Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?
CAPÍTULO 10. PARTE 1
Um instante — e o silêncio pareceu se romper. Evren parou na porta, o olhar percorrendo os três antes de se deter em Bahar. Notou de imediato a tensão em sua postura, o olhar inquieto, a respiração curta. Já ia se aproximar dela, mas o suspiro vindo da janela o deteve, e, em vez de palavras ou um sorriso, uma onda de raiva o tomou. Evren cerrou os dentes — até aqui, no quarto deles, não conseguiam ficar a sós.
— Eu... — começou Evren, mas parou no meio da frase.
Bahar estava sentada na cama, ainda sem acreditar no que o teste mostrava. O mundo parecia ter se deslocado um milímetro. Um milímetro entre a vida e o abismo. Seus dedos, que apertavam o teste dentro do bolso, tremiam. Bahar não sabia o que Rengin sentia, e, sem querer, olhou para ela. Rengin estava à janela, com a mão apoiada na face. Um medo avassalador tomou conta de Bahar — tão forte que ela não conseguiu dizer nada; tudo o que podia fazer era respirar.
Çağla se ergueu um pouco na cama e olhou para Evren. Tocou as costas de Bahar, e ela pareceu voltar a si. Estremeceu, levantou-se e foi até a porta. Passou por ele, e ele a seguiu.
De todos os lados vinham vozes, o som de pratos, risadas infantis. A casa parecia viver por conta própria, sem deixar a eles nem um milímetro de espaço. Pararam perto da escada. Tentando controlar a respiração, Bahar apertou o corrimão.
— Você está com raiva? — perguntou ela, sem se virar, lutando contra a náusea súbita e a dor no estômago.
— Eu teria motivo pra não estar? — a voz dele era surda, pesada.
— Evren... — ela tossiu, fechando os olhos por um instante, tentando lembrar se tinha comido algo naquela manhã.
— Bahar, — ele se aproximou, sussurrando ao ouvido dela — eu nem consigo entrar no nosso quarto, tem gente estranha lá!
— Rengin e Çağla? — perguntou ela. — Gente estranha?
— No nosso quarto, Bahar, — repetiu ele. — Ou já não é mais o nosso lugar? Parece que qualquer um pode estar ao teu lado, menos eu, — disse com raiva.
— E você estava ao meu lado quando eu precisei? — ela se virou para ele.
— Você vai começar de novo com a América? — sussurrou ele, irritado.
Bahar desceu um degrau.
— Quero saber, quando você se cala — por que se cala? — perguntou baixinho. — Foi assim também com Meryem Özkan.
— O que há pra não entender? — ele a seguiu de perto, quase esbarrando nela quando ela se virou. — Meryem Özkan é minha tia, e ela nos abandonou. Não voltou quando minha mãe morreu. Você acha mesmo que eu quero vê-la? Aquela que me apagou da vida dela?
Bahar suspirou, sem responder. Evren deu um passo à frente, e entre eles o ar pareceu se fechar novamente, cheio de tudo o que ficou por dizer.
— Você não me deixou dizer uma palavra, — sussurrou ele, o sopro de sua voz roçando os lábios dela. — Nem depois da nomeação, nem depois de Meryem Özkan.
— Porque você decidiu tudo sozinho, — murmurou Bahar, agarrando a mão dele. — E ficou em silêncio.
— Eu não queria que você descobrisse assim, — Evren a segurou com cuidado. — Mas isso não quer dizer que eu te excluí.
— E eu não queria gritar, — ela encostou a cabeça de leve em seu ombro, baixando o olhar. — Só... não aguentei.
— Será que a gente vai continuar se ferindo assim? — perguntou ele, e começaram a descer devagar.
— Não sei, talvez, — ela suspirou, — até que um de nós pare primeiro.
— Eu não sabia que você ia chamar Meryem, — Evren ainda segurava sua mão.
— Porque sou médica, — ela engoliu em seco. — E porque tenho uma paciente, Evren.
— E também — porque ela é minha tia, — a dor vibrou em sua voz.
— É sobre isso que eu queria falar, — disse Bahar, parando e se virando para ele. — Evren, — murmurou baixinho, — obrigada, pelo Mert, — seus dedos apertaram ainda mais a mão dele.
— Isso... — ele franziu o cenho, sem entender de imediato, — não tem de quê. Qualquer um faria o mesmo.
— Não, nem todo mundo, — sua voz tremeu. — Você salvou meu neto.
— Isso não é o que me preocupa agora, — interrompeu ele.
— E o que te preocupa? — Bahar queria tanto que ele a abraçasse, que afastasse o medo, que curasse o vazio — mas não podia dizer. Ainda não. Precisava ter certeza primeiro.
— Nós, — respondeu simplesmente. — Nós — e o jeito como você olha pra mim. Como se eu fosse um estranho de novo.
Ela não respondeu, apenas baixou o olhar, escondendo o novo espasmo no estômago, mordendo o lábio.
***
— Não precisa se desculpar, Nevra, — a voz suave de Ismail vinha da sala.
— Mas está tudo arruinado, — respondeu ela com falsa doçura. — Este dia, este almoço...
— Um dia não é uma catástrofe, — disse Ismail. — E você não é um erro.
Bahar os ouvia como se fosse uma música distante, suave, quase imperceptível. Queria que ela e Evren também tivessem essa chance — um espaço onde pudessem simplesmente conversar. Mas a casa parecia já tomada por vozes alheias, desculpas alheias, perdões alheios. Evren estava ao lado dela, olhando-a.
— Vamos continuar assim? — perguntou ele.
— Não sei, — respondeu Bahar. — Talvez até aprendermos a não falar os dois ao mesmo tempo.
— Eu tentei me desculpar, — disse Evren.
— E eu tentei entender, — sussurrou ela. — Mas não conseguimos fazer nem uma coisa nem outra.
Ela quis dizer algo mais, mas as palavras se perderam. Bahar sentiu um peso subir pelo estômago, o ar se tornando espesso.
— Bahar, — Evren percebeu a palidez dela e apertou o braço dela com força. — O que foi?
— Está tudo bem, — ela recuou. — Só estou cansada, — e foi à frente.
Evren vinha logo atrás. Bahar queria continuar a conversa, mas as palavras se dissolveram na luz suave do abajur, no riso distante, nos gestos dos outros.
Nevra estava a um passo de Ismail, de frente para ele, o ombro apoiado na parede, como se tivesse encontrado uma pequena ilha. Brincava com a cortina. Ele permanecia imóvel ao lado dela — a postura rígida e contida dos homens para quem até a respiração é uma decisão.
— Vira pra mim, — pediu ela baixinho, os dedos deslizando pela gola da camisa dele.
— Não precisa, — respondeu ele, sem olhar.
— Precisa sim, — disse Nevra, ajeitando o colarinho, passando a mão pelo ombro dele. — Você anda sempre como se fosse pra uma reunião do conselho — impecável, correto e, ao mesmo tempo, distraído.
Ismail sorriu de leve, sem dizer nada.
— Está tão barulhento aqui, — continuou ela, como se falasse de outra coisa. — Essa família..., — ela hesitou, mas já era tarde demais, — sempre estraga tudo, — precisou completar. — Quer dizer... não todos. É só que... é difícil pensar aqui.
— E é preciso pensar? — perguntou Ismail com calma, aproximando-se dela.
— Às vezes é, — Nevra baixou o olhar, deixando escapar um sorriso leve, quase casual. — Pra simplesmente estar junto, — disse, recuando um passo, como se quisesse aumentar o espaço entre eles, mas na verdade só queria ver se ele a seguiria.
Ismail não a seguiu, mas também não desviou o olhar. O silêncio entre eles virou uma corda esticada.
Bahar parou à entrada, Evren atrás dela, segurando-lhe o cotovelo. Observavam sem querer, testemunhas involuntárias. Nevra e Ismail estavam no canto da sala, fora do burburinho, num pequeno círculo de luz.
— Agora você parece um homem, e não alguém fugido de uma reunião, — sussurrou Nevra, umedecendo os lábios.
— Eu fugi mesmo, — respondeu Ismail. — Da reunião, da conversa, dos gritos, — fez uma pausa, olhando para os lábios dela. — Você está mal aqui? — perguntou. — Posso te levar.
— Assim, tão fácil? — arqueou a sobrancelha. — Sem anel, sem casamento?
Bahar estremeceu, Evren se enrijeceu. Ela estava prestes a intervir, mas ele a conteve com um leve movimento de cabeça. Ismail sorriu, mais abertamente.
— Eu não disse pra onde te levaria, — continuou ele. — Talvez só pra um lugar com menos gente.
— E se lá ficar silêncio demais, — respondeu Nevra, — e você perceber que sem o caos fica entediado?
— Sem você, sim, — respondeu ele, simplesmente.
Nevra corou, desviando o olhar, fingindo observar uma dobra na manga dele. Os dedos voltaram ao colarinho, como se quisessem se certificar de que tudo estava em ordem.
— Pronto, — murmurou. — Agora sim. Agora você parece de novo um homem — e não uma tempestade entre cirurgiões.
— E você parece uma mulher que não deveria ficar aqui sozinha, — respondeu Ismail com serenidade.
Nevra riu, com um som cristalino, mas logo se recompôs.
— Sem barulho e sem escândalos, tenho medo de que em dois dias você fuja, — disse ainda rindo.
— Se for sem você, fujo mesmo, — respondeu ele.
Eles não perceberam que Bahar e Evren estavam perto da escada. Bahar foi a primeira a se constranger — o olhar, o riso leve, o toque — tudo era íntimo demais, vivo demais. Baixou os olhos, depois os ergueu e deu um passo à frente.
— Talvez devêssemos dizer algo, — sussurrou ela.
Evren apertou-lhe o braço, detendo-a.
— Não precisa, — murmurou.
Bahar quis protestar — havia crianças, a casa cheia, Nevra como sempre passando dos limites — mas ele a conduziu suavemente em direção à cozinha. Poucos segundos depois, estavam no corredor, onde o ar cheirava a café e pão fresco.
— Pra cozinha, — disse ele baixinho.
Evren a levava para lá — o único lugar onde ainda podiam falar sem olhos sobre eles. Dentro dela, tudo saía do compasso: náusea, calor estranho, mãos frias. As palavras de Evren chegavam amortecidas, atravessando o zumbido em sua cabeça. Ele dizia algo, e ela não conseguia se concentrar. Grávida. Estava grávida... e se fosse outra gravidez ectópica? E se algo desse errado? E se, como com Ayşe, o corpo falhasse? E ainda Nevra e Ismail... e Rengin. E Çağla? As crianças, os netos. Evren, Yusuf. Bahar sentiu como se todo o ar tivesse escapado dos pulmões.
Evren quase não a olhava, mas seus dedos tocavam sua pele, e ela reagiu com uma intensidade que não esperava. Tudo o que tentava conter se misturou: culpa, irritação, medo, mágoa — e, sob o coração, um tremor novo, indefinido.
— Evren, — quis dizer algo, talvez se justificar, mas pensava apenas em uma coisa: que ele não percebesse ainda que dentro dela começava uma nova vida.
***
E também a mãe… e Reha — deles é que Bahar não tinha pensado.
Bahar e Evren pararam à porta da cozinha. Gülçiçek se movia como quem tenta abafar os próprios pensamentos com a pressa. Colocou a chaleira no fogo. Reha estava perto da geladeira.
— Você se preocupa demais com todo mundo, — disse ele num tom gentil. — Senta um pouco, pelo menos por um minuto.
— Ninguém comeu de verdade, — ela tirou as xícaras do armário, sem saber bem por quê. — Precisamos que todos se sentem juntos, como uma família.
— Eles já se dispersaram, — riu Reha. — Você não vai prendê-los, vai?
Bahar já ia entrar, mas quando viu Reha se inclinar em direção a Gülçiçek, parou. Evren segurou seu braço, impedindo-a de intervir. Bahar abriu as mãos, sem entender. Evren apenas balançou a cabeça. Reha tentou pegar o pulso de Gülçiçek, mas ela escapou.
— Você só sabe brincar, — disse ela com irritação contida. — Estou falando sério, Reha. Cada um aqui se fechou no próprio canto, e eu... eu não aguento mais esses pratos espalhados, essas conversas pelas paredes. Cansei, — colocou o copo vazio na mesa com força. — e o Mert também.
Reha se aproximou.
— Então olha pra mim, — disse baixinho. — Eu sou a tua família, Gülçiçek.
— Escolheu bem a hora! — ela tentou passar por ele, mas ele a segurou pela cintura — com delicadeza, sem forçar.
Bahar recuou instintivamente, encostando-se em Evren. A mão dele pousou sobre o ventre dela. Ele a puxou mais perto... e o ar sumiu dos pulmões de Bahar. Já não via nem ouvia nada. Olhava apenas para a mão dele — sob a qual pulsava uma nova vida... a prova do amor deles, sua forma mais real. Bahar não entendia o que se passava na cozinha, todos os sentidos estavam em alerta. Evren, ela, o bebê.
— Eu estava só esperando você parar de discutir com a chaleira, — murmurou Reha junto ao ouvido dela. — Gülçiçek, nós somos recém-casados, lembra?
Ela quis se afastar, mas acabou se apoiando nele, como se também precisasse de um respiro no caos do dia.
— Recém-casados... — repetiu ela com ironia. — Com louça, filhos, netos e relatórios do hospital?
— Não importa, — ele beijou o rosto dela. — Você é a mais linda dona do caos.
— Não começa, — os olhos dela escureceram, mas ela afastou as mãos dele. — Fala a verdade… o que houve entre você e Meryem Özkan?
Evren, ao ouvir o nome, se enrijeceu e parou. A mão dele apertou o ventre de Bahar sem perceber. Ela arfou, estremecendo; uma fina camada de suor apareceu em sua testa. Sua mão fria segurou a dele, mas ele não notou — concentrado na discussão que vinha da cozinha.
— De novo isso? — Reha se endireitou, o rosto tenso. — Trabalhamos juntos, só isso.
— Você nunca soube mentir, Reha, — disse Gülçiçek, pegando um pano.
— Cansei de me justificar, — a voz dele endureceu. — Meryem era minha colega.
Eles estavam muito perto um do outro.
— E é só isso? — perguntou ela em sussurro. — Só uma colega?
— O que eu preciso dizer pra você acreditar? — perguntou ele, exausto. — Que fui idiota por não ver como você me olhava, mesmo quando brigava comigo? Que eu só me sinto vivo aqui, com você, nesta cozinha? O que você quer ouvir, Gülçiçek?
Ela quis responder “a verdade”, mas ele a abraçou antes, e ela cedeu, fechando os olhos.
— Não entendo do que você tem medo, — murmurou ela.
— Talvez porque eu sinta vergonha, — escapou dos lábios dele.
Gülçiçek abriu os olhos, levantou o rosto e o fitou. Reha suspirou, inclinando-se — quase a beijou.
— Vamos, — sussurrou Evren, despertando do torpor e percebendo que estavam fora de lugar ali.
Reha e Gülçiçek se afastaram de repente. Olharam para Evren e Bahar. Gülçiçek corou, Reha ajeitou a camisa. Bahar piscou, respirou fundo quando Evren tirou a mão de seu ventre. Fitou Gülçiçek, depois Reha. Sem entender o constrangimento deles, ela mesma se sentiu embaraçada. Gülçiçek agitava o pano, como se quisesse espantar Reha.
— Desculpem, — disse Bahar rapidamente, puxando Evren de volta ao corredor.
— Está vendo? — Gülçiçek brandiu o pano, fingindo raiva. — Até o universo nos repreende.
— Que repreenda, — riu Reha. — Ainda estamos vivos, Gülçiçek. Vivos! — parecia se divertir. — Agora todos sabem quem é o homem mais apaixonado desta casa, — sussurrou, quase rindo.
Gülçiçek congelou por um segundo, depois acertou o ombro dele com o pano.
— Seu sem-vergonha! — disse entre os dentes. — Que vergonha! O que vão pensar de nós agora?
— Que estamos vivos, — respondeu ele, satisfeito. — E que sou casado com uma mulher cujo golpe é de precisão cirúrgica, — fingiu massagear o ombro.
Gülçiçek virou o rosto, mas os lábios tremeram num sorriso. Com as mãos nas bochechas ardendo, olhou para ele.
— Vivos, é? — repetiu. — Ótimo, — murmurou, aproximando-se. — Agora a casa toda vai achar que estamos... nos comportando indecentemente.
— Deixa acharem, — Reha deu um passo à frente. — Assim ao menos vão lembrar que ainda sou homem, e não peça de museu.
— Quieto! — ela sibilou, acertando-o de novo com o pano. — Vergonha na velhice! — recuou para a mesa, mas o sorriso não se conteve. — Vão pensar que enlouqueci por você.
— Não somos velhos! — protestou Reha, aproximando-se. — E talvez tenha enlouquecido mesmo… mas de amor por mim. Nós dois enlouquecemos — e pelo menos uma vez na vida, tudo bem.
Gülçiçek tentou manter o olhar severo, mas o fôlego lhe falhou.
— Reha, afasta-se, — sussurrou, abanando o pano como se isso pudesse protegê-la. — Atrevido. Te pegaram em flagrante e ainda fica todo feliz.
Reha apoiou as mãos na mesa, inclinando-se mais perto.
— Porque agora eles sabem que ainda sou capaz de amar, — murmurou. — A você!
— O que você faz comigo… — ela parou, rindo baixinho, desviando o olhar como quem se rende.
Ele tocou-lhe o rosto com cuidado, e ela não se afastou — apenas suspirou.
— Vai sentar, — resmungou Gülçiçek. — Antes que eu me lembre que prometi te dar sossego.
— Tarde demais, — sussurrou ele ao ouvido dela. — Sossego cancelado.
Ela balançava a cabeça, sorrindo, entre o embaraço e a ternura, enquanto o atingia de leve nas costas com o pano.
***
— A gente nem consegue conversar nesta casa, — irritou-se Evren, cravando o olhar nas costas dela.
— Nós somos médicos, Evren, — respondeu Bahar com cansaço, puxando-o em direção à porta de entrada. — Nunca existe silêncio pra nós, — parou perto da porta. — Pra ser sincera, — balançou a cabeça, — estou pronta pra desistir, — murmurou, sem acreditar que algum dia conseguiriam um lugar pra conversar.
— Nem pense nisso, — ele se aproximou, e ela recuou imediatamente, temendo o contato, temendo todas as sensações que vinham sempre que ele a tocava. — Senão eu também pego uma toalha.
— Acha que alguém vai se assustar com você e uma toalha? — sussurrou ela.
— Eu só queria te explicar, — Evren percebeu, de repente, que precisava falar — não havia outro jeito, não naquela casa. — A nomeação não foi ideia minha.
— Mas você sabia! Sert Kaya te contou a decisão, — a voz dela tremia. — E você ficou calado!
— Porque sabia que você ia explodir, — respondeu ele num sussurro áspero.
— E não pensou que eu tinha o direito de saber? — Bahar não cedeu.
— Pensei que você ia teimar, — disse Evren. — E eu estava certo.
Os olhos dela arderam; a mágoa veio com tanta força que ela não conteve as lágrimas.
— Evren, é que agora eu…, — Bahar se virou, sem esconder o brilho úmido nos olhos.
— O que foi? — ele ficou sério na hora. — Você não vai chorar por causa disso, vai? — perguntou, confuso. — Bahar?
— Só... não pergunta, — pediu ela, sem querer mentir.
— O que você está escondendo de mim? — a voz dele endureceu.
— Você fala como se eu estivesse sempre escondendo alguma coisa! — irritou-se Bahar.
Ela segurou a maçaneta da porta.
— Eu só queria conversar, — desabafou Evren. — Sem centro cirúrgico, sem olhares de fora, sem essas… toalhas na cozinha! — gesticulou em direção ao interior da casa.
Os dois ficaram em silêncio, olhando um para o outro, respirando no mesmo ritmo.
— Você está nervosa, — observou Evren.
— E você está me tirando do sério, — admitiu Bahar.
Evren quis dizer algo, mas apenas apertou os lábios. Nos olhos dele, um lampejo de impotência.
— Eu nem consigo falar com você em paz, — murmurou. — Tem gente em todo lugar. Em todo lugar…
— É porque você sempre aparece na hora errada, — respondeu ela.
Bahar pressionou a maçaneta e empurrou a porta.
***
Um riso baixo chegou até eles. Bahar e Evren se entreolharam. Yusuf segurava uma jarra de suco e um copo, enquanto Umay, rindo, tentava alcançá-los, como se quisesse arrancá-los das mãos dele.
— Eu mesma sirvo! — reclamou ela.
— Você já derramou um, — zombou Yusuf, levantando o copo mais alto.
— Porque você enfiou o cotovelo no meio! — retrucou ela, tentando alcançar.
— E você é um tornado, — respondeu Yusuf, e ela, rindo, empurrou-o pelo ombro.
Ele deu um passo para trás, quase tropeçando, mas ela o segurou pela mão — e, por um instante, ficaram perto demais. O riso cessou. Ficaram apenas os dois, ofegantes, trocando olhares.
Bahar prendeu a respiração, a mão subindo ao peito. Inclinou levemente a cabeça e olhou para Evren.
— Umay, — chamou ela. Dessa vez, Evren não conseguiu impedi-la.
Ao ouvir a voz da mãe, Umay e Yusuf se afastaram num salto, como se tivessem sido pegos em flagrante.
— Ahn… a gente só… — murmurou Umay, desviando o olhar.
— Suco, — disse Yusuf rapidamente, erguendo o copo. — Só vitaminas. Antes do almoço.
Bahar os olhou em silêncio, primeiro um, depois o outro, e por fim voltou-se para Evren. Ele apenas ergueu as sobrancelhas. O olhar dela dizia tudo, mesmo sem palavras: sério? Primeiro Cem, agora isso?
— Claro, — resmungou Evren, ignorando o silêncio acusador dela. — Em quem mais eu poderia trombar, hein? Só faltam Siren e Uraz, e pronto — temos o conselho de família completo.
Bahar fechou os olhos, respirando com dificuldade. Não queria mais tentar entender nada. Luchava contra a náusea, esforçando-se pra não revelar o que sentia, mal conseguindo se manter em pé. Umay riu sem jeito. Yusuf colocou a jarra e o copo sobre a mesa.
— Viu só? — sussurrou Evren. — Está todo mundo contra a gente. Até o universo quer nos separar.
Bahar abriu os olhos num estalo.
— O universo só não te suporta, — disparou, canalizando nele toda a irritação.
Era ele o culpado — por seu enjoo, por aquele mal-estar, pela dor no estômago. E ainda havia Yusuf… que podia ser o filho dele. Bahar o culpou em silêncio por tudo: pela mãe e Reha na cozinha, por Nevra e Ismail escondidos na sala. Evren ia retrucar, mas notou o quanto ela empalideceu e instintivamente segurou-a pelo braço.
— Bahar? — franziu o cenho.
— Está tudo bem, — ela se desvencilhou, recuperando o equilíbrio. — Só os nervos. É um dia tranquilo, não é, Evren? Fim de semana, tudo do jeitinho que você queria!
— Isso, bem tranquilo — tão tranquilo que nem conseguimos conversar! — disse ele, exasperado.
Bahar o olhou, mas sem raiva… de repente, a raiva se dissipou — e o que ela sentiu foi vontade de abraçá-lo. Olhou para Yusuf… e se ele fosse mesmo o filho dele? O coração apertou.
— Pois conversa, então, — sussurrou Bahar, empurrando-o levemente na direção de Yusuf. — Você queria uma família? Tá aí, em carne e osso. — Deu-lhe um tapinha no ombro. — E vê se olha a carne, talvez pelo menos ela tenha sobrevivido ao jantar.
— Tem certeza de que alguém vai se sentar à mesa? — perguntou Evren, confuso com a mudança súbita de humor dela. — E a carne, — lançou um olhar para a grelha, — já está seca.
— Você é médico, — retrucou Bahar com calma. — Reanima.
— Você está sendo injusta, — murmurou ele, olhando para Yusuf.
— Eu nem quero ser justa, Evren, — respondeu Bahar. — Sou só uma mulher que hoje simplesmente perdeu a paciência, — deu um passo de volta para dentro da casa, engolindo seco, suportando a pontada aguda no estômago, sem deixar transparecer. — Agora vai e conversa ao menos com ele, — pediu. — Umay, — chamou a filha e desapareceu dentro de casa.
***
Assim que chegou ao hall, Bahar parou. As mãos tremiam. O ar parecia espesso, pesado — cada respiração era um esforço. Encostou-se na parede, deu alguns passos, engoliu em seco e fechou os olhos, lutando contra a náusea.
Por que agora? pensou. Por que não ontem, ou anteontem? Não entendia por que tudo desabava justo naquele dia.
— Mãe, o que foi? — Umay a observava com preocupação.
— Está tudo bem, — respondeu Bahar sem abrir os olhos, tentando manter a voz firme, mas ela saía mais baixa que o normal. — Só... cansada. Já vou, — murmurou, abriu os olhos e caminhou rapidamente até o lavabo da sala.
Fechou a porta, piscando contra a luz forte demais. Deu um passo e apoiou as mãos na pia. Tentou se recompor, inclinou-se e abriu a torneira. A água fria bateu nas palmas, e Bahar jogou um pouco no rosto.
— Um bebê, — sussurrou, fitando o próprio reflexo no espelho.
A respiração ficou curta — não havia mais motivo pra esconder, ninguém estava ali. Pegou uma toalha, enxugou o rosto e a deixou sobre a pia. Tirou do bolso o teste: duas linhas vermelhas, nítidas. Grávida.
Colocou o teste ao lado da toalha, inclinou-se para vê-lo melhor, como se as linhas pudessem desaparecer.
— Não... por favor, não agora, — murmurou, sentindo o medo apertar-lhe a garganta.
O coração batia tão forte que o som ecoava nos ouvidos.
E se for de novo uma gravidez ectópica?
E se o fígado não aguentar?
E se acontecer como com Ayşe?
E se houver algo errado com o bebê...?
Os pensamentos vinham em ondas, um “e se” empurrando o outro. A visão escureceu. Segurou-se na borda da pia. Tudo rodava. A água corria, fria, constante — aquele som a trouxe de volta. Estendeu a mão, deixou a água escorrer sobre os dedos, jogou mais no rosto. Respirava com força, quase arfando.
— Respira, — sussurrou para si mesma. — Calma... inspira... expira...
O coração martelava no peito. Um zumbido nos ouvidos. No espelho, tudo parecia embaçado, como se estivesse debaixo d’água. Bahar abaixou a cabeça e encostou a testa no azulejo gelado.
— Que tudo fique bem... por favor, que nada aconteça... — murmurou, inspirando fundo.
O som da água foi o único fio que a impediu de desmaiar. Aos poucos, a respiração se acalmou. Bahar fechou a torneira, mas ficou parada, olhando o teste ao lado da toalha.
Endireitou-se devagar e fitou o reflexo — o rosto pálido, o cabelo molhado, mas o olhar vivo.
— Você vai conseguir, — sussurrou para o espelho. — Já conseguiu antes, vai conseguir de novo.
O lavabo da sala era o único canto silencioso daquela casa. Bahar sorriu, quase sem querer, e desligou a água. A náusea havia passado. Levou as mãos ao rosto — precisava primeiro ter certeza de que tudo estava bem, só então contaria a Evren.
A porta se abriu ligeiramente, e ela sobressaltou-se.
— Mãe? — Umay espiou. — Posso entrar? — a voz tremia de indignação.
— Pode, — disse Bahar rápido, escondendo o teste sob a toalha.
Umay entrou de rompante.
— Mãe! — Bahar se recompôs num instante. — O que foi?
— A vovó... — Umay apontou para a sala. — Está lá com o senhor Ismail... atrás das cortinas... eles... — parou, sem coragem de continuar.
— Na sala, — repetiu Bahar, preferindo não pedir detalhes do que exatamente faziam Nevra e Ismail.
— E na cozinha, — continuou Umay, agitando as mãos, sem achar palavras. — Lá... parece que estão dançando, mãe! A vovó e o Reha! — não havia como explicar melhor.
— Dançando? — repetiu Bahar em voz baixa, entendendo que sua pausa de paz tinha acabado. — Pelo menos alguém está feliz nesta casa, — concluiu.
— Mãe, não é só dança! — quase gritou Umay.
— Ah, não... — Bahar teve que conter o riso.
— Na cozinha, mãe! Onde a gente come! — fez uma pausa dramática.
— Melhor parar, — pediu Bahar, tentando manter a seriedade. — Já entendi.
— Com uma toalha! — continuou Umay, horrorizada. — Isso já é demais, mãe! Uns se escondem atrás das cortinas, outros na cozinha com uma toalha! O que está acontecendo?! São as nossas avós!
Toalha? Bahar lembrou que Evren também tinha mencionado uma toalha... mas o que exatamente estavam fazendo com ela? Só conseguia se lembrar de tê-la visto nas mãos da mãe. Suspirou fundo, segurou os ombros da filha e a virou para si.
— Umay, me escuta. Respira, — falou calma, embora quisesse rir, lutando para se controlar. — Está tudo sob controle.
