Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

CAPÍTULO 10. PARTE 5

— Evren! — a voz de Bahar saiu tão alta, tão desesperada.
— O que aconteceu, Bahar? — Evren escancarou a porta com tanta força que ela bateu na parede e voltou.
Uraz deu uma cabeçada na porta ao ser atingido, empurrou-a, Yusuf trombou com Uraz, e os dois caíram dentro do quarto, congelando no batente.
Bahar estava em cima da cama, de pijama. O cabelo desgrenhado, os olhos enormes, cheios de puro terror.
— O que é isso, Evren? — ela gritou, apontando para os travesseiros. — O que isso está fazendo na minha cama?! — ela deu um chute no enorme gato-batom, que rolou e caiu no chão.
Bahar tremia levemente, tomada pelas emoções. Seus olhos faiscavam de raiva. Ela apontava para a cama. Sobre o travesseiro, aconchegado entre os lençóis, estava um enorme bichinho de pelúcia — um ganso branco de pescoço comprido e carinha boba e simpática.
— Hã… — Evren ficou perdido e deu um passo cauteloso na direção dela. — Isso é… um ganso.
— Eu tô vendo que é um ganso! — Bahar vibrava de indignação. — O que ele está fazendo na minha cama? — ela o chutou, e o bicho de pelúcia rolou e aterrissou aos pés de Evren.
Evren ergueu as mãos, como se isso pudesse acalmá-la.
— É um ganso-abraço — disse ele num tom tranquilo. — Na loja disseram que grávidas precisam muito — continuou, aproximando-se devagar. — Dá apoio pras costas, pra barriga e pra estabilidade emocional.
Yusuf resmungou e virou-se para a parede.
— Estabilidade emocional, claro — Uraz soltou, abafando o riso.
— Saiam! — gritou Bahar, pegando um travesseiro e lançando no filho e em Yusuf; inclinou-se para pegar outro.
Yusuf e Uraz, quase engasgando de tanto rir, sumiram do quarto; o segundo travesseiro bateu na porta e caiu no chão. Evren olhou para ela, com a cabeça levemente inclinada para trás.
— Eu só queria que você dormisse mais confortável — disse ele. — Você se mexeu tanto de noite… — começou ele.
— E você achou que um zoológico na cama era uma ótima solução? — Bahar continuava em pé na cama, braços cruzados no peito.
— Não é um zoológico — Evren ergueu o brinquedo — é um ganso-abraço — repetiu ele com uma teimosia invejável. — Ele é certificado, pode para grávidas. E ali — apontou para o outro lado da cama, para onde a outra pelúcia voara — o gato-batom.
— Evren — Bahar suspirou pesadamente — tira isso daqui agora, da cama, do quarto, da minha vida!
Evren abraçou o ganso, apertando-o contra o peito.
— E se ele ficar magoado? — perguntou ele, com o olhar mais inocente do mundo.
Bahar ainda franzia o cenho, o peito subindo e descendo com peso.
— Que fique magoado — ela fechou os olhos; ainda não conseguia se acalmar. — Não me faz esses sustos — pediu, sem abrir os olhos. — Posso até entrar em trabalho de parto antes da hora — ela engoliu em seco e o encarou. — Você não entende o pânico que senti quando acordei prensada pelos dois lados, tanto que fiquei até presa no cobertor? — perguntou, soltando um longo suspiro.
As pernas dela vacilaram, e ela desabou sentando-se na cama, olhando para Evren, a mão pousada no peito, onde o coração batia tão forte. Ela olhava para Evren abraçando aquele ganso branco enorme, para o brilho de sincera incompreensão nos olhos dele — por que o presente dela não agradara? E ela não resistiu: sorriu.
— Para que eu quero esse ganso, Evren? — perguntou num tom mais baixo. — Eu vou abraçar é você.
Evren deu mais um passo.
— Só a mim? — ele perguntou, e os olhos brilharam.
— Só você — ela sorriu um pouco mais. — Mas se você trouxer mais um ajudante que seja, eu vou comprar um urso preto enorme e dormir com ele — e você vai pro sofá!
— Não! — Evren reagiu na hora, indignado. — Ursos eu não suporto! Principalmente grandes e fofos!
As sobrancelhas de Bahar se ergueram. Ela o encarou, com a cabeça levemente inclinada.
— Ontem à noite você também não comia limão, professor — lembrou ela imediatamente. — Você está com ciúmes de um urso? — Bahar riu pelo nariz. — Quer dizer, o ganso e o gato você tolera nos meus braços, mas o urso, não? — confirmou, pensativa.
— E você não teria ciúmes? — resmungou Evren. — Se eu dormisse abraçado com ele? — Ele colocou o ganso ao lado da cama e sentou ao lado de Bahar.
— De um brinquedo? — ela ergueu as sobrancelhas.
Evren pegou o ganso de volta e o abraçou, olhando para ela de novo com aquele olhar inocente. A cabeça do ganso, na comprida garganta, ergueu-se acima deles, com o corpinho redondo acomodado no colo dele.
— E se eu abraçar assim? — perguntou, apertando-o contra si.
Bahar bufou, divertida.
— Confortável? Gostou? — perguntou ela; em seus olhos brilhou um pequeno fogo.
Evren segurava aquele maldito ganso como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, como se não quisesse solte-lo de jeito nenhum. Bahar ergueu-se lentamente, ajoelhando-se na cama, inclinou-se um pouco, a cabeça levemente tombada, e estendeu a mão para o brinquedo.
— Me dá aqui — disse num tom doce, quase carinhoso.
— Não — Evren apertou o ganso ainda mais. — É meu — ele esfregou a bochecha no pescoço comprido da pelúcia. — Estou demonstrando as vantagens — a voz dele saiu um pouco rouca.
— Vantagens? — Bahar sorriu suave, pousou a mão no ombro dele, aproximou-se mais, até que seus rostos ficaram quase à distância da respiração. — Você realmente acha que eu vou escolher um ganso no seu lugar?
Evren engoliu em seco. O ganso ficou entre os dois, como um escudo ridículo.
— Bom… ele é macio — ainda insistiu — e seguro.
— Seguro? — Bahar, devagar, muito devagar, abriu as mãos dele, empurrou a pelúcia para o chão e subiu no colo dele, sentando-se de frente para ele.
— Bahar… — as mãos dele envolveram sua cintura, puxando-a ainda mais para perto.
Bahar lançou um olhar para baixo, para o ganso largado ao lado da cama.
— Se alguém neste quarto vai garantir segurança… — com um toque leve, seus dedos deslizaram pelo ombro dele — vai ser você.
— Pronto — Evren empurrou o ganso com o pé. — Acabou. Ele está demitido — anunciou com a voz grave.
Bahar sorriu, passando a mão pelo peito dele, subindo lentamente, alcançando a gola da camisa; seus dedos deslizaram para dentro, tocando o pescoço. A respiração dele falhou. Ele inclinou-se para beijá-la, mas ela colocou o dedo nos lábios dele, impedindo-o.
— Não — sussurrou ela. — Primeiro responde. Você teria mesmo ciúmes? De um urso? De um grandão preto?
— De qualquer um — ele exalou quase sem som — mas especialmente… — o olhar dele caiu nos lábios dela — quando você me olha assim.
— Assim como? — Bahar inclinou um pouco a cabeça, com um leve estreitamento de olhos.
— Como se já estivesse me beijando com o olhar — murmurou — e eu não vou aguentar nem mais um segundo.
Bahar segurou o rosto dele com as duas mãos.
— E não precisa aguentar… — ela aproximou-se, quase tocando os lábios dele, provocando.
Ele estremeceu, tentou alcançá-la, mas ela se afastou de novo.
— Grávidas não podem ficar nervosas — sussurrou ela, quase roçando os lábios nos dele. — Você mesmo disse. Estabilidade emocional…
— Para com isso — a respiração dele ficou pesada. — Você está fazendo isso de propósito.
