na hora certa — disse Çağla, deixando o livro sobre a mesinha. — Logo trarão os resultados.
Bahar, quase no piloto automático, pegou o prontuário, abriu o tablet, sem notar o olhar trocado entre Rengin e Çağla. Çağla fez um leve aceno, mas Rengin balançou a cabeça. Bahar, alheia, continuava mergulhada nos dados.
— Bahar… — Rengin tocou o ombro dela. — Foi você quem fez com que Çağla estivesse aqui agora, e que tivesse esperança. — lembrou, puxando-a de volta à realidade.
Bahar pousou o tablet e assentiu. Evitava encarar Çağla, mas esta sorriu e bateu na cama ao lado.
— Vem cá, minha passarinha, anda, vem — pediu, o olhar astuto.
— Por favor… — Bahar ergueu as mãos, como se pudesse encerrar ali a conversa. — Vamos só esperar os resultados. — enfiou as mãos nos bolsos do jaleco, sem se sentar.
— Está bem — Çağla concordou. — Se prefere em pé, que seja.
Bahar corou, gesticulando nervosa.
— Então, conta logo: como foi? — Çağla a fitava sorrindo.
— Como foi o quê? — Bahar parecia não entender.
— Não se faça de desentendida — Rengin cutucou-a com o ombro. — A aliança não apareceu sozinha.
Imediatamente Bahar escondeu a mão no bolso.
— Deus, vocês parecem crianças… — resmungou. — O que foi, o que foi… — repetiu mais baixo.
— Nós queremos saber! — Çağla riu. — Você voltou a ser noiva, queremos detalhes. Como foi, de novo no momento do pedido? Ele se ajoelhou outra vez?
— Çağla! — Bahar corou ainda mais.
— Tá bom, tá bom — Çağla fez um gesto. — Mas ainda não se casaram oficialmente, certo? Não foi só “assina aqui e põe o anel”?
Rengin riu. Bahar parou, muda, olhando de uma para a outra.
— Não me espantaria — insistiu Çağla. — Isso tem a cara do Evren.
— Eu não vou falar disso! — a voz de Bahar tremia.
— Então me diz: e agora, onde vão morar? — Çağla insistia.
— Você tem sua casa, ele tem o apartamento — completou Rengin, cutucando-a de novo.
— Quem disse que moramos juntos? — irritou-se Bahar.
— Então é na sua casa — sorriu Çağla, sem desviar o olhar.
— Isso não significa nada! — as faces de Bahar se tingiram de vermelho.
— Significa sim — Çağla replicou. — O anel fala por si. E o quarto de vocês, já é compartilhado? Ou nosso professor ainda dorme no sofá, ofendido?
— É impossível lidar com vocês! — Bahar cobriu o rosto com as mãos.
— Não, só queremos saber… se você está feliz agora — disse Rengin.
— Feliz? — a voz de Bahar subiu meio tom. — Feliz? — começou a andar pelo quarto. — Feliz porque meus filhos me olham como se eu estivesse cometendo um crime?
Çağla e Rengin se entreolharam em silêncio. Haviam conseguido: Bahar ao menos começara a falar.
— Uraz está sombrio como uma tempestade, Umay ainda não fala nada, Siren suspira, Nevra… — Bahar abriu os braços, sem palavras. — Até os netos! — apontou. — Eles nem falam ainda, mas me olham como se entendessem tudo. Tudo! Como posso voltar pra casa, quando Evren me leva pro quarto diante de todos e não sabe ser discreto e…? — corou, pressionando as mãos às faces, parou diante da janela, olhando a cidade. — E ainda nem fui ver minha mãe…
— Ora, dona Gülçiçek não vai te condenar — disse Çağla.
Bahar se virou, estremecendo.
— Você tem direito ao amor, Bahar — Çağla falava manso, e a respiração dela aos poucos se acalmava.
— Eu sei! — explodiu Bahar. — Mas sinto como se estivesse escrito na minha testa: “ela escolheu Evren de novo”.
— Mas você escolheu — Rengin pousou a mão no ombro dela.
— Eu… — a voz falhou. — Deus… — caiu na cadeira. — Não sei o que quero. E Evren falou de filho. Ele quer, e eu… não sei nem como voltar pra casa.
— É só medo — Çağla quis levantar-se, mas Rengin a conteve com um gesto.
— O medo também faz parte da escolha — disse Rengin.
Bahar enxugou discretamente os olhos, e um sorriso leve tremulou em seus lábios.
— Vocês são impossíveis… — murmurou, entre lágrimas e riso.
— E você é incrível, minha passarinha — Çağla estendeu a mão. Bahar levantou-se, foi até ela. — Foi você quem me devolveu esperança, este é o seu milagre — ela guiou a mão de Bahar até seu ventre.
A porta se abriu de leve, um assistente trouxe um papel. Rengin pegou e entregou a Bahar. Çağla prendeu a respiração. Bahar olhou e fechou os olhos.
— Duplicou — sussurrou, voltando a abri-los.
As lágrimas brilharam nos olhos de Çağla. Rengin sorriu. Bahar se curvou, encostou o rosto no ventre da amiga, com cuidado.
— E de qualquer forma, Bahar, quero detalhes — rompeu o silêncio Çağla. — Tenho direito, estou oficialmente grávida, não pode me negar isso.
Bahar não se mexeu, gostava de sentir a respiração da amiga.
— Somos adultas, comporte-se — respondeu.
— Adultos também se beijam! — provocou Çağla. — Não seja um protocolo ambulante!
— Não sei o que dizer a vocês! — Bahar se ergueu. — Não sei o que vem depois!
— Então vejamos: paciente: Evren — Çağla ergueu a mão, enumerando nos dedos. — Queixas: ciumento, teimoso, precisa de atenção constante.
— Basta! — Bahar saltou de pé.
— Agora sim parece a Bahar de verdade! — comentou Rengin.
— Vocês combinaram isso! — acusou ela.
— Claro — riu Rengin, aproximando-se, impedindo Çağla de se levantar. — Vamos ser sinceras: você quer estar com ele?
— Quero… — admitiu Bahar, os ombros cedendo. — Mas temo não poder dar a ele o que deseja. — calou-se. — Ele quer um filho.
— O medo pode ser dividido — disse Çağla, ajeitando o travesseiro. — Só fala com Evren sobre isso.
Bahar estremeceu, virou-se para ela. Ficou em silêncio um longo tempo antes de responder:
— É só o que faço… falar, falar, falar. — suspirou. — Chega de me interrogar, por favor. — cruzou os braços em súplica. — Fizeram um tribunal da minha vida… parem. — ergueu a mão com o anel. — Isto não resolve todos os problemas, é só um passo.
— Sim, claro — sorriu Çağla. — Mas significa que ele vai voltar a correr atrás de você, como sempre.
Bahar ficou imóvel: as palavras de Çağla lembraram algo precioso, mas as de Rengin a fizeram balançar a cabeça.
— Vai te levar café da manhã na cama — completou Rengin.
Bahar apenas abriu os braços, olhando para as duas. Elas se entreolharam.
— Parem, por favor — pediu Bahar.
— Então para você de se esconder — respondeu Rengin em tom suave.
Bahar a fitou, ainda sem se permitir nem um sorriso.
— Aliás — Çağla ergueu as sobrancelhas — eu me sinto ótima, a HCG está crescendo, e por que esses rostos tão sérios? Um milagre dentro de mim — colocou as mãos sobre o ventre e olhou para Bahar — e outro no seu dedo. Estatística excelente, doutora Bahar.
— Estamos felizes, querida — Bahar forçou um sorriso. — Só um pouco cansadas.
— Fico pensando… — Çağla acariciou a barriga. — Quem mais vai aumentar minha estatística?
Bahar se enrijeceu na hora, e Rengin empalideceu.
— E além disso, Bahar, você não está sendo justa. Tirou de mim todos os detalhes. Sei como Evren é romântico, e você não conta nada! — havia um tom de queixa em sua voz.
Bahar revirou os olhos — a conversa voltava sempre a ela e Evren.
— Vocês parecem duas adolescentes — murmurou.
— E você parece que esqueceu que é mulher — Rengin fez biquinho. — Deixa a gente sonhar, que depois dos quarenta também se pode usar anel de noivado.
Elas riram, e Bahar riu junto, pela primeira vez no dia com leveza verdadeira. Como se, por um instante, tivesse esquecido as perdas. A vida seguia, apesar de tudo.
— Mas eu confesso que estou um pouco nervosa… — disse Çağla, e Bahar suspirou de alívio por não ser sobre ela mesma dessa vez. — Será que vou dar conta sozinha?
— Eu criei a Parla sozinha — Rengin sentou-se. — É possível. Difícil, nada simples, mas possível.
— Já a Bahar, tudo dentro das regras: marido, família, filhos, netos, agora até um professor ao lado — Çağla olhava para ela com ternura.
— Çağla, por favor, chega. Eu não tenho nada de perfeito. Eu morro de medo, de tudo. Chega — dessa vez não era brincadeira.
— Sabem o que eu queria? — murmurou Çağla. — Que nós três estivéssemos grávidas. Ter filhos juntas, que nossas crianças crescessem lado a lado.
Rengin empalideceu outra vez. Bahar ficou séria, fechada, o olhar apagado.
— Três grávidas? — sua voz soou incerta. — Nem todas estão destinadas a dar à luz — completou.
O silêncio tomou conta do quarto. Çağla apertou a mão de Bahar. Rengin aproximou-se e a abraçou. Ficaram assim, em silêncio, cada uma com sua história, seus medos. Naquele instante, nenhuma tentou usar máscara: eram apenas três mulheres, que se entendiam sem precisar de palavras…
***
A casa estava cheia de mulheres, mas a cozinha fora ocupada por Evren. Ele cortava o pão com movimentos excessivamente precisos, quase cirúrgicos. A toalha sobre a mesa estava um pouco torta, e ele a ajeitou automaticamente, como se também fosse uma mesa de cirurgia.
CAPÍTULO 7. PARTE 3
A cozinha da casa de Bahar de repente havia se transformado em sua sala de cirurgia: as facas alinhadas com perfeição, os ingredientes separados com rigor, e cada movimento calculado, cirúrgico. Até o pão ele cortava em fatias idênticas, como se não estivesse preparando o jantar, mas suturando um coração. Mas toda aquela precisão escondia a inquietação que não o deixava um só minuto.
Evren sabia comandar uma equipe cirúrgica, mas não sabia como se encaixar no ritmo da casa. Ali, tudo era barulho, movimento, mudança. Não havia protocolos, nem cronogramas. Ali havia vida — e era exatamente nisso que ele se esforçava para não se perder.
— Professor Evren, terminei a ronda — a voz de Yusuf soou pelo celular, que Evren tinha colocado no viva-voz.
— Dados sobre Aliye — ele pediu de imediato, pressionando o pão contra a tábua com a mão.
— Paciente Aliye: temperatura normal, respiração estável, parâmetros dentro do esperado — ouviu-se o farfalhar de papéis — vou lhe enviar os relatórios.
— Mais específico, — a voz de Evren saiu dura, enquanto ele se endireitava. — Como estão os drenos? Qual o balanço hídrico? — exigiu ele, pedindo todos os detalhes.
Por alguns segundos só se ouviu a respiração de Yusuf, até que ele respondeu:
— Menos duzentos no dia… — ele se atrapalhou folheando o caderno.
— “Menos duzentos” não é resposta, — a voz de Evren se tornou fria, exigente. — Me diga de onde veio esse número: infusão, diurese, perdas pelos drenos. Você precisa enxergar o quadro inteiro.
A faca de cozinha ficou imóvel em sua mão, o olhar fixo, o tom controlado — mas havia paciência, esperando Yusuf se recompor.
— Infusão 1500, diurese 1700, drenos 0,5 — respondeu Yusuf, após uma pausa.
Evren assentiu devagar.
— Isso, agora é uma resposta. — Sua voz suavizou um pouco. — Nunca opere com metade dos dados, Yusuf. Em cirurgia, “quase” significa perder o paciente. — Ele largou a faca na tábua e limpou as mãos.
— Entendi, — murmurou Yusuf.
— Não, não entendeu, — Evren não recuou. — Repita.
— Em cirurgia, quase significa perder o paciente, — repetiu Yusuf, firme.
Um esboço de sorriso quase surgiu nos lábios de Evren, o olhar amolecendo.
— Muito bem, — ele relaxou os ombros.
— O senhor ora elogia, ora critica, — resmungou Yusuf.
— É assim que tem que ser, — respondeu Evren prontamente. — Não sou rigoroso para te quebrar, mas porque sei que um único erro seu pode custar uma vida.
Pegando o telefone da mesa, Evren desligou o viva-voz e se sentou no sofá favorito de Bahar, no canto da cozinha, perto do aquário. Olhou o relógio.
— Termine, busque a Bahar e a leve para casa, — ordenou, em tom inegociável.
Na voz dele havia a mesma firmeza da ronda: perguntas rápidas, precisas, sem espaço para erro. Mas quando o assunto era Bahar, ele se perdia em pausas, como se temesse ouvir a resposta.
— Ela vai discutir com você, mas precisa insistir! — avisou, e sua voz saiu mais baixa, mais íntima, como se viesse do fundo do peito.
Umay passava pelo corredor e ouviu sem querer: “Termine, busque a Bahar e a leve para casa”. A firmeza na voz de Evren fez seu coração se apertar: ela percebeu o quanto ele se agarrava à sua mãe. Mas logo Parla a chamou, e Umay se afastou sem ouvir o resto.
Yusuf suspirou… queria cumprir a ordem, mas não fazia ideia de como obrigar Bahar, caso ela se recusasse.
— Mas ela… — ainda tentou argumentar.
— Vai discutir, — cortou Evren. — Vai dizer que está ocupada, que tem trabalho. Mesmo assim, você deve trazê-la para casa, entendeu?
Siren parou na porta da cozinha, carregando Mert adormecido no colo. Viu Evren, telefone na mão, dando ordens a Yusuf. Naquele instante, o rosto dele não tinha a segurança do professor. Era apenas um homem, tremendo de medo pela mulher. Silenciosa, ela desviou o olhar como se não tivesse visto nada. Mas por dentro, algo se apertou: ambos eram muito mais frágeis do que deixavam transparecer.
De novo Yusuf suspirou, perdido diante da pressão. Para Evren, tudo que dizia respeito a Bahar era questão de vida ou morte. Desta vez, o professor lhe dava uma missão além de suas forças.
— Entendi, — foi o que acabou respondendo, mesmo sem convicção.
— Como você está? — perguntou Evren de repente, mudando de assunto.
— Tudo bem, — Yusuf se surpreendeu, — estou aprendendo com o senhor.
— Comigo? — Evren esboçou um sorriso irônico, levantando-se para pegar um prato no armário. — Eu só controlo. Você é quem vê e ouve. Para confiar em um mestre, o aluno precisa usar os olhos.
— Mas o senhor confia em mim, — a voz de Yusuf saiu vacilante.
— Talvez, — Evren admitiu, — mas mesmo assim vejo mais do que você diz.
— Professor, hoje uma paciente… — ele começou, mas alguém o chamou ao fundo. — Não consigo lhe contar agora, — falou apressado.
— Que paciente? — Evren se alarmou na hora.
— Depois, professor, estão me chamando, — Yusuf cortou.