— Sob controle?! — Umay arregalou os olhos. — Lá tem gente se beijando atrás das cortinas, outros quase fazendo strip-tease na cozinha — e você chama isso de “sob controle”? Mãe?!
Os olhos de Bahar se arregalaram também.
— Por isso mesmo eu preciso sair, — respondeu contida. — E você fica aqui. Lava o rosto, respira, e finge que não viu nada, tá bom?
— Finge que não vi?! — indignou-se Umay. — E o que você vai fazer?
— Salvar o resto da sanidade desta casa, — disse Bahar, agora rindo abertamente.
— E se eles não pararem? — perguntou Umay, insegura.
— Então a gente aumenta o som da música, pra que os vizinhos não ouçam, — respondeu Bahar, escapando pela porta.
Umay ficou parada, olhando para a porta, sem nenhuma vontade de sair. O silêncio daquele banheiro parecia o único refúgio — mesmo que fosse uma calma enganosa.
***
Eles não precisavam se enganar — a carne estava perdida. O ar esfriava rápido, o cheiro de churrasco já se dissipara. Evren e Yusuf estavam diante da grelha. As chamas haviam se apagado, só restavam as brasas, ainda pulsando em vermelho. O silêncio se prolongou, até que Evren decidiu quebrá-lo.
— Sabe, — começou em voz baixa, — sua mãe foi a melhor. — Ele fitava as brasas, sem levantar os olhos.
— A melhor? — repetiu Yusuf. — Ela me deixou sem pai. — Apertou as mãos, olhando para o chão.
— Ela te deu a vida, — Evren mexeu as brasas com o atiçador. — E te deu uma chance, — fez uma pausa. — E te criou sozinha, — acrescentou, olhando-o de lado. — Olha quem você se tornou.
— Eu não sou ninguém, — Yusuf sorriu com amargura. — Se não fosse por Bahar, eu nem estaria aqui.
— Bahar… é, — ele quase sorriu. — Ela tem esse dom de juntar quem se perdeu, — concordou. — Mas muito do que você é, veio de você mesmo.
— Não começa, por favor, — disse Yusuf, erguendo a cabeça. — Tudo o que eu tenho são eles, — olhou-o nos olhos. — E agora você vem com esse “você tem a nós”. Quem é “nós”? Você e o professor Serhat? — balançou a cabeça, confuso. — O que isso muda? Serhat tem a Esra. Você tem a Bahar, a sua vida, o seu futuro. — A voz dele baixou. — E eu sou só... um acaso, entre as histórias de vocês.
Evren o observou em silêncio, depois contornou a grelha e se aproximou.
— Não, — disse firme, mas com voz rouca. — Você se encaixa em qualquer vida. Na minha, na do Serhat… — tossiu, tentando conter a emoção. — Todos nós quebramos, Yusuf. Mas você não é um erro, — apertou-lhe o ombro. — Você é um milagre.
Yusuf desviou o rosto, piscando rápido, sem querer mostrar o brilho úmido nos olhos.
— Não me chama de milagre, — murmurou. — Eu sou só a lembrança do que já não existe.
— Ou talvez, — respondeu Evren no mesmo tom baixo, — a lembrança do que ainda existe, — deu mais um passo, atento a cada gesto do rapaz. — Eu não sei como se faz isso… — confessou. — Não sei o que é ser pai, — tentou sorrir, mas os lábios tremiam. — Mas quero, pelo menos, tentar. Se você deixar. O passado não dá pra mudar, mas ainda temos o presente. E o futuro.
Yusuf ficou em silêncio por um longo tempo, olhando pro nada.
— Me desculpa... — murmurou de repente, sem encará-lo. — Pelo que disse sobre a Bahar naquele dia, no consultório. Eu estava... errado.
Evren prendeu a respiração — as palavras o atingiram em cheio. Deu mais um passo, devagar, como se temesse assustá-lo, e apenas o abraçou. Sem palavras. Sem defesas. Sem condições.
Yusuf ficou rígido por um instante, depois retribuiu o abraço, hesitante, desajeitado... e, naquele momento, o silêncio se fez absoluto. Só se ouvia a respiração deles e, ao longe, o som surdo de um coração — como se fosse um só.
— Não importa de quem você é filho, Yusuf, — sussurrou Evren. — O que importa é que você existe.
Yusuf assentiu, a cabeça baixa, apertando ainda mais os braços.
— Mesmo assim, tenho medo, — murmurou quase inaudível.
— Eu também, — confessou Evren. — Mas talvez seja assim que tudo começa... com o medo. É por isso que a gente fica — apesar dele.
Ficaram ali, junto à grelha apagada, sem se soltar — compreendendo, talvez pela primeira vez, que ser pai é uma escolha. E que nem sempre o sangue é o que define uma família.
***
Ah, esses laços de sangue… Bahar parou por um instante, prendeu a respiração e acabou entrando na sala. Não os viu de imediato — só quando se lembrou das cortinas, os encontrou. Ismail e Nevra estavam perto da janela, atrás do tecido pesado. Mesmo da porta, Bahar percebeu: ele segurava a mão dela.
— Vão acabar nos vendo, — sussurrou Nevra.
— Que vejam, — riu Ismail.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram; ela cruzou os braços.
— Com licença, — disse em voz alta, sem um traço de ironia. — Estamos atrapalhando? — fez uma pausa. — Se estivermos, posso levar todo mundo lá pra fora e deixar as chaves da casa pra vocês.
Nevra endireitou-se num salto. Ismail soltou-lhe a mão e fingiu observar um vaso.
— Bahar, não é o que você pensa…, — gaguejou Nevra, saindo de trás da cortina.
— Eu não penso nada, — respondeu Bahar. — Só vejo, — inclinou a cabeça. — E ouço música, mesmo através de três paredes, — completou, olhando em direção à cozinha.
Seguiu o som — risadas, barulho de passos, e uma melodia conhecida. Ao entrar, Bahar não conseguiu conter o riso.
Reha e Gülçiçek dançavam no meio da cozinha.
— Eis a nossa ilha! — dizia Reha, apontando para a toalha estendida no chão. A camisa dele estava meio aberta, e Gülçiçek, entre risadas, tentava abotoá-la durante a dança. — E essa lâmpada é o nosso sol! — ergueu o braço como se quisesse tocá-la. — Está ouvindo, meu amor? O mar está nos chamando!
— Isso não é o mar, — Gülçiçek o cutucou. — É a chaleira fervendo.
— Mesmo assim — são as ondas, meu capitão! — Reha girou com confiança, firme na cintura dela.
— Tangos em terra firme? — riu Bahar. — Ou é chá-chá-chá?
Reha saltou como um garoto, depois pousou a mão no ombro da esposa, mantendo-a junto a si.
— É ensaio pra Bodrum, — sorriu.
— Entendi, — Bahar arqueou as sobrancelhas. — Só não esqueçam: se chegarem a Bodrum, vão precisar de um médico junto. Alguém precisa cuidar da pressão de vocês, — apontou para os dois.
Gülçiçek engasgou de rir, mas Bahar já se virava — e deu de cara com Nevra e Ismail.
— Perfeito, — disse ela, cruzando os braços. — O elenco completo.
Todos congelaram, olhando para ela, como se aguardassem um veredito.
— Muito bem, — suspirou Bahar. — Sem rodeios: professor Reha, você está na minha equipe. Segunda-feira discutimos os detalhes, — afirmou como se fosse óbvio, antes de encarar Ismail. — Senhor Ismail, o senhor vai aprovar o meu pedido?
Ismail trocou um olhar com Reha.
— Bahar, talvez não agora... — tentou desviar.
— Agora é o momento perfeito, — insistiu ela. — Está todo mundo vivo, sorrindo — isso é raridade. — Passou a mão pela têmpora. — Uma raridade médica, aliás: uma mulher com reação alérgica ao sêmen do próprio marido. Incompatibilidade imunológica. Abortos recorrentes.
Gülçiçek deu um passo atrás assim que o tema ficou sério. Nevra, ao contrário, segurou o braço de Ismail.
— Você quer usar o método imunológico? — perguntou Reha, engolindo em seco e abotoando o resto da camisa.
— Sim. Protocolos complexos, — confirmou Bahar. — Por isso vou chamar Meryem Özkan.
— Meryem Özkan, dos Estados Unidos? — perguntou Ismail. — A tia do Evren?
— Exatamente, — Bahar forçou um sorriso. — E eu preciso da aprovação do conselho, senhor Ismail.
— Está apelando pro meu parentesco, é isso? — Ismail endireitou os ombros.
— Só estou usando os contatos, — retrucou Bahar. — Afinal, o senhor agora é, digamos, parte da família, não é?
— Por que “digamos”? — franziu o cenho Ismail.
— Bom, o senhor não vai pedir a Nevra em casamento agora, vai? — soltou Bahar, sem esconder que ouvira a conversa deles.
— Bahar! — protestou Nevra, corando.
— E por que não? — disse Ismail, apertando-lhe a mão no braço.
— Vai ter casamento?! — Gülçiçek entrou na conversa, rindo.
— Você já teve o seu, — respondeu Nevra, — e eu quero o meu!
— Parabéns, Ismail, — vibrou Reha.
— Vai ser meu padrinho? — perguntou Ismail, animado.
— Espera, espera! — Nevra ergueu as mãos. — Ele nem me pediu ainda!
— Oh, meu Deus... — Bahar esfregou a testa, fechando os olhos por um segundo. — Vocês realmente adoram testar a minha paciência, — balançou a cabeça. — Mas voltando à proposta…
— Tem certeza de que é sensato? — Reha pigarreou, voltando ao tom sério. — É a tia do Evren, lembre-se.
— E mais, — acrescentou Ismail, — o próprio Evren não quer que ela venha.
— Está com medo de quê, Reha? — provocou Gülçiçek. — Que a mulher da América roube a sua atenção?
— E eu, preciso me preocupar também? — perguntou Nevra, meio em brincadeira, meio a sério.
— Acho que o que vocês precisam — suspirou Bahar — é só me deixar trabalhar. — Olhou para Ismail. — Então? Vai aprovar meu projeto de pesquisa?
— Eu aprovaria, — respondeu ele, tenso, — se tivesse certeza de que você não está agindo por emoção.
— Exato, — apoiou Reha. — Você não vai contra o Evren, vai?
— Não estou indo contra ele, — Bahar ergueu o queixo. — Estou falando de uma paciente. Eu sou médica! Sou a doutora Bahar Özden! — disse firme.
O silêncio tomou conta da cozinha. Foi nesse exato silêncio que Evren entrou pela porta. Parou, avaliou todos com o olhar e foi direto até Bahar. Não gostou de ver Reha e Ismail tão próximos dela.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, colocando-se ao lado dela.
— Nada, — Bahar tentou sorrir. — Só estávamos discutindo a minha proposta.
As sobrancelhas de Ismail se ergueram.
— Então diga, professor Evren Yalkın, — cruzou os braços, mesmo com Nevra pendurada no seu. — Como diretor do hospital... você assinaria esse pedido?
— Ismail, por favor, — sussurrou Nevra, temendo outra briga.
Nesse momento, Siren apareceu na porta. Vendo o clima tenso, deu um passo para trás.
— Desculpem... acho que cheguei na hora errada, — disse, sumindo pelo corredor.
Ninguém notou sua entrada ou saída. Todos olhavam para Evren. Bahar não se mexia, ombro a ombro com ele. O silêncio pareceu durar uma eternidade.
— Sim, — respondeu Evren por fim. — Eu assinaria.
Bahar soltou o ar, sem perceber que o prendia desde que ele chegara.
— Essa mulher... — murmurou Ismail. — É um terremoto ambulante.
Bahar segurou a mão de Evren, encostou-se nele.
— Vocês podem continuar com seus abraços e danças, mas lembrem-se: há crianças e netos por aqui, — disse, sem conter o riso.
Gülçiçek e Nevra coraram. Reha se colocou ao lado da esposa. Ismail olhou para Nevra.
— A gente nem fez nada, — tentou brincar.
— Só umas dancinhas, — completou Reha.
— Com strip-tease incluído? — Bahar escondeu o riso no ombro de Evren.
Evren piscou, olhou para Reha, depois para Ismail e, por fim, para Bahar… com uma expressão que gritava: o que foi que eu perdi agora?
***
Umay sabia que estava perdendo tudo enquanto permanecia no lavabo da sala, mas não tinha coragem de sair. Batia o pé, impaciente. Assim que Siren entrou, ela praticamente pulou em cima dela.
— E então?! — quase gritou. — A mamãe já botou ordem em todo mundo?
— Todo mundo quem? — Siren a olhou, confusa.
— Todo mundo, oras! — Umay andava de um lado pro outro, nervosa. — A vovó com o senhor Ismail atrás das cortinas! A outra vovó com o Reha e a toalha! — gesticulava, balançando a cabeça. — Ela deve ter mandado todo mundo sentar, tipo professora, e depois… — interrompeu-se, irritada, jogando as mãos pro alto. — Depois saiu, como se estivesse tudo sob controle!
— O quê? — Siren ainda tentava entender de onde vinha tanta fúria.
— O quê o quê?! — explodiu Umay. — Eu já não sei mais quem aqui é adulto e quem é criança! Eles todos se comportam como adolescentes!
— E você, por que está tão nervosa assim? — Siren tocou-lhe o braço. — Aconteceu alguma coisa?
— Você não entende! — Umay se desvencilhou. — É só… tudo isso! — com um gesto brusco, derrubou a toalha no chão. — Chega, não aguento mais! — os olhos brilharam com lágrimas antes que ela saísse correndo do banheiro.
Siren piscou, confusa. Inclinou-se para pegar a toalha e congelou ao ver algo no chão — um teste de gravidez com duas linhas vermelhas. Os olhos dela se arregalaram.
— Oh, meu Deus... — murmurou, pegando o teste. — A Umay... está grávida?
— Siren! — a porta se abriu de repente e Uraz entrou apressado. — Você entendeu tudo errado! — começou logo ao cruzar a porta.
Siren escondeu o teste dentro da toalha, segurando-o firme nas mãos. Respirava rápido, tentando assimilar o que havia acabado de descobrir.
— Errado? — sussurrou, sem sequer encará-lo.
— Eu não disse que não queria me mudar, — tentou explicar Uraz. — Só disse que precisamos esperar um pouco.
— Esperar?! — a voz dela subiu, a respiração acelerada, os olhos fixos em nada. — Já é tarde pra esperar, Uraz! Tarde demais!
— Tarde? — ele empalideceu. — Por quê? O que aconteceu?
— Porque tem coisas que não se pode adiar, Uraz. Não dá, — os dedos dela se abriram, e a toalha caiu no chão.
— Siren... não estou entendendo o que você quer de mim, — disse ele, atordoado.
— Eu também não sei o que fazer, — respondeu ela, empurrando-o e saindo apressada do banheiro.
Uraz se virou, mas ela já tinha desaparecido. A porta bateu. Ele ficou sozinho. Abaixou-se, pegou a toalha — sentiu algo duro dentro — e a abriu. Ficou branco.
— Oh, Deus... Siren? — murmurou, ajoelhando-se e encostando as costas na parede. — Mal damos conta do Mert e da Leyla... e agora isso... — olhou para o teste positivo nas mãos. — Não... não, não, não... — repetia, incapaz de aceitar.
Apertou o teste com uma mão, levou a outra à cabeça. Todo o corpo tremia. Ficou ali, imóvel, misturado ao branco frio das paredes do banheiro, como se tentasse desaparecer junto com elas.
***
Umay entrou na cozinha de rompante e parou ao ver todos os adultos reunidos. Ela tinha acreditado que a mãe já tinha resolvido tudo. Os punhos se fecharam.
— Chega, eu não aguento mais! — gritou, virando-se pra sair.
— O que foi? — Bahar conseguiu segurá-la pelo braço.
— Nada! É sempre a mesma coisa! — Umay se desvencilhou. — Todo mundo grita, todo mundo decide — e eu sou a única que não importa!
— Umay, — Siren correu até elas.
— O que está acontecendo? — perguntou Bahar, num tom baixo. — Vocês brigaram?
— Não, — responderam as duas ao mesmo tempo.
Bahar estava prestes a abraçar a filha, mas a voz de Ismail a interrompeu.
— Bahar, precisamos terminar nossa conversa, — lembrou ele.
— Depois falamos, tá bem? — sussurrou ela, baixinho. — Sobe, espera um pouco, — pediu.
Siren olhava para Bahar com apreensão, balançando discretamente a cabeça, fazendo gestos, mas Bahar parecia não notar.
— Claro, espero. Mais uns dez anos, — disparou Umay.
Os olhos de Siren se arregalaram ao ouvir aquilo. Umay se virou e saiu correndo da cozinha.
— Umay! — gritou Siren, indo atrás dela.
As duas quase trombaram com Rengin e Çağla, que desciam a escada.
— Siren! — a voz de Uraz ecoou, e ele passou como um raio pelas duas, correndo atrás da esposa.
— De qualquer forma, Bahar, o estudo é arriscado demais, — continuou Ismail, voltando ao assunto com um tom grave. — Eu insisto que ele seja suspenso.
Evren bebeu um copo d’água e se aproximou de Bahar.
— Ele dá uma chance a uma paciente que não tem outras opções, — disse ela, apoiando-se no braço dele.
Bahar esperava a velha onda de emoção, mas, dessa vez, a presença dele ao lado a deixava serena.
— Meryem Özkan é parente do Evren, — disse Ismail, ereto, mantendo a postura. — Isso gera um conflito de interesses.
— Eu não escolho meus parentes, — retrucou Bahar. — Eu escolho meus pacientes.
— Eu falo da reputação do hospital, — insistiu Ismail.
— Reputação não salva vidas, senhor Ismail, — respondeu ela, a voz tensa, controlando o impulso de reagir.
Evren, sentindo a tensão dela, a envolveu com o braço.
— Eu apoio a decisão dela, — disse firme, num tom calmo e seguro.
— Professor, o senhor está contra o conselho? — perguntou Ismail, surpreso.
— Estou a favor da decisão médica de uma doutora, — respondeu Evren, com desconforto, mas convicto. — Bahar está certa.
— Não é do seu interesse, Evren, — comentou Reha em voz baixa — e levou um beliscão da esposa.
— Pode ser, — concordou Evren, — mas é do interesse da paciente.
— É exatamente por isso que Bahar deve liderar o projeto, — disse Gülçiçek. — Se não ela, quem então?
— Ismail só quer que as coisas sigam as regras, — retrucou Nevra com aspereza. — Ele é responsável pelo hospital!
— E Bahar é responsável pelas pessoas! — respondeu Gülçiçek, encarando-a. — É bem diferente!
— Chega! — a voz de Ismail se elevou pela primeira vez. Levantou a mão, pedindo silêncio. — Isto não é um drama familiar. É uma questão médica. Peço a todos que mantenham a compostura. Diante do conselho. Da imprensa. Dos vizinhos, inclusive!
As palavras saíram com ênfase — e ficou claro que a ordem importava mais a ele que a verdade. Bahar olhou para Evren. Ele entendia perfeitamente: estava prestes a se tornar parte de um sistema que sufocava tudo o que era humano.
— “Manter a compostura”? — repetiu ela. — Certo. Só não esqueça que nem todos conseguem manter a alma.
— Bahar, — disse Ismail, ajeitando as mangas, tentando soar mais brando, — vamos adiar a decisão para segunda-feira. É um caso complexo... e envolve a família.
— Envolve uma paciente, — respondeu Bahar, firme.
— Claro, — assentiu ele, — mas ainda assim é a tia do Evren... o novo diretor. Entende? Comentários, insinuações... Prefiro evitar mal-entendidos.
Evren ficou tenso, prestes a intervir, mas Bahar falou primeiro:
— Então tomem uma decisão profissional, — pediu. — Sem o pessoal.
— Ainda assim, prefiro discutir na segunda, — disse Ismail, sem se comprometer. — Não quero deixar Evren numa posição delicada.
— Não usem o Evren como escudo, — reagiu Bahar. — Meia ala do hospital é parente entre si.
— Papel perfeito para um cirurgião, — comentou Ismail com ironia. — Retirar inflamações sem precisar cortar.
Todos riram, e a tensão se dissipou um pouco.
— Nevra, — disse Ismail, voltando-se para ela. — Você me prometeu mostrar aquele restaurante à beira-mar. Que tal hoje?
— Agora? — ela o olhou, surpresa. — Depois de uma noite dessas?
— Justamente depois de uma noite dessas, — respondeu ele, apertando-lhe a mão. — Deixe as emoções esfriarem com vista pro mar.
— E por que não vamos todos? — sugeriu Reha, olhando para Gülçiçek. — Acho que merecemos uma sobremesa depois desse conselho cirúrgico.
Gülçiçek ergueu as sobrancelhas, mas nada disse.
— Combinado, — Ismail assentiu para Bahar e Evren, e os dois saíram da cozinha.
Reha e Gülçiçek se entreolharam e também foram em direção à porta. Bahar ficou parada ao lado de Evren. Gülçiçek se aproximou dela e a abraçou.
— Está tudo bem com vocês? — perguntou Bahar, em voz baixa.
— Está, sim, — sorriu Gülçiçek. — Mas não carregue tudo sozinha, — sussurrou-lhe ao ouvido. — Até o Sol precisa se pôr pra descansar.
Bahar retribuiu o sorriso, entendendo — Ismail não tinha cedido, apenas adiado o inevitável.
***
Rengin e Çağla decidiram não entrar na cozinha e, assim que Ismail, Nevra, Gülçiçek e Reha deixaram a casa, seguiram naquela direção — mas acabaram dando de cara com Evren e Bahar.
Evren se distraiu por um instante com o celular, depois começou a falar com Çağla, e Rengin, aproveitando o momento, agarrou o braço de Bahar.
— Bahar, — sussurrou Rengin. — Precisamos conversar. Urgente.
Bahar assentiu, e as duas, tentando não chamar atenção, desapareceram na cozinha. Lá dentro, no silêncio quebrado apenas pelo tique-taque do relógio, Rengin encostou-se à parede, os dedos trêmulos.
— Eu não sei o que fazer, — murmurou. — Bahar, eu não consigo passar por isso de novo. Tenho um medo horrível. Real. Eu não estou pronta pra outro filho.
Bahar observava o rosto pálido dela.
— Rengin, isso não é medo, — disse em voz baixa, lançando olhares à porta, temendo que alguém as ouvisse. — É só... que você ainda não acredita que vai conseguir.
— E você acredita? — retrucou Rengin, com dureza. — Você está pronta?
— Eu tenho medo, — confessou Bahar. — Medo de que algo dê errado. — A voz falhou, e ela continuou: — Medo de que tudo se repita... De que seja outra gravidez ectópica.
— Bahar... — Rengin se aproximou.
— Eu preciso ter certeza de que o bebê está bem, — Bahar segurou-lhe a mão. — Só depois vou contar a Evren.
— E se não estiver bem? — perguntou Rengin, cautelosa.
O rosto de Bahar empalideceu ainda mais.
— Aí eu conto também, — sussurrou. — Mas... depois. Quando eu aguentar.
As duas ficaram em silêncio, respirando fundo.
— E o que eu faço? — quebrou o silêncio Rengin.
— Conta pro Serhat, — respondeu Bahar, mantendo o olhar na porta da sala.
— Não posso, — murmurou Rengin. — Ele está esperando notícias da filha.
— A gente vive adiando tudo, — suspirou Bahar. — “Depois, depois, depois...” Mas a vida não espera.
Enquanto fixava o olhar na porta da sala, esqueceu completamente da que dava para o jardim. Yusuf entrou em silêncio e a fechou atrás de si.
— Bahar, eu nem sei como dizer isso a ele, — continuou Rengin. — Ele espera que a filha sobreviva, e agora... isso… — não terminou a frase.
— Eu também preciso ter certeza de que está tudo bem, — disse Bahar, exausta. — Eu não vou aguentar se der errado de novo.
Yusuf ficou paralisado. As palavras delas o atingiram como um soco. O coração disparou. Olhava de uma pra outra, sem saber o que pensar: Bahar estava pálida, os dedos tremendo; Rengin mexia nervosamente na barra da blusa. O nariz ardeu e — atchim! — ele espirrou.
As duas se viraram ao mesmo tempo.
— Yusuf, por favor, — Bahar foi até ele. — Ninguém pode saber. Nem uma palavra.
— Eu nem queria ouvir... foi sem querer... — gaguejou. — Então... eu vou ter um irmão? Ou irmã?
Rengin abaixou os olhos.
— Primeiro... precisamos descobrir quem é o pai, — disse Bahar, quase num sussurro.
Yusuf piscou, sem saber se devia ficar bravo ou fingir que não ouviu.
— Vocês duas estão em pânico, — decidiu ele, tentando não reagir à provocação.
— Eu não estou em pânico, eu só... — Bahar respirou fundo. — Eu quero um ultrassom. Agora.
— Ótimo, — disse ele, arqueando as sobrancelhas. — Começou...
— E eu quero confirmar que o teste está errado, — acrescentou Rengin. — Pode ser um engano, certo? Às vezes dá falso positivo! — olhou pra ele, com esperança.
— Certo, — respondeu Yusuf, calmo. — Vamos respirar. Esperar até segunda, e então—
— O quê?! Não! Agora! — disseram as duas em uníssono, fitando-o.
— Claro, — suspirou ele, fechando os olhos. — Agora.
— Eu não posso esperar, — Bahar apertou-lhe a mão. — Eu preciso saber que está tudo bem.
— E eu preciso saber que não está, — completou Rengin, segurando a outra mão dele, — porque eu não estou pronta.
As duas o encaravam. Duas mulheres fortes, mas trêmulas de medo.
— Tudo bem. Vamos, — cedeu Yusuf, entendendo que não podia deixá-las sozinhas, embora não fizesse ideia de como iriam escapar... especialmente de Evren.
— Eu não consigo dirigir, — disse Rengin, balançando a cabeça. — Minhas mãos tremem.
— E eu estou tonta, — confessou Bahar.
— Tá certo, — respondeu ele, tentando manter a calma. — Então eu levo vocês.
— E como vamos sair sem que percebam? — perguntou Bahar, ecoando o pensamento dele.
— Calma, — disse Yusuf, apontando para a porta do quintal. — Vamos por aqui. É a nossa chance perfeita. — Guiou-as, uma de cada lado. — Respirem. Devagar. Não façam barulho — estamos numa cirurgia.
— E se alguém nos vir? — perguntou Rengin, olhando pra trás.
— A gente inventa alguma coisa, — disse Yusuf, abrindo a porta. Os três saíram para o quintal.
— O quê? — perguntou Bahar.
Yusuf deu de ombros — ainda não tinha pensado nisso. Caminharam rente à parede, olhando para trás a cada passo.
— Ninguém nos viu, — murmurou Yusuf, aliviado.
— Como nos velhos tempos… — sorriu Bahar. — Só que antes fugíamos do plantão, agora fugimos de casa.
— Não fala assim, meu coração acelera mais ainda, — respondeu Rengin, nervosa.
Seguiram em silêncio até o carro.
— Tá tudo girando, — murmurou Bahar, apoiando-se na parede e no braço de Yusuf.
— E minhas mãos tremem, — disse Rengin, segurando firme a outra. — Eu não quero outro bebê.
— E eu não quero perder o meu, — Bahar piscava rápido, lutando contra a tontura.
— E se a gente simplesmente não contar nada? — sugeriu Rengin.
— E se for tarde demais? — respondeu Bahar.
— Que família animada, hein? — murmurou Yusuf.
Eles já iam entrar no carro quando Evren saiu de casa, com o celular na mão, lendo uma mensagem. O barulho os denunciou.
— Pra onde vocês estão indo? — perguntou, andando depressa na direção deles.
Rengin, Bahar e Yusuf pararam. Olharam pra ele, que se aproximava cada vez mais.
— Pegar limões! — disse Yusuf, alto, adiantando-se e fazendo sinais para as duas ficarem quietas.
— O quê? — Evren parou bruscamente, quase tropeçando.
— A Bahar disse que precisava de limões, — confirmou Yusuf, sério. — Urgente.
Evren os observava com desconfiança. O celular vibrava sem parar em sua mão.
— Limões? A essa hora? — perguntou, franzindo o cenho.
— Isso, — assentiu Yusuf, empurrando discretamente as duas para dentro do carro. — Bem azedos.
— Os três juntos? — o tom de Evren endureceu. Só a palavra limão já lhe causava um arrepio.
— É que... são especiais, — improvisou Bahar. — Aqueles que fazem ranger os dentes.
Evren respirou fundo, deu um passo pra trás. Bahar se afastava lentamente em direção ao carro. Ele ainda franziu o cenho, mas o toque insistente de Doruk o obrigou a atender.
— Tá bem, — suspirou. — Estou ouvindo, Doruk. — E se afastou, falando ao telefone.
Yusuf entrou no carro, incrédulo por terem escapado tão fácil.
— Ufa, — Bahar exalou. — Se não fosse o telefone... — sussurrou. — Mas por que limões, Yusuf?
— Foi a primeira coisa que me veio à cabeça, — respondeu ele, ligando o motor. — Eu odeio limão.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram. Ela o olhou, pensativa, e sorriu.
— Então foi perfeito, — disse, com um brilho nos olhos.
