Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 9. PARTE 1

Yusuf ficou imóvel no meio do corredor, entre Evren e Serhat. Seu olhar ia de um para o outro, como se quisesse uma resposta honesta ali, naquele instante — mas, ao mesmo tempo, parecia incapaz de compreender o que acabara de ouvir.
— Então?! — sua voz tremeu, ecoando pelas paredes. — Quem de vocês é meu pai? Ou nem vocês sabem? — um sorriso amargo lhe cruzou os lábios. — O que ela disse pra vocês? O que a minha mãe disse?! — gritou.
A mão de Bahar pousou sobre o peito. Havia tanta dor nos olhos e na voz de Yusuf, que o coração dela se apertou.
— Quem? — perguntou ele, mais baixo, dando um passo para trás.
Evren empalideceu. O rosto de Serhat mudou. Os dois olhavam para Yusuf em silêncio.
— Os dois?! — os olhos de Yusuf se avermelharam, mas ele conteve as lágrimas. — Ou nenhum de vocês! — sua respiração pesada rasgava o silêncio do corredor.
— Yusuf... — Bahar foi a primeira a reagir, dando um passo em sua direção, mas ele se afastou dela.
— Não chega perto! — levantou a mão, proibindo-a. — Eu... eu... — deu mais um passo para trás, sem desviar o olhar dos adultos — eu não quero ser o erro de vocês! — soltou num fôlego só, virou-se e saiu correndo.
Evren estremeceu. Serhat engoliu em seco. As palavras de Yusuf doeram mais do que qualquer acusação. Eles o seguiam com o olhar, incapazes de se mover.
Kamil deslizou pela parede e levou as mãos à cabeça. Só agora percebeu — sua Ayşe não existia mais. Ela tinha morrido. Seus ombros começaram a tremer, e os soluços ecoaram pelo corredor.
— Ayşe... minha Ayşe... — sussurrava ele, cobrindo o rosto.
Ontem ele tinha chegado a esse hospital com a esposa grávida. Ontem ainda tinha uma família... e agora não tinha mais ninguém. Ninguém.
Bahar virou-se para Kamil. O desespero e a dor dele rasgavam a alma dela. Ela estava prestes a se ajoelhar ao lado dele, mas o som distante dos passos de Yusuf a deteve. Ela mesma ainda não conseguia entender... nem aceitar a morte do seu paciente — a primeira morte da sua carreira.
— Ninguém... ninguém... — ouviu a voz de Yusuf, quebrada, e tapou a boca com a mão.
Bahar balançou a cabeça, olhando para Evren e Serhat, e no instante seguinte correu por eles, indo atrás de Yusuf.
Evren e Serhat se entreolharam — estavam tão abalados que não sabiam o que dizer... o que fazer.
Rengin apoiou a mão na parede, com medo de cair. Olhou para Kamil, que chorava, depois para Evren e Serhat, parados no meio do corredor, perdidos. Fechou os olhos. Apenas respirava, tentando não desabar, tamanha era a força da decisão de Serta Kaya diante de todos.
Evren sacudiu a cabeça, piscou, os dedos cerrados até os nós ficarem brancos. Serhat recuou, depois avançou um passo — e recuou de novo.
— Você entendeu?! — murmurou Serhat. — Ele é real! — sua voz falhou. — Não está em algum lugar distante, ele está aqui, esteve bem na nossa frente. Ele olhou nos nossos olhos e perguntou — quem é meu pai?!
Evren cerrou os dentes e olhou direto para Serhat.
— Eu entendi — sua voz saiu rouca, rasgada. — E isso não me dói menos do que a você.
— Não dói menos?! — Serhat se aproximou de Evren. — E se ele for seu filho? Já pensou nisso?
Evren deu um passo à frente, levantando o punho, mas parou a tempo.
— E se for o seu?! Está preparado? — encarou-o de frente, sem esconder o pavor no olhar. — Você conseguiria chegar até ele e dizer — sim, eu sou seu pai — depois de tudo o que ele ouviu de nós?!
Evren passou a mão pelo rosto, num gesto desesperado, como se quisesse apagar o que tinha acontecido.
— Eu já tenho uma filha — disse Serhat, pálido.
— E o que isso muda? — perguntou Evren. — O quê? — insistiu.
— Eu tenho medo de perdê-la — confessou Serhat, hesitante. — E se já perdi? E agora... — virou-se na direção em que Yusuf havia fugido — agora ele... Yusuf... — o nome saiu com dificuldade. — Eu não sei — admitiu — eu simplesmente não sei.
— Esra está viva! — quase gritou Evren, como se quisesse convencer não só Serhat, mas a si mesmo. — Ela vai dar à luz! Ela vai viver! Tem que viver! E você precisa acreditar nisso, Serhat. Confiar em mim... e na Bahar. Sua filha está viva! — ele parecia gritar para não desmoronar.
— Fácil pra você dizer — Serhat balançou a cabeça. — Você sempre exige que acreditem em você... e depois desaparece — viu o rosto de Evren empalidecer. — Você foi embora daquela vez... e se ele for seu filho, Evren? Você entende que abandonou seu próprio filho? Que o rejeitou? Que não o viu crescer, estudar? Está pronto pra isso? Está pronto pra encará-lo?
— Estou pronto apenas pro fato de que ele existe, e está aqui — Evren se aproximou mais um passo. — Ele está perto de nós. Não importa de quem é o sangue — nós temos a obrigação de cuidar dele.
— Nós?! — Serhat soltou um riso amargo. — E como você pretende provar a paternidade? — cerrou os punhos. — Acha que ele vai aceitar fazer um teste de DNA? Ele nos odeia, Evren! Depois de tudo o que dissemos sobre a mãe dele! Você entende o que fizemos? O que o fizemos acreditar sobre ela?
Os dois ficaram em silêncio, e Rengin abriu os olhos. Observava-os, ouvia a respiração pesada dos dois. Via nos olhos deles uma mistura de raiva, medo, desespero… e confusão. Nenhum dos dois parecia perceber completamente que Yusuf já era um homem — e que caberia a ele decidir… se algum dia aceitaria um deles como pai.
— Podemos discutir por horas — foi Evren quem quebrou o silêncio depois dos gritos. — Yusuf está aqui — rangeu os dentes — e ele é nosso — disse, com esforço.
— Eu não sei — murmurou Serhat, abrindo os braços.
— Nem eu sei — respondeu Evren, desorientado.
— Isso é… — a voz de Serhat falhou; ele passou a mão pelos cabelos. — Uma coisa é imaginar que pode haver uma criança em algum lugar... outra é vê-lo aqui, diante da gente. E a Esra... — ele hesitou.
Os dois se encararam novamente.
— Esra está viva — disse Evren, firme. — Ela vai viver. Vai ter o bebê. E você precisa acreditar. Confiar não só em mim… — ele fez uma pausa — mas também na Bahar.
— Você vem me falar em confiança — os olhos de Serhat se estreitaram — e se o tempo todo você soube e escondeu? — havia amargura em sua voz. — De quem ele é filho? Seu? Meu?
— Eu sei tanto quanto você — respondeu Evren, num tom seco. — Mas sei de uma coisa: ele já está aqui. Yusuf é um fato.
— Um fato? — um sorriso amargo se formou nos lábios de Serhat. — E como vamos confirmar isso? — o medo voltou à sua voz. — Vai dizer: “Vamos fazer um teste de DNA”? Acha que ele vai aceitar? Você viu os olhos dele?
— Vi — disse Evren, aproximando-se. — Pra você, ele é o filho de uma mulher morta. Pra mim, cada palavra dele corta como uma lâmina.
— Você sempre sabe onde acertar — murmurou Serhat, rouco. — Você olha pra ele e vê uma chance de redenção? E o que eu vou dizer pra Esra?
O silêncio voltou. Ambos desviaram o olhar.
— Yusuf existe — disse Evren, baixo, sem encará-lo. — Está perto. E vai continuar perto. Com teste ou sem teste.
— E depois? — suspirou Serhat, cansado. — Ele é adulto. Como você vai obrigá-lo? Devemos segurá-lo à força? — esfregou as têmporas.
Evren ficou calado. Nos olhos dele apareceu, pela primeira vez, um traço de incerteza que ele nem tentou esconder. E Serhat entendeu — nenhum dos dois sabia o que fazer. Eram apenas médicos acostumados a seguir protocolos… mas, para isso, não havia protocolo algum.
O eco no corredor foi morrendo, como se as próprias paredes absorvessem os gritos, o medo. Kamil ainda estava sentado junto à parede, o rosto entre as mãos. Evren olhava fixamente para um ponto. Serhat enfiou as mãos nos bolsos.
Rengin afastou-se um pouco. O jaleco branco lhe caía perfeitamente; a postura, impecável como sempre. Ninguém diria que ela acabara de ser afastada do cargo. Apenas os olhos — só eles — revelavam tudo que se passava dentro dela: confusão, amargura, mágoa, dor.
— É isso — sussurrou, mas Evren e Serhat a ouviram e se viraram. — A partir de agora, não sou mais a diretora do hospital.
Ela se virou lentamente e começou a andar pelo corredor.
— Rengin… — chamou Serhat, dando um passo atrás dela.
— Não. Me deixa — respondeu sem olhar para trás, a voz firme. — Ainda sou médica. Vou continuar aqui, mas preciso... — não terminou a frase e seguiu adiante.
Rengin sabia que eles ainda a observavam, mas ao menos já não a escutavam. Seus lábios tremeram, os olhos se avermelharam.
— Ele me tirou do cargo em público, na frente de todos — sussurrou para si mesma. — Então vou cair em silêncio.
Suas pernas pareciam pesadas, como se tivesse medo de tropeçar — tão fundo as palavras e ações de Serta Kaya a haviam atingido, arrancando-lhe o chão. Caminhava devagar, como se não lhe restassem forças.
Serhat franziu o cenho, olhando-a se afastar, sem saber se devia ir atrás dela ou deixá-la sozinha. As mãos caíram, sem vida.
Evren desviou o olhar das costas de Rengin para Kamil, encolhido junto à parede, e ficou imóvel. Estava tão atordoado, tão abalado pela revelação, que não sabia o que dizer, nem o que fazer.
— Bahar... — murmuraram seus lábios, e antes mesmo de perceber, ele já se virava.
As pernas o levaram instintivamente para a direção em que ela havia sumido. Só um pensamento lhe martelava a cabeça — encontrar Bahar.
***
Um único pensamento — não deixá-lo fugir — foi o que deu forças a Bahar para alcançá-lo na escada. Yusuf disparou em direção à saída, mas ela conseguiu segurá-lo pelo braço.
— Yusuf! — sua voz tremeu, mas o aperto foi firme. — Espera!
Ele tentou se soltar, mas o olhar dela o deteve. Não foi a força dos dedos nem as palavras — foi o olhar: calmo e firme. Segurando-o pelo braço, Bahar o puxou e quase à força o levou para seu consultório.
Assim que fechou a porta, ela o soltou e encostou as costas contra ela, como se bloqueasse a saída. Apenas ficou parada, em silêncio. Yusuf andava de um lado para o outro, perdido, esbarrando na mesa, na cadeira, no armário. Algo caiu da mesa, mas Bahar não se moveu até que ele parasse no meio da sala. Yusuf passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos grudados na testa.
— Como eles puderam?! — sua voz falhou; um tremor percorreu o corpo dele. — Como puderam rebaixar tanto a minha mãe? Ela morreu! — ele se virou, olhando para Bahar. — Ela não pode se defender! — lágrimas brilharam em seus olhos. — E eles... — a voz dele se quebrou; respirava com dificuldade. — Por que ela escondeu isso de mim? Por que disse uma coisa, se era outra?
Bahar aproximou-se devagar e colocou as mãos nos ombros dele.
— Yusuf... — disse baixinho.
— Então quem é meu pai? Quem?! — os olhos dele estavam cheios de lágrimas contidas, mas, com uma força quase sobre-humana, ele não chorou. — O professor Serhat? O professor Evren? Ou nenhum dos dois? Teve outro? Quantos foram? Quem era a minha mãe, afinal? Quer que eu peça pra eles fazerem um teste de DNA? Ou pra mais alguém? Isso é normal? — sua voz tremia. — Pedir pra um homem provar que é seu pai? — seus lábios vacilaram. — Como ela pôde deixar isso acontecer? Como pôde me deixar assim? Por que disse que meu pai era Serhat Özer, se pra eles era outro? Pra eles! E são só dois… e se houver mais...? — ele levou as mãos à cabeça, sem terminar a frase.
Yusuf desabou numa cadeira. Os ombros tremiam, e ele chorou — de verdade — incapaz de suportar a dor que o rasgava por dentro. Bahar o abraçou pelos ombros, puxando-o contra si, em silêncio. Ele não a afastou; envolveu-a pela cintura, escondendo o rosto em seu peito, sufocando os soluços. Bahar acariciava seus cabelos.
— Eu não sei — sussurrou ela. — Ninguém sabe agora, além da sua mãe... e ela não está mais aqui. Mas posso te dizer uma coisa com certeza: você não é um erro. — Sua voz soou firme. — Você é filho dela. Ela te criou sozinha, sem um homem. Você não conheceu seu pai, mas tem o direito de viver.
Ele tremia em seus braços.
— Quem eu sou? — perguntou entre lágrimas. — Se nem ela sabia...
— Você é Yusuf — Bahar fez com que ele a olhasse nos olhos. — Não é um acaso, nem um segredo de ninguém. É você. E a resposta pra “quem é seu pai” não vai te fazer mais, nem menos.
— Eu... eu não sei como viver agora — murmurou ele, enxugando as lágrimas.
— Você não precisa decidir tudo hoje — disse Bahar suavemente. — Nem amanhã, nem na semana que vem. Só quando estiver pronto. Ninguém vai te apressar.
Ele ficou em silêncio e a abraçou de novo, apertando-a. Yusuf permaneceu quieto por um longo tempo, até que o tremor em seu corpo cessou.
— Obrigado — sussurrou — acho que minha mãe gostaria que alguém como você... estivesse ao meu lado, Bahar.
Bahar fechou os olhos. Um nó subiu-lhe à garganta, e ela o abraçou com mais força. Continuou a acariciar seus cabelos, ouvindo a respiração pesada dele.
De repente, ela ficou imóvel — ouviu passos do outro lado da porta. Yusuf também se enrijeceu. A maçaneta se moveu… e parou. Quem estava ali hesitou em entrar. Eles escutaram os passos se afastarem, deixando-os sozinhos no consultório.
***
Ela raramente ficava sozinha naquela casa — e gostava disso. Foi por isso que pediu para morar na casa de Bahar.
Parla estava sentada na sala, com o telefone nas mãos. Lá em cima, uma porta bateu, e ela olhou imediatamente para cima antes de abrir a mensagem de Cem:
“Hoje é a audiência. Se me prenderem… ninguém vai nem perceber. Eu vou simplesmente desaparecer, como se nunca tivesse existido.”
Parla franziu o rosto, como se uma pontada atravessasse seu coração.
“Não fala assim”, — digitou.
A resposta veio imediatamente, como se ele estivesse esperando:
“Como quer que eu fale? Eu estou sozinho. Até meu irmão me virou as costas. Você foi a primeira a me escrever. Só você não me abandona.”
Parla suspirou, franzindo a testa, e olhou ao redor, certificando-se de que ninguém passava. Sentia-se como se estivesse fazendo algo proibido, desviando o olhar de volta para a tela.
“Mas é verdade, você cometeu erros” — digitou.
Ela ficou olhando para a tela por um longo tempo… chegou a pensar que Cem tinha se ofendido… e, quando a tela quase apagava, apareceu uma nova mensagem dele:
“Eu sei. Eu destruo tudo. Sempre... mas eu tenho medo. Você não imagina o quanto. É como se ninguém me ouvisse.”
Os olhos dela arderam; Parla piscou. Seus dedos tremiam quando digitou rapidamente uma curta resposta:
“Eu ouço.”
Ele respondeu imediatamente, como se se agarrasse a ela como a uma tábua de salvação:
“Você é a única. Sem você eu... não sei o que vai ser de mim.”
Parla suspirou, puxou as pernas para cima e encostou-se no sofá. Escondeu o telefone assim que Nevra entrou na sala… mas Nevra apenas murmurou algo sem levantar os olhos do próprio celular. Sem nem olhar para Parla, saiu da sala. Parla respirou fundo, sentindo o coração bater forte, como se estivesse fazendo algo errado… e, mesmo assim, abriu de novo a conversa com Cem.
“Eu não quero que nada de ruim aconteça com você.”
Cem respondeu na hora:
“Então fica comigo, não me deixa, por favor. Você é a única perto de mim. Você é boa. Você me entende.”
Parla apertou o telefone com mais força. Queria responder, mas parou, consciente de que Cem estava se afogando e se agarrando a ela como a um salva-vidas. Ele só lembrava dela quando precisava… não escrevia quando tudo ia bem. Cem sempre esquecia os outros com facilidade.
Naquele momento, Cem estava sentado no chão do apartamento de Evren, encostado na cama. O telefone tremia em suas mãos. O rosto estava pálido, os olhos vermelhos, como se não dormisse há dias. Nem pensava no peso das próprias palavras, não calculava nada. “Ela responde”, pensava. “Então eu importo pra ela.”
Parla se encolheu no sofá, escondendo o telefone quando Umay passou por ali.
— Com quem você tá falando? — perguntou Umay ao passar, lançando-lhe um olhar.
Parla se assustou, o rosto tingiu-se de um rubor traidor. Por pouco não deixou o celular cair.
— Com ninguém… só... — respondeu rápido demais.
Umay estreitou os olhos, parou por um segundo, mas não perguntou mais nada, apenas saiu da sala. Parla apertou o telefone contra o peito, sentindo as mensagens de Cem penetrarem seu coração. Sempre o tratara como amigo… até agora sentia uma espécie de responsabilidade por ele, como por um amigo… quem, se não ela, estaria ao lado dele?
Ela ouviu passos lá em cima. Nevra preparava chá na cozinha. A casa seguia seu ritmo, e Parla olhou de novo para a tela:
“Se eu for preso, acabou.”
Ao ler a mensagem dele, algo se apertou dentro dela. Digitou uma resposta e logo apagou. Olhou de novo ao redor; a sala estava vazia. Então recostou-se nas almofadas e digitou outra mensagem:
“Sinto muito. Tudo isso é assustador demais.”
Cem respondeu na hora:
“Só você se importa, entende?”
Parla suspirou, mordeu o lábio e escondeu o telefone de novo quando Nevra passou com uma xícara de chá na mão. Ela forçou um sorriso, mas Nevra saiu para a piscina sem notar nada. Parla voltou a digitar:
“Você mesmo é o culpado.”
Ora olhava para a tela, ora erguia o olhar, parando nervosa para ouvir os sons da casa. Esperava a resposta dele — e ela veio:
“Sim, eu estraguei tudo. Sempre estrago tudo. Mas você entende como é — quando todo mundo te odeia?”
Ao ler a mensagem dele, seus olhos arderam. O coração batia no peito como se estivesse cometendo um crime.
“Eu não te odeio.”
Dessa vez Cem demorou a responder. A tela apagou, e ela ficou apenas olhando para o celular desligado, até que apareceu uma nova mensagem:
“Sempre soube que você era boa, que entendia tudo.”
As mãos dela suavam. Parla olhava para a tela, sentindo dentro de si pena e ansiedade misturadas a um calor estranho no peito.
Cem sorriu. De repente percebeu que Parla sempre responderia… sempre estaria ali. Era como ver uma luz no fim do túnel.
***
A sala estava banhada por uma luz suave. Sobre a mesinha diante da poltrona havia uma bandeja: chá, pão quentinho e um prato de queijo. Gülçiçek ajeitou a manta sobre os joelhos de Reha, embora ele, pela terceira vez, tentasse segurar-lhe as mãos para impedi-la.
— Eu já disse, não precisa — resmungou Reha, sorrindo.
— E eu disse que vou fazer — retrucou Gülçiçek. — Você recebeu alta antes da hora. Um dia antes! — lembrou ela. — Tenho medo de que desabe de repente no corredor ou no quarto.
Reha suspirou e pegou o jornal.
— Não dramatiza — pediu, escondendo-se atrás das páginas.
— Não dramatizar? — Gülçiçek se endireitou, cruzando os braços. — Eu mal consegui te trazer pra casa, e agora tenho que ver você bancando o herói de novo?
— Ontem... eu falei com a Rengin — disse ele, os dedos brincando nervosos com a borda do jornal. A voz soava incerta, como se temesse que ela não o entendesse.
— Sobre o quê? — perguntou Gülçiçek, desconfiada.
— Ela me propôs dar aulas pros estudantes — respondeu Reha, evitando encará-la. — Às vezes ajudar nas cirurgias. Só um pouco — acrescentou, quase em desculpa.
— Às vezes?! — exclamou ela, indignada. — Aí está! Confessou! — chegou quase a bater o pé no chão.
Reha levantou o olhar; um lampejo de medo cruzou seus olhos — aquele medo que sempre tentava negar, mas que agora o dominava.
— Gülçiçek, eu não consigo ficar parado sem fazer nada. Isso é pior que a doença — admitiu.
Ela se colocou diante dele, as mãos na cintura.
— Então é isso! — disse, ofendida. — Mal voltou pra casa e já tá planejando correr pro hospital?
— Não é fugir — retrucou Reha. — É a minha vida. — Deu de ombros. — Eu não sei viver sem isso.
— E eu sei viver sem você? — a voz dela vacilou. — Já não bastou ter te recebido de volta antes da hora? Você pensa em mim, às vezes?
O silêncio caiu. Na quietude, ouviram o estalo da chaleira desligando na cozinha. Reha pousou o jornal e olhou diretamente pra ela.
— Eu penso — disse mais suave. — Penso em você todos os dias. Mas eu também quero viver — encarou-a. — Não só aqui, nessa poltrona com o cobertor, mas lá fora, onde ainda posso ser útil. Você também tem suas paixões. Nosso mundo não precisa se limitar a esse casamento e a essa sala.
As lágrimas brilharam nos olhos de Gülçiçek, e ela virou o rosto para escondê-las.
— Então você já decidiu — disse, confusa, dando de ombros, como se sua opinião não valesse nada. — As crianças decidiram te dar alta. Você decidiu sozinho. Todos decidem por mim.
— Na juventude, eu também decidi errado — disse Reha em voz baixa, o olhar ficando sério. — Escolhi o trabalho em vez da vida. Mas desta vez é diferente. Eu escolhi você. Só que também vou continuar trabalhando.
Ele tentou sorrir, mas a tristeza não se escondia em seus olhos. Uma sombra do passado cruzou-lhe o rosto.
— Você me escolheu? — perguntou ela, virando-se, surpresa.
— Foi a única escolha certa — respondeu ele, ainda tenso, sem conseguir relaxar completamente.
Gülçiçek quis retrucar, mas apenas ajeitou a manta nos joelhos dele de novo, fazendo-o se afastar um pouco.
— Você tá me tratando como um fraco — resmungou ele, suspirando. As lembranças foram se dissipando, devolvendo-o à realidade. — Mas eu não sou fraco! — disse num tom quase infantil.
— Não — respondeu ela, com doçura. — Você é meu. — Sorriu de leve. — E foi você mesmo quem disse que me escolheu. E que foi a escolha certa.
Reha a olhou, e por um instante a tensão se dissolveu num sorriso — embora a tristeza ainda brilhasse no fundo dos olhos. Havia ali uma inquietação que se instalava como uma farpa entre o “mês de mel” em casa e o desejo dele de voltar ao trabalho. Recordações distantes voltaram, mas ele tentou se convencer de que agora tudo era diferente — que dessa vez encontraria o equilíbrio entre o hospital e a vida ao lado dela.
— Ainda assim, foi vergonhoso — comentou Gülçiçek, cruzando o olhar com o dele. — Aquele “praia improvisada”, todo mundo olhando, e por isso nos mandaram embora um dia antes!
— Nos mandaram embora porque eu estou me recuperando rápido — respondeu Reha, tranquilo, mudando de assunto com alívio. — Não por causa das suas toalhas, como se estivéssemos em Bodrum.
— Mais uma palavra e eu transformo esta sala em Bodrum — resmungou ela, mas o canto dos lábios denunciou um sorriso.
O silêncio se instalou novamente. O som do relógio de parede encheu o ambiente.
— Ainda não vimos a Bahar — disse Gülçiçek, quebrando o silêncio. — Ela correu pra UTI e sumiu. Você falou com o Ferdi? O que ele disse?
Reha franziu a testa e desviou o olhar para a janela.
— O Ferdi fala demais — respondeu, esquivo. — Sobre protocolos, pacientes… você o conhece.
— Reha... — a voz dela ficou desconfiada. — Você tá escondendo alguma coisa.
Reha suspirou e olhou pra ela.
— Meu amor — conseguiu sorrir, disfarçando a preocupação — nem tudo você precisa saber, querida. É só trabalho — disse, abrindo as mãos, tentando soar convincente.
— Você é forte — ela mudou o tom, percebendo que ele escondia algo, mas sem querer pressionar. — E eu pareço uma esposa mandona e superprotetora.
— Não — ele balançou a cabeça. — Você é quem me dá força. Só por sua causa eu quero continuar vivendo.
— Não, Reha — disse ela, inclinando-se para ele. — Eu só te faço meu, porque eu te amo.
Ele a olhou e sorriu sem querer, mesmo com a preocupação crescendo lá no fundo — algo o inquietava, algo começava a se mover, e ele sentia que era apenas o começo.
Gülçiçek se endireitou e foi até a cozinha. Voltou com a bandeja: ao lado da xícara de chá, repousavam alguns comprimidos.
— Um “mês de mel” desses eu certamente não prometi — murmurou Reha, vendo os remédios.
— Você prometeu ficar comigo — respondeu ela, serena, estendendo-lhe a xícara. — O resto, eu resolvo.
Ele suspirou e sorriu ao pegar o chá.
— Então ainda tô vivo, já que continuo discutindo com você — disse, fazendo careta ao pegar os comprimidos.
— E essa é a nossa verdade — retrucou ela, sorrindo. — Fica quieto. Eu te conheço: amanhã já vai querer correr pra sala de cirurgia, como se nada tivesse acontecido.
— Não me trata como inválido — resmungou ele. — Ainda não fui mandado pro arquivo.
— Você não é fraco — respondeu ela, doce. — Só quero, enfim, ter uma lua de mel. Mesmo que seja aqui, em casa.
Ele olhou para ela, e por um instante brilhou nos olhos a mesma centelha que ela vira na sala de fisioterapia.
— Lua de mel... em casa — repetiu ele, balançando a cabeça. — Bom, desde que o chá não esteja doce demais.
Ela lhe deu um leve empurrão no ombro. Ele fingiu se ofender, mas o sorriso o denunciou.
***
Evren não deixava transparecer o que se passava dentro dele. Não conseguia se livrar do pensamento — será que poderia ter salvo Ayşe? Será que poderia? — perguntava-se enquanto caminhava pelo corredor… e depois Yusuf… e as acusações de Kamil, o ataque dele contra Bahar. O coração de Evren batia em descompasso quando, batendo à porta e sem esperar resposta, entrou no consultório dela.
Pensou que Yusuf ainda estivesse com Bahar, mas ela estava sozinha. Bahar estava de pé junto à janela, abraçando a si mesma, olhando para longe. O fôlego dele falhou; cerrou os dentes e fechou a porta com força, fazendo-a se sobressaltar e se virar. Evren apoiou a mão contra a porta e a fitou. O rosto pálido, os olhos brilhando de raiva e confusão.
— Por quê? — perguntou ele, ríspido, fitando-a. — Por que você não me esperou, Bahar? Por que fez isso com a gente? — disparou, sem lhe dar tempo de respirar.
Por alguns segundos, ela apenas o olhou, sem entender aquele ataque.
— Evren… — começou, mas ele não a deixou falar.
— Você tem ideia do risco que correu?! — avançou em direção a ela; em seu olhar havia não só raiva, mas pânico. — Por que não me esperou?! — repetiu.
Bahar deu um passo para trás, encostando-se no parapeito da janela. Movia-se com calma, mas as mãos tremiam.
— Eu… — franziu o cenho, sem encontrar palavras; ele nunca havia se voltado contra ela assim.
Evren continuava se aproximando. Os olhos arregalados, a respiração pesada, como se tivesse corrido uma maratona.
— Bahar — levantou a mão, pronto para continuar, mas ao encontrar o olhar dela... estremeceu, calou-se por um instante. — Eu não consigo — disse mais baixo. — Não consigo quando você age como se nada importasse.
— Nada importasse? — Bahar se endireitou e o encarou. — Você tá falando sério?
— O que quer que eu pense? — a voz dele voltou a subir, agora mais cheia de dor que de raiva. — Quando chego, tudo já acabou. Você nem… — ele parou, sem conseguir terminar.
Bahar ficou imóvel. Inclinou levemente a cabeça, sem acreditar no que ouvira.
— Você não tem o direito de dizer isso! — os olhos dela brilharam. — Você não estava lá!
— Eu devia estar! — gritou Evren, aproximando-se mais. — Eu devia ter assumido tudo, não você! Eu devia estar ao seu lado, Bahar! Eu devia ter declarado o horário da morte! Era pra ter sido eu, entende?!
— Eu não tinha tempo pra esperar — respondeu ela, firme, cruzando os braços, como se erguesse uma barreira entre eles. — Eu não podia, Evren!
— Devia! — Evren bateu a palma da mão na mesa com tanta força que Bahar fechou os olhos por um segundo.
— Você não teria chegado a tempo — disse ela, fria.
— Você entende o que fez?! — Evren deu mais um passo, tão perto que ela se encostou ao vidro. — A primeira morte — sua voz falhou, o rosto se contorceu de dor — pode te quebrar.
— O que eu devia ter feito, Evren? — retrucou Bahar, irritada. — Ficar vendo ela morrer, esperando você chegar? Nesse caso, morreríamos as duas — ela e eu — de impotência!
Evren ficou em silêncio por um momento, os olhos se estreitando.
— Eu estava com a Esra! — respondeu, áspero. — Salvando não só a minha, mas a sua paciente, Bahar! Mas isso não quer dizer que você devia lutar sozinha!
— Eu estava fazendo o meu trabalho, Evren. Sou médica! — a voz dela tremia, tomada pelas emoções. — Você não vai estar sempre comigo!
— Foi a sua primeira morte! — a voz dele se quebrou. — Você vai se lembrar dela pro resto da vida. E me apavora pensar no que essa dor pode fazer com você. Ela vai ficar com você pra sempre.
— E o que queria que eu fizesse?! Ficar olhando, esperando você se desocupar? Assim eu perderia não só ela, mas a mim mesma!
— Você só pensa nela — explodiu ele. — E eu penso na gente! O que vai sobrar pra nós? O quê? — exigia. — E se agora você disser que não quer mais ter um filho? — as palavras o escaparam tão bruscamente que ela cambaleou.
Bahar segurou-se na janela, mas manteve-se de pé.
— De novo esse assunto?! — gritou ela, empurrando o peito dele. — Mesmo agora, com uma paciente morta, você só pensa em filho?! — as palavras dele a feriam.
— Porque eu tenho medo, Bahar — respondeu ele, aproximando-se ainda mais; ela não tinha mais pra onde recuar. — Medo de te perder, medo de você ir embora outra vez. Medo de Yusuf — ele hesitou, a voz embargada — medo de que, se ele for meu filho, você não queira mais nada disso.
Bahar engoliu em seco. Fitava-o, entendendo que ele não gritava por raiva — mas por medo.
— Eu não tenho medo por mim, Bahar. Tenho medo por você — disse ele, fechando os olhos por um instante. — E mais ainda... por nós. Se você disser que não consegue mais, que não aguenta a ideia de ter um filho depois disso — ele respirou fundo, trêmulo — eu não sei se vou suportar.
As palavras dele a deixaram paralisada. O silêncio no consultório se tornou ensurdecedor. Bahar cambaleou, e Evren a segurou, puxando-a para si. Sentiu o tremor do corpo dela e a envolveu nos braços.
— Bahar — murmurou, encostando o rosto no pescoço dela, percebendo que acabara de gritar com ela.
Evren apertou o abraço, impedindo-a de se afastar, de escapar.
— Foi a minha primeira morte — sussurrou ela. — A primeira, Evren… e você vem e grita comigo.
Ele fechou os olhos ao ouvir a dor e a confusão na voz dela. O coração se apertou — sentia a mesma dor que ela.
— Me perdoa... me perdoa, Bahar — sussurrou ele, segurando o rosto dela entre as mãos. — Eu não devia ter gritado. Eu só... fiquei com medo — confessou, a voz falhando. — O marido da paciente... ele... — Evren não terminou, calou-se.
Bahar fechou os olhos, os lábios tremendo.
— Eu também tô com medo — murmurou, quase inaudível, agarrando-se aos ombros dele.
Ele soltou um suspiro pesado. Ela o abraçou, encostando a cabeça em seu ombro, os olhos fechados. A outra mão dele deslizou por suas costas, tocando-lhe a nuca. Evren tinha medo de soltá-la, como se aquele abraço fosse o único fio que ainda os mantinha de pé.
— Você fez tudo o que podia, Bahar — murmurou ele, com o rosto escondido nos cabelos dela. — Eu tô aqui. Com você. Nunca mais vou te deixar. Você não tem culpa pela morte dela. Não é sua culpa.
Evren virou o rosto, a bochecha roçando a dela.
— Eu ainda me lembro dele — disse em voz baixa. — O nome era Reza. Tinha vinte e um anos. — Parou, como se por um instante voltasse àquela sala de cirurgia. — Era uma operação simples. Tudo corria bem, e de repente... o coração parou. Simplesmente não aguentou. Fizemos tudo: adrenalina, massagem, abrimos o tórax... — tossiu, limpando a garganta. — Eu segurei o coração dele nas minhas mãos. Ele ainda batia... e depois parou. — Evren apertou o abraço, falando devagar, relutante em reviver aquele dia. — Saí da sala sem conseguir respirar. As paredes pareciam me esmagar. Lembro do rosto da mãe dele... e de esconder as mãos, porque ainda tremiam. Lembro da sacola com as coisas dele... e do olhar dela, como se eu tivesse tirado todo o mundo dela, toda a luz. Eu não sabia o que dizer. Fiquei dois dias sem comer. Revi cada segundo da cirurgia, achando que tinha errado em algo... mas não, Bahar — ele respirou fundo, afastando-se só um pouco, fazendo-a encará-lo — às vezes não dá. Entende? Às vezes os pacientes morrem, mesmo quando fazemos tudo certo. — Seus lábios roçaram a têmpora dela. — Aquele foi o começo da minha contagem. Eu lembro da data até hoje — todo ano, como uma lâmina entre as costelas. — Ele parou, sem soltá-la. — Mas sabe... mesmo assim eu voltei pra sala de cirurgia. E você também vai voltar. Vai salvar outras vidas, custe o que custar. Senão, a morte do Reza e da sua paciente seria em vão. Entende? Isso não é o fim, Bahar. É só o começo.
Bahar soluçou. Os olhos marejados se esconderam no ombro dele.
— Depois vieram outros — continuou ele, a voz baixa, apertando-a mais. — Mas o primeiro... o primeiro nunca vai embora. Ele fica. — Beijou-lhe a têmpora. — Mas ele não destrói. Ele ensina, Bahar. Se você tá aqui agora, me segurando... é porque sobreviveu.
Bahar tremia nos braços dele — não mais de medo, mas porque permitiu a si mesma ouvir. Permitindo-se ser frágil, ali, com ele.
— Me perdoa — sussurrou Evren de novo. — Por ter gritado. Eu não gritei com você, gritei comigo. Foi o medo... eu fiquei apavorado. — A voz dele falhou. — Eu não sei ser diferente, quando se trata de você. Eu perco o controle quando é sobre você.
Ele ficou em silêncio, apenas a mantendo junto de si, acariciando-lhe as costas. Bahar respirava fundo, sem levantar o rosto. Os dedos dela amassavam o tecido do jaleco dele, como se fosse a única coisa que a sustentava.
— Tenho medo por você... por nós... e por ele também — murmurou ele. — Pelo Yusuf — quase sem fôlego ao pronunciar o nome.
Agora Yusuf era real. Não mais uma sombra distante — vivia com eles, respirava o mesmo ar. A mão dela encontrou a dele e a apertou.
— E se ele for seu? — perguntou, a voz trêmula. Já não tentava se afastar — apenas ficou ali, presa ao abraço dele.
— Então significa que já perdi muito tempo — disse Evren com amargura. — Se Yusuf for mesmo meu... — a voz soou rouca, como se temesse as próprias palavras. — O que acontece depois, Bahar?
O corpo dele ficou tenso, o abraço se fechou ainda mais. O coração batia forte, os ouvidos zumbiam. Ele esperava a resposta dela — e temia que uma só palavra destruísse o que ainda havia entre eles.
— Evren, por favor — sussurrou ela, balançando a cabeça. — Eu não tô fugindo da resposta... só não agora. Não é por não estar pronta — é porque agora não consigo pensar em mais nada. —
— E eu não sei como não perder você... e o Yusuf — continuou ele, rouco. — Não sei como segurar a gente se você me deixar... ou se... — ele não terminou.
Bahar afastou-se só um pouco, e ele deixou. Deixou que ela o olhasse nos olhos — que visse o medo dele — enquanto enfrentava a confusão e a incerteza nos olhos dela.
Ficaram ali, junto à janela, presos um ao outro, em silêncio. Nem perceberam o toque na porta — e só reagiram quando a voz de Ahu rompeu o ar:
— Professor — ofegou ela — o Dr. Serta Kaya está chamando o senhor com urgência. Bahar, seus pacientes já estão esperando. Ele mandou que eu te acompanhasse — disse de uma vez só, estendendo o prontuário.
Bahar ajeitou a gola do jaleco de Evren antes de se afastar lentamente de seus braços. Evren soltou-a com relutância e se virou para Ahu.
Ahu parecia diferente — como se, com a saída de Rengin, tivessem tirado dela algo essencial. Agora se movia de forma mecânica, as palavras soavam automáticas, ensaiadas.
— Evren — Bahar ainda o deteve, tocando o ombro dele. — Eu te amo — sussurrou, antes de pegar o prontuário das mãos de Ahu.
Ele respirou fundo. As palavras dela pareciam lhe devolver o chão — uma âncora, uma certeza.
— E eu também te amo — os lábios de Evren roçaram a bochecha dela.
Ahu esperava impaciente junto à porta, quase os apressando com o olhar. Evren assentiu e, a contragosto, afastou-se de Bahar. Ela o acompanhou com os olhos até ele sair, depois abriu o prontuário.
Paciente: 32 anos, Elif.
Cônjuge: 35 anos, Kerem.
Queixa: cinco abortos espontâneos entre 8 e 10 semanas.
— Posso entrar? — perguntou uma mulher de cabelos escuros e ondulados à porta. Atrás dela, um homem esperava.
— Claro, entrem — sorriu Bahar. — Por favor, sentem-se.
Elif ajeitou nervosamente a manga da blusa. Kerem a segurava pelo braço, como se temesse que ela desabasse.