— Está bem, — Evren pousou o prato sobre a mesa. — Eu vou lembrar. Depois me conta. E lembre-se — a Bahar!
Ouviu Yusuf suspirar do outro lado, e um sorriso escapou em seu rosto. Ele sabia muito bem que estava exigindo do rapaz algo quase impossível.
— Eu vou trazer a Bahar, digo, — ele corou — a doutora Bahar, — corrigiu-se.
— Precisa trazê-la, — disse Evren, firme. — Quero que ela venha para casa.
Encerrando a ligação, o silêncio voltou à cozinha. Apenas o riso infantil ecoava da sala.
Evren fechou os olhos. Suas mãos tremiam, escondidas sob a toalha. Casa. Família. Responsabilidade. Tudo isso era estranho ao seu antigo ritmo — e ele estava aprendendo: a ser não só cirurgião, mas também um homem dentro de um lar.
Mantinha-se como professor, mas sabia que também podia falhar. Aprendia as relações adultas do mesmo jeito que aprendera as primeiras cirurgias: através do medo, através do tremor nas mãos — que ninguém deveria ver.
O riso de Umay e Parla se misturou ao riso claro de Leyla. Evren fechou os olhos e sorriu. As mãos ainda tremiam, mas o peito estava mais quente. Era por aqueles risos, por aquelas vozes que ele reaprendia a viver — não apenas como cirurgião, mas como homem em quem a casa podia confiar.
E no fundo, o medo persistia. O medo de que nada desse certo, de que se afastassem de novo, como no passado. Esse era o medo que ele escondia mais fundo. Mesmo ali, entre panelas e pratos, escondia-o sob a perfeita fatia de pão e a mesa impecável…
***
Rengin estava sentada à mesa. A porta de seu gabinete se abriu sem que ninguém batesse, e Sert Kaya entrou. Ele não se apressou em se sentar; apenas se aproximou da mesa dela e ficou de pé, preenchendo todo o espaço do ambiente.
— O costume é bater antes de entrar, — disse ela num tom sereno.
— Quando se trata de disciplina, formalidades são desnecessárias, — respondeu ele com voz firme.
Sert colocou uma pasta sobre a mesa dela.
— A partir de amanhã, qualquer decisão fora do padrão deve ser aprovada pelo conselho! Sem exceções! — declarou com categórica rigidez.
— Em situações de emergência, isso pode custar a vida de um paciente, — Rengin levantou-se e o encarou diretamente.
— Você responde pelos protocolos. Sua autoridade pessoal não tem importância aqui! — ele deu um passo à frente. Seus olhos brilharam, mas não permitiu que a voz se alterasse.
— Quer que deixemos de ser médicos? — ela perguntou, sustentando o olhar dele. — Quer que eu me torne parte de um sistema que mata pacientes por causa de uma papelada?
— Quero que você seja uma líder, não uma mulher dominada por emoções! O sistema se sustenta em regras, não nos seus sentimentos. Essa mania de jogar os salvadores sempre termina em tragédia! — ele parecia saborear sua própria autoridade, satisfeito com o poder que exercia. — Mulheres sempre pensam apenas em si mesmas! — sua voz se fez mais baixa, o olhar penetrante, como se a queimasse por dentro. — Destacam famílias por caprichos, — disse ainda mais baixo. — Você sabe disso melhor do que ninguém, professora Rengin?! Dezesseis anos… é um preço alto demais!
Ele silenciou. O rosto de Rengin perdeu a cor, em seguida suas faces se avermelharam. Por um instante, ela fechou os punhos, os lábios tremeram, mas permaneceu calada. Em sua expressão cruzaram-se vergonha, dor, raiva — mas Sert também viu nascer uma centelha de determinação.
— O conselho é uno, não há discussão, — ele bateu os dedos sobre a pasta, virou-se e saiu.
Rengin ficou sozinha. Apoiada nas mãos sobre a mesa, quase desabou na cadeira e fechou os olhos. Sua respiração estava descompassada. Contra sua vontade, lágrimas escorreram pelo rosto — fazia muito tempo que não sentia tamanha humilhação.
A pasta dele estava sobre a mesa. Rengin a fechou com tanta força que a caneta rolou para o chão. Ela a pegou, colocou de volta com calma, alinhou os papéis. Em seguida, enxugou as lágrimas com o dorso da mão, ergueu o rosto. Seu semblante voltou a ser impenetrável. Ninguém — nem ele, nem qualquer outro — a veria quebrada. Nunca.
***
A mesa dela estava coberta de papéis. Bahar se inclinava sobre os protocolos. Sentada na penumbra do gabinete, apenas a luz do abajur iluminava uma parte da mesa e a pilha de documentos. O cotovelo latejava, as costas doíam até a lombar, lembrando-lhe o que havia acontecido no pronto-socorro — e ainda o marido de uma paciente agarrara aquele mesmo braço. Ela massageou o pescoço e pousou a mão na articulação, como se assim pudesse aliviar a dor.
Bahar voltou a se inclinar sobre os papéis, mas as letras começaram a se embaralhar, as linhas a saltar diante dos olhos. Por um instante fechou os olhos e esfregou o ombro. Dentro de uma hora seu turno terminaria, mas não tinha pressa de ir para casa — e, de certa forma, até a agradava que Sert Kaya lhe tivesse dado aquela tarefa.
Ela sabia que se escondia atrás do trabalho, mas ainda não sabia como se portar em casa diante dos filhos adultos. Não sabia como encará-los. Com Timur era diferente. Vinte e cinco anos de casamento, mas viviam em quartos separados. Agora lhe parecia que todos olhavam para ela e Evren e só pensavam em uma coisa: no que acontecia atrás da porta de seu quarto.
Ela não sabia como demonstrar seu amor por Evren sem olhar por cima do ombro, sem sentir culpa, sem enxergar reprovação nos olhos dos filhos.
Bahar suspirou e apertou a cabeça entre as mãos, como se isso pudesse lhe trazer uma saída, uma solução… mas, por enquanto, só continuava fugindo — de si mesma, e, de certa forma, dele também. Evren estava em casa, e ela, no hospital… E ainda assim sentia falta dele. Haviam se reconciliado apenas na noite anterior, começado a viver juntos de novo, mas já lhe faltava desesperadamente o abraço dele, a voz, os beijos, até o olhar que sempre lhe devolvia confiança. Aquele olhar que lhe dava forças para seguir em frente.
O toque da campainha do celular fez seus olhos se abrirem — e ela sorriu ao ver o nome na tela: Evren. Ficou imóvel, apenas olhando. Evren estava ligando para ela de novo, depois de tantos meses de silêncio. Era a primeira ligação pessoal desde a briga, exceto pela situação com Umay. Tremendo, ela atendeu, ainda sorrindo.
— Alô? — sua voz soou suave, aveludada, seu corpo inteiro vibrou antes mesmo de ouvir qualquer palavra dele.
Bahar encostou o telefone ao ouvido, mas ele ficou em silêncio. Apenas a respiração dele, pesada, profunda, a alcançava — e a perturbava.
— Eu a beijo, — ouviu algo que jamais esperava, e o coração disparou; ela chegou a distinguir o som de um beijo. — Eu a abraço, — continuou ele em sussurro, e Bahar recuou da mesa, agarrando o braço da cadeira com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Eu respiro por ela.
Ela saltou da cadeira de repente, derrubando todos os protocolos no chão, espalhando-os a seus pés. Seu rosto perdeu toda a cor.
— O quê? — sussurrou quase sem voz, incapaz de inspirar. — O que você…?
Não conseguiu terminar. O coração martelava em suas têmporas. Bahar caminhou rápido até a porta, pegou a maçaneta e parou. Virou-se de volta. Começou a andar de um lado para o outro pelo gabinete, sem saber o que fazer. O ciúme apertava sua garganta num laço de ferro, o coração se encolhia até o nada.
Ela se aproximou da janela, encarando o mundo lá fora, onde a vida seguia, enquanto a dela parecia ter parado naquele instante. Em um flash, imaginou-o com outra. Os lábios dele beijando outra mulher, os braços envolvendo alguém que não era ela. Sem perceber, levou a mão à boca, tentando conter o grito mudo que subia. Fitava a rua, como se pudesse atravessar a distância que os separava — mas para quê?
— Ela é tão quentinha, — a voz dele seguiu tranquila, alheia ao turbilhão dentro dela. — Dorme nos meus braços, sorri enquanto sonha.
As palavras dele só atiçavam o incêndio em suas veias. Já não era apenas um fogo — era um verdadeiro inferno.
— Ela cheira a leite… — no início, Bahar não compreendeu. Mas quando o sentido lhe alcançou a mente tomada pelo ciúme, fechou os olhos e apoiou a testa contra o vidro frio.
A onda foi tão forte que a derrubou por dentro, devastadora, deixando apenas cinzas. Estavam em mundos diferentes: ele, em paz, ela, em plena batalha.
— Quando a seguro, quando a balanço nos braços, penso em você, — a voz de Evren sorriu, e ela sentiu mesmo à distância.
— Você está louco, Evren, — conseguiu finalmente articular.
— Foi você quem me enlouqueceu, — Evren beijou Leyla de novo, e Bahar ouviu o som, sem evitar um sorriso involuntário. Agora, através da janela, distinguia luzes da cidade, carros, árvores, casas… mas era como se o visse, lá no quintal dela, como naquele dia em que apareceu para falar sobre Aliye. — Seguro ela, mas penso em você — em nós.
Bahar encostava a testa no vidro gelado. Podia jurar sentir o sopro dele em seu pescoço, o beijo dele em sua pele. Suas faces ardiam.
— Mert já está melhor, dormiu. Siren ficou com ele, e eu peguei a Leyla, — ele falava com tamanha naturalidade, como se fosse algo de todos os dias. — O jantar está pronto. Você não comeu de novo, não é?
Por que para ele tudo parecia tão simples, e para ela tão difícil? Sim, não havia comido. Sim, estava faminta. Mas nem mesmo saber que ele a esperava em casa vencia o medo de encarar os filhos.
— E você? Comeu? — ela suspirou. — Está cansado?
— Estou com ela nos braços, mas não sinto cansaço, — ela percebeu o sorriso na voz dele. — Sabe por quê?
Bahar permaneceu em silêncio, fitando a escuridão da rua.
— Porque espero por você, — ele disse, interrompendo apenas para beijar Leyla mais uma vez.
Ela sentiu uma pontada de ciúmes, como se todos os beijos dele devessem ser só dela.
— Espero você em casa, — concluiu Evren.
— Evren… — ela murmurou, atônita, porque aquelas palavras valiam mais do que qualquer declaração.
— Bahar… — a voz dele ficou grave, profunda. — Se você estivesse em casa agora, eu a beijaria bem aqui… — e suas palavras acenderam nela um desejo imediato, mas ela não conseguiu imaginar: na bochecha? No pescoço?
— Evren, — ela corou — cuidado com a barba, vai me arranhar… — sua voz tremia, carregada de emoção. — A pele é muito delicada.
Evren riu, e ela acabou sorrindo também, sem querer.
— Igualzinha à sua, — murmurou ele, beijando a bochecha de Leyla. — Não se preocupe, — respondeu por fim, — já me barbeei de novo.
Bahar levou a mão ao peito, afastou-se da janela e apoiou-se na mesa, tentando se firmar. Quis rir, fechar os olhos, esconder-se — tudo ao mesmo tempo. Como ele conseguia ser tão doce, enquanto ela ainda tinha medo de seus próprios sentimentos, medo de demonstrá-los abertamente, principalmente dentro da própria casa?
Quase não conseguiu resistir ao impulso de pegar a bolsa e correr dali, apressada, para ele… para casa. Mas a próxima pergunta dele esfriou seu ímpeto.
— Como foi o dia? Salvou todo mundo? — brincou, do jeito que lhe era típico.
— Evren… — Bahar abraçou os próprios braços. — Vamos não falar de trabalho, por favor.
— Dia difícil? — a voz dele logo se tornou atenta.
— Há dias em que… — a voz dela vacilou, e ela não conseguiu continuar.
— Você sabe que pode me contar, — a voz dele mudou, perdeu a suavidade e ganhou firmeza, como se estivesse pronto a empurrar o mundo inteiro só para abraçá-la.
Meio sentada, meio apoiada na mesa, Bahar abaixou o olhar e balançou a cabeça.
— Eu não consigo falar agora, — sussurrou, a mão tampando a boca, como se ainda tentasse se proteger, se esconder, como aprendera nesses longos meses sem ele. Acostumara-se a não dividir nada, a viver sem ele.
— Bahar, você está me assustando, — agora o tom dele trazia preocupação.
O silêncio voltou a se instalar entre eles, não sufocante, mas pesado.
— Duas crianças, Evren, — arriscou enfim. — Hoje perdi duas de uma só vez. Não consegui salvá-las, Evren. Não deu certo… — ela fechou os olhos, quase tremendo, apertando o celular com tanta força que os dedos ficaram dormentes. — Por favor, não me fale em salvar hoje. Não hoje. — A voz falhou. — Talvez eu simplesmente já não consiga fingir que não dói, que sou forte.
— Amor, nós somos médicos, não salvamos a todos, — ele parecia ter se levantado, e ela o via em pensamento, ali, perto. — Tentamos. Às vezes fazemos milagres, acreditamos neles, mas não temos todo o poder. Não somos deuses. Você não deve e não pode se culpar.
— Evren… — Bahar o interrompeu, mudando bruscamente de assunto. — Você está com Leyla nos braços… Você quer um filho meu, e eu…
— Não estou te pressionando, — Evren também a cortou. — Não quis dizer nada disso, — tentou se explicar, aflito.
— Eu sei… — a voz dela soava cansada. — Mas não consigo nem pensar nisso agora. Não hoje. Por favor, me entenda.
— Bahar, eu não pressiono, — a voz dele falhou.
— Pressiona… — murmurou ela. — Até no silêncio, você pressiona. — A mão caiu, apoiando-se na mesa, buscando mais um ponto de equilíbrio. — Fale da barba, ria comigo, só não fale de trabalho, nem de crianças.
— Da barba, então, — a voz dele voltou depois de uma pausa, quase rindo, mas o riso tinha gosto amargo. Ela sentiu, e também não tinha vontade de sorrir. — Já disse que me barbeei outra vez.
Ela passou os dedos nos cantos dos olhos, secou as lágrimas, até esboçou um sorriso. Ele falava ao telefone, e ela assentia, mordendo os lábios.
Não agora, não hoje. Mas eles voltariam àquele assunto. Ele sabia, ela também. Ele a esperava em casa — e para ele, isso significava calor, conforto, algo que nunca tivera e só encontrava com ela. Para ela, significava de novo a roda interminável de lavar, passar, arrumar. Ele queria um filho. Cada palavra dele soava como sentença, e ela não queria prometer em vão. Não queria que seus filhos, Uraz e Umay, nem o próprio Evren, passassem pelo que aquele casal enfrentara hoje. Não queria impor-lhes esse peso. Quis chorar alto, mas conteve-se, endireitou-se.
— Já estou com saudades, — a voz dele atravessou seus pensamentos. — Preciso dos seus abraços.
— Fala assim… — ela foi até a janela — só para eu acreditar. Mas está abraçando ela, Leyla, minha neta.
— Está enganada, — Evren sorriu, a voz carregada de satisfação, como se tivesse conseguido o que queria. — Só falo de você, só penso em você, só sonho com você. Vem logo, — pediu.