Yusuf apenas assentiu e saiu com o carro pelo portão.
***
Evren estava no quintal, olhando para a mesa posta — mas não a via de verdade. Toda a atenção estava no telefonema.
— Doruk, o que é tão urgente? — perguntou, irritado, percebendo o barulho do carro saindo da garagem.
— Chegou um paciente, — Doruk falava depressa. — Homem, quarenta e cinco anos, falência hepática aguda.
— E? — o tom de Evren mudou imediatamente; a voz ficou firme.
— Fizemos o rastreio inicial e encontramos um doador com alta compatibilidade, mas não sei se devo incluí-lo na lista, — explicou Doruk. — O quadro é instável, o risco é enorme.
— O doador está pronto? — perguntou Evren.
— Sim, mas precisamos da autorização do conselho, — o som do hospital ecoava ao fundo, e Evren sentiu uma pontada de saudade daquele ruído familiar. — Sem a assinatura do cirurgião-chefe, não podemos iniciar o protocolo.
— Onde o paciente está agora? — Evren já caminhava em direção à casa.
— Na emergência, — respondeu Doruk. — Está monitorado, mas o tempo está se esgotando.
— Inclua-o na lista. Estou a caminho, — disse Evren, entrando em casa.
— Mas, professor... sem aprovação da comissão... — hesitou Doruk.
— Eu sou a comissão, — cortou Evren, decidido, pegando as chaves da moto em cima da mesa. — Se não chegarmos a tempo, não vai haver decisão pra tomar.
Desligou a ligação e se deparou com Çağla.
— Onde está todo mundo? — perguntou ela, saindo da cozinha.
— A Bahar foi buscar... — Evren travou por um segundo, como se a palavra lhe custasse. — Limões, — completou, sem convicção.
— Então a gente vai jantar mesmo? — perguntou Çağla, esperançosa.
— A mesa ainda está posta, — respondeu ele, apontando com a mão. — Pode sentar. — A voz soou impaciente. — Acho que ninguém mais aqui tem vontade de comer!
— Evren, você não faz ideia de como eu tô com fome, — Çağla já havia pegado um pedaço de queijo e o colocava na boca, mastigando com prazer.
Evren engoliu em seco. Percebeu que também não comia nada desde cedo — só aquele café que Bahar lhe trouxera.
Pegou o capacete. As luzes da moto acenderam; o motor rugiu.
E num instante, Evren partiu — levado pela urgência, pelo instinto, pela solidão de quem toma decisões sozinho — para o hospital, para o paciente, para o destino que o esperava naquela noite.
***
Ele ficou sozinho… completamente sozinho. A luz fraca do celular se refletia nos olhos de Kamil. Sobre a mesa, uma caneca de chá frio… e uma cadeira vazia à frente. Ele olhava para a foto na tela — Ayşe, sorrindo, a mão pousada sobre a barriga arredondada. Kamil fitou a imagem por muito tempo, até criar coragem e começar a digitar com os dedos trêmulos.
Minha Ayşe. 24 semanas. Fomos ao hospital porque os médicos diziam que tudo ficaria bem. Que conseguiríamos. Que ajudariam. Diziam isso enquanto o fígado dela falhava. Diziam enquanto o bebê morria. Diziam e não faziam nada, nem sequer tiraram o corpo do bebê. Diziam até o coração dela parar de bater.
Kamil parou. Releu a mensagem várias vezes… apagou e começou outra.
Doutora Bahar Özden. Dizem que é a melhor especialista, mas minha esposa morreu em suas mãos. Grávida. 24 semanas. Há dezoito meses, Ayşe passou por um transplante de fígado e acreditamos que era a salvação. Acreditamos nos médicos. E agora me dizem que “isso acontece”. Acontece? Acontece de uma mulher grávida morrer num hospital e ninguém explicar o porquê? Eu vi quando hesitaram. Esperaram. Ninguém correu, ninguém tentou salvá-la. Apenas observaram.
Ele fechou os olhos por um instante, respirando com dificuldade. Os dedos se moviam de forma irregular sobre a tela.
Disseram pra mim — faça uma denúncia. Disseram — procure um advogado. Mas todos os advogados dizem que isso é medicina. Um caso. E eu digo — era a minha esposa. Era a minha Ayşe.
Kamil anexou uma foto — Ayşe diante do mar, a barriga arredondada, o sorriso sereno, tranquilo — e escreveu: “Pra que não esqueçam quem eles perderam.”
Ele conferiu o texto mais uma vez, releu e apertou “Enviar”.
A tela ainda brilhou por um tempo e depois escureceu. Kamil abaixou o celular e recostou-se na cadeira, o olhar fixo na cadeira vazia à frente. Sentado na escuridão e no silêncio absoluto… até que o som das notificações rompeu o ar. Vieram uma após a outra — curtidas, comentários, compartilhamentos. Kamil lia as palavras de estranhos que nunca conheceram Ayşe: respondam, onde está a consciência, como puderam… e por fim leu o que mais temia — “assassina”.
Kamil deixou o celular cair sobre a mesa, cobriu o rosto com as mãos, mas as notificações continuavam a chegar.
— Eu só quero… quero que alguém responda, alguém, — ele murmurou, entendendo que a cada nova curtida, a publicação ganhava força.
Em outra parte da cidade, no hospital, Sert Kaya rolava o feed… um sorriso surgiu em seus lábios — o nome da doutora Bahar Özden começava a aparecer em todas as telas…
***
Mosquitinhos passavam diante dos olhos. Çağla abanou a mão, tentando espantá-los, mas já anoitecia, e os insetos só aumentavam. Ela enrolou o queijo e as ervas no pão sírio, pegou um copo d’água e entrou em casa.
No sofá, num canto da sala, Parla estava mergulhada no celular. Çağla mal teve tempo de se sentar quando ouviu passos apressados. Umay desceu correndo as escadas, e ao ver Çağla, foi direto até ela.
— Onde está minha mãe? Onde está a mamãe? — exigia uma resposta.
Çağla, sem conseguir dar a primeira mordida, abriu a boca para responder, mas Siren desceu logo em seguida.
— Umay, — ela chegou ofegante.
— Siren, — atrás dela vinha Uraz.
— Me deixa em paz, — Siren empurrou o peito dele. — Vai cuidar das crianças! — pediu. — Eles já devem ter acordado.
— Vem comigo, — insistiu Uraz, sem sair do lugar.
— Você é o pai, dá conta, — respondeu Siren, voltando-se para Umay.
Çağla calmamente deu uma mordida no pão com queijo e ervas. Parla continuava indiferente, digitando mensagens. Siren tentou pegar Umay pela mão, mas o choro de Mert soou no andar de cima, e Siren olhou para Uraz, apontando para o alto. Logo depois, o choro de Leyla ecoou também. Siren fechou os olhos por um instante, suspirou e subiu as escadas com Uraz.
Umay os acompanhou com o olhar. Çağla sentou-se no sofá. A casa mergulhou quase no silêncio, exceto pelos choros de Mert e Leyla — e foi então que Umay explodiu.
— Primeiro Evren, — começou ela, — depois Yusuf, agora ainda a tia dele! Quem vem a seguir? — falava, gesticulando. — O sobrinho? O cachorro? Evren Yalkın se multiplica em progressão geométrica!
— Pena que você não resolvia matemática assim tão rápido na escola quanto calcula parentesco, — retrucou Parla sem levantar os olhos.
— Acha graça, é? — Umay virou-se pra ela. — Pois eu prefiro que o Serhat seja o pai do Yusuf, pelo menos assim tem menos parentes do Evren nessa história!
— E o que te importa quem é o pai dele? — pela primeira vez a voz de Parla soou cansada.
— Claro que importa! — gritou Umay. — Porque se o Evren for o pai, então quer dizer que minha mãe é… meio que… — ela franziu o cenho.
— Madrasta? — Çağla tomou um gole d’água.
— Isso mesmo! — exclamou Umay. — E eu, então, o quê? A filha do… do esquema familiar mais confuso do mundo!
— Umay, agora é você que tá com ciúmes, — Çağla recostou-se no sofá, cruzando as mãos sobre a barriga. — Já não bastava o Uraz? O que houve com você?
— Não é ciúme! — protestou Umay. — É só que… — ela hesitou, calando-se. — É que antes tudo era claro: minha mãe era só minha. Agora nem posso entrar no quarto dela — o Evren está lá. E ainda tem o Yusuf. E as avós com seus namorados e maluquices, — Umay desabou ao lado de Çağla. — E se minha mãe engravidar de novo… ela não vai ter tempo pra mim!
— Umay, sua mãe não é do tipo que abandona ninguém, — Çağла a abraçou pelos ombros. — Mesmo quando está mal, ela mantém todo mundo por perto.
— Çağla, mas me diz… é perigoso pra ela engravidar, não é? — a voz de Umay ficou baixa. — Ela já não tem vinte anos. E aquele caso no hospital… e se acontecer igual? Complicações e tudo mais?
— Ouve menos, confia mais na tua mãe, — Çağla balançava levemente, junto com Umay. — Você sabe o quanto ela é forte.
— Forte, forte… — Parla levantou-se de repente. — E a gente, o que faz, quando os fortes decidem tudo sozinhos?
— E você, o que tem? — perguntou Çağла, virando-se pra ela.
— Nada, — Parla olhava o celular.
— Quem tá te mandando mensagem? — desconfiou Umay.
— Ninguém, — Parla enfiou o telefone no bolso.
— O Cem? — Umay saltou do sofá. — De novo ele? Tá maluca? Depois de tudo o que ele fez? — gritou.
— Não começa, tá? — explodiu Parla. — Não é o que você tá pensando!
— Meninas! — Çağла nem se levantou. — Chega. Cada uma de nós tá com medo de alguma coisa. Eu tenho medo de perder essa gravidez, por favor, — suas mãos repousavam sobre a barriga, — vocês não vão gritar, vão? Quem vai salvar a mim e meu bebê se eu passar mal?
Umay mordeu os lábios, teimosa. Ia atacar Parla de novo, mas as palavras de Çağла a fizeram recuar. Sentou-se ao lado dela no sofá.
— Os adultos têm uma vida barulhenta demais, né? — Çağла cutucou Umay de leve com o ombro. — Vocês nem conseguem respirar perto deles.
Umay fechou os olhos e se recostou, cruzando os braços. A perna balançava nervosa, batendo no tapete, e Çağла pousou a mão sobre o joelho dela, suspirando…
***
Yusuf suspirou, parado junto à porta. Ouvia com atenção os sons do outro lado. A luz na sala de ultrassom estava suavemente baixa; ouvia-se apenas o ruído dos aparelhos. Bahar estava deitada na maca, o olhar fixo no teto. Tentou algumas vezes olhar para o monitor, mas Rengin a impediu, movendo o transdutor sobre o abdômen dela.
— O endométrio está bom, o tamanho corresponde ao tempo… — ela franziu um pouco o cenho. — O saco gestacional está presente, mas ainda não há visualização dos batimentos cardíacos.
— Ainda não… — repetiu Bahar baixinho. — Então ainda pode haver.
— Pode, e deve. Está tudo bem, — sussurrou Rengin. — Parabéns, Bahar, você está grávida.
— Está tudo bem? — perguntou Bahar, sem perceber que as lágrimas já escorriam. — Você tem certeza?
— Sim, entre cinco e seis semanas, é cedo para ver o coração bater, — respondeu Rengin, apertando a mão dela. — Está tudo certo.
Bahar cobriu os olhos com a mão; a respiração ficou descompassada.
— Seis, — disse Yusuf de repente, com convicção.
— O quê? — Bahar se ergueu na maca, fitando-o intensamente.
Yusuf corou, recuou até encostar-se na porta.
— O que você disse? — insistiu Bahar.
— Eu vi, — murmurou Yusuf.
— Viu o quê? — Bahar empalideceu, tentando entender o que ele poderia ter visto.
Yusuf não sabia onde enfiar o rosto. Vermelho como um tomate, gesticulou, nervoso.
— O quê, Yusuf?! — a voz de Bahar tremia.
— Vi o Evren descer as escadas naquela noite, vocês ainda não moravam juntos, — confessou ele. — Seis semanas atrás.
Bahar fechou os olhos e soltou o ar devagar.
— E agora o que eu faço? — perguntou, olhando para Rengin.
— Esperar o próximo ultrassom e acreditar, — sussurrou Rengin.
— Preciso ter certeza de que está tudo bem antes de contar ao Evren, — Bahar pôs os pés no chão.
— Bahar… é perigoso pra você, — murmurou Rengin.
— Eu sei, — ela suspirou, sem acrescentar nada.
— Vamos, agora é a minha vez, — apressou-a Rengin.
Elas trocaram de lugar, e Yusuf, junto à porta, parecia derreter de tensão. Não queria, de jeito nenhum, enfrentar a fúria de Bahar. Achava que Evren era assustador, mas Bahar era bem pior.
— Pronta? — perguntou Bahar, pegando o transdutor, tentando se concentrar, mas as mãos tremiam.
— Não, — respondeu Rengin, balançando a cabeça.
— Vai ter que ser, — suspirou Bahar.
A tela acendeu. Bahar se inclinou, observando com atenção.
— O saco gestacional está bem visível, — murmurou. — Rengin, você está grávida.
— Não… — Rengin cobriu o rosto com as mãos.
— Sim, — Bahar confirmou.
— Então sem erros? — perguntou Rengin, ainda com um fio de esperança.
— Sem erros, — respondeu Bahar e virou-se para Yusuf. — E qual é o tempo, doutor? — pressionou-o contra a porta.
— O quê? — ele não entendeu.
— Você sabe tudo, viu tudo. Qual o tempo da gestação? — exigiu Bahar.
— Bahar, — Rengin apertou a mão dela. — Eu mesma sei.
— Não, quero que ele diga, — Bahar não cedia, levantando-se e tirando as luvas.
— Talvez eu devesse tirar sangue, — disse Yusuf, vestindo as luvas.
— O quê? — Bahar e Rengin exclamaram juntas.
— Pra confirmar, — deu de ombros.
Bahar aproximou-se dele.
— Quer dizer que o resultado do ultrassom não basta, você ainda quer sangue? — olhava firme para ele. — Não entendo sua lógica, Yusuf, você é médico. — Ela arrancou as luvas da mão dele. — O normal é o contrário: primeiro o sangue, depois o ultrassom.
— O teste, — disparou Yusuf.
— O teste, — repetiu Bahar, empalidecendo. — O teste… — levou a mão ao bolso. — O teste?! — o medo e o pavor cintilavam em seus olhos.
Aproveitando o momento, Yusuf pegou os tubos de coleta, mas não teve tempo de se virar. A porta se abriu com força e entraram Evren, Serhat e Doruk, discutindo algo.
— Preciso checar coração, fígado e… — Evren parou abruptamente ao ver Bahar, Rengin e Yusuf. — O que estão fazendo aqui? O que está acontecendo, Bahar? — deu um passo à frente. — Limões?!
— Alguém me explica isso, — Serhat enfiou o prontuário debaixo do braço.
Doruk espiava por trás de Evren, observando Bahar. Rengin, aproveitando a confusão, desligou o monitor. Yusuf se meteu entre Bahar e Evren, mostrando as amostras.
— Elas… — a voz falhou. — Elas me convenceram a fazer um teste de DNA, — olhou para Evren, depois para Serhat. — Estão prontos pra saber quem é meu pai? — perguntou com a voz trêmula.
Atrás dele, Bahar suspirou de alívio, e a mão dela pousou em seu ombro.
— Prontos pro teste de DNA? — repetiu Yusuf, agora mais firme. — É agora ou nunca!
CAPÍTULO 10. PARTE 2
Ela nunca tentou se esconder atrás de ninguém, mas agora Bahar estava grata por Yusuf ter levado o golpe por ela. Não sabia se aquilo era bom ou ruim, mas deixou que ele adiasse por um tempo a necessidade de contar a Evren sobre a gravidez.
— O que você disse? — perguntou Evren de novo, como se não entendesse o sentido da própria pergunta feita a Yusuf.
— Bahar e Rengin me ajudaram a tomar uma decisão — a voz dele ficava mais firme a cada frase, como se, justamente naquele momento, Yusuf também quisesse saber a verdade. — Vamos fazer o teste, pra acabar com as dúvidas ou… — ele hesitou, e os dedos de Bahar apertaram o ombro dele, — ou descobrir que nenhum de vocês é meu pai — Yusuf encontrou forças pra dizer isso também.
Bahar teve vontade de abraçá-lo, tanta dor havia em suas palavras.
— Mais cedo ou mais tarde isso teria que acontecer — ele deu de ombros. — Melhor agora, — até sorriu, sem perceber que os lábios tremiam.
— Agora? — a voz de Serhat se fez ouvir. — Evren e eu temos um paciente urgente, você tem ideia do que está… — começou ele.
Rengin empalideceu, vacilou um pouco e levou a mão ao ventre. Bahar manteve a mão no ombro de Yusuf, oferecendo-lhe apoio silencioso, e prendeu a respiração por um instante. Doruk tossiu, e com essa tosse trouxe todos de volta à realidade.
— Eu entendo — assentiu Yusuf. — Sempre no momento errado. Nasci na hora errada, apareci aqui na hora errada. Vocês nunca tiveram tempo pra mim, — disse num tom calmo, como se já tivesse superado aquilo — mas era só aparência.
Bahar sentiu o corpo dele tremer.
— Vocês sempre estiveram ocupados, — ele deu de ombros outra vez. — Pra vocês eu sou apenas um assunto que pode ser deixado pra depois.
Yusuf falava baixo, mas com firmeza. Bahar quase o abraçou; as palavras dele a feriam, e os homens pareciam hesitar, incapazes de concordar. Ambos permaneceram em silêncio.
— Não vou forçar ninguém, — Yusuf colocou os tubos de ensaio sobre a mesa. — Decidam vocês. Me avisem quando estiverem prontos. Não tenho pressa. Bahar, Rengin, — virou-se para elas, — acho que podemos encerrar a conversa, vamos pra casa? — pediu, com um olhar.
— Teste de DNA — Serhat deu um passo atrás. — Pra destruir tudo? — escapou-lhe dos lábios.
Yusuf se virou lentamente pra ele.
— Pra encerrar — respondeu, olhando fixamente aquele que considerara seu pai todos esses anos.
Evren, com o cenho levemente franzido, observava os tubos sem dizer nada.
— Você tem ideia do que isso significa? — Serhat afrouxou o botão da gola da camisa. — E se eu for… — parou no meio da frase, calou-se e depois continuou: — Eu tenho uma filha. Não posso.
— Serhat — Evren se voltou pra ele —, está difícil pra todos. Se Yusuf for meu filho… — engoliu em seco — eu não estive com ele.
Ele se interrompeu, e o silêncio tomou conta do ambiente. Serhat estava tenso como uma corda esticada. Bahar respirava com dificuldade, lutando discretamente contra um enjoo súbito. Rengin apoiava uma mão no monitor, a outra ainda no ventre. Evren moveu o pescoço, como se quisesse aliviar a rigidez. Doruk apenas suspirou, testemunha involuntária daquela cena — não conseguia ir embora; agora também queria saber como aquilo terminaria.
— Três métodos — rompeu o silêncio Evren. — Swab: leva uma semana. Sangue: um dia. Há também o urgente — algumas horas, mas menos preciso, — explicou, olhando pra Yusuf. — Eu prefiro o mais exato, o primeiro ou o segundo, — virou-se pra Serhat. — Qual escolhemos? — perguntou, impondo o fato.
— Não é uma decisão que se toma assim — Serhat desviava o olhar, desconfortável, sentindo-se preso, à beira de um ataque de pânico.
— Já decidimos, Serhat. Vamos fazer o teste. É pior fingir que está tudo bem quando não está, — disse Evren. — É o único jeito de parar de lutar contra o passado. Não vamos adiar mais, não é? — insistiu. — A gente já adia demais na vida.
Serhat desviou o olhar, como se lhe faltasse coragem, mas acabou assentindo.
— Então vamos ao laboratório, — exalou Evren, esquecendo por um momento o paciente e o fato de Bahar tê-lo enganado com os limões.
Serhat empalideceu, entregou o prontuário a Doruk e saiu atrás de Evren e Yusuf. Caminhava como quem vai ao cadafalso. Doruk os observou partir, imóvel.
— Doruk, — chamou Bahar, — que paciente é esse? Precisa de ajuda?
Doruk se virou pra ela.
— Não, eu cuido disso. Enquanto o professor está ocupado, — balançou o prontuário e saiu em outra direção.
Bahar e Rengin respiraram aliviadas, já sem esconder o cansaço daquele dia…
***
Aquele dia lhes parecia interminável. O ar na sala de ultrassom, depois que os homens saíram, ficou denso e pesado. Bahar alisou o cabelo e saiu primeiro; Rengin a seguiu. Por um tempo, caminharam lado a lado em silêncio. Bahar sentiu uma vertigem, apoiou-se na parede, tentando se manter em pé, e parou perto da janela.
Pelo vidro, via-se o Bósforo, as luzes dos carros, e o som abafado da vida da cidade chegava até ali. Bahar encostou-se na parede e respirou fundo.
— Você está muito pálida — sussurrou Rengin, olhando em volta. — Vamos sentar um pouco, nem que seja por um minuto — sugeriu.
— Não posso — admitiu Bahar. — Se eu sentar agora, não levanto mais — tentou sorrir. — Só estou tonta — engoliu em seco. — É emoção.
— Você comeu alguma coisa hoje? — Rengin também fez uma careta, tentando entender qual cheiro a incomodava daquela vez.
Bahar apenas balançou a cabeça e tentou dar um passo, mas tropeçou; Rengin a segurou pelo braço.
— Você também não comeu — suspirou Bahar. — Ninguém comeu — soltou um risinho leve, e um meio sorriso curvou seus lábios. — Estamos grávidas juntas de novo.
— Ainda bem que não do mesmo homem — respondeu Rengin, com um cansaço perceptível na voz.
— Uhum… — Bahar mudou de expressão, mas ficou em silêncio.
— Você ouviu o que ele disse — Rengin olhava para o chão. — Ele não está pronto pra um filho. E eu… — hesitou — não sei como contar pra Parla.
Bahar piscou, afastando a escuridão que ameaçava tomar seus olhos.
— A minha lista é ainda maior — murmurou. — Uraz, Umay, Siren, mamãe, Çagla, Nevra… — voltou a sorrir, mas sem um pingo de alegria. — Parece que vou ter que mandar um comunicado oficial — lançou um olhar de lado pra Rengin. — Então quer dizer que já decidiu contar? — perguntou. — Já não tem dúvida se é mesmo verdade? — cutucou-a de leve com o ombro. — Você já decidiu que é uma vida, Rengin.
Rengin olhou para ela, e as duas continuaram andando pelo corredor, os passos misturando-se ao som do hospital.
— Acho que sim, já aceitei — concordou ela. — Afinal… — olhou de novo para Bahar — se ele não quer, por que eu ainda penso se devo ter o bebê ou não? — ela mesma não entendia.
— A mulher decide se quer ou não dar à luz — murmurou Bahar. — Ela só pode contar consigo mesma. O homem sempre tem escolha: ser pai ou não. Então ele ou fica, ou vai embora.
— Palavras bonitas — um sorriso amargo cruzou os lábios de Rengin. — Só que depois é a mulher que tem que explicar pra todo mundo por que decidiu. Bahar — parou —, e se eu ainda não decidi? — havia medo em sua voz. — E se ainda der tempo de fazer um aborto? Serhat claramente não está pronto, e eu já tenho a Parla. Já criei uma filha sozinha. Passar por isso outra vez? Eu não sei.
— Você está em dúvida, Rengin — Bahar sorriu suavemente. — Isso é normal. Mas sabe… — apertou a mão dela —, lá no fundo, seu coração já decidiu. É só a mente que ainda resiste.
— Serhat não vai conseguir aceitar Yusuf se ele for seu filho — suspirou Rengin. — E você ainda fala em mais uma criança.
— Ele ainda está preso à Esra, e é normal — Bahar fechou os olhos por um instante. — Passou a vida inteira lutando pela vida dela. E vocês dois… o que está acontecendo? — perguntou com cuidado.
— Ele começou a sair do hospital — respondeu Rengin. — Ontem até foi embora comigo. Mas isso não é motivo pra ter um filho, como se eu quisesse amarrá-lo a mim, obrigá-lo a assumir algo. Bahar — Rengin a olhava com os olhos bem abertos —, se acontecer alguma coisa, você vai me ajudar?
Bahar franziu um pouco a testa. Entendeu perfeitamente o que Rengin estava pedindo.
— Vamos com calma — pediu Bahar. — De qualquer jeito, você precisa conversar com Serhat. Dizer qualquer que seja a sua decisão.
As duas se calaram novamente. Caminhavam devagar pelo corredor, sentindo no ar, além do cheiro de antisséptico, o aroma de café recém-passado. Estavam tão mergulhadas em seus pensamentos que quase não perceberam os passos firmes que se aproximavam. Sert Kaya vinha em direção a elas, com um tablet nas mãos. Ao passar, lançou-lhes um olhar atento.
— Professora Rengin, ainda está no hospital a essa hora? — a voz dele era cortês, mas havia nela notas metálicas. — Pensei que já tivesse deixado seu posto — fez uma pausa proposital. — Depois do afastamento — acrescentou.
— Ainda sou médica, senhor Sert — Rengin endireitou-se e o encarou.
— Aliás, professora — disse ele num tom calmo, quase casual —, surgiu um problema.
— Que tipo de problema? — Rengin franziu levemente o cenho.
— Administrativo — respondeu ele com ênfase neutra, passando as telas no tablet.
— Se diz respeito ao hospital, eu devo saber — respondeu Rengin, mantendo o tom firme.
— Deve? — ele levantou o olhar. — Desculpe, mas depois do afastamento, assuntos desse nível já não dizem respeito à senhora — Sert Kaya falava com polidez, sem elevar a voz, e justamente essa cortesia fazia o sangue dela gelar. — Questões administrativas agora são comigo e com o diretor — desligou o tablet. — É melhor concentrar-se na prática médica. Enquanto ainda tem permissão pra isso.
— Enquanto eu tiver mãos, vou continuar tratando pessoas — respondeu Rengin, pálida, mas sem desviar o olhar.
— Nobre — Sert Kaya esboçou um sorriso leve, sem calor algum. — Mas a nobreza não faz parte da hierarquia.
Deu um passo à frente, como se traçasse a linha de poder no próprio espaço. Bahar abriu a boca para responder, mas Sert Kaya foi mais rápido: virou-se pra ela.
— E você, doutora Bahar Özden, é o oposto — ativa até demais — disse, olhando-a de cima. — Assinar solicitações sem informar a direção é um hábito seu? Ou há circunstâncias especiais que devamos conhecer?
— As circunstâncias especiais de todo médico são os pacientes — Bahar sustentou o olhar dele.
— Excelente resposta — ele quase sorriu —, mas sem estrutura — inclinou um pouco a cabeça.
— Eu tinha esse direito — respondeu Bahar, mantendo-se ereta, embora o mundo escurecesse diante dos olhos e as pernas fraquejassem. — O caso não permitia atraso.
Rengin deu um pequeno passo atrás; o perfume pesado de Sert Kaya quase a impedia de respirar.
— Direito não é justificativa — respondeu Sert com aspereza. — E você, professora Rengin, aprovou o documento sem autorização.
— Eu tinha todo o direito — ela estava a um passo dele, tentando respirar superficialmente pra não sentir o cheiro do perfume.
Sert Kaya deu mais um passo em sua direção.
— Aqui você não tem mais direitos — o tom frio e impessoal de sua voz fazia o coração dela apertar. — Há uma estrutura. Acostume-se. Vamos, doutora Bahar Özden, tratar da sua iniciativa — disse ele, medindo Bahar com o olhar.
Não pediu permissão. Simplesmente se virou e foi embora, certo de que ela o seguiria. Bahar lançou um olhar rápido para Rengin, como se pedisse desculpas, e apressou-se atrás dele.
Rengin ficou parada. Por alguns segundos, apenas observou na direção por onde eles tinham ido. Depois soltou o ar devagar, como se deixasse escapar toda a tensão das últimas horas. Viu um pequeno sofá estreito junto à parede, caminhou até ele e sentou-se — não por cansaço, mas porque precisava parar.
Com as mãos apoiadas nos joelhos, manteve as costas retas. A luz da lâmpada caía sobre seu rosto, tornando seus olhos um pouco mais escuros. Rengin não chorava. Apenas ouvia o som das portas batendo, dos chamados dos médicos de plantão, das macas rolando ao longe. Era o ruído familiar do hospital, o som da vida onde ela vivera por tantos anos.
— Estrutura — murmurou. — Que seja estrutura. Eu ainda sou médica.
Ela não vestia o jaleco branco, mas sabia exatamente quem era. O mundo não se sustentava em cargos, e sim em pessoas que sabiam permanecer de pé, mesmo quando lhes mandavam sentar.
***
Ele não conseguia nem se sentar, embora o cansaço apertasse seus músculos como anéis de aço. Cem, de uniforme, empurrava um balde com o esfregão. Evitava olhar para as pessoas — já estava farto de ver em seus rostos ou desprezo, ou pena. Tão perdido em seus pensamentos, nem percebeu quando Sert Kaya parou ao lado dele.