— Claro — ela roçou a ponta do nariz no dele, falando tão perto que o ar de sua boca tocava os lábios dele — porque eu adoro quando você fica com ciúmes.
— Então diz de novo — pediu Evren; a mão dele pousou na coxa dela, os dedos apertando.
— O quê? — ela perguntou com falsa inocência.
— Que vai abraçar só a mim — ele tentava beijá-la, e ela se esquivava de leve, não deixando.
— Só você — sussurrou ela, e enfim seus lábios encontraram os dele, lentos, firmes.
Ele quase rosnou, puxando-a mais perto, mas ainda com cuidado, como se temesse machucar — o que só fazia o fogo dentro dela crescer.
— E se você trouxer mais um brinquedo — murmurou ela entre beijos — eu vou comprar um urso. Enorme. Preto. Aveludado. Peludo. E vou chamar ele de Harunzinho.
— Nem pense — Evren afastou-se, encarando-a fundo.
— Eu vou comprar — os dedos de Bahar tocaram a corrente; desceram, apertaram o pingente. — E vou dormir com o Harunzinho. Ou melhor… — ela levou o pingente aos lábios, deixando-o roçar — Harun. Para um urso grande, peludo, preto… combina melhor.
— Não — Evren alongou o pescoço, lutando por controle.
— Harunzinho. Harun — Bahar confirmou, brincando com o pingente; tocou com ele a ponta do nariz de Evren.
— Bahar… — a mão de Evren pousou nas costas dela, puxando-a ainda mais.
Ela voltou a juntar os lábios aos dele, e ele se entregou totalmente… Enquanto o ganso-abraço jazia quieto ao lado da cama… como um rival derrotado de um lado, e do outro espiava o gato-batom… que ninguém abraçou…
***
Ninguém ali estava feliz com aquele encontro. Ismail permanecia no meio da sala de estar, os dedos cerrados em punho, olhando para as costas dela. Meryem caminhou até a janela, como se já estivesse prestes a ir embora, mas parou, ficou ali — como se ainda não tivessem dito tudo.
— Você vai aprovar tudo para a Bahar — disse ela, afastando lentamente a cortina e olhando para o Bósforo sob a luz do dia. — Tudo! A pesquisa, os protocolos, a participação dela — Meryem virou-se para ele — e não ouse duvidar disso de novo. Caso contrário… — ela deu um passo em direção a ele — eu vou à polícia!
— Está me ameaçando? — o rosto de Ismail se transformou.
— Estou te avisando — disse ela com um tom gelado. — Se você recusar, quem vai ficar sob suspeita… — ela balançou a cabeça — será a sua nova paixão, a Nevra. Estavam aqui, tão aconchegantes — ironizou. — E a sua reputação vai cair junto com a dela, Ismail!
— A Nevra… foi embora por sua causa — explodiu Ismail, como se só naquele instante percebesse que não conseguiu deter a própria mulher, não conseguiu protegê-la. — Você viu os olhos dela? Você entrou e a acusou assim que passou pela porta! — ele cerrou os dentes. — Você…
— Não me importo — cortou Meryem, seca. — Todo o seu hospital vai cair na mira. Todos os seus segredos vão vir à tona — ela fechou os punhos, como se estivesse pronta para socá-lo. — Vocês se acham deuses! Como o Aziz, operando na própria casa, matou a minha irmã. Você o assistiu? O Reha? Quem de vocês? — ela exigia resposta. — Como depois ele seduziu minha sobrinha e a matou nessa mesma casa. Como a sua Nevra colocou meu sobrinho num orfanato — ela inclinou-se para a frente e sussurrou: — Não vai sobrar nada de vocês! Nada!
Ismail estremeceu, sentindo a própria estabilidade ruir.
— E o Evren? — perguntou ele, baixo. — Vai colocar ele na linha de fogo também?
Os lábios dela se curvaram num sorriso dolorido. Ela recuou, virou-se.
— Acha que planejaram tudo, não é? — ela tornou a olhá-lo. — Se esconderam atrás do Evren como se ele fosse um escudo!
— Não precisa disso tudo — Ismail disse baixo. — O Evren é o diretor do hospital agora! — lembrou, semicerrando os olhos e dando um passo em direção a ela. — O que você vai dizer ao Sert? Você… levou o amor dele embora. Arrancou a Leyla dos braços dele!
Meryem vacilou, como se uma lâmina tivesse entrado sob a costela.
— Ele fez a escolha dele! — gritou ela. — Ele mesmo deixou a Leyla ir! Nenhum de vocês nos procurou! Nenhum! Nós não estávamos escondidos, vivíamos lá — e ninguém apareceu!
— Nos Estados Unidos… — murmurou Ismail, respirando com dificuldade. — Você foi embora, e o nosso projeto desabou! Você tem ideia do quanto foi investido? Do que se perdeu?! — a voz dele subiu, incapaz de segurar.
— Sim! Nos Estados Unidos! — a voz dela rompeu. — Onde nenhum de vocês apareceu. Ninguém! E você só pensa no dinheiro? — jogou na cara dele. — Você e o Sert, porque gastaram o dinheiro dos seus pais no nosso projeto, e depois vocês foram repreendidos como garotos?!
Eles silenciaram, olhando-se diretamente.
— Um projeto que deu vida — começou ele.
— Basta! — Meryem aproximou-se rapidamente, e seu dedo se cravou no peito dele.
— Basta o quê? — Ismail apertou os ombros dela. — Quer esconder que o Evren foi a primeira criança da sua pesquisa? Para a qual sua irmã concordou? Mas — Ismail a sacudiu — vamos falar a verdade? Então vamos até o fim. Foi você quem começou! Você deixou sua irmã do meio se envolver com o marido da sua irmã mais velha morta. Não foi? Depois você montou o experimento. Envolveu todos nós. Você iniciou a pesquisa quando eles sofriam aborto atrás de aborto, e o Keskin já tinha uma filha com a sua irmã mais velha. A pesquisa em que investimos tanto, que outra mulher morreu, e você teve que fugir às pressas? Que tivemos casais a quem demos esperança e depois tiramos? O que você vai dizer ao seu sobrinho, Meryem? Que você cedeu aos caprichos da sua irmã e a deixou ficar com o ex-marido da sua irmã morta?
Meryem permaneceu calada, olhando para ele, sem tentar afastá-lo.
— Ou vai dizer que o Aziz matou a mãe dele? Ou que você errou na escolha da imunoterapia e o corpo dela não resistiu? Ou que nós, enquanto você estava na América, fizemos de tudo para salvar sua irmã? Onde está a verdade, Meryem? Onde está a culpa?
Ela empurrou o peito dele, ele soltou seus ombros, e ela afastou-se. Virou-se, e seus ombros tremeram.
— Não é só a nossa reputação que vai ser destruída — Ismail percebeu a brecha emocional e avançou. — Vai arruinar a sua também. Então… você vai sacrificar a reputação do Reha? Por vingança?
Meryem virou-se imediatamente. Uma sombra caiu sobre seu rosto, e Ismail achou que ela fosse chorar.
— Você acha que eu pouparia ele? — perguntou, num fio de voz.
— Você… amava ele — lembrou Ismail, suave. — De verdade. Nós todos vimos. Você e o Reha. O Sert e a Leyla.
Meryem congelou. Só por um instante seus olhos ficaram vermelhos, e ela se virou.
— Eu, o Aziz… Éramos seis — continuou Ismail. — Éramos jovens, acreditávamos — ele ergueu as mãos, como se recuasse — e quando aquela mulher morreu, começou a investigação, e vocês fugiram, e nós…
— E vocês brincaram de deuses! O Aziz matou minha irmã e seduziu minha sobrinha — sussurrou Meryem. — Isso é verdade!
— Fácil acusar estando longe, como se você não tivesse culpa nenhuma — Ismail se virou, cravando o olhar nela. — Você vai destruir todos — murmurou — e principalmente o Evren!