— Eu li o prontuário de vocês — disse Bahar, com um sorriso suave, como se o turbilhão emocional de instantes atrás nunca tivesse existido. — Contem, com suas palavras, o que os trouxe até mim.
— Nós... queremos muito ter um filho, doutora — disse Elif, a voz vacilante. — A gravidez acontece, mas... sempre o mesmo fim. Na oitava ou nona semana, o sangramento começa... e tudo acaba. Já aconteceu cinco vezes.
Kerem abaixou o olhar, os punhos cerrados.
— Vocês fizeram todos os exames — continuou Bahar, folheando as páginas. — Cariótipo normal, hormônios dentro do esperado, útero anatômico sem alterações, tanto no ultrassom quanto na histeroscopia... trombofilias e anticorpos antifosfolipídios negativos. À primeira vista, está tudo perfeito.
— Mas eu perco o bebê toda vez... — sussurrou Elif.
Bahar franziu o cenho.
— Sim — respondeu, pensativa. — Os exames nos mostram um quadro, mas não nos dão o motivo. E é isso que precisamos descobrir.
— O que a senhora sugere? — perguntou Kerem, com um fio de esperança.
— Quero fazer uma investigação mais profunda — explicou Bahar. — Não porque o caso seja “sem explicação”, mas pra garantir que não deixemos passar nenhum detalhe. — A médica se concentrou completamente no caso, empurrando para longe as emoções pessoais.
— Por favor, doutora — assentiu Elif, comedida. — Faça o que for preciso. Você é nossa única esperança. Lemos sobre você... dizem que faz milagres.
Bahar ficou séria. O sorriso desapareceu; ela balançou a cabeça, como se recusasse o peso daquela fé.
— Eu vou pedir novos exames, mais detalhados — disse, anotando no prontuário. — Às vezes o corpo da mulher reage à gravidez como se fosse uma alergia — explicou. — O sistema imunológico não reconhece o embrião. É raro, mas acontece.
— Mas é o nosso filho — a voz de Elif soou fraca. — Como o corpo pode não reconhecer o próprio bebê?
— Porque, biologicamente, ele é meio seu e meio do seu marido. Metade do DNA é seu, metade é dele. E, às vezes, o sistema de defesa se confunde.
— Disseram pra gente — Elif olhou para Kerem, buscando apoio — e a gente leu na internet... que existe um tratamento antigo... em que a mulher “se acostuma” com as células do marido.
Bahar observou os dois com atenção. Percebeu que haviam pesquisado muito antes de chegar até ali.
— Você está falando da linfocitoimunoterapia? — perguntou, e ambos assentiram. — Esse método não é considerado tratamento padrão — suspirou Bahar. — Antigamente se usava, muitos anos atrás. Aplicavam linfócitos do marido pra reduzir o risco de rejeição imunológica e... — ela não terminou.
— Lemos — interrompeu Kerem — que alguns médicos ajudaram mulheres assim a levar a gestação até o fim. — Sua voz carregava esperança. — Chegaram até a enxertar um pedacinho da pele do marido sob a pele da esposa. Fizeram isso fora do país... e as crianças nasceram, cresceram, têm seus próprios filhos agora. Estamos dispostos a tudo!
— Sim... — Bahar franziu o cenho. — Naquela época a medicina ainda tentava entender o papel dos fatores imunológicos. Hoje, esse método é visto como experimental e não faz mais parte da prática clínica.
Elif e Kerem se entreolharam, as mãos apertadas sobre os joelhos.
— Estamos prontos pra tudo. Não importa o nome. Você é nossa última esperança — murmurou Elif. — Não temos outra chance de ser pais.
Bahar alternava o olhar entre os dois. Via neles desespero — mas também amor.
— Eu não prometo milagres — disse enfim. — Existem formas de ajudar o sistema imunológico a aceitar a gestação, mas é um caminho longo. Teremos que refazer exames — muito mais completos do que os dos centros particulares.
— Nos centros particulares não conseguiram nos ajudar. Por isso viemos pra cá, pra este hospital. Estamos prontos — disse Kerem, aliviado ao perceber que ela não os rejeitava. — Só não queremos ouvir de novo “caso inexplicável”.
— Vamos tentar achar uma explicação — respondeu Bahar. Ela não gostava da ideia de recorrer a métodos antigos, mas diante deles — uma história de fé e perda — não podia simplesmente recusar.
Fez anotações no prontuário, escondendo o fato de que, se o diagnóstico se confirmasse, o plano de tratamento teria que passar pelo comitê médico — e ela não tinha certeza se o comitê aprovaria, especialmente depois da saída de Rengin.
— Por enquanto, tentem não tirar conclusões pela internet — disse Bahar com um leve sorriso, levantando-se.
***
— Sente-se, professor Evren Yalçın — ordenou Serta Kaya, sem se levantar da cadeira.
Evren aproximou-se da mesa, observando as pilhas perfeitamente alinhadas de pastas na estante. Serta Kaya não o olhou — continuava escrevendo calmamente em seu bloco de notas.
— Quero que me conte em detalhes o que aconteceu no “ataque” contra a doutora Bahar Özden — disse com o mesmo tom neutro, sem levantar a cabeça.
— Não foi um ataque — respondeu Evren, franzindo o cenho ao se sentar à frente dele. — Foi uma reação emocional dos familiares da paciente. Isso acontece — forçou as palavras, sentindo-se fora de lugar.
— Acontece? — Serta ergueu os olhos. — Então o senhor considera normal que familiares de pacientes agridam nossos médicos na emergência ou no corredor da cirurgia? — o frio na voz dele cortava o ar.
— Considero anormal transformar uma tragédia em instrumento de pressão — rebateu Evren, seco.
— Pressão? — Serta sorriu pela primeira vez — um sorriso que mais parecia uma sombra. — Em quem, exatamente? — fez uma pausa. — Em você? — outra pausa breve. — Ou talvez na professora Rengin, que “perdeu o controle” da situação?
— Ela não teve culpa — disse Evren entre os dentes, percebendo o jogo de palavras.
— Quer defendê-la? — perguntou Serta, inclinando levemente a cabeça. — Ou está defendendo sua equipe? Pense bem — sugeriu, com voz mansa. — Uma coisa exclui a outra. — Recostou-se na cadeira. — Porque, se você se cala, deixa Bahar Özden e toda a equipe desprotegidos. Mas se falar... o golpe cai sobre Rengin. Então, de que lado você está?
Serta pousou a caneta, fechou o bloco, olhou o relógio de pulso e retomou:
— Hoje é a audiência do seu irmão — disse pausadamente. — Cem. — Soou quase como um lembrete. — Uma história desagradável... nomes demais envolvidos, professor. Nomes de peso. — Outra pausa. — O senhor é um homem inteligente. Sabe que lealdade é o que abre portas... quando a verdade não serve pra nada.
— Está me pedindo pra fechar os olhos? — perguntou Evren, erguendo o queixo, o olhar firme.
— Estou pedindo pra abri-los mais — respondeu Serta, calmo. — Pra enxergar como o mundo realmente funciona. — Apoiou as mãos na mesa. — Quero que ocupe uma posição de onde possa influenciar os acontecimentos. O senhor já recusou um cargo uma vez — lembre-se — a favor de Timur Yavuzoğlu.
Evren engoliu em seco. Sentia o laço apertar em volta do pescoço.
— Professor, o hospital está à beira do colapso — continuou Serta, inclinando-se um pouco à frente, os dedos entrelaçados. — Familiares atacam médicos, a direção perdeu o controle. Precisamos de alguém em quem confiem. Alguém que saiba manter a equipe unida — e os pacientes também.
Evren enrijeceu, captando de imediato o subtexto.
— Não quero ver o caos se repetir dentro deste hospital — disse Serta, tirando uma folha da pasta. Leu-a com atenção, assinou com um gesto firme e ergueu o documento. — A partir de agora, o senhor é o novo diretor interino — entregou o papel assinado. — Assume na segunda-feira.
— O quê? — Evren ficou atônito. — Isso não é pra mim — reagiu imediatamente. — Eu sou cirurgião. Meu trabalho é salvar vidas na mesa de operação.
— Claro — concordou Serta, quase gentil. — E é justamente por isso que o respeitam. Acreditam em você. Mesmo quem discorda, no momento crítico, segue o seu comando. Isso vale ouro. — A voz dele se manteve serena. — E já que disse que agressões a médicos são inaceitáveis... quem deve resolver isso? Os pacientes? Os familiares? Ou o senhor, professor?
Evren permaneceu em silêncio, o maxilar contraído.
— Viu? — Serta inclinou a cabeça, satisfeito. — O próprio senhor reconhece: é preciso alguém que assuma a responsabilidade.
Evren balançou a cabeça, os dentes cerrados, tentando se conter.
— Parabéns — disse Serta, ainda segurando a nomeação. — E aqui vão as primeiras diretrizes: todas as cirurgias — estritamente conforme o protocolo. Qualquer desvio — o cirurgião é afastado. Relatórios, registros, indicadores — tudo na minha mesa, diariamente. — Falava sem hesitação, como quem já não esperava objeção.
— O senhor não tem esse direito — Evren se levantou bruscamente.
— Tenho — respondeu Serta, categórico. — Enquanto o senhor pensa, eu ajo. Seu nome, professor Yalçın, será o rosto deste hospital. Já lhe disse isso. — A voz continuava fria, impessoal. — Quer salvar vidas? Salve. Mas agora, dentro das minhas regras.
Evren ficou parado diante dele, lutando para conter a raiva. Sabia que, embora o cargo fosse um reconhecimento, naquele momento era uma armadilha — um nó apertado, limitando todos os seus movimentos.
— O senhor não tem escolha, professor Yalçın — concluiu Serta Kaya, com polidez gelada.
Evren o encarou, sentindo o sangue ferver. O título de “diretor interino” podia soar como vitória — mas cada palavra de Serta fazia o peso daquela honra se transformar numa forca.
Com um breve aceno de cabeça, Serta encerrou a conversa. Evren saiu devagar do gabinete, com a sensação de que as paredes do hospital começavam a se fechar sobre ele.

CAPÍTULO 9. PARTE 2

A luz do monitor iluminava não apenas o rosto dela, mas também a parede do gabinete. Bahar girou a rodinha do mouse. Sobre a mesa, uma xícara de chá frio. Fitando a tela, lia os resultados eletrônicos dos primeiros exames e fazia anotações no caderno. Esfregou os olhos, exausta, e tomou um gole do chá — fez uma leve careta. Colocou a xícara de volta, intrigada com o gosto estranho, mas o pensamento passou rápido, sem deixar rastro. Já tinha aberto o navegador e digitado uma nova busca. Bahar rolava as publicações, voltando a anotar algo com o lápis.
— Cariótipo normal. Anatomia sem anomalias — murmurou, tentando montar o quebra-cabeça. — Hormônios dentro dos limites... sem anticorpos... — olhou para suas anotações.
Traçou uma linha sob a última frase e ficou imóvel. O olhar desceu lentamente pela coluna de dados:
— Mas a atividade das células NK está acima do normal... e os T-reguladores não estão dando conta — a voz tremeu. — O sistema imunológico está atacando o embrião como se fosse um inimigo — endireitou-se um pouco na cadeira, girando o lápis entre os dedos. — É um erro da imunidade. O corpo se recusa a aceitar o bebê — disse em voz alta, ainda sem conseguir acreditar.
Bahar voltou ao navegador, digitou outra busca. Na tela, começaram a surgir títulos de artigos médicos.
— Incompatibilidade HLA entre os cônjuges... variantes KIR... — folheava as publicações rapidamente. — LIT, Intralipid, IVIG... — enumerava, mordendo o lábio. — Tudo controverso. Tudo fora dos padrões.
Pegou um post-it, colou no caderno e escreveu: “Hipótese: Conflito imunológico”.
Escrevendo isso, Bahar recostou-se na cadeira e fechou os olhos.
— Esses métodos não são autorizados aqui — murmurou sem abrir os olhos. — Não existe protocolo. Não haverá financiamento. Só risco.
Levantou-se e foi até a janela. Observava a cidade além do vidro, e parecia que ela respirava suas dúvidas.
— Mas se eu estiver certa... se o sistema imunológico realmente estiver enganado... — sussurrou — então ainda há uma chance. Elif e Kerem podem ter um filho.
Voltando à mesa, apoiou as mãos sobre ela e encarou as impressões, os resultados dos exames, as anotações no caderno.
— Só posso registrar isso como um experimento, uma pesquisa científica. Precisa passar pelo comitê de ética, com termo de consentimento informado... — começou a enumerar, como se já estivesse traçando um plano de ação para não se permitir hesitar mais. — Triagem, esterilidade, protocolo. Tudo conforme as regras. E ainda assim... um passo além do limite.
Sentando-se novamente, escreveu rapidamente no caderno uma lista:
Conselho clínico.
Comitê de Ética.
Consentimento informado.
Protocolo de observação.
Colocou um ponto final e olhou para o plano quase completo.
— Vão chamar isso de loucura — suspirou. — Mas talvez seja isso a fé — não em milagres, e sim na ciência.
Quanto mais pensava, mais firme ficava o olhar — como se o enigma começasse a se render a ela. Bahar fixou os olhos no monitor.
Mal podia esperar para discutir o caso com o diretor do hospital, e franziu a testa — quem era o diretor agora?
— Rengin — Bahar levantou-se de repente.
Percebia que, enquanto o dia ainda não havia terminado, podia resolver essa questão com ela, enquanto ainda era a administradora em exercício.
— Talvez isso não seja um milagre — sussurrou Bahar, colocando os documentos impressos no prontuário de Elif. — Vou definir a estratégia certa e, se for mesmo um erro do sistema imunológico, poderemos agir e... — fechou a pasta e caminhou até a porta — vou precisar da ajuda de especialistas...
***
Ela não precisou de ajuda para juntar suas coisas. Do lado de fora, o sol já começava a se pôr. Sobre a mesa, uma xícara de café quente soltava vapor. O entardecer reivindicava seu espaço, tingindo a cidade de tons dourados. Rengin estava junto à janela, olhando para longe. Parecia querer guardar aquela paisagem na memória, mas o peso dos acontecimentos se abatia sobre seus ombros delicados, obrigando-a a se curvar levemente.
— Posso entrar? — Bahar apareceu à porta.
— Claro, — Rengin endireitou-se imediatamente, conseguiu até sorrir, e sua voz soou firme.
— Como você está? — perguntou Bahar, aproximando-se.
— Já a notícia correu por todo o hospital? — retrucou Rengin. — Aqui as fofocas circulam mais rápido do que os resultados dos exames.
— Você é uma ótima médica, Rengin, — Bahar tocou a mão dela. — Ninguém tem o direito de duvidar disso.
— Ser uma boa médica e ser a diretora não são a mesma coisa, — respondeu Rengin com um sorriso cansado. — Às vezes, uma coisa atrapalha a outra.
— Pode ser, — Bahar sentou-se no braço do sofá. — Mas sem você o hospital perde o equilíbrio. E não pense que está tudo decidido. É só questão de tempo até você recuperar o seu cargo. Esse lugar é seu.
Rengin apenas deu de ombros e sentou-se no parapeito da janela, em frente a ela.
— Olha, — disse Bahar, — o fim de semana está chegando. Todos nós precisamos respirar um pouco. Vai lá em casa, — convidou.
Bahar conseguiu arrancar mais do que um sorriso de Rengin — ela a fez rir.
— Já não basta a quantidade de gente que mora na sua casa? — perguntou, ainda sorrindo. — Uraz, Siren, os netos, Nevra, Evren, Yusuf, as meninas... e se Reha e Gülçiçek resolverem aparecer também? Ah, e você ainda chamou a Çağla, — lembrou. — O que está planejando? Uma conferência? Ou talvez um casamento coletivo? — brincou Rengin.
— Ai, — Bahar se enrijeceu na hora. — Não brinca com isso, é tudo que me faltava agora, — suspirou. — Não estou te convidando pra morar lá, só pra visitar, — mudou o tom rapidamente. — Um fim de semana sem jalecos, sem hospital, sem essas paredes. O tempo está ótimo, tem piscina... podemos cozinhar alguma coisa.
Rengin abaixou a cabeça, e o sorriso desapareceu, mas Bahar percebeu que a tristeza e o cansaço em seus olhos continuavam lá.
— E o Yusuf? — perguntou Rengin, recostando-se no vidro, arrependida da piada. — Como ele está? Você falou com ele?
— Ainda não sei, — Bahar desviou o olhar para os prédios ao longe. — Ele está confuso, com raiva, magoado.
— E o Evren, como reagiu? — quis saber Rengin.
Bahar balançou a cabeça:
— Nem me pergunte, — sussurrou. — Todos sabemos que no fim vai ser o teste de DNA, mas ainda é cedo pra tocar nesse assunto. Está todo mundo à flor da pele. — Suspirou e lhe entregou um prontuário. — Escuta, queria tua opinião. Casal, 35 e 38 anos, cinco abortos consecutivos. À primeira vista, tudo normal.
Rengin pegou o prontuário e começou a folhear.
— Já tem os primeiros resultados dos exames? — perguntou, lendo os dados.
— Só os preliminares. Atividade das NK aumentada, células T reguladoras abaixo do normal. Compatibilidade HLA com o marido suspeitosamente baixa. Se confirmar, é conflito imunológico, — disse Bahar, respirando fundo.
Rengin franziu o cenho e levantou o olhar.
— Isso quer dizer que os abortos recorrentes são resultado de rejeição imunológica, — disse, agora muito séria. — Você tem noção do que está se metendo, se o diagnóstico se confirmar?
— Tenho. Eles vão precisar de imunoterapia, — assentiu Bahar. — Talvez Intralipid ou IVIG, — suspirou antes de continuar. — E se não for suficiente, teremos que considerar a linfocitoimunoterapia.
Rengin começou a andar de um lado para o outro, pensativa.
— Isso já é outro nível, — disse, segurando o prontuário aberto. — Vai precisar de autorização do comitê de ética. Protocolo, consentimento informado, triagem do marido pra infecções, um plano de acompanhamento separado. Sem isso, nada pode ser feito. E mesmo assim, só poderemos registrar como experimento. Não sei se o comitê vai aprovar.
— Eu sei, — Bahar aproximou-se. — Mas se o diagnóstico se confirmar, não há outra saída pra esse casal. Podemos observar, ter compaixão... mas não ajudar.
— Você tem certeza de que está pronta pra isso? — perguntou Rengin. — Vai precisar preparar tudo com perfeição. E além da papelada, — ela fechou o prontuário, — vai precisar de um co-investigador. Nenhum médico pode conduzir uma terapia experimental sozinho.
— Sim, — concordou Bahar. — Eu sei. Vou precisar de um bom especialista.
— Esses métodos não são usados na Turquia há mais de trinta anos — nem no mundo, — refletiu Rengin. — Sim, houve pesquisas... há uns quarenta anos... — de repente parou e retomou: — Espera. — Colocou o prontuário sobre a mesa. — Tenho certeza que já vi algo sobre isso.
De pé, abriu o navegador e começou a clicar nas abas.
— Eu vi, sim, vi alguma coisa quando procurava ideias de atividades pro professor Reha e sobre experimentos antigos... — olhou para Bahar. — Se tudo der certo, — sorriu levemente, — você já tem uma equipe. Ele e os alunos. Só vai precisar de especialistas na área — e isso, sim, vai ter que buscar fora do país. Ah, aqui! — virou o notebook para Bahar. — Olha.
Bahar aproximou-se, colocou os óculos e leu o título na tela: “Quando o corpo rejeita seu próprio filho.” Ficou paralisada por um instante.
— Não, — murmurou. — Nunca mais rejeitaremos ninguém.
— Autora: Meryem Özkan, artigo de 1980, — continuou Rengin. — É história já. Quem fez o upload, ninguém sabe. Talvez nem importe, — comentou distraidamente. — O fato é que Meryem Özkan vivia em Istambul e conduzia experimentos.
— Ela ainda está viva? Quantos anos teria? Onde está agora? — Bahar olhou atentamente para a tela. — Por que esse artigo não apareceu quando pesquisei no meu gabinete? — disse, surpresa. — O ponto é outro, Rengin: essas crianças nasceram. Elas cresceram, tiveram filhos. Então o método funciona — mesmo que o mundo tenha decidido abandoná-lo.
Elas estavam frente a frente, apoiadas nas mãos sobre a mesa, fitando-se em silêncio.
— Me diz uma coisa, — rompeu o silêncio Bahar. — Você está me ajudando agora só porque foi afastada? Ou pra causar problemas ao novo diretor?
Rengin sorriu de canto, mas seus olhos continuaram tristes.
— Sabe, — endireitou-se, — eu sempre discuti com vocês quando vinham com esses métodos fora do padrão... mas o paradoxo é que eu sempre estive do lado de vocês. E, no fim, vocês sempre conseguiam. Eu me alegrava de verdade com o que faziam, mesmo dizendo e fazendo o contrário.
Bahar se endireitou também e ergueu o rosto em direção ao teto.
— Só não hoje... — murmurou.
Rengin deu a volta na mesa e a abraçou.
— Você fez tudo o que podia, não se culpe, — disse com calma. — Agora tem um novo caso, interessante, diferente. E vai dar conta, tenho certeza.
— Acha mesmo? — a voz de Bahar saiu rouca, embargada.
— A vida continua, Bahar. Não deu certo com Ayşe, mas não foi culpa sua. Vai dar certo com... — ela hesitou, olhando para Bahar.
— Elif, — completou Bahar num sussurro.
— Vai dar certo com Elif, — confirmou Rengin, afastando-se e pegando o celular.
— Pra quem está ligando? — Bahar perguntou, desconfiada.
— Pro nosso professor Reha, — respondeu Rengin, sorrindo. — Primeiro pra saber se ele está aproveitando o descanso em casa, e segundo pra perguntar se sabe alguma coisa sobre Meryem Özkan. Aposto que sim — talvez até a tenha conhecido, afinal, ele começou a carreira naquela época. — Olhou para Bahar. — Acho que a tua abordagem pode realmente ajudar a paciente.
Bahar soltou um suspiro forte. Mesmo afastada do cargo, Rengin ainda encontrava energia pra agir como chefe — e era o último dia dela no posto.
— Professor Reha! Espero não estar interrompendo sua meditação... ou os coquetéis na poltrona de massagem, — disse com um riso, piscando pra Bahar.
Bahar revirou os olhos e abanou-se com as mãos.
— Mais fácil interromper meu copo de aspirina, — respondeu Reha, rindo. — Meu novo diagnóstico é “chefite crônica”. — Olhou de lado para Gülçiçek, que acabava de aparecer na porta da sala. — Aconteceu alguma coisa, Rengin? — perguntou, mesmo sob o olhar severo da esposa.
Gülçiçek cruzou os braços, encarando-o com aquele olhar que dispensava palavras.
— Só queria saber se o senhor sobreviveu à aventura na praia, — disse Rengin, cutucando Bahar de leve com o cotovelo.
Bahar ergueu as mãos em rendição, mas o sorriso voltou ao rosto.
— Ah, é sobre isso, — Reha relaxou. — Acho que posso reclamar só que a areia estava quente demais... Mas estou vivo, quase saudável, e prometo que não vou mais discutir com as ondas.
Gülçiçek bufou e balançou a cabeça, sem sair de perto — claramente queria ouvir tudo.
No escritório de Rengin, Bahar desabou no sofá, observando-a atentamente. Rengin sentou-se ao lado, mantendo o celular no viva-voz.
— Que bom, — comentou com uma risada contida. — Então agora o segundo assunto. É sério. — Fez uma pausa. — O senhor sabe algo sobre a doutora Meryem Özkan?
A expressão de Reha mudou instantaneamente. Ele cambaleou levemente ao lado da janela. Gülçiçek franziu o cenho e se aproximou, examinando o rosto dele em silêncio, tentando entender o que havia por trás daquela reação.
— Professor? — Rengin o chamou novamente.
— Por que está perguntando isso? — a voz de Reha ficou grave. Ele afrouxou o colarinho, como se o ar tivesse ficado pesado.
Gülçiçek tocou-lhe o braço, e ele desviou o olhar, evitando os olhos dela.
— Porque Bahar está estudando conflitos imunológicos relacionados à infertilidade, — explicou Rengin. — E encontramos uma publicação antiga, dos anos 80. A autora é Meryem Özkan. O senhor já trabalhava naquela época, não é?
Reha pigarreou, tentando ganhar tempo. O som da respiração dele ficou mais pesado, como se precisasse reunir coragem para continuar.
— Reha, — chamou Gülçiçek, num tom baixo, encostando nele.
— Sim... foi um caso muito comentado, — disse enfim. — A paciente morreu. O escândalo foi enorme. Ela precisou deixar o país às pressas. — O olhar dele ficou distante. — Nunca mais voltou.
Rengin arqueou as sobrancelhas, surpresa. Bahar franziu a testa.
— Onde ela está agora? — perguntou Rengin.
— Mora nos Estados Unidos, — respondeu rápido demais, o que fez Gülçiçek encará-lo, confusa.
Ela abriu as mãos, sem entender a reação do marido — aquele ar pálido, perturbado — e claramente não gostou do que via.
— Então ela está viva, — murmurou Bahar quase sem voz.
— Então ainda podemos contatá-la, — completou Rengin.
— Rengin... — Reha desabotoou mais o colarinho, tentando respirar com calma, embora o coração parecesse bater alto demais. — Você está falando sério em recriar os protocolos dela? — perguntou. — Esses experimentos não foram apenas esquecidos... foram apagados da história.
— Vamos agir com cautela, — garantiu Rengin. — E o senhor vai estar conosco, se o comitê aprovar.
— Quer dizer que Ismail vai autorizar tudo isso? — a incredulidade na voz de Reha foi imediata.
Agora, Rengin e Bahar se entreolharam, ambas surpresas. A pergunta do professor as deixara desconcertadas.
— Quer dizer que o senhor Ismail conhece Meryem Özkan? — perguntou Rengin com cuidado, apertando a mão de Bahar.
Reha pareceu não ouvir a pergunta.
— E ela... ela vai voltar? — murmurou, enxugando o suor da testa.
— Ainda não sabemos, — respondeu Rengin, balançando a cabeça, sem entender nada.
Reha murmurou algo ininteligível e encerrou a chamada.
— Você está branco como um lençol, — repreendeu Gülçiçek. — E foi só um telefonema, Reha. — Fitou-o com firmeza. — Quem é essa mulher?
— Só uma velha história, — tentou desconversar, mas a respiração irregular o denunciava. — Daquelas que não precisam ser revividas.
Gülçiçek aproximou-se um pouco mais, ficando na mesma altura que ele.
— Você fala como quem tenta esconder alguma coisa, — observou, e ficou em silêncio.
Desta vez, foi Reha quem permaneceu mudo.
— Não se atormente, Reha, — disse ela por fim. — Ninguém precisa que fantasmas antigos voltem a aparecer.
Reha tirou os óculos e esfregou os olhos. Voltou-se para a janela e não respondeu. Gülçiçek quase pousou a mão no ombro dele, mas hesitou. Ficou alguns segundos ao lado e depois saiu, deixando-o sozinho na sala.
— Ele claramente sabe mais do que contou, — disse Rengin, franzindo o nariz e virando a cabeça. — Que cheiro é esse?
— Não sinto nada, — respondeu Bahar, levantando-se. Foi até a mesa, serviu-se de um copo d’água e bebeu. — Estranho... — pousou o copo e fez uma pausa, notando um gosto metálico na boca. — Ele não pode ter sido o único a conhecer Meryem Özkan.
Rengin já se aproximava da janela, abrindo-a para respirar o ar fresco.
— Entenda, Bahar, Meryem Özkan já faz parte da história, — disse. — O fato de o professor Reha e os alunos participarem é ótimo, mas o comitê será extremamente cauteloso. Depois do ciclo de transplantes, eles não assinam nada sem garantias.
— Eu vou preparar tudo, — Bahar se colocou ao lado dela. — Publicações, estatísticas, revisões — tudo o que nos der uma base sólida.
— Inclua um item sobre supervisão ética, — lembrou Rengin. — Cada intervenção deve ser registrada.
Bahar abriu o caderno e fez as anotações.
— Bahar, — disse Rengin olhando pela janela, — você sabe que, a partir de amanhã, eu já não vou poder ajudar. — A voz dela ficou mais baixa.
— Eu sei, — respondeu Bahar, abraçando-a. — Entendo.
— Sert Kaya não vai aprovar nenhum protocolo fora do padrão. Tudo que for diferente, ele vai encerrar. — Rengin suspirou.
— Então preciso resolver tudo hoje, — disse Bahar com firmeza.
— Hoje, no máximo. Envie a solicitação, monte o parecer preliminar e encaminhe ao comitê. — Apesar do tom profissional, a voz de Rengin deixava transparecer uma ponta de amargura. — Mesmo que não aprovem agora, o processo já vai estar registrado. Ele não poderá simplesmente apagá-lo.
— Certo, — Bahar ainda a abraçava. — Você é meu ponto de referência, sabia?
— Nada de drama, — pediu Rengin. — Continuo sendo médica, só não terei mais o cargo.
— Às vezes, o silêncio é o jeito mais forte de continuar, — Bahar sorriu.
— Se conseguir entregar os documentos até o fim do dia, eu assino, — disse Rengin, com ternura. — Será meu último ato como diretora. Mas lembre-se, — apertou a mão dela, — se algo der errado, ninguém poderá te proteger.
— Eu sei, — Bahar assentiu. — Mas se tudo correr bem, esse casal vai ter um filho. E isso vale qualquer assinatura. — Olhou-a nos olhos. — E, pra mim, você continuará sendo a diretora.
Dessa vez, Rengin não conseguiu esconder — lágrimas brilharam em seus olhos. As duas ficaram em silêncio, olhando-se. Então, quase ao mesmo tempo, voltaram-se para a janela, ainda de mãos dadas… até que Bahar franziu a testa.
— Espera... — disse, aproximando-se do vidro. — Aquilo é o Cem?
Rengin estreitou os olhos. Perto do banco, realmente estava Cem. E, diante delas, Parla se aproximava dele. As duas trocaram um olhar.
— É o que eu estou pensando? — sussurrou Rengin.
— Parece que sim, — respondeu Bahar.
— Então temos um novo motivo pra dor de cabeça, — Rengin se virou e foi em direção à porta.
Bahar agarrou o prontuário de Elif e a seguiu apressada...
***
Parla não tinha pressa. Caminhava devagar até ele. Cem estava encostado no banco, girando uma isqueira entre os dedos — clique, chama; clique, nada.
— Cem... — chamou ela, em voz baixa.
— Veio ver minha queda? — ele não se virou.
— Não, — respondeu ela, balançando a cabeça. — Vim porque sinto muito. E porque quero te apoiar.
— Sente muito? — ele soltou uma risada amarga. — Não precisa sentir pena de mim, Parla. Já tive pena suficiente — e depois, o abandono.
— Foi você quem escolheu tudo isso, — disse ela com calma. — Ninguém decidiu por você.
— Ah, claro! — ele se virou bruscamente. — Todo mundo agora é sábio, todo mundo sabe como eu devia viver, o que devia fazer! — explodiu, a voz carregada de raiva.
— Eu não sou sua inimiga, Cem, — Parla não se deixou intimidar. Deu um passo à frente. — Só não quero que fique sozinho.
— Sozinho? — ele riu de novo, um riso seco, quase cruel. — Então você veio me salvar. Um anjo que ainda acha que pode consertar o que sobrou.
— Eu não sou anjo nenhum, — disse ela, pela primeira vez deixando transparecer o cansaço. — E você também não é um garoto perdido, Cem. Já passou da hora de parar de agir como se o mundo te devesse alguma coisa.
Cem estremeceu. Guardou a isqueira no bolso.
— É que tudo está desmoronando rápido demais... — murmurou, e a arrogância desapareceu da voz.
— Parla! — A voz de Rengin a fez se afastar. Ela se aproximou e segurou sua mão. — Vamos.
Parla quis protestar, mas Rengin não lhe deu chance — simplesmente a levou consigo.
Bahar parou diante de Cem. Seus olhares se encontraram. Ele abriu a boca para falar, mas ela se adiantou:
— Está tudo bem? — perguntou.
Evren chegou correndo, ofegante.
— Cem, — colocou-se à frente de Bahar, protegendo-a instintivamente. — Vamos.
— Evren? — Bahar murmurou, surpresa.
— Depois, — respondeu ele, seco. — A gente fala depois, Bahar.
Os dedos de Evren apertaram o braço de Cem, conduzindo-o em direção ao hospital — como quem leva alguém para cumprir uma sentença. Cem ficou em silêncio. Evren também. Bahar os seguiu com o olhar, percebendo que nada dali em diante seria simples...
***
Ele sabia que explicar aquilo para a filha seria quase impossível — mas o silêncio nunca fora o seu jeito. Serhat entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Quando olhou para a filha, suas pernas vacilaram; apoiou a mão na parede. Por mais que tentasse se convencer do contrário, a visão dos soros, das agulhas e da pele pálida de Esra o apavorava. A mesma cena, anos a fio — só que agora era diferente. Ela estava grávida. Uma menina. Sua neta. A filha da sua filha. Mais algumas semanas e... ele afastou o pensamento, temendo que essas semanas talvez não chegassem. Respirou fundo, endireitou-se e se aproximou da cama. Tentou um meio sorriso — mas o olhar o denunciava.
— Pai? — Esra se ergueu um pouco sobre os travesseiros.
Serhat imediatamente foi até ela, ajeitou o cobertor, verificou o soro. Baixou a cabeça, incapaz de esconder a dor que sentia ao ver a agulha em sua veia. Tantas vezes vira essa imagem — mas hoje tudo parecia diferente, mais cruel.
— Estou aqui, — a voz dele falhou. Sentou-se à beira da cama, quase encostando a cabeça em seu peito, só para sentir o coração dela batendo — fraco, mas vivo. — Está tudo bem... — murmurou, encostando a testa na mão dela.
— Você está estranho hoje, — disse Esra, passando os dedos pelos cabelos dele. — Aconteceu alguma coisa?
Ele estremeceu, mas não levantou o rosto. Tudo dentro dele estava em alerta — podia até ouvir o gotejar do soro.
— Esra... preciso te contar uma coisa, — sussurrou.
— Pai, está me assustando, — ela respondeu, preocupada.
— Não precisa ter medo, — Serhat ergueu o olhar. — Só que... a verdade sempre chega na hora errada.
— Verdade? — repetiu Esra. — Que verdade é essa que “chega”?
Ele segurou a mão dela.
— Pode ser que... você tenha um irmão.
— O quê? — ela piscou, sem entender.
— Isso foi antes da sua mãe, — ele abaixou a cabeça. — A diferença entre vocês é menor que um ano. Eu e o Evren tínhamos uma amiga... e acabou que os dois nos envolvemos com ela. Ela engravidou, mas só descobrimos agora. — Serhat respirou fundo. — Não justifica nada — nem o que eu fiz, nem o que ele fez. Sabíamos da gravidez, mas nenhum de nós soube quem era o pai.
— Pai... — Esra balançou a cabeça, incrédula.
— Talvez nem ela soubesse. Disse pra mim que o pai era o Evren... e pra ele, que era eu. — Fechou os olhos e soltou o ar, como se isso aliviasse — mas não aliviou.
Esra levou a mão à boca, olhando para ele, abalada.
— Está me julgando? — perguntou ele, com um aceno resignado. — Você tem razão...
— Não, — disse Esra, a voz trêmula. — Ela disse isso porque nem você, nem o professor Evren estavam prontos pra assumir uma criança. — Um leve sorriso apareceu em seus lábios, e sua mão desceu até a barriga. — Ela só deixou vocês irem, pai. E vocês aceitaram, porque era mais fácil. Essa é a verdade amarga: às vezes as mulheres escolhem simplesmente o filho.
Serhat a olhou com surpresa — e percebeu o quanto sua filha havia amadurecido.
— Achei que tudo isso tivesse ficado no passado, — engoliu em seco. — Que nunca voltaria. Mas agora... — calou-se, sem conseguir continuar.
— Quem é ele? — perguntou Esra, sem rodeios. — E por que justo agora?
— Yusuf. Você deve tê-lo visto — ele trabalha aqui no hospital, é assistente. — Serhat levantou-se e foi até a janela. — Ele também não sabe quem é o pai. Ninguém sabe. E a mãe dele já morreu. Tenho tanta vergonha... — apoiou a cabeça nas mãos. — Vergonha diante de você, diante dele. Não por ter sido jovem — mas porque agora dói. Dói em mim, em você... e nele. — Passou a mão no rosto.
— Não, pai... — os olhos de Esra brilharam de lágrimas. — Quem está sofrendo é você. Eu vejo.
— E eu tenho medo, — confessou ele, virando-se. — Medo de que, se for verdade que ele é seu irmão... meu filho... isso destrua em você a vontade de lutar pela vida. — Uma lágrima rolou, e ele a enxugou depressa. — Tenho muito medo disso.
— Pai, eu não vou desistir, — sussurrou Esra. — Eu vou ter uma filha, e quero viver. Quero muito. Se eu tiver um irmão, vai ser uma alegria — pra mim e pra ela. E você... — estendeu a mão, e ele se aproximou, apertando seus dedos. — Você vai ser um bom pai pra ele. É o melhor pai que alguém pode ter — ele só não sabe disso ainda. Sim, você teme me perder, mas não precisa temer ganhar um filho. Ele não tem culpa de ter nascido. Veja como um presente, pai. E tudo vai se ajeitar.
Serhat inclinou-se e beijou-lhe a testa. Ela fechou os olhos. Ele ainda segurava sua mão, sentindo o pulso dela enfraquecer um pouco, depois retomar o ritmo. Estava tão acostumado a esse som — a respiração dela, o sono frágil, o coração insistente — e rezava em silêncio para continuar vendo aquele sorriso por muito tempo ainda...
***
Rengin enviou a filha para seu consultório e seguiu em direção à sala de conferências. Normalmente, aquele era um espaço de debates clínicos, assinaturas de documentos e discussões sobre artigos científicos. Mas naquele dia o ar parecia denso, pesado, eletrizado — carregado por um pressentimento estranho.
Entrou, fechando a porta atrás de si. Carregava uma pasta nas mãos. Aproximou-se e sentou-se à cabeceira da mesa, ao lado de Sert Kaya. Estava ereta, mas a tensão em seus ombros era evidente. No olhar, vigilância e cautela.
Evren estava sentado ao lado de Bahar, na mesa lateral à esquerda. Em frente, do outro lado do plenário, estavam o advogado do hospital e Ahu, secretária da comissão. No centro, diante da mesa, uma cadeira solitária — a de Cem. Ele estava sentado ali, braços cruzados, olhando diretamente para Sert Kaya, o homem de terno impecável.
Rengin olhou para Ahu, que se levantou:
— Declaro aberta a sessão da comissão interna para apurar o vazamento de dados do bloco cirúrgico, — anunciou, ligando o gravador.
Rengin assentiu, encorajando-a discretamente, e Ahu voltou a se sentar.