— Evreeeen… — Bahar sorriu sem querer. — Preciso trabalhar. — Olhou para os documentos espalhados no chão.
— E eu te espero em casa, — insistiu ele. — Espero tanto que conto os minutos. Vem logo, antes que eu comece a ter ciúmes desses protocolos. — E ele não parecia estar brincando.
— Você é louco… — ela riu, breve, cristalina, e logo tampou a boca, olhando ao redor, temendo ser ouvida.
— Louco por você, — ele nem tentou negar.
Bahar se abaixou, recolheu os protocolos do chão e os colocou sobre a mesa. Ao se erguer, franziu o cenho: a dor no braço e nas costas voltou. Percebeu, então, o quanto queria estar em casa — onde ele a esperava. Sentou-se na cadeira e suspirou fundo.
— Mais tarde, Evren, — sussurrou.
— Vou esperar, de qualquer jeito, — disse ele carinhoso, quase ronronando.
Ela até visualizou aquele sorriso de gato no rosto dele, e logo o calor a percorreu, o sangue correndo mais rápido.
— Te amo. Um beijo, — ela disse, sorrindo.
— Vem me beijar, — respondeu ele, com um tom teimoso. — Ainda mais agora que não vou arranhar sua pele macia. — E acrescentou, a voz mais grave: — Podemos jantar no quarto, só nós dois. Tomar banho juntos. A ordem pode ser qualquer uma.
— Evreeen! — os olhos dela brilharam, enquanto o medo lhe arranhava a garganta. Como seria possível, diante de todos, fechar-se no quarto com ele para jantar?
— Te amo, estou te esperando, — ele exalou, tentando se acalmar. — Os beijos, só ao vivo, de verdade. — O tom dele carregava a habitual firmeza.
Ele conseguiu fazê-la rir outra vez, e ela riu, balançou a cabeça, despediu-se e desligou o telefone. Encostou as mãos nas faces, tentando entender o que era mais forte dentro dela: o medo de voltar para casa ou o desejo de estar com ele.
***
Ele olhava para as casas. Sert Kaya estava de pé diante da janela, o celular colado ao ouvido.
— Sim. Eles estão no hospital, — sua voz saiu baixa. — Sim, tudo dentro do esperado, — falou quase sem entonação. — Sim, sob controle.
Ficou em silêncio, ouvindo com atenção, os olhos fixos ao longe.
— Não… a criança não resistiu, — os dedos apertaram o parapeito da janela.
Ele não abaixou o olhar, como se não falasse com alguém, mas com o vazio.
***
Bahar desviou os olhos do monitor. Demorou a se decidir, mas sabia que não podia adiar mais. Levantou-se e saiu do gabinete. Quase o dia inteiro evitara Gulçicek e Reha. Sim, passara de manhã, mas apenas durante a ronda, tão rápido que eles não tiveram tempo de perguntar, e ela também não tentara explicar nada.
Bateu levemente à porta, esperou alguns segundos e só então entrou no quarto. Reha estava semi-recostado na cama, lendo uma revista. Gulçicek se ocupava ao lado dele. Bahar sorriu ao vê-los assim e ficou parada, apenas olhando. Parecia-lhe que sua mãe não parava um instante: ajeitava o travesseiro do marido, vigiava o soro, até pedira à enfermeira para abaixar as persianas, para que o sol poente não incomodasse Reha.
— Bahar, — foi ele o primeiro a notar, deixando a revista de lado e sorrindo. — Venha, sente-se, não vimos você o dia todo. — O olhar dele era atento.
Bahar assentiu e se aproximou. Olhava ora para a mãe, ora para Reha, sem saber por onde começar.
— Você não comeu nada de novo, não é? — Gulçicek logo gesticulou, aproximando-se dela.
Ela semicerrava os olhos, examinando a filha.
— Está pálida, cansada. Você dorme ao menos? — despejou as perguntas.
— Mamãe, por favor… — Bahar segurou-lhe as mãos e sorriu.
— Deixe-a, Gulçicek, — interveio Reha. — Deixe que sente, — indicou a cadeira ao lado da cama.
— Ah, não, — reagiu de imediato Gulçicek. — Nada de interrogatório médico. Conheço você, logo começa.
O sorriso de Bahar sumiu tão rápido quanto viera.
— Hoje perdemos uma criança, — disse de repente, olhando para a janela. — A mãe sobreviveu. — Calou-se. Gulçicek ficou séria, deu um passo para trás, lançou um olhar ao marido, mas ele mantinha toda a atenção na filha. — Ainda ouço minha própria voz, professor Reha, — confessou ela. — Prioridade: a mãe.
— Bahar… — ele estendeu a mão, e ela se aproximou, deixando-o apertar seus dedos. — Isso é medicina. — A voz dele era calma, o olhar firme. — Aprendemos a viver com essas palavras. Soa cruel, eu sei, mas são essas decisões frias que salvam vidas.
— Só que ficam gravadas no coração, — Bahar levou a outra mão ao peito.
— Bahar! — Gulçicek ergueu os braços. — Ele não pode se agitar! Pra que falar disso com ele?
— Deixe-a, Gulçicek, — Reha ficou sério. — Ela estava na cirurgia, carrega as próprias marcas. Sente-se, Bahar. — Tornou a oferecer.
Ela recusou outra vez.
— Ele tem um stent, Bahar, — a voz da mãe vacilou. — Precisa de repouso! — De repente, Gulçicek a abraçou. — E você também precisa descansar. — Apertou a filha adulta contra o peito. — Venha, deixa eu te dar comida.
Bahar suspirou, sorriu sem jeito e encostou no ombro da mãe em silêncio. Reha balançou a cabeça, olhando a esposa, como se aquela preocupação tivesse vindo na hora errada.
— Somos uma verdadeira equipe, — brincou ele, ajeitando a manta sobre as pernas. — Uma reclama, a outra se cala, e eu mantenho o equilíbrio.
— Mamãe… — Bahar ainda escondia o rosto — eu e Evren… estamos morando juntos. — Disse baixo.
Gulçicek a apertou mais forte.
— É o certo, — suspirou com lágrimas nos olhos. — Chega de se esconder pelos cantos.
— Na idade de vocês, se esconder é ridículo, — concordou Reha. — É preciso viver com verdade.
Gulçicek se afastou um pouco, enxugando as lágrimas.
— Eu volto depois, — Bahar murmurou, constrangida, percebendo que a conversa já rodava em círculo. Não dissera o que realmente queria.
Reha a encarava como se soubesse que ela deixara algo por dizer. Bahar beijou a mãe na face, apertou a mão dele e quase saiu correndo do quarto.
***
Fechou a porta e soltou o ar. O mais difícil já tinha passado, mesmo sem ter falado tudo. Mal dera um passo, o celular vibrou no bolso.
— Siren? — Bahar apoiou as costas na parede. — Aconteceu algo com Mert? — a respiração falhou, a mão foi ao peito.
— Ele está melhor, — a voz de Siren soou, e Bahar fechou os olhos. — Evren… ele ajudou. Consegue ser doce e médico ao mesmo tempo. — As palavras arrancaram um sorriso dos lábios de Bahar.
Ela relaxou, como se aquelas frases lhe devolvessem forças.
— Eu mesma não esperava, — confessou Siren. — Não sabia que ele poderia ser assim com crianças.
Bahar engoliu seco… de novo crianças. Por que hoje, só crianças?
— Obrigada, Siren, — apertou o celular com força. — Cuide dele, — sussurrou, encerrando a chamada.
Ficou alguns segundos imóvel no corredor, olhando as paredes brancas. Suspirou, limpou discretamente os olhos e tentou se recompor.
O silêncio foi quebrado por passos. Sert Kaya surgiu como se do nada, parou diante dela.
— Doutora Bahar, — sua voz a fez estremecer. Não havia calor, nem rancor — apenas constatação seca. — Observei sua cirurgia hoje. Você demonstrou emoções.
— A mulher está viva, — retrucou ela.
— Por enquanto, — respondeu ele, impassível. — Ou melhor, ainda. — Inclinou levemente a cabeça, fitando-a nos olhos. — Já a criança… não.
Bahar se endireitou. O queixo tremeu, mas sustentou o olhar.
— Você não tem o direito de decidir com o coração, — a voz dele soava como uma ordem.
A garganta de Bahar ardeu, quis tossir. Não respondeu, apenas escondeu as mãos nos bolsos do jaleco, para disfarçar o tremor.
Sert fez um leve aceno, como quem já dera o veredito, virou-se e se afastou, deixando-a sozinha no corredor vazio.
Só que ela não estava sozinha: atrás da esquina estava Kamil, o marido da paciente. O rosto dele perdera toda a cor. Tornara-se testemunha involuntária daquela estranha conversa.
Bahar olhou confusa para a porta fechada e simplesmente seguiu pelo corredor. Teve vontade de tocar a parede, de buscar apoio para continuar, mas apenas caminhou em frente.
***
— Ela foi embora, — Gulçicek olhou para a porta fechada e voltou-se para o marido. — Você entende, não é? — apontou para a porta.
— Ela não disse tudo, — concordou ele. — Disse apenas o que conseguiu agora, — respondeu Reha, ajeitando os óculos antes de recostar-se no travesseiro.
— Ela tem medo, — Gulçicek torcia as mãos, de pé ao lado da cama. Não sabia como apoiar a filha: não podia deixar o marido sozinho, nem correr atrás dela. — E eu tenho medo por ela.
Reha lançou um olhar para o tablet, mas não o abriu. Não quis checar os dados dos pacientes na frente da esposa — Gulçicek sempre o repreendia quando ele começava a pensar em medicina. Ainda assim, tinha certeza de que aquilo que Bahar deixara calado ele poderia encontrar ali.
— Cada um tem sua responsabilidade, querida, — disse ele, estendendo a mão. Gulçicek se aproximou e se sentou na cadeira ao lado da cama. — E ela também tem agora alguém em quem resolveu se apoiar. Eles vão dar conta. Temos que confiar nela. Neles.
— Você acha que ela conseguiu? — suspirou Gulçicek, apertando a mão dele.
— Se pela primeira vez nos falou de Evren… então sim. — Reha sorriu. — Conseguiu um pouco, e vai conseguir mais. Hoje cedo, ela ainda não tinha coragem de dizer.
— Só espero que Evren não a decepcione, — murmurou Gulçicek, os olhos úmidos.
— Essa já é a responsabilidade dele, — Reha cobriu a mão dela com a sua, prendendo-a entre as duas.
Ficaram em silêncio, olhando-se nos olhos.
— Mesmo assim… — ela se agitou de repente. — Você ainda não teve alta, não quero ninguém falando de hospital com você! — o tom dela saiu firme. — Não pode se preocupar!
— Somos médicos, — Reha deu de ombros, esboçando um sorriso. — Vamos sempre pensar em pacientes e no hospital.
— Pensar pode, — quase cedeu ela. — Mas sair correndo à noite, fazer cirurgias de horas, isso já não é mais para a sua idade, Reha. Está na hora de aprender a confiar nos outros.
Ele acariciava a mão dela, balançando levemente a cabeça.
— Então é hora de eu aprender a deixar ir, — disse mais baixo. — Talvez realmente tenha chegado o momento de me aposentar. — Suspirou pesado. — Não é o fim, — seus olhos marejaram. — É também uma forma de confiança. — Olhou para a esposa, a voz suave. — Confiar naqueles que continuam depois de você.
O quarto ficou em silêncio, quase sereno. Gulçicek ajeitou o cobertor, e Reha fechou os olhos. Pela primeira vez, não estendeu a mão ao tablet, não pegou a edição fresca de uma revista médica… pela primeira vez permitiu-se apenas descansar.
***
Estava cansado de si mesmo. O silêncio o sufocava, e quando o telefone tocou, Cem estremeceu. Custou a acreditar que alguém ainda lembrasse dele. Olhou para a tela e franziu o cenho: “número desconhecido”. Ainda assim, atendeu.
— Aqui é a ciberpolícia, — disse uma voz masculina, seca. — Está em andamento uma investigação por invasão. O senhor terá que prestar esclarecimentos. Vamos enviar a intimação.
— Que investigação é essa? — Cem empalideceu. — Deve haver um engano!
Mas a ligação já tinha sido encerrada. A linha morreu. Cem atirou o telefone no sofá e começou a andar pelo apartamento, derrubando coisas das prateleiras.
— Claro! Claro que é por causa dela! — gritava. — Por causa da Bahar! Eles todos me armaram uma cilada! Fizeram de mim o bode expiatório! Mas ele prometeu… — Cem parou no meio da sala, ofegante, agarrando os cabelos.
Depois pegou o celular de novo e discou o número dele, como se buscasse salvação. O som dos toques parecia interminável, até que Evren atendeu, frio.
— Alô.
— Você sabe quem acabou de me ligar? — gritou Cem, batendo a mão no encosto do sofá. — Eles começaram a investigação! Ciberpolícia! Você tem ideia de onde isso pode dar?
— Tenho, — respondeu Evren. Ao fundo, ouviu-se o riso de crianças, barulho de pratos.
Cem gelou. Ele estava lá. Com Bahar. Seus lábios tremeram.
— Eu te avisei que isso podia acabar mal, — disse Evren, distante, como se não fosse com ele. — Eu te disse que haveria consequências.
— Você sabia! — Cem explodiu, caindo numa cadeira.
— Eu sabia que seria assim, — respondeu Evren, tranquilo. — E você foi avisado.
— Quer dizer que ainda se orgulha disso? — Cem levantou-se de repente, o rosto contorcido de raiva. — Por causa dela, por causa desse hospital, eu vou carregar uma marca pro resto da vida!
— Cem, eu vou estar com você. Mas você vai responder pelo que fez, — repetiu Evren. E de novo, na linha, o eco de uma gargalhada infantil.
— O que é? Aí te alimentam melhor? — cuspiu Cem, envenenado. — Você está com ela, com Bahar, enquanto minha vida desmorona! Você devia estar comigo! Aqui!
— Cem, — interrompeu Evren. — Eu estou com você.
— Comigo? Onde? Você está com ela! — Cem não acreditava em uma palavra. — Você me traiu. Escolheu Bahar e o hospital. Eu não sou nada para você. E a Naz me demitiu só porque mandei algumas fotos! Fotos! — vociferava. — Me jogou fora como um cão. Eu sou seu irmão! — bateu no próprio peito. — Seu único parente! Não eles!
— Justamente por isso, — a voz de Evren endureceu. — Porque é meu irmão, não vou deixar que se esconda atrás de mim outra vez. Vai responder pelo que fez.
— Eu não fiz nada! — gritou Cem. — Foram eles! Foi ela!
— Não, — a voz de Evren soou cortante. — Foi você. Só você.
— Não… — murmurou Cem, apavorado, deixando o celular cair.
Evren encerrou a ligação. Cem sentou-se na beira do sofá, enterrando a cabeça nas mãos. Nos olhos, um turbilhão: pavor, ódio, desespero… e a dolorosa certeza de que o irmão não o protegeria mais.
***
Eles estavam em silêncio. Parla sentava-se à janela da sala, com os fones nas mãos. Umay estava deitada no sofá, com o rosto enfiado no travesseiro. Ficaram caladas por um tempo. Então Parla soltou um meio riso.