— De novo usando ele como escudo? — Meryem fechou os olhos por um segundo. — Você vai assinar a solicitação da Bahar — lembrou ela. — Eu não tenho nada a perder, Ismail, e o Evren vai aguentar. Ele tem a Bahar agora. Ele tem uma família, Ismail. A família que vocês tiraram dele! Eles não vão deixar ele cair!
Ismail apertou os dentes, respirando pesado.
— Quanto ao Reha — ela pegou a bolsa no sofá — você disse certo — anunciou ela num tom abafado. — Eu amava. Passado, Ismail. Passado.
Ela caminhou até a porta, abriu-a sozinha. Ele observou suas costas retas, o passo firme e pesado.
— Vocês acham que sou eu quem vai destruir o hospital de vocês? A vida de vocês? — ela perguntou, sem se virar. — Não sou eu quem destrói. São vocês. Cada um à sua maneira.
Disse isso, virou-se e saiu. A porta se fechou suavemente atrás dela, mas aquele clique atingiu Ismail como um golpe. Ele se afundou lentamente na poltrona, olhando para o chão, segurando a cabeça entre as mãos.
Meryem segurou no corrimão para não cair. Todo o sangue desapareceu do rosto dela… o passado havia vencido todos eles… e o alvo principal tornara-se Evren…
***
Na rua começava a esfriar, e o ar cheirava a pão quente, ervas… e limão. O tilintar da louça se misturava às vozes. Yusuf cortava os legumes. Uraz discutia com ele, insistindo que as azeitonas tinham que ser colocadas em volta do prato, e não no centro. Siren pôs uma jarra de ayran na mesa. Umay servia o chá. Bahar se acomodou à cabeceira. Evren jogou uma manta sobre os ombros dela, a envolveu bem, e seus lábios roçaram a bochecha dela. Colocou diante dela um copo de leite morno, pôs no pires um pedaço de pão acabado de sair do forno e, ao lado, um pratinho com fatias de limão perfeitamente alinhadas.
Bahar olhou para ele, surpresa. Ele não disse nada, apenas sorriu, respirando fundo o aroma, puxou a manta ainda mais sobre os ombros dela… e, nesse instante, o silêncio caiu sobre a mesa. O rosto de Evren continuava calmo, mas os dedos tremeram um pouco ao empurrar o pratinho mais para perto dela. Bahar sorriu; imediatamente pegou uma fatia… e Evren recuou, achando que ela fosse oferecer para ele. Mas Bahar segurou a mão dele, fez com que se sentasse ao lado dela e colocou na sua plateia panquecas quentinhas, regando-as com mel.
Siren olhou para Uraz, que, sem jeito, agarrou a jarra de ayran e encheu o copo dela. Yusuf colocou azeitonas no prato de Umay… de repente todos começaram a cuidar uns dos outros… desajeitados, sem prática… O pátio se encheu de um farfalhar suave, do tilintar das xícaras, de conversas baixas. Na mesa havia pratos com queijo, azeitonas, ovos, ervas, legumes, pastırma, geleia de figo, mel, panquecas.
Nevra sentava-se ao lado de Gülçiçek. As duas, desta vez, estavam caladas. Os olhos de Nevra estavam avermelhados, mas ninguém perguntou nada. As mãos dela tremiam quando pegou a xícara e quase derramou o chá. Gülçiçek fitava a mesa, distraída, como se não enxergasse nada. Seus gestos eram bruscos, a respiração rápida.
Bahar percebeu que Evren não parava de olhar para o portão.
— Você está esperando alguém? — perguntou, inclinando-se para ele.
— O Ismail e o Reha — respondeu simplesmente. — Desde que a sua mãe chegou, eu fico esperando que eles apareçam.
Bahar resmungou e balançou a cabeça; até ontem ele não queria ver ninguém, hoje já estava esperando visitas.
— Pra quê? — perguntou baixinho.
— Não acredito que tenham soltado as duas assim tão fácil — ele olhava para Nevra e Gülçiçek. — Alguma coisa está acontecendo — murmurou Evren, franzindo levemente a testa. — Olha lá — quase sorriu — eu falei — um carro parou diante do portão.
Mas quem entrou foram Parla e Rengin, as duas silenciosas; apenas cumprimentaram e sentaram-se à mesa. Logo depois chegou Çağla. Essa, ao contrário, tagarelava, sorria, contava algo que tinha ouvido no rádio enquanto vinha.
Evren continuava teimoso, sem tirar os olhos do portão.
— Ele não vem — sussurrou Nevra — ele ficou com ela — e, soltando um soluço, pressionou o guardanapo contra o rosto.
— Com quem? — perguntou Gülçiçek, num tom baixo, piscando antes de encará-la.
— Com ela — Nevra ficou imóvel, como se revivesse o pesadelo da manhã outra vez. — Acabou — lançou um olhar de lado para Evren — eu não pertenço mais a este lugar, Gülçiçek.
— Fica sentada — a mão de Gülçiçek apertou o pulso dela. — Eu tô sentada, você também fica. Vamos sorrir — murmurou — já estão olhando pra gente do mesmo jeito.
Por mais que tentasse, o olhar de Gülçiçek voltava, de novo e de novo, para o portão… mas Reha não apareceu… e, a cada minuto, a esperança de que ele viesse ia se desfazendo.
Bahar, sem querer, observava todos.
— Não se mete — assim que percebeu o movimento dela, Evren pôs a mão no joelho de Bahar, fazendo-a parar.
— Mas você tem razão, aconteceu alguma coisa ali — sussurrou Bahar, indicando com o queixo a mãe e a Nevra.
— E elas não podem ter a própria vida? — perguntou Evren, baixo. — Quer colocar a delas em exposição também, como a nossa? — a irritação começou a aparecer na voz dele.
Bahar se calou, endireitou as costas, piscando, e assentiu.
— Café da manhã levinho — murmurou.
— O melhor de todos — concordou Evren.
Eles se olharam, como se perguntassem em silêncio o que viria depois. O sol brilhava nas xícaras com o resto de chá, sombras de folhas dançavam sobre a mesa. Bahar se levantou, pegou um prato, e Evren imediatamente o tirou das mãos dela, balançou a cabeça e lançou um olhar para Uraz e Yusuf. Os dois pularam na mesma hora e começaram a tirar as coisas da mesa, deixando Bahar surpresa com aquele comportamento. Ela piscou e olhou para Evren.
— Descansa — sussurrou ele, simplesmente.
— Depois de comer? — as sobrancelhas dela se ergueram.
Evren abriu os braços, um pouco. Bahar fez o mesmo, sem entender, e depois riu baixinho.
— Então nós vamos dar uma volta — anunciou ela, dirigindo-se às mulheres.
— Eu quero ficar com as crianças — sorriu Siren.
— Eu vou junto — a voz de Uraz veio de dentro da casa.
Bahar olhou para Evren, sem entender o que tinha acontecido enquanto dormia; Uraz parecia outra pessoa, arrumava a mesa, ajudava a limpar, queria passar tempo com as crianças.
— Nós vamos ficar em casa — suspirou Gülçiçek, finalmente desviando o rosto do portão.
— Vamos — Nevra levantou-se na mesma hora, e as duas desapareceram dentro de casa, sem explicar nada a ninguém.
— Mãe, o que houve com as vovós? — Umay se aproximou de Bahar.
Bahar abraçou Umay pela cintura e beijou sua bochecha.
— Hoje elas estão com o coração triste — sussurrou Bahar. — Vem com a gente, Parla — chamou ela — chega de ficar no telefone.
Parla chegou a abrir a boca, mas enfiou o celular no bolso do jeans. Evren sorriu. Bahar, Çağla e Rengin foram as primeiras a sair do pátio. Parla e Umay vieram atrás. Bahar tomou o braço de Çağla e o de Rengin, caminhando entre as duas. Evren franziu levemente a testa; o jeito de andar delas era estranhamente parecido. Ele sacudiu a cabeça, expulsando qualquer pensamento, e seguiu em direção à piscina…
***
A brisa leve passou de lado, arrancou uma folha seca da árvore e a deixou cair sobre a terra úmida. Kamil estava diante da tumba. Encolhera a cabeça entre os ombros, como se carregasse ali todo o peso insuportável dos próprios pensamentos. Ele fitava a terra fresca.