— O objetivo da comissão, — continuou Rengin, abrindo a pasta, — é determinar a natureza do ocorrido, avaliar o grau de responsabilidade e estabelecer medidas preventivas para evitar novos incidentes. — Falava de forma clara, objetiva, sem floreios. — O conselho decidiu pela investigação interna a fim de preservar a reputação do hospital e garantir a segurança dos dados dos pacientes.
— Excelente formulação, professora, — interrompeu Sert Kaya, sem esconder o sarcasmo. Virou-se levemente para ela, num gesto que imitava respeito. — Apesar de a polícia já ter se interessado pelo caso, a senhora conseguiu convencer o conselho de que um controle interno seria mais eficaz que uma investigação oficial? — encostou-se na cadeira, enfatizando cada palavra. — Isso é o que eu chamo de talento.
— Estamos agindo conforme o regulamento, — respondeu Rengin, imperturbável. — A transferência de informações à polícia só é possível mediante solicitação formal. Até o momento, não há nenhuma. Portanto, temos o dever de concluir a apuração interna.
— Regulamento... — Sert girou a caneta entre os dedos. — O senhor sabe bem, professor Yalkın, — olhou para Evren, — que o regulamento às vezes salva não apenas pacientes, mas reputações também.
Bahar lançou um olhar rápido a Evren.
— O regulamento não é um escudo, — respondeu ele após uma breve pausa. — É um limite de responsabilidade. Ninguém se esconde atrás dele.
— Excelente, — Sert anotou algo em seu caderno. — Então está na hora de aprender não só a não se esconder, mas também a responder pelos próprios atos.
A frase dele caiu como uma pausa incômoda na sala. Todos se entreolharam, sem entender o tom. Evren apertou o maxilar — ele entendeu. Sert fez um gesto, e o advogado se levantou.
— Segundo o relatório da segurança, — começou o advogado, lendo de uma folha, — houve acesso não autorizado ao sistema interno a partir do dispositivo pessoal do senhor Cem Keskin. Foram detectados vestígios de invasão ao servidor e a extração de fragmentos de vídeos cirúrgicos e imagens das câmeras do corredor.
Rengin olhou para Cem.
— Confirma que acessou o sistema interno? — perguntou, com calma.
— Eu... sim, — balbuciou ele. — Eu não queria causar nenhum dano. — Falava rápido, nervoso.
— Mas invadiu uma rede protegida, — respondeu ela, com voz serena, sem emoção.
— Eu só queria... — parou no meio da frase.
— Provar, — completou Sert, inclinando-se levemente à frente. — Temos dois caminhos. — Puxou a pasta que estava diante de Rengin para si. — O primeiro é o formal: encaminhamos o caso à polícia e o senhor passa os próximos meses aprimorando suas habilidades — mas em outro lugar. — Pausou, olhou demoradamente para Bahar, e continuou: — O segundo é interno. Mantemos a imagem do hospital intacta e o senhor tem uma chance de reparar o erro. — Fitou Cem. — Trabalhará no hospital, sem acesso a equipamentos, sob supervisão direta da administração. — Virou-se para Evren.
Evren engoliu seco, os ombros tensos, como se sentisse uma corda se apertando em volta do pescoço.
— Onde exatamente ele vai trabalhar? — perguntou Bahar com cautela.
— No setor de manutenção, — respondeu Sert, sem ironia. — Arquivo, limpeza, depósito. Que comece pelo básico — e aprenda as regras antes de quebrá-las outra vez.
— Isso é humilhação pública, — Evren se levantou, mas Bahar segurou-lhe a mão, tentando contê-lo.
— É reeducação, professor, — retrucou Sert, impondo silêncio com um simples gesto. — O senhor é médico; sabe que às vezes é preciso cauterizar uma ferida para que cicatrize. — Voltou-se para Cem. — Ou prefere responder criminalmente?
Cem empalideceu, balançando a cabeça. As mãos apertavam o assento da cadeira.
— Não, — murmurou. — Não... eu aceito. Estou pronto.
Pela primeira vez, não discutiu — e Evren o observou com surpresa.
— Redija o protocolo, — ordenou Sert ao advogado. — Designação temporária para trabalhos auxiliares, prazo de três meses — sob supervisão do professor Yalkın.
— Está me atribuindo a responsabilidade dele? — Evren explodiu, mas Bahar apertou seu joelho, tentando acalmá-lo.
— E quem mais poderia ser? — Sert quase sorriu. — O senhor já carrega essa responsabilidade moral, afinal. — Falava como se explicasse uma verdade óbvia. — Na família, como na medicina, não se pode fechar os olhos para as consequências. — Voltou-se para Rengin. — A decisão da comissão é uma medida temporária até que recebamos o comunicado oficial das autoridades.
Rengin respirou fundo e balançou a cabeça.
— Está deixando em aberto a possibilidade de entregar o caso à polícia, — observou. — E se o pedido oficial chegar? — perguntou, olhando-o diretamente.
Ele sorriu — quase cordial.
— Não vejo problema, professora. Só quero garantir que, quando chegarem, já esteja tudo pronto. — Inclinou-se um pouco na direção dela. — O relatório, a demissão... e as assinaturas. Tudo impecavelmente limpo. Como uma sala de cirurgia.
— Minha assinatura estará onde deve estar, — respondeu Rengin, com firmeza. — Nem antes, nem depois.
Ela virou-se para Ahu.
— A decisão da comissão está tomada.
Ahu levantou-se imediatamente.
— A sessão da comissão interna está encerrada, — anunciou, e sua voz soou como o golpe de um martelo de juiz.
Sert lançou um olhar para Cem.
— Pode agradecer a quem intercedeu por você, — disse, antes de voltar-se para Rengin. — A senhora conseguiu contornar a situação, professora. — Sua voz tinha um tom quase elogioso. — Parecia que nada mais podia ser feito, mas conseguiu. Hoje, de fato, salvou o hospital. — Fez uma pausa e completou, mais baixo: — Embora, às vezes, salvar um... seja apenas adiar a queda de outro.
Fechou a pasta e saiu da sala sem olhar para trás.
— Ele ajudou... não foi? — Cem foi o primeiro a quebrar o silêncio.
Bahar fechou os olhos. Rengin mantinha o olhar fixo na porta. Evren cerrava os punhos.
— Não, Cem, — respondeu Evren. — Ele só te deixou exatamente onde pode te vigiar.
Bahar abriu os olhos e o encarou. Quis acrescentar que Sert Kaya não observaria apenas Cem — ele os vigiaria a todos.
— E pra que servem suas recomendações, então? — Cem levantou-se bruscamente. — Por que se deu o trabalho, se elas não serviram pra nada?
— Chega! — a voz de Evren explodiu, e ele bateu na mesa com força. — Seja grato a quem arriscou por você!
— Quem?! — Cem avançou um passo. — Quem arriscou? Você? — cerrou os punhos. — Agora vou trabalhar aqui em que cargo, hein?
Evren contornou a mesa e se aproximou dele.
— Em qualquer cargo! — segurou-o pelo braço. — Em qualquer um! Ou prefere ir pra cadeia?
— Eu não sou culpado! — gritou Cem, o sangue voltando ao rosto, sentindo-se momentaneamente protegido.
— Trabalho sempre é uma chance, Cem, — Evren apertou mais o braço dele. — E suas recomendações — se não servem agora, servirão depois.
— Sob vigilância? — Cem cuspiu as palavras, incapaz de aceitar sua nova condição.
— Basta! — a voz de Evren ficou ainda mais alta.
— Evren... — Bahar se aproximou rapidamente.
— Todos vocês estão contra mim! — Cem se descontrolou, empurrando o irmão. — Todos! — encarou Bahar, Evren, Rengin.
Ahu e o advogado se mantinham à distância.
— Cem, — chamou Rengin, com autoridade, — chega! — pediu. — Agora você vai com o advogado e vai assinar todos os documentos pra que eu possa autorizar!
Cem pareceu prestes a reagir, mas sabia que era inútil. Ainda incapaz de aceitar o que acontecera, sentia raiva de todos — menos de si mesmo.
— Vamos, Cem, — Ahu aproximou-se. — Eu te acompanho.
— Vai! — ordenou Evren, com aspereza.
Bahar, atrás dele, tocou-lhe as costas — um gesto breve, tentando apaziguá-lo. Sentia a raiva e o desamparo que o consumiam; via o esforço dele para se conter.
Ahu e o advogado saíram da sala com Cem.
— Tudo está ficando pior, — murmurou Evren, olhando para a porta.
— Sert Kaya está só empurrando ele pro abismo, — disse Bahar.
Rengin suspirou e deixou a sala. Bahar pegou uma garrafinha sobre a mesa, bebeu um gole e fez uma careta.
— Que gosto estranho... — comentou, colocando-a de volta.
— O quê? — Evren reagiu na hora, pegou a garrafa e bebeu também. — Água normal... — disse, mas sua expressão mudou. — Bahar... — estremeceu. — Você está tomando os remédios direitinho? Está tudo bem? Os exames? Que gosto é esse? Metálico? — o rosto dele empalideceu.
— Evren... — ela tocou o rosto dele com a mão. — Está tudo bem. Tomo tudo certinho, não se preocupe. — Pegou a garrafa das mãos dele e bebeu mais um gole sob o olhar atento de Evren. — Viu? Água normal. — Engoliu tentando disfarçar o incômodo.
Evren a observava, preocupado.
— Foi só impressão, — disse ela, sorrindo de leve, enlaçando o braço dele. — Vamos. — Encostou-se em seu ombro e conseguiu esconder a expressão de desconforto. Mas o gosto metálico continuava em sua língua — sutil, frio, como um pressentimento que ainda não tem nome.
***
Ela não sabia ao certo o que Parla sentia por Cem. Rengin entrou em seu consultório e parou por um instante. Parla guardou o celular apressadamente no bolso e levantou-se do sofá.
— De novo ele? — perguntou Rengin em voz baixa, sem entender como Cem ainda encontrava tempo para mandar mensagens.
— Mãe, só estamos conversando, — respondeu Parla, aproximando-se.
— Só conversando? — Rengin arqueou a sobrancelha. — Com alguém que está prestes a responder a um processo?
— Mas não vai ter processo, certo? — Parla olhou-a com atenção. — Ficou tudo resolvido com a investigação interna, não foi?
Rengin suspirou pesadamente e sentou-se no sofá. Como Cem já teria contado tudo à filha?
— Cem não é um monstro, mãe, — Parla sentou-se ao lado dela. — Ele cometeu um erro. Eu só quis apoiá-lo, sem julgamentos, — deu de ombros.
— Apoiar... — repetiu Rengin, com um meio sorriso cansado. — Sabe quantas mulheres disseram isso antes de se deixarem arrastar pelos erros dos outros? — perguntou, envolvendo a filha pelos ombros.
— Mãe, eu sou adulta, — respondeu Parla com serenidade. — Sei distinguir pena de sentimento. Entre nós não há nada. — Falava com calma, sincera, sem esconder emoção alguma, como se de fato não houvesse.
— E você tem certeza de que ele sabe distinguir? — perguntou Rengin suavemente, sem entender o que realmente se passava no coração da filha.
— Não sou uma criança, mãe, — disse Parla, encostando-se nela. — Às vezes acho que nunca fui pequena de verdade... — baixou o olhar, confusa por um instante. — Eu simplesmente não me lembro.
Rengin ajeitou-lhe o cabelo, o colarinho da blusa.
— Pois é, — disse com voz mais terna. — Não é criança. Então tem escolha — pode não ir aonde pode se machucar.
— Eu só fui conversar, — explicou Parla. — Cem está tendo um dia difícil.
— Difícil? — Rengin deixou escapar um tom de cansaço. — Difícil é perder pacientes. É passar noites acordada ouvindo o eco dos gritos dos outros. Não quando você mesmo cria o próprio caos.
Parla fechou os olhos. Raramente conversavam assim. Esses momentos podiam ser contados nos dedos.
— Não quero que acabe presa em uma história em que alguém manipula sua compaixão, — sussurrou Rengin.
— Mãe, eu não sou você, — respondeu Parla calmamente. — Cem não está fingindo. Ele só não sabe agir de outro modo. Eu não o justifico — só o entendo. E isso é diferente.
— Às vezes, entender é mais perigoso que amar, — murmurou Rengin.
— Ou talvez seja o que nos salva, — Parla sorriu de leve. — Foi você quem me ensinou isso.
— Eu te ensinei isso? — Rengin a olhou, surpresa.
— Aprendi com você a não me perder, — disse Parla, e as palavras fizeram Rengin baixar os olhos. — Eu não me perco, mãe. Só não consigo passar por cima de quem está se afogando.
— E se ele te arrastar junto? — perguntou Rengin, sem conseguir convencê-la.
— Aí você me puxa de volta, — respondeu Parla com doçura. — Só você poderia, mãe. Você é a pessoa mais forte que eu conheço.
Os olhos de Rengin marejaram; ela mordeu o lábio.
— Mãe, você só está preocupada, — murmurou Parla.
— Eu sempre estou, — suspirou Rengin. — É parte do meu trabalho — me preocupar e tentar controlar tudo.
Antes que Parla respondesse, alguém bateu à porta. Sedef abriu — e lá estava Serhat.
— Professora Rengin, posso entrar? — perguntou.
— Professor Serhat, — Rengin ficou imediatamente tensa.
Levantou-se, ajeitando o jaleco. Parla observava atentamente cada gesto.
— Desculpe aparecer sem avisar, — disse ele, com aquele tom calmo que parecia envolver o ambiente. — Preciso esclarecer alguns pontos sobre os protocolos.
— Claro, — respondeu Rengin depressa. — Estávamos justamente terminando... — virou-se para a filha. — Esta é minha filha, Parla. — E para ele: — Professor Serhat Özer.
Parla se levantou. Já o havia visto durante a cirurgia de Reha, mas nunca tinham se falado.
— Prazer em conhecê-la, — disse Serhat, estendendo a mão.
Parla apertou-a com firmeza.
— O prazer é meu, professor, — respondeu com um sorriso curioso. — Colega da minha mãe, então?
— De certo modo, — ele sorriu. — Às vezes até discutimos um pouco.
— Então o senhor é corajoso, — comentou Parla, serena, sem desviar o olhar.
— O professor Serhat veio tratar de trabalho, Parla, — interveio Rengin, tossindo discretamente.
— Claro, — respondeu Parla, com um pequeno sorriso. — Só estava verificando se ele é uma pessoa normal.
— Acho que sim, — ele piscou, surpreso e divertido. — Mas se perguntar aos meus colegas, talvez digam o contrário.
— Parla, por favor... — Rengin corou, tentando esconder o sorriso.
— Tudo bem, — disse Parla, caminhando até a porta. No limiar, olhou de novo para os dois. — Sabe, gosto de ver você assim, mãe. Viva.
Rengin ficou imóvel, sem saber o que dizer.
— Até logo, professor, — despediu-se Parla, com um aceno.
Quando a porta se fechou, o silêncio tomou conta do consultório. Rengin ainda olhava para onde a filha estivera.
— Sua filha é incrível, — disse Serhat, sorrindo. — Vamos nos dar muito bem.
— Sim, — respondeu Rengin, desviando o olhar. — Às vezes até demais. — O tom era uma mistura de orgulho e receio.
— Uma jovem brilhante, — comentou ele, encantado.
— Às vezes brilhante demais, — respondeu ela em voz baixa. — Madura demais para a idade.
— Isso é contagioso, — disse ele, aproximando-se. — Especialmente perto de você. É difícil ser mãe? — As mãos dele pousaram nos ombros dela, virando-a de frente.
— Às vezes mais difícil do que ser médica, — respondeu Rengin, encostando as mãos no peito dele. — Porque aqui não há protocolos.
— Tem razão, — murmurou Serhat, aproximando-se. — Às vezes é preciso agir sem protocolos. — E a beijou.
Rengin agarrou o jaleco dele, retribuindo o beijo, enquanto uma parte dela ainda pensava — talvez devesse afastá-lo... mas não o fez. Apenas se entregou, apertando-se contra ele, deixando-se envolver, beijar...
***
Ele queria tanto abraçá-la, beijá-la. Evren não entendia aquele impulso repentino e lutava para se conter. Deixou que ela se adiantasse alguns passos. O saguão do hospital estava banhado por uma luz suave. A brisa da noite entrava pelas janelas panorâmicas. Bahar parou junto ao vidro, observando as pessoas do lado de fora. Evren se aproximou em silêncio, mas ela o sentiu antes mesmo que ele falasse.
— Você está calada demais, — disse ele em voz baixa. — Posso ver que está preocupada.
— E eu vejo que você está inquieto, — respondeu ela, voltando-se para ele.
— Talvez seja porque estou com medo, — murmurou Evren, com o olhar tenso.
Seus dedos tocaram de leve o ombro dela — como se testassem se ela não se partiria com aquele toque.
— Com medo? — repetiu Bahar. — Você sempre disse que medo é um luxo que médicos não podem ter.
Ele assentiu, quase imperceptível.
— Medo pelos pacientes, sim, — disse, deixando a mão deslizar lentamente pelas costas dela até a cintura. — Mas não de você. Isso é... diferente. — Confessou, olhando os lábios dela.
Bahar suspirou e pousou a mão em seu ombro, alisando um vinco invisível no tecido.
— Eu te mostro os resultados, o ultrassom, — sussurrou. — Está tudo normal. Meus exames estão perfeitos.
Evren assentiu, e sua mão desceu com cuidado até o ventre dela. Tocou de leve, quase sem peso.
— Evren, estamos no saguão... — Bahar estremeceu, olhando em volta.
— Não me importo, — respondeu ele, sem tirar a mão. — É que eu... eu preciso estar perto de você. — Falava baixo, quase um sussurro, temendo que alguém ouvisse, não as palavras, mas o desejo nelas. — Não sei explicar. É uma necessidade. Quero te proteger. — Inspirou fundo, pressionando a mão um pouco mais, mas com ternura. — Tenho medo de ser tarde demais. Não quero assinar um laudo dizendo “interrupção da gravidez por indicação médica”. A gente não suportaria.
Bahar ficou imóvel. As palavras dele a atingiram de surpresa.
— Evren... — tentou responder calma, mas a voz vacilou.
— Eu sei, — continuou ele. — Hoje tudo é possível. E eu não sou teu marido, ninguém vai pedir meu consentimento. Você pode interromper a gestação sem me avisar.
— Para, — interrompeu ela, segurando a mão dele. — Já disse que não vou fazer isso!
Ele ficou em silêncio. Nos olhos dela havia um medo verdadeiro — e isso a deixava ainda mais frágil. Raramente ele a via assim, vulnerável.
— Desculpa, — sussurrou. — Eu só... não suporto a ideia de te perder.
— Eu te disse que vou te mostrar os exames, — repetiu ela, mais suave agora, sem raiva. — Ainda hoje.
Bahar apertou a mão dele contra o próprio ventre, como se o gesto acalmasse os dois.
— Rengin está muito abalada, — suspirou ela. — Finge estar firme, mas eu vejo o quanto dói.
Evren quis responder, abriu a boca, mas as palavras ficaram presas. O assunto que trazia consigo — o novo cargo — parecia fora de lugar.
— Tudo está desmoronando, — continuou Bahar, sem notar o conflito dele. — Cem... Yusuf... a paciente que morreu... Não sei mais onde termina o médico e começa o ser humano.
— Talvez essa linha nem exista, — murmurou ele. — Talvez seja esse o castigo: tentar curar os outros sem saber se curar.
— Você queria me dizer algo, não é? — ela percebeu; nada escapava ao olhar dela.
Evren hesitou, prendeu o olhar no dela... e não conseguiu.
— Depois. Agora, não. — Balançou a cabeça.
Ela ficou em silêncio por um momento, observando-o, mas não insistiu.
— Tudo parece infinito ultimamente, — disse por fim.
A mão de Evren fazia círculos quase imperceptíveis sobre o ventre dela. O movimento era terno, sincronizado com o dela.
— Não quero falar sobre isso agora, — murmurou. — Nem sobre Sert, nem sobre o hospital. Tudo isso me parece distante... alheio. — Aproximou-se mais. — Só consigo pensar no que sinto — e o que sinto é que preciso de você.
Ela olhou dentro de seus olhos cansados, ouviu a aspereza doce da voz dele.
— Então não fala, — pediu ela. — Fica só aqui. Assim.
Já não se importavam por estarem expostos. Bahar encostou a cabeça no ombro dele. As mãos permaneceram entrelaçadas. O calor da palma dele atravessava o tecido, a pele, até o pulso — misturando-se ao dela. Por um instante, tudo parou. E nesse silêncio, ouviram vozes distantes. Chamavam por Yusuf. Bahar estremeceu; Evren ficou tenso.
— Ele está aqui, Evren, — sussurrou. — Vá até ele. Ele precisa de você. Fala com ele, por favor.
— Eu volto, — disse ele, ainda com a mão sobre o ventre dela, antes de soltá-la.
— Eu sei, — respondeu Bahar. — Ou eu vou até você.
Evren se afastou, mas parou no meio do caminho e olhou para trás. Ela ainda estava à janela. Seus olhares se cruzaram. Bahar sorriu.
— E, por favor, sem pânico, tá? — murmurou, mas ele ouviu.
Evren assentiu, percebendo que o medo de que falara há pouco agora o acompanhava — como uma sombra, a cada passo que dava.
***
Ele deu um passo. Depois outro. O frio atravessava os ossos. As lâmpadas no teto zumbiam num tom constante — o mesmo som que faria um lugar morto ao respirar. Kamil aproximou-se da mesa. Sobre a superfície metálica, um saco transparente com os pertences da esposa:
um suéter branco, um relógio quebrado, a aliança, embrulhada num lenço de papel.
Os dedos dele tremiam ao tocar o plástico, com cuidado, como se um gesto mais brusco pudesse ferir a lembrança. Passou a mão sobre o saco, como se acariciasse o ombro de sua Ayşe. Então tirou do bolso um pequeno novelo de linha branca — o mesmo que carregava desde o dia em que Ayşe tricotara o gorro minúsculo para o bebê que esperavam.
Desenrolou um pedaço, observando-o longamente, sem piscar. Depois, colocou-o dentro do saco, ao lado da aliança.
— Pra que fiquem juntos, — murmurou, com os lábios trêmulos.
Por um instante, pareceu-lhe que o fio se moveu — como se tivesse vida própria, uma tênue ligação entre o que foi e o que ainda poderia ser. Kamil fechou o saco devagar, quase com reverência, e endireitou o corpo. Seu rosto havia mudado. A dor não se fora — apenas endureceu, condensada em algo denso, sólido, impossível de dissolver.

CAPÍTULO 9. PARTE 3

Yusuf era um feixe inteiro de nervos. Evren abriu a porta de seu gabinete.
— Entra — disse Evren, tentando manter a voz calma e uniforme. — Senta um pouco.
Ele mesmo estava nervoso, sem saber como começar a conversa, nem o que dizer.
— Obrigado, professor, prefiro ficar de pé — recusou Yusuf, afastando-se para o canto da sala.
Yusuf olhava para qualquer lugar, menos para Evren. Evitava seu olhar, evitava qualquer aproximação. Evren deu alguns passos, mas parou ao perceber que Yusuf havia recuado até a parede.
— Yusuf — ele apoiou a mão no encosto da cadeira, como se aquilo pudesse ajudá-lo a se manter firme — por favor, vamos só conversar.
— Sobre o trabalho? — a sobrancelha de Yusuf arqueou-se levemente, e ele abriu o caderno. — De qual paciente vamos falar? Alya? Esra? — perguntou pacientemente, sem levantar a cabeça. — Ou o senhor vai me repreender porque desobedeci suas instruções e interferi no tratamento?
— Yusuf — Evren franziu o cenho — você sabe muito bem que não é disso que quero falar.
— Então de quê? — Yusuf levantou o olhar, fechou o caderno e cruzou os braços. — Quer saber o que eu sinto? Ou só quer ter certeza de que está tudo bem?
— Eu quero… — Evren falou num tom baixo — que a gente pelo menos tente esclarecer as coisas.
— Esclarecer? — Yusuf riu com amargura. — Pra quê? O senhor poderia ter feito isso antes. Todos esses anos. O senhor sabia! — ele fez uma pausa, olhando fixamente para Evren antes de continuar — ou pelo menos desconfiava. O senhor e o professor Serhat. — Yusuf deu um passo à frente, mas parou. — Só que era mais cômodo não saber. Então, por que agora?
— Porque você precisa saber que tem um pai — murmurou Evren, quase num sussurro.
— Isso não muda nada! Eu sempre soube que tinha um pai. Até sabia o nome dele — um sorriso amargo surgiu em seus lábios — mas de repente não era ele… ou talvez fosse… ou talvez fosse o senhor, ou outro qualquer. — Yusuf olhou direto nos olhos de Evren. — Eu cresci sem pai, professor. Pra que eu precisaria de um agora?
Evren estremeceu involuntariamente. Era doloroso ouvir aquilo.
— Não me chama assim — ele sussurrou, cerrando os punhos.
— Como então? — perguntou Yusuf com calma, quase zombando, aproximando-se. — O senhor mesmo disse: estamos no trabalho, não é?
— As coisas não são tão simples — Evren fechou os olhos por um instante, tentando se controlar.
— E eu não quero que sejam simples — Yusuf virou-se, pegou uma caneta da mesa e a colocou de volta, como se testasse a própria resistência.
— Não precisa me odiar — pediu Evren.
Yusuf se aproximou mais um pouco.
— O senhor nem consegue me culpar — sussurrou. — Não tem esse direito!
— Você não entende — tentou se justificar Evren.
— Entendo, sim — interrompeu Yusuf. — O senhor só está acostumado a ser perdoado. Pelos pacientes, pelas mulheres, pelo destino.
— Cuidado — Evren reagiu, erguendo o queixo.
— O senhor e Bahar… estão juntos? — a voz de Yusuf tremia de raiva.
— Yusuf! — o rosto de Evren mudou completamente.
— O senhor aceitaria dividir Bahar com alguém? — Yusuf não parava, a dor o empurrava adiante, e ele queria que Evren sentisse o mesmo. — É fácil pra você? É diversão? Um desafio? Com qual homem você dividiria Bahar?
Evren deu um passo brusco na direção dele, os olhos faiscando; o punho se ergueu, mas ele não bateu. Yusuf permaneceu imóvel, sem sequer tentar se defender.
— Em que Bahar é diferente da minha mãe? — perguntou, agora em voz baixa.
As palavras atingiram Evren como um golpe. O punho dele se chocou contra a mesa com tanta força que as pastas saltaram e uma caneta rolou para o chão.
— Yusuf, eu… — ele cambaleou, recuando um passo.
— Não responda — interrompeu Yusuf. — O senhor não conseguiria!
Os dedos de Evren apertaram a borda da mesa.
— Minha mãe era uma pessoa! — ele parecia testar até onde podia ir. — E o senhor a transformou em brinquedo! Riu dela!
— Eu não brinquei com ela — respondeu Evren secamente. — Você não tem o direito de falar assim…
— Tenho, sim, professor. Só eu tenho! — os olhos de Yusuf brilhavam de desespero, mágoa e confusão.
— Eu errei — murmurou Evren. — Errei por não ter tentado descobrir antes. Eu me envergonho disso.
— Errou? Tem vergonha? — repetiu Yusuf. — Acha que isso me consola?
O silêncio se instalou. Ficaram se olhando. A conversa girava em círculos. Evren respirou fundo, tentando reunir coragem, e falou com firmeza:
— Vamos fazer um teste — disse ele. — Se eu for seu pai… eu vou estar ao seu lado.
Yusuf riu, com amargura.
— E se não for, devo continuar chamando o senhor de “professor”, como se nada tivesse acontecido? — deu um passo à frente. — O senhor dividiu minha mãe com outro homem, professor. Acha que dá pra esquecer isso? Apagar da memória?
— Não quero te machucar mais — Evren o olhou por baixo das sobrancelhas. — Só… se algum dia você quiser saber… — ele não terminou.
— Aí o senhor estaria pronto, né? — Yusuf ironizou, recuando. — Posso ir, professor?
Evren tentou dizer algo, mas as palavras não vieram. Yusuf já estava abrindo a porta.
— Até logo, professor — disse ele do limiar — e, ah… — virou-se — em casa também vou continuar chamando o senhor assim.
Yusuf virou-se e saiu.
Evren ficou sozinho. Olhou para a porta por onde aquele rapaz — talvez seu filho — havia desaparecido. Pela primeira vez na vida, sentiu-se realmente perdido e vazio. Sentou-se na cadeira e fechou os olhos...
***
Era como se o destino zombasse dele quando os viu. No fim do corredor, Yusuf avistou Serhat e Rengin, de mãos dadas, descendo juntos do patamar da escada. Caminhavam tão próximos que seus ombros quase se tocavam… mais alguns passos, trocaram um olhar e, de repente, seus dedos se soltaram, como se tivessem despertado e rompido aquela frágil intimidade que ainda pairava entre eles, mesmo à distância. Agora andavam apenas lado a lado — não se podia mais dizer que estavam juntos.
Yusuf sacudiu a cabeça, sem entender direito o que tinha visto, nem o que aquilo significava. Serhat e Rengin pararam ao notar sua presença.
Foi um choque — vê-los juntos, e ainda mais vê-los se afastando um do outro. Um aperto atravessou o peito de Yusuf. Todos eles continuavam com suas vidas — Evren, Serhat… só a mãe dele é que não estava mais ali.
Quis apenas passar reto, fingir que não tinha visto nada, mas suas pernas não obedeciam. Não conseguia ser indiferente, mas tampouco podia se meter. Virou-se, deu um passo para ir embora, quando ouviu passos atrás de si — firmes, apressados. Serhat o alcançou, pousou a mão em seu ombro e, sem diminuir o passo, falou o nome dele num tom suave, mas determinado:
— Yusuf. Por favor, para um instante.
Yusuf se sobressaltou, mas não se virou. O coração batia tão forte que ele mal conseguia distinguir a voz de Serhat através do zumbido em seus ouvidos. Sabia que a conversa era inevitável — mais uma batalha o aguardava. Até ontem, acreditava que Serhat Özer era seu pai. Hoje, de repente, tinha dois pais. Ou talvez nenhum.
— Você não se importa, né? — perguntou Serhat com cuidado.
— Esse é o seu andar — respondeu Yusuf, sem se virar. — Tudo aqui é seu.
— Eu só queria conversar — insistiu Serhat, acompanhando o ritmo dele.
— Não acha que já é tarde pra isso? — Yusuf enfiou as mãos nos bolsos do jaleco.
— Você está enganado — Serhat tentou esboçar um sorriso.
— É mesmo? — Yusuf virou-se devagar. No olhar dele não havia mais provocação, apenas cansaço. — Todos esses anos eu não fui nada pra você. Era como se eu nem existisse, mesmo sabendo que a criança tinha nascido. E agora, de repente, quer conversar. Por quê? Porque a Esra está morrendo? Porque precisa de alguém pra ocupar o lugar dela?
— Não fale assim — Serhat ergueu a cabeça, num gesto brusco.
— E como quer que eu fale? — Yusuf deu um passo à frente. — Acha que não percebo? Está com medo de perdê-la e, de repente, lembra que talvez exista um filho em algum lugar. Quer me usar como substituto?
— Esra está viva — a voz de Serhat falhou. — Ela vai viver! Ouviu? Vai! — ele engoliu em seco, e mais baixo acrescentou: — Você está errado. Eu só… — não conseguiu terminar.
Yusuf o observou por um longo momento.
— Não se atrase pra vê-la, professor — disse enfim. — Pra mim, o senhor já se atrasou. Nunca precisou de um filho. Por que agora, de repente, precisa?
— Eu não quero substituir ninguém — murmurou Serhat, e o silêncio caiu entre eles. Yusuf estava certo demais.
— Quando eu crescia, vocês dois sempre estavam por perto — continuou Yusuf. — Dois médicos, dois nomes. E agora, de repente, os dois querem ser pais. Por quê agora? — exigiu resposta, mas, sem ouvi-la, prosseguiu: — Eu não sou substituto. E não sou desculpa pra ser perdoado.
Yusuf virou-se e foi embora. Serhat não conseguiu detê-lo, não encontrou palavras. Ficou parado, com os braços caídos, observando-o se afastar. Pela primeira vez, ele simplesmente não sabia o que dizer — nem como consolar, talvez, o próprio filho.
***
Ela não conseguia lhe oferecer consolo — era como se ele tivesse erguido um muro de pensamentos entre os dois. Gülçiçek percebia que, desde a ligação de Rengin, Reha não era mais o mesmo. Se fosse apenas algo de trabalho, ela entenderia: ele teria pegado o lápis, feito anotações, rabiscado algo… mas Reha até esquecera do jornal que usava como escudo toda vez que ela demonstrava carinho demais.
Gülçiçek decidiu não insistir. Não queria tirar conclusões, mas algo estava errado — ela sentia isso enquanto mexia o caldo na panela, tentando afastar os pensamentos.
Reha andava pela sala. Os dedos brincavam com a gola da camisa; o olhar voltava sem parar para a janela, como se o pôr do sol pudesse lhe dar respostas. De vez em quando tentava sorrir quando os olhares se cruzavam, mas o sorriso saía torto. Gülçiçek via perfeitamente que ele tentava esconder a inquietação. Às vezes tirava os óculos e limpava as lentes — que já estavam limpas — como se procurasse ali uma poeira invisível.
— O jantar está pronto! — chamou Gülçiçek. — Vem, antes que esfrie. — A voz dela soava calma, controlada.
Ela apareceu na porta da sala e viu quando ele se sobressaltou, como se tivesse sido pego fazendo algo vergonhoso.
— Agora não. Eu… — ele corou levemente. — Depois — murmurou, hesitante.
As sobrancelhas de Gülçiçek se ergueram. Esperava qualquer coisa, menos um simples “depois”. Ele podia até resmungar, mas parecia faltar coragem até pra isso.
— Você não está aqui nem lá — disse ela serenamente. — O que foi que Rengin te disse? — perguntou, olhando-o nos olhos.
Reha empalideceu, mudando de expressão — parecia que ela havia tocado em algo sensível, algo de que ele não queria falar, nem lembrar. Aproximou-se dela, tentou segurar-lhe a mão, mas Gülçiçek se afastou suavemente. Ainda esperava uma resposta.
— Foi só um telefonema — forçou ele um sorriso falso. — Nada demais.
Gülçiçek o encarou sem reprovação.
— Tem a ver com alguma mulher? — perguntou com cuidado, oferecendo-lhe a chance de se abrir. — Ouvi parte da conversa. É mesmo só sobre trabalho? — ela queria apenas a verdade, não desculpas.
Reha hesitou, deu um passo atrás. Talvez quisesse explicar, mas as palavras se embaralhavam. Não queria decepcioná-la — não agora, tão pouco tempo depois do casamento.
— Não transforma isso numa tragédia — disse, irritado, com um gesto brusco. — Não precisa tirar conclusões! — falou como quem coloca um ponto final.
Gülçiçek sorriu de leve, o sorriso maduro de quem já viu muita coisa.
— Todos têm um passado, Reha — disse ela suavemente. — E você também tem o seu. Eu entendo isso. — Fixou os olhos nele. — Mas vai deixar o passado interferir no nosso presente? Na nossa casa? — sua mão apertou a maçaneta. — No que a gente acabou de começar a construir?
Havia tanta sabedoria naquelas frases simples que Reha ficou imóvel por um instante, percebendo o quanto ela compreendia o que se passava dentro dele. Ela não o acusava — apenas o fazia sentir que ela estava ali, ao lado dele.
— Eu não quero brigar — murmurou Reha. — Me perdoa, se falei de forma rude — deu um passo em direção a ela, mas Gülçiçek recuou. — É que… está tudo muito difícil agora...
— Sabe… — ela soltou a maçaneta e falou com calma — a mesa está posta. Janta sozinho.
Virou-se e foi para o quarto. Reha ficou parado, atônito. Pela primeira vez, ela não tentou convencê-lo, não insistiu, não cuidou dele, não se importou se ele iria comer.
Reha estremeceu e a seguiu. Abriu a porta e a viu sentada na poltrona. As agulhas de tricô se moviam num ritmo constante — aquele movimento parecia acalmá-la.
— Gülçiçek, vem jantar — chamou ele, aproximando-se. — Gosto quando é você quem me serve — tentou sorrir.
— Se quer que eu cuide de você, Reha, — disse ela sem parar o tricô — faça com que eu queira isso. Agora não quero jantar, nem chá. — Falava sem olhar pra ele. — Estou tricotando meias para Mert e Leyla. Se quiser chá, faça você mesmo.
Ele não respondeu. Apenas ficou ali, observando as carreiras claras se formando nas agulhas — as meias de Mert e Leyla, que ainda não conheciam o peso das dores adultas.
Os lábios de Gülçiçek se moviam, ela contava os pontos quase sem som… e Reha contava junto, em silêncio. Mentalmente tentava fazer um balanço — quantos anos tinham passado desde que ele se acovardara e escolhera apenas o trabalho… 40… 43… 45?
Teria imaginado que o passado voltaria pra cobrá-lo um dia? Que teria de encará-lo de novo, olho no olho? Que aquele “pra sempre” dito na despedida, quando ela partiu, nunca seria definitivo?...
E se acabasse trabalhando com Bahar… ela certamente faria perguntas… estaria ele pronto pra respondê-las? O que poderia dizer se resolvessem seguir o protocolo dela?... E se a procurassem, ela contaria sobre ele? Sobre o que fizeram juntos?... Ela viria a Istambul?... Qual é mesmo o prazo da prescrição?... Ou será que todos já esqueceram?...
***
Agora já não dava para simplesmente esquecer — o menino se tornara real… embora já não fosse um menino, mas um homem.
Evren permanecia de pé diante da mesa, sem ousar sentar, como se tivesse proibido a si mesmo esse gesto.
Bahar bateu à porta e entrou. Fechou-a com cuidado e o observou. O rosto dele era indecifrável, apenas o leve tremor nos dedos o traía.
— Evren? — ela se aproximou e colocou uma pasta sobre a mesa.
— Ele é contra o teste de DNA, — disse Evren, em voz baixa. — Contra mim, no fundo.
Bahar suspirou e envolveu a cintura dele com os braços, apoiando o queixo em seu ombro.
— Não o pressione, — pediu suavemente. — Ele está magoado. Precisa de tempo.
Evren assentiu.
— Eu sei… — respondeu, voltando-se para ela. — Mas Yusuf não pode interferir no que sentimos, nem no que queremos.
Bahar passou os dedos pelos cabelos dele, com um leve sorriso.
— Se não pressiona o Yusuf, pressiona a mim, — disse, num tom brincalhão. — Você é tão teimoso, Evren Yalçın… parece que precisa sempre ter alguém para enfrentar. É assim que se afirma?
— Você adia exames, o ultrassom… — retrucou ele, insistente. — Está com alteração no paladar, sente dor, come mal, bebe pouca água. Como posso cuidar de você, se você não me deixa? — a voz dele vacilou, deixando transparecer a dor. — Quando vai chegar o tempo pra nós, Bahar? Por que tudo vem antes — e eu, só no fim? Até você mesma.
Bahar fechou os olhos e apoiou a testa no ombro dele, num gesto cansado. Depois afastou-se, pegou a pasta e a estendeu. Sentou-se à beira da mesa, observando-o em silêncio.