— No fim das contas, é engraçado.
— O que tem de engraçado? — Umay ergueu a cabeça e encarou a irmã.
— Sua mãe e o tio Evren fogem de casa de manhã cedo, e a vovó sai de fininho para um encontro, — disse, pensativa.
— Pelo menos ninguém fica entediado, — Umay voltou a afundar o rosto no travesseiro. — Embora no fundo seja tudo igual para todo mundo.
— Para a tia Bahar e o tio Evren não é como para todo mundo, — insistiu Parla. — Eles nem tiveram um encontro de verdade, — assentiu.
— Você sempre reduz tudo a encontros, — Umay se virou e sentou. — E o que minha mãe tem a ver com isso? — irritou-se. — Ela está tentando arrumar a própria vida. E a sua? Afundada no trabalho.
— Melhor no trabalho do que em escândalos, — retrucou Parla de pronto.
— Acha que minha mãe só sabe fazer escândalo? — Umay saltou do sofá.
— Acho que cada uma paga seu preço, — observou Parla, serena, ignorando o surto de Umay.
— Só que é um preço diferente, — ironizou Umay. — A minha pelo menos tem coração!
— E a minha tem força, — disparou Parla. — Sem ela, a gente também não teria sobrevivido. E a minha mãe também vai ter um encontro de verdade, — disse, com um quê de desespero.
— Ah, é? Especialista em encontros, você? — Umay ficou frente a frente com ela, mãos na cintura. — Já foi em algum, pelo menos?
Parla ergueu o queixo, sem recuar.
— Pelo menos eu sei observar e tirar conclusões, — respondeu no mesmo tom.
— Eu também sei! E sei como termina. Sempre com dor! — explodiu Umay.
— Isso foi com você e o Cem, — devolveu Parla, calma. — Não é assim com todo mundo.
Umay estremeceu como se tivesse levado um tapa.
— E com a minha mãe foi exatamente assim! Acha que eu não sei o que ela passou? — não tirava os olhos de Parla. — Termina tudo igual, — repetiu.
— Por que você diz isso? — perguntou Parla, cautelosa.
— Porque eu já sei como é, — Umay virou-se para a janela. — Primeiro você acha que é amor. Depois só sobra dor.
— Pode ser que você tenha razão, — Parla olhou pela janela. — Ainda assim, eu quero que dê certo com a tia Bahar e o tio Evren. E quero que a minha mãe finalmente vá a um encontro de verdade, que pare de se esconder, — ela parou, — na nossa família todo mundo esconde alguma coisa, não sei porquê. Até a vovó entrou na onda. E o carro é bom, — continuou Parla. — A vovó voltou toda feliz, trouxe rahat lokum. Você viu a cara dela? — insistiu.
Umay despencou no sofá e afundou de novo no travesseiro.
— Vi, — respondeu. — Eu só não acredito que com a gente possa ser diferente.
Ficaram em silêncio. A sala se encheu de quietude. Só a luz da janela desenhava seus rostos — tão jovens, e ao mesmo tempo já adultos por terem visto mais do que deviam…
***
Rengin já não via nada; estava à mesa, diante da pasta fechada. O olhar, tenso demais; as mãos, apertando a caneta com força. Bateram de leve à porta, e Serhat entrou.
— Eu sabia que você ia ficar até tarde, — aproximou-se.
Rengin apenas o encarou, e um silêncio meio constrangido se instalou. As sobrancelhas de Serhat se ergueram um pouco, e ele se sentou diante dela.
— Você é dura demais consigo mesma, — quebrou o silêncio. — E com os outros também, mas eu entendo o porquê.
— Erros, no nosso trabalho, são um luxo que não podemos nos permitir, — respondeu ela, ríspida demais.
— E na vida? Na vida também não se pode errar? — perguntou.
As palavras a atingiram. Rengin desviou o olhar, como se tivesse se queimado.
— Eu vejo como você guarda tudo aí dentro, — ele parecia tentar chegar ao fundo dela. — Você não precisa.
Rengin se levantou e foi até a janela. Observou a cidade aberta à sua frente.
— Nem ouse, — disse, cortante.
Serhat se aproximou e parou atrás dela.
— Eu não quero te ferir, — a voz dele baixou.
— Você não sabe de nada! — a voz dela falhou. — Acha que é fácil viver à sombra? Quando cada passo lembra… — ela se calou, — dezesseis anos… — deixou no ar.
— Isso não te define, — respondeu ele, baixo; as mãos roçaram os ombros dela.
— Para ele, define, — sussurrou, de olhos fechados, permitindo aquele toque.
Só por um instante Rengin se deu a fragilidade; logo se recompôs e abriu os olhos.
— Vai, Serhat. Amanhã é outro dia, — permaneceu à janela.
Ele afastou as mãos, deixou-as cair. Ficou ali, ao lado, encarando as costas, a nuca dela. Ouvia sua respiração.
— Vamos, — de repente apertou a mão dela e a puxou. — Aqui você não consegue respirar.
Rengin virou-se; nos olhos, um lampejo de irritação e cansaço, mas não discutiu. Deixou que ele a tirasse do gabinete. Seguiu ao lado dele pelo corredor, sem soltar a mão. Serhat conduzia com segurança, como se soubesse que ela não voltaria atrás. Saíram para a escada; a porta para a rua estava entreaberta. O ar morno invadiu o espaço. Rengin inspirou fundo.
Ela soltou os dedos e se afastou um pouco. As mãos pousaram no corrimão; inclinou-se de leve para frente, respirando com avidez, olhos fechados. A brisa suave tocava-lhe o rosto, bagunçava-lhe os cabelos.
— Por que você está sempre aqui? — rompeu o silêncio. — Alugou um flat? Uma casa?
— Como eu poderia ir embora? — devolveu com outra pergunta. — Já me acostumei, — deu de ombros. — E se eu for embora e ela dormir… e não acordar… e eu não estiver aqui? Eu nunca me perdoaria, — confessou.
Rengin abriu os olhos e assentiu.
— E eu chego em casa… e só tem vazio. Ninguém. Só paredes, — sussurrou, virando-se para ele.
Serhat a observou por um tempo; então deu um passo, a mão quase tocando o ombro dela.
— Rengin, — disse seu nome, baixinho.
Ela não recuou. Fitou-o de volta. Ele se inclinou, os lábios roçaram os dela. Rengin correspondeu — e, de repente, o empurrou, deu um passo atrás.
— Não. Não assim, — a voz tremia.
Ele apenas a olhou.
— Eu não tenho medo de amar, — admitiu. — Eu tenho medo de limites. Passei anos demais na sombra, sendo o erro, — havia raiva em sua voz. — Eu não quero repetir a história.
Virou-se de novo; os dedos cerraram o corrimão. Estava com raiva de si por ceder àquele instante, por voltar a acalentar esperança.
— Rengin, — Serhat aproximou-se.
— Agora eu só penso… se a Bahar resolver engravidar, — disse de repente, alto demais, mudando de assunto.
— O quê? — Serhat não entendeu.
Rengin se voltou, cruzou os braços, como se erguesse um escudo, e fitou-o.
— Se acontecer alguma coisa com ela, — continuou. — Se o Uraz e a Umay ficarem sozinhos?
— Não pensa assim, — franziu o cenho. — Ela é forte.
— Dois transplantes, Serhat. Ela passou por dois. E não tem 29 anos como a nossa paciente que perdeu o bebê. A gente não sabe como o corpo dela vai reagir. Eu sou médica, eu sei: tudo pode desabar a qualquer momento, — ela se virou outra vez e suspirou. — Quem vai ficar com os filhos dela? Umay e Uraz já perderam o pai, — ela hesitou, — a Parla também.
Serhat se calou, e um sorriso amargo cruzou os lábios de Rengin.
— Ninguém substitui uma mãe, — sussurrou, virando o rosto, as mãos cravadas no corrimão.
Serhat deu um passo; a mão dele pousou-lhe no ventre, puxando-a para si. Abraçou-a por trás e não a soltou até que o tremor do corpo cedesse, até que ela amolecesse nos braços dele, até permitir-se encostar nele, olhos semicerrados, deixando-o sustentá-la…
***
Evren segurava Leyla nos braços. Não queria soltá-la nem por um minuto. Por mais que Bahar pedisse que não a sufocasse tanto, ele simplesmente não conseguia se separar dela. Encantava-se com as covinhas no rosto da menina quando ela ria — e aquele cheirinho doce a deixava ainda mais irresistível. Umay já havia desistido de tentar pegá-la; por mais que insistisse, Evren sempre se esquivava ou inventava uma desculpa.
Assim que terminaram de preparar o jantar, Leyla já estava nos braços dele. Siren escondia o sorriso ao observá-lo. Nevra girava o celular nas mãos, olhando pela janela. Parla e Umay trocaram olhares cúmplices e sorriram. Enquanto isso, Evren andava pela sala, às vezes jogava Leyla para o alto e a pegava de volta, fazendo-a explodir em gargalhadas — risada que contagiava a todos.
Para Evren, era como se tivesse nos braços uma pequena Bahar. Era ela que ele fazia rir, era ela que prendia a respiração quando a lançava para cima e a segurava de novo com firmeza.
— Mas quando é que eles chegam? — perguntou Umay, pela enésima vez.
— Evren, — Siren aproximou-se dele. — Se continuar assim, vou acabar deixando ela passar a noite com você, — pensou que estivesse ameaçando, mas os olhos dele brilharam, como se aquela ideia fosse um presente. — Para com isso, ou ela não vai dormir, — pediu.
As palavras fizeram-no parar e encará-la. Ele estava tão radiante, tão cheio de alegria, como um garoto. Parecia nunca ter sido tão feliz.
— Vai mesmo deixá-la comigo? — perguntou, apertando ainda mais a menina contra o peito e até virando-se de lado para protegê-la.
Evren parecia disposto a beijar cada dedinho, a se enroscar em seu pescocinho e apenas respirar seu cheiro, de tão doce, delicada e frágil que ela era.
O barulho de um motor na rua despertou todos na sala.
— Finalmente! — Umay saltou do sofá.
Siren apenas balançou a cabeça, sorrindo. Estava feliz porque Bahar voltava para casa — isso significava que Evren desviaria parte daquela energia infinita para ela, e todos poderiam respirar mais tranquilos. Ele estava em todos os lugares, prevendo tudo, e eles ainda não se acostumavam com isso. Uma coisa era Bahar agir assim; outra, muito diferente, era ver Evren nesse papel.
Todos voltaram-se para a porta. Na entrada estava Uraz; atrás dele vinha Yusuf… mas Bahar não.
A expressão de Evren se fechou. Ele encarava Yusuf em silêncio, como se perguntasse com os olhos: onde está Bahar?
Uraz parou como se tivesse batido contra uma parede, ao ver Evren se aproximar segurando Leyla. Em um instante, tudo se embaralhou na sua mente… como se Bahar já não existisse, como se só restassem Evren e aquela criança. Como se ela tivesse ido embora para sempre. E nunca mais voltasse.
Ele nem percebeu que Evren segurava sua própria filha. Naquele momento, Uraz acreditou que a mãe estava morta.
— O que você pensa que está fazendo? — avançou em direção a ele.
Evren se virou levemente, como se quisesse proteger Leyla, tamanha era a fúria estampada no rosto de Uraz.
— Não basta a mamãe? — gritou, descontrolado. — Quer matar ela também?!
CAPÍTULO 7. PARTE 4
Leila estremeceu nos braços dele. Nevra levantou-se do sofá. Parla guardou o telefone. Umai saiu correndo para o corredor. Siren estendeu as mãos, e Evren imediatamente entregou Leila a ela.
— Uraz? — Evren deu um passo na direção dele. — Para de gritar, você está assustando as crianças.
— Crianças? — Uraz lhe atacou. — Minhas? Ou suas? — ele gritou, e Evren ficou pálido.
— Calma — pediu Evren, sem entender o que se passava.
Yusuf entrou na casa e fechou a porta atrás de si.
— Não ouse me mandar! — gritou Uraz. — Você não estava lá, mas eu vi a mulher morrer depois de um transplante de fígado, e minha mãe a salvou hoje, a tirou dali! Na minha frente, o coração do filho dela parou! Vinte e quatro semanas! E a mulher está na UTI, e a criança ainda está dentro dela, você entende isso, professor Evren? E sabe o quê — ele se aproximou bem perto — ela te chamou! — o rosto dele se contorceu de raiva, dor, medo. — Você vai matá-la com seu filho! Vai matar! A gente já não tem pai, e agora você vai tirar a mamãe de nós?!
Por uma fração de segundo, um silêncio tomou a sala.
— Uraz — Evren falou calmo — eu não sou inimigo de vocês. Confie em mim.
— Confiar? Você nem agora nega que quer um filho, uma criança que ela não conseguirá carregar, dar à luz! — ele levantou as mãos, incapaz de explicar tudo que sentia. — O fígado dela não aguentou a gravidez, e mesmo assim deram permissão, ela tem só 29 anos! O marido implorou que a salvasse. E o que vai fazer você? Vai dar seu fígado para mãe? Vai me obrigar a operar vocês com Siren? Vocês vão nos fazer escolher quem colocar em primeiro lugar? Você, mamãe, seu filho? — a voz dele falhou.
Ele vacilou, e Evren o segurou, impedindo que desabasse. Apertou-lhe os ombros com força, depois o abraçou. Sentia Uraz tremer, via o medo nos seus olhos, e não era a primeira vez.
— Eu… eu não quero enterrar de novo — Uraz agarrou-se a Evren — entende? — a voz dele falhou.
As pernas de Uraz fraquejaram, e Evren ajudou-o a sentar nos degraus; sentou ao seu lado.
Siren ficou paralisada, Leila nos braços. Umai e Parla os observavam horrorizadas. Nevra tapou a boca com a mão. Yusuf deu um passo para trás, como se se sentisse um intruso, uma estranha, mas ficou ali.
— Eu não estou tirando sua mãe de vocês — disse Evren, com calma — estou junto, estou aqui para que ela viva.
— Viva? Onde você esteve nesses cinco meses? Você se importou com como ela vivia? — Uraz virou-se bruscamente para ele. — E agora você quer um filho dela! E isso vai matá-la, e você sabe muito bem disso! Você fala que não vai tirar, mas foi exatamente isso que fez: você nos deixou quando foi para a América, quando voltou — Uraz bateu com a mão na palma da outra para confirmar suas palavras — você a deixa o tempo todo! E agora ela está de novo lá — ele apontou para o lado — no hospital, e de novo não quer vir pra casa! Como nesses cinco meses nós quase não a vimos! E depois você com Naz aos olhos dela? O que você quer de nós?
— Uraz? — Umai se aproximou — do que você está falando? Como assim “o filho vai matar a mamãe”? Evren, isso é verdade? — ela exigia uma resposta dele.
— Eu não permitirei que algo aconteça com Bahar — foi o único que Evren conseguiu dizer.
Todos olharam para ele; naquele momento, ninguém acreditava.
— Você já permite! — Uraz agarrou o corrimão e levantou-se, o corpo tremendo. — Você vai matá-la, se falar de novo nessa criança!
Evren levantou-se. Olhou para todos:
— Eu não peço confiança de imediato — Evren se segurava para não gritar — estou aqui para fazê-la feliz. E ninguém de vocês tem o direito de interferir nas decisões que Bahar e eu tomarmos! — ele dirigiu-se à porta, mas se virou. — A criança? Não cabe a vocês decidir — disse com a sua habitual categoria e teimosia.