— Doutora Bahar Özden, você é emocional demais — disse ele, como se estivesse continuando uma conversa anterior. — É isso que o excesso de compaixão causa — fez um leve gesto de cabeça na direção de Cem.
Cem levantou os olhos e cruzou o olhar com Bahar. Apertando os dentes, voltou-se para Sert Kaya. Este o encarava com o queixo ligeiramente erguido.
— Lembre-se, rapaz — Sert quase lhe tocou o ombro, mas desistiu e abaixou a mão —, a disciplina dá uma chance até a quem caiu mais baixo. Continue, não se distraia.
— Sim, senhor Kaya — murmurou Cem entre os dentes, lançando um olhar de raiva para Bahar.
Sert seguiu em frente. Cem abaixou a cabeça e continuou a limpar o chão.
— Como você está? — perguntou Bahar em voz muito baixa.
— Nova vida — respondeu ele, erguendo o queixo. — Obrigado por me ajudar a conseguir este emprego! — o sarcasmo dele estava prestes a explodir. — Agora estou mais perto do hospital do que ninguém — inclinou-se ligeiramente para ela —, mais perto até do que você.
— Cem… — Bahar sentiu uma tontura e quase se apoiou no braço dele, mas ele se afastou, impedindo o gesto; ela teve de se segurar na parede.
— O que foi? Não era assim que imaginava minha “reabilitação”? — um sorriso atrevido surgiu em seus lábios. — Estou feliz — assentiu. — Melhor aqui — lançou um olhar para as costas de Sert. — Pelo menos ele cumpre o que promete!
— Ele está te usando — Bahar respirava com dificuldade.
— Mas não sente pena — respondeu Cem, olhando-a por baixo das sobrancelhas. — E pena é o que mais dói.
Bahar deu um passo na direção dele, mas Cem moveu o balde com o pé, criando uma barreira entre os dois.
— Não se preocupe, doutora Bahar Özden, eu dou conta! — mergulhou o esfregão no balde com força, espalhando água pelo chão, e Bahar teve de recuar.
— Doutora Bahar Özden! — a voz firme de Sert Kaya soou mais à frente, forçando-a a apressar o passo.
Bahar olhou para trás enquanto andava. Cem limpou rapidamente a água, pegou o balde e desapareceu pela escada. Tirou o celular do bolso; a luz da tela iluminou seu rosto.
“Agora todos olham pra mim como se eu fosse doente”, escreveu rapidamente e enviou para Parla.
A resposta veio quase de imediato: “Não escuta o que dizem. Faz o que puder. Isso vai passar.”
“Vai passar o quê? Quando todo mundo me olha e diz que sou culpado?” — digitou ele, enviou e guardou o telefone no bolso antes de descer um andar.
Não queria mais cruzar com Bahar — e ela nem deveria estar no hospital num sábado… mas estava. E ele… ele não tinha escolha, tinha que trabalhar.
***
Eles escolheram uma mesa junto ao parapeito, onde o mar respirava direto em seus rostos. Ao lado, alguém tomava café e lia o jornal — um típico fim de tarde no Bósforo, onde as conversas seguiam sem pressa. Luz suave, piano ao fundo, o tilintar de talheres e os gritos das gaivotas.
Ismail e Nevra comportavam-se com uma leve coqueteria contida. Reha e Gülçiçek pareciam um casal com história — cada sorriso soava como um teste de resistência. O garçom se afastou, deixando sobre a mesa o vinho, as ostras, as azeitonas. A música fluía baixinha, mas o ar ainda guardava tensão.
— Hoje, na casa da Bahar, parecia haver eletricidade no ar — comentou Gülçiçek, olhando as ondas. — Todos falavam mais alto do que o normal.
— Nessas casas sempre vem a tempestade antes da trégua — sorriu Reha. — Ou logo depois, no restaurante, quando o vinho já está servido — observou ele, fitando a esposa, que parecia ignorá-lo.
— Na casa Özden — Ismail recostou-se na cadeira — cada dia é como uma sala de cirurgia — tossiu e completou: — até nos fins de semana.
— Você não vai acreditar — riu Nevra, apertando a mão dele sobre a mesa. — Lá sempre tem alguém curando alguém. Mesmo quando ninguém está doente — ajeitou a pulseira e olhou-o nos olhos. — É tão bonito aqui… quase como em Izmir, lembra? — perguntou, e ao ver as sobrancelhas dele se erguerem, voltou a rir. — Ah, é verdade, você esteve lá… sem mim.
— Eu me lembraria de você — sorriu Ismail — se tivesse estado comigo. Mas isso só quer dizer que ainda podemos ir juntos.
Gülçiçek desviou o olhar do Bósforo para o casal, depois voltou-se para Reha, que imediatamente se inclinou em sua direção.
— O seu olhar está gritando pra eu aprender com ele — sussurrou no ouvido dela. — Mas o meu método é outro, senhora Gülçiçek: prevenção em vez de terapia.
— Prevenção de quê? — ela se animou na hora.
— Do tédio — respondeu ele no mesmo tom baixo, sem deixar que ela desviasse o olhar.
— Acha que Ismail está contaminado pela disciplina? — perguntou ela em sussurro. — Mas você também gosta de disciplina, principalmente quando se trata do seu trabalho — comentou, pegando o guardanapo da mesa.
— Na medida certa — Reha aproximou-se ainda mais —, quando não atrapalha a paixão.
Gülçiçek corou; teve vontade de esconder o rosto atrás do guardanapo.
— Por Alá, estamos jantando ou num filme de “Ligações Perigosas”? — ironizou ela.
— Admita — os olhos de Reha brilharam —, você se entedia sem um pouco de fogo.
— Eu me entedio é quando o fogo é demais — tentou empurrá-lo com o cotovelo. — Principalmente quando queima perto de outras mulheres.
— Gülçiçek… — Nevra interveio, tentando aliviar o clima — e se a gente simplesmente brindasse por ainda sermos interessantes?
— Ainda? — Ismail inclinou-se pra ela. — Eu só estou começando.
— Nem começa, Ismail — riu Reha. — Nessa idade, começar é mais arriscado do que operar sem anestesia.
— E você, Reha — retrucou Nevra, defendendo Ismail — fala como quem já tentou.
— Talvez tenha tentado — piscou ele para Gülçiçek —, mas agora sou cuidadoso: qualquer movimento pode reacender o fogo antigo.
Gülçiçek pegou a taça e deu um gole de vinho.
— Por exemplo… o nome “Meryem Özkan”? — perguntou, olhando o marido por cima da taça.
Ismail ficou em silêncio. Nevra ajeitou a pulseira mais uma vez.
— Parece que temos uma nova tradição — comentou Reha com ironia. — Mencionar esse nome como se fosse um brinde.
— Quem é ela, afinal? — Nevra também ergueu a taça. — O grande amor da residência médica de vocês?
— Uma colega — respondeu Ismail, franzindo o cenho e ajustando o relógio.
— Uma médica brilhante — suspirou Reha. — E só isso.
— “E só isso” — repetiu Gülçiçek, amargando o vinho na boca. — É a frase favorita dos homens que… — não terminou e bebeu mais um gole.
— Não estou mentindo — uma sombra passou pelo rosto de Reha. — Só não conto tudo. Há histórias que não cabem num jantar — sua voz trazia um toque de irritação.
— Nem em uma vida — disse Nevra com melancolia, girando o vinho no copo.
— O importante é o agora — Ismail segurou a mão dela, levou-a aos lábios e a beijou. — O resto é passado.
— O passado não morre, Ismail — Gülçiçek girava a taça entre os dedos. — Ele só espera o momento certo pra voltar.
— Gülçiçek — Reha apertou a mão da esposa com leveza —, sem drama, por favor. — Pediu, tentando sorrir. — Pedi sobremesa, não um interrogatório. — Fez uma pausa. — Eu nunca soube escolher, Gülçiçek — acrescentou. — E pela primeira vez fiz a escolha certa, quando escolhi você — encostou os lábios na têmpora dela.
Gülçiçek estremeceu e abaixou o olhar.
— Soa bonito — disse Nevra, pousando a taça. — Parece fala de filme antigo.
— Nos filmes antigos, pelo menos todos sobrevivem no final — comentou Ismail, enchendo novamente a taça dela.
— Ainda estamos vivos, Ismail — respondeu Gülçiçek, fitando-o. — Só nem sempre felizes.
Por um instante, a confusão passou pelo rosto de Reha; as palavras da esposa atingiram o alvo. Era quase uma confissão pública de infelicidade, mas ele logo escondeu tudo atrás de um sorriso.
— Eu sou feliz — disse simplesmente —, porque você ainda sabe ficar brava comigo.
— Cuidado, professor — Gülçiçek se inflamou na hora. — Mais uma palavra e eu jogo o vinho em você.
— Então beba até o fim — ele estendeu a taça — pra não desperdiçar o vinho — e ergueu a sua.
— Eu sabia que vocês não iam resistir sem uma briga — riu Nevra. — Deve ser contagioso hoje.
— Não é briga, Nevra — Ismail apertou a mão dela. — É casamento.
— Mas sem garantia — brindou Gülçiçek, tocando o copo no de Reha.
Todos riram, mas Reha não achava graça. Via a tensão nas costas de Gülçiçek. Ela ria, falava, mas não estava ali — parecia forçada a estar àquela mesa, como se ele a tivesse obrigado.
— Nós, médicos, vivemos mais porque nos curamos com risadas — disse Ismail, pousando a taça vazia. — Às vezes também com mulheres.
Nevra riu, olhando para ele, mas Gülçiçek congelou. Seu olhar se fez cortante.
— Com mulheres? — repetiu. — Sério? Com M maiúsculo? Como “Meryem”?
Ismail tossiu, desviando o rosto. Nevra pousou a taça com cuidado.
— Pra que isso agora? — tentou Reha disfarçar.
— Porque vocês fogem das respostas diretas! — explodiu Gülçiçek.
— Não estamos em casa — tentou acalmá-la Reha.
— E onde é sua casa, Reha? — ela jogou o guardanapo sobre a mesa. — No hospital? No plantão? Nas lembranças dela?
— Agora não é o momento — murmurou ele, inclinando-se.
— Pra verdade nunca é o momento — respondeu ela baixinho, levantando-se. — Com licença. — Pegou a bolsa.
Gülçiçek deixou o café tão rapidamente que Reha ficou alguns segundos apenas olhando, atordoado, antes de se levantar.
— Com licença — disse apressado, indo atrás dela.
— O que foi isso? — perguntou Nevra, surpresa.
— Amor — respondeu Ismail, aproximando-se dela, satisfeito por estarem sozinhos. — Só que adulto… sem anestesia.
Ismail pegou a garrafa e voltou a encher as taças. Fez um gesto para o músico, e o piano deu lugar a um jazz suave — como se nada tivesse acontecido. Estendeu a taça a Nevra e sorriu; os reflexos da luz dançavam em seus olhos…
***
Eles entraram; ele acionou o interruptor, e a sala foi inundada por uma luz branca. Diplomas alinhavam-se na prateleira do armário. Estando ali pela primeira vez, no escritório dele, Bahar observava tudo. Era como cair numa frieza estéril que refletia a própria essência de Sert Kaya.
Ele foi até a mesa e sentou. Sert não lhe ofereceu cadeira, e ela ficou de pé diante dele, as mãos para trás, sem querer que ele percebesse o tremor nos dedos. Sert Kaya cruzou as pernas e ligou o tablet.
— Solicitação de pesquisa. Meryem Özkan — disse, sem erguer os olhos da tela. — A senhora não a submeteu à aprovação.
— Trata-se de uma paciente com uma forma rara de infertilidade imunológica — Bahar esforçou-se para não se trair; tudo rodava diante de seus olhos, os lábios estavam ressecados. — O senhor sabe o que são anticorpos anti-espermatozoides?
— Claro — ele sorriu de canto. — Quando o organismo da mulher reconhece o sêmen do marido como patógeno. Ataque imune, aborto — levantou o olhar para encará-la. — Só que a senhora esquece, doutora Özden, que nosso hospital não tem laboratório de imunologia experimental.
— Temos uma paciente que mais ninguém aceita — Bahar deu um passo à frente; a mão pousou no encosto da cadeira: ela precisava de um ponto de apoio, caso a vista escurecesse. — E, se eu não tentar, ela pode perder para sempre a chance de ser mãe.
— Acha que eu não li os relatórios da Meryem Özkan? — cruzou os braços. — Ela usou imunoterapia com linfócitos. Injetava na esposa células do sangue do marido para induzir tolerância. Resultados instáveis — ele despejava fatos. — Alguns abortos, gestações bem-sucedidas e… processos judiciais. Um com desfecho fatal. E ela fugiu para a América.
— Ainda assim, conseguiu resultados — Bahar manteve a teimosia. — Levou essa terapia até o fim.
— E a senhora foi a única que decidiu chamá-la sem permissão — Sert se ergueu e aproximou-se. — O que vem depois? Vai conduzir um ensaio clínico por conta própria? Assinar um relatório com a assinatura de outra pessoa? — praticamente se impôs sobre ela.
— Assinei com meu nome — Bahar agarrou-se ao encosto da cadeira. — Porque eu sou médica.
— Não confunda dever médico com insubordinação administrativa — Sert deu mais um passo. — A professora Rengin assinou um documento sem ter poder de assinatura. A senhora, doutora Özden, protocolou o pedido sem avisar ninguém. E o diretor clínico… — fez uma pausa — Evren Yalkın… não estava a par do que fizeram.
Bahar empalideceu; engoliu em seco e conseguiu endireitar-se.
— A professora Rengin assinou como diretora interina — disse calma. — Evren Yalkın assume o cargo na segunda-feira — sustentou o olhar dele. — Aí ele notificará a todos.
Sert ergueu um pouco o queixo, olhando-a de cima.
— Surpreende a sua coragem, doutora Özden — ironizou. — Ou talvez a senhora simplesmente não saiba onde está.
— Sei, sim — ela não mordeu a provocação. — Num hospital onde, em vez de tratar pessoas, ensinam a obedecer à estrutura.
— A estrutura salva vidas — ele se irritou. — A arbitrariedade destrói reputações — virou-se e foi até a janela. Bahar, aproveitando a trégua, engoliu em seco e enxugou o suor da testa. — Aliás, tem certeza de que Meryem Özkan vai aceitar? — ouviu a pergunta às suas costas. — Ela trabalha há anos nos EUA. Tem clínica em Boston, contrato com o NIH, bolsas, publicações… — calou-se, fitando a rua, e então prosseguiu: — Por que ela voltaria pra cá?
Bahar franziu de leve o cenho, virou-se para ele, encarando suas costas.
— Porque o senhor mesmo quer isso — respondeu baixinho.
Sert girou de repente. Os olhos dele se estreitaram por um instante, como se ela tivesse acertado em cheio.
— Cuidado, doutora Özden — deu um passo, mas parou. — Isso é uma suposição.
— Uma observação — corrigiu Bahar. — O senhor conhece a carreira dela em detalhes demais pra ser “apenas contra”.
Por alguns segundos, o silêncio tomou o escritório; então Sert sorriu de canto.
— Mesmo que eu quisesse trazer Meryem Özkan de volta, não cabe à senhora decidir — cortou.
— Então diga com todas as letras — Bahar fechou os olhos por um momento, lutando contra a náusea. — O senhor é contra a pesquisa?
— Sou contra o caos — o tom dele perdeu um pouco da dureza; observava-a com atenção. — Na segunda-feira, o conselho vai analisar sua iniciativa.
— E a paciente vai esperar — notou Bahar, abrindo os olhos.
— Sempre há algo que alguém não consegue esperar — Sert voltou-se para a janela. — Rengin, você… e talvez até Meryem Özkan.
As pernas de Bahar bambearam; ela apertou mais os dedos no encosto, tentando manter-se em pé. Sert percebeu, mas fingiu que não viu.
— O conselho decide — disse, frio, e calou.
Bahar olhava as costas dele, tentando respirar mais devagar, como se isso pudesse conter o enjoo. Queria sair dali; já tinham discutido tudo, agora restava a decisão do conselho. Mas Sert parecia não pretendê-la liberar.
— Doutora Özden — ele se virou —, entregue-me o dossiê completo.
— Quais documentos exatamente? — Bahar franziu o cenho; havia um certo alívio na voz, como se o fim da conversa enfim se aproximasse e ela pudesse deixar a sala.
— Todos — esclareceu com calma, voltando para a mesa. — Rascunhos, correspondência, cálculos, referências bibliográficas — sentou-se. — E, claro, o protocolo de preparação do pedido: quem ajudou, com quem se consultou, com base em quê incluiu o nome de Meryem Özkan.
— A pesquisa ainda não começou — Bahar se atrapalhou por um instante. — Eu só estou reunindo material.
— Melhor ainda — ele olhou o relógio e ajustou a pulseira. — Quer dizer que pode explicar tudo de memória. Vamos começar?
Bahar baixou os olhos; a respiração falhou e as pernas tremeram.
— Agora? — perguntou.
— Quando mais, doutora Özden? — o queixo dele subiu um milímetro. — A senhora tem boa memória, já que se sentiu capaz de iniciar um projeto sem aprovação.
— Eu não iniciei — respondeu, a voz opaca. — Eu só preparei uma solicitação.
— Na solicitação consta a expressão “sobre o início dos trabalhos de pesquisa” — ele virou o tablet para ela. — Isso é início jurídico. Quer dizer que não sabe a diferença entre rascunho e petição oficial?
Bahar levou os dedos à têmpora; a cada minuto ficar de pé ficava mais difícil.
— Eu sei — focou o olhar nele. — E mesmo assim acho que o senhor está errado.
— Quem erra são os pacientes, doutora Özden — disse num tom macio. — Aos médicos cabe a responsabilidade.
Ele viu que ela empalidecera, mas, em vez de oferecer uma cadeira, continuou num registro deliberadamente burocrático:
— Então… quem exatamente recomendou Meryem Özkan? — tamborilou o dedo na mesa.
— Ninguém — Bahar agarrou o encosto com ainda mais força.
— Então por que ela? — o interrogatório seguia.
— Porque ela é a única que… — Bahar falhou; a respiração tornou a descompassar.
— Que o quê? — Sert inclinou-se um pouco. — Que é capaz de salvar sua paciente? Ou a senhora mesma?
Bahar expirou, mal mantendo o equilíbrio.
— O senhor está entendendo errado — sussurrou. — Não se trata de mim.
— Tudo na medicina trata de nós — respondeu ele, mais baixo. — Nossas decisões são espelhos. A senhora não quer que eu duvide da sua competência, quer? Então prove. Conte, passo a passo, o que fez.
Cruzou os braços e ficou observando. Bahar permanecia diante dele, as costas retas, pálida demais; os lábios tremiam de leve, o suor brilhava na testa — e ele se regalava com o próprio poder, sem permitir que ela saísse…
***
Reha não a deixava ir longe. Gülçiçek seguia à sua frente — mesmo com raiva, estava linda. Numa mão, a bolsa; na outra, o telefone. Caminhava sob a luz rarefeita dos postes e o rumor da arrebentação.
— Um carro, por favor, com urgência, sem espera — disse rápido e encerrou a chamada.
— Gülçiçek, espera — Reha apertou seu pulso.
— Não encosta em mim — ela se virou e bateu com a bolsa no braço dele. — Vou entrar no carro agora e vou embora!
— Pra onde você vai? — ele se aproximou, sem soltar a mão dela, olhando-a nos olhos.
— Pra casa — ela tentava se livrar do aperto.
— Pra qual casa exatamente? — o olhar dele era cansado. — A sua, a da Bahar, a nossa?
— A minha — atirou-lhe no rosto —, se você esqueceu, eu tenho a minha casa!
— Tenho — respondeu Reha, calmo. — Mas a nossa fica mais perto.
— Você tenta transformar tudo em piada, até a verdade — irritou-se ela.
— Porque sem a piada eu não sobrevivo ao seu lado — ele forçou um sorriso, mas não afrouxou a mão.
Os faróis do táxi que chegava os cegaram por um instante, e Gülçiçek tentou dar um passo em direção ao carro.
— Espera — Reha segurou-a pelo cotovelo.
— Me solta! — ela deu um tranco, tentando se desvencilhar. — Chega, Reha!
— Senhora, tudo bem aí? — um senhor idoso espiou pela janela.
— Tudo — respondeu Gülçiçek, irritada. — Só estou atrasada pra chegar em casa.
— Não, não está tudo bem — Reha virou-se para o motorista. — Eu sou o marido.
— Então por que chamou táxi? — o homem os olhou com reprovação. — Se brigaram, reconciliem-se em casa, não na rua.
— Exatamente! Eu quero é ir pra casa — ela agarrou a maçaneta da porta.
— Eu vou com você — disse Reha, tranquilo, ajudando-a a abrir.
— Não! — Gülçiçek voltou-se para ele. — Se comporte, senão te prendem!
— Que prendam — irritou-se Reha. — Melhor uma noite na cela do que uma noite sem você na nossa casa.
O taxista balançou a cabeça, mas não foi embora. Gülçiçek apertou ainda mais a alça da bolsa; a raiva faiscou nos olhos.
— Para de fazer espetáculo! — sussurrou, percebendo que passantes começavam a parar.
— Não é espetáculo — Reha ficou muito sério. — Você perguntou da Meryem — nós íamos nos casar — disparou num fôlego só.
Gülçiçek soltou a maçaneta e ainda o encarava com leve desconfiança.
— E o que aconteceu? — ela semicerrrou os olhos.
— Ela foi embora pros Estados Unidos — falou como quem não queria se justificar, mas era obrigado.
— E você ficou? — um sorriso amargo lhe esticou os lábios. — O que houve, Reha? Por que ela foi sozinha?
— Aconteceu assim — ele desviou o olhar.
— “Aconteceu assim”?! — a voz dela tremia. — Você nem agora consegue dizer a verdade — empurrou-o no peito.
— Porque você não precisa dela — ele a fitou nos olhos.
— Preciso, sim — deu um passo a mais —, pra entender por quem eu me apaixonei, com quem eu casei. Você já se perdeu no que é verdade e no que não é.
— Vamos, então? — o taxista arriscou.
— Olha pra mim — Reha de repente a segurou pelos ombros com suavidade e a virou para si. — Eu fiquei porque tive medo de ir pra outro país, porque amarelei — disse quase num sussurro. — E ainda hoje tenho vergonha desse medo.
— As pessoas estão olhando — murmurou Gülçiçek, tentando se virar, mas ele não a soltou.
— Que olhem. Que pensem que um velho perdeu a cabeça — ele arrancou um sorriso sem jeito. — Porque eu perdi mesmo.
— Você não é velho — a mão dela tremeu; quase tocou o rosto dele, mas recuou. Deu um passo atrás. — Mesmo assim eu vou pra casa.
— Pra qual? — bastava ela recuar, e ele avançava, não deixando distância.
— Pra minha! — teimou.
— Então eu vou junto — Reha escancarou a porta. — Entra! Vamos pra qualquer casa, porque a minha só existe onde você está, só ao seu lado!
— Reha! — os lábios dela tremeram; as lágrimas brilharam. — Você enlouqueceu!
— Claro — ele não desviava os olhos. — Quem é casado com você não pode ser normal.
— Vocês vão ou não vão? — o taxista tornou a aparecer na janela.
— Você ainda não me contou toda a verdade — sussurrou Gülçiçek.
— Mas eu não te deixei — Reha ajudou-a a entrar no carro —, e não vou deixar — completou.
Gülçiçek levou a mão à boca e virou o rosto para a janela.
— Pra onde vamos? — perguntou o taxista.
— Pra onde? — repetiu Reha.
— Pra casa — sussurrou Gülçiçek, quase inaudível.
Reha apenas fez um sinal, e o carro partiu suave, em linha reta. Ele aproximou-se dela. Não conseguiu abraçá-la de primeira — ela se esquivava —, mas pousou a mão nos ombros dela e a trouxe para junto de si.
— Eu te amo, Gülçiçek — murmurou, beijando-lhe a têmpora; encostou a face na dela. — Meryem é passado, um passado do qual me envergonho.
— Ainda sente vergonha — respondeu ela.
— E vou sentir, mas te amo — Reha suspirou e a apertou mais forte. — Quero viver com você de um jeito que não me traga vergonha — sussurrou.
Gülçiçek sorriu de leve:
— E eu tenho vergonha do que você aprontou na casa da Bahar — lembrou.
Pela primeira vez naquela noite, Reha sorriu de verdade, com sinceridade.
— Mas você gostou — abraçou-a com mais firmeza, inclinou-se e sussurrou ao ouvido —, a gente continua em casa.
— Não enlouquece — ela voltou a olhar a janela. — Eu não te perdoei.
— Vai perdoar — sussurrou Reha.
— Você é convencido demais — fungou Gülçiçek, enxugando a lágrima que deslizava.
— Não vou deixar você chorar — ele se virou ainda mais para ela.
— Estamos no carro — ela apoiou a mão no peito dele.
— Então não chora — ele a observou, com um leve franzido de testa.
— E você não manda em mim — ela ainda se recusava a encará-lo.
— Eu adoro quando você fica brava — sussurrou Reha.
— Como pode dizer uma coisa dessas?! — Gülçiçek virou-se bruscamente, a ira reacendendo no olhar. — Você me expõe ao ridículo, mente e ainda tem coragem de brincar?
Reha não desviou o olhar; e ela viu neles aquela teimosa ternura que sempre lhe cortava a respiração.
— Eu não estou brincando — falou muito sério. — Você é linda de qualquer jeito. Até quando quer me matar com um olhar — e aí, sim, piscou para ela.
— Então… pra onde vamos, afinal? — percebendo a mudança no clima, o taxista pigarreou com discrição e perguntou.
Gülçiçek ficou imóvel, como se só então tivesse percebido que ainda estavam no carro, com o entardecer já caindo lá fora, o som do mar chegando amortecido — ainda bem que já não havia olhares curiosos. Respirou fundo, tentando ordenar os pensamentos.
— Pra nossa casa — disse bem baixinho. — Pro nosso lar.
Reha sorriu quase imperceptivelmente; não comentou a escolha. Em vez disso, tomou a mão dela com cuidado, e os dedos se entrelaçaram. Gülçiçek tentou se afastar outra vez, mas ele apertou sua palma com mais firmeza.
— Eu sei que você não está pronta pra me perdoar — sussurrou ao ouvido —, mas me deixa, pelo menos, ficar do seu lado.
Ela permaneceu em silêncio, olhando a janela, onde as luzes da cidade se misturavam ao brilho do mar. Naquele silêncio nasceu uma trégua frágil. Tão frágil e incipiente que os dois pareciam temer quebrá-la.
— Por que você sempre complica o que é simples? — sussurrou ela, sem virar o rosto.
— Porque sou só um ser humano — respondeu Reha, simples. — E eu te amo. Mesmo quando você se irrita. Mesmo quando eu me odeio.
O taxista, depois de olhar pelo retrovisor e julgar que a conversa já tinha ido longe demais, ligou o rádio. Uma melodia baixa encheu o carro, amansando a tensão.
Gülçiçek finalmente se voltou para Reha. Ainda havia lágrimas em seus olhos, mas a raiva dava lugar a outra coisa: algo quente, familiar.
— Você é insuportável — disse, já sem a aspereza de antes.
— Mas sou seu — ele encostou os lábios na palma dela. — E não vou a lugar nenhum, aconteça o que acontecer.
Ela fechou os olhos, como se quisesse segurar aquele instante. O momento em que as palavras deixaram de ferir e o toque passou a importar mais do que as mágoas.
— Não promete o que pode não cumprir — pediu, num quase soluço; conteve as lágrimas e não chorou.
— Eu prometo mesmo assim — a voz dele soou firme. — Mesmo que eu sinta vergonha, mesmo que doa.
O carro seguia macio, levando-os para longe da orla barulhenta, dos olhares curiosos e das palavras não ditas. Um semiescuro ocupava o interior; do lado de fora, as luzes corriam, virando uma linha contínua.
Gülçiçek pousou devagar a cabeça no ombro de Reha. Ele a envolveu, trazendo-a para perto; e ela não resistiu mais.
— A gente vai dar conta — disse ele baixinho, beijando-lhe os cabelos. — De tudo.
Ela não respondeu, mas sua mão procurou a dele e a apertou. E, por enquanto, isso bastava…
***
Evren, Serhat e Yusuf já tinham passado bastante tempo juntos, enquanto faziam os exames e cuidavam da papelada. Saíram para o corredor e pararam perto do bloco da laboratório.
— Os resultados vão sair na segunda — Yusuf evitava encarar os dois; os dedos fecharam-se num punho.
— Melhor seria hoje — assentiu Serhat, examinando algo no chão. — Quanto antes, mais fácil.
Serhat passou a mão pelo pescoço, como se tentasse afrouxar um torniquete invisível que lhe apertava as vias aéreas.
— E se não ficar mais fácil? — perguntou Evren, lançando sem querer um olhar a Yusuf. — Nem tudo se conserta em um dia.
— Você está com medo? — Serhat o fitou.