Evren abriu os papéis e espalhou-os diante de si.
— Bioquímica… AST, ALT normais, bilirrubina limpa… — murmurou, aliviado. — Sem alterações.
— Está tudo bem, Evren, — disse ela com um sorriso calmo. — E sinceramente, prefiro que você não seja meu médico, — sussurrou. — Isso não faz bem ao que temos.
Mas ele não parecia ouvir. Passava os dedos pelas linhas, como se precisasse tocar os números.
— AST quarenta e dois… ALT trinta e seis… creatinina normal… — murmurava. — O fígado está firme, o enxerto, estável.
— Viu só? — disse Bahar. — O corpo reagiu bem.
Ela o acariciou, os dedos deslizando entre seus cabelos, querendo apagar o cansaço dele.
— Esse foi o último exame? — perguntou ele, olhando as imagens do ultrassom.
— Sim, há duas semanas.
Evren levantou o filme contra a luz, examinando com atenção.
— Parênquima regular, vasos limpos… — fez uma pausa e murmurou, — mesmo assim, queria ver com meus próprios olhos.
— Evren, não precisa, — disse ela, erguendo as mãos, num gesto para detê-lo. — Está tudo bem.
— Preciso ter certeza, — insistiu ele. — Uma coisa é ver números, outra é ver com os próprios olhos.
— Não confia em mim? — perguntou ela, ainda sentada na mesa.
— Eu só… tenho medo, — confessou, olhando-a nos olhos.
Por um instante, o silêncio se fez denso entre os dois.
— Tudo bem, — cedeu Bahar, com um suspiro. — Mas espere um pouco. Fiz o exame há pouco tempo.
— E há duas semanas já sentia dor? Mudança de gosto? Amargor? Cansaço? — perguntou ele, teimoso.
Bahar revirou os olhos.
— E o chá com gosto de ferrugem, — acrescentou, provocando-o.
Evren demorou um instante para entender a ironia.
— Podemos incluir também “peso sob as costelas de manhã”? — retrucou ela, já impaciente.
— Não quero esperar aparecer icterícia, Bahar, — disse ele, num tom cuidadoso.
Ela apenas o olhou. Evren juntou os papéis, colocou-os de volta na pasta e a afastou. Bahar respirou fundo, tentando se acalmar.
— Você vai fazer o ultrassom, Evren, — disse, estendendo-lhe a mão, — mas não agora. Não há motivo pra repetir. E, por favor, sem pânico. — sussurrou, quando seus dedos se tocaram.
— Se soubesse o quanto é difícil não entrar em pânico quando se trata de você… — disse ele, aproximando-se, apoiando as mãos nos joelhos dela.
Bahar se assustou, apertou-lhe o ombro.
— Evren… a porta está aberta, — murmurou, ofegante, o olhar descendo até os lábios dele.
— Estou apenas verificando sua temperatura… de outro modo, — respondeu ele, num tom leve, com um brilho nos olhos.
O toque foi suave, o gesto contido, e ainda assim o ar pareceu se encher de algo novo. Ele se inclinou, roçando os lábios na testa dela.
— Convencido? — sussurrou Bahar, sentindo o coração disparar.
— Nem um pouco, — murmurou ele, quase sem voz.
Os rostos se encontraram. O beijo veio lento, profundo, sem pressa — um toque que dizia mais do que qualquer palavra. O mundo se calou por um instante.
Entre eles, só havia ternura e um amor que sabia conter-se.
Quando se afastaram, ainda sorrindo, respiravam com dificuldade, tentando recuperar o fôlego.
Bahar passou o dedo entre as sobrancelhas dele, desfazendo o vinco da tensão.
— Sabe… — disse, com um leve riso — acho que, no fim, quero mesmo ser sua paciente.
— Ah, é? — sorriu ele, já mais calmo.
— Porque começo a gostar do jeito como terminam as suas consultas.
Beijou-a mais fundo, sem pressa, com tamanha atenção que parecia tentar colocar no beijo todas as palavras que não conseguia dizer.
Sua mão deslizou devagar para cima, detendo-se no peito dela, sentindo o ritmo frenético do coração. Os dedos chegaram aos botões da blusa e… os dela o seguraram. Ela não o afastou — apenas guiou sua mão para as costas, aproximando-se dele ainda mais. Foi ela quem o beijou então, prometendo e, ao mesmo tempo, atenta, ouvindo qualquer som no corredor.
Evren pressionou levemente, obrigando-a a se inclinar de novo, e seus dedos tocaram a beirada do cós da calça dela. O botão se abriu com facilidade, o zíper começou a descer… Bahar interceptou sua mão, fechou o zíper com os próprios dedos dele. Sem interromper o beijo, apertou o pulso dele e abotoou sozinha a calça.
Bahar levou novamente as mãos dele para as costas e pousou as suas no peito dele. Deixou os dedos penetrarem entre os botões da camisa, prometendo — mais tarde. Mas ali, no consultório, mesmo atenta a qualquer ruído, não conseguia parar. Sua palma encontrou o peito dele, sentiu o coração pulsar forte sob a pele… uma expressão breve cruzou seu rosto — o único arrependimento era a porta aberta. Relutante, ergueu a mão, pousou-a no ombro dele; os dedos subiram até o colarinho, tocaram a veia em seu pescoço… o pulso dele batia literalmente sob seus dedos.
As mãos de Evren desceram até os joelhos dela, subiram devagar, e ele abafou o gemido dela com um beijo… mas Bahar novamente segurou suas mãos, contive-as, guiou-as, encostando-se com força — impondo o limite do que era permitido naquele instante… e mesmo assim, controlando-o, não resistiu: seus lábios tocaram o lóbulo da orelha dele.
Nas pausas entre os beijos, ouviam a respiração um do outro, sentiam o bater dos corações sob as palmas. Cada toque era uma promessa: em casa, depois… não agora. Quando ele se afastou, sorriram, olharam-se nos olhos, tentando recuperar o fôlego.
— Evren — ela passou o dedo pelas sobrancelhas dele, alisando-as — acho que… — suspirou — quero mesmo ser sua paciente — confessou — porque definitivamente estou começando a gostar de como terminam as suas consultas.
Evren riu, ajeitou o avental dela, deixando a mão demorar-se um instante sobre o peito, como se alisasse uma dobra no tecido. As sobrancelhas dela se arquearam levemente, e ele, puxando o ar com força, retirou a mão com relutância. Ajudou-a a descer da mesa, segurando-a quando ela se desequilibrou.
— E sabe… — ela se ergueu nas pontas dos pés e sussurrou em seu ouvido — já consigo imaginar o que vai acontecer depois de uma consulta completa… como médico.
— Hmmm — Evren a envolveu imediatamente, puxando-a contra si. — Suas fantasias me inspiram. Talvez devêssemos fechar a porta e eu te mostre? — sugeriu.
Bahar engoliu em seco. O olhar correu até o relógio, e ela gemeu por dentro.
— Rengin — sussurrou — agora não posso, preciso preencher o protocolo. — Escapou dos braços dele. — Mas da próxima vez… — não terminou a frase e se virou.
Ao ouvir o nome “Rengin”, Evren enrijeceu de imediato; nem perguntou sobre o protocolo.
— Sabe… — Bahar, apoiando-se na mesa, contornou-a, tentando ampliar um pouco o espaço entre os dois — eu sinto pena da Rengin. O que o Sert fez com ela… foi errado. — Virou-se para ele. — Aliás, por que ele te chamou?
Evren empalideceu, prendeu o ar por um instante. A resposta certa ficou presa na garganta. Dizer agora significava abrir outra ferida: nomeações, protocolos, poder — tudo cairia sobre ela hoje, no dia em que perdera sua primeira paciente.
— Sobre o ataque — escolheu meia verdade. — Questões de segurança. Quer relatórios diários — escolhia as palavras com cuidado. — E… índices.
— Índices — repetiu ela, provando a palavra. — Então ele vai continuar pressionando.
— Vai — confirmou secamente.
— E o que mais ele disse? — ela o olhava com atenção, como se lesse nas entrelinhas.
— Burocracia — desviou o olhar.
Ela entendeu que ele estava evitando responder. Por um instante, quis insistir, pressioná-lo, mas desistiu. Já tinha acontecido coisa demais naquele dia.
Evren percebeu sua emoção, abaixou a cabeça, depois olhou para Bahar. Estava prestes a confessar algo quando a porta se abriu e Rengin entrou apressada.
— Bahar, aqui está você! — exclamou da porta. — Olhou o horário? Está tudo pronto? Se não terminarmos agora, segunda-feira o novo diretor chega e tudo vai complicar.
Ao ouvir “novo diretor”, Evren deu um passo para trás.
— Sim, quase tudo pronto — respondeu Bahar de imediato.
— O que está acontecendo? — perguntou Evren, animado, soltando um suspiro como quem tira um peso das costas, embora soubesse que era só um adiamento temporário.
— Depois, Evren — cortou Bahar. — Em casa eu te explico. Vamos.
Ela e Rengin saíram correndo do consultório. Evren sacudiu a cabeça — há pouco ela estava ali, falando com ele, e agora tinha desaparecido. Saiu atrás das duas. Queria entender o que estava acontecendo.
Quando entrou na sala de Bahar, viu as duas imprimindo documentos. Rengin se sentou, começou a ler, revisando os dados.
— Bahar, encontrei os contatos da Meryem Özkan — avisou sem levantar os olhos.
— Ótimo, então entrarei em contato com ela ainda hoje — Bahar sorriu, apoiando-se na mesa.
— Meryem Özkan — repetiu Evren entre os dentes, recuando até a porta.
Todo o sangue sumiu de seu rosto. Fitava Bahar, sem piscar, como se olhasse através dela. Bahar e Rengin se voltaram. Bahar se iluminou ainda mais:
— Você a conhece? — ela já se preparava para se aproximar. — Chegou a vê-la nos Estados Unidos? Conversou com ela? Evren — ela quase se lançou em seus braços — você vai me ajudar?
Evren instintivamente ergueu as mãos, como se a impedisse. Recuou, os olhos tomados por pânico e dor. Um nome, alheio a elas, o atingira como um golpe no estômago.
— Não — disse ele. — Não entre em contato com ela. Por favor — pediu, com uma ingenuidade quase infantil. — Qualquer um, menos ela, Bahar.
De repente, aproximou-se dela, olhou-a, mas parecia não vê-la.
— O que quer dizer com isso, “não entrar em contato”? — perguntou Bahar, enquanto Rengin já assinava os papéis. — Esse contato é essencial, Evren. É o único caminho para o tratamento da minha paciente.
Evren deu um passo atrás, sem tocá-la.
— Simplesmente não faça isso. São métodos antigos — escapou-lhe antes mesmo que percebesse. — Não funcionam mais. O mundo todo já os abandonou.
Bahar deu um passo em sua direção.
— Evren, o que está acontecendo? O que há com você? — tentou alcançá-lo, tocá-lo. — Você conhece Meryem Özkan pessoalmente? Como sabe sobre os métodos dela?
Evren recuou de novo, evitando.
— Não, mas você não entende — afastou-se. — Você não entende nada. Isso pode complicar tudo. Não faça isso, Bahar! Não faça por mim — olhou-a nos olhos.
— Evren — Bahar levantou a mão, tocou o ombro dele; quase alcançou seu rosto.
Os dedos frios dele seguraram seu pulso, detendo-a.
— Você está me assustando — admitiu Bahar. — Tudo bem, hoje eu não falo com ela — não entendia o comportamento dele — mas vou enviar o pedido da pesquisa, desculpe, é pelos meus pacientes — disse com firmeza.
Ficaram se olhando em silêncio. Então Evren quase sorriu, apertou a mão dela. Ele sabia o quanto seu comportamento parecia suspeito, até irracional — e isso o apavorava ainda mais. Dentro dele havia mais que medo da exposição: havia um nome que passara a vida evitando. Um nome que odiava com toda a alma.
— Vou te esperar na entrada — disse ele, saindo do consultório, incapaz de continuar fingindo qualquer papel.
Bahar e Rengin se entreolharam.
— O que foi isso? — perguntou Rengin, entregando-lhe os documentos.
— Não sei — admitiu Bahar.
— Envia logo — apressou-a Rengin, decidindo não se meter. — Não acho que vá ser um problema — acrescentou.
Bahar ainda franzia o cenho, sem entender o que acabara de acontecer, a reação de Evren… e já não tinha certeza de que aquilo realmente não se tornaria um problema. Mas ela nada sabia — nem podia saber — se Evren estaria pronto para dividir isso com ela. Tocaram em algo muito pessoal… mas o quê? Como Meryem Özkan poderia estar ligada a Evren, se ela havia deixado o país antes mesmo do nascimento dele…
***
Antes de deixar o próprio gabinete, ele apertou o botão de impressão. Sert estava sentado à mesa. No ambiente reinava um silêncio tão denso que até o tique-taque do relógio parecia deslocado. A luz do abajur recortava do semiescuro a superfície da mesa e as folhas cuidadosamente empilhadas.
Sert tirou uma chave do bolso interno do paletó, abriu a fechadura e puxou a gaveta. De lá, retirou uma pasta de couro e, de dentro dela, uma fotografia.
Ficou olhando por muito tempo para o sorriso de Leyla — sem expressão, como se tentasse se lembrar do dia em que a foto fora tirada. O olhar seguia a linha do rosto dela, detendo-se nos olhos, percebendo o brilho que o tempo não conseguira apagar… e então, em algum lugar sob a pele, no fundo da alma, algo se moveu. Ele estremeceu, recolocou a foto na pasta.
— Você se foi — murmurou. A voz soou quase calma, mas o ar no gabinete pareceu esfriar um pouco.
Sert puxou da impressora a folha ainda quente. Fitou o título do artigo impresso: “Quando o corpo rejeita seu próprio filho”, assinado por Meryem Özkan.
Inclinou-se, passou os dedos pelas linhas, absorvendo o fato de que aquela mulher ainda estava viva. Havia anos que não pronunciava o nome dela. Um leve traço de sorriso cruzou-lhe o rosto.
— Mas em você… eu vou chegar — sussurrou, num tom de quem proibia a si mesmo de sentir. — Vai pagar por tudo o que fez! — fez uma pausa e acrescentou, mais baixo: — Pelo que não fez. Pelo que prometeu e não cumpriu!
Sorriu de lado e guardou a folha na pasta. Curvou-se, colocou a pasta de volta na gaveta e trancou-a. Sert levantou-se devagar.
— Você vai voltar a Istambul — os olhos dele brilharam com triunfo. — Eu vou garantir isso. Desta vez, você não vai escapar da punição.
A luz da lâmpada piscou, como se respondesse às palavras dele, e o quarto mergulhou novamente no silêncio. Sert apagou a luz e saiu do gabinete…
***
Bahar saiu para a rua como quem se liberta. Inspirou fundo, enchendo os pulmões — era como se enfim respirasse o ar fresco que lhe faltara o dia inteiro. No ombro, a bolsa; nas mãos, a pasta com os documentos.
Logo avistou Evren. Ele estava ao lado da moto, segurando dois capacetes. Não a notou, não a sentiu — como costumava. Estava sério, mergulhado demais nos próprios pensamentos, a ponto de nem perceber quando ela se aproximou. Olhava para o alto, como se tentasse decifrar o próprio céu.
— Evren — Bahar tocou de leve o braço dele, e mesmo assim ele se sobressaltou, claramente não esperando o contato.
Evren, em silêncio, estendeu o capacete para ela.
— O que foi aquilo no consultório? — perguntou ela, pegando o capacete.
Ele, no entanto, observava a pasta em suas mãos, sem saber direito como prendê-la na moto.
— Por que você é tão contra a Meryem Özkan? — Bahar tentou manter a voz calma, observando-o atentamente.
— Eu não sou contra — respondeu rápido demais, pegando a pasta dela. — Falei com Sert Kaya sobre as medidas — meia verdade. — Ele quer relatórios diários, controle, burocracia, índices. Tudo isso pode nos tirar do eixo.
Os lábios de Evren se fecharam num traço fino. Não podia confessar sobre a nomeação — não agora, quando a noite deles estava só começando. Não queria colocar mais peso sobre os ombros dela.
— Índices? — Bahar franziu o cenho. — Já não tínhamos falado que ele ia pressionar? — perguntou, sem entender por que ele voltava ao mesmo assunto, desviando tão bruscamente de Meryem Özkan.
— Vai pressionar — confirmou ele, seco. — E nós precisamos de tempo para ajustar tudo.
— Ajustar o quê, exatamente, Evren? Não te entendo.
Ela o olhou com tensão… e de repente sorriu, o olhar suavizando-se. Evren soltou o ar, aliviado — ela não insistiria. Bahar recuou um passo, decidindo não forçar.
— Vamos pra casa — pediu ele, e havia doçura na voz. — Acho que é nosso primeiro fim de semana juntos. — Pela primeira vez no dia, a voz dele soou com entusiasmo, até com certa alegria. — Vamos só ficar a sós, conversar com calma.
O rosto dela se iluminou por um instante — pensar em casa, em silêncio, na voz dele, na presença dele tão próxima… tudo isso parecia tentador, quase irresistível. Mas a alegria durou pouco. Lembrou-se de que não estariam sozinhos: tinha convidado Rengin e Çağla. A mãe viria, Reha também… Com tanta gente, não haveria tempo algum para ficarem só os dois.
Evren, porém, parecia animado como um menino, com a ideia do primeiro fim de semana a dois — e ela nem pensara nisso. Como explicar? A casa cheia, o barulho, a rotina… Tentou disfarçar o desapontamento — afinal, as palavras dele a faziam sonhar: só eles dois, sem deveres, sem preocupações, sem o mundo.
— Evren — ela colocou o capacete, e ele ajudou a prender a fivela. — Convidei a Rengin — confessou. O olhar dele ficou duro, cortante. — Ela vem amanhã. Vamos revisar o protocolo da pesquisa — apressou-se em acrescentar.
O entusiasmo de Evren se quebrou contra aquela simples frase. No rosto, primeiro o espanto, depois um desapontamento silencioso.
— Quer trabalhar no fim de semana? — perguntou.
— Ficarei feliz se você cuidar do almoço — sorriu ela. — Você faz isso muito bem.
— Você a convidou? — a voz dele vacilou um pouco; ignorou a brincadeira dela. — Por quê… Você sabia que eu queria… Nosso primeiro fim de semana.
— Queria passar o fim de semana só comigo? — suspirou ela. — Achei que nós dois precisássemos colocar os papéis em ordem, e Rengin pode ajudar. Não estamos sozinhos naquela casa, Evren — lembrou-o.
Ele inclinou a cabeça, em silêncio, procurando palavras que apagassem todas as suspeitas. Em vez da verdade sobre sua nomeação, começou a falar de Cem:
— O Cem… ele é uma peça no jogo do Sert. Não quero que acabe na rua, Bahar, nem que a polícia… — parou no meio da frase. — Vamos pra casa. Tenta esquecer tudo, só por esta noite. — Fitou-a, o olhar fixo nos lábios dela, descendo devagar, como se já a despisse com o pensamento. — Esta noite é nossa. Você não vai me tirar isso! — disse com firmeza.
Bahar o observou com atenção. Os olhos se estreitaram um pouco; em seu interior surgiu um lampejo de surpresa com aquela teimosia em fugir do assunto. Pousou a mão sobre o antebraço dele — um gesto simples, que podia ser consolo ou leve exigência, mas que naquele instante parecia mais um sinal de paciência, uma tentativa de evitar a discussão.
— Está bem — concordou por fim. — Vamos pra casa.
Ele assentiu, e nesse gesto havia mais resignação que alegria. O motor da moto rugiu, abafando o ruído da rua, e eles saíram pelo portão do hospital…
***
Ele não conseguia deixar o hospital. Kamil estava sentado no banco perto da entrada, segurando o celular como se fosse sua única âncora. Olhava para os vidros do saguão, para as pessoas que apareciam e desapareciam nas janelas. Uns passavam apressados, outros falavam com urgência — e ele, alheio a tudo, continuava rolando a tela, tentando encontrar alguma explicação para o que estava acontecendo.
Parou num título: “Bahar: os milagres que transformaram o hospital”.
Abaixo, uma foto — Bahar de jaleco, o olhar firme e suave ao mesmo tempo. Voltou a deslizar o dedo: histórias de sucesso, vidas salvas, depoimentos de pacientes, comentários exaltando “a médica que faz milagres”.
Cada palavra na tela lhe doía como uma pancada numa ferida aberta.
Não via apenas as conquistas dela — via o abismo que crescia entre os dois: o nome dela nas manchetes, o brilho nos olhos das pessoas, e o silêncio da própria casa, onde já não havia ninguém para se alegrar com suas vitórias. A mão se contraiu ao redor do celular, as unhas cravando-se na pele da palma. Dentro do peito, algo denso se expandia — não só a dor, não só a perda, mas uma inveja crua e absurda: ela tinha redenção e reconhecimento; ele, apenas o vazio e a solidão.
Kamil continuou rolando o feed, e cada nova frase lançava uma sombra sobre a própria vida. Parecia que todos aqueles elogios não eram sobre milagres dela, mas sobre o modo como a vida o havia deixado para trás.
Levantou os olhos — e os viu: Bahar, com a bolsa no ombro, ao lado do professor Evren, aquele que nunca chegara a tempo para sua Ayşe. Os dois subiram na moto, trocaram um olhar leve, quase despreocupado. O motor rugiu, e Kamil sentiu algo estalar dentro dele.
A moto partiu, o som do motor o despertando como um choque. Eles se afastaram juntos, desaparecendo na escuridão da estrada, e Kamil ficou ali, sozinho, com o celular entre as mãos, no banco em frente ao hospital. De repente, o mundo em que vivia pareceu mudar de eixo. A noite voltou a ser apenas noite — fria, opaca, sem promessas.
***
A noite estava mais fria, já escura. A casa respirava calor, chamava com o brilho das janelas. Yusuf estava no pátio. Poderia ter ido embora, mas a palavra dada a Bahar ainda o mantinha ali. Não podia decepcioná-la. Não podia simplesmente partir sem dizer nada… e se fosse embora, o que isso mudaria em sua vida? Voltaria a trabalhar como mecânico numa oficina e deixaria de lado o sonho de ser médico?
E se o professor Evren fosse mesmo seu pai — como viver na mesma casa com o homem que, talvez, fizera parte do passado de sua mãe?
E se não fosse ele, mas o professor Serhat?
Yusuf não compreendia tudo o que lhe acontecera naquele dia… mas o que mais o assustava era outra coisa: e se nem Serhat, nem Evren? Se nenhum deles fosse seu pai… então quem era? Quem era, de verdade, sua mãe?
Yusuf mal conseguia se manter de pé. Deu um passo à frente e abriu a porta num ímpeto, como se a luz da casa pudesse salvá-lo dos próprios pensamentos.
Cruzou o limiar entendendo que não podia ir embora — nem ficar, mas ir embora era impossível. E isso, talvez, já fosse uma escolha. A palavra prometida a Bahar o sustentava.
Ao fechar a porta, mergulhou nos sons familiares da casa: o apito da chaleira na cozinha, o som de uma gaveta sendo fechada na sala, passos lá em cima.
A casa vivia. Havia vida, havia família — e ele, sem perceber, tornara-se parte dela.
Umai foi a primeira a notá-lo. Saiu para o corredor.
— Você parece distante — encostou o ombro na parede, os braços cruzados. — Aconteceu alguma coisa?
Yusuf deu de ombros, não respondeu e passou por ela em direção à cozinha — o cômodo favorito de Bahar.
Percebeu que ali pensava melhor. Na penumbra suave, sentado no canto do sofá, iluminado apenas pela luz do aquário.
Umai o seguiu em silêncio, observando-o se sentar e apoiar os cotovelos na mesa, o queixo nas mãos.
— Foi algo no hospital? — perguntou baixinho, sentando-se ao lado dele.
— Nem sei como dizer — murmurou Yusuf, mordendo o lábio.
— Só diz — ela o cutucou de leve com o ombro.
Uraz entrou na cozinha com uma caneca vazia. Colocou-a na pia e se virou.
— Diz logo que a mulher morreu — falou, cruzando os braços e apoiando-se no balcão.
— Uraz! — repreendeu Siren.
— O que foi agora? — retrucou ele. — Falei alguma mentira? Mulher, vinte e nove anos, vinte e quatro semanas de gravidez — morreu hoje na sala de cirurgia da mamãe! É fato! Querem esconder? Todo mundo aqui já é adulto, até a Umai não é mais criança!
Siren aproximou-se e empurrou-o pelo ombro.
— Não fala assim, Uraz! — tocou-lhe o rosto com a mão, tentando fazê-lo parar. — Você está exagerando!
Parla apareceu na porta, encostando-se ao batente.
— Querem que, no lugar dela, tivesse sido a mamãe? — explodiu Uraz, apontando o dedo para o nada.
Yusuf não reagiu à fúria dele.
— Não é sobre isso — respondeu com calma.
Todos se viraram para ele. Siren desligou a chaleira.
— O professor Evren… — começou Yusuf, mas a voz falhou; abaixou a cabeça.
Sentiu uma vergonha súbita, um peso que o esmagava — não sabia como dizer, mas também não podia calar.
— O que tem o professor Evren? — perguntou Umai, baixinho.
Uraz abriu os braços, balançando a cabeça, esperando o golpe final.
— Talvez… — Yusuf respirou fundo. — Talvez ele seja meu pai.
Siren, Umai e Parla o olharam, atônitas. Só Uraz bateu palmas devagar.
— Que maravilha! — riu nervoso. — Então a mamãe pode parar de ter filhos!
Yusuf empalideceu.
— Cala a boca! — gritou Siren, sem suportar o sarcasmo. — Isso não é brincadeira!
— E o que, não é verdade? — virou-se para ela. — O professor agora mora aqui, e o filho dele também. Essa casa tá virando o clã dos Yalçın!
— Uraz! — Siren agarrou o braço dele, tentando empurrá-lo para fora, mas lançou um olhar cheio de compaixão para Yusuf. — Você está se comportando como um moleque! O caso da Bahar é médico, não é você quem decide nada! Cuida da sua vida! — ordenou. — Desculpa, Yusuf. — E empurrou o irmão em direção à porta.
— Eles têm que saber! — insistia Uraz.
— Saber o quê, exatamente? — gritou Siren, já sem paciência. — Eu estava na cirurgia, e não era a Bahar! — repetia, como se tentasse convencer a si mesma.
— Então era o assistente, o filho do professor — provocou ele, resistindo à força dela.
— Não estamos no trabalho, — disse Yusuf com calma.
— E essa nem é sua casa, — zombou Uraz.
Umai o encarou, pronta para se levantar e acabar com a discussão.
— E também não é a sua, — lembrou Siren. — Essa casa é da Bahar. E você, Uraz, mora aqui por causa da nossa mãe. Mora com sua esposa e seus filhos!
Parla permaneceu em silêncio. Umai, enfim, se levantou. Yusuf desviou o olhar para a janela — as palavras de Uraz não o atingiam mais. Siren conseguiu empurrá-lo para fora, com a ajuda de Umai. Depois, Umai voltou e sentou-se ao lado de Yusuf.
— Yusuf, — ela apertou a mão dele.
— Mamãe disse que meu pai era Serhat Özer. Mas hoje descobri que pode ser Evren Yalçın — confessou ele, dando de ombros. — Os dois sabiam que havia uma criança, mas nenhum quis o meu nascimento. Nenhum quis saber de mim. E agora, de repente, os dois se interessam. Estranho, não é? Antes, nenhum pai; agora, dois de uma vez.
Parla se aproximou e sentou-se do outro lado.
— O meu pai também não sabia que eu existia — disse baixinho.
— O seu não sabia, — respondeu Yusuf, olhando-a. — Os meus sabiam. Vê a diferença?
Os três suspiraram juntos.
— E o que a Bahar disse? — perguntou Umai.
— Disse que tudo vai se resolver — riu Yusuf, sem humor. — Mas como, eu não sei.
— Você sempre dizia que sabia quem era seu pai, — lembrou Umai.
— Sim… — abaixou a cabeça. — Mas agora parece que minha mãe teve… — hesitou, corando. — Dois homens. — Não conseguiu dizer mais.
Parla e Umai se entreolharam.
— Os dois sabiam de mim, mas nenhum quis assumir — continuou Yusuf. — E agora, de repente, estão curiosos. Não acho isso normal. E não quero nada deles.
Umai tocou a mão dele com carinho, aproximou-se e o abraçou. Parla fez o mesmo, pelo outro lado. E ali ficaram, os três, no cantinho favorito de Bahar — iluminados apenas pela luz suave do aquário…
***
Iluminados pelo poste da rua, eles estavam encostados no carro. O ar morno da noite tardia cheirava a sal e batata frita. İsmail segurava um saquinho de papel de onde escapava o aroma irresistível de fritas crocantes e hambúrgueres suculentos.
— Já que você nos comparou a adolescentes — começou ele, em vez de uma saudação — o jantar tinha que estar à altura.
Colocou o pacote sobre o capô do carro e tirou dele uma embalagem vermelha de batatas, caixinhas de hambúrguer.
— Até trouxe ketchup — disse, virando-se para Nevra. — Ou você prefere molho de queijo? — fez uma careta leve. — Desculpa, nem perguntei o que você gosta.
Nevra riu com doçura, apoiando-se no braço dele.
— Eu como praticamente de tudo — respondeu, sorrindo. — Principalmente quando é das suas mãos. — E abaixou o olhar.
O sorriso de İsmail se abriu; os ombros se endireitaram, como se as palavras dela o tivessem preenchido de força.
— Está tentando me seduzir com batata frita? — riu ela, o olhar brilhando.
— E o que mais poderia seduzir uma mulher que já sabe tudo sobre os homens? — devolveu ele, divertido.
— Cuidado, está quente — avisou, abrindo o papel do hambúrguer.
Aproximou-se; os dedos roçaram a mão dela.
— Deixa — disse Nevra sem afastar-se. — Às vezes, o quente é o mais gostoso.
— O mais gostoso é o mais perigoso — murmurou ele, e a mão deslizou de leve pelo cotovelo dela.
— E os guardanapos? — perguntou Nevra, espiando dentro do saco. — Pra fazer tudo direito.
Ele rapidamente tirou alguns guardanapos e os colocou sobre o capô, transformando-o numa mesa improvisada. Satisfeito, virou-se para ela. Ia pegar uma batata, mas Nevra foi mais rápida: tirou uma, soprou, mergulhou no ketchup e levou até os lábios dele.
Os dedos de İsmail seguraram o pulso dela, mas em vez de morder a batata, seus lábios tocaram os dedos dela.
— Cuidado, está quente — sussurrou ela, equilibrando-se nas pontas dos pés, segurando-se firme na mão dele.
— Eu já estou acostumado com o quente — sorriu ele, com aquele sorriso espontâneo que a deixava sem chão. — Principalmente quando é por sua causa.
Nevra riu, ajeitando o cabelo. Parecia leve, quase etérea, mas ele sentia o coração dela disparado, a respiração curta, o pensamento confuso. Ele estava perto demais.
— İsmail… — ela se virou um pouco, e a mão dele roçou de leve o ombro dela.
— Não foge — murmurou ele, inclinando-se. — Eu não vim pelo hambúrguer.
Nevra o olhou de baixo para cima, o olhar trêmulo, cúmplice. İsmail a fitou por um longo momento, então pegou uma batata e a levou aos lábios dela. Nevra umedeceu os lábios e mordeu a ponta.
— Então você já decidiu? — perguntou como quem disfarça, olhando para o lado, fingindo indiferença.
— Tudo — respondeu ele, firme. — Como combinamos. — Abriu a caixinha do hambúrguer. — Ele merece.
As palavras flutuaram entre os dois e se dissolveram no riso — leves como sal no molho — deixando só um calor morno no ar. Nevra inclinou a cabeça, e ele a beijou de leve na têmpora.
Comiam batata frita, riam, brincavam com os dedos — como crianças que, por um instante, decidiram não pensar no amanhã. Ele lhe estendeu o hambúrguer.
— Você também tem que comer — ela sorriu satisfeita.
— Só se você der a primeira mordida — respondeu ele, aproximando o sanduíche dos lábios dela. — Assim… — sussurrou quando ela mordeu. — Adolescentes não dividem comida. Dividem o momento.
Nevra riu baixinho. İsmail a envolveu devagar, testando se ela deixaria — e ela deixou. O pacote de batatas quase escorregou da mão dela.
— Hoje — murmurou ele, inclinando-se — só nós e os hambúrgueres.
Eles se aproximaram, quase ao mesmo tempo.
E justo no instante em que iam se beijar, o farol de uma moto iluminou seus rostos. O ronco do motor cessou. Evren e Bahar desmontaram, tirando os capacetes.
Nevra estava nos braços de İsmail — uma batata frita numa mão, um guardanapo na outra — e entre eles, toda a doce e ridícula ternura da idade deles.
— Senhora Nevra? — Bahar não conseguiu esconder o espanto; deu um passo à frente, entregando o capacete a Evren. Ele a segurou pelo cotovelo, detendo-a.
Nevra recuou, o rosto pálido, a confusão se transformando em um pânico contido. Deu um passo atrás, ainda com a caixinha de fritas numa mão e o guardanapo na outra, tentando disfarçar o gesto de limpar os lábios.
Bahar os olhou, sem saber o que fazer — sorrir? fingir que não viu? ir embora?
Evren colocou os capacetes sobre o banco da moto e passou a mão pelas costas de Bahar, num gesto quase instintivo de acalmá-la. Tossiu, como se fosse dizer algo, mas ficou em silêncio.
Pela primeira vez, eram eles que surpreendiam alguém — e não o contrário.
— Professor Evren, doutora Bahar — disse İsmail no mesmo tom com que costumava anunciar decisões nas reuniões. — Noite linda, não é? — sorriu, como se nada daquilo fosse fora do comum.
Bahar piscou, incapaz de achar as palavras.
— Sim… quente — respondeu Evren, ainda segurando o braço de Bahar. — Vamos.
Ele praticamente a puxou em direção à casa, e Bahar, ainda atordoada com o que vira, deixou-se conduzir. Evren achava que estava salvando a situação — mas só piorava.
Senhora Nevra. Senhor İsmail. Aquilo simplesmente não cabia na cabeça dele.
— Evren, eu posso andar sozinha… — sussurrou Bahar. Virou-se e viu Nevra despertar de seu próprio espanto, recuando do carro.
— Que encontro, hein… — disse Nevra, erguendo as mãos; parte das batatas escapou do pacote e caiu no asfalto. — Vai! Anda logo! — gritou para İsmail, acenando freneticamente, fazendo o resto das fritas voar.
— E você? — ele ria, divertindo-se com o absurdo da cena. Tudo nele dizia que, no fundo, queria que todos soubessem. E agora parecia satisfeito.
— Depois! — Nevra, ainda acenando, correu atrás de Bahar e Evren.
Bahar já estava na sala, sem saber o que dizer. Evren, ainda com a mão firme em seu braço, sussurrou:
— Só respira. — A outra mão dele deslizava suavemente por suas costas.
Nevra entrou ofegante, com o saquinho de batatas vazio na mão.
— Bahar! — sua voz soou alta demais. — Espera, eu posso explicar!
O silêncio durou um segundo — e então Bahar começou a rir. Primeiro baixo, depois mais alto. Evren não resistiu e acabou rindo também.
— Não precisa explicar nada — murmurou Bahar entre risos, enxugando lágrimas nos olhos.
— Bahar, foi um mal-entendido — apressou-se Nevra. — Nós só… estávamos conversando.
— Senhora Nevra — interrompeu Evren, tossindo levemente. — Estamos todos cansados. Vamos jantar e descansar.
Uraz descia as escadas.
— A gente estava esperando vocês. Estamos com fome — disse.
Bahar virou-se para o filho. Assentiu. O instinto prático tomou conta dela: já ia correr para a cozinha… mas algo em Evren mudou. Ele se virou lentamente para Uraz; os dedos apertaram com força o braço de Bahar.
— Esperando? — repetiu, a voz tensa. — Vocês estavam esperando? — O tom tremeu, não era grito ainda, mas já cortava o ar como uma lâmina.
— Evren… — Bahar pousou a mão sobre a dele.
— Vocês prepararam algo? — a voz dele subiu meio tom. — Puseram a mesa?
Da cozinha surgiram Umai, Parla… e Yusuf. Yusuf olhava para Evren, atento, quase em guarda.
— Fizeram alguma coisa ou só esperaram? — os dentes de Evren se cerraram.
Um silêncio pesado caiu. Uraz parou no último degrau. No alto da escada apareceu Siren. Umai, Parla e Yusuf se agruparam instintivamente, como se buscassem proteção uns nos outros.
— Por que vocês esperam pela Bahar?! — gritou Evren. — Por que é sempre ela quem tem que servir todos vocês?!
— Evren — sussurrou Bahar, mas ele nem a olhou.
— Ela não é empregada nesta casa! — a voz dele ecoou. — Ela não é obrigada a alimentar, consolar e resolver tudo sozinha!
Virou-se para Uraz: — E você, Uraz — o olhar dele o atravessou — já é pai! O que fez hoje pra garantir o jantar da sua própria família?!
Siren, por um instante, quis abraçá-lo. O olhar de Evren a assustava, sim — mas suas palavras eram exatamente o que ela tentava fazer Uraz entender há meses.
Umai trocou um olhar confuso com Parla; Parla já estava pronta para voltar à cozinha, acender a luz, fazer qualquer coisa. Sentia-se envergonhada pela primeira vez.
Evren lançou um olhar rápido a Yusuf, como que certificando-se de que ele estava ali, e voltou-se para Bahar.
— Bahar — a voz dele agora era mais baixa, mas firme — seus filhos já são adultos.
Ele a envolveu pelos ombros. — Está na hora de, pelo menos uma vez, cuidarem de você. Não com palavras — com ações.
Bahar empalideceu, cambaleou levemente, mas ele a sustentou.
— Evren, por favor… — sussurrou ela.
— Não, Bahar — disse ele, com uma determinação fria. — Chega!
Jogou as chaves da moto sobre a mesa.
— Yusuf, guarda os capacetes e põe a moto na garagem — ordenou.
Yusuf quis recusar, mas não teve coragem. Pela primeira vez, via aquele Evren — duro, glacial. Um homem que podia explodir num segundo.
— Nós vamos embora! — anunciou Evren.
— O quê? — Bahar se assustou. — Pra onde?
— Que se alimentem sozinhos — cortou ele, puxando-a pela mão.
— Evren… — ela ainda não compreendia o que estava acontecendo, mas o seguiu.
— Evren, por favor… — Nevra tentou detê-los, com o saquinho vazio de batatas ainda na mão. — Bahar!
— Depois, senhora Nevra — respondeu ele, afastando-a com gentileza, mas firme. — Pode continuar seu encontro. Alguém já cuidou de você, não é? — acrescentou, incapaz de conter o sarcasmo. — Fizeram seu jantar. Mas e a Bahar? Alguém aqui pensou nela? — o olhar dele varreu todos. — Que ela ficou horas na sala de cirurgia, que trabalhou o dia todo, e ainda tem que vir pra casa e cozinhar pra vocês, servir, limpar? Isso acabou! Eu não vou permitir!