Evren pegou as chaves da motocicleta, mas assim que saiu pela porta, um relâmpago brilhou, o trovão soou, e começou uma chuva torrencial.
— Yusuf — Evren jogou as chaves na mesinha e estendeu a mão — vou pegar seu carro — nem pediu, disse como se fosse óbvio.
Yusuf imediatamente lhe entregou as chaves.
— E sim — Evren virou-se — não permitirei que Bahar viva no hospital! Querem, jantem sem a gente, querem — esperem!
Ele não disse mais nada, saiu em meio à tempestade, batendo a porta. Evren deixou os familiares de Bahar na sala, entendendo que sua chegada desmoronava uma parte inteira da família dela… mas se ele destruía… talvez conseguissem criar algo novo…
***
Evren foi embora, e um silêncio pesado tomou conta da casa. Uraz subiu correndo as escadas, pulando de dois em dois degraus. Siren, com Leila nos braços, foi atrás dele. Yusuf, sem saber o que dizer, foi para a cozinha. Parla se afastou em direção ao sofá. Nevra deixou-se cair na poltrona com cansaço, deixando o celular cair das mãos.
Umai olhava confusa ora para a escada, ora para a porta, e então, estremecendo, seguiu para a cozinha. Yusuf encheu um copo d’água e olhava pela janela, vendo as gotas escorrerem pelo vidro.
— Você é médico — começou Umai, incerta — me diga a verdade, por favor. É verdade? — Yusuf virou-se e a olhou. — O bebê daquela mulher… ele morreu?
Os ombros de Yusuf se enrijeceram, os dedos apertaram o copo com mais força.
— A paciente está viva — respondeu ele.
— E o bebê? — insistiu Umai, sem desviar o olhar.
Yusuf abaixou os olhos e colocou o copo sobre a mesa:
— Não conseguimos salvar o bebê — confessou.
Umai ergueu as mãos, levou-as à cabeça e, perdida, deixou-as cair:
— Então por que ela está fazendo tudo isso? — perguntou, a respiração entrecortada. — Se no fim… — ela não terminou — se o bebê já não está?
— Porque ainda há esperança para a mãe — Yusuf se aproximou — porque, se salvarmos a mulher, ela terá uma chance, entende — ele tocou suavemente a mão dela, fazendo-a levantar o rosto e encará-lo nos olhos. — Ela ainda pode ser mãe. Pode simplesmente viver, e talvez… talvez isso já seja o suficiente.
Umai balançou a cabeça com firmeza, recusando-se a aceitar o que ouvia.
— Esse é o trabalho de um médico — a voz de Yusuf suavizou — fazer tudo ao seu alcance, mesmo quando tudo parece perdido.
Umai soltou um soluço e virou o rosto.
— E a mamãe? — ela mal conseguia olhar para ele. — Ela está bem? Evren falou sobre exames, ultrassonografia. Ele fez? Se ele falou, quer dizer que eles já decidiram tudo? Então há risco?
Yusuf ficou desconcertado. Nem sabia o que responder.
— Bahar é forte — foi tudo o que conseguiu dizer.
Umai afastou a mão dele e foi até a janela. Apoiada na mesa com as mãos, observava a tempestade lá fora.
— A gente já ouviu isso antes — sussurrou, sem se virar.
Ela tremia levemente, mordia os lábios. Yusuf se aproximou. Umai enxugou as lágrimas que desciam.
— Por que amar, então? — murmurou. — Qual o sentido disso tudo? — ela não entendia. — Como a mamãe aguenta tudo isso?
Yusuf suspirou atrás dela. Umai tossiu, fungou, e sem se virar, perguntou:
— Você gosta de aprender com o Evren? — mudou subitamente de assunto, mas seus dedos ainda apertavam com força a borda da mesa.
Yusuf piscou:
— Gosto — respondeu, observando os ombros tensos dela — mas também dá medo — admitiu. — O professor exige mais do que eu poderia imaginar.
Umai deu um sorriso amargo:
— Ele é assim mesmo, sempre exige mais — balançou a cabeça — até da mamãe.
Yusuf coçou a cabeça e continuou:
— Às vezes acho que ele nem percebe que está pressionando.
— Ele percebe — respondeu Umai de imediato — ele percebe tudo, só que ama… — ela interrompeu-se, depois continuou — ama tanto, que também sente medo.
Silenciaram. Umai continuava de costas para ele, e Yusuf não conseguia ir embora, não conseguia deixá-la sozinha… a mesa da sala estava posta… mas ninguém chegou a se sentar.
***
Bahar estava praticamente deitada sobre a mesa, a cabeça cansada apoiada sobre os documentos. O abajur iluminava apenas a borda da mesa, e seus ombros tremiam levemente de exaustão.
— Bahar! — a voz de Evren soou ríspida, e ela se sobressaltou. — Por que ainda está aqui?
Ela levantou a cabeça assustada, piscou, tentando afastar o sono.
— Os protocolos… — ajeitou os cabelos — eu preciso terminar — murmurou.
— Protocolos? — repetiu Evren, fechando a porta atrás de si. — Seu plantão acabou faz três horas. Você vai dormir no consultório agora?
Bahar olhou nos olhos dele.
— E qual o problema? — tentou dar firmeza à voz. — Aqui é mais tranquilo que em casa.
Evren ficou em silêncio por um instante, encarando-a. Sua raiva derretia diante dos olhos — ele via que ela estava no limite. Aproximou-se e se inclinou sobre ela.
— Você está se destruindo, Bahar — a voz dele suavizou. — Por que não foi pra casa?
— Porque… — ela hesitou, desviando o olhar — assim fico mais tranquila.
— Tranquila? — ele ergueu as sobrancelhas. — Está com medo de ficar sob o mesmo teto que eu?
Ela corou.
— Não é medo. É só que… — Bahar se levantou, contornou a mesa, mas não conseguiu encontrar uma desculpa.
Evren não recuou, seguiu atrás dela, sem deixá-la escapar.
— Acha que eu não percebo? — perguntou. — Na verdade, você não quer ir pra casa — segurou os ombros dela e a virou de frente para si. — Por quê? — encarou-a nos olhos.
Seus olhos se arregalaram, a respiração falhou, as mãos repousaram no peito dele, e ela se agarrou a ele, o abraçando.
— Evren, estou cansada. Não hoje, por favor — sussurrou.
Ele a apertou mais contra si.
— Não hoje, talvez nem amanhã… — murmurou. — E como é que vamos viver assim?
— Evren… — ela se aninhou no pescoço dele.
— Estamos juntos agora — continuou — e parece que você não está feliz com isso, que não quer isso.
Bahar estremeceu e se afastou um pouco. Por um instante, ela fitou os olhos dele, depois segurou o rosto dele entre as mãos, ergueu-se nas pontas dos pés e o beijou.
— Eu te amo, Evren, amo demais — sussurrou. — E tenho medo por nós — confessou. — Não é porque todo mundo vê, ou ouve, ou entende, não — disse depressa, como uma metralhadora — não é porque somos barulhentos, nem acho que seja tão grave, é só… só preciso me acostumar, eles também — ela se aninhou no pescoço dele de novo, respirando o cheiro dele — eles vão perguntar — murmurou baixinho — e têm esse direito, e… — não terminou.
— O Uraz falou com você? — ele entendeu na hora.
Bahar se sobressaltou e se afastou, olhando nos olhos dele.
— Ele falou com você também? — franziu a testa. — Evren… — seu rosto escureceu.
— Caso difícil — ele assentiu. — Paciente, vinte e nove anos, pós-transplante. Vigésima quarta semana — falou com voz calma e controlada. — Ouvi dizer que o feto não sobreviveu — sua voz tremeu, e ela tremeu também nos braços dele — que ainda está dentro dela.
— Ela está viva… e o bebê ainda está nela — repetiu Bahar baixinho. — Como se vida e morte se recusassem a se separar.
— Mas esse não é o nosso caso — ele a afastou levemente, suas mãos nas bochechas dela, encarando-a. — Ela não é você, Bahar! Não somos nós, entendeu?
— E se acontecer comigo também? — ela o encarava. — E se ficar algo morto dentro de mim, você vai aguentar? Se tiver que escolher?
Ele empalideceu, os lábios tremeram. Evren a abraçou com força, sem perceber o leve estremecimento dela, a tensão… mas mesmo assim, Bahar se deixou pender sobre ele, permitindo que a segurasse.
— Você me pediu para não pressionar, Bahar, e eu tento de verdade… mas não consigo deixar de pensar, de falar — ele acariciava as costas dela — só não se assusta, não entra em pânico, por favor — pediu — talvez você já esteja grávida — disse em voz baixa, e ela congelou em seus braços.
Os dedos dela apertaram o tecido da camiseta dele, ainda um pouco úmida. Mal conseguia se manter de pé, só não caiu porque ele a segurava.
— Aquela noite… a gente não se protegeu — lembrou ele. Bahar permaneceu em silêncio, e ele continuou. — Você nunca disse que era contra — sussurrou — você só está procurando uma razão pra isso acontecer. Você não está sozinha, Bahar. Estamos juntos, e vamos decidir juntos — sim ou não, fazemos exames, acompanhamos tudo.
— Não — Bahar soltou o ar — não, Evren, eu não quero que você seja meu médico.
— Você não vai conseguir me impedir — sussurrou ele. — Não vai conseguir me afastar do que vem pela frente. Isso é a vida. E juntos vamos responder ao Uraz e à Umai, à mãe Gulchichek.
— Sinto como se todos estivessem me pressionando por todos os lados — sussurrou ela.
— Não, Bahar, não — Evren olhou nos olhos dela. — Eu não pressiono. Estou aqui. Sei o que você está enfrentando. Não quero te assustar mais, quero te acalmar.
— Acalmar? — ela quase sorriu com tristeza. — Quando todo mundo espera que eu volte a ser mãe? Me olham como se eu tivesse enlouquecido.
— Ninguém espera nada de você — ele segurou o rosto dela entre as mãos novamente. — Só eu — sussurrou — espero o seu amor — seus lábios tocaram os dela com delicadeza. — Eu entendo o quanto é difícil pra você mostrar isso, por isso espero em silêncio — confessou. — E tudo o que eu quero é que você viva, entendeu? Viva! O resto… decidiremos juntos.
— Evren — Bahar o beijou.
— Vamos pra casa, Bahar. Você está exausta. Eu vou te levar, e não vou permitir que passe mais nenhuma noite no hospital! — disse com firmeza. — Vamos, tira o jaleco.
Evren sentiu imediatamente a resistência dela, como se não quisesse tirá-lo. Mas ela permitiu que ele o retirasse. Ela logo captou o olhar dele, se ergueu rápido demais e o beijou, como se quisesse esconder algo… ou talvez fosse só impressão dele.
Mesmo assim, ele a observava atentamente, por um longo tempo. Ela pegou a bolsa. Evren notou como os dedos dela tremiam ao pegá-la, então tomou a bolsa de suas mãos, ofereceu o braço, e ela se apoiou nele, agarrando-se com força.
— Vamos pra casa agora, e amanhã — ele a deixou passar na frente — amanhã eu te examino.
— Estou bem — o pânico brilhou nos olhos dela.
— Quero ter certeza com meus próprios olhos, deixa? — pediu, fechando a porta do consultório. — Você não imagina quanto esperei por esse momento, pra sairmos juntos do trabalho de novo — confessou, sem dar chance para que ela protestasse.
Bahar sorriu.
— Vamos passar na sua mãe e depois vamos pra casa — sussurrou ele ao ouvido dela.
Bahar se enrijeceu na hora.
— Não, Evren, hoje não — a voz dela carregava pânico.
— Não tenha medo — ele respondeu em voz baixa.
Ainda estavam ali, em frente ao consultório.
— Eu não estou pronta — ela sussurrou, se encostando nele com mais força, sentindo o calor dele e seu próprio medo.
Pela primeira vez no dia, ela se permitiu ser fraca.
— A mãe Gulchichek não vai perguntar sobre o bebê — sussurrou ele.
— Você levou bronca? — perguntou ela de repente.
— Uraz só quer te proteger, e isso não é ruim — Evren a puxou suavemente para caminhar. — Eu quero que ele entenda que não sou um inimigo. Que não vou exigir o impossível.
Bahar parou, fitou-o longamente.
— Tá bom — concordou de repente — vamos ver a mamãe.
Evren sorriu abertamente, inclinou-se e beijou a bochecha dela.
— Eu te amo, Bahar. Nunca arriscaria sua vida — sussurrou. — Você é o que eu tenho de mais precioso. Nada é mais importante.
Ela fechou os olhos, ouvindo a respiração dele, aos poucos se acalmando. Evren carregava sua bolsa, ela apoiava-se no braço dele. Caminhavam pelo corredor, e ele se inclinou, querendo lhe dizer algo. Queria tanto confortá-la, dar o alívio que ela ainda não conseguira encontrar em meio ao turbilhão dos últimos dias. Era coisa demais sobre os ombros dela… e aqueles casos, que pareciam tirar o chão sob seus pés.
E ao invés de dizer qualquer coisa, os lábios dele tocaram a bochecha dela, e ela se encostou na dele, soltando um suspiro tranquilo. Era tão bom caminhar ao lado dele pelos corredores do hospital… a proximidade dele trazia calor. Apesar do cansaço, ela sorriu. Estavam juntos de novo, e por um instante seu passo hesitou, como se ela ainda não acreditasse que haviam se reconciliado, como se estivessem reaprendendo a estar juntos, a caminhar lado a lado.
— Doutora Bahar Özden, Professor Evren Yalkın — ouviram atrás de si e pararam, virando-se.
Sert Kaya se aproximava. Sua silhueta reta se destacava na penumbra do corredor, segurava uma pasta na mão. Dava a impressão de que os estava esperando.
— Juntos outra vez — disse ele ao se aproximar.
Bahar imediatamente se enrijeceu, e Evren quase a envolveu nos braços, mas se conteve, apenas se aproximando, oferecendo apoio com o ombro.
— A partir de amanhã, entra em vigor um regulamento temporário — disse Sert Kaya em tom seco. — Qualquer decisão fora do protocolo deve ser aprovada previamente pelo conselho — informou, cravando neles um olhar cortante — com antecedência! — abriu a pasta de forma enfática, tirou algumas folhas e as entregou.
— Mas isso vai nos fazer perder um tempo precioso — Bahar franziu a testa, pegando o documento. — Em uma emergência, cada minuto conta!
— É na emoção que se cometem erros, doutora Bahar Özden! — ele a interrompeu. — Em casa, você é mãe. Aqui, é apenas médica!
Bahar estremeceu sob o olhar dele. A mão de Evren pousou em seu ombro, puxando-a para perto de si.
— E se essa aprovação custar a vida de um paciente? — questionou Evren, impedindo Bahar de se afastar.
— Então vocês saberão que fizeram tudo certo — respondeu Sert Kaya com frieza.
Bahar o encarava com olhos em chamas. Ela estava pronta para rebater, protestar, mas ele a calou novamente.
— Isso não está em discussão! — ele virou-se e se afastou.
Bahar se inflamou e olhou para Evren.
— O quê? — escapou de seus lábios. — O que foi isso? — ela não entendia. — “Em casa, você é mãe. Aqui, é médica.” O que ele quis dizer com isso, Evren?