— Eu te prometi uma casa à beira-mar — murmurou, com a voz falhando. — Prometi um filho. Prometi que nunca ia te deixar sozinha… — seus dentes rangiam. — Mas deixei. Deixei você lá, naquela maca gelada de cirurgia. Sozinha.
O vento bateu mais forte. Kamil olhou por cima do ombro, como se temesse que alguém pudesse ouvi-lo.
— Ela me disse que era tarde demais — seu rosto se contraiu numa careta de dor. — Que já era tarde, que os índices estavam instáveis, que o estado era grave, que a gente estava… observando. Observando! — ele rasgou o ar com o punho. — Como se você fosse um experimento dela!
Ele respirava com dificuldade, arfando… falava, mas o cemitério respondia só com silêncio.
— Você pediu ajuda, Ayşe! Eu vi. Eu vi você perdendo as forças… — ele passou a mão pelo rosto. — E aquela Bahar deles… — a respiração se desfez em um soluço rouco — ela me olhou como se eu tivesse que esperar! Esperar você morrer!
Sussurrando, ele se agachou, pousando a palma sobre a terra fria.
— Nosso menino morreu, e eles nem tiraram ele dali — murmurou, fechando os olhos; uma lágrima escorreu por sua face. — Eles ficaram adiando tudo. Achando que você ia resistir. Que o seu fígado ia, por milagre, voltar a funcionar. E então ela disse: “sinto muito”… — ele parou por um instante, os lábios tremendo. — “Sua esposa morreu.” — a boca se abriu num grito silencioso.
Kamil puxou o colarinho, como se algo lhe apertasse o pescoço. Agarrou um punhado de terra, e as migalhas escuras e úmidas entraram debaixo das unhas.
— Todo mundo me escreve — disse ele, num tom rouco. — Todos sabem. Dizem que eu tenho razão, que a medicina matou os seus, que eu devo buscar a verdade, exigir uma investigação — sua voz vacilou, e ele se curvou sobre a terra molhada. — Eles colocaram milhares de curtidas, milhares… — um riso amargo escapou — então sua morte não foi em vão, Ayşe. As pessoas ouviram — seus olhos brilharam. — Dizem que foi… negligência médica. Que foi assassinato. Que eu tenho que descobrir a verdade.
Ele se levantou devagar.
— E eu vou descobrir, Ayşe — sussurrou Kamil. — Eu juro. Ela vai pagar. A doutora Bahar Özden vai pagar pela sua morte e pela morte do nosso filho! Ela não vai escapar! — seus punhos se fecharam.
Ele ficou ali, olhando para a terra, como se tentasse ouvir a respiração dela sob aquele frio. Depois virou-se bruscamente e foi embora sem olhar para trás. A cada passo, suas costas ficavam mais rígidas, mais eretas. E já não havia dor nem fragilidade no seu caminhar — apenas uma determinação dura. Apenas o ódio, que ele deixara crescer dentro de si…
***
As copas dos plátanos tinham crescido bem, mas já tinham perdido parte das folhas, e agora o vento as empurrava preguiçosamente pela calçada ao longo das casas e da rua. Três mulheres caminhavam lado a lado, apoiadas umas nas outras, seguindo em frente. De vez em quando, a mão de cada uma descia instintivamente até a barriga — em silêncio, sem pensar, como se, sem perceber, checassem o pulso da vida que crescia dentro delas.
Bahar às vezes avançava alguns passos, como se estivesse explorando o caminho. Rengin acolhia cada sopro de vento, como se dele dependesse a sua calma. Çağla, sorrindo, observava tudo ao redor, com medo de perder algo importante. Ora se afastava para o lado, ora ia na frente, ora parava perto de um canteiro de flores.
Atrás delas vinham Umay e Parla. As vozes das duas, como duas notas diferentes, soavam em um só acorde.
— Tô te dizendo que é índigo — afirmou Parla com convicção.
— Parla, isso é só azul — Umay agitou os braços. — Azul normal.
As mulheres se viraram. Bahar sorriu, ela e Rengin trocaram olhares. Aquela leveza na discussão das meninas era para elas como um lembrete de que a vida ainda podia soar simples.
— Acho que elas podem discutir assim a vida inteira — suspirou Rengin.
— Elas têm o mesmo pai — respondeu Bahar, tranquila. — Teimosia do Timur em duas versões.
— E o volume da voz? — entrou Çağla na conversa.
— Isso é de todo mundo junto — respondeu Bahar, e elas caíram na risada.
Seguiam ao longo das casas, e o cheiro de tinta foi ficando mais forte.
— Por que estamos indo justamente pra esse lado? — Rengin tirou um lenço e o levou ao nariz.
— Porque a Bahar escolhe intuitivamente os lugares onde tem aventura — comentou Çağla, rindo.
— Isso foi delicado da sua parte — ironizou Bahar. — Normalmente vocês dizem “caos”.
— Aliás, pra onde a gente está indo? — Rengin queria uma resposta. — Eu vou pra onde vocês forem, mas… pra onde é isso?
— Estamos só passeando — respondeu Bahar.
— Então por que estamos indo pra onde fede a tinta? — Rengin fez uma careta.
— Porque a Bahar adora complicar a vida — acrescentou Çağla na hora.
— E isso vocês chamam de amizade? — conferiu Bahar.
— A mais sincera que existe — garantiu Rengin.
Çağla ia dizer algo, mas de repente parou, prestando atenção.
— Espera — ela se virou na direção do beco. — Vocês ouviram?
— O quê? — Bahar parou.
Çağla deu um passo em direção ao beco.
— Tem um gatinho miando em algum lugar — sussurrou.
— Çağla, você tá falando sério? — Rengin revirou os olhos, pressionando o lenço ainda mais contra o nariz.
— Só vou dar uma olhada — Çağla foi em passos rápidos na direção de onde vinha o miado.
— Só eu já vi isso antes — Bahar balançou a mão e foi atrás da amiga.
Çağla entrou no beco. Caminhava entre as casas, para onde a sombra ficava mais densa e um galho grosso de um plátano velho se estendia sobre o caminho. Tentando enxergar alguma coisa, ela ergueu o rosto, e bastou se aproximar. A árvore respondeu de imediato à atenção: o galho estalou. Çağla gritou e deu um salto para o lado, bem na hora em que, lá de cima, uma figura masculina robusta despencou ao seu lado. O homem caiu direto em uma almofada macia de folhas secas. Em seus braços tremia e miava choroso um gatinho cinza.
— Çağla! — gritou Bahar, correndo até ela.
Çağla estremeceu e levou as mãos ao peito; fitava aquele pequeno milagre cinza nas mãos grandes e fortes do homem. Ele piscou, tentando focar o olhar.
— Desculpa… acho que eu… quebrei a árvore — disse ele.
— Bahar — Rengin chegou correndo também.
O gatinho miou de novo, cravando as minúsculas garrinhas na pele do homem. O desconhecido suspirou, soltou o ar, aguentando com uma paciência de ferro, e então seu rosto mudou.
— Mas você não é um gato? — ele afastou o bichinho um pouco de si e encarou o focinho. — Eu não posso… você… atchim — espirrou e se levantou.
— Então por que você sobe em árvore? — Çağla ia pôr as mãos na cintura quando o homem enfiou o gatinho nos braços dela.
— Porque ele tava na árvore — explicou ele, ofegante, e tornou a espirrar, puxando a gola da camisa para baixo. — E eu… tava tentando… atchim!
— Por que você me deu ele? — Çağla imediatamente devolveu o gatinho às mãos do homem.
— Não, não, fica com ele… atchim — o homem conseguiu passar de novo a bolinha peluda e miadora para as mãos de Çağla.