Ele respirou fundo. — Ou todos juntos, ou nada. Eu simplesmente levo a Bahar daqui!
Siren desceu as escadas.
— Bahar, fica — pediu, em voz baixa. — Não vai assim.
Mas Bahar já não ouvia. Tudo acontecia rápido demais. Ela apenas o seguiu — e a porta bateu atrás deles.
O som ecoou pela casa. Todos olharam para Uraz. Ele deu de ombros, sem entender o que esperavam dele. O silêncio tomou conta da sala…

CAPÍTULO 9. PARTE 4

Eles caminhavam em completo silêncio. Evren segurava firme a mão dela e olhava para frente. Bahar, adaptando o passo ao dele, mal conseguia acompanhá-lo. Ela nem sabia para onde estavam indo; apenas seguia ao lado dele pela rua, junto às casas. Entendia toda a raiva que ele havia despejado sobre os dela e, ao mesmo tempo, não fazia ideia de como trazê-lo de volta para casa — afinal, não podiam simplesmente seguir em uma direção desconhecida, sem um destino em mente.
O som dos passos deles se perdia no barulho dos motores dos carros que passavam. Bahar olhou de soslaio para ele — aquela expressão teimosa, os gestos bruscos demais. Parecia que ele falava em silêncio, sem palavras, e ela quase conseguia ouvir o discurso dele. Bahar suspirou. O ar ficou ainda mais úmido; uma brisa leve trouxe o cheiro de sal misturado com a poeira da rua.
— Está calada? — ele finalmente falou. — Não vai dizer nada? — irritou-se, sem se virar para ela. — Acha que eu estou errado?!
— Evren… — ela tentou parar, mas ele a puxou, não permitindo.
— Nem começa! — cortou ele, como se não tivesse acabado de exigir explicações. — Isso não é um escândalo! É só uma terapia familiar! Primeiro ninguém desce para o jantar, e depois ficam esperando que a gente cozinhe! Bahar… — agora ele parou, e ela suspirou aliviada, tentando recuperar o fôlego. — O que eu disse foi só para que eles fizessem o próprio jantar! Que cuidassem de você pelo menos uma vez — lembrou ele. — Considere nossa missão humanitária encerrada. Eles estavam esperando que a gente os alimentasse?! — ele se inflamou novamente e se virou para ela.
— Eles só estavam esperando por nós — disse Bahar em voz baixa.
— E eu estava esperando por este fim de semana! — Evren fitou os olhos dela. — Você acha que tem obrigações só com eles? — ele se aproximou.
Bahar assentiu levemente. Não se justificava, apenas o olhava, tentando conter o sorriso… ele era tão adorável quando estava bravo. Raramente o via assim — e agora só queria abraçá-lo; mordeu o lábio para não fazê-lo.
— Por que você tenta salvar todo mundo o tempo todo? — perguntou ele, a voz mais baixa, mas os lábios ainda tensos, a respiração curta e rápida. Ele claramente ainda não tinha se acalmado, mas a fúria começava a se dissipar. — E quem vai te salvar?
Ela entendia que ele estava furioso — com ela, consigo mesmo, com a casa dela e com todos os que viviam lá — com tudo o que sempre se colocava entre eles, fazendo parecer que o tempo para os dois simplesmente se repetia e sumia.
— Eu não estou me afogando — ela se aproximou um pouco, a mão pousando em seu ombro.
Evren a abraçou de imediato, o cenho levemente franzido, procurando em seus olhos algum sinal de como ela se sentia.
— Não é motivo para nadar até a exaustão — murmurou ele.
Bahar sorriu e olhou ao redor, tentando descobrir de onde vinha aquele cheiro forte de tinta. Viu os andaimes vazios perto de uma casa em frente à qual haviam parado. Os pintores já tinham ido embora, deixando os baldes lá em cima. Ela passou a mão pelo ombro dele, pelo braço, o abraçou pelo pescoço e encostou-se a ele, olhando por sobre o ombro — a luz dos postes desenhava manchas no asfalto, irregulares como o ritmo do coração deles.
— Você só ficou irritado — sussurrou ela, o sopro de sua respiração roçando o pescoço dele. — E aqui está cheirando muito a tinta — observou.
— Isso é óbvio — concordou ele, mais calmo, apertando os dedos dela. Voltaram a caminhar ao longo das casas.
— E para onde estamos indo? — perguntou ela com cuidado. — Evren, vamos voltar — pediu Bahar. — Nós dois estamos cansados.
— Não! — respondeu ele, categórico, lançando-lhe um olhar de lado. — Lá tem gente demais.
— E aqui cheira a tinta e está esfriando — ela diminuiu o passo, obrigando-o a reduzir também. — E eu estou com fome.
Evren parou e se virou para ela. Observou-a com o cenho levemente franzido, e sob a luz dos postes o rosto dele parecia outro. Piscou, suspirou, os ombros relaxaram um pouco.
— O quê? — perguntou.
— Eu estou com fome — repetiu ela. — Vamos pra casa.
— Você está falando sério? — Evren se inflamou de novo. — Depois de tudo o que aconteceu?
Bahar o olhou, erguendo as sobrancelhas, como se o deixasse decidir. Estava com fome, com frio, e olhava para ele de um jeito que deixava claro: havia um problema, e ela estava lhe dando a chance de resolvê-lo.
De repente, o rosto dele mudou. Um brilho familiar surgiu em seus olhos, e ela, intrigada com o meio sorriso dele, inclinou-se levemente.
— Táxi — disse ele, erguendo o braço.
— Evren — Bahar se endireitou, surpresa, fitando-o.
— Vamos — disse ele, já puxando-a em direção ao carro que parava.
— Pra onde estamos indo? — ela perguntou, deixando que ele a acomodasse no banco.
— Pra onde não haja parentes famintos — resmungou Evren, fechando a porta.
Ele contornou o carro, inclinou-se para dizer algo ao motorista e entrou pelo outro lado. Assim que o carro começou a andar, Evren recostou-se no assento; seus dedos encontraram os dela, apertaram sua mão. Colocou-a sobre o próprio joelho, olhando pela janela as casas e os carros que passavam.
— A gente não está indo pro hospital, né? — perguntou ela, aproximando-se. — E o Cem? — lembrou Bahar.
— Ainda não decidi — respondeu ele, tentando conter o sorriso. Pela primeira vez naquela noite, parecia satisfeito: estavam sozinhos, juntos, viajando pela noite. — Talvez para um hotel, onde possamos resolver todos os nossos problemas.
Bahar lançou um olhar ao motorista.
— Evren, você está falando sério? — perguntou, confusa.
— Esta noite é nossa — respondeu ele, voltando-se para ela. — Minha! — acrescentou. — E você está comigo! A Umay, Parla, Siren e Uraz que cuidem de si mesmos — são adultos, não precisam que a gente os alimente com colherzinha!
— E o Mert e a Leyla? — suspirou Bahar, tentando afastar a inquietação.
— Eles têm pais — respondeu ele com desdém.
— Então hoje você vai deixar a Leyla sem beijo de boa-noite? — ela se inclinou mais perto.
Evren soltou um riso breve, abrindo um sorriso satisfeito.
— Hoje eu só vou beijar você — sussurrou, baixo o bastante para que apenas ela ouvisse.
Bahar apoiou a cabeça no ombro dele, tentando relaxar, afastar os pensamentos sobre casa. Queria apenas ser mulher por um tempo, deixar que ele fosse homem. Queria que ficassem, por um instante, sem hospital, sem filhos, sem expectativas alheias…
***
Rengin saiu do hospital com a bolsa nas mãos. Olhava para a escuridão com um olhar cansado. Todos já sabiam que ela havia sido afastada, mas ninguém falara com ela sobre isso — exceto Bahar. Até Ahu, sempre tão barulhenta, mantinha distância, como se não soubesse de que lado ficar.
O hospital atrás dela pulsava com vozes alheias e luzes nas janelas. Rengin fitava os poucos postes de luz, o estacionamento quase vazio e o carro dela parado mais adiante.
— Rengin — ouviu atrás de si, e nem se assustou.
Virou-se devagar. Serhat vinha em sua direção a passos rápidos. Ela raramente o via sem o jaleco — apenas calça, camisa com o colarinho aberto e as mangas arregaçadas.
— Você não precisava vir atrás de mim — tentou detê-lo.
— Precisava, sim. Não vou te deixar sozinha hoje — disse ele, alcançando-a.
— Você tem uma filha — lembrou ela.
— Justamente por isso — ele endireitou os ombros, embora os olhos estivessem vermelhos. — Preciso acreditar que ela vai viver — sussurrou, estendendo a mão.
Rengin apertou com força a alça da bolsa, como se se segurasse nela para não afundar.
— Acha que, só porque me afastaram, então você… — ela não terminou.
— Foi um erro — disse Serhat, tirando a bolsa das mãos dela e segurando-a pelo braço.
— É um fato — observou ela.
— Eu vou ficar do seu lado — afirmou ele, como quem tomava uma decisão.
Rengin suspirou e deixou que ele a conduzisse.
— Do meu lado? — perguntou. — De mim ou do meu fracasso?
— De você — respondeu ele. Pararam perto do carro dela, e ela apertou o botão para destravar as portas.
— Eu não preciso de piedade — disse Rengin, já dando a volta no carro para assumir o volante, mas Serhat a deteve e pegou as chaves.
Ele a fez sentar no banco do passageiro.
— Eu não sei ter pena — respondeu, fechando a porta. — Eu sei esperar — acrescentou, ao sentar-se no lugar do motorista.
— Sabe… eu achei que já tinha aprendido a não depender de ninguém — murmurou ela, desviando o olhar, engolindo em seco.
— Isso não é dependência — disse ele, ligando o motor. — É só um momento em que se pode apoiar em alguém, nem que seja por um instante.
Rengin o observava, percebendo que não esperava absolutamente nada dele. Talvez ele tivesse razão — aquilo não era dependência. Ela, sim, havia sido dependente de Timur — das decisões dele, da opinião dele, de se ele ligaria ou não, viria ou não… toda a sua vida consciente girava em torno de Timur e de suas ações.
— E se o Yusuf for mesmo seu filho? — perguntou ela em voz baixa. — O que você vai fazer então?
Ele ficou em silêncio, dirigindo. Serhat mantinha os olhos fixos na estrada.
— A Esra até ficou feliz — disse, por fim. — Feliz, como se entendesse que eu não ficaria sozinho. — Esboçou meio sorriso. — E isso me assustou, porque não quero que ela pense na morte. A vida inteira ela anda de mãos dadas com ela.
— Ela não pensa na morte — disse Rengin, olhando o perfil dele. — Ela sabe que você aguenta tudo.
— Eu não sei o que fazer se for verdade — confessou Serhat, sem olhá-la. — Porque o Yusuf tem razão. Eu e o Evren sabíamos que o bebê havia nascido, e foi conveniente deixar que outro fosse o pai. — Pausou. — E agora ele cresceu, está bem aqui, perto de nós.
Rengin voltou os olhos para a estrada.
— Todos cometem erros — sussurrou, sem querer comparando com sua própria situação. — Timur não sabia sobre a Parla.
— A Parla não é um erro seu — ele lançou-lhe um olhar rápido.
Rengin assentiu.
— O Yusuf também não é um erro de vocês, mesmo que ele pense isso agora — acrescentou ela. — A mãe dele escolheu criá-lo sozinha.
— O Yusuf sabia — ele apertou o volante com mais força, parando no sinal vermelho.
— Agora o que ele precisa é ter certeza de quem realmente é o pai — suspirou Rengin. — Pra Parla, isso foi importante.
— Eu criei uma filha — admitiu Serhat —, mas não estou pronto para um filho. Não é medo. É que eu não sei como encarar ele. Não quero ter que escolher entre a Esra e o Yusuf.
— Por que escolher? — perguntou Rengin.
— Eu me acostumei a cuidar só da Esra. Ela se tornou o sentido da minha vida — confessou ele, revelando pela primeira vez toda a sua confusão. — Nós vivemos só nós dois. Eu não sei o que é ser pai de um filho.
— Pois é, você já sabe cuidar — ela tentou confortá-lo. — Tem uma filha, talvez agora um filho. Vai aprender.
Serhat balançou a cabeça, sem acreditar, suspirou e pisou no acelerador. Os faróis rasgaram a escuridão — duas faixas de luz, como dois destinos paralelos que, ainda assim, seguiam lado a lado…
***
Bahar estava ao lado dele. Evren ainda não conseguia acreditar que realmente tinha conseguido tirá-la de casa — e não apenas tirá-la, mas convencê-la a não voltar, a passar aquela noite com ele. Entraram em um pequeno restaurante escondido entre as vitrines de um shopping. As portas de vidro se fecharam atrás deles, isolando o ruído da rua.
A luz suave e acolhedora, o cheiro de café e pão fresco, o som de um jazz leve — tudo parecia convidar à calma, mas Bahar não conseguia relaxar. Sentava-se ereta, sem encostar no encosto da cadeira, como se ainda estivesse em posição de defesa. Evren folheava o cardápio em silêncio, mas seu olhar permanecia fixo — esperava que ela respirasse, que baixasse a guarda.
— Evren — Bahar se inclinou para ele — estamos num restaurante, e em casa todos estão com fome — tentou novamente convencê-lo a voltar, falando como quem se justifica, procurando um motivo para estarem ali e não em casa com as crianças.
— Em casa tem adultos — respondeu ele, sem levantar os olhos. — Eles não vão morrer de fome, nem de passarem uma noite sem você.
— Eu só… — começou ela, estendendo a mão em sua direção.
— Só quer estar em todos os lugares ao mesmo tempo — interrompeu Evren, olhando-a diretamente. — Hoje, não! — disse com firmeza. — Hoje você vai estar só comigo.
Evren largou o cardápio e apoiou a mão na mesa, sem tocar a dela, como se colocasse um ponto final naquele assunto. Bahar olhou para ele, depois para o cardápio.
— E se eles fizerem alguma besteira? — perguntou.
Evren recostou-se na cadeira. Estava prestes a retrucar — “O quê?” — mas percebeu que ela o estava puxando para uma discussão que terminaria com eles indo embora apressados. E ele não ia ceder tão fácil.
— Então teremos assunto pro café da manhã — respondeu com um leve sorriso.
Ela o observou atentamente, sem entender de imediato o que ele quis dizer… e então percebeu: eles voltariam pra casa. Ele não a estava levando embora de vez. E nesse instante, o sorriso dele a tocou por dentro; o coração dela parou por um momento, depois bateu mais rápido.
— Você é… — ela começou, mas parou, inclinando a cabeça em rendição.
— Teimoso? — completou ele.
Bahar quase riu, baixou o olhar e ficou em silêncio, deixando que ele tivesse razão.
— O que vamos pedir? — perguntou ele.
Ela sorriu, balançou a cabeça devagar, e ele fez o pedido pelos dois. Logo trouxeram o chá, e Bahar se permitiu relaxar um pouco, tentando esquecer tudo o que acontecera durante o dia. Não, ela não esqueceu a paciente morta, nem Cem, nem as crianças, nem Yusuf. O nome Meryem Özkan já estava nos lábios, mas ao ver o olhar leve de Evren e a forma como ele parecia tranquilo, ela afastou o pensamento. Afinal, não seria o fim do mundo esperar um pouco para falar sobre isso.
Bahar não lembrava a última vez que havia saído para algum lugar. Ainda não entendia por que Evren escolhera um shopping. Pegou a xícara e tomou um gole.
Pela primeira vez em muito tempo, ela e Evren passavam uma noite juntos. Observava o interior do restaurante, o olhar vagando pela parede de vidro, pela galeria em frente, até se deter por um instante num painel luminoso que exibia um anúncio de joias. Ficou tão concentrada que não percebeu que Evren a observava com atenção — e depois, olhava além dela. Não sabia que na parede espelhada atrás refletia-se exatamente o que ela via.
— Já volto — disse ele de repente, levantando-se e saindo do restaurante.
Bahar assentiu. Sentia, enfim, o calor do chá aquecer-lhe por dentro; seus movimentos ficaram mais lentos, tranquilos. O garçom voltou, encheu sua xícara e se afastou. Ela bebeu um pouco, recostou-se, fechou os olhos. Por um instante, quis se enrolar num cobertor quente e dormir. Teria adormecido, se os lábios dele não tivessem tocado sua bochecha.
Bahar abriu os olhos. Diante dela, sobre a mesa, havia um pequeno pacote.
— O que é isso? — perguntou.
Evren olhou em volta, depois inclinou-se para ela.
— Estou surpreso — confessou — que você ainda não esteja salvando ninguém, que não tenha nenhuma tia desmaiada por perto.
— Evren — Bahar apertou a mão dele. — Não brinca com isso — pediu. — Senão elas realmente aparecem. — E voltou o olhar para o pacote. — O que você comprou? — insistiu. — Pra quê? — Bahar olhou dentro e tirou uma caixinha.
— Só porque sim, sem motivo — sussurrou Evren, observando-a segurar um colar com um pingente de pedra da cor exata dos olhos dela.
Bahar o encarou por um tempo, depois olhou para Evren.
— Por que esse? — perguntou.
Evren pegou o colar de suas mãos, abriu o fecho. Ela afastou o cabelo, e ele colocou a corrente em seu pescoço. O pingente caiu na curva do colo dela, e ele fechou o fecho.
— Essa pedra parece com seus olhos quando você está brava comigo — murmurou Evren e, segurando-lhe os ombros, beijou-lhe a têmpora.
Bahar riu, leve, com aquele riso que ele não ouvia há tempos.
— Você me surpreendeu — admitiu, levantando o colar e observando o brilho da pedra. — E sabe… — olhou para ele — estou começando a gostar disso.
— Espero um tipo de troca justa — disse ele, sorrindo satisfeito.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram; ela sorriu misteriosa, sem responder. Ele já ia se sentar quando, de repente, um homem de roupa de cozinheiro irrompeu no salão, gritando:
— Tem algum médico aqui?! — segurava uma faca da qual pingava sangue.
— Evren — o rosto de Bahar mudou. Ela estava prestes a repreendê-lo pela piada anterior, mas esqueceu tudo — a médica dentro dela despertou num instante.
— Bahar? — ele estendeu a mão, e ela, apoiando-se nele, se levantou.
— Fica atrás de mim — avisou Evren. — O que aconteceu? — perguntou, aproximando-se do homem. — Largue a faca — disse com voz calma e firme, estendendo o braço, impedindo Bahar de se aproximar.
O homem virou-se para ele; seus olhos estavam tomados de puro terror.
— Tem sangue… muito sangue… eu tirei, tentei ajudar — o homem balbuciava, desconexo. — A criança.
Ao ouvir “criança”, Bahar empurrou Evren e correu para a cozinha. Ele empalideceu ao vê-la desaparecer atrás das portas que se fecharam. Praguejando entre os dentes, torceu o pulso do homem, arrancou a faca das mãos dele, pegou uma toalha do garçom e colocou o objeto ensanguentado sobre o balcão. Em seguida, correu atrás de Bahar.
Na cozinha, o ar era pesado de cheiro de óleo e coentro. Uma mulher estava sentada no chão, encostada no refrigerador, com as mãos pressionando o abdômen. O sangue escorria entre os dedos. O avental já estava encharcado, e uma frigideira caída jazia ao lado. Bahar já colocava as luvas pretas.
— Todo mundo pra trás! — gritou ela, e os cozinheiros abriram caminho.
Ajoelhou-se ao lado da mulher. Evren arrancou um par de luvas das mãos de um cozinheiro e as calçou enquanto se aproximava.
— A faca entrou em ângulo, — disse Bahar rapidamente, examinando o ferimento. — Parte superficial do abdômen, perto da linha média.
— Sem sangramento arterial, — Evren se abaixou do outro lado, — mas já perdeu bastante sangue.
Bahar pressionou uma toalha sobre a ferida.
— Chamem uma ambulância! — ordenou.
— Já chamaram, — respondeu uma voz atrás dela.
— Levamos pro Pera? — perguntou Bahar.
A mulher gemeu, o olhar fixo nela. Agarrou as mãos de Bahar, tentando afastá-las ou apertá-las com mais força.
— Pressiona mais forte, — pediu Bahar a Evren. — Precisamos estancar o sangramento.
— Não se mova, — disse Evren, pressionando a toalha. — A gente vai te ajudar.
Bahar já sentia o pulso da mulher.
— A pressão está caindo, — avisou.
— Pulso? — perguntou ele.
— Fraco, — respondeu ela com um leve movimento de cabeça.
Trocaram um olhar — inspiraram e expiraram ao mesmo tempo.
— Precisamos de gelo, panos, qualquer coisa fria! — Bahar virou-se para os cozinheiros paralisados. — Rápido!
— A criança, a criança, — o homem que antes carregava a faca tremia num canto. — Nosso filho…
— Sai daqui! — gritou Evren, virando-se. — Agora!
Um dos funcionários o tirou da cozinha. Evren e Bahar voltaram a se encarar.
— Evren… — Bahar engoliu em seco. — Ela fez isso de propósito, — sussurrou.
— Não vamos discutir isso, — respondeu ele. — Vamos salvar.
Ao ver o sangue jorrar com mais força, Bahar pressionou um segundo pano. Evren o segurou.
— Segura firme, — disse ele. — Não solta.
— Foi um acidente, — murmurou a mulher, quase sem voz. — A faca escorregou…
— Não fala agora, — Bahar forçou um sorriso, mas o olhar era tenso. — Depois você explica tudo, agora só respira.
— E o bebê? — a mulher agarrou o pulso de Bahar com força. — Ele não vai sobreviver?
Bahar baixou os olhos.
— Bahar, — a voz de Evren a fez olhar pra ele. — Você está tremendo!
— Estou bem, — murmurou, tentando respirar com calma. — Só continua.
Evren percebeu como ela estava pálida. Segurava a toalha e, ao mesmo tempo, apertava a mão dela. Suas mãos entrelaçadas formavam uma só compressa improvisada. Quando o peito da mulher começou a estremecer, ele sentiu o pulso fraco.
— Pulso filiforme, — disse, tocando o punho dela. — Cadê a ambulância?!
— Onde eles estão?! — Bahar ecoou. — Liguem de novo! Digam que é ferimento por faca, possível gravidez, grande perda de sangue! Depressa!
A mulher arfou, e Bahar se inclinou sobre ela.
— Não fecha os olhos, ouviu? Fica comigo!
Evren segurava os ombros dela, tentando facilitar a respiração.
— Tem que deitá-la reta, cabeça de lado, — disse ele.
Agiam como uma equipe treinada, sem precisar de mais palavras. Juntos pressionavam a ferida. Bahar monitorava a respiração; Evren, o pulso. Às vezes ele enxugava o suor da testa dela, e ela, em resposta, limpava o dele com o dorso da mão.
— A ambulância chega em dois minutos! — gritou um garçom da porta.
— Peçam pra entrarem direto pela cozinha, não pelo salão! — respondeu Evren com alívio.
Bahar não soltou a mão da mulher até a chegada dos paramédicos.
— Mulher, cerca de trinta anos, grávida, ferimento por faca, — explicou Bahar rapidamente. — Perda de sangue moderada, mas pressão em queda, estado de choque.
— Entendido, — disse um dos socorristas, assumindo o controle. — Deixa com a gente.
Evren ajudou a colocá-la na maca, depois ficou de pé, exalando fundo enquanto a via ser levada.
— Evren, — Bahar já tirava as luvas, pronta pra segui-los.
— Nós não vamos! — declarou ele, firme, segurando-a.
— Mas… — Bahar hesitou. — E se…
— Fizemos tudo o que podíamos, — disse Evren, jogando as luvas no lixo e passando o braço pelos ombros dela. — Ela está viva.
— Mas, Evren… — Bahar não entendia.
— Ela está viva, Bahar. Não somos os únicos médicos da cidade. — Já deixavam a cozinha. — Tem gente pra cuidar dela. E ainda tenho esperança pro nosso jantar.
Bahar quase tropeçou. Olhava as próprias mãos, e de repente o enjoo subiu. A imagem da poça de sangue, da faca, ainda pairava diante dela.
— Acho que o jantar acabou, — murmurou, engolindo em seco.
— Vamos, doutora Özden, — disse Evren, abraçando-a pelos ombros. — Hoje você salvou mais uma vida.
— Nós, — Bahar tentou sorrir, mas não conseguiu. Ayşe ela não havia salvado, nem o bebê dela. — Nós dois.
— Um dia a gente vai conseguir jantar em paz, — disse ele com amargura. — Eu só queria uma noite normal.
— Você queria milagres, Evren Yalkın, — respondeu ela, pegando-o pelo braço enquanto seguiam. — Pois aí estão eles.
— Nem pense nisso — não te deixo voltar pro hospital! — o tom teimoso dele reapareceu.
— Evren… — tentou ela, em vão.
— Não! — cortou ele, decidido.
Ela tocou o pingente no pescoço, ainda quente.
— Bahar, — ele suspirou, enquanto caminhavam sem destino. — Com você, nunca dá pra saber como uma noite vai terminar.
As sobrancelhas dela se moveram, os lábios desenharam um sorriso discreto.
— E agora? — perguntou Evren, quando ela, de repente, virou em direção ao interior do shopping, não à saída.
— Vamos ver, — respondeu tranquila, mas encostando-se nele, como se temesse que fugisse.
— Isso é uma armadilha, — murmurou ele, quando Bahar o puxou para uma loja de roupas masculinas.
— Eu te ouvi a noite toda, agora é sua vez, Evren Yalkın, — disse ela, empurrando-o suavemente para dentro e cortando-lhe qualquer rota de fuga.
***
Ao sair do banheiro, Siren jogou o cabelo para trás e o enrolou na toalha. Depois do escândalo na sala, a casa ficou tão silenciosa, apesar de tanta gente. O cheiro do xampu se misturava ao de creme infantil e leite. Mert e Leyla dormiam no quarto ao lado. Siren conferiu as crianças, escutou por um instante, certificou-se de que tudo estava bem e voltou ao quarto.
Uraz estava perto da janela, olhando para a escuridão da noite. Numa mão, segurava uma xícara de chá; na outra, o celular. Nem bebia — apenas ficava ali, encarando o vazio. Do lado de fora, uma brisa farfalhava as folhas.
— Eles ainda não voltaram — informou.
O rosto de Siren mudou. Ele só pensava em Bahar e Evren, como se não existissem outros problemas.
— Pelo visto, não — ela se largou na poltrona.
— A gente comendo sanduíche como estudante… e eles? — ele se virou para Siren.
— Você podia cozinhar — bufou Siren. — Quem te impediu? Tem comida na geladeira. E repara: nem foi você quem comprou! — a voz dela endureceu, o olhar ficou mais cortante.
— Eu? — Uraz exclamou, indignado. — Você está falando sério?
— E por que não? — Siren saltou da poltrona. — O Evren cozinha — lembrou. — A Bahar cozinha.
— Evren, Evren… — Uraz pousou a caneca com força na mesa. — Agora tudo aqui se mede pelo Evren?
Siren não respondeu de imediato. Só inclinou levemente a cabeça e o observou, como se olhasse para um menino prestes a fazer birra de novo.
— Você mesmo quer ser como ele — disse baixinho. — Aprende com ele no hospital. Talvez esteja na hora de aprender também fora de lá.
— Eu sou cirurgião, Siren, não chef de cozinha! — Uraz explodiu na hora, virando-se para a janela. — Não tenho nada para aprender com ele em casa! Nada! Ele nunca teve família! Nunca! O que ele pode me ensinar? A ferver sopa?
— E por que você acha que isso ainda tem que ser obrigação da Bahar? — Siren se aproximou e o virou de frente para ela. — Por que você ainda senta no colo da sua mãe — comigo e com os nossos filhos junto? Isso te parece normal? — falando, ela empurrou o peito dele, forçando-o a recuar. — Eu sou sua esposa, mas não sinto isso! — tremia um pouco, tomada pela emoção. — No trabalho, você é médico e vive medindo forças com o Evren; em casa, você atormenta a Bahar porque decidiu que tem o direito de dizer a eles se devem ter filho ou não! Quem é você, Uraz Yavuzoğlu? — ela praticamente o encostou na parede. — Você não é só o médico que volta para dormir e sai cedo pra trabalhar de novo. Você tem filhos — e precisa estar com eles! Você nem sabe quem lava e passa a sua roupa! Não sabe quem, quando, como!
— Eu já vivo no limite — os ombros dele ficaram tensos. — Dois filhos, casa, contas…
Siren riu alto.
— Contas, Uraz?! Contas?! — empurrou-o de novo. — Quando foi que você pagou as contas da casa? Você sabe quanto custa manter este lugar? — ela prendeu os olhos nos dele. — Você tem a sua mãe, que decide tudo por nós — acrescentou, mais baixa. — Você tem a sua própria família, Uraz, mas, mesmo assim, resolveu dizer à Bahar como ela deve viver! Já resolveu a sua vida? Vai morar aqui para sempre? Sério? Por quê? Porque é confortável para você? Porque é fácil? Você nunca decide nada — nem antes, nem agora — e essa é a questão. O que é que você pretende decidir, se é a Bahar quem escolhe o que você come?!
— Não começa! — rosnou Uraz.
— Não começa? — Siren quase o esbofeteou. — Você se comporta como um moleque!
— Eu não sou moleque! — Uraz fechou os punhos.
— Então prova — exigiu Siren. — Assume a responsabilidade pela sua família. Para de se esconder atrás do hospital, de ser médico, do sobrenome do seu pai e do seu avô! Chega, Uraz!
— Você acha que é fácil, né? — a respiração dele acelerou; ele se aproximou, encarando-a. — Dinheiro não cai do céu, Siren. Criança precisa comer, casa precisa de cuidado. Minha mãe ajuda — e daí? Isso é ruim? — ele de fato não entendia todas aquelas acusações.
Siren sorriu de lado.
— É conveniente — concordou. — Conveniente demais, quando a gente pode não decidir nada sozinho. — Ele quis retrucar, mas ficou calado. — Eu não estou te acusando, Uraz. Só quero que a gente seja uma família. De verdade. Que a gente tenha nossa própria casa, nossas paredes. E não esse seu “mamãe” eterno.
Uraz rangeu os dentes e virou-se para a janela.
— E será que a gente dá conta? — a voz saiu mais baixa; a pose desapareceu. — Você tem certeza de que damos conta? Temos duas crianças pequenas. Aqui está tudo, aqui temos ajuda.
— Justamente: ajuda — Siren ficou ao lado dele. — Tanta ajuda que você esqueceu o que é passar um fim de semana com os filhos. Esqueceu que tem a mim. Esqueceu da gente! Uraz, a gente precisa virar família.
— Eu não quero repetir os erros deles — escapou de seus lábios.
— Deles? — Siren franziu a testa.
— Da minha mãe e do Evren! — soltou Uraz. — Ela também achava que controlava tudo. E no que deu? Gravidez ectópica, fugir do casamento, América. Agora ele está de novo por perto e, talvez, logo tenham um filho! O filho deles. E nós? — ele olhou para Siren, completamente perdido.
— O que você disse? — Siren não acreditava no que ouvira.
— Se a minha mãe engravidar — sibilou Uraz entre os dentes. — E se o Yusuf for filho do Evren, você tem noção do que isso significa? Em casa a gente vai ter…
Siren não o deixou terminar. O estalo do tapa soou tão alto que Mert suspirou no sono, no quarto ao lado. Uraz ficou paralisado, a mão no rosto.
— Nem ouse — disse ela, baixa, tremendo de raiva. — Nem ouse falar assim da sua mãe.
— Eu só… — Uraz balbuciou, confuso.
— Só um tolo — cortou ela. — Você tem medo de tudo — do dinheiro, do trabalho, até da sua própria família. Tem medo de alguém ser mais forte que você, porque você mesmo não quer crescer!
— Você que não ouse! — explodiu Uraz. — Se eu tivesse medo, não teria me casado com você. Eu teria ido para a residência no exterior!
— Bravo, Uraz — Siren bateu palmas. — Queria ferir? Conseguiu. Queria mostrar que é adulto? Adulto não fica medindo palavra. Adulto age! — Siren chegou ainda mais perto e arrancou o celular da mão dele. — Amanhã você vai passar o dia inteiro com as crianças. O dia inteiro!
— Siren… — o pânico cintilou nos olhos de Uraz.
— O dia inteiro — repetiu ela. — Talvez assim você entenda o que é família — que não é só uma palavra.
Ela se virou e saiu do quarto, sem lhe dar tempo de inventar desculpa. Uraz ficou sozinho… e sentiu um medo real. De repente percebeu o quanto ele e Siren eram diferentes… o quanto ela era mais madura que ele… e como ele parecia ter ficado parado no mesmo lugar…
***
Ela teria adorado ir embora dali, mas caminhava com segurança, como se soubesse o que estava fazendo — embora, na verdade, não soubesse. Não gostava de fazer compras: luz artificial, espelhos, filas, o cheiro das roupas novas. Mas aquele dia era diferente — era a primeira vez que estavam em uma loja juntos, e não apenas juntos, mas escolhendo roupas para ele.
Mais uma vez, Bahar arrastou Evren para longe da arara de camisetas pretas, tentando chamar sua atenção para camisas, calças, blusas de manga comprida, suéteres… qualquer coisa, menos camisetas pretas — ele já tinha o bastante, pelo menos na opinião dela (não na dele).
E lá estava ele de novo, segurando uma camiseta de um preto impressionante.
— Evren, — Bahar puxou a camiseta tentando tirá-la das mãos dele. — Você quase não tem roupas, e ainda quer comprar o que já tem. Não! Essa, não!
— Tenho o suficiente, — disse ele, com o olhar clínico de um cirurgião em ronda.
— Você acha que tem, — retrucou Bahar, pegando uma calça. — Anda sempre com as mesmas camisas.
— E me sinto ótimo nelas, — respondeu ele, ainda orbitando as araras, com o olhar constantemente voltando às peças escuras.
— Podia pelo menos fingir que está interessado, — ela cutucou o ombro dele e depois o empurrou de leve com o cotovelo.
— Estou interessado, — disse ele, fingindo dor, — em ver você tentando me vestir.
— Então observa com atenção, professor, — Bahar colocou nas mãos dele um monte de calças e camisas e seguiu adiante.
— Pra que isso? — perguntou ele, seguindo-a com ares de mártir. — A gente combinou isso?
— Eu te avisei, — Bahar respondeu sem olhar, aproveitando a ocasião ao máximo. — Considere uma terapia.
— De que tipo? — perguntou ele, tentando se livrar das roupas que ela empilhava em seus braços.
— Contra a sovinice, — sorriu ela, inocente.
— Então eu pago e ainda me trato? — ele se encostou no balcão.
— Exatamente, — respondeu Bahar, examinando as prateleiras. — Uma parceria de benefício mútuo.
— E se eu resistir ao tratamento? — ele arqueou a sobrancelha.
— Aí eu prescrevo uma nova sessão, — respondeu ela calmamente, tirando três jeans do cabide: azul, cinza e preto.
— Só isso? — ele ergueu a sobrancelha, surpreso. — Três?
— Evren, — ela se virou — isso é só o começo.
Ele suspirou, resignado, como quem se prepara para uma cirurgia longa e sem anestesia. Enquanto ela examinava mais peças, ele a observava — e então viu aquela camiseta preta, simples, macia, como uma sombra. Pegou-a, girando-a entre os dedos.
— Então essa também, — disse ele.
— Preta? — Bahar lançou um olhar de canto. — Não!
— Por que não? — Evren a colocou em cima do monte.
— Porque você só usa cores escuras, cinza, preto, — Bahar sorriu, olhando-o nos olhos. — Quero pelo menos uma peça clara, colorida.
— E eu quero estabilidade, — retrucou ele.
— E eu quero cor, — respondeu ela, tirando a camiseta e devolvendo-a ao cabide.
Ele esperou alguns segundos e, disfarçadamente, pegou a mesma camiseta de volta, olhando-a de relance, dos pés à cabeça.
— Evren! — Bahar riu. — Você se comporta como uma criança.
— Sou cirurgião, — disse ele. — Persistência é o meu diagnóstico.
Ela o encarou, devolvendo a camiseta ao cabide.
— Persistência não é um diagnóstico, — rebateu.
— Tem certeza? — ele deu um passo à frente. — Porque, nesse caso, você tem o mesmo sintoma.
— O que eu quero, — disse ela, levantando uma sobrancelha e fazendo uma pausa de propósito, sabendo que ele só prestava atenção nos lábios dela — é que você pareça um homem que não acabou de sair de um plantão.
— E você parece uma chefe mandona, decidindo tudo, — resmungou ele. — Ainda vai ter que me convencer a provar tudo isso.
Bahar ia responder, mas acabou rindo.
— Acha que não sei como te convencer? — ela se aproximou dele e olhou em volta, certificando-se de que ninguém observava.
O ar entre eles mudou — o fôlego de Evren falhou; ele deu um passo adiante, instintivo. Mais um segundo, e todas aquelas roupas poderiam ter caído no chão. Ele realmente estava pronto para abraçá-la, beijá-la ali mesmo, esquecendo completamente onde estavam.
— Você é insuportável, — ela sussurrou, recuando… sem saber quem dos dois havia usado o golpe proibido primeiro.
— Só agora percebeu? — ele pegou uma blusa de moletom cinza e, de novo, a camiseta preta. — Compromisso: eu experimento tudo o que você escolher, se levarmos esta camiseta. Senão, não compramos nada.
— Só uma? — ela perguntou, desconfiada.
— Juro pela hipocrisia de Hipócrates, — disse ele, com um meio sorriso.
Bahar o observou por um tempo, tentando descobrir se ele estava brincando.
— Tá bom. Uma, — suspirou, rendida.
O sorriso que iluminou o rosto dele tirou-lhe o ar. Tão raro ultimamente — sincero, quente, vindo direto do coração.
— Então vamos, doutora Bahar Özden, — disse Evren, com os olhos brilhando. — Estou pronto para o experimento.
Ainda sem acreditar que ele havia cedido, Bahar caminhava entre espelhos e manequins, e ele a seguia com o monte de roupas nos braços. Ela olhou para trás, confirmando que ele realmente a acompanhava até o provador. Evren parecia um viajante carregando bagagem demais.
— Evren, você vai mesmo experimentar tudo isso? — perguntou.
— Claro, — respondeu ele. — Prometi, não prometi?
Bahar sorriu. Evren caminhava tranquilo, escondendo um riso que ameaçava escapar. Estava satisfeito — mesmo sem jantar, mesmo com o caos da noite — porque sabia o que realmente queria. Observava as costas dela e desejava, com uma intensidade quase dolorosa, que aquela mulher teimosa e linda, que era ao mesmo tempo o seu porto e a sua tempestade, um dia vestisse justamente aquela camiseta preta… a dele.
***
Gülçiçek vestiu o robe e entrou na penumbra do quarto. A luz do abajur noturno pousava suave sobre a cama e sobre o tricô inacabado que ela deixara no criado-mudo. Já estava pronta para sentar de novo na poltrona e retomar o movimento automático — ponto por ponto —, mas as meias de Mert e Leyla há muito tinham deixado de ser apenas tricô: eram sua maneira de não chorar.