— Não — respondeu Evren, curto. — Estou com vergonha — admitiu. — Se Yusuf for meu filho… eu não estive ao lado dele quando precisava.
Falavam como se Yusuf não estivesse ali, ouvindo cada palavra. Os ombros dele tremiam de leve, mas ele não tentou sair. Sentiu um bolo de gelo subir do estômago à garganta. Engoliu, mas o nó não descia.
Yusuf foi o primeiro a notar Doruk vindo em sua direção e soltou o ar, aliviado.
— Professor Evren, eu estava justamente procurando o senhor — falou rápido. — Sobre o paciente Şenol Karadağ. Internou com agravamento, a bilirrubina disparou — ligou o tablet e mostrou a Evren.
Evren pegou o tablet e, em silêncio, examinou os resultados. Yusuf, sem querer, deu um passo mais perto e olhou por cima do ombro dele. Evren apertou o aparelho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, como se segurasse não o plástico, mas o próprio autocontrole.
— Se for pra transplante, o ideal é segunda de manhã — disse, com um leve franzir de testa.
— Porque não dá tempo de preparar a parte do doador antes? — perguntou Doruk.
— O fígado ainda está compensado? — confirmou Evren.
— Sim, mas os índices começaram a cair — Doruk apontou a tela. — Se esperarmos até segunda, estabilizamos a pressão, ajustamos ferritina, e o risco de sangramento cai pela metade.
— Concordo — entrou Serhat, baixando o olhar para o tablet. — Deixa descansar 24 horas sob monitorização.
— Eu mesmo recolho os exames à noite — animou-se Doruk.
— Bem — Evren concordou. — UTI deve estar pronta. Assino o protocolo segunda de manhã.
Doruk assentiu e desligou o tablet. Na esquina do corredor apareceu Cem com balde e esfregão. Ao vê-los, travou no lugar; pensou em dar meia-volta, mas, contrariando o impulso, pousou o esfregão no chão e começou a limpar, aproximando-se devagar.
— Então, segunda — resmungou Yusuf. — Decide-se tudo de uma vez: a cirurgia e o exame.
— O principal é que nenhuma decisão vire erro — Serhat puxou a gola da camisa, como se o tecido o sufocasse.
— Na medicina e na vida é a mesma regra, Serhat — Evren cerrrou os dentes. — A gente corta não onde dói, mas onde é preciso.
Falou calmo, olhando o movimento no corredor, e seu olhar encontrou o de Cem. Evren aproximou-se.
— Então, filho? — repetiu Cem, sem encará-lo. — Primeiro a Bahar, agora um filho; parece que sobra cada vez menos espaço pra mim na sua vida.
— Cem — Evren inspirou fundo, contendo-se; percebeu o quão rápido as notícias corriam pelo hospital. — Eu mesmo não sabia que podia ter um filho.
— Não precisa se justificar! — Cem quase enfiou o esfregão no balde com força, mas Evren segurou-lhe o braço a tempo, impedindo um banho d’água.
— Isso não é da sua conta! — irritou-se Evren. — Você é meu meio-irmão, mas age como um mimado. Eu não sou seu pai pra você me cobrar coisa alguma!
— Parabéns — disse Cem de repente, alto, lançando um olhar a Yusuf. — Deu sorte, hein.
Yusuf ia responder, mas Serhat pousou a mão no ombro dele e o conteve.
— Pra todos nós é melhor a sala de cirurgia do que esses mexericos — comentou.
Evren ainda fitava Cem, respirando pesado. Não sabia o que dizer, não sabia como lidar com ele; qualquer palavra que dissesse, Cem dava um jeito de virar do avesso.
— Segunda, oito da manhã — disse Evren, em tom de ordem —, junta médica e preparo pra o transplante — e, de súbito, estacou. — Onde está a Bahar?
Olhou em volta; ela deveria estar ali. Bahar não o deixaria sozinho num momento desses, e também não deixaria Yusuf a sós com eles.
Doruk entrelaçou os dedos, mexendo neles nervoso, como se digitasse um código num teclado invisível.
— E a Rengin? — Serhat franziu o cenho, olhando ao redor.
Ele inspirou fundo, mas o ar pareceu travar nos brônquios, provocando um espasmo curto que denunciava a ansiedade.
Yusuf empalideceu e recuou um passo. Sentiu o suor escorrer entre as omoplatas, apesar do frio do corredor.
Cem apoiou as mãos no cabo do esfregão; os olhos brilharam com uma vitória amarga.
— Eu vi o senhor Sert Kaya levando ela pro prédio administrativo — um meio sorriso torto lhe surgiu nos lábios.
— Pro administrativo? Quando? — Evren se retesou; o olhar ficou agudo, dolorido.
Cem endireitou-se devagar, mergulhou o esfregão no balde, torceu e voltou a limpar, como se não tivesse ouvido.
— Uns vinte minutos atrás — respondeu, enfim, sem levantar a cabeça.
Evren lançou um olhar a Serhat e, no instante seguinte, disparou em direção aos elevadores. Serhat foi atrás. Yusuf estremeceu e apressou o passo seguindo Serhat. Fechava o cortejo Doruk, com o tablet na mão.
— O que houve com a Bahar? — sussurrou Doruk, correndo.
Cem acompanhou-os com o olhar, no qual se misturavam inveja, raiva e um lampejo súbito de compreensão — ele estava perdendo a todos, um por um.
— Um filho… ele pode ter um filho, e eu não tenho nada, nem ninguém — murmurou, afundando o esfregão no balde; as mãos tremiam, e a água saltava pelas bordas…
***
Ismail pegou a taça devagar. Girou o vidro frio entre os dedos, observando o líquido rubi deslizar preguiçoso pelas paredes, sem se derramar. Inspirou levemente, absorvendo o aroma sutil de cereja e carvalho, depois pousou a taça sobre a mesa — o som soou alto demais naquela penumbra acolhedora do restaurante.
Ficou apenas olhando para Nevra, sem dizer nada. Havia tanto não dito em seu olhar que Nevra se sentiu subitamente desconcertada; desviou os olhos para a janela, onde as luzes da cidade se misturavam aos reflexos dos postes. Por um instante, pareceu-lhe ser novamente uma garota jovem, num primeiro encontro, e o coração começou a bater mais rápido, como se quisesse escapar do peito.
— Talvez seja hora de irmos — disse Nevra, ajustando o bracelete no pulso sem perceber.
O metal frio tocou-lhe a pele, e ela estremeceu.
— Hora — concordou Ismail, sem desviar o olhar. — Mas não vou te deixar ir.
As palavras pairaram no ar, densas e palpáveis, como uma cortina de veludo. Nevra ergueu o olhar; o ar lhe faltava, a respiração tornara-se rasa, o pulso martelava nas têmporas como um metrônomo num salão vazio.
— Eu te acompanho — disse Ismail, fazendo um leve sinal ao garçom, sem tirar os olhos dela.
— Não precisa — respondeu Nevra suavemente, sentindo as mãos tremerem.
Entrelaçou os dedos sob a mesa, tentando conter o tremor.
— Justamente por isso eu insisto — retrucou Ismail, firme, mas sem dureza.
Nesse momento o garçom se aproximou, e Ismail silenciou, tirando do bolso interno do paletó algumas notas. Colocou-as sobre a mesa com a calma confiante que sempre o acompanhava.
Ismail levantou-se e estendeu a mão para ela. Nevra hesitou um instante, olhando aquela mão estendida como se à frente dela se abrisse um abismo a ser cruzado.
— Você entende — murmurou ele, inclinando-se um pouco; ela sentiu o perfume familiar de sândalo e bergamota, tão dolorosamente conhecido —, que eu não vou te deixar ir porque já não posso esperar mais.
— Ismail… — Nevra deixou que ele a tomasse pelo braço, e esse simples toque fez um calor suave percorrer-lhe as costas.
— Não peço resposta — interrompeu ele, com doçura e determinação. — Apenas anda ao meu lado.
Saíram do restaurante, e o ar fresco da noite os envolveu como um lenço de seda. A luz dos postes desenhava seus rostos, revelando traços conhecidos até o limite, mas que pareciam de repente redescobertos.
Ismail apertou-lhe a mão com mais firmeza, e Nevra percebeu que os dedos dele também tremiam — quase imperceptíveis, mas reais. Isso bastava para entender que ele estava tão agitado quanto ela. Caminhavam em silêncio, e cada passo ressoava no peito dela como o compasso surdo de um coração desgovernado.
Uma rajada de vento arrancou das árvores um turbilhão de folhas — vermelhas, douradas, cor de âmbar. Elas rodopiavam no ar, dançando ao redor dos dois, suspensos por um instante naquele feitiço de outono.
— Cada folha é como um desejo — sorriu Nevra, olhando para as copas. — Se você a pega, ele se realiza.
— Quantos vai pegar? — perguntou ele, vendo uma folha especialmente brilhante descer devagar até a mão dela.
Nevra estendeu o braço. A folha tocou seus dedos e logo voou novamente, levada pelo vento. Ela riu, jogando a cabeça para trás — e havia tanta leveza juvenil nesse riso que Ismail ficou imóvel, fascinado.
Ela deu alguns passos, tentando pegar outra folha, e ele a seguiu, esquecido do tempo e do mundo. Rodopiaram entre as folhas caídas como duas crianças, alheias à idade e às obrigações.
— Você pegou três — disse ele, parando e virando-se para ela. Estava muito perto; os olhos dela brilhavam, os cabelos desalinhados pelo vento. — E eu, nenhuma.
— Porque não acreditava na brincadeira — ela ergueu os olhos para ele, e ele viu neles a mulher por quem se apaixonara.
— Agora acredito — respondeu ele num tom mais baixo. — E se pudesse pegar uma folha agora, desejaria que você ficasse comigo pra sempre.
Nevra sentiu o nó subir à garganta. Quis dizer algo, mas as palavras não saíram. Em vez disso, apertou mais forte a mão dele — e isso bastou.
O vento cessou, e as últimas folhas pousaram suavemente sobre o chão. Ismail afastou com cuidado uma mecha do rosto dela, mantendo a mão junto à têmpora. Os dedos tremiam, não de frio, mas da tensão do momento.
— Vamos pra minha casa? — perguntou quase num sussurro.
Ela não respondeu de imediato. Seu olhar percorreu o rosto dele — as linhas ao redor dos olhos, os fios grisalhos, o leve tremor nos lábios. Tudo aquilo era tão familiar que negar já não fazia sentido.
— Sim — sussurrou Nevra.
Ismail fechou os olhos por um instante, como se absorvesse aquela resposta por inteiro. Depois assentiu, entrelaçou os dedos aos dela; sentiu o leve tremor — de emoção, talvez, ou da brisa da noite.
Seguiram em frente, e parecia que as luzes dos postes os acompanhavam, iluminando o caminho que já não era apenas um passeio — era o começo de algo inevitável.
***
Ela entendia que ele estava jogando com ela, mas não podia fazer nada. Bahar piscou, lutando contra a escuridão diante dos olhos, e a luz branca a feriu como uma lâmina. Tentou focar o olhar em Sert Kaya.
— Você ainda está de pé — ele falou num tom uniforme. — Então pode continuar.
Bahar já mal conseguia transformar palavras em frases; tudo girava, a boca estava seca. Cambaleou, e nesse instante a porta se escancarou.
Evren entrou de supetão, sem bater.
Por um momento, o silêncio tomou o escritório, como se o ar tivesse engrossado de tensão. Ela se virou, e o rosto dele mudou. Havia muito tempo ele não a via tão pálida; os dedos dela tremiam, mas ela permanecia diante de Sert Kaya com as costas retas.
— O que está acontecendo aqui? — a voz de Evren soou cortante; ele fazia um esforço enorme para se controlar. — Doutora Özden — os dedos fecharam-se em punhos, as veias do pescoço retesadas.
Sert Kaya desligou o tablet lentamente, como se alongasse de propósito a pausa. A placidez de seus gestos contrastava com a tempestade que fervia dentro de Evren.
— Para começar — disse Sert, calmo —, o senhor acaba de violar o protocolo de serviço.
— Eu sou o diretor clínico deste hospital e posso entrar em qualquer sala a qualquer hora — Evren avançou um passo, colocando-se diante de Bahar.
Ela estremeceu quase imperceptivelmente, como se fosse recuar, mas, ao prender o olhar dele, parou.
— A partir de segunda — lembrou Sert, sereno, erguendo um pouco a sobrancelha.
Sert contornou a mesa e parou diante de Evren.
— Segunda de manhã, equipe de TV. Alta da Aliye, transmissão ao vivo, reportagem — disse como quem lê uma agenda. — A assessoria de imprensa já foi avisada.
— Eu tenho cirurgia — a voz de Evren falhou, mas ele se recompôs no mesmo instante. — Duas.
— Agora o senhor é administrador, não apenas cirurgião — continuou Sert, suave, porém impiedoso. — Outro médico fará a cirurgia.
— É um transplante duplo em um adolescente! — Evren deu um passo à frente, e Sert nem se mexeu. — Eu acompanho o caso desde o primeiro dia!
— Melhor ainda — a voz de Sert manteve-se impecavelmente cortês. — O senhor já não é o chefe da Transplante. O senhor é o diretor. Vai ser a face do hospital. No ar, dará alta à paciente depois do transplante duplo.
Bahar observava Evren. Pela primeira vez, o viu perdido. Os ombros cederam um pouco, o olhar dele vacilava, como se buscasse saída de uma armadilha invisível. Ela quis dizer algo, mas a garganta apertou. O zumbido nos ouvidos crescia, a luz feria os olhos, e as palavras de Sert chegavam como através de algodão.
Evren abriu a boca para retrucar, mas Sert se adiantou.
— Doutora Özden — voltou-se para Bahar —, está dispensada — e virou-se para Evren: — Com o senhor, continuo a conversa.
Bahar não se moveu. Evren estendeu a mão, e ela a apertou.
— Ela fica. Isso diz respeito à pesquisa dela — começou Evren.
Parecia querer resolver tudo ali, de uma vez.
— Engano seu — a voz de Sert não subiu um semitom. — Isso diz respeito à disciplina.
Ele puxou o tablet e virou a tela para Evren. O título saltou primeiro aos olhos: “Mulher grávida morreu por erro da dra. Bahar Özden”.
— Isso já se espalhou pela internet inteira — informou Sert. — A partir de segunda o senhor também cuidará disso. Coletiva de imprensa, nota oficial. Está preparado, professor Evren Yalkın? — suavizou minimamente o tom, mas nessa “suavidade” havia mais ameaça que num grito. — Bem-vindo à realidade da gestão.
Evren enrijeceu. Os músculos do rosto tremeram, e ele conteve a explosão.
— Isso é mentira — disse entre os dentes —, e o senhor sabe.
— Talvez — respondeu Sert, inalterado. — Mas o público prefere manchetes, não a verdade — sorriu de leve, quase amistoso. — O senhor vai resolver isso. — Pôs um ponto final.
— Não vou permitir que transforme meus médicos em ferramenta de audiência — Evren ergueu-se; os ombros alinharam, o olhar ficou afiado como lâmina.
— E eu não vou permitir que transforme o hospital num clube de afinidades — retrucou Sert, igualmente sereno.
O ar do escritório ficou denso, como antes da tempestade. Bahar permanecia atrás de Evren, o zumbido preenchendo os ouvidos. O sentido das vozes — regulares, frias — começou a escapar. Manchas escuras nadaram diante dos olhos; a luz cortou a retina, e ela cambaleou.
Evren percebeu de relance. O rosto dele mudou num instante; a ira cedeu lugar à preocupação. Aproximou-se, segurou-a pelo braço, amparando-a.
— Você precisa sentar — disse baixo, sem olhar para Sert.
— A doutora Özden está em condições de continuar — inseriu Sert, gelado. — Foi o senhor mesmo quem a manteve aqui — lembrou.
— Ela está em condições de sair — cortou Evren, sem elevar a voz, mas de um modo que até Sert silenciou. — Agora.
Conduziu Bahar à porta, sem esperar autorização. Ela andava como por dentro de um nevoeiro, agarrada à mão dele. Já no vão da porta, Evren se virou. Seu olhar — frio, firme — encontrou o de Sert.
— Essa conversa não acabou — disse, ofegante.
Sert apenas inclinou discretamente a cabeça, como quem aceita o desafio.
Saíram, e a porta se fechou atrás deles. No corredor, Bahar encostou-se à parede e fechou os olhos. Evren ficou ao lado, sem soltar sua mão.
— Ele está brincando com a gente — sussurrou ela. — Como gato com rato.
— Nós não somos ratos — respondeu ele baixinho. — Somos médicos. E vamos tratar.
Ela o fitou.
— E agora? — o olhar dela ficou levemente opaco, como se não conseguisse focá-lo.
— Agora, salvamos o hospital. E um ao outro — ele apertou os dedos dela. — Juntos. Bahar?
De repente, os dedos dela afrouxaram na mão dele. Evren percebeu na hora; o olhar correu para o rosto dela. As faces empalideceram num segundo. Os olhos se arregalaram, como se tentassem agarrar uma realidade que escapava; depois as pálpebras tremeram e desceram.
— Bahar! — ele a amparou antes que o corpo desabasse.
Ela não respondeu. A cabeça tombou de lado, a respiração tornou-se rasa, quase invisível. Evren pressionou os dedos no pulso dela. A pulsação era rápida e fraca, como o coraçãozinho de um pássaro batendo na palma da mão.
— Droga — ele varreu o corredor com o olhar, procurando alguém da equipe. — Socorro! — gritou, tentando mantê-la ereta.
O corpo dela amoleceu em seus braços. Evren a deitou no chão com cuidado. Os dedos tremiam enquanto checava a reação pupilar, tocava o pescoço, contava as batidas.
— Bahar, você me ouve? — inclinou-se sobre o rosto dela, perscrutando os traços pálidos. — Abre os olhos. Vamos! — deu-lhe leves palmadas na face.
Ao longe já se ouviam passos apressados, vozes — mas, para Evren, só existiam os dedos frios dela na sua mão e o silêncio onde se afogava aquele pulso fraco e irregular.
Na mesma hora, a imagem do tablet brilhou na mente — a manchete: “Mulher grávida morreu por erro da dra. Bahar Özden”. Os pensamentos martelaram nas têmporas.
Ele mostrou só para mim. Ela ainda não sabe. Se souber, vai quebrar de vez.
Os dedos se fecharam mais forte em torno do pulso dela. O pulso seguia irregular, fraco. O zumbido ocupava os ouvidos, mas, por dentro, através da angústia por Bahar, acendia-se uma raiva fria.
Kamil, o marido daquela paciente. Claro. Quem mais? Mas por que agora? Por que assim?
Lançou um olhar rápido para a porta — Sert Kaya, certamente, ainda estava lá dentro, de pé atrás da parede, esperando, talvez observando. O pensamento queimou: “Ele não apenas golpeou. Calculou o golpe. Sabia que eu não poderia revidar.”
Evren olhou o rosto pálido dela, quase translúcido, e por um segundo lhe pareceu que podia perder tudo num só dia: a confiança, a equipe, o direito de decidir.
“Se ela souber, não vai se perdoar. E, se não souber, vai sentir a mentira mesmo assim. Mas agora… agora o essencial é que ela abra os olhos.”
Passou a mão pela testa dela, afastando uma mecha do rosto, e murmurou, mais para si do que para ela:
— Vai ficar tudo bem. Eu não vou deixar que te quebrem. Nem que eu tenha que quebrar as regras deles.
***
Ficar sozinha na casa da Bahar era impossível. Umay, de roupão depois do banho e com os cabelos úmidos enrolados na toalha, descia a escada. Siren logo veio atrás, e, colado a ela, vinha Uraz.
— Siren, você tem certeza? — perguntou ele mais uma vez, tentando abotoar a camisa sem notar que a vestira do avesso.
— Tenho, Uraz, tenho certeza! — declarou ela, categórica, sem tirar os olhos de Umay.
Parla afastou-se para um canto e sentou-se no sofá com o celular na mão.
— Você está meio pálida — Siren examinava o rosto de Umay —, como se tivesse visto um fantasma.
— Eu estou bem e não vi ninguém — respondeu Umay rápido demais.
— Aham — Siren semicerrrou os olhos. — Tão “bem” que serviu o chá três vezes e não bebeu nenhuma.
Ela apontou para três canecas sobre a mesa.
— O que foi agora? — Uraz percorreu os três com o olhar. — Quem brigou?
— Ninguém — Parla ergueu a cabeça. — É que a Umay está esquisita hoje.
— Eu não estou esquisita — retrucou Umay, irritada, mas os olhos brilharam de lágrimas. — Só estou tonta.
O rosto de Siren mudou. Ao ver a reação dela, Uraz empalideceu ainda mais. Çagla levantou-se e tocou a testa de Umay.
— Não está quente — franziu levemente o cenho. — Talvez pressão ou… — Çagla não terminou.
— Ou o quê? — irritou-se Umay.
— Nada! — Siren recuou. — Só… você está meio… enfim… — fez um gesto vago com a mão.
Umay levantou-se bruscamente e, cambaleando, caiu de volta no sofá.
— Ai — levou as mãos às têmporas.
— Umay — disse Siren, devagar —, você tem certeza de que precisa…? — ela não concluiu.
Todos congelaram, fixos em Siren.
— Precisa do quê? — Uraz foi o primeiro a perguntar, observando-a com atenção, tentando decifrar-lhe a expressão.
— Precisa do quê? — Parla largou o telefone.
— Umay — suspirou Siren —, você tem certeza de que precisa… andar tão rápido? Você acabou de sair do banho. E se ficar tonta? — perguntou.
Todos pararam, olhando uns para os outros. A pausa se alongou.
— Ó, Alá, alguém explica o que está acontecendo?! — exclamou Çagla, erguendo as mãos e encarando a todos. — Faz meia hora que rodamos em círculos e, no fim, o assunto é a velocidade da caminhada?!
— Eu só estou preocupada… — Siren deixou a frase morrer.
Uraz ajeitou a camisa vestida do avesso.
— Certo. Vamos ser francos — Siren sentou-se ao lado de Umay. — Você está se sentindo mal… ou está escondendo alguma coisa?
— Que interrogatório é esse?! — explodiu Umay, levantando-se de supetão. — Não dá nem pra sentar na sala? — bufou e correu escada acima.
— Parla, por favor, não deixa ela sozinha — pediu Siren.
Parla deu de ombros e foi atrás da irmã. Uraz ficou ao lado de Siren, inquieto, tentando chamar a atenção dela.
— Siren, será que a gente não pode pensar mais um pouco? — arriscou, inseguro.
— Uraz! — a voz de Siren tremia de indignação e emoção. — Vai trocar essa camisa e fica com as crianças. Eu já volto — levou as mãos às têmporas.
— Você está passando mal, né? — Uraz correu até ela. — Água? Limão?
— Sai, Uraz! — Siren não estava brincando, e, nesse momento, o choro de Mert soou. — Fica com as crianças, por favor — pediu.
Uraz estremeceu, assentiu e subiu as escadas, olhando para trás.
— O que está acontecendo? — perguntou Çagla, em voz baixa.
— Só não desmaia — Siren parecia até com medo de encará-la.
— Já estou sentada — respondeu Çagla, imperturbável. — O que é desta vez?
Siren olhou ao redor e aproximou-se dela.
— Acho que a Umay está grávida — sussurrou.
— O quê?! — Çagla parou de mastigar o sanduíche de verdura e queijo.
— Bem… talvez — Siren virou-se e olhou para a porta do lavabo na sala. — Eu encontrei um teste no banheiro e peguei a Umay lá dentro. Duas listras, Çagla!
Çagla piscou. Estendeu a mão, como se tentasse absorver o que ouvira.
— É de quem? — perguntou baixo.
— Do Cem, provavelmente… — Siren deu de ombros. — Já perguntei uma vez se tinha rolado alguma coisa entre eles; ela não respondeu.
— Ou do Yusuf — supôs Çagla.
As duas se calaram, trocando olhares.
— Quer dizer… — Çagla ergueu as sobrancelhas — Evren?!
— Evren?! — suspiraram as duas ao mesmo tempo. — Não, a Bahar!
— O que vai acontecer quando a Bahar souber? — perguntou Siren.
— Repete — pediu Çagla. — Devagar.
— Eu entrei no banheiro, a Umay estava lá. Nervosa, um turbilhão de emoções, depois saiu correndo e deixou a toalha cair — Siren falava enquanto olhava para cima, temendo que alguém escutasse. — Eu peguei a toalha, e lá estava o teste. Duas listras.
— O que mais? — Çagla escutava com atenção. — Como a Umay se comportou?
— Nada demais — Siren deu de ombros. — Só o olhar… como se eu tivesse flagrado algo terrível. E aí saiu correndo.
Çagla se levantou, mas Siren a puxou de volta; sentaram-se juntas no sofá.
— Como a gente vai contar pra ela, Siren? Como?! — Çagla levou as mãos ao peito. — Como vamos contar pra Bahar?
— Você tem certeza de que precisamos contar? — perguntou Siren, cautelosa. — Talvez a Umay mesma…
— Ela mesma?! — exclamou Çagla e tampou a boca com a mão. — Você conhece a Bahar! — sussurrou. — Se ela souber não por nós, mas por outra pessoa… ou por acaso… Vai ser um desastre. Ela controla tudo!
— Mas como dizer? — Siren encarou-a. — “Bahar, a Umay está grávida?” Assim mesmo?
— Eu não sei! — a voz de Çagla traiu uma pontinha de pânico. — Mas ficar caladas não dá. Já pensou o que ela vai dizer?
— Já — assentiu Siren. — “Quem é o pai? Vamos ter esse bebê.” — Siren olhou para Çagla. — E se ela proibir a Umay de ficar com a criança?
— A Bahar não faria isso — respondeu Çagla, baixinho.
As duas se calaram de novo, olhando para a porta, como se a Bahar fosse entrar a qualquer instante.
— A gente não pode decidir por elas, mas também não pode ficar em silêncio — Çagla torceu as mãos. — Precisamos falar com a Umay. Saber o que ela quer.
— Ela não vai dizer. Ela tem medo — Siren balançava de leve no sofá.
— Então a gente pergunta até ela dizer — suspirou Çagla —, mas primeiro sem pânico. Sem gritos. Só: “Umay, a gente sabe. O que você vai fazer?”
— E se ela responder: “Não sei”? E aí? — Siren tornou a segurar a cabeça entre as mãos.
— Aí a gente pensa juntas — tossiu Çagla. — Mas não hoje. Hoje… hoje a gente só se mantém firme.
— Que medo — admitiu Siren.
— Eu também — Çagla levou a mão ao ventre, como se protegesse o próprio bebê.
A sala escurecia. A lâmpada piscou, como se o vento do lado de fora a tocasse. Em algum lugar do andar de cima ouviu-se a voz de Uraz. A vida comum seguia seu curso, e ali, na penumbra, duas mulheres apertavam as mãos uma da outra e tinham medo até de respirar, porque sabiam: tudo podia mudar a qualquer momento.
***
Bahar mal respirava. Estava deitada no leito do quarto, ainda inconsciente. Doruk empurrou o aparelho de ultrassom. Ferdi andava de um lado para o outro perto da porta. Yusuf fitava, tenso, o rosto pálido de Bahar. Evren permanecia ao lado dela — concentrado demais —, mas suas mãos tremiam. Doruk aproximou o aparelho, e Yusuf o ajudou a ligá-lo.
Lágrimas brilharam nos olhos de Doruk. Ninguém dizia nada; só se ouvia o zumbido do equipamento em funcionamento.
— Fígado limpo — murmurou Evren, mais para si mesmo. — Textura homogênea, limites normais.
— Graças a Alá — soluçou Doruk à cabeceira. — Bahar, não morre, eu te amo.
— Cala a boca! — gritaram quase ao mesmo tempo Evren e Yusuf.
— O quê? — Doruk piscou, sem entender. — Eu só disse a verdade!
— Saia daqui — a voz de Evren saiu rouca.
— Não! — Doruk agarrou a grade do leito. — Não vou a lugar nenhum; e se ela piorar?
— Não discutam — interveio Yusuf. — Assim a Bahar só vai piorar.
— Você não tem o direito de me dar ordens — Evren explodiu.
— E o senhor, agora, não é meu professor; não estamos no trabalho! — rebateu Yusuf, tomado pela mesma aflição de Evren.
Ele não entendia por que Bahar demorava tanto a recobrar os sentidos.
— Não gritem, por favor — a voz baixa de Bahar fez todos se calarem.
— Bahar, não fica em silêncio — Evren inclinou-se, roçando de leve os dedos na face dela. — Como você se sente?
Ela piscou devagar e, com a mesma lentidão, focou o olhar nele.
— Melhor — conseguiu até esboçar um sorriso com os lábios ressecados.
— Tontura? — insistiu Evren, atento a cada gesto.
— Já está passando — ela tornou a fechar os olhos.
Com a outra mão, Evren mantinha o transdutor; o olhar voltou à tela.
— Tudo limpo — sussurrou. — Mas você precisa descansar.
A mão dela pousou sobre a dele. Pressionou de leve o transdutor, impedindo que ele o movesse.
— Evren — murmurou —, eu estou bem.
— Você desmaiou, Bahar! — a voz dele tremia.