— Não, leva você! Eu tô grávida! — exclamou Çağla.
— E ele vai me matar! — a voz dele saiu rouca.
— Mas foi você que subiu atrás dele — Çağla continuava tentando empurrar o gatinho para as mãos dele.
O gatinho miou, choroso, como se concordasse com os dois.
— Deixa que eu pego — interferiu Bahar, tirando o filhote das mãos de Çağla. — Mas que coisinha mais linda você é… como é que a gente vai te chamar? — sorriu, examinando-o.
— Não, me dá ele aqui — não se conteve Rengin, pegando o gatinho de Bahar. — Eu não tenho alergia, e você já tem peixes — lembrou.
Rengin o acolheu no colo, e o gatinho se acalmou na mesma hora, enroscou-se numa bolinha, encostou o focinho na barriga dela e começou a ronronar, como se tivesse encontrado a sua pessoa.
O homem mal conseguia ficar em pé.
Cambaleou e desabou aos pés de Çağla. Bahar imediatamente se abaixou ao lado dele.
— O que foi que a gente perdeu? — as meninas chegaram correndo.
— Olha pra mim — Bahar estalou os dedos diante dos olhos dele — não, não, não… respira. — pediu.
— Você não bateu a cabeça? — Çağla, segurando a barriga ainda discreta, agachou-se ao lado dele, do outro lado.
— Só… o orgulho — murmurou ele, fechando os olhos; a pele ficara acinzentada.
— A gente precisa liberar a respiração — disse Bahar em voz baixa. — Tira a camisa.
— Eu? — ele abriu os olhos. — Aqui? Na rua? Na frente de vocês?
— Você prefere respirar ou ficar encabulado? — ela o encarou, surpresa.
— Eu… eu… atchim… respirar… A tinta — murmurou, quase inaudível. — E o gato, tudo junto… atchim…
Bahar levantou os olhos para a fachada recém-pintada da casa.
— Faz sentido — Çağla olhou na mesma direção que ela. — Aqui claramente alguém exagerou.
— Foi você que pintou? — perguntou Rengin, inclinando-se sobre ele.
— Meninas — disse Bahar, sem nem se virar. — Em casa. Farmácia caseira. Antialérgico.
— Já estamos correndo! — responderam em coro e saíram disparadas.
O homem tentou controlar a respiração, mas o peito subia e descia pesado.
— Relaxa — disse Bahar. — Vai melhorar já já.
— Eu… vou tentar — ele empalideceu mais um pouco, logo depois enrubesceu, os olhos começaram a revirar.
Bahar e Çağla trocaram um olhar. Bahar começou a desabotoar a camisa dele, inclinou-se sobre o peito, tentando ouvir os batimentos. Nessa posição foi que Evren a encontrou: ela com a face encostada ao peito nu de outro homem.
— O que está acontecendo aqui? — a voz familiar a fez se endireitar.
Evren se ajoelhou na mesma hora, empurrando Çağla para o lado. Yusuf estendeu o braço, impedindo as meninas de se aproximarem.
— Passeio, né, Bahar? — perguntou ele, enquanto puxava o medicamento para dentro da seringa.
— Eu tava prestando socorro, Evren — Bahar abriu um lenço com álcool. — Ele tava com dificuldade pra respirar, queria que eu fizesse respiração boca a boca?
— E você faria! — Evren pegou o lenço das mãos dela e aplicou o antialérgico no homem. — Eu não tenho a menor dúvida!
A respiração do desconhecido foi se acalmando aos poucos, o rubor sumiu do rosto. Rengin, com o gatinho nos braços, se mantinha a uma distância segura. As meninas estavam ao lado dela, acariciando o filhote uma de cada vez.
O homem abriu os olhos… e congelou ao se deparar com o olhar de Evren. Evren empalideceu, recuou… e se levantou.
— Bahar — disse ele entre dentes — vamos.
— Evren… — Bahar não entendia nada. — Evren?!
— Evren Yalkın — o desconhecido se ergueu um pouco, e Bahar o ajudou, segurando-o pelo braço.
Evren se enrijeceu, cerrou os dentes, observando-a tocar aquele homem.
— Doutor Carter — arrancou ele, por fim.
Rengin, Bahar e Çağla olhavam, surpresas, para os dois homens.
— Doutor Carter Özer… o senhor é oncologista… — Rengin se recompôs. — Sim, sim, eu li seus artigos — deu um passo à frente e estendeu a mão. — No último congresso eu queria muito falar com o senhor.
— Não chega perto com esse bicho — exclamou Carter, dando um passo para trás.
Rengin ficou parada onde estava. Çağla observava, interessada, aquele homem enorme morrendo de medo de um gatinho tão pequeno.
— Bahar, Rengin, Çağla, em casa! — rosnou Evren, sem explicar nada.
— Pai! — uma voz clara quebrou um pouco a tensão, e até eles correu um rapaz alto, magro, de óculos. — Por que você foi subir pra salvar o gato? — exclamou. — Eu falei que, quando terminasse, ia tirar ele dali.
Umay e Parla olharam para ele, curiosas. Ele segurava um pincel, o que fez Rengin recuar ainda alguns passos — o cheiro de tinta era fortíssimo.
— Ekrem, tá tudo certo — ele olhou para Bahar. — Ela me salvou — apoiou-se no ombro do rapaz.
— Özer? — repetiu Bahar, olhando para Evren. Em seguida se virou para Carter. — Você… — não terminou a frase.
— Bahar, Çağla — chamou Evren, cortando-a. — Em casa. — Ele deu um passo na direção dela e olhou bem nos olhos da esposa. — Nós vamos pra casa.
— Evren, mas… — começou Bahar.
Evren a tomou pelo braço, e com a outra mão tocou no ombro de Çağla, que ficara parada, observando o homem; havia uma folha presa em seus cabelos. Ela se esticou nas pontas dos pés, arrancou a folha e a enfiou na mão dele.
— De lembrança do encontro — sussurrou, sorrindo. — Um homem tão grande, um gatinho tão pequeno… — balançou a cabeça e riu.
Ao passar por Ekrem, Yusuf o mediu com um olhar sério.
— Melhor ficar longe — resmungou, sem querer, imitando o comportamento de Evren.
Parla corou. Umay se enrijeceu. Elas não entendiam absolutamente nada do que acabara de acontecer.
Rengin acariciou o gatinho. Çağla lançou mais um olhar a Carter, como se quisesse dizer algo importante. Carter, porém, olhava para Evren.
— Então… — começou ele.
— Depois — cortou Evren. — Chega!
Eles se viraram e seguiram na direção de casa. O grupo inteiro, como uma espécie de caravana doméstica.
E atrás deles, sob a sombra da árvore, ficou o rastro de um destino alheio do passado, que já tinha entrado em suas vidas com a mesma discrição com que surgira aquele gatinho — silencioso, por acaso, para sempre.
***
Eles tinham se encontrado aqui um dia, por acaso… O terraço do velho hotel ainda guardava um certo calor, como se lembrasse dos passos deles. Antes havia ali um café para estudantes de medicina, agora era só uma varanda fechada, vazia, abandonada. Foi ali que se sentavam depois das provas.
Reha saiu para a cobertura e viu as costas dela — retas, e ainda assim familiares, firmes — e o coração dele se apertou de um jeito que o deixou sem ar, como se não tivessem passado quarenta anos, mas apenas quarenta horas, quarenta minutos, quarenta segundos.
Meryem estava junto ao parapeito. O vento bagunçava seus cabelos curtos; ela segurava o corrimão, como se se impedisse de fazer algo.
Reha ajeitou a respiração e só então se aproximou, parando a dois passos dela.
— Você se atrasou. Como daquela vez — Meryem nem se virou.
Reha não conseguia chegar mais perto, como se dali em diante simplesmente não fosse possível dar outro passo.
— Daquela vez eu… — começou ele.
— Amarelou — terminou ela.