Ela olhou para o marido. Reha já estava deitado, recostado no travesseiro. Ela sabia perfeitamente que ele não dormia. A respiração, boa demais; os dedos, apertando forte demais a borda do cobertor.
— Não finge que dorme — suspirou e foi até a poltrona. — Eu vejo tudo.
— O que é que você vê? — Reha abriu os olhos e a encarou. — Um homem cansado de ficar deitado sem fazer nada? — Baixou o olhar.
— Vejo um homem que de novo esconde alguma coisa — disse ela, sentando-se. — Primeiro, você escondia a dor; agora… — não terminou e pegou as agulhas.
— Não tenho o que esconder — Reha voltou o olhar para a janela. — É só um pouco o coração… — a mão dele pousou no peito. Fez uma pausa, como se a palavra por si só denunciasse a fraqueza. — …doendo — admitiu. — Deve ser o tempo.
— O tempo — Gülçiçek largou o tricô. — Ou o orgulho?
— Você procura drama onde não tem — irritou-se ele.
Gülçiçek se levantou e se aproximou.
— Não — inclinou-se sobre ele. — Eu quero te ver vivo.
A palma dela repousou sobre o peito dele; Reha fez uma careta, e ela sentiu o coração dele bater irregular sob sua mão.
— Reha — sussurrou, abrindo a gaveta do criado e pegando um frasco de comprimidos. Tirou uma cápsula e lhe estendeu. — Por que você faz isso?
— Não precisa — ele tentou afastar a mão, recusando o remédio.
— Precisa — insistiu Gülçiçek. — Não vai passar sozinho. — Forçou a mão dele a abrir, colocou o comprimido e encheu um copo d’água. — Bebe.
Ela ficou ao lado, paciente, esperando.
— Gülçiçek, eu não quero que você me transforme num doente — ele acabou pondo a cápsula na boca e pegou o copo. — Já passei tempo demais debaixo de soro.
Quando se certificou de que ele engolira, ela tirou o copo e o recolocou no criado.
— Você ficou quase duas semanas no hospital como paciente! — continuou ao lado dele. — Duas semanas, Reha. Você morou lá anos como médico! Ou você se lamenta, ou finge que está ótimo, quando não está. Voltamos pra casa e tudo ia bem até a ligação; depois disso, parecia outra pessoa! O que está acontecendo, Reha?
Reha abaixou os olhos.
— Eu só quero… fazer alguma coisa — disse baixo. — Preciso sentir que ainda posso ser útil.
Gülçiçek suspirou e sentou-se na beira da cama. Sua mão pousou de novo no peito dele, e ele a segurou com a própria.
— Seja útil, Reha — disse ela. — Mas, pra isso, você precisa estar vivo e saudável. — Olhava para ele sem esconder a tristeza. — Vivi muitos anos com um homem que se aproveitava do meu cuidado e da minha atenção. Você acha que vou repetir o erro?
Ele apertou os lábios, quis responder, mas não conseguiu.
— Desculpa — apenas exalou. — Eu… não queria estragar tudo de novo.
— De novo? — repetiu Gülçiçek, fitando-o com atenção, e calou.
Reha desviou o olhar, pegou o copo no criado e deu um gole; tossiu, e ela se inclinou, ajudando-o a se erguer e abraçando-o. Sentiu o corpo dele tremer.
— Deita — a voz dela amaciou, como se recuasse. — Não banca o herói — pediu.
Reha suspirou e obedeceu. Gülçiçek ajeitou o travesseiro, cobriu-o; desta vez, ele não resistiu.
— Você está com raiva? — perguntou ele, de olhos fechados.
— Eu vejo que você está nervoso — respondeu. — E eu não quero ficar sozinha.
— Nem eu — Reha abriu os olhos e tentou sorrir.
— Homem tolo — suspirou ela, já pronta para se levantar, mas ele a segurou pela mão.
— Não vai embora — a voz dele veio tingida de pânico.
— Reha… — ela tentou soltar a mão.
— Não, não solto. Não é certo — ele a olhava, assustado.
— Eu não posso — disse, mas continuou sentada na beirada.
Reha jogou o cobertor para o lado e se ergueu com esforço; o olhar ficou turvo.
— Então chama um médico — disse, de propósito rouco. — A Bahar. O Evren. Que todo mundo saiba que eu não dou conta.
— Nem pense! — ela se virou de supetão; seus olhos faiscaram. — Não me chantageia!
— Então fica — a voz dele tremeu, com um pedido limpo, sem cobrança. — Só deita aqui do meu lado. A gente é casado, Gülçiçek. Você é minha esposa; não vou deixar você dormir em outro quarto. Se você sair, eu vou até lá e deito no chão, ao seu lado.
Ela apertou os lábios e o encarou longamente. Sabia que ele faria exatamente o que dissera — dormiria no chão, se fosse preciso. Suspirou, consciente de que, de algum modo, ele ainda apelava à compaixão dela. Assentiu, a contragosto, e se levantou. Reha ajeitou o cobertor, acompanhando cada gesto com o olhar, enquanto ela contornava a cama, tirava o robe e o jogava na poltrona. Gülçiçek deitou, e ele logo se aproximou, cobriu os dois com o mesmo cobertor e encostou a cabeça no ombro dela. Os dedos dela tocaram os cabelos dele; alisou-lhe a cabeça. A respiração dele era irregular, mas o calor do corpo — vivo, presente — a aquecia.
— Assim é melhor — sussurrou, abraçando-a, aninhando-se mais. — Viu? Já me sinto melhor com você aqui.
— Não mente — murmurou ela, sentindo o coração dele bater torto sob sua palma.
— É verdade — ele fechou os olhos. — Fica mais leve com você perto.
Ela não respondeu. Ficou deitada, escutando o compasso do coração dele, temendo até respirar. Ele quase adormecia.
— Hoje falei com a Rengin… — a voz falhou, e ele fingiu apenas buscar posição. — Eu vou chefiar o projeto com… — não terminou.
Gülçiçek imediatamente ergueu a cabeça.
— Reha — cortou, — deixa pra lá. Agora, descansa. — Tinha custado tanto acalmá-lo; o ritmo do coração dele enfim se ajeitara… ela não queria um novo susto ali, na cama deles.
— Eu só queria explicar que… — tentou retomar.
— Todo mundo tem passado — ela o interrompeu outra vez. — E erros também — acrescentou. — Só me diz: eu preciso me preocupar? — pela segunda vez naquela noite, fez a mesma pergunta.
— Não! Claro que não — apressou-se ele, rápido demais, seguro demais.
Reha se ergueu um pouco e a olhou nos olhos. Ela franziu levemente a testa; uma sombra de desconfiança passou pelo olhar. Quanto mais calma ela estava, mais ele se agitava.
— Reha — disse baixinho —, às vezes não são as palavras, mas as pausas que falam mais alto.
— Não é como você pensa — ele desviou o olhar.
— Eu não penso nada — respondeu Gülçiçek. — Só vejo que está sendo difícil pra você.
Ele ia retrucar, mas ela pousou com cuidado a mão no ombro dele.
— O comprimido já fez efeito — quase sorriu. — Não precisa provar nada agora — pediu. — Eu não vou te apertar. — Era como se prometesse.
Reha assentiu, aliviado, como quem ganha uma trégua, e se virou de lado.
Gülçiçek olhou as costas dele, escutou a respiração irregular e soube que o coração doía de feridas antigas — e que a conversa ficara pela metade. Puxou o cobertor, cobrindo-o melhor, e então se deitou de conchinha, abraçando-o, fechando os olhos.
A tensão entre eles não desapareceu: apenas baixou, como uma onda que recua, deixando marcas na areia. Ele adormeceu segurando a mão dela, apertando-a contra o peito — ali onde o coração batia —, e ela ficou muito tempo olhando a escuridão lá fora…
***
Bahar observava os manequins enquanto Evren estava no provador. Assim que a vendedora se virou, ele a puxou de leve para dentro da cabine.
— Evren — exclamou Bahar, e ele tapou sua boca com a mão. — Você ficou maluco? — sussurrou ela contra a palma dele.
— Preciso de uma confirmação — murmurou Evren.
— O quê? — Bahar não entendeu.
— A camiseta — só então ela percebeu que, de todas as peças que tinham escolhido, ele começara justamente pela camiseta preta. — Acho que está um pouco apertada.
Bahar piscou e balançou a cabeça.
— Você tá falando sério? — explodiu ela, afastando um pouco a cortina, tentando ver se alguém tinha notado que entraram juntos.
— Absolutamente — Evren a puxou mais para dentro, fechou a cortina e a virou de frente para ele. — Se você não quer que eu pareça “plantão da noite” — repetiu as palavras dela —, então precisa ter certeza de que o tamanho está certo.
Ele estava perto demais. As mãos de Bahar repousaram nos ombros dele. O hálito dele roçou sua bochecha. O perfume dele se misturava ao dela.
— Evren — ela se inclinou um pouco para trás, e as mãos dele pousaram em sua cintura, dando-lhe espaço para olhá-lo.
— Quer provar você mesma? — sussurrou ele, a respiração já entrecortada.
— O quê? — ela o empurrou pelo peito. — Claro que não!
— Por quê? — ele parecia realmente surpreso.
— Porque isso é loucura, Evren, é o seu tamanho e está perfeita em você — disse rápido demais.
— Tá com medo? — Evren a segurava firme, sem deixá-la recuar.
— Eu não tô com medo — ela parecia mais confusa do que assustada. — Só não entendo como eu provar vai te ajudar com o tamanho.
— Olha — pediu ele. — Tá apertada, não tá?
— Não, tá ótima — retrucou Bahar.
— Apertada — insistiu Evren.
Ele poderia ter puxado o tecido, mas temia soltá-la — temia que ela escapasse do provador no mesmo instante.
— Não tá pequena! — ela estava irritada, furiosa e quase rindo ao mesmo tempo.
— Então prova — exigiu ele. — Mostra!
— O quê?! — Bahar se indignou.
— Veste — disse ele, olhando nos olhos dela, o corpo tremendo levemente, denunciando o desejo insano de vê-la com aquela camiseta.
— Você tá louco — disse Bahar, já com menos indignação.
— Só um pouquinho — sussurrou ele, inclinando-se sobre ela, as mãos deslizando por suas costas. — Quero ver como fica em você.
O tremor dele passou para ela. A respiração dela ficou rápida, o coração batia forte no peito.
— Então sai — sussurrou ela, sem entender por que tinha cedido de repente ao pedido dele.
— Não vou sair — ele balançou a cabeça, os olhos presos aos lábios dela. — Eu vou ajudar.
— Evren — pediu ela.
Ele negou novamente com a cabeça e a virou de modo que agora estava de costas para a cortina, e ela, de costas para o espelho. Bahar suspirou, sentindo as bochechas queimarem… o desejo dele a contagiava.
— Vira pra lá — pediu Bahar.
As sobrancelhas de Evren se ergueram. Tudo nele dizia: “Você tá falando sério?” — só faltou abrir os braços. Ele tirou a camiseta e a estendeu para ela. Bahar suspirou, tirou lentamente a blusa e a entregou a ele, pegando a camiseta. Olhou para Evren, mas o olhar dele deslizava por seus ombros, descia, detendo-se no pingente que repousava na covinha do peito dela. Evren inspirou fundo. Bahar ficou imóvel por um segundo; nem percebeu que sua respiração se acelerara e o coração batia tão alto que abafava qualquer som lá fora. Vestiu a camiseta, que ainda guardava o calor do corpo dele. O tecido caiu macio, destacando tudo o que ele já conhecia pelo toque.
— Pronto — sua voz saiu rouca, quase falhando. — Satisfeito?
Por um instante, tudo ao redor desapareceu — as paredes, os espelhos, o ruído do shopping. Restou só ela, dentro da camiseta preta dele, um pouco grande demais. Um ombro exposto, revelando a linha da clavícula. Os cabelos caíam pelos ombros, emoldurando o rosto corado; a respiração entrecortada.
— Evren… — começou ela, mas ele já tinha dado um passo à frente.
Ele ficou tão perto que ela sentia o hálito dele sobre seus lábios.
— Eu sabia que era perfeita — murmurou ele —, mas não imaginei que você ficaria tão linda nela.
Ela queria responder, mas os dedos dele tocaram sua mão, e entre eles pareceu passar uma corrente elétrica. Ela estremeceu, desejando desesperadamente que ele não parasse. Evren passou os dedos pelo tecido, pelo ombro dela, pelos cabelos. Fazia isso devagar, quase com devoção, como se estivesse criando uma lembrança naquele instante. As mãos dela pousaram em seu peito, ficaram ali por um momento.
— Evren… não pode — sussurrou ela.
— Então diz que não quer — murmurou ele, o hálito roçando nos lábios dela.
Falando, ele quase a beijava. Bahar fechou os olhos, vacilou. Ele não lhe deu tempo de recuar, beijou-a de um jeito que o mundo inteiro se reduziu àquela cabine estreita e ao cheiro de algodão entre eles. A cortina balançou levemente com o movimento. Ele acariciou o rosto dela, deslizou pela nuca, pelos cabelos, e ela correspondeu com toda a paixão que vinha reprimindo. As mãos dela percorreram as costas nuas dele; ela se colou ao peito dele, beijando-o, se escondendo em seu pescoço.
As mãos de Evren subiram por baixo da camiseta… ele tinha pedido que ela a vestisse, mas não percebeu quando a tirou dela… quem parou primeiro, eles não sabiam… talvez os dois.
Ele ainda a segurava pela cintura, e ela encostava a testa no queixo dele, incapaz de se afastar. Do lado de fora, ouviam-se vozes, passos — o mundo seguia. Ela ergueu o olhar. Os lábios ainda úmidos pelos beijos, a respiração trêmula.
— Evren… — sussurrou ela, quase roçando os lábios nos dele. — Quero ir pra casa — seu dedo contornou os lábios dele —, agora! — exigiu, abraçando-o pelo pescoço.
— Provar o resto? — perguntou ele, sorrindo, sem se mover.
Ela assentiu, mas não saiu da cabine. Bahar mal conseguiu esperar enquanto ele experimentava o resto das roupas, e, quando finalmente saíram, ela mal podia conter a pressa até que ele terminasse de pagar e a vendedora guardasse tudo nas sacolas. Evren tomou o braço de Bahar, as sacolas na outra mão, e os dois deixaram a loja apressados, trocando olhares e sorrisos — ambos desejando chegar logo em casa. E ele nem tentou discutir com ela… afinal, ela tinha conseguido o que queria — estar novamente em casa… no quarto deles…
***
Eles estavam no quarto das meninas. Sobre a cama, havia uma grande caixa vazia de pizza. Parla, recostada em um travesseiro, segurava um pedaço na mão. Umay, encostada na beira da cama, estava sentada no chão com as pernas cruzadas. Yusuf permanecia perto da janela, com um copo na mão, olhando para a rua.
— Você está esperando por eles, não é? — Parla deu uma mordida na pizza. — Eles vão voltar, e nós aqui, no quarto, comendo pizza — disse, um pouco envergonhada. — Talvez devêssemos ter preparado alguma coisa?
Umay olhou para ela.
— Acha mesmo que eles só saíram para passear? — soltou uma risadinha. — O irmão Evren estava furioso. Aposto que eles vão comer por aí antes de voltar pra casa — ela parou por um instante, pensativa. — Espero que voltem… e que ele não leve a mamãe embora — suspirou Umay, e o olhar dela ficou sério. — E, com sorte, não vão ter perguntas pra nós — murmurou. — Embora, pensando bem… — lançou um olhar para Yusuf — nós é que temos perguntas.
— Já imagino quais — murmurou Yusuf, imobilizando-se ao ver o farol de um carro, mas ninguém entrou no pátio, e ele soltou o ar devagar.
Yusuf nem sabia direito por que esperava que eles voltassem. Talvez já tivesse se acostumado com todos ali — até com Evren. Mesmo sem saber o que viria pela frente, sentia como se precisasse da presença de Bahar. Havia uma calma estranha em saber que ela estava em algum lugar da casa.
— Então responde — pediu Parla, baixinho.
— O quê? — Yusuf colocou o copo no parapeito. — Querem perguntar sobre a mamãe? — olhou para as duas.
As meninas trocaram olhares e assentiram.
— Por que ela te disse que seu pai era o professor Serhat Özer? — perguntou Umay. — E por que agora você fala sobre o irmão Evren?
— Porque eles brigaram, e mamãe… — ele hesitou, baixando o olhar. — Porque talvez nem ela mesma soubesse — suspirou profundamente, como se começasse a aceitar aquela confusão. — Ou não quisesse dizer. Não sei.
— Mas por algum motivo ela escolheu o professor Serhat — observou Parla, endireitando-se. — E o professor Serhat sabia — acrescentou, balançando a cabeça —, mas nunca tentou te encontrar, assim como o irmão Evren — disse, encarando Yusuf.
— Agora eu entendo que os dois sabiam — disse Yusuf, amargo. — Uma coisa é pensar que você tem um pai biológico que simplesmente decidiu não participar da sua vida. Outra é descobrir que o homem que você achava que era seu pai pode não ser… e que o verdadeiro pode ser outro. Ou talvez nenhum deles. Eu não entendo — disse, perdido. — Não entendo!
Ele se calou, e as meninas também. Yusuf voltou-se novamente para a janela. O olhar deslizava pelo pátio, pelo moto de Evren estacionado ali — o mesmo que ele mesmo tinha colocado lá. Yusuf deu de ombros, ainda sem entender como um homem feito podia andar de moto, levando Bahar junto. Carro era outra história — Bahar às vezes preferia sair com ele, e não com Evren. Um leve sorriso passou por seus lábios e logo desapareceu.
— E quem você gostaria que fosse seu pai? — perguntou Umay, abraçando os joelhos.
Yusuf olhou para ela e desviou o olhar logo em seguida.
— Acho que ninguém — respondeu quase num sussurro.
— Nããão — prolongou Parla. — Eu conheço bem isso. Eu também dizia a mesma coisa quando descobri sobre o meu pai. Não — balançou a cabeça —, você só não quer admitir ainda, mas no fundo quer saber quem é — afirmou. — Eu acho… — levantou-se da cama e foi até ele —, acho que sua mãe estava tentando proteger os dois… e também a você.
— Proteger de quem? — perguntou Yusuf. — Dos que sabiam que eu existia, mas não queriam me ver? E agora, quando eu mesmo apareço e digo quem sou, resolvem se interessar? — apoiou as mãos no parapeito, como se as pernas não o sustentassem. — Agora, de repente, eles se importam. Mas eu… eu não quero nada deles.
— Você diz isso agora, mas sente o contrário — insistiu Parla. — Você precisa saber — ergueu o queixo. — E pra falar a verdade… — agora ela mesma parecia curiosa — eu também quero saber quem é de fato o seu pai… e, não sei por quê, espero que não seja o professor Serhat. — Se pudesse escolher, quem você gostaria que fosse? Dos dois que você conhece?
Yusuf pareceu confuso e sentou-se no parapeito.
— Talvez aquele… — passou a mão na testa —, aquele que não precisasse provar nada. Que só dissesse “estou aqui” e pronto. Talvez isso já fosse o bastante. Nunca esperei nada de um pai. Nunca.
Por um momento, o quarto ficou em silêncio. Umay fechou a caixa de pizza. Ficaram apenas ouvindo o vento brincando com as folhas lá fora.
— Gente — disse Umay, levantando-se —, vamos fazer uma aposta! — propôs, com um brilho travesso no olhar. — Irmão Evren ou professor Serhat?
— Só você pra transformar o drama dos outros em aposta — riu Parla.
— E daí? — deu de ombros Umay, aproximando-se. — Todo mundo já sabe, só falta o Yusuf fazer o teste de DNA — sentou-se ao lado dele no parapeito.
— Então eu aposto no Evren! — disse Parla, estendendo a mão.
— Por que no Evren? — protestou Umay. — Por que não no Serhat?
— Ele já tem uma filha — lembrou Parla.
— E daí? Ter uma filha não impede de ter um filho! — rebateu Umay. — Talvez o seu professor Serhat seja o pai do Yusuf!
Yusuf olhava de uma para a outra, observando a discussão ganhar força.
— A mãe do Yusuf provavelmente disse que era o professor Serhat porque ele ia se casar. Então o pai verdadeiro é o Evren — afirmou Parla, sorrindo para Umay.
— Justamente porque o seu professor Serhat se casou é que a mãe do Yusuf resolveu contar a verdade! — retrucou Umay, pronta para brigar.
— Por que “meu” professor? — indignou-se Parla. — O Yusuf parece mais com o Evren, olha pra ele! — exclamou. — Tão calado quanto o Evren, mesmo quando tá com um turbilhão por dentro.
— Calado? — Umay riu. — Ele é tão direto quanto o Serhat!
— E como é que você sabe como o Serhat é? — Parla deu um passo à frente. — Como? Você nem conhece ele!
— E você conhece? — Umay ergueu o queixo, desafiadora.
— Conheço! — Parla cruzou os braços, vitoriosa. — Minha mãe me apresentou a ele.
Umay soltou uma risada.
— E por que sua mãe te apresentou pra ele, hein? — semicerrando os olhos, provocou. — O que a sua mãe tem com o professor Serhat?
Yusuf se meteu entre as duas.
— Chega! — disse, erguendo as mãos, percebendo que elas tinham ido longe demais, tocando em assuntos que nem os adultos estavam prontos pra discutir. — Chega! — repetiu, sem notar que já as defendia. — Essa briga não faz sentido!
— Faz sim! — Umay estendeu a mão. — Serhat é o pai do Yusuf!
— Evren é o pai do Yusuf! — Parla apertou a mão dela.
— Não! Você vai perder! — Umay se recusava a acreditar. Ela simplesmente não queria que Evren fosse o pai dele — especialmente agora, sem saber onde Evren e sua mãe iriam morar.
— Parem! — irritou-se Yusuf.
Parla soltou a mão, e Umay recuou.
— Não fica bravo — pediu ela. — A gente só… — buscava as palavras — só quer entender quem é de verdade.
— Então considerem que agora tenho dois pais! — explodiu Yusuf. — Eu não tinha nenhum, e agora tenho dois! — riu sem humor. — Dois professores de medicina — deu de ombros. — Quero ser médico também. Por que não usar isso a meu favor?
As duas meninas se viraram para ele, surpresas. Yusuf as deixou sem palavras.
— Vocês discutem, fazem apostas, como se eu não sentisse nada — disse, com raiva. — Pois pronto! Os dois são meus pais! Felizes? — apertou os dentes. — Não vou fazer teste de DNA pra satisfazer a curiosidade de vocês! — declarou, com uma teimosia incomum, e saiu do quarto de Umay.
Yusuf praticamente correu escada abaixo, parando por um instante diante do quarto de Bahar… mas ela não estava ali. E, de repente, tudo o que ele queria era apenas estar perto dela — como se a presença dela pudesse lhe dar o consolo de uma mãe. Ela não estava… nenhum dos dois estava. Ele se aproximou do corrimão e olhou para baixo.
Um mês e meio antes, dormira no sofá lá embaixo e vira, naquela mesma escada, o professor Evren descer às escondidas durante a noite — aquele mesmo homem que ele admirava, sonhando um dia ser médico como ele… e agora Evren podia ser seu verdadeiro pai. Yusuf apertou o corrimão com força. Já tinha quase decidido fazer o teste, mas a discussão e a aposta das meninas o irritaram. Não queria ser o troféu de ninguém. Então os viu — eles tinham voltado. Yusuf recuou para a sombra do corredor…
***
Eles entraram na escuridão da sala de estar bem devagar… ou pelo menos o mais silenciosamente que conseguiam. As sacolas farfalhavam nas mãos dele; riam, trocavam palavras baixas. Evren a abraçava pelos ombros, beijava-lhe o pescoço, enquanto Bahar fechava a porta atrás deles. Ela largou as chaves na mesa, e o som metálico ecoou alto demais. Por um instante, os dois pararam e olharam para o andar de cima. Depois Bahar agarrou a mão de Evren, e eles subiram correndo a escada — como se quisessem chegar antes que alguém os visse, antes que alguém saísse, antes que algo os interrompesse — e desapareceram no quarto.
Evren largou as sacolas no chão, girou a maçaneta e, ao se certificar de que a porta estava bem trancada, voltou-se para Bahar.
— Evren… — ela começou, mas não teve tempo de terminar.
Ele já a envolvera pela cintura, puxando-a para perto. Beijou-a sem se conter, e ela correspondeu de imediato, puxando a camisa dele para cima. As mãos de Evren deslizavam pelas costas dela, guiando-a para trás. Bahar se apoiava nos ombros dele, e, já ao lado da cama, a blusa dela voou para algum canto, enquanto a camisa dele escapava das mãos dela. Não acenderam a luz; só se ouviam o som leve do tecido, o ritmo apressado da respiração, como se tivessem esquecido como respirar.
Bahar se inclinou para trás, pressionando a mão contra o peito dele. Sentia o coração dele bater forte sob seus dedos. Ele a empurrou de leve, e ela caiu sobre a cama. Evren a seguiu e, sem querer, esbarrou na mesa de cabeceira — algo rolou e caiu no chão.
— Evren, devagar… — Bahar tentou se erguer, mas ele sorriu e a beijou novamente, silenciando-a.
Os lábios dele seguiram até a curva do pescoço, onde o pulso dela sempre batia mais forte. Era como se ele precisasse confirmar, toda vez, que ela era real, que não era apenas um sonho.
— Senti tanta falta de você — escapou-lhe num sussurro. — Você nem imagina.
— Imagino sim — respondeu ela quase sem voz, envolvendo o pescoço dele com os braços, puxando-o para mais perto, arqueando o corpo. As mãos dele apertaram-na com mais força.
Cada gesto entre eles parecia uma confissão. Ela não se escondia, não apagava a luz dentro de si — pedia mais, mais perto, mais intenso.
As sacolas continuaram esquecidas junto à porta. A luz permaneceu apagada. E a noite, enfim, deixou de ser apenas noite — tornou-se o reencontro tão esperado, o retorno ao lar…
***
Ela havia esperado por tanto tempo que já nem tinha mais esperanças. Depois de alguns suspiros, acabou se deitando na cama. De máscara no rosto e com um roupão macio, Nevra quase deixou o celular cair no travesseiro quando ele vibrou em suas mãos.
— Ismail… — sua voz se suavizou na mesma hora.
— E então, como foi? — perguntou ele de imediato.
— Nada demais — suspirou, fingindo desapontamento enquanto se espreguiçava. — Bahar e Evren… parecia que nem se surpreenderam.
— Nada? — havia uma ponta de frustração sincera em sua voz.
— Nada. Pra ser sincera — ela se sentou na cama —, eu estava preparada, mas nada aconteceu.
— Então eles aceitaram numa boa? — murmurou Ismail, pensativo. — E isso é ruim?
— Não sei — respondeu Nevra, voltando a se deitar. — Agora nem entendo mais do que eu tinha medo. Talvez… do que pensariam de mim? Que eu fosse meio… leviana?
— Se você fosse leviana — respondeu ele, tranquilo —, eu não teria te ligado.
— Você é confiante demais, Ismail — Nevra deu uma risadinha nervosa.
— Alguém tem que ser — provocou ele, satisfeito.
— E agora? — perguntou ela, baixando um pouco a voz. — O que vai acontecer?
— Agora tudo vai dar certo — disse ele num tom quase profissional. — Como homem, eu assumo a responsabilidade.
— Que responsabilidade exatamente? — ela perguntou num tom leve, brincalhão, mas por dentro algo se agitou — algo vivo, há muito tempo adormecido.
Ismail ficou em silêncio, e Nevra apertou o celular contra o ouvido, inquieta.
— Amanhã vou almoçar aí com vocês — anunciou ele, por fim.
— O quê? — Nevra se sentou num pulo e quase deixou o celular cair. — Almoçar… aqui?
— Sim — respondeu ele simplesmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Mas, Ismail… todos vão estar em casa, amanhã é sábado — murmurou ela, abanando-se com a mão.
— Ótimo — disse ele, calmo. — Não sou garoto pra ficar me escondendo.
— Você não entende… é a Bahar, é o… — ela soltou o ar e agarrou o cobertor com força. — E o Evren também está aqui.
— Nevra — interrompeu ele —, eu entendo, e se nós dois já decidimos, então vamos seguir como adultos. Ainda mais com eles em casa.
— Você vai mesmo vir? — perguntou ela com a voz trêmula, soltando o cobertor e levando a mão ao peito. — Ismail… — Nevra encostou o celular no rosto, olhando para a escuridão além da janela.
— Hm? — murmurou ele.
— E se tudo der errado? — perguntou baixinho.
— E o que poderia dar errado? — ele riu. — São todos adultos, vão entender! — disse com convicção.
Ela ficou um tempo em silêncio, sorrindo sozinha, ouvindo apenas a respiração dele do outro lado.
— Então… até amanhã — sussurrou.
— Até amanhã — confirmou ele.
Ismail encerrou a chamada primeiro. Nevra ainda ficou um bom tempo com o celular junto ao ouvido, como se ainda pudesse ouvir a voz dele entre o som da própria respiração e o bater do coração. Ela não sentia medo… apenas uma doce e ansiosa inquietude se espalhava em seu peito.
***
O coração dele parava diante dos sentimentos que nutria por ela. Evren não entendia o que estava acontecendo, mas a cada dia sentia-se mais atraído por Bahar. Precisava vê-la o tempo todo, sentir sua presença, observá-la. E agora, deitado na cama com o pijama fino, ele a olhava. Bahar estava diante do espelho, penteando devagar os cabelos ainda úmidos.
— Bahar — murmurou ele, bocejando —, você está cansada — disse, fechando os olhos.
— Todos nós estamos cansados hoje — respondeu ela, suspirando.
Ela quis acrescentar que o dia tinha sido bom, mas se conteve ao lembrar da morte de sua paciente… da mulher no restaurante que enfiara uma faca no próprio ventre para se livrar do bebê.
Eles não tocaram no assunto depois. Evren encerrara a conversa de imediato, como se aquilo não os dissesse respeito… talvez não dissesse mesmo. Haviam feito o que podiam. As duas mulheres estavam grávidas — Ayşe, que arriscara a própria vida para ter um filho, e a outra, que quis pôr fim à gravidez de um modo cruel.
— De onde você tira forças depois de tudo isso? — ouviu a voz dele e encontrou o olhar de Evren no espelho.
Ele quase dormia, lutando contra o sono apenas para esperá-la. Já tinha puxado o cobertor, pronto para cobri-la.
— Nós sobrevivemos, Evren — deu de ombros. — Então o dia foi bom, afinal.
— Bahar… — Evren virou-se de costas, apoiou a cabeça no braço e ficou em silêncio por um momento, como se juntasse coragem.
— Evren? — ela se voltou para ele.
— E se… você — hesitou —, e se descobrisse que está grávida outra vez? — não terminou a frase, calou-se, temendo o próprio pensamento.
Bahar parou de pentear o cabelo, pousou a escova sobre a penteadeira.
— Você está falando sério? — reagiu de imediato. — Evren, tem ideia de quantas pessoas moram nesta casa? — levantou-se e se aproximou da cama. — De quantas responsabilidades eu tenho? E ainda o Yusuf — lembrou.
— Eu sei — respondeu ele, olhando para ela. — Mas Yusuf não deve influenciar nossa decisão. Eu só estava pensando… — calou-se.
— Nossa? — interrompeu Bahar. — Pensando? Evren, gravidez não é “pensar”! É uma enorme responsabilidade! — tentou manter a calma, mas a voz falhou. — E não é só por mim!
— Eu sei — suspirou ele. — Mas e se… acontecer? Você… não gostaria?
— Por que eu não gostaria? — franziu o cenho.
— Porque — ele se virou para encará-la —, se Yusuf for mesmo meu filho, talvez você ache que isso já basta pra mim.
Bahar demorou a responder. Fitou-o por alguns segundos, depois sentou-se na beira da cama e segurou a mão dele.
— Evren, eu não vejo filhos como “chances” — disse, tentando respirar fundo, embora uma tempestade crescesse dentro dela.
— Então vamos tentar — disse ele, sentando-se e puxando-a para si.
— Agora, Evren? — agora sim, ele a irritara de verdade. — Você está com pressa por quê? Acha que, se Yusuf for seu filho, eu vou encerrar o assunto? — ela o empurrou pelo peito.
— Eu só… tenho medo — confessou ele, acariciando suas costas, mas desta vez o toque não a acalmou. — Medo de que essa casa te sufoque. De que eu te sobrecarregue com Yusuf, e você desista.
— Você não é um peso, Evren — disse ela, ainda com as mãos firmes sobre o peito dele, impedindo-o de abraçá-la —, mas também não é uma salvação. Quero que lembre disso. Sua pressa não tem razão de ser, principalmente agora, quando estou com a pesquisa. É importante! — irritou-se. — Quero ajudar aquele casal a se tornar pais.
— Então vamos ajudar primeiro a nós mesmos a sermos pais! — respondeu ele, agora também exaltado. — Por que os outros são mais importantes do que nós?
— Você acha mesmo que um filho resolveria tudo? Evren, nada vai ficar mais fácil. Pelo contrário, vai ser ainda mais difícil — tentou se levantar, mas ele a segurou.
— Nós vamos aguentar — disse com firmeza. — Tem certeza de que essa pesquisa é mesmo o que você quer? — perguntou num tom mais suave.
Bahar franziu o rosto. Não queria discutir isso naquela noite, mas ele a forçou.
— Por que reagiu daquele jeito, Evren? — perguntou. — Por causa da Meryem Özkan?
— Bahar… — os dedos dele se abriram de repente; ele a soltou, como se o próprio nome doesse.
— Você a conhece? — ela observava cada gesto dele, sem se mover.
— Não, Bahar… não é algo que vale a pena lembrar — murmurou entre os dentes.
Evren olhou fixamente para o teto, fugindo do olhar dela.
— Então é por causa do método dela? Ou… — ela parou, esperando.
— Por tudo — respondeu rápido, e em seguida completou: — Não quero que você viva isso justo quando… se acontecer de você engravidar, e aquele casal não conseguir levar a gestação por causa da reação da esposa ao sêmen do marido. Eu só não quero que isso aconteça ao mesmo tempo. Não quero, Bahar!
— Você entende que eu vou começar e terminar essa pesquisa! — afirmou com firmeza. — Não vou desistir! Eu vou ajudá-los a se tornarem pais! — fechou os olhos por um instante, controlando-se, e acrescentou mais baixo: — E além disso, Evren… isso não é toda a verdade, não é?
Evren virou lentamente o rosto para ela. Os olhos brilhavam no meio da penumbra.
— Não, não é — respondeu em voz baixa.
— Então me diga — pediu Bahar.
— Agora não — suspirou. — Preciso de tempo. — Apertou a mão dela. — Às vezes eu só queria que tudo fosse mais simples.
— Mas não vai ser — disse Bahar.
Ela tentou se levantar, mas ele a segurou de novo.
— Deita — pediu ele. — Vamos tentar dormir.
— E mais uma coisa… — começou ela, mas Evren segurou sua mão.
— Deita — repetiu ele, puxando-a de leve. — Já é tarde, quer mesmo discutir agora?
— Evren? — ela o olhou, sem entender.
— Bahar? — ele arqueou as sobrancelhas.
— Posso apagar a luz, ou isso também é proibido? — perguntou, fitando-o.
Evren relaxou os dedos, e Bahar se levantou. Deu a volta na cama, apagou a luz e deitou-se ao lado dele. Evren se aproximou, abraçou-a e cobriu os dois com o cobertor. Enfiou o rosto nos cabelos dela. Bahar achava que não conseguiriam dormir depois da discussão, mas em poucos minutos a respiração dele se tornou lenta e calma. Já ela não conseguia pregar os olhos.
Primeiro tentou contar o ritmo da respiração dele. Depois o próprio. Levantou o braço dele, virou-se e o abraçou. Evren murmurou algo ininteligível, e ela sorriu… mas o sono não vinha. Virou-se de costas, encarou o teto. Um arrepio percorreu-lhe o corpo; puxou o cobertor até o pescoço. Logo depois, o calor a fez jogá-lo de lado, deixando Evren coberto. Ficou deitada de braços cruzados, olhando fixamente para o teto. O silêncio da casa começou a pesar. Cuidadosamente, soltou-se do abraço dele e se levantou.
Bahar foi até a janela e a abriu. Respirou fundo o ar fresco da noite, mas nem isso ajudou. O sono não vinha. Vestiu o roupão e, ao som leve do ressonar de Evren, andou descalça pelo quarto. Admirava a facilidade dele para dormir. Tinham acabado de discutir, e dois minutos depois ele dormia profundamente, enquanto ela vagava sem rumo.
Tropessou na mesa e olhou para a pasta de documentos. Colocou-a debaixo do braço, pegou o notebook e foi até a porta. Decidida a trabalhar, calçou as pantufas. Quase caiu ao tropeçar nas sacolas deixadas por eles mais cedo. Resmungou baixinho, empurrou as sacolas com o pé para o canto e saiu do quarto.
Escutando os sons da casa, Bahar desceu as escadas. A luz do aquário iluminava o sofá. Colocou a pasta e o notebook sobre a mesa, ligou a cafeteira; em poucos minutos o aroma de café preencheu a cozinha. Deu um gole e balançou a cabeça — faltava algo. Abriu a geladeira, pegou um limão, cortou uma fatia e a colocou na xícara. Tomou outro gole e assentiu satisfeita — agora sim, o sabor certo. Sentou-se no sofá, acendeu a luminária, abriu o notebook e a pasta.
— Meryem Özkan… — murmurou. — Quem é você?
Depois de alguns goles, começou a digitar. No início, as palavras saíam secas, profissionais… depois ganharam vida, como se escrevesse não para uma colega, mas para uma mulher que poderia entendê-la.
“Precisamos conversar. Sem protocolos. Sem hospital. Apenas como médica para médica.”
Leu o e-mail três vezes. Olhou o relógio — 1h15. O novo dia já começara, então não estava quebrando a promessa feita a Evren. Ainda assim, abaixou a cabeça sobre os braços, hesitante — enviar ou não? Olhou para o aquário. O peixinho dourado deu uma volta, inquieto, incapaz de parar. Bahar apertou o botão “enviar”.
***
Depois de enviar o e-mail, Bahar prendeu o cabelo num coque despretensioso, encolheu as pernas e se pôs a trabalhar. O café já tinha esfriado, e ela folheava os papéis, fazia anotações, cruzava dados, analisava os prazos marcados de marcador. Bahar digitava rápido, depois relia com atenção tudo o que tinha escrito. Uma coisa era tratar o paciente; outra, antes, elaborar toda a documentação para então poder realizar os procedimentos médicos.
— Bahar — ao ouvir a voz de Evren, ela quase pulou no sofá e por pouco não deixou cair a fatia de limão que levava à boca.
Ele parou na porta e apenas a observou. A luz do aquário, o brilho do monitor… e ela parecia não notar mais nada. Ao ver o limão na mão dela, ele fez uma careta involuntária e engoliu em seco.