Ela apertou de leve os dedos dele, guiando-os devagar até o umbigo. Virou o rosto para o monitor, fez um sinal com a cabeça a Yusuf, que girou a tela em direção a ela.
— Eu estou bem, Evren — repetiu, fitando o visor; ele ainda a olhava, sem entender o que ela fazia. — Você tinha razão — sussurrou, buscando o ângulo. — Eu só estou grávida.
O silêncio caiu sobre eles. Doruk prendeu a respiração; Yusuf desviou o olhar. Evren parecia não compreender; olhou a tela, depois para ela.
— O quê? — repetiu.
— Grávida. Seis semanas — disse de novo.
Evren estremeceu; quase se ergueu de um salto, mas ela ainda segurava a mão dele com o transdutor. Toda a atenção dele foi tragada pelo monitor.
— Bahar — a voz falhou; um lampejo de pânico nos olhos. — Eu… eu não escuto batimento. Bahar, é… é um aborto retido? — a respiração dele se descompassou.
— O quê? — os lábios dela tremeram; franziu um pouco a testa.
Evren empalideceu; o olhar varria a imagem.
— Não… espera… talvez seja cedo — arfou. — Seis semanas… pode ser que ainda não apareça… — os olhos ficaram vermelhos.
— Professor — Yusuf pousou com cuidado a mão no ombro dele. — A Bahar precisa se acalmar.
— Evren, eu estou viva — sussurrou Bahar. — Eu estou bem.
Ela ergueu a mão um pouco, e ele imediatamente se ajoelhou ao lado do leito, tomou a mão dela e cobriu-a de beijos.
— Se acontecer qualquer coisa com você… — sussurrava entre os beijos —, eu não suporto uma terceira vez.
— Posso falar agora? — arriscou Doruk. — Porque eu também estou chorando.
— Doruk, fica quieto — cortou Yusuf.
— Vai ficar tudo bem — repetia Evren. — Tem que ficar tudo bem. — Sentou-se na cama, junto dela, hesitando em tocar o ventre; estremecia de leve. — Mostra de novo — pediu.
Bahar conduziu a mão dele de volta ao transdutor e recomeçou a buscar o ângulo.
— Olha… — guiou o movimento junto com a mão dele. — Aqui.
A tela viveu de brilhos cinzentos. Evren inclinou-se, examinando por longos segundos, até que, de súbito, estacou.
— É… é o nosso bebê? — perguntou num sussurro.
— Seis semanas — havia cansaço na voz de Bahar. — Eu estou grávida.
Ele olhou a tela, depois para ela. Uma enxurrada de emoções passou pelos olhos: primeiro luz — uma alegria limpa, involuntária —, depois o medo, como uma onda cobrindo-o por inteiro.
— Seis semanas… — voltou a encará-la. — E ainda sem batimento. Por que não tem batimento, Bahar? — a voz bordejou a aflição.
Ela não teve tempo de responder. Ele mesmo já procurava outro ângulo, mudando a posição do transdutor.
— Tem que ter, Bahar! — o pânico subiu.
— Evren… ainda é cedo — tentou acalmá-lo.
— Não, eu preciso… — ele puxou a mão. — Eu não vejo. Por que eu não vejo?
Agora já não era pânico — era o terror seco do médico que já viu a morte e não chegou a tempo. E essa aflição a alcançou também.
— Evren… eu não estou morrendo — sussurrou, vasculhando a imagem. — Não é isso.
Evren parecia não ouvir. Afundou no próprio medo, como numa cirurgia em que o tempo decide tudo. Bahar firmou a mão dele e guiou o transdutor junto com a dele.
— Aqui… olha — a voz tremia um pouco, mas vinha com um calor suave.
Apareceu um pontinho minúsculo — uma mancha cinzenta entre os brilhos.
— Está vendo? — perguntou. — É ele. Seis semanas. Eu estou grávida.
Evren ficou imóvel. Por alguns segundos, não respirou.
— Grávida… — soltou o ar, como quem o saboreia.
A alegria infantil lhe atravessou a voz. Seus olhares se encontraram, e o mundo pareceu se aquietar por um instante; mas o olhar dele voltou à tela. Os músculos do rosto retesaram.
— Espera — sussurrou, movendo ele próprio o transdutor. — Eu não vejo batimento.
— Evren… — Bahar sorriu. — Ainda é cedo.
— Não é cedo — respondeu com a teimosia de sempre. — Em seis semanas já pode haver pulsação — pressionou um pouco mais o transdutor, os olhos varrendo a imagem. — Por que não está aí, Bahar?
Ela sentiu os dedos dele tremerem. O timbre mudou — virou voz de médico. Daquela que faz tudo parar.
— Evren… por favor, não — tentou contê-lo.
— Tem certeza de que não errou o tempo? — perguntou brusco demais.
— O quê? — ela o encarou, tentando entender, mas o medo já caía sobre ela como sombra.
— Estagnou? — insistiu. — Pode ser… não, não… eu não devia ter deixado você… — a voz sumiu; o horror congelou nos olhos.
— Espera… — ela ergueu um pouco o tronco. — O que você disse? Como assim “estagnou”? — agarrou o punho dele. — Evren, por favor, não fala assim.
— Eu não sei, Bahar… — ele empalideceu. — Eu não vejo batimento!
— Talvez o aparelho… — os olhos dela se encheram d’água. — Talvez o ângulo… Eu senti, Evren, eu senti!
E, naquele instante, os dois foram tragados pelo mesmo redemoinho: onde a alegria cedeu lugar ao pânico, onde, tentando convencer um ao outro, cada um se perdia.
— Só não isso… — os dedos dele afrouxaram, e o transdutor escorregou.
— Só não isso… — repetiu ela, fechando os olhos; deitou-se; uma lágrima correu pela face.
A tela seguia acesa, com a pequena mancha cinzenta. E, nessa imobilidade, ficou suspensa a respiração de ambos — presa pelo medo que partilhavam.
CAPÍTULO 10. PARTE 3
Bahar mal conseguia respirar, lutando para não chorar.
Doruk soluçava ao lado da cabeceira da cama. Ferdi, suspirando, encostou-se na parede. Ainda não sabia se devia ir embora ou ficar. Evren estava sentado na cama, segurando com força a mão de Bahar.
Yusuf, incapaz de se conter, deu um passo à frente. A mão dele se estendeu, hesitante, em direção à tela, como se pudesse ver ali algo que acalmasse a todos.
— Esperem — quebrou o silêncio Yusuf. Aproximou-se do monitor e apontou para uma vibração cinzenta, quase imperceptível, no canto esquerdo da imagem. — Olhem… aqui, parece um movimento… — ele tocou o monitor com o dedo. — É um pulso! — voltou-se para Bahar e Evren. — Estão vendo o movimento?
— O quê? Onde? — Evren se levantou de um salto e contornou a cama.
— Aqui — Yusuf aproximou a imagem, ampliando-a. — Aqui está. Fraco, mas rítmico. Não é um erro.
Evren fixou o olhar na tela, onde Yusuf apontava. Bahar se inclinou, tentando enxergar melhor. Os segundos se arrastavam como uma eternidade. A pequena mancha cinzenta pareceu estremecer — ou talvez fosse apenas imaginação — mas bastou para que a respiração de Bahar se acalmasse.
— Sim. Um batimento cardíaco — disse Yusuf, sorrindo com lágrimas nos olhos. — Muito precoce, mas está lá.
— Viu? — sussurrou ela, aliviada, olhando para Evren. — Não é tão grave assim.
Evren a encarou. Parecia perdido, como se ainda não tivesse voltado do inferno interior onde havia caído. Os lábios tremiam, os olhos brilhavam.
— Eu… pensei… — começou ele, rouco.
— Eu também pensei — interrompeu Bahar —, mas está tudo bem.
Ele assentiu, embora seus dedos ainda tremessem. Em seus olhos misturavam-se uma alegria infantil, impotente, e o medo que ainda não o deixava. Bahar se ergueu um pouco, apoiando-se no cotovelo.
— Evren — disse ela, agora com voz calma e firme, recuperando o controle —, para ouvir um batimento cardíaco na sexta semana, é preciso fazer um ultrassom transvaginal… — sorriu cansada — e nós não vamos fazer isso, certo? O bebê está bem. Eu também.
Evren ficou imóvel, segurando o transdutor, como se só então percebesse o quanto o apertava. Ele assentiu.
— Daqui a algumas semanas — acrescentou ela, num tom médico —, repetimos o exame. Aí ouvimos juntos.
— Desculpe — murmurou Yusuf, desviando o olhar. — Eu não sabia como impedir… — hesitou —, é que vocês demoraram tanto para reagir, eu acabei me assustando — confessou.
— Você… tentou impedir?! — Evren se virou bruscamente. — Você tem ideia do que eu podia ter… — sua voz não era mais a de um médico, mas a de um homem tomado pelo medo e pelo alívio ao mesmo tempo.
— Evren — Bahar interveio, mas ele parecia não ouvi-la.
— Você sabia? — deu um passo em direção a Yusuf. — Sabia que ela não estava bem e não disse nada?! Que direito tinha de esconder isso de mim?!
Yusuf ergueu o olhar. Em seus olhos brilharam dor e raiva, alimentadas pela impotência.
— E você tinha o direito de viver sem mim, se eu sou seu filho?! — as palavras explodiram, como se há muito quisessem sair. — Tem o direito de se alegrar com seu bebê, quando eu nunca… — ele não terminou.
O silêncio caiu sobre o quarto como uma pedra. Doruk se sobressaltou, Ferdi congelou, atento. Bahar tentou se levantar, mas a vista escureceu.
— Parem… — sussurrou ela, a voz falhando. — Por favor, não agora… — e desabou nos travesseiros.
Evren e Yusuf se lançaram sobre ela ao mesmo tempo. Suas mãos se encontraram sobre os ombros dela.
— Cuidado — disse Evren.
— Cuidado — repetiu Yusuf.
Bahar fechou os olhos, sentindo-se comprimida entre duas forças — dois medos, duas culpas. Doruk, incapaz de suportar a tensão, ergueu os braços ao céu.
— Obrigado, Alá! — gritou entre lágrimas. — Ela está viva! E o bebê também! — soluçou e cobriu o rosto com as mãos. — Vamos ter um bebê! — gritou de novo.
A sinceridade repentina dele dissipou o ar pesado. Bahar até sorriu ao olhar para ele.
— Doruk — murmurou, balançando a cabeça.
Evren sentou-se ao lado dela na beira da cama. Ainda tremia, mas a pânica havia passado.
— Por que não me contou antes? — perguntou baixinho, sem levantar os olhos.
— Porque só descobri hoje à tarde — respondeu ela no mesmo tom. — Queria ter certeza de que estava tudo bem, para não acontecer como da última vez — seus dedos apertaram o lençol. — Eu precisava ter certeza.
Ele fechou os olhos; as palavras a atingiram em cheio.
— Vamos pra casa — disse enfim, abrindo os olhos. — Chega de hospital. Quero que você durma, coma, ria.
— Eu sou médica, Evren — lembrou ela, mas um sorriso se desenhou em seus lábios.
— Hoje você é paciente — respondeu ele com sua teimosia habitual, ajudando-a a se sentar. — E nada de discutir.
— Só não entre em pânico de novo, tá? — Bahar apertou a mão dele. — Você quase tirou de mim esse momento — continuou, em voz baixa, consciente de que os outros ouviam, mas incapaz de parar.
— O quê? — Evren pareceu confuso.
— Eu senti o bebê — Bahar olhou nos olhos dele. — Eu sabia que ele estava lá. Mas você… você me fez duvidar. Me fez ter medo.
Evren estremeceu, preso ao olhar dela.
— Se continuar assim, eu vou sozinha fazer o ultrassom — disse ela, num tom de ultimato. — Vou ouvir o coração sozinha! E se você… se ousar pensar no pior antes de acreditar no melhor, — não terminou a frase.
— Bahar — Evren empalideceu.
— Você é médico, Evren. Você já viu a morte — ela apertou a mão dele com força. — Eu sou mãe. Eu vejo a vida.
— E eu sou pai! — declarou Evren, os ombros tensos, o olhar duro e ferido. Ela apenas inclinou a cabeça levemente, e ele pareceu ceder. — Desculpa — murmurou. — Eu só… não posso perder vocês.
— E não vai perder — ela sorriu. — Não entra em pânico — pediu, tocando o rosto dele. — Evren — Bahar o olhou nos olhos —, você vai ser pai — disse, inclinando-se até ele, os lábios tocando os dele. — Parabéns — e o abraçou, encostando o rosto em seu peito.
Evren escondeu o rosto no ombro dela, fechando os olhos para conter as lágrimas. Assentiu, mas seus dedos ainda tremiam — o medo permanecia. Alegria e pavor se entrelaçavam dentro dele num só nó. Sabia bem que aquilo era apenas o começo.
Yusuf afastou-se, observando-os em silêncio. Sua respiração estava mais calma. Via que Bahar estava firme, Evren ao lado, e o bebê vivo. Bahar se levantou da cama; Evren a segurou pelo cotovelo.
— Obrigada — disse ela a Yusuf. — Foi o único que não esqueceu que isso é um milagre.
— Só olhei no ângulo certo — respondeu ele, dando de ombros.
— Pronto! — soluçou Doruk. — Agora estou chorando de felicidade!
Todos olharam para ele e riram. A tensão foi se dissipando lentamente, deixando para trás um leve gosto amargo.
***
O gosto amargo não saía da boca.
Kamil já nem lembrava havia quanto tempo não dormia. O quarto estava imerso no brilho azulado da tela do notebook. Sobre a mesa — uma pasta, pilhas de exames, cópias de relatórios médicos. E, no centro, uma fotografia de sua esposa — Ayşe. Ela sorria para ele com aquele sorriso doce, sustentando a barriga já saliente. Tudo o que restara deles estava ali, sobre a mesa.
Kamil passou o dedo sobre o rosto dela, mas o brilho do papel não podia substituir o toque da pele. O telefone voltou a piscar, mas ele já não olhava as notificações, nem lia os comentários. Dentro dele amadurecia a consciência de que precisava agir. O apoio de desconhecidos lhe dava forças. Quase todos diziam a mesma coisa:
Ela confiou nos médicos e morreu. Quem vai responder por isso? Vá ao conselho! Não os deixe impunes! Apresente uma denúncia!
Kamil abriu a pasta, tirou as imagens de ultrassom, os relatórios médicos, os recibos dos remédios… e uma impressão com o nome da doutora Bahar Özden. Um nome que já aparecera centenas de vezes no seu feed — agora estava diante dele, em letras pretas sobre o papel branco.
— Sim — murmurou Kamil, puxando o notebook para mais perto, como se respondesse a todos que o incentivaram. — Eu não vou deixar isso passar!
Kamil começou a digitar.
— “Há dezoito meses foi realizado um transplante de fígado…” — ele parou, apertou a ponte do nariz. — Por quê? Por que não avisaram dos riscos? Por que não acompanharam de perto?
Empurrou a pasta, revirando documentos, até encontrar as fotografias. Parou. Cada imagem era um lembrete dos momentos felizes.
— Você queria tanto esse bebê — disse ele, olhando para Ayşe sentada na poltrona. — Você sonhava tanto com ele.
O som de uma nova notificação soou, mas Kamil não reagiu. Continuou.
— Preciso reunir todas as provas. Cada momento. Cada erro tem que ser registrado — sussurrou.
Ainda assim, abriu as redes sociais, leu os comentários, fez capturas de tela.
— Eles acham que podem simplesmente abafar o caso? — a determinação endureceu seu rosto. — Não. Agora que a história veio à tona, não vão poder se calar.
Kamil digitou a denúncia, imprimiu, leu e imediatamente riscou tudo com uma caneta vermelha.
— Suave demais — murmurou. Recomeçou, mais duro, mais direto:
— Exijo uma investigação sobre a morte de minha esposa, Ayşe, sob os cuidados da doutora Bahar Özden. Gravidez de 24 semanas. Após transplante de fígado. Sem as devidas ações por parte da equipe médica.
Parou, respirou fundo.
— Alguém tem que pagar — disse em voz alta.
Na mesa, uma xícara com chá frio. Kamil a pegou e bebeu um gole; fez uma careta. O amargor na garganta agora parecia apropriado. Olhou novamente para a tela do celular. A enxurrada de mensagens não cessava. Ativistas, blogueiros — todos escreviam. O nome de Bahar Özden aparecia em cada manchete. Kamil fechou os olhos, mas a luz da tela atravessava as pálpebras. Ayşe estava diante dele, como na foto — de vestido branco, mãos sobre o ventre.
— Me perdoa — sussurrou. — Eu não consegui te proteger… mas agora vou conseguir.
Reuniu todos os documentos na pasta. Colocou a foto de Ayşe por cima e recostou-se na cadeira.
O telefone vibrou de novo.
— Vamos ajudá-lo com um advogado. O importante é não se calar, — dizia a mensagem.
— Não vou — pela primeira vez em muito tempo, Kamil assentiu com convicção. — Nunca mais vou me calar.
Levantou-se.
— Na segunda-feira, alguém vai pagar — disse baixinho, como quem faz um juramento. — Vão responder por cada hora de atraso. Por cada minuto em que Ayşe precisou de ajuda.
Olhou o relógio, aproximou-se da janela. Observou a cidade escura diante de si.
— Alguém tem que pagar — repetia como um mantra. — Não só com dinheiro. Com responsabilidade. Com a verdade.
Voltando à mesa, pegou a foto da esposa e beijou-a.
— Faço isso por você e pelo nosso bebê. Pela justiça.
Apagou o abajur. O quarto mergulhou na escuridão, restando apenas o brilho da tela do notebook, projetando reflexos nas paredes — reflexos de sua determinação.
— Eles vão pagar. Todos vão pagar! — a luz do monitor iluminava seu rosto, tomado pela certeza do que fazia.
Agora ele tinha um propósito — e não descansaria até alcançá-lo.
***
Eles alcançaram as portas, e o ar frio da noite bateu-lhes no rosto.
Bahar caminhava entre os dois — de um lado Yusuf, do outro Evren, ambos a amparando pelos braços.
Perto da entrada, um reluzente moto preta brilhava sob as luzes do hospital. Evren franziu o cenho ao observá-la.
— Algum problema? — perguntou Yusuf, tirando as chaves do carro do bolso.
Evren olhou para o rosto pálido de Bahar.
— Não. Assim não dá — murmurou. — Você vai de carro — declarou, como quem acabara de decidir algo definitivo.
Bahar assentiu, cansada.
— Vamos trocar — suspirou Evren, pegando as chaves da moto.
— Trocar? Como assim? — perguntou Yusuf.
— Significa que você me entrega as chaves — respondeu Evren com calma, mas em tom irrefutável. — Eu levo Bahar. De carro é mais seguro.
— Sério? — Yusuf quase riu. — Desde quando é você quem decide em que eu ando ou quem eu levo?
— Desde que descobri que Bahar está grávida — cortou Evren. — Grávida do meu filho!
— E está querendo dizer que eu não dou conta? — Yusuf o encarou. — Eu trouxe Bahar até aqui, e eu mesmo vou levá-la de volta — bufou.
— E por que seria você a levá-la? — a voz de Evren ficou mais fria.
— Porque, se Bahar carrega meu irmão ou minha irmã — respondeu Yusuf, com um leve sorriso —, então é meu dever cuidar dela.
Bahar nem teve tempo de interferir. As palavras de Yusuf atingiram o alvo. Os olhos de Evren se estreitaram.
— Quer brincar de irmão mais velho? — perguntou ele secamente.
— Não — Yusuf ergueu o queixo —, só estou assumindo minha responsabilidade.
— Vocês dois estão piores que crianças — murmurou Bahar, dirigindo-se ao carro.
— Bahar, diga a ele que vai comigo — pediu Evren. — De carro. Vamos trocar — estendeu as chaves da moto a Yusuf.
— Eu vou de carro — concordou Bahar, e Yusuf abriu a porta imediatamente. — Não discutam — pediu baixo. — Só quero sentar no carro. Assim todos ficamos mais tranquilos.
Yusuf afivelou o cinto dela com cuidado e fechou a porta. Ao se virar, deparou-se com Evren.
— As chaves — exigiu Evren.
— Está tudo sob controle, professor — respondeu Yusuf, teimoso. — Você veio de moto, é o transporte mais prático pra você. Mas pra uma mulher que, talvez, carregue meu irmão ou minha irmã, a moto é um meio perigoso. Ainda mais nesse frio!
— Cuidado com as palavras — irritou-se Evren, ainda com a mão estendida.
A moto ao lado parecia zombar dele com seu brilho metálico.
— E você, cuidado com o tom de comando — retrucou Yusuf. — Aqui não é uma sala de cirurgia, professor. — Aproximou-se. — Quantos anos você anda de moto? E agora resolveu que, de repente, ela é perigosa?
— Agora eu tenho motivos pra pensar diferente — respondeu Evren, seco.
— Ou talvez apenas tenha alguém por quem teme — disse Yusuf, encarando-o.
— Sou médico e sou homem — sustentou Evren o olhar. — Tenho a obrigação de pensar nos riscos.
— Às vezes o risco não está no veículo — respondeu Yusuf, calmo. — Está em querer controlar tudo ao redor.
Discutiam ao lado do carro, tentando manter as vozes baixas para que Bahar não ouvisse.
— Ela já decidiu que vai comigo! — afirmou Yusuf.
— Ela escolheu o carro, não você — rebateu Evren.
— Bahar me escolheu, professor, quando pediu pra eu levá-la ao primeiro ultrassom — o golpe de Yusuf atingiu em cheio; Evren empalideceu. — E fui eu o primeiro a saber da gravidez. Isso você não pode tirar de mim! Te vejo em casa, professor!
Yusuf cerrou os dentes, passou por ele e entrou no carro.
Evren observou enquanto o veículo se afastava da vaga, passando por ele. Seus olhares se cruzaram — nenhum desviou — até que o carro virou a esquina. Os faróis desapareceram na escuridão.
Evren ficou sozinho, diante da moto. Passou a mão pelo metal frio, como se o culpasse por Bahar ter escolhido Yusuf e não ele.
Ele só queria estar perto dela. Sentir que ela estava viva, partilhar aquele instante de consciência de que ela carregava o filho deles, o milagre deles… Mas outra vez, alguém — ou algo — se colocava entre os dois.
Evren passou lentamente a mão pelo guidão, como se tocasse o rosto de um traidor, e suspirou.
Praguejou entre os dentes. O capacete estalou em suas mãos ao colocá-lo. O rugido do motor ecoou nas paredes do hospital, reverberando em um som surdo, mas logo foi engolido pela noite fria. A moto arrancou de forma brusca, como se Evren tentasse fugir dos próprios pensamentos.
Bahar olhava pela janela e viu as duas faixas de luz dos faróis cortarem a escuridão e sumirem na curva.
— Ele vai nos alcançar — disse Yusuf, observando pelo retrovisor.
— Eu sei — respondeu ela, baixo. — Só que antes… — não terminou; pousou a mão sobre o ventre.
— Ele só ama demais — disse Yusuf, sorrindo pela primeira vez, com sinceridade, como se achasse bonito saber que Bahar era tão amada.
— Ama demais — concordou Bahar. — Yusuf, esquecemos a Rengin! — exclamou de repente.
— Está tudo bem — disse ele, estendendo a mão e apertando a dela. — Ela já foi pra casa. Mandou uma mensagem pra mim.
— Pra casa? — Bahar franziu o cenho. — Ela falou com Serhat? — havia inquietação em sua voz. — O que eles decidiram? Como ficou?
— Uff… — suspirou Yusuf. — Lá também pode estar o meu irmão… ou irmã… e eu — lançou-lhe um olhar rápido —, e eu nem cuidei dela — agora foi ele quem franziu o cenho.
— O que exatamente ela te escreveu? E por que pra você? — Bahar não entendia. Pegou o próprio celular, conferiu — nenhuma mensagem nova.
— Quando você estava desacordada… — murmurou Yusuf, sentindo o peso da culpa por ter esquecido Rengin, preocupado apenas com Bahar. — Bahar — olhou para ela —, eu estou preocupado com Rengin — confessou. — Eles vão me deixar louco! — irritou-se, e Bahar mordeu o lábio para não rir.
Ela entendia perfeitamente de quem ele falava. Aqueles dois possíveis pais dele realmente poderiam enlouquecer qualquer um. Bahar discou o número de Rengin.
Os toques se arrastaram longos. Bahar já pensava em desligar quando, de repente, ouviu uma voz fraca, quase sonolenta:
— Alô… — ela atendeu.
— Rengin? — Bahar perguntou, com apreensão. — Está tudo bem?
— Tudo como sempre — respondeu ela com voz baixa, abafada. — Só estou cansada.
— Chegou em casa? — perguntou Bahar, trocando um olhar com Yusuf; ele, sem dizer nada, parecia perguntar para onde vamos?
— Sim… — suspirou Rengin.
Bahar ouviu o som de uma tosse, como se ela tentasse se recompor.
— E Serhat? Vocês conversaram? — Bahar perguntou com cuidado.
— Não — respondeu Rengin depois de uma pausa. — Não deu. Ele… ficou com Esra — a voz dela vacilou, como se engolisse o nó na garganta.
— Rengin, você está sozinha? — Bahar fechou os olhos, tentando imaginar onde poderia acomodá-la se a chamasse para ficar com eles.
— Sozinha — sussurrou Rengin. — Serhat… ficou no hospital.
— Então nós vamos até aí — decidiu Bahar. — Vamos te buscar.
— Não precisa — interrompeu Rengin. — Bahar, você mesma precisa se cuidar.
— Dá pra se cuidar junto — insistiu Bahar. — Não vou te deixar sozinha.
— Não precisa — repetiu Rengin. — Só fica por perto, tá? — pediu ela.
Bahar percebeu que a voz dela ficava mais fraca, como se estivesse sentada… ou deitada.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou, atenta.
— Claro… só estou um pouco tonta — admitiu Rengin.
— Espera — Bahar se alarmou. — Você desmaiou?
Rengin demorou a responder.
— Não… quer dizer, quase. — tentou brincar. — Só… cochilei no chão.
— Rengin! — Bahar apertou a maçaneta da porta.
— Tá tudo bem, juro. Não se preocupa — respondeu ela baixinho. — É que tudo veio de uma vez. O bebê. O Serhat. Eu… fiquei abalada.
— Eu também — suspirou Bahar. — O Serta… — não terminou.
— É — Rengin se agarrou à deixa. — O que tem o Serta Kaya? — perguntou, com cuidado.
— Melhor nem perguntar — exalou Bahar.
— Então está tudo mesmo ruim — murmurou Rengin quase sem voz.
Bahar fechou os olhos, sentindo o cansaço pesar.
— Na segunda tudo se resolve — disse ela com firmeza, tentando convencer a si mesma.
— E se não? — Rengin pareceu franzir a testa, embora Bahar não a visse.
— Então a gente recomeça — respondeu Bahar, dando de ombros.
As duas ficaram em silêncio, ouvindo apenas suas respirações — rápidas, um pouco trêmulas.
— Bahar — sussurrou Rengin. — Obrigada por ter ligado.
— Eu não só liguei — respondeu Bahar em tom decidido. — Vou falar com a Parla, você não vai ficar sozinha, ouviu? Se quiser, mando as meninas aí, as duas juntas não vão te deixar entediada.
— Não manda ninguém… — tentou recusar Rengin.
— Vou mandar sim — cortou Bahar. — Às vezes a gente precisa deixar que cuidem da gente — sussurrou, e logo encontrou o olhar de Yusuf.
Ele a observava, com as sobrancelhas erguidas, e Bahar fez um gesto com a mão, pedindo em silêncio que ele não a olhasse assim.
— Talvez você tenha razão — concordou Rengin.
— Então combinado — disse Bahar e encerrou a ligação.
Ficou ali, com o celular na mão, olhando a escuridão pela janela do carro. Um pressentimento incômodo crescia no peito — algo em Rengin não estava certo.
— Tudo bem? — perguntou Yusuf, lançando-lhe um olhar rápido.
— Não — respondeu Bahar baixinho. — Mas vai ficar. Tem que ficar.
— Posso ir eu no lugar das meninas — ofereceu Yusuf.
Bahar olhou para ele, assentindo levemente. Ainda não sabia quem iria, mas sabia que não deixaria Rengin sozinha.
***
Ele não a deixou sozinha. A porta se fechou atrás deles com um clique surdo. Gülçiçek entrou primeiro, tirou o lenço e o jogou na poltrona.
— Pronto, chegamos em casa — disse ela friamente. — Pode parar de me acompanhar, eu me viro sozinha.
Reha não respondeu. Tirou o paletó, pendurou-o nas costas de uma cadeira e olhou para ela.
— Mesmo assim, chegamos juntos — disse baixinho. — Estamos em nossa casa.
— E daí? — ela se virou para ele. — Isso não quer dizer que fizemos as pazes.
Ele se aproximou, quase tocando o rosto dela.
— Eu queria falar sobre Bahar — começou ele.
— Claro — interrompeu Gülçiçek —, você se casou comigo só pra falar da minha filha.
— Gülçiçek… — ele tentou pôr a mão no ombro dela, mas ela se afastou.