— Deixa ele falar o que quiser — Evren a puxou suavemente — você salvava vidas e vai continuar salvando. Vamos, Bahar.
O ritmo do passo dela vacilou de novo, mas Evren a segurou firme, sem deixá-la tropeçar.
— Estamos juntos — sussurrou Evren, com o rosto encostado no pescoço dela — e vamos enfrentar tudo juntos.
Sentia o frio dos dedos dela, o tremor do corpo.
— Estou aqui — sussurrou Evren, apertando-a mais forte, para que ela não duvidasse nem por um instante. Apertou o botão do elevador.
Bahar fechou os olhos e repousou a cabeça no ombro dele. Apenas respirava, tentando não pensar… só por um tempo… só um pouco…
***
Uraz ouvia a respiração do filho. Mert dormia no berço, e seu ritmo já era regular. No outro bercinho, Leila ressonava suavemente, com um leve sorriso no rosto. A luz morna do abajur inundava o quarto. Siren ajeitou o cobertor do filho, pousou a mão sobre o peito dele e suspirou aliviada.
— Evren lidou com tudo muito bem. Nem pensei que fosse alergia — sussurrou. — E com Leila… ele cuidou dela como se fosse dele. Nem eu esperava isso.
Uraz se virou bruscamente ao lado do berço. Seus olhos faiscaram de irritação.
— Como se fosse dele? — repetiu. — Ela não é filha dele! Ela tem pai!
Siren se encolheu com o tom dele, mas não levantou a voz. Apenas pousou a mão suavemente sobre a dele.
— Não foi isso que quis dizer, Uraz — olhou em seus olhos. — Eu vi como ele a segurava… era apenas cuidado.
— E se eles… se a mamãe e o Evren tiverem um filho? — Uraz desviou o olhar, os lábios contraídos. — Você entende o que isso significa?
Siren demorou a responder. Pegou Uraz pelo braço, e os dois sentaram na beira da cama.
— Sim, é assustador — admitiu, olhando para o marido — mas eu confio neles — sussurrou. — Confio na Bahar. Confio no Evren. Não acredito que Evren colocaria a vida da Bahar em risco, Uraz, não acredito!
— Ninguém sabe! — ele não conseguia acreditar. — Hoje duas crianças morreram. Eu vi! — os ombros dele tremiam. — Eu não aguentaria se perdesse a mamãe. Eu não aguentaria.
— Nós dois temos medo — ela o abraçou — mas se para ela o amor é a vida… não temos o direito de pedir outra coisa.
— Se algo acontecer com ela, Siren… eu não vou suportar — Uraz se apertou ainda mais contra ela.
— Então estaremos ao lado dela — sussurrou, acariciando o cabelo dele — por eles. Por ela. Pela Bahar, Uraz. Você não tem o direito de proibir nada. Entende isso? Você não tem esse direito.
Ele fechou os olhos, pressionou os dedos contra a ponte do nariz. Ficou em silêncio por alguns segundos, depois olhou para as crianças.
Uraz se levantou, foi até os berços, inclinou-se sobre Mert. A respiração do filho era tão suave que parecia que qualquer ruído poderia interrompê-la. “Nem a ele poderei proteger, se perder minha mãe”, pensou.
Siren o seguiu. Ajeitou o cobertor de Leila. A menina sorriu dormindo, seus dedinhos se fecharam em punho. “E se a Bahar nunca mais voltar pra casa? O que vou dizer pra essa pequena?”, pensou ela.
Seus olhares se encontraram. Pensavam coisas diferentes, mas o medo era o mesmo. Uraz passou a mão pela borda do berço, como se testasse a resistência — mas a mão tremia. Siren colocou a dela sobre a dele, e esse gesto o acalmou mais que qualquer palavra.
— Eu não posso fazer nada — ele admitiu, finalmente. — Não sou eu quem vai decidir — Uraz não estava desistindo… mas começava a entender. — Tudo depende deles.
Siren se aproximou, passou os braços ao redor dos ombros dele e encostou a bochecha em sua têmpora.
— Amar dá medo, Uraz — ela suspirou — mas viver sem amor assusta ainda mais.
Uraz estremeceu e a abraçou com mais força. No silêncio frágil do quarto, Siren foi o apoio dele. E, pela primeira vez, ele permitiu-se apoiar-se nela. Apertou sua mão com força, até doer. Seus rostos estavam tão próximos, e em seus sussurros havia um medo compartilhado, no qual tentavam encontrar esperança… tentando aprender a acreditar… juntos.
***
Bahar empurrou a porta e os dois entraram em silêncio. O quarto estava claro e tranquilo. Reha estava recostado nos travesseiros. Sobre o criado-mudo, um jornal dobrado com cuidado. Gulchichek ajeitava o cobertor dele, embora estivesse perfeitamente colocado.
— Já posso ficar sem babá — resmungou ele, mas o sorriso o entregou. — Você só me mima — apesar do tom rabugento, ele claramente gostava daquilo.
— Mimar o marido não é crime — rebateu Gulchichek — mas se o médico disse alguns dias, são alguns dias.
— Mas eu sou professor — piscou ele, segurando a mão dela. — Professores têm opinião própria — comentou.
— E esposas que estão sempre certas — cortou ela, com um tom de doçura na voz.
Evren sorriu, observando os dois.
— Cena familiar — sussurrou para Bahar, inclinando-se levemente.
— Que cena? — ela ficou alerta.
— O homem discute, mas a mulher é quem decide — respondeu ele com calma.
— Não começa — Bahar corou e o afastou com a mão.
Gulchichek se virou e os viu. Sorriu, não disse nada, apenas apertou de leve os dedos de Reha.
— Agora sim, vejo vocês juntos de novo — disse Reha com um sorriso. — Como deve ser — ele lançou a Evren um olhar longo e significativo.
— Reha — Bahar ficou sem graça — por favor, sem declarações grandiosas — pediu, sem soltar a mão de Evren.
— Não é uma declaração — retrucou ele. — É uma constatação — a voz dele tinha um tom calmo, quase reconfortante, mas ela ainda se sentia inquieta. — A vida é simples: você cuida de quem ama.
Evren olhou para Bahar. Ela retribuiu o olhar e apertou sua mão com mais força.
— Uma família não se sustenta com professores nem com médicos — acrescentou Gulchichek. — Ela se constrói com paciência… e com quem está disposto a dar o primeiro passo — olhou para Evren ao dizer isso.
O silêncio preencheu o quarto por um instante.
— Mas um professor sem assistente não vai longe — disse Reha, quebrando o silêncio.
— E quem é o assistente? — Bahar se ofendeu levemente.
— O professor sou eu — interveio Gulchichek — e você é o meu paciente.
Ela o abraçou pelos ombros, ajeitou o travesseiro e deu um beijo leve em sua têmpora. Ele retribuiu o sorriso e apertou mais a mão dela.
— O que é? — Reha continuava lançando olhares a Bahar e Evren — um professor continua sendo professor, mesmo em reabilitação.
— E continua discutindo — completou Gulchichek. — Mas você vai obedecer ao médico, tem obrigação! — afirmou, decidida.
— Obedecer ao médico, obedecer à esposa… e a liberdade de expressão, onde fica? — suspirou Reha, tentando conter o riso — e falhando.
Gulchichek tentou ajeitar o cobertor de novo, mas Reha segurou a mão dela e a levou aos lábios.
— Já estou me sentindo saudável — beijou a mão dela — mas você vai sempre encontrar algo pra cuidar.
— Porque sem mim, você volta a discutir com os médicos — retrucou ela, passando os dedos pela bochecha dele.
Evren os observava com um sorriso nos lábios e, de repente, estendeu a mão devagar até os dedos de Bahar. Ela logo a afastou, e ele sorriu. Evren então pousou a mão sobre os ombros dela e a abraçou, dando-lhe um beijo na bochecha.
— Está vendo? — sussurrou. — Eles não têm medo.
Bahar o olhou atentamente.
— E nós vamos pra casa — anunciou Evren, e Gulchichek e Reha voltaram seus olhares para eles.
— A juventude é sempre tão barulhenta — disse Reha, e Bahar corou novamente, com vontade de se esconder atrás de Evren. — Mas com o tempo, você entende: o amor é…
Ele não terminou. Gulchichek apertou sua mão.
— O amor é um lar para onde se quer voltar — ela olhou para Evren e Bahar e completou a frase com ternura, como se desse uma bênção.
Evren captou o olhar de Bahar. Ela o encarou por um segundo e então sorriu calorosamente. Se aconchegou nele, quase se aninhando no ombro dele.
— Vamos pra casa, Evren — pediu Bahar.
— Vamos — se despediram e saíram do quarto.
A porta se fechou atrás deles. Gulchichek olhou para Reha. Ele arqueou levemente as sobrancelhas, e ambos sorriram, entendendo-se sem palavras. Nesse sorriso havia paz: sabiam o quanto haviam temido… mas o caminho de volta para casa já havia começado.
***
Eles caminhavam pelo corredor quase vazio, as luzes refletindo no piso brilhante. Evren e Bahar se dirigiam ao elevador quando Rengin se aproximou. Bahar encostou-se cansada ao ombro de Evren, parando em frente ao elevador.
— O caso do Cem foi oficialmente aberto. A polícia cibernética já está envolvida — informou Rengin.
Bahar empalideceu e se endireitou.
— Já é oficial então? — a ansiedade surgiu em sua voz. — Isso é sério?
Evren se enrijeceu, o olhar ficou duro. Apenas assentiu. Bahar o olhou, surpresa ao perceber que ele já sabia. Parou, apertando mais a mão dele.
— Agora não, Bahar. Você está exausta — disse ele, voltando-se para ela. — Rengin, falamos disso amanhã, já está tarde — tentou encerrar o assunto.
— Evren, ele ainda é só um… — começou ela, mas ele a interrompeu.
— Ele é adulto, Bahar — falou com firmeza. — E vai responder pelos próprios atos.
Rengin olhava de um para o outro, mas ficou em silêncio. O clima pesou.
— Tenho medo de que ele não consiga lidar com isso, Evren — disse Bahar em voz baixa.
— Chega — ele respondeu de forma abrupta, e as portas do elevador se abriram. — Falamos disso depois — virou-se para Rengin. — Amanhã — disse apenas, e os dois entraram no elevador.
Rengin assentiu. Evren não soltou a mão de Bahar. E não disse mais nada. Nem quando entraram no carro, nem ao sair do estacionamento. O silêncio dele se prolongava. Bahar se sentia desconfortável dentro do carro de Yusuf. Se estivessem na moto, o silêncio faria sentido… mas ali, no carro, ela se sentia estranha. Observava o perfil dele, os lábios contraídos… e apenas se calava.
***
Nevra, mordendo o lábio, sentava-se na beira da cama com o celular nas mãos. Por alguns segundos, apenas encarou a tela, reunindo coragem, até finalmente apertar o botão de chamada. Os toques pareceram longos demais.
— Nevra? Está tudo bem? — a voz de Ismail soou suave, mas com um leve tom de preocupação.
— Eu… não sei. Eu precisava… pensei que… — ela parou, depois soltou o ar. — Me diz a verdade, Ismail… a situação da Bahar é tão grave assim? — disparou, retorcendo as mãos.
— O que aconteceu? — ele se alarmou na hora. — O que você ouviu?
— Dizem… que é perigoso ela engravidar. Que isso pode custar a vida dela. É verdade? — ela exigiu uma resposta.
Ismail fechou os olhos, passou a mão na testa. Procurava palavras, mas não conseguia encontrá-las. Nevra, prendendo a respiração, aguardava.
— Nevra, escuta… — ele finalmente rompeu o silêncio. — Bahar é mais forte do que você imagina. Ela é médica, conhece cada risco melhor do que qualquer um de nós. E tem o Evren ao lado dela. Ele não vai deixar que ela se arrisque.
— Tem certeza? — a voz dela tremia. — Dá pra prever tudo? Existe alguma garantia?
Ismail apertou o telefone com tanta força que os dedos ficaram brancos. Sabia que garantias não existiam, mas ouvia o medo dela, sentia sua angústia.
— Não existem garantias, Nevra — disse com um tom calmo e suave — mas existem pessoas por quem a gente escolhe acreditar. Bahar é uma dessas pessoas. E se ela decidir… é porque sabe que pode enfrentar isso.
— Tenho tanto medo por ela — Nevra fechou os olhos e levou a mão ao peito. — É como se tudo pudesse desmoronar de novo, justo agora que as coisas estavam começando a dar certo.
— Então se permita acreditar que, desta vez, vai ser diferente — pediu ele.
Ela silenciou. Formou-se uma longa pausa. Nenhum dos dois queria desligar, mas também não sabiam como continuar. Permaneceram assim, com os celulares colados ao ouvido, cada um em seu quarto, em sua casa.
Ismail apertou o telefone mais do que precisava, deu alguns passos pela sala, parou diante da janela.
— Boa noite, Nevra — sua voz agora era mais baixa, mais terna.
Ela estremeceu ao ouvir seu nome dito daquela forma e, pela primeira vez durante a ligação, sorriu, apesar da ansiedade. Continuaram em silêncio, sem encerrar a chamada, como se aquela quietude entre eles fosse mais importante do que qualquer palavra.
***
Chegaram em casa em completo silêncio. O carro parou diante do portão. Bahar olhava de soslaio para o perfil de Evren — lábios tensos, dedos apertando o volante com força. Ele não disse uma palavra. E ela também não.
Evren desligou o motor, saiu do carro primeiro, deu a volta e abriu a porta para ela. Seus gestos eram contidos, quase mecânicos, mas ainda assim estendeu a mão para ajudá-la a sair. Bahar aceitou o gesto — foi o único contato entre eles durante todo o trajeto.
A casa estava silenciosa. Ninguém na sala. Sobre a mesa, a toalha posta, os pratos organizados, os alimentos servidos com cuidado — intocados. Tudo já havia esfriado. O ar também parecia suspenso, e aquele silêncio carregava uma estranha sensação de vazio.
Evren parou por um instante ao lado da mesa. Seu olhar percorreu os pratos. Cerrando os dentes, desviou o olhar sem dizer nada, virou-se e subiu as escadas.
CAPÍTULO 7. PARTE 5
Bahar o seguiu com o olhar, percebendo que ele parecia estar fugindo. Ficou de pé ao lado da mesa, encarando os talheres intocados, e seu coração se contraiu dolorosamente. Suspirou baixinho e subiu devagar a escada atrás dele.
Evren tirou o relógio, deixou-o sobre o criado-mudo e se sentou na cama. Bahar fechou a porta e o observou. Ele ainda estava com a testa franzida, o olhar perdido. Ela se aproximou e sentou-se ao lado dele. Encostou de leve o ombro no dele, como se tentasse puxá-lo de volta.
— Evren, Cem não vai dar conta sozinho — começou ela num tom suave, evitando falar sobre o jantar e a mesa posta. — Ele passa o tempo todo sozinho, no seu apartamento.
Bahar falava com cuidado, sem pressionar, sem soar como um sermão. Apenas estava ali, ao lado dele, os dois olhando para as portas do guarda-roupa, onde flores pintadas se abriam como se fossem vivas.
— Deixa ele pensar — respondeu Evren a contragosto. — Vai fazer bem.