— Sim, eu tive medo — exalou ele, e o vento levou seu fôlego.
Meryem virou um pouco a cabeça. Foi o suficiente — dolorosamente suficiente — para que ele visse nos olhos dela os anos. A força. E a ferida que não tinha cicatrizado.
— Eu tinha as passagens — lembrou ela, olhando para algum ponto ao lado. — Te esperei no aeroporto como a última garota ingênua — Meryem engoliu em seco. — Achei que você ia aparecer. Agora. Daqui a um minuto — ela balançou a cabeça, como se até hoje não tivesse aceitado aquilo. — Aí eu entendi que nós dois sabíamos curar, mas não sabíamos ir embora direito.
Reha deu meio passo e parou. As mãos dele tremeram, como se quisessem tocar os ombros dela, mas ficaram suspensas no ar.
— Eu achei… — começou ele — que não tinha o direito de me meter no seu sonho. Você tava indo… tão alto… eu tinha medo de te puxar pra baixo.
— E eu tinha medo de voar sozinha — respondeu ela.
Ele fechou os olhos. Por um instante, como se a dor fosse física.
— Me perdoa — sussurrou Reha.
— Não vou dizer “eu te perdoo” — respondeu Meryem, baixo. — Não foi pra isso que eu vim.
Ela se afastou um pouco para o lado, nem mais perto, nem mais longe, só o suficiente para o vento passar entre os dois.
— Mas você tem o direito de ouvir — continuou. — Eu tive uma vida. Difícil. Interessante. Nada perfeita — ela o encarou de frente. — E, talvez, se você tivesse ido comigo naquele dia… teria sido outra vida — ela se calou. — Uma vida que eu nunca consegui imaginar até o fim — tossiu, e uma sombra passou pelo seu rosto — com você nela.
— Por quê? — perguntou Reha, franzindo levemente a testa.
Meryem sorriu de leve, com amargura, olhando para ele como quem já tinha decidido não temer mais essa ferida.
— Porque, naquela vida, eu ia esperar demais de você — disse ela, virando-se de novo. — E eu sabia que era justamente disso que você mais tinha medo. Tinha medo de ser o destino de alguém.
Reha fechou os dedos, mantendo-se no lugar.
— Eu fugi, tive medo — admitiu. — Me convenci de que, sem mim, você ficaria melhor — respirou fundo. — E sabe qual é a coisa mais assustadora?
— Diz — os ombros dela estremeceram, e ela se virou para ele.
— Eu fui pro aeroporto mesmo assim — murmurou ele, quase sem voz — mais tarde.
— Mais tarde? — Meryem o encarou nos olhos.
— Eu fiquei no lugar onde era pra você estar — continuou. — Mas você já tinha ido embora. E isso… era o certo pra você — ele abaixou o olhar. — Mas eu nunca consegui me perdoar por isso.
Ela fechou os olhos. Os lábios tremeram, como se nem ela soubesse o que subia dentro do peito: raiva, pena, vontade de bater nele ou só de abraçar.
— Essa é a nossa história de amor — continuou ela, suave. — Aquela que sempre vem meio passo atrás, sempre atrasada.
— Eu fico feliz que você esteja aqui — ele tentou sorrir.
— E eu fico feliz por conseguir olhar pra você sem dor — respondeu Meryem. — Quase.
O vento apertou, levantando os cabelos curtos dela. Ela fechou a mão, como se segurasse a si mesma, desenhando sua própria fronteira.
— Você é feliz? — ele perguntou, sabendo muito bem o quanto temia a resposta.
— Sou — respondeu Meryem. — E não sou — ergueu o queixo. — A minha vida aconteceu. Eu fiz tudo que pude. Eu amei. Eu errei. Eu salvei gente — tossiu e pegou um lenço, levando-o aos lábios. — E mesmo assim, às vezes eu penso: e se você, naquela época… — não terminou.
Reha se aproximou só mais um pouco, à distância de um sopro, mas sem tocá-la.
— Eu amo a minha esposa — disse, baixo, com sinceridade. — De verdade.
— Eu sei — ela nem se abalou. — E isso é o certo — por um instante, os olhos dela brilharam úmidos. — O que foi entre nós… não desapareceu. Só virou uma história. Uma história que nenhum dos dois consegue apagar — uma lágrima escorreu pela sua bochecha.
Reha ergueu a mão e parou, sem coragem de tocar, a poucos centímetros do rosto dela. Os dedos tremiam.
— Posso? — perguntou.
— Não — respondeu ela, balançando a cabeça. — Não precisa — Meryem sorriu. — Vai ser melhor assim. Pra você e pra mim.
Reha baixou a mão. Eles estavam quase lado a lado, mas não juntos. Perto, mas sem o direito de se aproximarem mais. Um silêncio estranho os envolveu, como se toda Istambul tivesse parado para ouvir a vida que eles não viveram.
— Obrigada por ter vindo — sussurrou Meryem, com lágrimas nos olhos. — E obrigada também por não ter vindo, naquela época — virou-se devagar para ele. — Eu aprendi a viver sem você, Reha, mas esquecer… não consigo. Como se eu não conseguisse virar a página, entende? E eu preciso fazer isso, Reha — havia tanta dor na voz dela que parecia um grito. — Me ajuda — pediu — coloca um ponto final.
— Meryem… — exalou ele. — Me desculpa.
Ela o olhou por cima do ombro, com um olhar em que cabiam profundidade, clareza, força.
— Você pede perdão por ter partido meu coração? — perguntou. — Ou por eu não ter conseguido parar de pensar em você mesmo assim?
— Por tudo — Reha abaixou os olhos, escondendo as lágrimas que tinham surgido. — A gente… — engoliu em seco — a gente achava que ia se casar, Meryem.
Ela se virou por completo, devagar. Nos olhos dela refletiam-se a cidade e a sombra da garota que tinha sido um dia.
— Achava — repetiu. — Eu tinha as passagens — lembrou. — E você?
Reha baixou o olhar. Fechou os dedos como se segurasse uma caixinha invisível.
— As alianças — sussurrou.
O vento arrancou aquela palavra como uma folha da árvore. Meryem prendeu a respiração por um segundo.
— As alianças — ela quase sorriu, tocando o anelar da mão esquerda. — Que a gente nunca chegou a usar.
A mão dela tremeu; ela tocou a lateral do corpo e logo retirou a mão, endireitando-se.
— Você não tá bem? — ele perguntou.
— Só tô cansada — respondeu rápido demais, dando um passo para trás. — Não se atreva a chegar mais perto — acrescentou, suave, quase terna. — Eu não quero voltar pro lugar de onde a gente mal conseguiu sair.
Ele ergueu a mão, como se quisesse tocar o ar perto dela, mas não a pele.
— Eu te levo em casa — disse. — Só isso.
— Não — ela negou com a cabeça. — Não precisa.
— Você tá passando mal — Reha franziu levemente a testa.
— Isso não é problema seu — disse ela, em voz baixa. — Me carregar no colo quarenta anos depois.
Ela deu um passo, e as pernas falharam. Reha conseguiu segurá-la, sustentando-a com um único gesto — ao mesmo tempo proibido e inevitável. Meryem se apoiou no braço dele só por um segundo e se afastou outra vez.
— Me solta — sussurrou. — Isso não pode se repetir, você é um homem casado.
— Então deixa pelo menos eu te levar até em casa — ele a observava com atenção.
Meryem se apoiou no parapeito, olhando para ele, como se experimentasse aquela proximidade contra toda a vida que tinha vivido sem ele. E permitiu que ele se aproximasse. Estendeu a mão, e ele envolveu os dedos frios dela. Pôs a mão dela no próprio braço, e os dois seguiram devagar em direção à escada.