— Não, Reha. Primeiro resolve o seu passado, antes de se meter na vida da minha filha — disse ela cansada, mas a voz tremia de raiva.
— Evren é o chefe da família — respondeu ele calmamente. — Ele precisa saber o que está acontecendo.
— Chefe da família? — ela arqueou a sobrancelha. — Que tal você tentar ser um, pelo menos uma vez?
— Você transforma tudo em briga — suspirou Reha, balançando a cabeça.
— E você, em desculpa — retrucou ela, jogando a bolsa na mesma poltrona onde estava o lenço.
Passou por ele, acendeu o abajur. A luz morna revelou o traço teimoso em seu rosto.
— Somos relativamente jovens — disse com voz seca. — Segunda-feira você volta pro hospital, eu também volto a trabalhar. Está na hora de seguir em frente.
Ele se aproximou devagar, parando ao lado dela.
— Chega de falar de trabalho — pediu de repente. — Somos recém-casados, esqueceu?
— Não — respondeu ela, virando-se. — Quem esqueceu foi você, não eu.
Reha sorriu de leve, apertou o interruptor, e a luz se apagou. O quarto mergulhou em meia-luz suave.
— O que está fazendo? — perguntou Gülçiçek, desconfiada.
— Improvisando uma noite — Reha pegou o controle remoto, apertou um botão, mas a caixa de som não ligou.
— Até a música fugiu de você — ironizou Gülçiçek.
— Então a dança vai ser sem música — disse ele, dando um passo firme em direção a ela.
— Não chegue perto — Gülçiçek ergueu a mão, mas não recuou.
Ele chegou mesmo assim. Segurou as mãos dela, ergueu-as levemente, pôs uma sobre o próprio ombro.
— Vamos, Gülçiçek — sussurrou Reha. — Só uma dança. Mas sem me bater — fingiu se esquivar, como se esperasse um tapa.
— Ainda estou com raiva — avisou ela, olhando-o nos olhos.
— Se estiver com raiva, tudo bem — disse Reha, pousando a mão na cintura dela e apertando a outra. — Significa que ainda sente alguma coisa.
— Não brinque com as palavras, Reha — advertiu ela.
— Não estou brincando — respondeu ele baixinho. — Estou te ouvindo.
Eles começaram a se mover devagar, sem ritmo, mas com uma sintonia surpreendente. A luz da janela caía sobre os rostos deles. Os dedos dela estavam frios no início, depois estremeceram dentro das mãos dele.
— Eu não te perdoei — lembrou ela.
— Eu já expliquei — respondeu Reha, tranquilo.
— Mas não contou toda a verdade — ela o encarou.
— Quase — suspirou ele.
— Ah… — começou ela, mas ele não deixou terminar.
Reha inclinou-se e a beijou — não como desculpa, mas como quem coloca um ponto final na discussão. Gülçiçek recuou no início, depois, com um suspiro pesado, acabou se encostando nele. As mãos dele pousaram em suas costas; os dedos dela deslizaram até os ombros dele.
— Você não tem conserto — sussurrou Gülçiçek.
— Talvez — concordou ele —, mas ainda assim estamos juntos. Sou seu marido.
Ele passou a mão pelos cabelos dela e beijou-lhe a têmpora.
— Vamos — disse em voz baixa. — A dança acabou.
— Isso não quer dizer que te perdoei — lembrou ela, mas sua voz já não tinha raiva, apenas uma teimosia terna.
— Eu sei — sorriu Reha. — Mas você está comigo. Estamos juntos. Por enquanto, isso basta.
Ele a conduziu para o quarto, sem soltar suas mãos. E mesmo quando a última luz se apagou atrás da porta, a tensão entre eles não sumiu — apenas se fez mais calma, mais profunda.
— A música está na sua cabeça — murmurou Gülçiçek. — E, no meu caso, você ainda toca nos nervos — ela pousou as mãos nos ombros dele novamente. — Anda logo, professor.
Reha piscou, surpreso, mas obedeceu, deixando que ela o conduzisse naquela dança sem som. Moviam-se devagar, quase no compasso do silêncio. Ele a olhava atentamente.
— Chega de passado, Gülçiçek — pediu Reha. — Cansei de falar de culpa, de Meryem, de tudo isso.
Gülçiçek tirou um fiapo imaginário do ombro dele. Inclinou levemente a cabeça, como se ponderasse.
— Então vamos falar — sussurrou junto ao ouvido dele. — Mas de outra coisa.
— Do quê? — perguntou Reha, cauteloso.
— De homens de jaleco branco, por exemplo — sugeriu ela.
— O quê? — ele quase pisou no pé dela, perdendo o compasso do silêncio.
— Isso mesmo — disse ela, com leveza, brincando com as palavras. — Lembra daquela clínica veterinária perto da minha casa? Pois é, todos os dias ia lá um médico… alto, com covinhas nas bochechas, cheirava a menta e café. Acho que foi ali que descobri que amo médicos.
— Está falando sério? — franziu o cenho Reha.
— Claro — assentiu ela, sem se afastar, abraçando-o ainda mais forte. — Um dia ele me disse que eu tinha as mãos mais delicadas do bairro. Desde então decidi que as mãos são o mais importante — Reha acabou perdendo o ritmo, e ela o corrigiu, voltando ao compasso. Depois continuou: — No homem, quero dizer.
Reha apertou-a com mais força nos braços.
— Continua — pediu num sussurro rouco.
— Continuar o quê? — ela deu um passo atrás, ainda presa ao olhar dele. — Nós nunca nos beijamos. Só uma vez ele segurou meu pulso… pra medir o batimento. E eu pensei: se alguém um dia for capaz de parar meu coração, só pode ser um médico.
— Está me testando agora? — Reha a fitava sem piscar.
— Talvez — sorriu Gülçiçek. — Você também tem um jaleco branco no armário, não tem?
— Está dizendo isso pra me deixar com ciúmes? — murmurou ele, inclinando-se mais perto.
— E você está com ciúmes? — os olhos de Gülçiçek brilhavam.
— Loucamente — confessou ele, respirando com dificuldade.
— Então o objetivo foi alcançado — sussurrou ela, colocando a mão dele em sua cintura.
Eles voltaram a se mover num ritmo quase imóvel, um lento e silencioso bailado. Reha a puxou ainda mais para perto, o fôlego dele descompassado.
— Gülçiçek — exalou ele. — Era uma brincadeira?
— O que você acha? — ela roçou os lábios na face dele.
— Já não sei quando você joga com as palavras e quando diz a verdade — murmurou Reha.
— Ótimo — sorriu Gülçiçek. — Que fique como mistério. O homem deve ter um pouco de medo da mulher que ama.
Ele riu baixinho, mas o riso se perdeu num beijo.
— Não pense que te perdoei — sussurrou ela, afastando-se só um pouco.
— Eu sei — respondeu ele —, mas se for pra você se irritar assim, eu fico irritado junto.
Reha a girou e a empurrou suavemente em direção à cama.
— O que está fazendo, Reha? — exclamou Gülçiçek, quase sem ar.
— Vou verificar o seu pulso — disse ele, empurrando-a de leve sobre o colchão e segurando-a para que caísse devagar. — Quer que eu vista o jaleco, senhora Gülçiçek? — perguntou, em pé diante dela.
— Pra quê vestir, se vai tirar de novo? — retrucou ela.
Reha riu.
— Você sabe que nunca mais vou deixar você voltar pra sua casa — disse ele, desabotoando a camisa. — Mãos, jalecos… — resmungou.
— Hm — provocou Gülçiçek —, se conseguir me segurar, senhor Reha… ah, e lá na farmácia, o farmacêutico de óculos com armação de osso… — começou ela.
— Chega! — agora Reha se irritou de verdade.
— Eu pensei que você gostasse de conversas íntimas, professor — provocou Gülçiçek, apoiando-se nos cotovelos. — O que quer, Reha? Me receitar “duas doses de ternura e três de silêncio”?
— Eu disse chega — respondeu ele, a voz misturando ciúme e riso. — Nenhuma farmácia. Nenhum médico… além de mim.
Ele se aproximou, ajoelhou-se diante da cama e cobriu as mãos dela com as suas. Gülçiçek o encarou teimosa por um instante, depois passou lentamente os dedos pelo pulso dele.
— Batimentos acelerados — sussurrou. — Excesso de ciúme, senhor Reha.
— Vamos estabilizar agora — disse ele, inclinando-se. — Método clínico.
— Então sem palavras desnecessárias — respondeu ela, com um meio sorriso, puxando-o pela gola da camisa. — Já que você é o único de plantão.
Ele respondeu com um beijo curto e silencioso, que terminou abruptamente por causa da provocação dela. A camisa caiu no chão. O ar ficou denso, como a noite do lado de fora.
— E lembra — murmurou ele, apertando-a contra si —, nada de veterinários nem de hortelã com café.
— Nenhum — concordou ela com um sorriso. — Hoje tenho consulta com o meu médico de família… mas amanhã, quem sabe…
A mão dele deslizou pelas costas dela; os dedos dela ficaram nos ombros dele. A dança sem música continuou. A briga não desapareceu — apenas se dissolveu na escuridão, tornando-se mais suave, mais profunda… e deixando nas mãos o calor que não se confunde com o de nenhum outro jaleco branco.
***
Aquele dia parecia interminável.
Assim que Bahar cruzou a porta, ouviu um murmúrio estranho — como se até as paredes estivessem comentando as notícias. Siren e Uraz discutiam na cozinha, e Bahar foi direto para lá.
— Dois já bastam! — gritou Uraz, batendo a mão na mesa. — A gente já nem dorme mais à noite!
— Eu não estou grávida! — explodiu Siren. — Uraz, você me escuta quando eu falo?!
Bahar, ouvindo as últimas palavras, parou na porta.
— Como assim, não está grávida? — perguntou, segurando-se no batente.
Siren virou-se e levantou as mãos.
— Bahar! Ainda bem que chegou! — exclamou. — Não sou eu, é a Umay que está grávida! — confessou, sem aguentar mais.
— O quê?! — Bahar empalideceu, cambaleou, e Yusuf a segurou a tempo.
— Siren, um pouco mais de tato, por favor — disse ele.
— Umay? — Bahar mal conseguiu falar. — A Umay está grávida?! — ela começou a tremer.
Na escada, ouviram-se passos, e Bahar se virou.
— Quem está grávida?! — Umay descia, com uma toalha enrolada na cabeça e uma xícara na mão. — Eu?
— Você! — gritaram ao mesmo tempo Siren e Çağla.
— O quê?! — a xícara escorregou das mãos de Umay, mas Yusuf conseguiu pegá-la. — Vocês enlouqueceram?! O que está acontecendo aqui?!
— É o seu teste — declarou Siren, arrancando o teste das mãos de Uraz. Segurando o objeto como uma prova, ela avançou. — Achei no banheiro!
— No banheiro?! — Umay ficou sem reação. — Não é meu teste!
— De quem é então? — perguntou Çağla, virando-se em seguida para Yusuf, desconfiada. — Não me diga que é culpa sua!
— O quê?! — Yusuf arfou. — Culpa minha?! Claro que não! — balançou a cabeça veementemente.
— Então de quem é? — insistiu Siren, olhando para todos. — Do Cem?!
— Que Cem?! — ouviu-se uma voz na porta.
Todos se viraram — era Evren, entrando com o capacete na mão. Já estava irritado, e cair no meio daquele caos era o suficiente para fazê-lo explodir.
— Que Cem?! — repetiu ele, olhando em volta, mas o que mais o preocupava era Bahar — o rosto dela estava sem cor.
— Cem é o pai — disparou Siren.
— Que pai?! — Evren empalideceu. — O que está acontecendo aqui?!
— A Umay está grávida — sussurrou Bahar.
Evren congelou. O capacete caiu de suas mãos.
— O quê… — murmurou, apoiando-se na parede. — Grávida? Isso não pode ser.
— Eu não estou grávida! — gritou Umay. — Quantas vezes preciso repetir?!
— Mas o teste… — Siren ainda o segurava como evidência. — Eu vi! Achei no banheiro depois de você. Você estava nervosa, é normal. A gente vai dar um jeito, não é, Bahar?
— O quê que é normal?! — esbravejou Umay, indo pra cima dela. — Eu não estou grávida!
— Dar um jeito em quê? — perguntou Evren, ainda tentando entender.
— Onde você achou isso? — perguntou Bahar, pálida, apoiando-se na parede. Evren estava a um passo de desmaiar. — Yusuf — ela o chamou com um gesto, e ele foi ajudá-lo.
— No banheiro do térreo, perto da sala — respondeu Siren.
— Graças a Alá… — suspirou Bahar, cambaleando até o sofá.
Umay ergueu as mãos, em silêncio. Todos a olhavam, mas o olhar logo voltou para Bahar. Ela fechou os olhos, respirou fundo e se sentou devagar.
— Não é dela… — murmurou Bahar, apoiando os cotovelos na mesa. — É meu! — abaixou a cabeça entre as mãos.
O silêncio caiu como um peso.
— Como é que é?! — Uraz olhou de Bahar para Evren, confuso. — Quer dizer que a mamãe… vai ter um bebê?! — a raiva começou a subir. — Ela está mesmo grávida? Você fez isso?!
— Não é da sua conta! — gritou Evren, dando um passo à frente.
— Uraz! — Siren o segurou pelo braço. — Chega! Quer que eu também fique grávida? Eu posso providenciar isso rapidinho!
Uraz cerrou os dentes, fechou os olhos por um segundo. O pesadelo do dia — quando achou que Siren estava grávida e teriam mais um filho — havia acabado, mas outro começava: Bahar estava grávida… e isso o assustava ainda mais.
— Que maravilha! — exclamou Çağla, batendo palmas e sentando-se ao lado de Bahar. — Parabéns, meu passarinho! — abraçou-a pelos ombros, sorrindo para Evren.
Umay permanecia imóvel, boquiaberta.
— Mãe — conseguiu dizer. — É verdade?
— É — Bahar levantou o olhar para a filha.
Ela suspirou e sorriu de leve.
— Eu não sei se estou feliz ou apavorada — confessou Umay, dando um passo atrás.
— Não precisa ter medo — disse Evren, aproximando-se. — Eu não vou tirar sua mãe de você. — Ele começava a recuperar o fôlego.
Umay o encarou.
— Eu quero que vocês sejam felizes — sussurrou —, mas não sei como vão conseguir — e, sem esperar resposta, virou-se e correu escada acima.
Evren quis segui-la, mas Bahar se adiantou, segurando-o pela mão.
— Eu mesma — disse ela, encostando-se nele por um instante. Ele a abraçou.
Ambos suspiraram ao mesmo tempo, aliviados por saber que a gravidez de Umay era um engano.
— O epicentro acalmou? — perguntou ele baixinho.
Ela balançou a cabeça.
— Ainda não — respondeu, exausta. — Acho que isso é só o começo.
Evren a apertou mais forte nos braços.
— Então se prepara, doutora Bahar Özden — disse ele, sentindo a raiva se dissipar. Ela estava ali, com ele, mesmo no meio do caos. — O mais interessante ainda está por vir. — Seus lábios tocaram a têmpora dela.
— Desde que não apareçam novas listras — murmurou Bahar, olhando por cima do ombro para Uraz.
Siren sorria, enquanto Uraz permanecia tenso, agora com toda a atenção voltada para Bahar. Siren se aproximou dos dois.
— Agora sim, parabéns de verdade — disse ela, abraçando-os.
— Obrigada, Siren — respondeu Bahar, sorrindo cansada. — Mas, por favor, sem novos sustos pelos próximos nove meses.
Siren riu e puxou Uraz pela manga.
— Vamos — sussurrou — antes que você comece um sermão sobre moral e idade.
— E quem vai te ouvir? — resmungou ele, mas a seguiu escada acima.
— Se você disser “já basta” mais uma vez, eu te lembro quem decide quantos filhos a gente vai ter — bufou Siren, ainda segurando a mão dele.
Lá embaixo, o silêncio voltou. Çağla se aproximou de Bahar e Evren e os abraçou.
— Pronto, agora temos oficialmente um departamento completo — riu. — Bebê, pais e todos os possíveis diagnósticos de felicidade.
Bahar e Evren riram junto.
— Obrigado, Çağla — disse Evren. — Só você chamaria isso de “diagnóstico de felicidade”.
— Eu sou médica — piscou ela. — Deformação profissional.
Yusuf os observava em silêncio. Era o único que não os havia felicitado, e mesmo assim, levantou-se devagar e foi para a sala. Sentou-se no sofá, tentando processar tudo o que aquele dia tinha trazido.
Bahar se voltou para Evren. Ele ainda segurava a mão dela — não como médico, nem como homem, mas como alguém que tem medo de soltar o que ama nem por um segundo. Ela sorriu e olhou dentro dos olhos dele.
— Preciso falar com a Umay — disse baixinho.
Evren assentiu em silêncio. O olhar dele estava mais suave, mas ainda havia ali um resquício de choque, misturado com alívio, confusão e aquela alegria quase infantil que sentira ao saber que teriam um filho. A ponta dos dedos dele roçou a bochecha dela, os lábios tocaram sua testa. Ele sabia que ela estava exausta, mas ainda firme.
— Vai lá — disse ele.
— Depois desço e a gente janta — suspirou Bahar. — Estou faminta — sua mão pousou sobre o ventre — e o seu filho também — sorriu.
A mão de Evren tremeu levemente ao tocar a barriga dela.
— Se disser mais uma palavra, não vai a lugar nenhum — sussurrou ele. — Só fica aqui e come.
— Você também está com fome, Evren — respondeu Bahar, sorrindo.
— Só eu que comi — comentou Çağla.
Bahar se calou. Não queria prometer o que talvez não conseguisse cumprir — não sabia quanto tempo precisaria com Umay. Apenas assentiu, apertou a mão dele e subiu as escadas.
Evren a acompanhou com o olhar. E, pela primeira vez naquele dia, não sentiu medo — apenas uma paz silenciosa, estranha e boa.
***
As vozes vinham lá de baixo, portas se fechavam e se abriam, e mesmo assim uma calma inesperada tomou conta dela.
Bahar parou no alto da escada. Parla estava perto da janela, lendo algo no celular.
— Parla, posso? — perguntou Bahar baixinho, aproximando-se.
— Claro — respondeu Parla rápido, escondendo o telefone, como se tivesse sido pega em flagrante. — Eu só… estava aqui parada.
Bahar chegou mais perto e ficou ao lado dela. Por alguns segundos, as duas observaram em silêncio o pátio interno — a mesa ainda posta, a churrasqueira apagada. Um vento fresco da noite entrava pela janela entreaberta.
— Você falou pouco hoje — disse enfim Bahar. — Mal te vimos.
— Todo mundo já falou tudo — deu de ombros Parla. — Quando a casa está cheia de novidades, ninguém precisa das minhas palavras — suspirou.
— Às vezes o silêncio é mais necessário — disse Bahar, apoiando uma mão na parede. — Ele dá aos outros a chance de se ouvirem.
— Você fala assim sempre? — perguntou Parla, semicerrando os olhos. — Ou só quando quer acalmar alguém?
— Só quando sinto que a pessoa está cansada — respondeu Bahar com doçura. — Sua mãe também deve estar cansada — acrescentou com cuidado, sem encará-la.
— Onde ela está, aliás? — perguntou Parla, desviando o olhar. Havia tensão em sua voz.
— Foi pra casa — respondeu Bahar.
— Pra casa? — Parla piscou e se virou para ela. — E só isso? Nem se despediu?
— Estávamos no hospital — Bahar estendeu a mão e afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. — Ela achou melhor não voltar. Ainda mais sabendo que você está morando aqui.
Parla baixou os olhos, girando o celular entre os dedos.
— Ela sempre soube sair em silêncio — murmurou. — Passou a vida indo embora ao entardecer.
Bahar se inclinou um pouco, procurando o olhar dela.
— Às vezes as filhas também podem ir atrás das mães — disse com calma —, não porque precisam, mas porque também sabem cuidar.
— Eu cuidei dela a vida toda — respondeu Parla, mordendo o lábio. — Enquanto ela corria atrás do Timur — parou de repente —, do meu pai.
Bahar não disse nada. Apenas a olhou com ternura, sem julgamento — com um olhar de mãe.
— Talvez por isso mesmo valha a pena ir — sugeriu em voz baixa. — Pra cuidar não por costume, mas por vontade. Você também sente falta dela, Parla.
Parla ficou em silêncio por um longo tempo. Depois assentiu, quase imperceptivelmente.
— Eu… não sei o que dizer, o que fazer — suspirou, enfiando o celular no bolso.
— Só senta ao lado dela — disse Bahar. — Às vezes é tudo o que alguém precisa.
— Aconteceu alguma coisa com minha mãe? — perguntou Parla, apreensiva.
Bahar apertou de leve a mão dela.
— Sua mãe foi afastada do cargo — lembrou —, já não é pouca coisa.
Parla assentiu.
— E como eu vou até lá? De táxi? — perguntou.
— Yusuf te leva — respondeu Bahar. — Ele está te esperando na sala.
Parla deu alguns passos em direção à escada, mas se virou.
— Você sempre faz isso? — perguntou.
— Faço o quê? — Bahar ainda estava perto da janela.
— Falar de um jeito que a pessoa nem perceba que foi convencida — sorriu Parla.
— Isso não é um dom — respondeu Bahar, baixando a mão. — É instinto de mãe.
— Se ela ligar… diga pra minha mãe — começou Parla, descendo os degraus — que eu só quis passar lá pra vê-la.
— Direi, com certeza — sorriu Bahar. — E diga a ela que vai ficar tudo bem.
Parla parou um instante, olhou para trás, depois assentiu e desceu. Bahar permaneceu um pouco junto à janela, observando Yusuf abrir a porta do carro para Parla. Esperou até o carro sair do pátio — só então subiu para o quarto de Umay.
***
— Então… não era a Umay — murmurou Evren. — Já é um alívio.
— Mesmo assim — disse Çağla —, agora você tem uma família completa.
Evren virou-se, suspirando.
— Não chama de completa — respondeu, cansado. — Ainda estou aprendendo a fazer parte dela.
— Bem-vindo à família — disse ela com calor. — Agora vamos ver o que vai fazer com isso, como chefe da casa — brincou, dando-lhe um leve empurrão no ombro.
Evren riu baixinho, assentiu e, de cabeça baixa, foi até a cafeteira. As chaves tilintaram nas mãos de Çağla, e ele se virou.
— Já vai embora? — perguntou.
— Sim — sorriu ela. — Antes que comece mais uma reunião de família.
— A gente faria uma com prazer — ironizou Evren.
— Vocês já têm uma — retrucou ela. — E, pelo visto, sem pauta definida.
Evren apertou o botão; a máquina começou a chiar, aquecendo a água para o café.
— Ganhou o pacote completo, hein? — disse Çağla. — Filhos, netos, nervos, pânico… e milagre.
— Mal virei pai e já quase virei avô — riu Evren. — Sabe… — olhou para ela —, quero primeiro ser pai de verdade — acrescentou, mais baixo. — Depois, quem sabe, avô.
— Então seja — respondeu ela simplesmente, e logo perguntou: — Mas você quer?
— O quê? — ele não entendeu.
— Que te chamem de vovô Evren? — sorriu ela.
— Eu só quero ser pai — disse Evren, calmo. — Pelo menos uma vez… de verdade. Sem jaleco, sem cirurgia, sem pressa. Só… presente.
— Então seja — disse Çağla, quase o abraçando. — Ninguém te impede.
— Todo mundo impede — respondeu rápido demais. — Principalmente eu. Ainda preciso provar que sou pai — suspirou. — Aquele maldito teste de DNA… o resultado só sai na segunda.
— Teste não é resposta, Evren — interrompeu Çağla. — Se tudo se resolvesse com testes, metade das famílias não existiria. Você realmente acha que o resultado vai definir quem você é?
— Não sei — deu de ombros. — Mas talvez me ajude a entender quem eu não fui.
— Você sabe — suspirou ela —, a Bahar é forte, mas agora ela não precisa de um cirurgião. Precisa de um homem.
— Eu estou aqui — respondeu ele.
— Fisicamente, sim. Mas e o coração? — perguntou, olhando fundo nos olhos dele.
— Está começando a falar como ela — sorriu Evren.
— Deve ser a idade — devolveu o sorriso. — Com o tempo, a gente começa a repetir as frases dela.
— Fica pra jantar? — sugeriu ele. — A gente come todos juntos. — Olhou para a porta e acrescentou em tom mais baixo: — Acho que você é a única que ainda não perdeu a cabeça.
Çağla riu.
— Queria que tivesse me visto há uma hora, quando eu e Siren não sabíamos como falar com a Umay, nem como contar tudo pra Bahar — confessou, aproximando-se. Deu um tapinha no ombro dele. — Agora essa casa também é sua, Evren.
— Isso não é uma resposta — disse ele baixinho, pegando a xícara de café.
— É um desafio — sorriu ela. — Bem-vindo à família, professor.
— E o que isso quer dizer? — franziu o cenho Evren. — O que eu devo fazer agora?
— O que faz o chefe de família — respondeu ela, caminhando para a saída. — Não salvar todo mundo, só estar presente.
Evren a seguiu até a porta, com a xícara na mão.
— Evren — ela o chamou, já perto do carro.
— Sim? — ele deu um gole de café.
— Só não foge mais — pediu, acenando antes de entrar no táxi.
Evren ficou parado no limiar da casa, bebendo o café, girando as chaves da moto entre os dedos — sem saber se devia voltar para dentro ou sair pelo portão.
***
Bahar bateu à porta e entrou no quarto da filha.
— Posso? — perguntou, parada no batente, sem avançar.
Umay estava sentada na cama, já sem a toalha na cabeça; os cabelos soltos, desalinhados, pareciam tão confusos quanto seus pensamentos.
— Mãe — começou ela —, eu queria dizer que não estou brava — as palavras saíam com dificuldade, mas eram sinceras.
— Obrigada — sussurrou Bahar, e um brilho úmido apareceu em seus olhos.
— Só que… agora você vai escolhê-lo — disse Umay, abaixando a cabeça.
— O quê? — Bahar se aproximou.
— O Evren. Você vai escolher ele — repetiu Umay. — É sempre assim.
Ela falava sem rancor, apenas constatando algo que a inquietava.
— Umay… eu não estou escolhendo — Bahar se sentou na beira da cama. — Estou escolhendo viver.
— Viver sem a gente? — perguntou Umay. — Sem mim?
— Eu não sei viver sem vocês — Bahar passou o braço pelos ombros da filha. — Tento estar presente, mas nem sempre consigo.
— E se um dia você não conseguir mais? — a voz de Umay vacilou. — Você sempre guarda tudo pra si.
— Umay, por favor, sem gritos — a voz de Bahar soou tensa. — Estamos todos cansados.
— Você sempre diz isso! — explodiu Umay. — “Todos cansados, tudo sob controle”, e depois desmaia!
Bahar empalideceu, sem entender como a filha sabia do desmaio, até perceber que era apenas uma frase impensada.
— Estou bem — murmurou.
— Bem?! — quase gritou Umay. — Você está grávida, mãe! Grávida! Já passou dos quarenta! Teve um transplante de fígado! — levantou-se e começou a andar pelo quarto. — Opera pessoas, mas acha que pode simplesmente recomeçar a vida?! Não entendo como consegue pensar em qualquer coisa além de se cuidar! E agora o Evren! E o bebê!
— Umay… — Bahar também se levantou.
— Não, espera! — ela recuou. — Você mesma nos ensinou! E agora age como uma adolescente apaixonada!
— Eu estou viva — respondeu Bahar com calma. — E tenho direito de amar, mesmo com quarenta.
— E eu? O que eu faço então?! — Umay abriu os braços.
— O que quer dizer com isso? — Bahar deu mais um passo.
— Que você não precisa mais de mim! Agora é só ele! Evren, Evren, Evren! — lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. — Você tem uma nova vida, um novo bebê, tudo novo… e nós? Eu?
Bahar se aproximou, mas Umay recuou.
— Não encosta! — sussurrou. — Você nem pensou se os teus filhos aguentariam essa tua nova vida.
— Chega — cortou Bahar.
— Chega do quê?! — levantou o rosto Umay.
— De pânico. De dúvida. De medo — Bahar falava quase num ritmo de respiração, dando mais um passo. — O Evren me fez um ultrassom hoje. Meu fígado está bem, Umay. Eu não estou morrendo. Não vou sumir.
Umay ficou olhando para ela, tentando entender se era verdade.
— Sério? — perguntou baixinho.
— É verdade, mãe? — a voz de Uraz veio da porta. — O Evren realmente te fez um ultrassom?
— É verdade — respondeu Bahar suavemente.
— Mas o Uraz disse que isso podia ser perigoso pra você — Umay se virou para o irmão. — Fala, Uraz!
— É perigoso se não souber o que faz — suspirou Bahar, respondendo antes dele. — Eu sei. Sou médica. E estou viva.
— Eu só… não entendo esse amor, mãe. Não entendo — disse Umay, abaixando a cabeça.
— Nem eu — admitiu Uraz, aproximando-se.
— E não precisam entender — Bahar os envolveu num abraço. — O amor não é uma matéria pra estudar.