Bahar quase sorriu. Sua mão pousou sobre a dele, apertando-a com carinho.
— Você acha mesmo que ele vai pensar? — perguntou, trazendo a mão dele para o próprio joelho. — Ele vai é se encher de raiva — olhou para o perfil dele —, e isso vai acabar destruindo-o.
Evren ainda franzia a testa; suas sobrancelhas desciam, depois subiam, inquietas.
— E daí? — ele deu de ombros. — O que você sugere?
— Ele precisa de uma ocupação — suspirou ela. — Qualquer coisa.
— O quê? — ele se virou para encará-la. — Quem vai aceitá-lo? Você sabe bem da sombra que agora o persegue. Todos vão lembrar do que ele fez.
Bahar sustentou o olhar dele.
— Isso não é uma marca eterna — disse, passando de leve os dedos sobre as sobrancelhas dele, como se pedisse que relaxasse um pouco. — Existem as recomendações… — murmurou, e ficou em silêncio.
Evren se enrijeceu na mesma hora. Seu olhar tornou-se duro, cortante.
— Não — declarou de forma categórica. — Não!
— Está bem — assentiu Bahar. — Eu posso fazer isso.
Evren levantou-se de repente, andou pelo quarto e voltou, parando diante dela.
— Nem pense nisso! — cerrou os punhos. — Eu não quero! Não ouse!
Ela o encarava de baixo para cima, serena, embora aquilo a ferisse. Ele viu a dor em seus olhos, um leve desapontamento. Então Bahar segurou a mão dele e o puxou para perto, fazendo com que ele se sentasse outra vez, do outro lado. Os ombros se tocaram de novo; os dois ficaram olhando as flores no guarda-roupa.
— Então vá você — quebrou ela o silêncio pesado. — Vá por Cem.
— Você não vai gostar… — a voz dele fraquejou. — De me ver com ela. De eu me encontrar com ela.
Bahar baixou a cabeça, os ombros estremecendo. Não respondeu, apenas olhou para baixo.
— Eu não sou obrigado a puxá-lo toda vez — irritou-se Evren. — Que ele pense sozinho! Que decida o que quer da vida!
— Você não é obrigado — ela concordou suavemente. — Mas ele é seu irmão — lembrou. — Às vezes basta dar um empurrãozinho — manteve o tom calmo, sem soar moralista. — Não mandar, não forçar. Só guiar. Se for preciso uma recomendação — assentiu levemente —, que venha dela. — E se inclinou de leve contra ele, encostando o peito em seu ombro, os dedos roçando os cabelos dele.
Evren girou o rosto bruscamente. Nos olhos dele brilhou irritação, logo transformada em desafio.
— Você está mesmo disposta a me mandar até ela? — ela não desviou o olhar, apesar do tom dele.
— É pelo Cem. Não por você. Nem por ela — ainda que sua voz vacilasse.
— Então você quer que ela volte a acreditar que tem chance — ele a fitava intensamente. — Isso não vai te ferir? Não vai te magoar?
Bahar ficou imóvel, os olhos se arregalando, mas tentando se manter serena.
— Eu não disse isso — sua voz tremia sem que ela percebesse.
— Ou será que é você quem quer confirmar que nunca houve nada entre nós? — havia ao mesmo tempo raiva e fragilidade no olhar dele.
Bahar desviou o rosto.
— Não gosto quando o passado volta para dentro de casa — tentou se esconder atrás da calma.
— Então está com ciúmes — ele quase sorriu. — E se a Naz ainda me espera, ainda sonha comigo?
Foi um impulso. Ela sabia que ele a provocava, mas, ainda assim, Bahar corou, um tremor percorreu seu corpo, e sua mão desceu devagar até o ombro dele.
— Não brinque com isso — ela apoiou a mão no ombro dele. — Eu só… não quero te perder.
— Desculpa — ele se atrapalhou ao ver a reação dela. — Eu não devia. Só queria ouvir você dizer que me ama também.
— Ciúme é um luxo — sua voz estava rouca, mas ela não tirou a mão. — Eu tive um marido que viveu dezesseis anos com duas famílias. Você acha mesmo que isso ainda me importa? — havia dor na sua voz. — Você acha que eu quero repetir tudo de novo?
Evren parou. O sorriso desapareceu. Tocou de leve a face dela, afastando uma mecha de cabelo. Ela permanecia em silêncio, os lábios trêmulos. Ele quis pegar a mão dela, mas ela recuou um pouco, e isso o feriu.
— Bahar — ele mergulhou nos olhos dela e depois encostou o rosto ao dela —, eu não sou o Timur. Não vou viver uma vida dupla.
Ela não respondeu, mas ele viu em seus olhos a mistura de dúvida, dor e desejo de acreditar. Notando isso, abraçou-a ainda mais forte, sem ligar para o fato de que ela estremeceu, que sua mão o repelia. Aproximou-se mais.
— Mas… confesso, gosto quando você sente ciúmes — sussurrou ao ouvido dela. — Isso significa que eu sou importante para você — roçou a face na dela.
Bahar sentia, ao mesmo tempo, raiva e ternura. Empurrou-o com o peito, mas sem força, mais como uma brincadeira.
— Você é impossível — seus dedos tocaram o canto dos olhos, enxugando lágrimas que ameaçavam cair. — Você brinca com minhas feridas.
— Eu as curo — murmurou ele, beijando sua face, a têmpora, a testa. — Do meu jeito.
Ela quase sorriu, mas seus olhos ainda brilhavam de lágrimas. Evren aninhou o rosto na curva do pescoço dela. Por um tempo, só se ouviu a respiração dos dois no quarto.
— Confia em mim — pediu em voz baixa. — Uma vez só, de verdade.
Bahar pareceu se render nos braços dele, tentando ignorar a dor nas costas e nos ombros.
— Isso é o mais difícil — confessou.
Evren apertou o abraço, arrancando-lhe um suspiro.
— E, pra mim, o mais importante. Eu só… tenho medo. Medo de te perder de novo — murmurou quase inaudível.
Bahar apoiou a cabeça no ombro dele.
— Eu também tenho medo de te perder — sussurrou. — Cada minuto eu tenho medo.
Ele a apertou ainda mais.
— Eu mesmo vou colocar um ponto final — suspirou Evren. — Pelo Cem. Eu tenho que fazer isso pelo meu irmão.
Os dedos dela se agarraram ao tecido da camisa dele. Ela se sentia como se tivesse forçado aquela decisão. Tentava confiar nele, mas não conseguia se livrar da ansiedade.
— O jantar ficou intacto — disse ele, em voz baixa. — Como se não tivesse importância. — Deu de ombros.
Bahar o abraçou de imediato, apertando-o contra si.
— Hoje foi um dia pesado — murmurou. — Amanhã eu tento reunir todos.
— Não — respondeu Evren rápido demais. — Não quero ser convencido.
Ele se virou, fitando seus olhos por um longo tempo.
— Eu trago o jantar pra cá — murmurou ela, os dedos deslizando pelas sobrancelhas dele, alisando-as, obrigando-o a relaxar.
Ela o olhava com tanto amor, com tanta vontade de salvar ao menos um pedaço daquela noite.
— Eu não quero comer — recusou-se Evren, teimoso como sempre.
Bahar sorriu.
— Mas eu quero — deu leves batidinhas no ombro dele. — Professor, vai mesmo me deixar passar fome? — perguntou, e o olhar dele brilhou na mesma hora.
Ele acabou rindo, o olhar amolecendo, ganhando calor.
— Então você admite que eu sou seu médico? — perguntou, baixando os olhos para os lábios dela.
Bahar saltou da cama de repente, afastando-se dele.
— Como disse minha mãe, ainda não sabemos quem é o professor aqui. E, já que você tem que obedecer ao médico, e eu sou a médica, então… — suspirou. — Descanse um pouco, eu vou subir até a Umay, está bem? — mandou-lhe um beijo no ar e saiu do quarto.
***
Bahar subiu devagar e bateu de leve na porta.
— Posso entrar? — perguntou em sussurro.
Não houve resposta. Ela abriu a porta com cuidado e viu Umay. A filha estava sentada na cama, abraçando os joelhos, o abajur iluminava o seu perfil. Não chorava, mas o rosto estava marcado pela ansiedade.
Bahar se aproximou, sentou-se ao lado dela. Por alguns segundos ficaram em silêncio.
— Estou com medo, mãe — murmurou Umay quase sem voz.
O peito de Bahar se apertou, a mão instintivamente foi até o coração. Virou-se para ela, compreendendo que tudo aquilo era novo para sua filha — o primeiro sentimento, o primeiro apego, a primeira decepção. Cem continuava parte da família, mas não dela. Umay ainda não sabia separar amor de dor, e por isso cada olhar dele feria mais do que ela conseguia admitir. Sua primeira paixão havia sido infeliz, e a ferida ainda estava aberta.
— Do que você tem medo, minha querida? — perguntou Bahar.
— Que você vá embora — respondeu Umay, sem olhá-la. — Como o papai. Você está sempre com todos… com seus pacientes, com o seu irmão, com o Evren. E eu não sei onde fico para você.
A voz dela era tão baixa que doía ainda mais. Bahar abriu os braços e a envolveu num abraço. No começo, Umay ficou imóvel, deixando-se envolver, depois se aninhou contra o ombro da mãe.
— Eu estou com você — Bahar encostou o rosto nos cabelos da filha. — Eu não vou a lugar nenhum.
— E se o Evren… se ele quiser um filho seu? — ela a encarou. — Você tem certeza de que está bem? Ele já te examinou?
Bahar ouviu a filha e sentiu uma pontada de vergonha. Parecia injusto: ela, uma mulher adulta, se permitindo um novo amor, enquanto sua filha ainda aprendia a lidar com a primeira perda. Como poderia se alegrar com Evren, se Umay ao lado dela perdia a fé no amor? Segurou a filha ainda mais forte. Seus olhos se encheram de lágrimas, mas a voz saiu firme.
— Eu estou bem — respondeu. — Eu sei onde estão meus limites. E o Evren também sabe. Juntos, vamos conseguir, está ouvindo? Você precisa confiar em nós.
Umay ergueu o rosto, procurando os olhos da mãe.
— E isso é felicidade, mãe? — ela a fitava com intensidade. — Você o ama, ele quer um filho, e ao mesmo tempo entende o quanto isso é perigoso para você… Onde está a felicidade nisso? Isso é amor? Quando dói tanto, quando dá tanto medo?
Bahar sabia que era importante para as filhas enxergarem que o amor podia ser diferente. Verdadeiro. Fiel. Não como com Timur, nem como o que Umay vivera com Cem. Sentia que sua felicidade com Evren precisava se tornar uma prova para a filha de que o amor existia, sim.
— Eu amo — sorriu Bahar com suavidade. — E quero ser feliz — sussurrou. — Quero que vocês estejam comigo, que entendam: a minha felicidade não é sem vocês. É com vocês. Com vocês e com o Evren.
Dentro dela, tudo era um turbilhão: culpa e ternura, medo e esperança. Parecia estar num cruzamento entre sua vida de mulher e a de mãe. Mas, pela primeira vez em muito tempo, permitia-se pensar que também tinha direito à felicidade. Mesmo que a filha ainda precisasse aprender a acreditar nisso.
Umay fungou, mas não chorou. Apenas se apertou mais contra ela. Ficaram alguns segundos assim, ouvindo a respiração uma da outra.
— Eu quero muito que você seja feliz, mãe — murmurou. — Mas promete que não vamos te perder?
— Prometo — Bahar beijou os cabelos dela, fechando os olhos.
— E se eu nunca mais amar? — perguntou Umay em voz baixa.
Bahar estremeceu. Acariciou os cabelos da filha e fechou os olhos por um instante.
— Às vezes parece assim… depois da dor — sussurrou. — Parece que acabou, que o coração se fechou. Mas ele sabe se curar, minha querida. E acredite — ela a olhou —, seu coração vai se abrir de novo.
— E se não? — ela resistia a acreditar. — E se eu tiver medo para sempre?
— Então você vai amar com mais cuidado — Bahar acariciou seus cabelos. — Mas isso também é amor. Ele sempre chega de um jeito diferente do que esperamos.
A porta se abriu devagar, e Parla entrou. Sentou-se na beira da cama. Não disse nada, apenas olhou da irmã para a mãe.
— Eu tenho inveja de você, mãe — confessou Umay. — Você é corajosa. Voltou a amar, e eu não consigo nem pensar nisso.
— Eu também tive medo. Achei que meu coração nunca mais ia despertar — Bahar prendeu a respiração e soltou lentamente. — Mas o Evren… ele está comigo. E eu me permiti.
— E se a gente não conseguir assim? — perguntou Parla em voz baixa.
Bahar sorriu com ternura e tristeza ao mesmo tempo.
— A gente também não aprendeu a amar — admitiu. Estendeu a mão, Parla se aproximou, e Bahar a abraçou também. — Estamos aprendendo sozinhas. Aprendendo a mostrar amor. Errando, tendo medo… mas seguimos em frente.
Parla encostou a cabeça no ombro da mãe.
— Então vamos aprender juntas — murmurou Bahar. — Eu, vocês… e talvez os filhos de vocês no futuro. Para que eles cresçam sabendo que amor é algo que se pode e se deve mostrar. — O olhar dela ficou parado, algo se acendeu dentro dela.
Umay virou-se, encostando-se ainda mais ao ombro da mãe.
— Mãe… você sabe mostrar que ama? — perguntou de repente.
Bahar ficou imóvel. Percebeu pela primeira vez como raramente se permitia demonstrações simples — sem motivo, sem obrigação. Sabia amar as filhas, sabia cuidar delas… mas havia desaprendido a mostrar amor a um homem. Timur nunca quisera isso, e ela, com o tempo, esquecera o quanto era importante. Agora, com Evren, isso era essencial. O olhar dela se voltou para a porta.
— Talvez você tenha razão… — suspirou. — Eu me acostumei a guardar tudo. A esconder. Talvez eu já não saiba mais amar abertamente… — parecia perguntar a si mesma.
— Você sabe — murmurou Umay. — Só esconde. — E completou: — Eu não lembro do papai te abraçando. Nem de vocês se beijando. Nem de saírem juntos… uma única vez.
Parla assentiu timidamente, ouvindo em silêncio.
— O nosso era diferente… — foi tudo o que Bahar conseguiu dizer.
— Então o amor acaba com o tempo? Nesse caso, por que amar? — voltou Umay à sua primeira dúvida.
Bahar fechou os olhos, apertando as mãos sobre os joelhos.
— Não acaba… — sua voz saiu rouca. — Se é verdadeiro, permanece. Mas se não é cuidado, se não é mostrado, acaba se escondendo. E quando se esconde fundo demais, parece que sumiu. — Fez uma pausa longa, o olhar fixo. — Não porque o amor vai embora. Mas porque as pessoas esquecem de mostrá-lo.
Umay apertou a mão da mãe. Parla abraçou as duas com mais força.
— É isso que precisamos — disse Bahar, com lágrimas surgindo nos olhos. — Falar, segurar a mão, abraçar. Mesmo quando dá medo.
De repente, ela sentiu uma vontade enorme de descer até o quarto e abraçar Evren bem forte, beijá-lo, dizer o quanto o amava…
***
Ele a amava profundamente, mas precisava ficar sozinho por alguns minutos. Aproveitando a ocasião, apertou de leve a mão dela e disse:
— Gülçiçek, querida, compra uma água pra mim? — pediu com um sorriso. — Mas só aquela que eu gosto. Você sabe qual é.