Caminhavam lado a lado, mas não juntos. Mantendo uma distância que, finalmente, tinham aprendido a suportar. E, ainda assim, os dois sentiam que, justamente agora, estavam fazendo o que não tinham feito lá atrás: seguir em frente…
***
Eles não podiam fazer nada. O quarto era pequeno demais para as duas, para dois vulcões que mal conseguiam conter dentro de si. Nevra, de pé perto da janela, se segurava no parapeito. Gülçiçek estava sentada na beirada da cama, mas cada músculo do corpo parecia esticado ao limite, como se pudesse saltar a qualquer segundo. As duas estavam em silêncio e, de repente, falaram ao mesmo tempo.
— Ela vai destruir a minha vida — soltou Nevra, com a voz trêmula. — Ela vai contar tudo, e eu nem consegui ser feliz de verdade. Só um pouquinho eu me permiti.
— Ele não veio pra casa — Gülçiçek apertou as mãos; na voz dela havia pura fúria. — Primeira vez desde o dia do nosso casamento. Um homem só não vem pra casa quando tem um lugar onde é melhor pra ele.
Ela se levantou e começou a medir o quarto de Nevra a passos firmes. Gülçiçek não ouvia o que dizia Nevra, e Nevra não ouvia Gülçiçek.
— Eu… eu nunca me meti em nada — Nevra agarrou o parapeito com ainda mais força. — Eu sempre fiquei na sombra, como o Aziz pediu, sempre de lado, enquanto eles faziam as coisas deles. “O projeto do século”, era assim que falavam, os seis, reunidos aqui em casa, e eu servindo bebida pra todos, como se fosse empregada. E agora, quando finalmente um homem me enxergou, me notou, e daí? Ela apareceu de novo.
— Eu nunca exigi que ele ficasse o tempo todo colado em mim — Gülçiçek agarrou a cortina com as mãos. — Eu só queria que ele estivesse em casa, que estivesse bem. Mas esse “já tô chegando” dele… é o pior de tudo. E agora ainda tem ela.
— Ela voltou — sussurrou Nevra — e eu vou desaparecer de novo, como se nunca tivesse existido. Porque o mundo sempre girou em torno de Meryem Özkan, quarenta anos atrás e agora também.
— Voltou — repetiu Gülçiçek, como se confirmasse as palavras dela. — E tudo embaralhou na cabeça dele. O peito esquentou, reacenderam os sentimentos antigos?! E eu, o quê? Uma sombra da juventude deles, dos erros deles?!
As duas se calaram e se olharam.
— Ela vai me humilhar — disse Nevra, abraçando o próprio corpo. — Vai dizer duas frases e tudo desaba. Ismail… — ela se cortou no meio, ficou muda.
— Eu não aguento essa espera sufocante — respondeu Gülçiçek. — Eu passei anos casada esperando o meu marido, que saía, me traía, e depois voltava… — a voz falhou, ela emudeceu por um instante, depois continuou: — e agora, se ele voltar ou não voltar, dói igual — balançou a cabeça. — A gente se casou tem dois meses. Dois. Não são anos, ainda não virou hábito. É… — suspirou fundo — por enquanto ainda é só esperança.
As duas se calaram de novo. Nevra fechou os olhos, tentando respirar. Gülçiçek recomeçou a andar de um lado pro outro no quarto.
— Ele quer o quê, que eu vista jaleco de cuidadora e fique andando atrás dele como se fosse criança? — murmurou Gülçiçek. — Então que vá com ela, com o grande amor da juventude! Que vá! Eu não tô sentindo dor nenhuma! Nenhuma! — disse e logo encostou a mão no peito.
— E eu sinto dor! — a respiração de Nevra falhou. — Porque ela falou tudo! Tudo, olhando direto nos meus olhos! — ela começou a imitar Meryem: — “Você destruiu a vida dele! Você colocou o menino num abrigo! Você viveu a vida dos outros! Você não conseguiu nada!” — Nevra soluçou. — E ela tem razão, Gülçiçek, eu não tenho nada nem ninguém, eu nem família tenho. Ninguém me vê.
— E o Reha, você acha que ele me vê? — explodiu Gülçiçek. — Vê que tem uma esposa em casa? Que a esposa sente alguma coisa?!
Elas se olharam, cada uma vivendo a própria tragédia.
— Eu não tenho futuro — sussurrou Nevra.
— E eu não tenho presente — respondeu Gülçiçek.
Sem esperar, as duas se sentaram na cama ao mesmo tempo.
— Gülçiçek… — Nevra suspirou. — Ninguém precisa de mim.
— Eu também não — Gülçiçek virou o rosto. — Quem é que precisa de uma mulher de quase sessenta anos, que passa o dia inteiro se virando que nem galinha no quintal?
De novo, silêncio.
— Eu não posso ficar aqui — sussurrou Nevra. — Eu preciso ir embora antes que me mandem embora, porque eu, pra eles, sou ninguém. E agora ela chegou pra se vingar pelo Evren — murmurou, pousando a mão no ventre; nos olhos dela havia uma dor não dita, que ela aprendera a esconder atrás de sarcasmo e arrogância.
— Eu também não posso ficar aqui — repetiu Gülçiçek.
— Eu vou pra qualquer lugar — os olhos de Nevra brilharam de lágrimas.
— Eu também — Gülçiçek se levantou. — Eu não quero ficar num lugar onde ele possa aparecer cheirando ao perfume dela.
— Eu preciso ir embora senão vou enlouquecer — Nevra apertou as têmporas com as mãos.
— Eu também preciso ir embora — disse Gülçiçek, baixo. — Senão eu…
Ela não terminou. As duas chegaram à porta quase ao mesmo tempo. Desceram as escadas juntas e saíram pra rua, onde deram de cara com Evren e Bahar.
— Evren… — começou Bahar, mas parou ao ver Gülçiçek e Nevra.
— Não começa, Bahar — tentou contê-la Evren, virando-se.
— Mãe — Bahar se aproximou de Gülçiçek — o que está acontecendo?
— Eu tô indo embora — respondeu ela, seca, passando por eles sem olhar, como se os dois também tivessem culpa.
— Eu vou com ela — murmurou Nevra, sem encarar Evren, encolhendo-se atrás de Gülçiçek.
— Pra onde vocês vão? — Bahar apressou o passo atrás delas.
— Pra minha casa — respondeu Gülçiçek.
— Pra casa dela — sussurrou Nevra.
As duas se olharam uma para a outra e saíram do pátio.
— Mãe… — Bahar deixou escapar. — Por favor.
— Não tenta me segurar — declarou Gülçiçek, categórica. — Eu não volto pra casa hoje.
— E eu não fico aqui — Nevra não tinha coragem de olhar para eles.
— Mas o que foi que aconteceu afinal? — Bahar estava perdida.
Eles dois, Bahar e Evren, seguiam atrás delas no automático. Perto do portão já havia um táxi parado.
— Gülçiçek… — sussurrou Nevra — só não me deixa sozinha, por favor.
— Vamos embora — assentiu Gülçiçek.
— Mãe, por favor — Bahar segurou a mão dela. — Você não largou o Reha, né?
— E por que não? — perguntou Gülçiçek, quase num sussurro. — Vai ver, é ele que já largou de mim.
Bahar ficou pálida. Evren sacudiu a cabeça, sem entender absolutamente nada.
— Nevra? — Bahar tentou arrancar pelo menos dela alguma explicação.
— Ninguém precisa de mim — respondeu Nevra, rouca, evitando o olhar de Bahar, afastando-se.
Ela foi a primeira a entrar no táxi. Gülçiçek, ainda segurando a mão de Bahar, virou-se — e exatamente nesse momento, um táxi parou um pouco mais adiante da casa de Bahar, e dele desceu Reha. Gülçiçek amoleceu por dentro, o coração bateu pesado no peito — Ele veio… não.
Sob a luz do poste, ele se inclinou e estendeu a mão, ajudando a descer do carro uma mulher. Meryem.
Evren cambaleou. Gülçiçek se agarrou à porta do táxi, mas continuou em pé. Bahar olhou primeiro para Evren, depois para a mãe. E os três ficaram imóveis, observando Reha e Meryem.