— Por que você não está dormindo? — ele estava pronto para se servir um copo d’água e virar de uma vez.
Ele a observava enquanto ela enfim levava a fatia de limão à boca, mastigava e engolia. Evren soltou o ar; parecia que por dentro tudo nele se contraía com a acidez… quem comia era ela, mas quem sentia era ele.
— Eu? — o roupão dela estava entreaberto, as faces coradas, os olhos brilhando. — E você? — devolveu a pergunta, abanando-se com uma folha de papel como se fosse um leque.
— Você nem deitou? — irritou-se Evren.
— Não consegui dormir — ela afastou uma mecha do rosto. — Estou montando os protocolos — confessou. — Se eu conseguir a autorização na segunda, então… — ela se calou ao notar o olhar dele.
— O quê? — perguntou ele, baixo.
Ele mal tinha acordado; desgrenhado, a observava com um olhar semicerrado.
— Só… eu quero — não terminou.
Evren se animou na hora; aproximou-se, deu uma varrida com os olhos pela mesa e suspirou aliviado — não havia limão em mais lugar nenhum.
— O que você quer? — perguntou numa voz baixa e rouca.
Bahar rapidamente guardou os papéis na pasta, fechou o notebook e o encarou.
— Me refrescar — disse, olhando direto para ele, agora se abanando com a mão.
— O quê? — ele ficou sem entender. — Não tô te acompanhando — resmungou, coçando a cabeça.
Bahar já tinha se levantado; pegou-o pela mão e puxou.
— Vem, Evren — saíram juntos pela porta da cozinha para o quintal. — Tava louca pra dar um mergulho com você. Você não pediu um fim de semana de folga? Pois ele chegou — ela falava tão rápido que ele mal conseguia responder.
Evren mal acompanhava o passo, os pés descalços batendo no piso de azulejo. O ar da noite estava fresco, e a pele dele logo se cobriu de arrepios; ela, ao contrário, abriu ainda mais o roupão, fitando a piscina. A lua se refletia na água, os brilhos corriam pela superfície, e tudo parecia irreal. Ele estremeceu; ela já havia largado o roupão e sentado na borda, mergulhando os pés.
— Bahar, nem pensa nisso — ele se recompôs. — Tá frio.
— Tá é quente, Evren. Eu tô pegando fogo! — disse, e mergulhou de uma vez.
Ele nem teve tempo de se afastar; as gotas o atingiram, e logo ela mesma, rindo, juntou água nas mãos e espirrou nele.
— Bahar, você é louca — Evren sacudiu a cabeça e enxugou o rosto.
— Eu sei! — ela espirrou água de novo e, mergulhando, saiu nadando.
Ele hesitou por um instante; no seguinte, pulou atrás dela. A água se fechou, acolhendo os dois. Emergeram quase ao mesmo tempo; seus olhares se encontraram, e tudo virou brincadeira. Risos, sussurros, respingos contidos para não acordar ninguém.
Bahar se afastou com uma impulsão, nadando para longe, mas Evren a alcançou, segurou-a pela cintura, virou-a de frente.
— Cuidado, professor — sussurrou ela, sentindo o sopro dele na nuca.
— Seus métodos de resfriar são estranhos — os lábios dele tocaram os dela.
— Mas funcionam — disse ela, enlaçando a cintura dele com as pernas.
— Bahar! — ele suspirou, fascinado, contra a boca dela, segurando-a pelas coxas.
— E então, professor? Que tal a temperatura da água? — ela jogou os cabelos molhados para trás.
Ele a olhava como enfeitiçado. O pijama fino desenhava cada linha, cada curva do corpo, a cintura delicada. A lua brincava na água e na pele dela, transformando tudo em feitiço.
— Não tem medo de pegar um resfriado? — ela sussurrava no pescoço dele, beijando-o.
— Não tem medo de eu não aguentar? — devolveu, enfiando as mãos por baixo do pijama dela.
Rindo, ela se soltou de novo, mergulhou e nadou por baixo d’água. Bastou ela se afastar para o frio mordê-lo de volta, mas o calor do corpo dela já tinha ficado nele; ela abraçou as pernas dele, ergueu-se e surgiu ao lado. As mãos dele deslizaram por suas costas; a seda acariciava os dedos sob a água.
— Bahar — ele suspirou.
— O quê? — ela o olhava sorrindo.
— Não consigo olhar pra você em paz — sussurrou Evren.
— Eu sabia que você ia pular atrás de mim — os lábios dela tremiam, mas não de frio.
Ela o abraçou; as palmas passearam pelas costas dele, quase levantando a camiseta. De súbito, ele girou com ela, encostando-a de costas na borda, beijou-a, e ela correspondeu na mesma hora.
— Shh — ela se afastou um instante, encostou o dedo nos lábios dele, respirando pesada.
O olhar dela correu até as janelas escuras da casa adormecida.
— Acha que estão olhando? — ele lutava para se conter.
— Tenho medo é de a gente acordar alguém — sussurrou, e riu.
Ele a beijou rápido, abafando o riso nos lábios dela.
— Me alcança, se conseguir — soprou ela contra a boca dele, mergulhou e saiu nadando. Evren riu, balançou a cabeça e mergulhou atrás. Eles nadaram como loucos, paravam, se beijavam, se abraçavam, mergulhavam de novo.
— Sabe — Bahar se segurava nos ombros dele — o que é mais apavorante?
— O quê? — Evren a apertava pela cintura, trazendo-a para si.
— Não quero sair — confessou.
Ele riu, observando a luz da lua escorrer pelo rosto dela.
— Então ficamos aqui a noite toda — sussurrou.
Bahar encostou o rosto no ombro dele; os olhos brilhavam, a respiração falhava.
— Tô morrendo de vontade de… — sussurrou.
Ele a olhou, rindo. E ela tremeu de leve junto com o riso dele, as ondas se abrindo ao redor.
— De quê? — perguntou ele.
— Comer — completou, e os dois caíram na risada.
O riso ecoou pelo pátio. Evren foi o primeiro a sair da água, estendeu a mão para ela, envolveu-a no roupão, que ficou encharcado na hora.
— Você é louca — disse, apertando-a contra si.
— Mas você me ama assim — respondeu ela, fitando o rosto dele.
Ela estava toda molhada, os cabelos grudados nas faces, e ele não desviava o olhar.
— Vamos — disse. — Vou preparar alguma coisa.
— Primeiro você precisa me esquentar — sussurrou Bahar no ouvido dele.
Evren caiu na gargalhada, sem medo de acordar ninguém. Foram caminhando abraçados, deixando pegadas molhadas pelo piso.
Entraram em casa ainda rindo. A água pingava dos cabelos dela; filetes frios corriam pelo cetim do pijama. Evren a olhou e balançou a cabeça.
— A água tá gelada — sussurrou, afastando uma mecha do rosto dela. — E você tá brilhando.
— É que eu tô bem — respondeu, abraçando-o pelo pescoço, encostando-se nele. — Você vai me dar de comer, né?
— Vamos lá pra cima — ele a puxou para a escada.
— Evren, eu tô com fome! — insistiu, sem sair do lugar.
— Eu vou te dar comida, mas primeiro vou te trocar! Vem — ele segurava firme a mão dela.
Fazendo biquinho, ela foi atrás dele, deixando marcas molhadas dos pés. No quarto, Evren acendeu a luz, tirou toda a roupa molhada dela, trouxe a toalha, enxugou-a até ficar sequinha e a deitou na cama, cobrindo-a.
— Fica deitadinha — seus lábios tocaram a testa dela. — Já trago alguma coisa pra você comer.
Ela assentiu obediente, enroscou-se e estendeu a mão debaixo do cobertor.
— Mas não demora — pediu.
— Vou ser rápido, prometo — disse ele, fazendo que sim com a cabeça.
Ele se vestiu depressa e foi em direção à porta; já ia saindo.
— Evren — chamou Bahar.
— Oi? — ele se virou no batente.
— Só… que seja algo bem gostoso — pediu Bahar.
Evren riu baixinho e balançou a cabeça.
— Algo bem gostoso — sussurrou, assentiu e saiu.
Quase desceu as escadas, mas resolveu voltar para confirmar se ela queria algo quente ou se bastavam uns sanduíches, se era pra passar um café. Abriu a porta e parou — imobilizou-se. Suspirou, entrou e fechou a porta, aproximou-se da cama.
Bahar já dormia profundamente; os lábios entreabertos, a respiração calma e funda. Ele sorriu, apagou a luz, enfiou-se debaixo do cobertor e a puxou para perto.
— Sempre assim — sussurrou nos cabelos dela. — Você agita o mar e depois afunda no travesseiro.
Ela se moveu sem acordar, virou-se e pousou a mão no peito dele, como se quisesse apenas sentir sua presença. Evren cobriu a mão dela com a sua e fechou os olhos. Sorrindo, mal acreditava que Bahar enfim sossegara, adormecida ao lado dele…
***
Quando ele acordou, se espreguiçou e abriu os olhos, a cama ao seu lado já estava vazia. Evren fechou os olhos novamente e respirou fundo. Não era assim que ele imaginava aquela primeira manhã de folga juntos. Bahar havia saído, descido às pressas para preparar o café da manhã para todos de novo, e ele dormira até tarde. Através da porta fechada, Evren ouviu risadas abafadas e o tilintar de louças. Achou até que Siren e Uraz estavam discutindo, e então o latido do cachorro do vizinho veio da rua, fazendo-o levantar-se imediatamente. Ao olhar o relógio, percebeu que já era quase meio-dia.
Evren estava prestes a ir ao banheiro, mas parou e sorriu. Bahar já havia desfeito todas as sacolas que trouxeram no dia anterior. Não só isso — ela até havia separado a roupa dele. Calça azul-marinho e camiseta no mesmo tom. Ainda teve tempo de cuidar dele. Um calor agradável se espalhou pelo peito dele. Sorrindo, lavou o rosto, tomou banho e desceu, guiado pelo cheiro de café. O barulho e o movimento ao redor não combinavam nada com sua ideia de uma manhã tranquila. Evren espiou a cozinha.
— Não deixa a papa queimar — Siren lavava algo na pia enquanto dava ordens a Uraz.
— Já sei! — respondeu ele, segurando Mert no colo, que esticava os bracinhos para Leyla, sentada na cadeirinha.
Evren a pegou nos braços sem pedir licença, beijou-lhe as bochechas, jogou-a para o alto e a segurou de volta. Leyla caiu na risada. Mert, vendo a cena do colo do pai, fez cara feia e começou a chorar alto, claramente ofendido por não ter recebido atenção de Evren.
Primeiro, ele sentiu as mãos dela em sua cintura; depois, Bahar se encostou em suas costas, seus lábios tocaram o pescoço dele, e então ela sussurrou ao seu ouvido:
— Já vi mulheres com ciúmes de você, mas homens também, é novidade — murmurou Bahar. — Dormiu bem? — ela roçou o rosto no dele e soltou sua cintura. — Meu amor… — Bahar já se virava para Uraz, pronta para pegar Mert, mas Evren segurou sua mão e a puxou de volta.
— Bahar — ele tentou parecer sério, ainda com Leyla nos braços.
Bahar o olhou surpresa, mas Evren já se inclinava e a beijava rapidamente nos lábios, satisfeito. Só então soltou o pulso dela. Bahar ficou atônita por um instante, depois sorriu, fez um gesto com a mão e pegou Mert do filho. Uraz suspirou de alívio. Umay observava tudo com tensão.
— Umay, pega as ervas, por favor — pediu Bahar. — Parla, leva os copos.
— Mert, meu querido — Siren beijou o filho na bochecha e o tomou de Bahar. — Hoje é o papai quem vai te alimentar — disse, devolvendo-o a Uraz. — Não é, amor? — lançou-lhe um olhar significativo.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram, mas ela não disse nada. Evren a seguia de perto, ainda com Leyla nos braços.
— Bahar — Gulcicek entrou na cozinha — a mesa está quase pronta — informou. — Evren, bom dia.
— Senhora Gulcicek — cumprimentou ele, virando-se com Leyla.
— Bahar — Reha entrou do lado de fora, secando as mãos com uma toalha — a grelha está pronta. Evren — acenou.
— Professor — Evren aproximou-se e apertou-lhe a mão.
Gulcicek, ao ver o marido, foi direto à geladeira e a abriu. Evren olhava ao redor, confuso, sem entender como havia dormido durante a chegada de todos.
— Obrigada — sorriu Bahar, olhando com atenção para Gulcicek e depois para Reha. — Vou preparar a carne — apoiou-se no braço de Evren. — Evren vai me ajudar, não é?
Ele olhou para Bahar, depois para o professor. Ainda sem saber no que exatamente precisava ajudar, apenas assentiu. Tudo lhe parecia um caos — mas só para ele. Os outros se moviam com uma naturalidade espantosa.
— Tem certeza de que está tudo bem? — sussurrou para Bahar. — Acho que isso aqui parece uma evacuação.
Ela percorreu todos com o olhar e assentiu.
— Tudo como sempre — respondeu. Notou Yusuf, que ao ver Evren, virou-se e saiu da cozinha sem dizer nada.
Ele entregou o prato vazio para Parla, pegou uma cadeira da sala e saiu. Bahar suspirou.
— Bahar, acho que faltam cadeiras — disse Rengin, entrando. — Evren — cumprimentou-o.
Evren respondeu com um aceno desconcertado. Não conseguia se integrar àquela agitação. Cada um tinha uma tarefa, e ele só ficava ali, com Leyla nos braços, até que Siren veio pegá-la, empurrando Uraz para fora. Ela levou as cadeirinhas das crianças até perto da piscina, acomodou-as e entregou as colherzinhas ao marido antes de se afastar.
Nevra mantinha-se à parte. Olhava o celular, depois o portão, torcendo as mãos, ajeitando a blusa e o lenço no pescoço. Gulcicek tentou chamá-la várias vezes, mas ela parecia não ouvir.
Bastou Cagla se levantar da cadeira, e Bahar e Rengin a empurraram de volta, sem deixá-la dar um passo.
— Quero ajudar — protestou Cagla.
— Entenda, querida — Bahar se inclinou até ela — precisamos que tudo fique bem firme.
— Nos escuta — reforçou Rengin — estes são os dias mais delicados.
— Querem dizer que posso perder o bebê? — entrou em pânico.
— Não! — exclamaram Bahar e Rengin ao mesmo tempo, segurando-a pelos ombros.
— Não — repetiu Bahar, ajoelhando-se diante dela. — Vai ficar tudo bem — apertou-lhe as mãos. — Só não se esforce demais.
— Sem esforços desnecessários — concordou Rengin.
— Vocês duas estão agindo como doulas — riu Cagla, tentando disfarçar a ansiedade.
— Doula? — Gulcicek, passando por ali, parou. — Quem precisa de uma doula? Cagla? — olhou para ela, pensativa.
— O quê? — Nevra se animou, aproximando-se. — Quem está falando em doula?
— Não! — Gulcicek bloqueou a passagem. — Cagla já tem uma, arrume outra grávida para você!
— E por que eu deveria procurar? Normalmente são as pessoas que procuram uma doula, não o contrário! — reclamou Nevra. — Cagla, querida — puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dela — como você está? Quer conversar?
— Quer que eu traga água? Ou que coloque a cadeira na sombra? — Gulcicek agitava-se ao redor. — Está confortável?
Rengin e Bahar se retiraram discretamente, deixando Cagla aos cuidados de Nevra e Gulcicek, cientes de que, dali em diante, ela não conseguiria se levantar nem se quisesse. Gulcicek colocou uma almofada nas costas de Cagla, e Nevra começou a abanar o ar com um guardanapo.
— Querida, não pode se levantar! — disse Nevra, abanando o guardanapo como um leque. — Agora sou sua doula!
— Não! Eu sou! — retrucou Gulcicek, pegando outra almofada. — Doulas são criaturas serenas, não impulsivas como você!
— Eu estou muito calma! — indignou-se Nevra. — E muito atenciosa!
— Vocês duas — gemeu Cagla — parecem um comitê obstétrico — ela procurava Bahar e Rengin com os olhos, mas as duas tinham desaparecido.
— Vamos cuidar de você — disseram em uníssono.
— Tudo bem, fiquem as duas — suspirou Cagla, cruzando as mãos no peito como em prece. — Só não discutam. Vocês são minha terapia agora — lançou um olhar a Evren, que apenas ergueu as mãos e passou adiante.
Gulcicek e Nevra se entreolharam, voltaram a encarar Cagla e começaram a bombardear-lhe perguntas, enquanto ela desviava o olhar para a janela.
Rengin, também olhando pela janela, aproximou-se de Bahar, que tirava legumes da geladeira.
— Parece até que estamos no trabalho — comentou, entregando-lhe um prato e sacudindo as folhas verdes.
— Como no pronto-socorro na hora do pico — sorriu Bahar, lavando os legumes.
— Ainda bem que isso não é com a gente — disse Rengin em voz baixa, olhando para as três lá fora.
— Nunca diga nunca — brincou Bahar, passando-lhe pepinos e tomates. — Nesta família, todos acabam sendo arrastados para dentro.
— Você está brincando, né? — perguntou Rengin.
Bahar parou por um instante, balançou a cabeça, como se acabasse de perceber o que dissera.
— Brincadeira — suspirou, franzindo a testa, o olhar voltado para Evren junto à grelha.
— Bom dia, professor — disse Evren, aproximando-se da churrasqueira. — Mesmo sem bisturi, ainda me sinto útil.
— É verdade — Reha virou-se para ele, pousou a pinça. — Nesta família, sempre faltam mãos. — Sorriu de leve ao olhar para Gulcicek; por um instante, o olhar dele se suavizou. — Principalmente as masculinas.
Evren seguiu o olhar dele.
— Acha que a gente vai se encaixar? — perguntou, observando o quintal e todos à volta.
— Se não fugirmos ao primeiro barulho — suspirou Reha. — E o barulho aqui parece ser o pano de fundo. — Virou a carne na grelha, deixando a fumaça subir. — Família — acrescentou — não é uma sala de cirurgia estéril. Aqui tudo é impregnado de vida.
— É — concordou Evren. — Embora às vezes dê vontade de um pouco de esterilidade… — confessou.
— Tem medo de se contaminar? — Reha semicerrrou os olhos.
— Mais acostumado ao isolamento — respondeu Evren, dando de ombros. — Fico feliz que agora vocês façam parte da família da Bahar — acrescentou em voz baixa, olhando para o chão. — Às vezes é tão necessária a presença de quem veio antes.
Ele evitou a palavra “pais”, como se fugisse dela.
— E eu fico feliz que você esteja com ela, professor — assentiu Reha. — Mesmo que o casamento não tenha acontecido... — observou-o atentamente e viu a sombra que atravessou o rosto de Evren.
— Nem tudo se mede por datas e alianças — suspirou Evren. — Às vezes, basta uma palavra para apagar tudo.
— Ou para recomeçar — comentou Reha. — O importante é haver o que recomeçar. — Fez uma pausa, depois falou mais baixo: — Nós, homens, vivemos fingindo que temos tudo sob controle.
— E então? — perguntou Evren. — O que o senhor tem sob controle e o que não? — A curiosidade era sincera.
Reha sorriu de lado, olhando para Gulcicek, que, gesticulando, caminhava apressada em direção à cozinha e quase atropelou Umay, que saía de casa com um maço de guardanapos.
— Controle? Quem me dera — suspirou ele, voltando-se para o espeto. — Bahar está preparando algo? — perguntou, como quem muda de assunto. — Ouvi falar de uma nova pesquisa, que ela está montando uma equipe. — Evren se virou de imediato. — Rengin me ligou — explicou Reha.
Evren se retesou; havia cautela em seu olhar.
— Nova? — sorriu com ironia. — Velha, só que repaginada. — Não escondeu o desagrado. — Bahar está analisando dados, nada concreto ainda.
— É que... — Reha baixou o tom — certos temas é melhor não tocar sem necessidade.
— O que quer dizer com isso, professor? — Evren o fitou com atenção.
— Que às vezes o passado não quer ser revisitado — respondeu Reha, sem olhar para ele.
Virou os espetos como se a conversa não tivesse importância. Evren baixou os olhos, examinando a carne, mas os dedos se fecharam por um instante.
— Concordo — disse. — Também acho melhor não reviver métodos antigos, ainda mais agora, com tantos avanços na medicina.
Reha o observou como se fosse acrescentar algo, mas acabou desistindo.
— Pois é — tossiu — acho que sofremos do mesmo mal: prudência crônica.
— Melhor prudência do que mentira — respondeu Evren, num suspiro.
— Às vezes, a mentira também cura, professor — Reha ficou sério.
— E o silêncio? — insistiu Evren. — Não é outra forma de mentira?
— Falar ou calar… — Reha deu de ombros. — O importante é não deixar queimar — disse por fim. — Nem a carne, nem as relações.
— Professor, acho que já estamos no mesmo time — sorriu Evren, apontando para a casa.
— Às vezes é mais fácil numa sala de cirurgia — admitiu Reha. — Aqui, nunca se sabe onde e quando vai explodir.
— O senhor tem toda razão — sorriu Evren. Ao ver Bahar com Yusuf, seu olhar se suavizou, e o peito se apertou de leve.
Yusuf tomou um gole d’água.
— Quer ajudar o Reha com a grelha? — perguntou Bahar, aproximando-se.
Yusuf olhou na direção do churrasco.
— Prefiro não atrapalhar — respondeu, observando Evren.
— Está tentando evitá-lo — disse ela, também olhando para o homem. — Sabe — Bahar sorriu — ele não é seu inimigo.
— Não tenho tanta certeza — Yusuf se fechou, o olhar endurecido.
— Mas ele tem — respondeu ela, em tom calmo. — Confia em você.
— Confiar em quê? — os dedos de Yusuf se contraíram. — Ninguém sabe quem é meu verdadeiro pai. — Voltou-se para Bahar. — Nem o professor Serhat, nem o professor Evren. E se não for nenhum dos dois? — confessou seu maior medo.
— Yusuf — Bahar deu um passo à frente, pousando a mão sobre a dele — não pense assim da sua mãe, por favor.
— E como devo pensar? — a confusão dominava seu rosto. — Se nem ela sabia quem era?
— Nós não sabemos disso. — Bahar manteve o tom firme. — Quer continuar se torturando? O único jeito de saber é fazer um teste de DNA.
— Não — respondeu ele rápido demais.
— Sério? — Bahar o fitou com atenção. — O que você ganha com essa teimosia, Yusuf? Só está adiando o inevitável. — Soltou a mão dele. — Evren está muito abalado. Preocupado. Sente-se culpado, mesmo que não demonstre.
— Pra que tudo isso agora? — perguntou Yusuf, sinceramente confuso.
— Você nunca teve um pai antes — respondeu ela com calma — mas pode ter um agora.
— Pra quê? — o queixo dele se ergueu em desafio.
— Você realmente não quer saber o que é ter um pai de verdade ao seu lado? — perguntou ela, sorrindo, antes de entrar na cozinha, deixando Yusuf sob a sombra da árvore, atordoado.
Yusuf franziu a testa e se virou.
Perto da piscina estavam as cadeirinhas das crianças. Mert espalhara metade da papa pela mesa. Leyla segurava firme a colher. Uraz limpou o suor da testa.
— Sou cirurgião — murmurou —, não babá.
— E se morássemos sozinhos, só nós quatro? — perguntou Siren, entregando-lhe um guardanapo. — Quem os alimentaria?
— Nem pensar — respondeu ele depressa. — Não daríamos conta. — Havia um toque de pânico na voz. — Chega, Siren!
— Por quê? — ela nem tentou ajudá-lo.
— Porque sem a mamãe não conseguimos — admitiu ele, contrariado.
— Por enquanto — concordou ela com doçura. — Então está na hora de aprendermos. — Pegou uma colher. — Temos nossa própria família, lembra?
— É mais difícil do que qualquer cirurgia — resmungou Uraz, pegando a outra colher.
Siren mordeu o lábio para não rir. Passou a ajudá-lo a alimentar as crianças — afinal, elas não tinham culpa de o pai não saber lidar com papinhas.
Rengin e Parla passaram pelos jovens pais, decidindo não se meter.
— Parla — disse Rengin, com calma. — Volta para casa, por favor.
— E ficar lá sozinha? Não — ela balançou a cabeça. — Mãe, entende, eu vou enlouquecer lá. Aqui todo mundo está, aqui sempre acontece alguma coisa.
— E na nossa casa — é silêncio — concordou Rengin. — Embora, às vezes, isso faça bem.
— Faz bem? — Parla a encarou. — Você mesma está aqui agora! Veio porque o silêncio te incomoda!
— Por que você é tão adulta assim? — Rengin parou.
— Eu só não quero ficar sozinha — acrescentou Parla, baixinho.
Rengin estendeu a mão e tocou a bochecha dela:
— Você tem a sua própria casa — observou.
— E esta é a casa do meu pai — lembrou Parla.
— Esta é a casa da Bahar! — corrigiu Rengin.
— Mas eu quero ficar aqui! — ela não pretendia recuar. — E você? — perguntou de repente. — Você também está aqui agora, e não na nossa casa, nesse seu silêncio “que faz bem”!
Parla deu um meio sorriso e foi na direção de Umay.
— Eu… também — admitiu Rengin, quase para si mesma. — Eu também — e viu Reha entrar na cozinha.
Ele tirou os óculos, colocou-os sobre a mesa e, por um tempo, apenas olhou para Gulcicek, que se ocupava da cafeteira.
— Nunca imaginei que, assim… de novo, eu estaria numa casa cheirando a café e comida — começou em voz baixa. — Obrigado, Gulcicek.
— Quem merece agradecimento é a Bahar — ela nem se virou.
— Não — contestou ele. — Sem você, nada disso existiria — aproximou-se, tomou a xícara das mãos dela e a colocou na bandeja. — Eu sei que te magoei — inclinou-se um pouco — mas eu quero pertencer a esta família, se você permitir.
Gulcicek afastou-se um pouco, mas os lábios tremeram.
— Quer mesmo? — ela o fitou nos olhos.
— Você é o coração desta família para mim — disse ele baixinho e, antes que ela recuasse, roçou os lábios na bochecha dela.
Gulcicek corou e olhou ao redor, assustada.
— Reha, e se alguém vir? — a voz falhou; ela apertou a mão dele.
— E daí? — os olhos dele brilharam; estava radiante por vê-la, enfim, um pouco mais macia. — Você é minha esposa — lembrou, abraçando-a com força, pronto para beijá-la de novo.
— O principal é você lembrar que você é meu marido! — ela o encarou.
Reha ficou atento, ouvindo se alguém se aproximava.
— Aprendi uma coisa: nesta família, é preciso ser muito cauteloso — sorriu, beijando-a de novo — para ninguém ver nada — explicou, soltando-a a contragosto.
Ele não a perdeu de vista, até que, respondendo ao chamado silencioso dele, ela se aproximou. Bahar trouxe-lhe um café. Evren, de olhos fechados, tomou um gole — sonhava com aquilo desde que acordara. Ao abrir os olhos, encontrou o olhar dela. Ela não foi embora; continuava ao lado dele.
— Tem certeza de que isso não é estado de sítio? — perguntou Evren, observando todos falarem e se moverem ao mesmo tempo sem se trombar.
— É só família — sorriu Bahar. — Acostume-se.
— Tenho medo de me perder nesse caos — Evren saboreava o café.
— Segura em mim — ela tomou a mão dele — e você não se perde.
— Aceito as regras — o olhar dele desceu para os lábios dela e, um pouco mais, para o pingente em seu peito; ele puxou o ar, audível. — Estou pronto para segurar você para sempre — lançou um olhar em volta e sussurrou — quer que eu diga no que eu queria segurar agora? — perguntou.
— Evren — os olhos de Bahar brilharam; sem querer, ela se inclinou para ele.
— Acho que o que aconteceu na piscina foi só o começo — sussurrou, tentando manter a seriedade, atento para que ninguém se aproximasse. — E eu quero repetir — continuou — do jeito certo, sem ninguém por perto, e com você… — ele não terminou, porque Bahar se ergueu nas pontas dos pés, aproximando-se dele.
— Professor — murmurou ela, mas não o beijou; voltou ao chão — você está usando métodos proibidos.
— Quer discutir esses protocolos? — os olhos dele luziram.
Bahar riu e olhou ao redor.
— Só discutir? — disse com um leve desapontamento. — Vai dizer também que vai submeter para aprovação? — provocou.
— Vou, se tudo estiver conforme — aproximou-se ele.
Bahar inclinou um pouco a cabeça, como se, de fato, fossem discutir.
— Certo, professor — sussurrou. — Vamos começar com um caso clínico.
— Ouço com interesse — ele se curvou, mirando os lábios dela.
— Paciente — a mão dela subiu; quase tocou a boca dele, mas se conteve, pousando a mão no ombro, onde tirou um fiapo invisível — estresse emocional prolongado, privação crônica de sono — ela pigarreou, fazendo uma pausa — taquicardia súbita ao estabelecer contato visual com um colega.
Evren pigarreou de leve, escondendo o sorriso.
— Colega, é? — fingiu pensar. — Provável causa: dosagem inadequada de convivência.
— Talvez — ela semicerrrou os olhos — mas há outro detalhe — fitou-o com atenção — o colega provoca a taquicardia de propósito.
— Então já é violação de protocolo — ele até franziu o cenho, como se tratassem de assunto gravíssimo. — Para tais sintomas, normalmente se prescreve… — engoliu em seco — contato físico.
— Observação — corrigiu ela.
— Em dinâmica — Evren quase concordou. — Com checagem obrigatória do reflexo pupilar.
— E aferição de pressão — completou ela. — Somente sob confidencialidade estrita, professor.
— Naturalmente — a voz dele desceu, mais grave. — Fora do expediente e sem testemunhas.
— Você é irrecuperável — riu Bahar, dando um passo atrás.
— Não: consistente — discordou Evren. — Tudo conforme o protocolo: diagnóstico, terapia e acompanhamento.
— E o relatório final? — ela já quase soltava uma gargalhada.
— O protocolo — precisou ele — vamos redigi-lo juntos, em silêncio e sem testemunhas — fez-se de pensativo — de preferência à noite, para evitar fatores de estresse.
— Controle do ambiente, então — confirmou Bahar. — Profilaxia, é isso?
— Profilaxia de recidivas — assentiu Evren, tomando um gole de café.
— E se o caso evoluir para estágio crônico? — perguntou ela.
— Aí, resta uma terapia prolongada por meio de toques — continuou no mesmo tom calmo, que fazia o coração dela bater surdo no peito.
— Professor, o senhor está propondo um experimento sem aprovação do comitê de ética — Bahar mal se continha para não abraçá-lo.
— Creio que os resultados vão justificar o risco — aproximou-se ele — eu registraria tudo por escrito. Em duas vias — detalhou — uma para você e outra para o arquivo das minhas observações pessoais.
— E se o caso se tornar crônico? — o peito dela subia pesado; os dedos tremiam de leve — a vontade de tocá-lo era quase incontrolável.
— Talvez não seja preciso tentar tratar — Evren não tirava os olhos dos lábios dela. — Talvez a paciente e o colega estejam confortáveis com o diagnóstico.
— Que diagnóstico? — Umay se aproximou, fazendo os dois se sobressaltarem e se afastarem um do outro.
— Clínico — respondeu Evren com a voz rouca, virando a carne na grelha, quase engasgando com o café.
— É mesmo? — Umay os observava atentamente. — E por que estão os dois tão... vermelhos?
— Porque casos clínicos costumam ser controversos — Bahar pigarreou, tentando disfarçar o embaraço, lançando um olhar a Evren.
— É? — prolongou Umay. — Pois eu queria perguntar justamente sobre um desses casos — cruzou os braços. — É verdade que vocês decidiram se mudar?
— Umay — Bahar deu um passo em direção à filha e olhou para Evren.
— Estamos apenas... avaliando opções — disse ele, pousando a xícara vazia sobre a mesa.
— Todo mundo parece tão... satisfeito — continuou Umay, franzindo levemente a testa. — Tudo tão certinho.
Evren e Bahar se entreolharam. Certinho? Ele ficou um instante sem saber o que dizer.
— Isso é ruim? — Bahar foi a primeira a reagir.
— É — respondeu Umay de imediato. — Já passamos por isso. Quando tudo parece perfeito, é porque vai desabar. Sempre é assim na nossa família! Fico feliz por vocês, mas morro de medo que doa de novo!
— Umay... — começou Bahar, mas a filha não a deixou continuar.
— Você vai decidir tudo por ele de novo — recusava-se a ouvir. — E depois vai doer de novo. Em você, nele, em todos nós. Acho que vocês só fingem que está tudo bem!
— O que quer dizer com “fingimos”? — Bahar franziu o cenho e se aproximou.
— O que disse — a voz de Umay tremeu. — Vocês estavam sorrindo assim mesmo antes de ele ir embora. E depois, mãe, você ficou mal. Muito mal. — Bahar quis responder, mas Umay prosseguiu: — E agora o Evren diz que vai te levar embora, e nós vamos ficar aqui? Sozinhos? Sem pai e sem mãe? Sozinhos? — a voz dela vacilava.
— Umay, ninguém vai levar ninguém — Evren se aproximou.
— É mesmo? — os olhos dela brilharam com lágrimas. — Você disse isso ontem! — lembrou. — E o Yusuf? — fitou-o com intensidade. — Se ele for mesmo seu filho, vocês vão simplesmente sair desta casa e deixar todos aqui? Vão fugir? — um sorriso amargo surgiu em seus lábios. — Só que desta vez, juntos? Vai abandonar seu filho de novo, aquele que nem conheceu? Você tem ideia do que ele sente? De como está sofrendo? E vocês só pensam em ficarem juntos. Nós atrapalhamos? É isso?
— Umay — Bahar tentou tocar a mão dela, mas a filha se afastou.
— Depois tudo vai acabar! — afirmou, com um aceno firme. — Com o Cem também era tudo lindo. E depois só silêncio e vazio. Eu não quero que isso se repita! Não quero!
— Umay — Bahar deu um passo rápido e a abraçou. — Eu não vou a lugar nenhum, meu amor, não vou — sussurrou, apertando-a contra o peito. — Em lugar nenhum.
— E se ele for embora? — Umay olhou para Evren por cima do ombro da mãe.
— Eu fico — respondeu Bahar, baixinho.
— Como da outra vez, mãe? Vai se mudar para o hospital? — as lágrimas quase caíam. — Eu não acredito em nenhum dos dois! Ontem você gritou com a gente e hoje está todo sorridente?!
— Umay — Evren deu um passo, tentando falar, mas não conseguiu.
— Boa tarde — disse Ismail, entrando no pátio com um grande cesto, sorridente. Nem percebeu o silêncio repentino que tomou conta do lugar, quando todos se voltaram para ele. — Espero não estar atrasado — continuou no seu tom seguro, como se chegasse a uma reunião formal. — Trouxe algo para o almoço.
Ele foi até a mesa, pôs o cesto e levantou o pano de linho: azeite em garrafa de barro, um galho de louro, pães e berinjelas recheadas.
— Da minha parte — virou-se, procurando Nevra com os olhos. — Da nossa — corrigiu, estendendo-lhe a mão. Ela, um pouco envergonhada, colocou a dela na dele, deu um sorrisinho e ergueu os ombros.
— Nós... — gaguejou ela.
— Juntos — completou Ismail.
Bahar soltou a filha, e Umay recuou. Gulcicek deixou cair o pano. Reha ergueu as sobrancelhas. Siren balançou a cabeça. Uraz piscou, como se não tivesse ouvido direito. Parla e Rengin se entreolharam — mas Parla já erguia a mão, olhando para Umay, com a expressão de quem dizia “eu te disse”. Só Evren e Bahar permaneceram imóveis, embora o espanto também os alcançasse.
— Só... para evitar mal-entendidos — murmurou Nevra, escondendo-se atrás de Ismail.
Ele assentiu, um tanto sem jeito, e para desviar a atenção, olhou para Evren.
— Ah, sim — sorriu. — Mais uma coisa. Queria parabenizar pessoalmente — fitou-o. — Pela nomeação, professor!
Bahar olhou para Evren.
— O quê? — Rengin foi a primeira a reagir. — Que nomeação? — todo o sangue lhe fugiu do rosto.
— Achei que já soubessem... — Ismail pareceu hesitar apenas um instante, mas logo retomou o tom confiante: — O professor Evren Yalkın será o novo diretor do hospital a partir de segunda-feira! A ordem está assinada — por mim mesmo!
O pátio mergulhou num silêncio absoluto; nem as folhas das árvores se moviam. Bahar empalideceu. Rengin deixou-se cair na cadeira.
— Rengin — Evren engoliu em seco. — Bahar, eu... — as palavras não saíram.
— Evren? — Bahar o fitava. — Você nem achou que devia me contar?
— É justo — interveio Nevra — depois do caso com Timur... — calou-se de repente.
Todos a encararam; ela se escondeu novamente atrás de Ismail.
— Nevra... — Ismail franziu o cenho.
— Não, eu... — ela gaguejou, pálida. — Eu só queria que tudo fosse certo!
Bahar balançava a cabeça, olhando para Evren. Ele, incapaz de falar, apenas a fitava. O sangue lhe pulsava nas têmporas, o coração batia tão forte que abafava o som ao redor.
— Viu, mãe? — disse Umay, quebrando o silêncio. — Eu te avisei! Avisei!
Bahar cambaleou. Atrás dela, Mert ou Leyla deixaram cair uma colher — o som metálico ecoou nas paredes da casa. Evren deu um passo, mas Bahar ergueu a mão, interrompendo-o... já era tarde demais para explicações. Ela levou a mão ao peito, onde o coração batia descompassado, e olhou ao redor: Umay, Uraz, Siren, Parla, Nevra e Ismail, a mãe, Reha e Rengin. Estavam todos ali, e atrás dela — Evren.
E a casa... ficou imóvel. Como antes de uma tempestade iminente.

CAPÍTULO 9. PARTE 5

— O diretor interino do hospital será o professor Evren Yalkın, conforme decisão do conselho — concluiu Ismail, como se de fato estivesse presidindo uma reunião.
Ele se aproximou e apertou a mão de Evren. Nevra o seguiu, mas manteve-se um pouco atrás.
— Ele merece, Bahar — sorriu Nevra, espiando por cima do ombro de Ismail. — Merece mesmo.
Bahar olhava de Evren para Ismail e, depois, para Nevra. Todos eles sabiam.
— Eu queria dizer... — começou Evren.
— Quando?! Quando, Evren?! — ela se virou para ele. — Depois que todos soubessem? — a voz dela falhou; ela se aproximou dele. — Por que você ficou em silêncio, Evren? — exigiu uma explicação.
— Não tive tempo — respondeu ele muito baixo, e suas palavras soaram absurdas.
— Não teve tempo? — repetiu Bahar. — Teve tempo de ler a ordem, teve tempo de aceitar o cargo, mas não teve tempo de me avisar?
— Bahar, eu não queria... — começou Evren, mas ela o interrompeu.