Ela sorriu em resposta, entendendo perfeitamente que ele não pedia a água, mas alguns minutos de silêncio. Mesmo assim, pegou a bolsa e saiu.
Assim que a porta se fechou, Reha puxou o tablet que estava no criado-mudo. Seus dedos tremiam, mas com o gesto já automático ele abriu a lista de pacientes. Passou rapidamente os olhos pelas linhas — e parou. O coração se apertou, acelerou, obrigando-o a levar a mão ao peito.
Mulher, 29 anos, transplante de fígado há 18 meses, gravidez de 24 semanas. Óbito. UTI. Prognóstico — parto induzido.
Reha prendeu a respiração. Apertou o tablet como se pudesse apagar aquelas palavras e o desligou às pressas. Fechou os olhos. Havia dor demais naquelas linhas. Dor familiar demais.
A porta se abriu. Ele colocou o tablet de volta no criado-mudo e o cobriu com um jornal. Gülçiçek entrou, trazendo uma garrafinha de vidro com água. Sorriu, mas ele percebeu logo que algo também a incomodava. Estava mais quieta, um pouco distante. Em silêncio, abriu a tampa, encheu o copo, puxou a cadeira, ajeitou o cobertor dele — gestos tão habituais que pareciam parte de sua rotina.
— O que foi? — perguntou ele com suavidade, erguendo um pouco a cabeça. — Você parece longe, não está aqui comigo.
Ela suspirou. Girou a tampa entre os dedos por muito tempo.
— Reha… — começou quase em sussurro. — A Bahar pode… — hesitou, os olhos cheios de ansiedade. — Pode engravidar de novo? Ter outro filho?
Ele empalideceu, apertando a mão dela.
— Gülçiçek… só podemos confiar — murmurou. — Nem tudo depende da medicina. — A voz dele era calma, mas ela já sabia reconhecer a preocupação escondida naquele tom. — O mais importante é que ela tem forças para viver. O resto… a vida vai decidir. Bahar conhece o próprio corpo melhor do que ninguém. E o Evren… ele nunca deixaria a vida dela em risco. — Depois disso, silenciou.
— Eu só quero que ela seja feliz — disse Gülçiçek, baixando a cabeça para esconder as lágrimas.
Ele acariciou a mão dela, controlando o tremor dos próprios dedos.
— Ela já tem você — sussurrou. — Nós. O resto não cabe a nós decidir.
Falava com firmeza, mas era apenas aparência. Dentro dele, os dados daquela paciente continuavam a latejar. A breve anotação no tablet, o peso da pergunta dela — tudo ainda o corroía por dentro.
— Não se torture com isso — pediu com doçura. — O que podemos fazer é amar, estar ao lado. Às vezes isso é mais importante do que qualquer prognóstico.
Gülçiçek assentiu, sorriu com um pouco mais de calor, mas sua mão continuava fria. Reha se ergueu para abraçá-la, não permitindo que nem a sombra de sua inquietação transparecesse no olhar…
***
Ela parou diante da porta do quarto… mas passou direto. Desceu as escadas e se deteve diante da mesa. O jantar permanecia intocado. Bahar olhou para os pratos cuidadosamente dispostos, os guardanapos dobrados, e a mão lhe tremeu. Lentamente começou a guardar tudo. Cada gesto era silencioso, quase sem som; às vezes parava, como se prestasse atenção… mas não, a casa estava mergulhada em silêncio, e ela tinha medo de quebrá-lo com o menor tilintar de louça.
— Eu ajudo — ouviu a voz de Yusuf e virou-se.
Ele não perguntou nada. Apenas pegou uma travessa e levou para a cozinha. Nos movimentos dos dois não havia pressa, nem confusão; pareciam acostumados a fazer isso juntos.
— Obrigada — Bahar enxugou as mãos na toalha e acendeu o fogão.
Yusuf apenas assentiu. Observava-a preparar o café, tirar algo da geladeira, arrumar sobre uma bandeja. Percebeu, então: ela estava preparando o jantar… para dois.
— Bahar — chamou, obrigando-a a olhá-lo. — Você… — Yusuf hesitou, e ela arqueou levemente as sobrancelhas. — Você não vai se tornar a nossa paciente, vai? — perguntou com extrema cautela.
Apesar da delicadeza, a pergunta soou direta demais, quase alta demais.
— Já fui paciente do Evren duas vezes — sorriu ela. — Uma terceira não vai acontecer.
Yusuf assentiu, baixando os olhos, acreditando que ela não notaria a preocupação em seu olhar.
— Só precisamos confiar — sussurrou ela. — E tudo vai dar certo.
As palavras dela soaram tão seguras que, por um instante, a casa pareceu mais aquecida.
Bahar colocou sobre a bandeja duas xícaras, o pequeno bule de café, um prato com frios e queijo, outro com legumes, frutas, pão, manteiga. Seus gestos eram tão habituais que pareciam rotina — mas, dessa vez, ela se movia um pouco mais devagar. Quando terminou, olhou para a bandeja e suspirou.
— Agora, descansar — sorriu. — Amanhã será um dia difícil.
— Pesado — corrigiu Yusuf com um aceno, pegando a bandeja.
— Eu consigo — disse ela, mas permitiu que ele a ajudasse.
Subiram juntos a escada.
— Café à noite? — perguntou Yusuf, indicando o pequeno bule, como quem confirmava se aquilo era adequado naquela hora.
Bahar apenas balançou a cabeça, fazendo um gesto com a mão. Lembrava-se de como Evren lhe proibira o café no dia anterior, mas hoje, no quarto, ele não teria coragem, pensou com um leve sorriso.
— É necessário — respondeu.
Yusuf deu de ombros e parou diante da porta.
— Sabe… — disse, entregando a bandeja — eu nunca imaginei que na casa de médicos haveria tantas coisas simples assim. Um jantar, um café… cuidado. Vocês sempre pensam nos outros.
Bahar o fitou com doçura, percebendo o quanto lhe faltava calor e atenção.
— É assim que deve ser. Um médico não aguenta sem isso. Mas… — apertou a bandeja contra o peito — às vezes também é importante que alguém pense em mim.
Yusuf assentiu, o olhar sério. Girou a maçaneta, e Bahar empurrou a porta com o ombro. Assim que entrou, ele fechou atrás dela. Ainda sentia o aroma do café, conseguiu ver por um instante a luz do abajur, e um sorriso lhe escapou: tudo aquilo parecia uma promessa silenciosa de que, pelo menos naquela noite, alguém iria jantar, alguém iria cuidar de alguém…
***
No quarto reinava uma penumbra suave. Evren estava deitado na cama, as mãos atrás da cabeça, o olhar fixo no teto.
Bahar colocou a bandeja sobre a cômoda e se virou. Esperava que ele se levantasse, viesse até ela, mas ele não se moveu.
— Evren — chamou baixinho, mas não houve reação.
Ela mordeu o lábio, quase sorrindo, e se aproximou. Inclinou-se e seus lábios roçaram a face dele, a mão deslizou por seus cabelos, e os olhos dele se fecharam involuntariamente. Bahar sorriu.
— Vem, Evren — sussurrou junto à cama.
— Não quero — resmungou, abrindo os olhos.
Bahar suspirou e sentou-se ao lado dele. Evren voltou a encarar o teto. Ela ajeitou a camiseta dele, deixou a mão repousar em seu ombro — nenhuma reação. Com a ponta dos dedos, percorreu o braço dele, do cotovelo até o punho; o corpo respondeu com um arrepio quase imperceptível, mas ele continuava se contendo.
— Teimoso como um garoto — murmurou. Inclinou-se, beijou-lhe a face e se levantou.
Bahar deu a volta na cama. Seu olhar caiu sobre a mesinha: coberta de livros, caderno, computador, revistas. Suspirou e deu um passo em direção à cômoda — bateu na canela contra uma mala no chão.
— Ai… — escapou de seus lábios.
Inclinou-se, massageando a perna, e viu a mala aberta, roupas espalhadas pela cadeira, a camisa jogada no tapete. Pela manhã haviam se apressado, à noite ela demorara a voltar… e agora o quarto estava um caos. Precisava arrumar.
Inclinou-se mecanicamente, empurrou as roupas para dentro e fechou o zíper. A cama rangeu atrás dela. Bahar levantou a mala, mas ouviu o som dele se mexendo.
— O que você está fazendo? — a voz dele saiu rouca.
Ela se virou, sem entender de imediato a pergunta, os olhos confusos.
— Já me cansou? — ele deu um passo em direção a ela. — Quer me mandar embora? — havia raiva, mas também pânico em seu olhar.
Bahar ficou atônita, e só quando percebeu o que ele pensava, os lábios dela tremeram quase em riso — mas conteve-se. Virou-se de costas, puxando a mala.
Evren a observava com medo e fúria ao mesmo tempo. Será que ela realmente queria expulsá-lo? Já se preparava para pegar suas coisas e sair por conta própria… até que viu: ela passou direto da porta e entrou no closet.
Bahar empurrou a mala, abriu o guarda-roupa. Por um instante pensou, depois puxou suas próprias roupas para o lado, abrindo espaço. Cuidadosa, dobrou as roupas dele e colocou nas prateleiras e gavetas. Separou uma pilha para passar a ferro.
Evren ficou parado na porta, observando seus gestos tranquilos, ouvindo o farfalhar do tecido, incapaz de desviar os olhos dela. Bahar endireitou-se, analisando as prateleiras, o espaço. Olhou a pilha de roupas amassadas e franziu o cenho — ele trouxera tão poucas coisas.
Ela nem percebeu quando ele se aproximou. Só sentiu a mão em sua cintura, os lábios em sua nuca, e soltou um suspiro, fechando os olhos. Evren a puxou contra si, apoiou o queixo em seu ombro, os braços se fechando em torno dela. Ela ficou imóvel, esperando que ele a apertasse com mais força — até se preparando para a dor, escondendo-a dele. Mas não: ele apenas a envolveu num abraço suave.
— Minha mala te incomodou? — o sopro quente dele acariciou sua pele.
— Ficou com medo de me cansar? — respondeu ela, reclinando a cabeça, colando-se mais às costas dele.
— Nem em brincadeira diga isso — a tensão voltou ao corpo dele.
— Então você pode tudo e eu não? — provocou ela.
Os braços dele a apertaram ainda mais.
— Então você escolheu primeiro o jantar? — o tom dele suavizou.
Ela ergueu levemente as sobrancelhas.
— Não sei — deu de ombros. — Você só promete.
As mãos dela pousaram sobre as dele. Ele não esperou: virou-a de repente e tomou seus lábios. O beijo foi rápido, voraz, quase brusco… e, ao mesmo tempo, carregava alívio.
Ela se agarrou a seus ombros, apertou-se contra ele, mas logo se afastou um pouco.
— Pronto, agora sim podemos jantar — sussurrou, encarando-o.
— Jantar depois do beijo? — ele não desviava os olhos.
— Só assim — respondeu, um brilho travesso no sorriso.
Ele a soltou, mas devagar. Suas mãos demoraram a deixar a cintura dela, até que suspirou e deu um passo atrás.
— Vai, eu só vou me trocar — ela fechou a porta do armário com um sorriso.
— Posso ajudar — ele já ia se aproximar.
— Eu me viro sozinha. Sirva o café, por favor — pediu, segurando-o com a mão.
Evren balançou a cabeça, sem entender, mas acabou saindo. Bahar soltou o ar, aliviada: conseguira esconder as marcas, mas a noite só estava começando.
Escolheu um robe comprido, fino, mais parecido com uma camisa masculina. Certificando-se de que ele não olhava, despiu-se depressa e mergulhou dentro dele, dando um nó firme.
— Bahar — a impaciência soava na voz dele. Ela sabia que ele podia entrar a qualquer momento.
Saiu por conta própria. Evren já havia liberado a mesinha, colocado a bandeja, servido o café. O olhar dele percorreu o corpo dela de cima a baixo, tirando-lhe o fôlego. Pela primeira vez, jantariam no quarto, começando, enfim, uma vida a dois.
Ele só se sentou depois que ela se acomodou na poltrona à frente. Bahar lhe ofereceu um pedaço de pão, ele pegou de sua mão, deu um gole no café.
— Está frio — reclamou.
— Culpa sua — ela retrucou, saboreando o próprio gole.
Ele quase sorriu. Comeram em silêncio por um tempo. Evren pousou a xícara vazia no pires, passando o dedo pelo contorno.
— Bahar… precisamos conversar — disse em voz baixa.
Ela estremeceu; a xícara tilintou quando a largou. Pegou devagar a faca, passou manteiga no pão.
— Bahar, não quero te pressionar — Evren balançou a cabeça. — Mas você foge da conversa. No consultório eu te disse que você…
— Evren, por favor — interrompeu, deixando a faca cair sobre a mesa. — Você está me pressionando.
— E você se cala — ele se levantou de repente, ajoelhando-se diante dela.
Ela ficou perdida, não esperava aquilo. Continuava segurando o pão com manteiga, sem perceber. As mãos dele pousaram em seus joelhos.
— O nosso é diferente — disse com voz calma. — Você não é minha paciente, Bahar. Você não é ela. Não vai parar na UTI. A gente vai conseguir. Mas eu preciso saber. Não consigo viver tranquilo sem ter certeza de que você está bem. Por favor, confia em mim.
Ela o fitava e via nos olhos dele o mesmo medo horrível que sentia em si mesma — o medo de uma decisão capaz de mudar tudo.
— Evren… — pousou o pão no pires. — Me dá tempo. — A voz saiu num sussurro. — Eu não estou pronta. Me dá tempo, não me força a decidir hoje.
— Bahar — ele apertou a mão dela — e se você já estiver grávida? Eu preciso saber que você está bem.
Ela fechou os olhos. Inclinou-se e o abraçou, colando-se a ele. Ele quis dizer algo, os lábios se moveram, mas ela ergueu a mão e tapou-lhe a boca.
— Shhh… — murmurou, encostando a face na dele. — Por favor, Evren.
Ele ficou imóvel. Apenas o sopro quente da respiração batia nos dedos dela. Então a abraçou pela cintura, ficou alguns instantes assim, depois beijou a palma da mão dela.
Bahar sorriu entre lágrimas, mas não abriu os olhos. No quarto voltou a imperar o silêncio. Só se ouvia a respiração dos dois… e o aroma do café que já esfriava no ar.
***
Ele saiu para a escuridão. Seus passos ecoavam pesados na varanda noturna. Sert Kaya parou junto ao parapeito, apoiando as mãos na pedra gelada. Por alguns segundos contemplou as luzes da cidade, depois virou-se devagar, fixando o olhar nas janelas do hospital.
— Então, Leyla… — um sorriso amargo curvou seus lábios. — Nós nunca chegamos a nos encontrar. Você destruiu a minha família. Fugiu para a América, me deixou sozinho. Voltou… e morreu.
Seus dentes rangeram, os músculos do maxilar se contraíram.
— Agora eu vou destruir a sua família. Um por um. Não restará nenhum dos Yavuzoğlu.
A lua iluminou sua silhueta por um instante antes de se esconder atrás de uma nuvem, mergulhando a varanda novamente na escuridão…