***
Meryem ficou imóvel em frente a Reha. Estava muito perto dele, como se não houvesse entre os dois décadas de separação. A respiração já tinha se acalmado, mas os ombros tremiam de leve — não de frio, e sim porque ela tinha soltado coisa demais.
— Obrigada por me trazer até aqui — sussurrou.
As palavras voaram para a friagem do começo de noite e pareciam se dissolver no ar. Reha assentiu, apenas a fitando, como se visse não mais a garota do terraço, mas uma mulher estranha diante dele. Ela deu um passo para trás, como se fosse embora, mas de repente parou, abriu a bolsa devagar e tirou de lá uma folha antiga, quase desbotada, dobrada ao meio. Reha se apoiou no carro; a boca se abriu, como se todo o ar tivesse escapado do peito e ele não conseguisse mais puxar outro. Uma lufada de vento tocou os cabelos dela.
— Eu… devia ter jogado isso fora há muito tempo — falou, como se cada palavra custasse. — Mas não consegui — deu um passo em direção a ele. — Ele sempre ficou comigo — continuou — não como esperança, mas como lembrança de quem nós poderíamos ter sido.
Meryem não deixou que ele respondesse: aproximou-se num gesto rápido, os lábios encostaram nos dele por um instante, e a mão dela enfiou o bilhete de avião nunca usado no bolso da camisa dele. Reha estremeceu, não teve tempo de recuar, e ela já tinha dado um passo para trás, como se nada tivesse acontecido.
— Adeus, Reha — Meryem tossiu, tirou o lenço e o levou à boca.
Nesse momento, as pernas falharam. Ela se agarrou na parede, mas os dedos escorregaram, como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo dela.
Bahar soltou um suspiro quase inaudível. Evren se retesou, já sentindo o que viria a seguir.
— Mãe — a voz masculina cortou o ar, e Carter correu até ela.
— Vó — Ekrem surgiu de trás do portão.
Reha empalideceu, cambaleou. Observava os dois segurando Meryem pelos braços, um de cada lado — e agora os três olhavam para ele. Para aquele que, por decisão própria, tinha se apagado da vida deles.
— Você… — tentou ele, mas a voz falhou. — Você… tinha dito que fez um aborto. Que era cedo demais pra nós.
— E você acreditou — respondeu ela, sem desviar os olhos. — Porque pra você era mais fácil assim.
— Reunião de família, é? — murmurou Gülçiçek, sentando-se no táxi e batendo a porta.
Ela nem conseguia chorar; alguma coisa por dentro tinha quebrado, partido de vez. Apertou as mãos e disse o endereço. Nevra cobriu o rosto com as mãos, sem perceber que um carro parava junto ao portão da casa e dele descia Ismail.
Bahar olhava para Evren, esquecendo por um instante da mãe — e o táxi arrancou, levando as duas embora.
Carter Özer era primo de Evren, e Ekrem, seu sobrinho. Então ela tinha entendido certo. Meryem Özkan não estava simplesmente passeando perto da casa deles na noite anterior. Comprara uma casa ao lado, fizeram reforma lá.
— Evren — murmurou Bahar. — São…
— Sim. Aqueles para quem eu fui um estorvo — respondeu ele. — Professor — Evren correu até Reha.
Bahar foi atrás, e, logo depois, apressado, veio Ismail, que ainda não tinha entendido nada, mas, ao ver Meryem e Reha, com a mão no peito, seguiu na direção deles.
Meryem e Carter olhavam para Evren, e ele, ignorando os dois, segurou Reha por um lado; Bahar ficou do outro. Agora todos se encaravam, e um pouco afastado, de lado, parou Ismail.
— Eu vi a Gülçiçek indo embora — começou Ismail. — E a Nevra, onde está? — perguntou como se nada além disso lhe interessasse.
— A Gülçiçek? — Reha estremeceu. — Ela viu tudo?
— O que é que eu vi? — murmurou Meryem, virando a cabeça.
— Mãe, não — Carter a segurou. — Vamos.
Ekrem ofereceu o ombro, deixando o peso da avó recair suavemente sobre ele. Olhou para Reha com curiosidade, claramente cheio de perguntas. Carter suspirou, prendendo o olhar em Reha. Meryem respirava com dificuldade, mas não desmaiou; aguentou firme.
— Me desculpa, Bahar — sussurrou. — Eu não tava só passeando aqui ontem. Agora eu moro aqui — apontou para a casa logo ali, perto da deles. — Somos vizinhos — esclareceu.
Evren empalideceu, cravou os olhos em Bahar — tudo nele gritava: você viu a Meryem Özkan e não me falou nada.
Carter e Ekrem levaram Meryem para dentro do pátio e fecharam o portão. Bahar ficou olhando para a fachada branca, para o cheiro de tinta fresca que tomava a rua. Meryem não tinha passado à toa diante dos portões deles. Evren ainda segurava Reha. Bahar sacudiu a cabeça — e então, pra onde, afinal, Yusuf tinha levado a mãe ontem?
— Gülçiçek… eu preciso… — murmurava ele, com os lábios secos.
O rosto ficou cinza. Ele agarrou o peito; Bahar e Evren o apoiaram ao mesmo tempo pelos cotovelos, aguentando o peso.
— Cuidado! — Bahar o encarava, aflita. — Professor, respire fundo.
— Eu… — Reha puxava o ar pela boca — eu não quero que ela… vá embora… assim… — não conseguia terminar a frase.
— Mãe? — Bahar pareceu acordar, olhou em volta. — Elas foram mesmo? — havia pânico na voz.
— Elas? — Ismail agarrou as palavras na hora. — Reha — colocou-se na frente dele — a gente tem que ir.
— Ir pra onde? — Bahar entrou em desespero; não sabia se reanimava o professor ou corria atrás de Gülçiçek.
— Primeiro a gente precisa estabilizar ele — disse Evren.
Os três seguiram na direção da casa.
— Pra onde elas poderiam ter ido? — perguntou Ismail num tom duro, andando ao lado deles.
— Só pra casa da Gülçiçek — murmurou Reha. Andava, mas as pernas tropeçavam. — Vamos — parou no lugar.
— Professor… — começou Evren.
— Reha — Bahar procurou o pulso dele.
— Primeiro a minha mulher — sussurrou Reha. — Depois o resto.
Evren inclinou a cabeça, devagar. Cada um fazia suas escolhas… e, mais uma vez, Reha escolhia o que considerava certo pra si. Mas seria certo pros outros? Ele olhou para a fachada recém-pintada. A casa onde tinha se instalado a tia dele com o filho e o neto. Depois encarou Bahar. Ela sabia de tudo, sabia que Meryem já estava em Istambul — e não lhe dissera nada. Perguntas queimavam dentro dele, mas ele se calou.
Ismail enfiou Reha no banco da frente, ignorando os protestos de Bahar e Evren. O carro piscou os faróis e sumiu na curva. Evren se virou para Bahar, mas, antes que dissesse qualquer coisa, do lado de dentro saíram Rengin e Parla. Rengin tinha o gatinho nos braços.
— A gente vai indo — avisou Rengin. — Ainda temos que comprar tudo pro novo membro da família — sorriu.
Bahar e Evren assentiram, se despediram. Mal tinham se virado pra seguir pra casa, e Çağla surgiu na porta, leve, rápida.
— Fica — Bahar apertou o pulso da amiga.
— Não posso — sussurrou ela.
O terceiro táxi deixou a frente da casa… e Bahar se virou para Evren.
— Não tem nada que você queira me contar? — ele perguntou de imediato, apontando para o portão e deixando que ela passasse na frente.
— Evren… — Bahar entrou primeiro.
Eles pararam logo dentro, junto aos portões. Bahar deu um passo na direção dele, mas ele se inclinou levemente para trás, prendeu o olhar nos olhos dela — e os dois se calaram. Respiravam em uníssono, mas, a cada inspiração, o ar ficava mais pesado, mais denso, como se, a qualquer momento, uma tempestade pudesse desabar…
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