— O que você queria, então? — ela o fitou diretamente. — Que eu descobrisse pelos outros? Que eu parecesse uma idiota de novo? — sentiu a garganta apertar, como se fosse estrangulada, mas ainda assim continuou. — Ou teve medo de que acontecesse como da outra vez, com a América, quando você foi embora e simplesmente sumiu?
— Não compare — ele fechou a mão em punho.
— Por que não? — cortou Bahar. — Daquela vez você se calou porque não sabia o que realmente queria! Queria tudo ao mesmo tempo — eu, o cargo, o filho. E agora? O que é que você não quer desta vez?
— Bahar — o rosto de Evren mudou.
— Não queria me magoar? — perguntou ela. — Então por que me machucou de novo?
— Bahar — interveio Nevra —, isso não está em discussão — exclamou ela, gesticulando. — É uma decisão do conselho! O Evren precisa assumir o cargo. Tem que ser o diretor, afinal, da última vez ele cedeu ao Timur.
— Entendi — sussurrou Bahar. — Então já estava tudo decidido. E você simplesmente... se calou — ela quase tocou a mão dele, mas recuou. — O importante agora é seguir o protocolo, não é? Foi isso que te assustou? Ter que responder pelo caso da Meryem Özkan? — sua voz tremia. — Por isso não queria que eu me envolvesse, que eu a chamasse para Istambul?! Pois eu já a chamei, Evren! Vou trabalhar com ela, e você não vai me impedir, nem mesmo como diretor!
— Bahar, não! — gritou Evren, segurando firme os ombros dela.
— Sim, Evren! — respondeu Bahar, olhando-o nos olhos.
Ela balançou a cabeça, o empurrou e praticamente saiu correndo. Evren foi atrás dela, e os dois desapareceram na cozinha, batendo a porta com força.
***
Ao ouvir o nome — Meryem Özkan, Reha empalideceu e apertou o copo com mais força. Ismail se sobressaltou, virou-se e cruzou o olhar com o de Reha. Gülçiçek fechou os olhos por um instante, balançou a cabeça — de novo essa mulher.
Nevra tocou o ombro de Ismail, e a pulseira brilhou em seu pulso.
— Está tudo bem, Ismail — ela sorriu. — Fizemos a coisa certa.
— Então por que todos estão nos olhando assim? — perguntou Ismail, franzindo levemente a testa. — Eu só anunciei a decisão.
— Porque todos estão tensos — Nevra ajeitou a gola da camisa dele. — Em um ou dois dias tudo vai se acalmar. Você fez tudo perfeitamente — baixou um pouco o tom. — E quem é Meryem Özkan? — perguntou, como se fosse por acaso.
— Só um sobrenome — respondeu Ismail rápido demais.
— Só um sobrenome... — repetiu Nevra, apoiando-se no braço dele. — Então quer dizer que você a conhece?
— Gülçiçek, espera! — Reha correu atrás dela, tentando segurá-la pela mão.
— E de novo Meryem Özkan! — explodiu ela. — Agora até a Bahar tem problemas por causa dessa mulher! E você? — agarrou o pulso de Nevra e a puxou para si. — Me explica, com que direito você decidiu quem seria o diretor do hospital?! — atacou-a.
— Gülçiçek — Nevra apertou com mais força a mão de Ismail e se encostou em seu ombro. — Você está exagerando um pouco.
— Eu?! — gritou Gülçiçek. — Vocês dois se meteram onde não deviam! — ela não parecia temer nem Ismail, nem o cargo dele.
— Senhora Gülçiçek — disse Ismail com calma.
— Amor, por favor, se acalma — Reha tentou puxar a esposa pela mão.
— Nem pensar! — ela o afastou com um gesto.
— Eu cumpri o meu dever — Nevra ergueu o queixo. — Fiz isso pela família!
— Você destruiu a estabilidade dessa família, e agora quer bancar a salvadora?! — gritou Gülçiçek, avançando contra ela.
Ismail ergueu o braço, instintivamente protegendo Nevra dos gestos furiosos de Gülçiçek.
— Gülçiçek, por favor — Reha tentava se colocar entre as duas.
— Não, Reha! — ela o impediu de intervir. — Mal nos casamos e você já quer fugir pro trabalho! — agora descarregava a raiva também no marido. — E ainda defende eles? Fica contra mim?
— Porque eu não quero guerra! — Reha elevou a voz. — Só quero um dia de paz, sem gritos!
— Então não fique do lado de quem — gritou Gülçiçek — armou esse circo! Aliás... — virou-se totalmente para ele —, você ainda não me disse quem é Meryem Özkan!
Nevra se inclinou um pouco para frente. Agora aquele nome também a intrigava. Ismail deu um passo para trás, mas Nevra o puxou, tentando ouvir cada palavra.
— Você também a conhece — sussurrou Nevra a Ismail.
— O quê? — ele olhou para Reha e balançou a cabeça, negando.
— Aquela por causa de quem Evren e Bahar discutiram — lembrou Nevra.
— Não tem importância — Ismail tentou fugir do assunto. — É uma história antiga, não interessa a ninguém — acabou dizendo algo apenas para encerrar o tema.
Gülçiçek, avançando em direção a Reha, ouvia atentamente a conversa atrás de si.
— E pra você? — insistiu Nevra. — As mulheres sentem quando uma história não foi encerrada.
Pela primeira vez na vida, Gülçiçek quis agradecer a Nevra. Ela havia dito exatamente o que ela mesma sentia.
— Exato — não foi encerrada! — reforçou Gülçiçek.
— Senhora Gülçiçek — interveio Ismail —, se acha que pode se meter assim na vida dos outros, está enganada!
— Perdão? — Gülçiçek virou-se para ele; atrás dela, Reha levantou as mãos, assustado, fazendo sinais a Ismail. — Do que está falando? Eu estou conversando com o meu marido!
— Senhora Gülçiçek, por favor, não eleve o tom — pediu ele.
— Foi sua decisão que destruiu a reputação da Rengin — disse Gülçiçek em um só fôlego. — Vocês prejudicaram Evren e Bahar.
— Nós… — começou Ismail.
— Vocês?! — interrompeu-o Gülçiçek. — Você é o membro mais antigo do conselho, Ismail! Poderia ter impedido essa loucura!
— Você não tem o direito de falar assim comigo! — irritou-se Ismail.
— Tenho, sim! — quase pisou no chão de raiva. — Estou na casa da minha filha!
— Gülçiçek, por favor, se acalma — Reha segurou a mão da esposa.
— Senhora Gülçiçek, vamos falar com calma — Ismail estendeu a mão, como se pudesse conter o furacão. — Você está exagerando.
— Eu não estou exagerando! — ela tentava soltar a mão, que Reha segurava com força.
— Você... — encarou Nevra. — Nem sabe o que é responsabilidade! — gritou Gülçiçek. — E você — virou-se para Ismail — brinca de poder, mas atrás de você há pessoas, destinos, famílias!
— Chega! — Reha colocou-se diante dela. — Basta — olhou firme para Gülçiçek. — Vocês duas dizem a mesma coisa, só com palavras diferentes.
— Eu não vou deixar que me humilhem! — Gülçiçek tentou empurrar o marido, mas ele segurou seus braços.
— E eu não vou aceitar ser acusada do que não fiz! — retrucou Nevra.
— Nevra, senhora Gülçiçek, por favor — Ismail ergueu as mãos, tentando acalmar as duas mulheres exaltadas.
— Você se meteu onde não devia! — Gülçiçek ainda tentava alcançar Nevra.
— Basta! Chega! Somos adultos! — irritou-se Reha.
— Ah, é?! — ela empurrou o peito dele com as mãos. — Então por que você fica calado, Reha?!
— Porque já chega dessas brigas. Eu quero silêncio — respondeu ele, exausto.
— Silêncio? — ela riu com ironia. — Pois eu não vou ficar te esperando em casa! — exclamou Gülçiçek. — Eu também vou trabalhar!
— O quê? — Reha ficou surpreso.
— Estou voltando à prática. Tenho o certificado de doula, lembra? — disse ela. — Vou ajudar mulheres que pelo menos sabem o que querem! Çagla! — chamou, procurando-a com os olhos. — Amanhã vamos fazer o exame de HCG! — anunciou, caminhando até ela.
— O quê? — murmurou Çagla, assustada na poltrona.
— Não, não — Nevra correu atrás de Gülçiçek, com passinhos apressados. — Eu vou com vocês. Temos que acompanhar a dinâmica, cuidar do estado emocional dela.
— Você? — Gülçiçek parou, medindo-a com o olhar. — Por que você vai acompanhar?
— Eu também sou doula, tirei o certificado junto com você — lembrou Nevra. — Fizemos o curso juntas.
— Eu sou mulher e sei o que uma mulher precisa — declarou Gülçiçek, categórica. — E você?
— Ótimo! Então vamos cuidar juntas! — respondeu Nevra.
— Não tenho certeza... — começou Çagla, olhando para as duas.
— Você não pode se estressar — Gülçiçek se ajoelhou, segurou a mão dela e começou a batucar nervosamente sobre ela.
Reha e Ismail trocaram olhares e respiraram fundo.
— Então, quem é o diretor agora? — perguntou Ismail baixinho. — Evren ou elas?
— Acho que acabamos de ser demitidos — murmurou Reha.
Engoliu em seco e olhou para as janelas da cozinha, onde Bahar e Evren haviam desaparecido.
***
Bahar, de mãos cerradas e cabeça baixa, estava parada no meio da cozinha.
— Bahar... — Evren deu um passo à frente, mas ela não o deixou terminar.
— Evren, por que você ficou em silêncio? — perguntou ela, respirando com dificuldade.
— Eu não pedi esse cargo — disse Evren, com amargura. — Foi o Sert quem me indicou.
— Eu não tirei a Rengin! — ele sentiu a raiva subir. — Foi uma decisão do conselho, não minha!
— Mas você aceitou! — ela ergueu o rosto; a voz tremia. — Você podia ter recusado.
— Recusar?! — Evren se virou bruscamente para ela. — De novo? Como da outra vez, com o Timur? Quando abri mão do cargo por causa do Cem? Eu passo a vida inteira cedendo, Bahar! E você acha que eu não tenho o direito de querer, por uma vez, o lugar que eu mereço?!
— Querer...? — repetiu ela, num sussurro, quase assustada. — Então é isso... você quer mesmo?
— Quero! — gritou ele, perdendo o controle. — Quero, sim! — Evren se aproximou. — Por que eu não posso querer um cargo, Bahar? — perguntou num tom mais baixo. — Por que tudo o que eu conquisto vira uma acusação?
— Porque você não me contou — a voz dela estava ferida. — Porque, mais uma vez, escolheu o silêncio em vez de mim.
— Eu não escolhi entre você e o cargo! — ele chegou ainda mais perto. — É você quem me coloca nesse dilema!
— Não, Evren — disse ela, mais calma. — É você quem se coloca — Bahar respirou fundo, apertando os dedos. — E não se engane. Você quer ser o diretor. Assim como naquela época... — suspirou. — Quando quis ir embora, Evren.
— Não é verdade — o rosto dele se contraiu. — Eu só queria que tudo funcionasse, que o hospital deixasse de ser um campo de intrigas.
— E conseguiu — ela aplaudiu, com ironia. — O rosto perfeito da estrutura impecável do Sert Kaya. — sorriu, amarga. — Parabéns, agora você é o médico ideal. Sem sentimentos. Sem erros. Ela te encontrou sozinha — disse Bahar em voz baixa.
— Ela quem? — Evren não entendeu.
— Essa função. Ela veio até você, como naquela vez com a América. — ela deu um passo atrás. — E de novo, você não conseguiu dizer não.
— Chega — exalou Evren, rangendo os dentes. — Não ouse comparar!
— Por que não? — ela abriu os braços. — Antes você foi embora, agora ficou. Mas é o mesmo — você continua decidindo tudo sozinho! Você ao menos pensou no que isso faria com a Rengin?
— Você está sendo injusta! — Evren mal conseguia se conter.
— Você nem perguntou, nem se aconselhou — retrucou Bahar.
— Porque eu não devo satisfação a ninguém! — explodiu Evren.
— Claro, não deve — concordou ela, amarga. — Afinal, agora você é o diretor — Bahar se afastou até a mesa, apoiando as mãos na superfície. — Por que você acha que o silêncio pode consertar tudo?
— Porque eu cansei de me justificar! — ele respirava com força. — Cansei de ser sempre o culpado!
— Então pare de esconder! — lágrimas brilharam nos olhos dela; virou-se de lado, tentando disfarçar. — Quer ser o diretor? Seja. — ela assentiu. — Só não espere que eu fique ao seu lado sorrindo.
— Você é o meu centro, Bahar — ele pousou as mãos nos ombros dela, mas ela não se virou. — E agora estou aqui, diante de você, me sentindo como um aluno que acabou de tirar nota baixa.
— Talvez porque — ela ergueu o rosto, impedindo que as lágrimas caíssem — você está sempre fazendo a prova pra si mesmo, não pra mim.
— Bahar, chega! Eu não sou seu inimigo! — ele apertou mais os ombros dela.
— Então quem é você? — perguntou, sem encará-lo. — O diretor? O homem que me diz como viver? Ou aquele que decide por nós dois todas as vezes?
— Eu só queria que tudo ficasse em paz — murmurou Evren.
— Paz...? — repetiu ela, em voz baixa. — Isso está nos destruindo.
— Bahar... — ele estremeceu, como se tivesse levado um golpe. — Eu te amo.
— E eu estou cansada de um amor em que preciso explicar o óbvio o tempo todo — sussurrou ela, quase inaudível.
Evren, ofegante, abaixou a cabeça e encostou o rosto nos cabelos dela. Bahar fechou os olhos, sem saber como lidar com tudo o que acabara de acontecer.
***
O que tinha acontecido não parecia afetar as crianças. Os reflexos do sol tremulavam sobre a água. Mert e Leyla estavam sentados em suas cadeirinhas à beira da piscina, brinquedos nas mãos. Mert deixou cair o brinquedo na água, e os dois riram, inclinando-se um pouco para observar as ondas que se formavam.
Siren estava ao lado deles, com uma toalha nas mãos, mas o olhar permanecia fixo na casa — lá dentro, atrás do vidro, vozes alteradas ecoavam.
— Agora temos um novo diretor — disse Uraz, em voz baixa, enchendo um copo de suco. — O professor Evren Yalkın.
— Você fala como se fosse uma sentença — Siren franziu o cenho, virando-se para ele. — Ele mereceu.
— Mereceu? — repetiu Uraz, apertando o copo até quase quebrá-lo. — E a Rengin? E os outros? Ele simplesmente chegou — e agora tudo é dele!
— Você o respeita como médico — lembrou Siren. — Então vai ter que aceitá-lo como diretor.
— Poder demais nas mãos de um só — disse Uraz, com raiva. — Minha mãe, o trabalho… — balançava a cabeça, recusando-se a aceitar.
— Talvez o problema não seja ele, e sim você, Uraz — disse Siren, fitando o marido.
— O que quer dizer com isso? — ele se virou para ela.
— O que você ouviu — respondeu Siren, enxugando a água da mãozinha de Leyla. — O que te incomoda não é o Evren. É sentir-se um menino outra vez ao lado dele.
— Cale a boca, Siren — sibilou ele entre os dentes.
— Ele te irrita, sim — continuou ela —, mas é porque você tem inveja dele.
— Eu?! — Uraz deu um passo à frente. — Eu? O que passa noites de plantão? A quem ele manda ficar? Eu tenho inveja dele?!
— Tem, sim! — gritou Siren. — Porque ele vive do jeito que quer! E você — ela quase enfiou o dedo no peito dele —, está sempre esperando que alguém te autorize a viver!
— Eu não estou esperando ninguém, eu só... — Uraz calou-se no meio da frase.
— Só sente ciúmes — completou Siren. — Não cansou de viver a vida da Bahar? Você não tem a sua? A sua própria família?
— Da minha mãe? Está louca? — ele recuou.
— Sim — respondeu ela, em voz baixa. — Porque Bahar é o seu ideal. E eu? Estou sempre aqui, sempre “depois”. O que há de errado com você, Uraz?
— Não começa — pediu ele.
— Vou começar, sim! — Siren estava no limite, quase gritando. — Quando é que a gente vai se mudar daqui? Eu não aguento mais te ouvir discutindo com a Bahar como se ainda tivesse dezessete anos!
— Ela é minha mãe, Siren! E eu não sou obrigado a me afastar dela! — gritou Uraz.
— E eu sou tua esposa! — gritou ela em resposta. — Talvez você devesse lembrar com quem vive!
— Não compara! — Uraz colocou o copo sobre a mesa com tanta força que o suco se espalhou.
— Por quê? — os olhos dela se encheram de lágrimas. — Porque eu não sou a Bahar?!
— Chega — exalou ele. — A Bahar é minha mãe, Siren. Mãe. Ela tem a vida dela, e nós temos a nossa — berrou Uraz.
— Então cuida da nossa! — rebateu Siren, enfim arrancando dele o que queria ouvir.
Uraz virou-se, pegou Leyla no colo e a apertou contra o peito.
— Se você me segurasse assim — disse ela, num fio de voz —, eu já teria parado de brigar com você há muito tempo.
Uraz ficou imóvel. Eles se olharam através do reflexo da água — com amor, mágoa e aquele medo silencioso que destrói até as famílias mais fortes.
Foi então que, de dentro da casa, ecoou um grito de Evren, seguido pela voz de Bahar. Uraz e Siren se entreolharam. Havia muito tempo não ouviam os dois gritando um com o outro... e, na verdade, isso só tinha acontecido uma vez — depois do casamento frustrado deles, no hospital.
***
— Só não espere que eu trabalhe sob o seu comando — Bahar afastou-se de Evren.
— Você vai ter que aceitar, Bahar — Evren a seguiu. — Nem ficou feliz por mim, não é? — a voz dele tremia, carregada de raiva. — Nem sequer tentou me parabenizar!
— Parabenizar por quê, Evren? — ela se virou; os olhos brilhavam. — Por ter ficado calado enquanto todos eram removidos e trocados? Por ter virado diretor e me deixar saber por último — e não por você?
— Sim, eu quis esse cargo! — gritou ele, respirando pesado. — Quis! Porque eu também valho alguma coisa!
— Vale, sim — disse ela, fria. — Mas não é mais o homem que eu conhecia. Eu já nem te reconheço!
— Por que você acha que eu não tenho direito de ter sucesso? — ele avançava, a voz alta, sem se conter. — Por que tudo o que eu faço vira culpa?
— Porque o sucesso escondido sempre tem um preço! — gritou Bahar de volta. — E esse preço sempre sou eu! — ela virou o rosto.
— Não é você, Bahar — Evren agarrou-a pelo pulso, girando-a com força até fazê-la bater contra o peito dele. — Não é você! Sou eu!
— Então conta a verdade pra todo mundo! — gritou ela, empurrando-o. — Diz quem você é agora, pra sabermos onde estão os limites!
— Eu não pedi esse cargo! — ele exalou, a voz embargada pela raiva, apertando ainda mais as mãos dela, impedindo-a de se afastar. — Eu não tirei a Rengin! Eu não criei intrigas!
— Mas também não impediu — respondeu ela, gelada. — Apenas ficou em silêncio, como sempre.
— Chega, Bahar — ele rangeu os dentes. — Você só enxerga o que quer!
— É, enxergo — retrucou ela. — Um homem que tem medo de assumir suas decisões e se esconde atrás dos protocolos dos outros!
— Você está sendo injusta — os dedos dele se abriram, e ele deu um passo atrás.
— E você é covarde! — escapou dos lábios dela antes que pudesse pensar.
— Covarde?! — ele se aproximou. — Eu vivi a vida inteira dentro desse sistema, lutando pra sobreviver entre interesses alheios!
— E agora você virou o próprio sistema! — gritou Bahar, batendo os punhos contra o peito dele. — Porque tem medo!
— Medo de quê, segundo você?! — ele segurou os braços dela, sacudindo-a levemente.
— De tudo! — gritou Bahar, empurrando-o. — Até do meu projeto!
— Projeto? — repetiu ele, encarando-a de baixo.
— Da Meryem Özkan, — completou ela, fitando-o. — A Rengin aprovou minha proposta! Você não teria assinado só porque o nome dela estava lá!
— Isso não é verdade — cortou ele, recuando.
— É, sim! — Bahar avançava, forçando-o a recuar. — Você tem medo dela, medo de problemas, medo do escândalo que pode vir e manchar seu novo jaleco branco de diretor! Você não quer problemas, Evren! Mas esse não é você!
Ele empalideceu. A respiração ficou entrecortada.
— Você não entende... — a voz falhou.
— Entendo mais do que imagina! — interrompeu ela. — É mais fácil pra você destruir qualquer ideia do que enfrentar os desafios! Como pretende resolver os problemas? Que tipo de diretor vai ser?
— Cala a boca! — gritou Evren.
— Por quê? — ela não parava. — Por que tem tanto medo da Meryem Özkan? Porque ela sabe demais sobre você?
Evren encontrou o olhar dela. E, por um instante, Bahar sentiu medo: já não havia raiva ali — só dor. Ele se aproximou e encostou a testa na dela.
— Sim, ela sabe — murmurou com a voz rouca. — Ela sabe tudo sobre mim.
— Eu vou trabalhar com ela, Evren — disse Bahar, ofegante. — Já escrevi pra ela, e ela respondeu.
— O quê? — Evren a olhava, balançando a cabeça, incapaz de acreditar.
***
Umai não acreditava que tudo ficaria bem. Todo dia acontecia alguma coisa, e parecia que aquilo nunca ia ter fim. Ontem Evren tinha gritado com eles, e agora ele e a mãe gritavam um com o outro.
Umai suspirou e olhou para Parla e Yusuf. Até as avós tinham discutido, e Siren e Uraz estavam brigando perto da piscina.
— Na verdade — murmurou Umai, inclinando a cabeça —, talvez fosse legal se o Evren fosse o seu pai.
Parla quase deixou o celular cair; ainda ontem Umai tinha dito que Serhat era o pai de Yusuf, e hoje já achava que o melhor seria Evren.
— O quê? — perguntou Yusuf, surpreso.
— Ué, faz sentido — ela deu de ombros. — Ele é médico. Você quer ser médico. Tudo combina.
— O Serhat também é médico — lembrou Yusuf.
Parla guardou o celular no bolso.
— Sim — disse Umai, acenando com a cabeça —, mas o Evren agora é o diretor. Já vem com carreira, contatos... — comentou ela.
— Você tá falando sério? — franziu a testa Yusuf. — Eu não escolho pai por cargo — respondeu, irritado.
— Não fica bravo — suspirou Umai. — Eu só falei.
— Você não entende nada — o tom dele transbordava desagrado.
— Pelo menos eu não tenho vergonha dos meus pais — rebateu Umai, sem medir as palavras.
— O que foi que você disse? — explodiu Yusuf.
— Nada, esquece — murmurou Umai, se arrependendo.
— Você... — começou Yusuf.
— Ei, chega! — Parla se meteu entre eles.
— Por que você tá se metendo?! — gritou Umai.
— Porque você tá falando besteira! — respondeu Parla. — E porque o Evren é o homem por causa de quem tiraram minha mãe do cargo!
— Tua mãe foi afastada por decisão do conselho, não por culpa do Evren! — retrucou Umai. — É outra coisa!
— Claro — ironizou Parla. — Agora você sabe de tudo, né? Mora na casa da sua mãe e acha que é adulta.
— E você continua sendo uma garotinha que se esconde atrás da sua mãe! — cortou Umai.
— Repete! — Parla deu um passo à frente.
— Eu disse: se esconde! — Umai também se aproximou.
— Quem se esconde é você, atrás da sua mãe! — Parla empurrou-a.
Umai gritou, pegou uma almofada da espreguiçadeira e jogou nela. Parla desviou, e a almofada caiu na água.
— Parem as duas! — gritou Yusuf, correndo até elas e segurando-as pelos braços.
— Me solta! — Parla se debatía. — Ela que começou!
— Porque você vive com esse “minha mãe, minha mãe”! — berrou Umai, empurrando Yusuf.
— E o que tem? Não posso ter orgulho da minha mãe?! — retrucou Parla.
— Pode! Mas para de culpar todo mundo quando algo dá errado! — gritou Umai, tentando alcançá-la.
— Vocês estão se ouvindo?! — Yusuf estava entre as duas, os dentes cerrados.
— Chega! — gritou Çağla, correndo até elas, seguida de Nevra e Gülçiçek.
Reha e Ismail vinham logo atrás de suas esposas.
— Basta! — Rengin saiu de casa e abraçou Parla. — Calma — tentou levá-la para dentro.
— O que é isso, meninas?! — disse Çağla. — Os adultos enlouqueceram e vocês resolveram imitá-los?
— Çağla, não devia correr! — repreendeu Rengin.
— Çağla, querida, senta um pouco — pediu Nevra, tentando acalmá-la.
— Umai — Gülçiçek segurou o ombro da neta.
— Ela começou! — disseram as meninas ao mesmo tempo.
— Chega! — elevou a voz Rengin.
— Eu só disse que o Evren... — começou Umai, ofendida.
— Quem quer que seja! — interrompeu Parla, aumentando o tom e olhando por cima do ombro de Rengin. — Para de comparar! Minha mãe não é pior que o seu Evren!
— Ele não é “meu”! — gritou Umai. — Ele é da minha mãe!
— A Bahar é tua avó agora, é isso?! — zombou Parla.
— O que foi que você disse?! — Umai avançou, mas Çağla se colocou entre elas, enquanto Gülçiçek a abraçava pelos ombros.
— Chega, meninas! — disse Çağla, firme. — Mais uma palavra e eu jogo as duas na piscina pra esfriar a cabeça!
— Diz pra ela, Çağla — sussurrou Parla —, pra não falar da minha mãe!
— Parla — advertiu Rengin.
— Diz pra ela — insistiu Umai —, pra não se meter em conversa que não entende!
— Chega, parem — pediu Çağla, trocando um olhar com Rengin.
— Basta! — disse Rengin, puxando Parla em direção à casa. — E não coloque ninguém num pedestal, Umai. A queda dói demais.
Umai se agitou, mas Gülçiçek a apertou mais forte, impedindo que fosse atrás delas. Reha tentou tocar o ombro da esposa, mas ela se esquivou. Ismail apenas ficou atrás de Nevra, sem saber se devia intervir. Siren e Uraz olharam na direção deles, distraindo-se por um momento de Mert, sentado em sua cadeirinha. E, da cozinha, voltaram a ecoar vozes altas.
***
— Sim — Bahar empurrou Evren. — Eu vou chamá-la pra Istambul! Que ela mesma conte tudo, já que você prefere ficar calado! — ela andava de um lado pro outro pela cozinha, até que, incapaz de permanecer na mesma sala com ele, saiu correndo para fora.
— Bahar, você não vai fazer isso! — gritou Evren, indo atrás dela.
— Já fiz, Evren — disse ela sem se virar. — Eu a chamei. Ela vem pra Istambul! — Bahar parou e o encarou. — E você vai ter que aceitar! Eu vou começar e terminar o meu projeto com Meryem Özkan!
Ao ouvir o nome, Ismail empalideceu. Reha cambaleou até a cadeira e se sentou.
— Bahar, você não sabe o que está fazendo — murmurou ele, olhando para Ismail.
— Chama, vai, chama — Evren repetia, com a voz cada vez mais alta, seguindo-a de perto. — Chama a minha tia, aquela que me rejeitou! A que me abandonou antes mesmo de eu nascer! Ela me deixou, Bahar — deixou a mim e à minha irmã! Ela nem veio quando minha mãe morreu… nem quando minha irmã se foi! Ela deixou que me colocassem num orfanato!
— Evren... — Bahar tropeçou nas próprias palavras, parou. — O que você disse? — perguntou, sem acreditar no que ouvira.
Lágrimas apareceram em seus olhos; ela levou a mão ao peito, tentando respirar.
— Você queria ouvir a verdade? — Evren a olhou nos olhos. — Meryem Özkan é minha tia de sangue! — a respiração dele vinha em golpes curtos.
Ele ofegava como quem correu uma maratona. Uraz apertou Leyla nos braços. Siren ficou boquiaberta. Gülçiçek soltou Umai. Rengin e Parla pararam na porta da casa. Nevra ergueu as mãos, atônita. Yusuf ficou imóvel, tocou a mão de Umai, e seus dedos se entrelaçaram — buscando apoio um no outro.
— Evren... — sussurrou Bahar, segurando a mão dele. Tudo girava à sua volta: rostos, vozes, luzes…
Só o cheiro de fumaça da churrasqueira, trazido pelo vento, ancorava-a no presente — lembrança viva daquele dia.
O silêncio caiu de repente. Até a água da piscina, refletindo as nuvens, parecia imóvel.
— A verdade é pior do que imaginava? — perguntou Evren, exausto de discutir. — Ela é minha tia. Ela nos deixou — a mim e à minha irmã. É por isso que eu não queria que ela se aproximasse!
— Evren… — Bahar inspirou fundo, lutando contra o escurecimento da vista. — Você devia ter me contado.
— E você devia ter acreditado em mim, pelo menos uma vez! — respondeu ele, ferido.
Bahar engoliu em seco. Quis abraçá-lo, mas ele se afastou — virou o rosto… e o silêncio ficou denso, palpável.
Por um instante, todos desviaram o olhar… e então se ouviu um estalo de plástico, um suspiro… um plash.
Ninguém entendeu de imediato — a água se fechou, e um brinquedo começou a flutuar.
— Mert! — gritou Evren, correndo e mergulhando na piscina.
Bahar virou-se, o grito preso na garganta. Viu o pequeno corpo do neto submerso. Siren berrou. Uraz, ainda segurando Leyla, caiu de joelhos. Yusuf pulou atrás de Evren na piscina. Umai e Parla correram até a borda.
Evren já havia erguido Mert com a cadeirinha, e Yusuf o ajudou a soltá-lo. Evren o virou de cabeça pra baixo; Bahar estendeu as mãos, mas ele não o entregou.
Siren chorava. Uraz mal respirava. Reha abraçou Gülçiçek. Nevra se apoiou em Ismail. Rengin segurava o ombro de Çağla, impedindo-a de se aproximar.
Os segundos pareceram uma eternidade… até que o choro de Mert rasgou o ar — como luz depois da tempestade.
Só então Evren o entregou a Siren, que, soluçando, o apertou contra o peito.
Bahar sentou-se na borda da piscina, pernas recolhidas, incapaz de se mover. Apenas observava Siren embalando o filho.
Evren saiu da água e se sentou ao lado dela, sem perceber que as gotas ainda caíam sobre ela.
Por um tempo, só se ouviam os soluços de Mert e o sussurro de Siren… até que as vozes voltaram, agitadas.
— Como você pôde?! — Siren se voltou contra Uraz, ainda segurando o menino. — Você estava ali! Ele podia ter morrido!
— Eu me distraí por um segundo — disse ele, ajoelhado, com Leyla nos braços.
Bahar, voltando a si, levantou-se de um salto.
— Um segundo teria bastado! — ela o enfrentou. — Você devia estar cuidando da criança!
— Bahar — Evren segurou a mão dela. — Ele não quis...
— Não quis?! — ela tremia. — Por causa dele, a criança podia estar morta!
— Ele é o pai — lembrou Evren.
— Então que aja como um pai! — gritou Siren, esquecendo que ainda segurava Mert.
Leyla e Mert começaram a chorar juntos, e todos falaram ao mesmo tempo — gritos, acusações, confusão.
Gülçiçek torcia as mãos. Nevra tentava entregar uma toalha a Siren. Reha levava a mão ao peito. Ismail caiu numa cadeira, exausto. Rengin afastava Çağla.
— Ele está vivo! — gritou Evren, sobre o tumulto. — O Mert está vivo! Basta!
Bahar abraçou Siren e o menino.
— Já chega, calma... — sussurrou ela. — Já passou.
Evren ficou ao lado delas. Em seus olhos havia mais que medo — uma lembrança de dor antiga, a mesma perda revivida.
— A culpa foi minha — murmurou Uraz, ainda abraçando Leyla.
— O importante é que você entendeu — disse Bahar em voz baixa.
Ela mal conseguia ficar de pé; parecia que toda a força a abandonara, e só a mão de Evren a sustentava.
Siren olhou para ele — das roupas ainda escorria água, marcando o chão.
— Obrigada — sussurrou ela. — Você o salvou.
— Evren... — Bahar encostou o rosto em seu ombro, e ele a envolveu num abraço.
Ele não respondeu — apenas virou-se para a água.
Na piscina, flutuava a cadeirinha quebrada, e as ondas longas e silenciosas que se formavam pareciam o respiro coletivo de todos que, enfim, percebiam quão frágil era o mundo dentro daquela casa…
***
A casa mergulhou em silêncio. O cheiro de carne assada ainda pairava no ar, mas ninguém se sentou à mesa. Bahar estava na cozinha, em seu pequeno sofá favorito. A cabeça latejava com o peso do dia, e os dedos tremiam levemente. Siren e Uraz tinham subido com as crianças. Gülçiçek e Nevra ainda discutiam perto da piscina. Ismail e Reha conversavam em voz baixa no canto do jardim. Umai e Yusuf sentavam-se na beira da água.
Bahar começava a perceber que aquela casa, cheia de gente, tinha se tornado um abrigo. Todos vinham ali para se salvar, e ela permitia — porque amava todos eles —, mas agora o coração doía de tanto sentir.
Ela ainda segurava o peito, sentindo que seu limite estava próximo. Fechou os olhos e percebeu o pulso latejando nas têmporas.
Não entendia o que estava acontecendo com Evren. Tinham brigado, gritado, salvado uma criança… e de repente pareciam estranhos um ao outro. Nem se lembrava do que dissera por último. Só via o rosto dele — molhado, perdido.
— Posso entrar? — Rengin apareceu na porta. — Hoje parece que vivemos num campo minado.
— Um apocalipse familiar — tentou sorrir Bahar.
— Mas todos sobreviveram — Rengin se aproximou e sentou-se ao lado dela.
Ficaram um tempo em silêncio. Só o tique-taque do relógio e o zumbido da geladeira preenchiam o ar.
— Não foi culpa sua, Bahar — disse Rengin, quebrando o silêncio.
— O quê? — Bahar a olhou.
— Tudo isso. O hospital, o conselho, a nomeação — Rengin fitava a janela. — Não é você. Nem Evren. Ele não pediu pra ser diretor.
— Mesmo assim dói — admitiu Bahar, sentindo o peito apertar.
— Eu sei — assentiu Rengin. — Pra mim também. Não pelo cargo… mas pela forma como tudo aconteceu. Como se tivessem arrancado o chão sob nossos pés.
— Você não está sozinha — Bahar tocou a mão dela.
— Eu sei, mas ainda assim me sinto estranha — Rengin sorriu de leve. — E agora você está entre nós dois. Entre mim e o Evren. É difícil, não é?
— Ele é mais que um homem pra mim — confessou Bahar. — E você é mais que uma amiga. Eu simplesmente não sei o que fazer — suspirou. — E ainda tem a Meryem Özkan... — ela apoiou a cabeça nas mãos.
— Como sempre — sorriu Rengin, massageando as têmporas. — E mesmo assim você vai tocar esse projeto.
Bahar lançou-lhe um olhar de lado, mas ficou calada.
— A Parla... ela falou com você? — perguntou Rengin, mudando de assunto.
— Não — Bahar balançou a cabeça.
— Acho que minha filha — suspirou Rengin, fechando os olhos — tem passado tempo demais com o Cem.
— Eu também percebi — respondeu Bahar. — Compaixão é uma forma perigosa de amor.
— Compaixão não é amor — disse Rengin, firme. — Eu digo isso a ela, mas ela não me escuta.
— Estão falando de mim? — Parla entrou na cozinha e sentou-se diante delas. — Mãe, eu sei o que estão pensando, mas entre mim e o Cem não há nada. Somos só amigos.
— Tem certeza? — Rengin olhou fundo nos olhos da filha.
— Tenho. Amigos não abandonam uns aos outros — explicou ela. — Todo mundo virou as costas pra ele; alguém precisa ficar.
— Mas se tentar salvá-lo, vai se afogar junto — Bahar engoliu seco, sentindo de novo o gosto metálico na boca.
— Ele precisa de mim — Parla manteve o olhar firme.
— Precisar não é amar — murmurou Rengin, franzindo o cenho. De repente, o cheiro de tinta ficou mais forte.
Bahar pegou um copo, tomou um gole d’água e fez uma careta.
— Que gosto horrível... metálico, como se os canos estivessem enferrujados — disse ela, colocando o copo de lado.
Parla pegou o mesmo copo, cheirou e bebeu.
— Normal — deu de ombros. — É só água. Você deve estar cansada — estendeu o copo para Rengin.
— Normal, sim — concordou a mãe. — Mas o cheiro de tinta está insuportável. Temos que abrir a janela.
Levantou-se, abriu as folhas da janela e respirou fundo — depois fez uma careta.
— Quem teve a ideia de pintar com tanta gente dentro de casa? — perguntou.
— Ninguém pintou — respondeu Bahar, surpresa. — Foram os vizinhos, três casas adiante. Pintaram a fachada ontem.
— Estranho... parece que o cheiro está vindo daqui — disse Rengin, tampando o nariz com um guardanapo.
— O que há com vocês hoje? Água, tinta... todo mundo tão nervoso — Parla realmente não entendia.
A voz tranquila dela as fez voltar à realidade. Bahar trocou um olhar com Rengin.
— Não... — sussurrou Bahar.
— Não — repetiu Rengin.
As duas se levantaram quase ao mesmo tempo.
— Fica aqui — pediu Rengin à filha. — Precisamos... verificar uma coisa.
— Vamos — Bahar já saía da cozinha.
Subiram as escadas rapidamente. O ar parecia mais pesado, como se a casa inteira aguardasse o resultado.
No quarto, fecharam a porta atrás de si. Bahar abriu a gaveta e, com as mãos trêmulas, tirou dois testes. Rengin ficou ao lado, silenciosa, sem desviar o olhar.
Elas foram ao banheiro, voltaram e ficaram imóveis, observando os testes…
Um segundo, outro — e duas linhas finas surgiram em cada um.
Bahar perdeu o fôlego e sentou-se na cama.
Rengin olhou para o teste, depois para ela.
— Não... — sussurrou. — Isso não pode ser.
— Pode, sim — os olhos de Bahar se encheram de lágrimas.
Não tiveram tempo de reagir: a porta se abriu, e Çağla entrou. As duas esconderam os testes às pressas.
— Eu fugi da dona Nevra e da Gülçiçek — disparou ela. — Estão brigando de novo! — falou sem notar o nervosismo das duas. — Acho que decidiram virar minhas doulas de vez.
Rengin e Bahar ficaram em silêncio. Çağla sentou-se ao lado de Bahar, depois se deixou cair na cama, olhando pro teto.
— Bahar, eu não vou aguentar essa gravidez com elas — confessou. — A gente precisa fazer alguma coisa.
— Bahar, você, eu... — Evren apareceu na porta e parou, surpreso ao ver as três juntas.
Bahar olhou pra ele, o teste escondido no bolso.
Agora o cheiro de tinta estava mais forte do que nunca — como um sinal de que a vida, mais uma vez, estava prestes a recomeçar.
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