— E se ele te machucar de novo? — perguntou Umay. — Eu vejo o jeito como você olha pra ele. Você perdoa tudo.
— Talvez eu só não queira mais brigar — Bahar inspirou fundo o cheiro dos filhos.
— Mas hoje passamos o dia todo num campo de batalha! — comentou Uraz.
— E o Cem? — perguntou Umay de repente. — Ele também queria ser compreendido! E agora a Parla está trocando mensagens com ele! Ela enlouqueceu?!
— Não confunde as coisas — disse Bahar serenamente. — São situações diferentes.
— Pra mim é tudo igual — respondeu Umay. — Todos iguais. Primeiro prometem, depois vão embora.
— Nem todos, Umay — Bahar tocou de leve a bochecha da filha. — Alguns ficam.
— É mesmo? E por quanto tempo? — perguntou Umay. — Entre ele, o trabalho, a gente… — deu um riso amargo. — Você não é de ferro, mãe.
— E o amor não enferruja — Bahar respondeu, olhando nos olhos dos filhos.
Umay foi a primeira a ceder: abraçou-a, encostando a testa no ombro da mãe. Logo Uraz também a envolveu.
— Só não quero te perder — sussurrou Umay.
— A gente não vai aguentar se algo acontecer com você — disse Uraz.
— Não vão me perder — Bahar beijou um e depois o outro, bagunçando-lhes os cabelos. — Eu estou aqui. Pra sempre.
Ficaram assim por um tempo, abraçados.
— Ainda não entendo — disse Umay. — Como você aguenta tudo isso.
— Às vezes não aguento — confessou Bahar. — Mas eu tenho vocês.
Umay ergueu o olhar e tentou sorrir.
— E o bebê também, né? — perguntou.
— E o bebê — confirmou Bahar.
— Tá bom… então eu vou tentar não te irritar — murmurou Uraz. — Mas não prometo nada.
— Tem que prometer — rebateu Umay. — Pela mamãe e pelo bebê. É nosso irmão ou irmã!
— Isso é bom — sorriu Bahar. — Quando vocês brigam, eu sinto que a casa está viva.
Uraz e Umay trocaram olhares.
— Você é louca, mãe — disse Umay, apertando-a mais forte.
— É hereditário — brincou Uraz.
Riram juntos. Bahar pousou a mão sobre o ventre e, pela primeira vez naquele dia, sentiu o silêncio.
Um silêncio onde havia espaço para a vida.
***
A casa respirava silêncio. Bahar entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. O ar ainda guardava o perfume dele — o toque leve e amargo do seu colônia. Na poltrona, a camisa dele; no criado-mudo, o celular. Mas o próprio Evren… não estava.
— Evren? — chamou ela baixinho. Nenhuma resposta.
Bahar passou a mão pelo lençol — frio. Um aperto atravessou-lhe o peito. Abriu a porta do closet — vazio. No banheiro, o mesmo silêncio. A toalha seca, o espelho embaçado apenas pelo seu próprio sopro. Um arrepio subiu pela espinha. Se não fosse o celular ali na mesa, poderia jurar que ele nem chegara a subir.
Foi até a janela e afastou a cortina. O pátio mergulhado em penumbra. A lâmpada sobre o portão piscava fraca. E ali, sob aquela luz trêmula, ela o viu: a silhueta dele, imóvel, como se hesitasse entre ir e ficar. De repente, Evren virou-se… e saiu. Bahar ficou paralisada, sem acreditar no que via.
— Evren? — escapou-lhe num sussurro, mas ele já tinha desaparecido além do portão.
Ela quis correr atrás, mas as pernas não obedeceram. Ficou ali, olhando para o vazio, tentando compreender que ele simplesmente… se foi. Se foi, deixando-a ali. Deixando o filho deles.
A mão dela pousou no ventre — reflexo, impulso. Deu dois passos até a porta… e parou. Voltou para dentro do quarto. O coração batia alto demais, os ouvidos zumbiam.
— Evren… — murmurou, olhando para o celular.
A primeira onda de pânico ameaçou tomá-la, mas ela respirou fundo. Ele só saiu. Vai voltar.
Evren não podia ter ido embora. Não agora. Pegou o celular dele, segurou por um momento, depois o devolveu à mesa. Se ele tivesse partido de verdade, teria levado o telefone, alguma coisa.
Com esforço, forçou-se a se mover. Entrou no closet, abriu o armário, olhou as roupas dele.
Pegou seu próprio robe, abriu uma gaveta — os gestos automáticos, quase sem consciência.
Tomou banho, tentando respirar entre as batidas do coração. Enrolou-se na toalha, secou o cabelo. A casa estava silenciosa demais depois de um dia tão barulhento, cheio de vozes e revelações. Esperava ouvir o som dos passos dele… mas nada. Evren não voltava.
Vestiu uma camiseta, deixou o robe solto sobre os ombros e voltou ao closet. As mãos trêmulas abriram a gaveta; ficou parada por um instante e, enfim, pegou uma pequena caixa. Precisava sentir a presença dele de algum modo. O metal frio do colar tocou a pele quente do pescoço recém-saído do banho.
O reflexo no espelho devolveu-lhe uma mulher diferente — os cabelos desalinhados, os olhos verdes marejados, a camiseta dele, e o pingente que descia até o colo.
Bahar fechou o robe, apertou bem o nó.
— Evren… — chamou de novo, para o vazio do quarto.
O silêncio ficou insuportável. Parecia que a casa respirava o medo dela. Engoliu em seco e saiu — não suportava mais estar sozinha. Desceu as escadas, foi para o pátio.
O cheiro de gasolina ainda pairava no ar. A moto dele estava ali, o capacete sobre o banco.
Se tivesse ido embora, não teria deixado a moto… Sim, ele estava irritado por ela ter voltado com Yusuf, mas ela não podia subir numa moto — não podia arriscar o bebê. E se passasse mal, se desmaiasse no caminho? Será que ele não entendia isso?
Bahar olhou em volta, perdida. A mesa do jantar seguia posta, intocada. O cesto que Ismail trouxera ainda estava coberto com um guardanapo. Ninguém havia se sentado.
Nevra? — só então percebeu que ela não estava em casa. Nem tinha voltado. Pegou o celular para ligar, mas parou. E se atrapalhasse? E a mãe? Gülçiçek também não ligara.
Decidiu não incomodar ninguém, enfiou o telefone no bolso e saiu pelo portão — de robe e chinelos, como estava.
Respirou fundo, virou-se, olhou ao redor. Nada de Evren. Já pensava em voltar quando viu uma silhueta. Uma mulher, encostada a uma árvore, abraçando o tronco como se buscasse apoio.
Bahar não pensou — apenas correu até ela.
— Está tudo bem? — perguntou.
— O quê? — respondeu a mulher com um leve sotaque, erguendo o rosto.
Os olhos de Bahar se arregalaram; a boca se entreabriu num espanto.
— Meryem? — sussurrou, piscando, sem acreditar.
— Bahar… — Meryem soltou a árvore e se endireitou.
O coração de Bahar batia nas têmporas, abafando todos os outros sons. Não conseguia se mover, nem respirar. Tudo ao redor parou. Só a luz do poste deslizava por seus rostos — duas mulheres, duas vidas… e um mesmo homem entre elas.
CAPÍTULO 10. PARTE 4
O lampião crepitava, como se ele próprio não suportasse a tensão entre as duas. Bahar deu um passo mais perto.
— Você… chegou mais cedo — disse ela, tentando controlar a respiração. — O conselho é só na segunda-feira — informou Bahar. — Ainda não há uma decisão final.
Meryem deixou o olhar deslizar pelo pátio, pela casa, como se procurasse alguém.
— Cheguei há uma semana — contou, surpreendendo Bahar; isso significava que já estava na cidade quando respondia às suas cartas. — Não vim por causa do conselho — completou Meryem, voltando o olhar para ela. — Tenho outro assunto em Istambul — tossiu levemente, cobrindo a boca com um lenço. — E hoje, eu só estava passando por aqui — desviou o olhar.
Bahar apertou o cinto do roupão, encolhendo-se um pouco para se aquecer.
— Sua pesquisa é muito interessante — continuou Meryem — me lembrou minha juventude, por isso aceitei participar.
— Todos os documentos só serão aprovados na segunda-feira — sussurrou Bahar, olhando em volta, inquieta. E se Evren a visse? Ou talvez ele já tivesse visto, e por isso foi embora.
— Você está fazendo tudo certo, doutora Özden — suspirou Meryem, com um leve sorriso.
A frase soou como um teste, e ambas ficaram em silêncio.
— Você… viu o Evren? — perguntou Bahar, em voz baixa.
O rosto de Meryem mudou um pouco, os cantos dos lábios tremeram.
— Ele foi embora — disse ela após uma longa pausa. — De táxi — desviou o olhar. — Eu… não consegui me aproximar — Meryem enfiou as mãos nos bolsos. — Não consegui — acrescentou.
O ar entre elas pareceu ficar mais denso. Bahar abraçou os próprios ombros, sentindo a onda de pânico subir em seu peito. Ele se foi. Sem celular. Sem explicação. E ela não sabia para onde, nem por quê — não podia nem ligar para ele.
— Entendo — murmurou Bahar, olhando em volta novamente. — É que… já está tarde — olhou para Meryem. — Você não devia ter vindo à noite.
— Eu não queria incomodá-la — respondeu Meryem, calma. — Ficarei em Istambul até resolver meus assuntos — disse, depois ficou em silêncio. — E vou ajudá-la com o projeto — acrescentou.
— Isso… é um direito seu, se aprovarem minha proposta — Bahar assentiu, sentindo os dedos tremerem sob o tecido do roupão.
Ela simplesmente não sabia como se portar diante daquela mulher mais velha, a quem queria fazer tantas perguntas — sobre o trabalho, sobre o próprio Evren — mas não podia se permitir isso àquela hora da noite.
Meryem franziu ligeiramente a testa, como se percebesse a tensão em sua voz.
— Você não precisa ter medo de mim, Bahar. Eu não sou sua inimiga — disse com um sorriso suave, mas nos olhos brilhou uma determinação contida. — Às vezes o passado não volta para destruir, mas para se lembrar de nós.
A boca de Bahar secou. Sentiu o corpo inteiro se contrair. Não tinha certeza se Evren estava preparado para reencontrar a tia.
— Por favor, vá para casa — pediu Bahar, quase num sussurro. — Já é tarde. E… amanhã — hesitou — segunda-feira será um dia difícil.
Meryem inclinou um pouco a cabeça, como se concordasse.
— Está bem — concordou. — Nós ainda vamos nos ver, doutora Özden — disse quase com carinho, como se a conhecesse há muito tempo.
Bahar ficou imóvel até a luz dos faróis passar pelo seu rosto, fazendo-a estremecer e se virar. Um carro parou junto ao portão; dele saiu Yusuf, carregando sacolas.
— Comprei kebabs — avisou, aproximando-se. — O Evren pediu. Disse que você não tinha comido nada, que ninguém tinha.
Bahar agarrou o braço dele, por um instante esquecendo que a tia de Evren estava bem ao seu lado.
— O quê? — sua voz falhou. — Onde ele está?
— Ele saiu? Não sei. Pediu antes de eu levar a Parla — Yusuf deu de ombros. — Achei que ele estivesse em casa.
Bahar levou a mão ao peito. As lágrimas ardiam nos olhos, mas ela se obrigou a endireitar-se.
— Obrigada, Yusuf. Entre e coloque tudo na mesa. Eu já… — deu alguns passos em direção ao portão, depois parou.
Ela se virou. Não podia deixar aquela senhora do lado de fora, diante da sua casa.
— Yusuf — chamou, aproximando-se — eu mesma cuido disso, mas você — ela olhou para Meryem — por favor, leve-a para onde ela quiser ir — pediu Bahar.
— Quem é ela? — perguntou Yusuf, em voz baixa.
Bahar suspirou fundo, hesitando por um instante.
— É Meryem Özkan — sussurrou. — Tia do Evren.
Yusuf quase deixou as sacolas caírem, olhando para ela por sobre o ombro de Bahar.
— Então… talvez minha avó? — perguntou.
Bahar vacilou e segurou o braço dele. Estava prestes a confirmar, mas conteve-se. Yusuf também não sabia como reagir àquela mulher.
— Eu a levo — concordou enfim — só deixo as sacolas primeiro, depois — e sua voz soou com aquele tom teimoso que Bahar tão bem conhecia. Ela acabou balançando a cabeça, afastando todos os pensamentos.
Já estava quase preparada para um filho adulto de Evren, se o teste confirmasse suas suspeitas.
Bahar esperou pacientemente ao lado do carro, sem permitir que Meryem chamasse um táxi. O silêncio entre elas era como uma corda esticada. Ao longe, um cão latiu, um gatinho miou do outro lado. O lampião piscou. Bahar quis dizer algo, mas as palavras ficaram presas na garganta. Meryem olhou para a casa e depois novamente para ela.
— Boa noite, Bahar — despediu-se quase com ternura.
Bahar sorriu com alívio para Yusuf quando ele voltou.
— Hoje não está sendo fácil para ninguém — sussurrou, aprovando.
— Esse dia vai acabar algum dia? — perguntou Yusuf, baixo.
Bahar assentiu:
— Espero que sim — confessou, acompanhando-os com o olhar.
A luz dos faróis iluminou o portão, o carro de Yusuf se misturou ao trânsito da estrada. Bahar se virou e estava prestes a entrar quando uma nova luz a atingiu pelas costas. Estremeceu. Voltou-se, confusa — não eram eles que tinham voltado… um grande jipe preto aproximava-se do portão, e seus faróis a cegaram…
***
Os faróis cortaram a fachada da casa. Bahar ficou imóvel na soleira da porta, a mão descendo instintivamente até o ventre. O carro parou diante do portão, o motor silenciou. Ela ouviu um leve clique metálico. A luz dos faróis vacilou, apagou… e Evren saiu de trás do volante.
— Evren, — sussurrou Bahar.
Ele se aproximou rapidamente.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, abraçando-a. Ao senti-la tremer, apertou-a contra si. — Você está com frio — disse, esfregando suas costas com as palmas das mãos.
— Eu pensei… — murmurou ela, calando-se e encostando o rosto em seu ombro. — Por que você sempre me assusta assim? — perguntou sem levantar a cabeça.
— Não vou deixar vocês andarem por aí sem mim — sussurrou ele em seus cabelos.
— Você comprou um carro pra nós? — ela ainda não acreditava no que via.
Bahar tremia levemente, ainda abalada pelo encontro com Meryem — e agora, mais uma surpresa de Evren, logo depois de seu desaparecimento.
— Não só o carro — disse ele, puxando-a em direção ao veículo.
Na voz dele vibrava algo indomável. Evren contornou o carro e abriu a porta do passageiro. Bahar se aproximou. Sob a luz do poste, viu no banco de trás uma cadeirinha infantil, novinha, ainda embalada em plástico.
— Evren… — murmurou, apoiando-se na mão dele sem encará-lo. — Ainda é cedo.
— Não é cedo. Deixa estar — sorriu Evren. — Vai precisar de qualquer jeito!
Ele a olhou de um jeito que fez a palavra cedo ganhar outro peso. Bahar sentiu algo apertar dentro de si. Aproximou-se dele, abraçando-o pela cintura, encostando o corpo ao dele.
— E o que tem no porta-malas? — perguntou, curiosa.
Ela não conseguia acreditar que ele teria parado só no carro e na cadeirinha. Observava-o, lendo as emoções que cruzavam o rosto dele, uma após a outra.
— Nada — desviou o olhar, apertou a mão dela, pegou as sacolas no banco e a puxou em direção à casa. — Vamos, está frio. Não quero que você fique doente.
As sobrancelhas de Bahar se ergueram um pouco — reconheceu aquele tom de voz. Sabia que ele estava tentando impedi-la de abrir o porta-malas. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo, ainda ponderando se insistiria ou se deixaria pra lá.
— Bahar — chamou ele, abrindo a porta.
Ela o fitou e, após um breve instante, assentiu, decidindo confiar. Nos lábios dele surgiu um sorriso satisfeito, como se tivesse conseguido pregar uma pequena peça.
— Você comprou kebabs — disse ela, parada à soleira, tentando afastar da mente o encontro com Meryem.
Agora que tudo parecia finalmente sossegar, ela não queria estragar o momento — aquele momento raro em que estavam sozinhos em meio àquela casa cheia.
— Foi o Yusuf quem comprou — suspirou Evren. — Vamos comer? — sugeriu, pousando a mão sobre o ventre dela. — Está deixando meu filho com fome — arqueou as sobrancelhas, lançando-lhe um olhar expressivo.
— Mas foi você quem pediu pra ele — ela estava tão agradecida por aquele gesto de cuidado que mal conseguia expressar.
Evren virou-se para ela, e em seu olhar passou algo vivo, vulnerável — mas ele percebeu a tempo o movimento discreto com que ela enxugou uma lágrima.
— Pra você comer — respondeu simplesmente. E entraram na cozinha.
Evren a conduziu até o sofá, mas ela se recusou a sentar. Assim que ele colocou as sacolas sobre a mesa, Bahar imediatamente espiou dentro delas: o aroma do pão quente e fresco a envolveu.
— Agora você precisa comer — os lábios de Evren tocaram a têmpora dela.
— E você também — respondeu ela, já tirando do saco de papel um pedaço de pão sírio ainda quente.
Sem se conter, Bahar deu uma mordida. Fechou os olhos, saboreando aquele gosto simples. Aproveitando que ela comia em pé, Evren pegou as sacolas e as organizou sobre a bancada, alinhando tudo, como se disso dependesse o equilíbrio do mundo.
Bahar o observava enquanto ele se movia pela cozinha. Ele agia de modo automático, como se já conhecesse o espaço de cor. Acendeu o fogão, colocou o bule de chá, abriu as embalagens de kebab e arrumou-as num prato. Pegou duas garrafinhas de ayran, desenroscou as tampas e as pôs na mesa, ao lado do prato com os kebabs. Bahar se sentou no sofá, segurando o pão no papel e bebendo o ayran.
O silêncio da casa já não causava medo nem inquietação — parecia apenas o repouso tranquilo depois de um dia cheio…
***
A casa a recebeu com silêncio e escuridão. Apenas a luz suave do lampião da rua, filtrando-se pela janela da cozinha, cortava a penumbra em uma fina faixa. Rengin estava de pé junto à janela, de roupão, descalça. Não acendeu a luz — era como se, mais uma vez, quisesse se convencer de que a escuridão a compreendia melhor do que as pessoas.
— Mãe — chamou Parla baixinho, entrando no cômodo.
— Parla? — Rengin estremeceu, virou-se. — O que está fazendo aqui?
— Vim te ver — respondeu a filha, aproximando-se. — E você, de novo, sozinha, no escuro e no silêncio.
— Déjà vu — Rengin sorriu cansada. — Lembra que, quando era pequena, você entrava no meu escritório e ficava quietinha só pra eu não me sentir sozinha?
— Naquela época funcionava — disse Parla, chegando mais perto. — E agora também vai funcionar.
Rengin beijou a filha na têmpora e as duas foram juntas para a sala, sentando-se no sofá.
— Você não devia ter vindo tão tarde — disse Rengin, abraçando o próprio corpo.
— Eu queria te ver — respondeu Parla, em voz baixa. — E perguntar como você está…
— Não começa — Rengin recostou-se no encosto do sofá e fechou os olhos.
— Eu não estou começando — Parla se aproximou mais. — Só achei que talvez você devesse voltar, não só às cirurgias — disse com cuidado — mas também a dar aulas?
— Não — interrompeu Rengin. — Não quero falar sobre o hospital. Nenhuma palavra, por favor.
— Tudo bem — suspirou Parla, mas continuou. — Então me conta sobre o Serhat.
Rengin ficou imóvel. Suas mãos se apertaram, a respiração ficou rasa.
— Sobre o Serhat? — repetiu.
— Eu vi como ele olha pra você — sorriu Parla. — E como você tenta fingir que não percebe.
— Parla — disse Rengin baixinho, a voz tremendo. — Não agora.
— Desculpa — suspirou a filha. — É que… você não era assim antes.
— Agora fico mais em paz no silêncio — murmurou Rengin, grata por não terem acendido a luz, pois Parla veria seus olhos avermelhados. — Parece que só na escuridão dá pra respirar.
Parla se levantou e foi até a cozinha. Rengin fechou os olhos e ficou ouvindo em silêncio. Parla não estava em casa havia mais de um mês, e agora os sons vindos da cozinha soavam um pouco estranhos, mas ao mesmo tempo familiares, acolhedores. Parla voltou com duas xícaras de chá, colocando uma ao lado da mãe.
— Então vamos só ficar no escuro — disse ela, sentando-se ao lado. — Juntas.
— Você não mudou — sorriu Rengin. — Ainda cura o silêncio com mais silêncio.
— No silêncio a gente pensa melhor — Parla tomou um gole do chá. — E você ainda não aprendeu a pedir. Hoje eu só vou ficar aqui com você.
Os olhos de Rengin se encheram de lágrimas. Elas ficaram no semiescuro. O vapor subia das xícaras, o aroma de hortelã e limão se espalhava pelo cômodo. Rengin estendeu a mão para pegar a xícara, e as mãos das duas se tocaram.
— Você está com frio — disse Parla, levantando-se para pegar uma manta.
Ela envolveu a mãe adulta com o cobertor e sentou-se de novo ao lado.
— Obrigada — a voz de Rengin tremeu.
— Amanhã vamos até a casa da Bahar — sussurrou Parla, puxando as pernas para o sofá e olhando atentamente para a mãe.
— Não, não vamos — respondeu Rengin, segurando a xícara com as duas mãos. — Deixa que eles fiquem sozinhos.
— Eles são nossa família, mãe — retrucou Parla, sem discutir. — Não vamos ficar sozinhas neste fim de semana.
Rengin pousou a xícara na mesinha, inclinou a cabeça sobre as mãos; seus lábios tremiam, e as lágrimas começaram a cair. Parla imediatamente se aproximou e a abraçou.
— Vai ficar tudo bem — sussurrou. — A gente vai conseguir. Você só está cansada.
Rengin encostou a cabeça no ombro da filha, já quase uma mulher. Não podia contar a verdade — que havia uma vida crescendo dentro dela. Tinha medo de admitir que talvez não conseguisse lidar com tudo o que estava acontecendo. Ainda não sabia se teria aquele filho ou não.
Ela ouvia a voz da filha, palavras feitas para confortar, mas que só despertavam novas ondas de dúvida. Deitou-se no sofá, apoiando a cabeça nas pernas de Parla. A filha acariciava-lhe os cabelos. Via as lágrimas ainda rolarem pelas faces da mãe, mas não sabia o que mais poderia fazer. Em silêncio, agradeceu a Bahar por tê-la mandado para casa.
— Tenta dormir, mãe — murmurou Parla, inclinando-se para beijar-lhe a bochecha.
Rengin fechou os olhos, permitindo-se chorar de verdade. Parla continuou acariciando seus cabelos, achando que era apenas o cansaço, sem imaginar o que realmente se passava com a mãe.
Em silêncio, Rengin rogava para que Parla não desconfiasse da gravidez. Pedia apenas que a manhã não trouxesse novas perguntas… e, quando sua respiração enfim se acalmou, ela murmurou baixinho:
— Allah, dá-me forças — tão baixo, que Parla nem chegou a ouvir.
***
Como ela gostava de ouvir a voz dele — macia, com um leve arranhado — onde soavam tão nítidas as notas de felicidade. Bahar sentiu o calor das mãos dele: firmes, conhecidas, seguras. Evren passou os dedos por sua bochecha, pelo pescoço, e deteve-se no nó do cinto do roupão.
— Você está toda tremendo — sussurrou ele.
Bahar não respondeu; suspirou, como se quisesse soltar de uma vez toda a ansiedade e o cansaço, e inspirar apenas a ternura e o silêncio daquele instante. Evren inclinou-se e beijou seus lábios, as faces. Os lábios dele tocaram sua têmpora, como se devolvessem todo o fôlego que às vezes lhe faltava.
Bahar se aninhou no peito dele. E do cheiro do perfume, da pele dele, do calor de suas mãos, ela foi afundando, aos poucos, nos braços do descanso e da serenidade. Evren pousou a palma na barriga dela, num gesto muito cuidadoso, fluido.
— Aqui? — perguntou em sussurro.
— Aqui — ela sorriu.
Ele se ajoelhou diante dela, sem desviar o olhar, desatou o nó do cinto, e ela permitiu — embora ainda estivessem na cozinha e a qualquer momento alguém pudesse entrar e romper a paz deles. Evren abriu as abas do roupão, e o ar lhe faltou quando viu que, por baixo, ela vestia a camiseta preta dele.
— Bahar — ele se inclinou devagar e beijou a barriga dela. — Agora você carrega tudo o que há em mim — murmurou, quase inaudível. — O meu ar. A minha vida.
Ela enredou os dedos nos cabelos dele, apertando de leve, como se não pudesse ser de outro jeito. Evren ergueu o rosto, olhou para ela de baixo e sorriu ao notar o pingente no decote da camiseta.
— Você está com a minha camiseta — sussurrou Evren.
— Estou — ela acariciava os cabelos dele.
— Está com o meu pingente — os olhos dele brilharam de lágrimas.
— Sim — Bahar se inclinou e beijou os cabelos dele.
— E tem o meu filho — as mãos dele apertaram um pouco mais a cintura dela.
— Dentro de mim — sussurrou Bahar, sentindo as lágrimas subirem aos olhos.
— Será que você divide alguma coisa comigo? — perguntou ele, baixinho.
Bahar sorriu, alisou os cabelos dele, passou a pontinha dos dedos por suas sobrancelhas. Evren encostou os lábios na barriga dela e ficou ali, respirando. Bahar tirou a corrente do próprio pescoço e a colocou no pescoço dele. O metal, ainda guardando o calor dela, tocou a pele dele.
— Agora tudo está no lugar — sussurrou, encostando os lábios na têmpora dele.
Evren fitou os olhos dela. A ponta do dedo dele contornou o desenho de sua boca; ele se ergueu e respondeu com um beijo profundo, lento, quase sem movimento — apenas uma respiração. O mundo se estreitou aos corpos deles, ao calor entre os dois. As abas do roupão se abriram ainda mais, e, pela primeira vez, ela não sentiu vontade de se esconder. Na meia-luz da cozinha, ele a abraçou, trouxe-a mais perto. Só a luz suave do aquário iluminava seus rostos. Os peixinhos nadavam devagar, como se também não quisessem perturbar aquela paz.
Bahar recolheu as pernas sob o corpo. Ele se sentou ao lado, puxou o prato para mais perto dela.
— Cuidado, está quente — disse Evren e, sem desviar o olhar, levou um pedacinho aos lábios dela.
Bahar obedeceu, entreabriu a boca e deu uma risadinha.
— Você pretende me alimentar a gravidez inteira? — perguntou, encostando o guardanapo na boca.
— Se você insistir em passar fome, vou ter que fazer isso — respondeu muito sério. — E até depois.
Ela pegou a mão dele, guiou-a até si, e ele passou o dedo por sua bochecha, pelos lábios, pela linha do queixo. Todos os gestos dele eram lentos, tranquilos, conscientes — como se, pela primeira vez, ele se permitisse apenas estar com ela.
— Suas mãos estão cheirando a algo doce — disse ela, aspirando o ar. — Evren? — apoiou as mãos no peito dele, fitando-o nos olhos. — Eu quero o que quer que esteja perfumando suas mãos, agora — não parecia brincadeira — imediatamente!
Evren riu e se levantou. Tirou de uma sacola uma caixinha.
— Kazandibi — anunciou, solene. — Sobremesa para a mamãe de primeira viagem.
— Mas eu já… — Bahar se calou; não sabia como dizer, afinal já era mãe de dois filhos adultos, tinha netos — e Evren estava vivendo tudo pela primeira vez.
— Já — completou ele por ela. — Para a melhor mãe de todas.
O kazandibi ainda estava morno, fresco, com uma crosta caramelizada, levemente pegajosa de açúcar. Quando Evren o cortou com a colher, a película dourada estalou, cedendo ao creme macio, aveludado por dentro. Pela cozinha se espalhou um cheiro doce, cremoso, com um toque de fumaça e baunilha.
— Prova — ele levou a colher à boca dela, e Bahar sorriu.
O kazandibi derretia na boca como neve ao sol, deixando um rastro de caramelo, leite e algo quente, caseiro, um gosto de infância. Ela fechou os olhos e inspirou devagar, saboreando.
Ele encheu a colher de novo e a aproximou com cuidado. A sobremesa branca brilhou na luz suave do aquário. Ela a recebeu com os lábios, e ele se inclinou, capturando sua respiração.
— Gostoso? — perguntou Evren.
— Muito. É como creme e sol ao mesmo tempo — sussurrou Bahar. — Tudo é gostoso quando você está aqui.
Ele roçou os lábios na têmpora dela, abraçou-a pelos ombros, e ficaram ali, respirando em uníssono. A casa agora vivia da respiração deles, de seus movimentos, do calor dos dois.
— Viu só? — sorriu Evren. — Então eu escolhi certo.
Ele acompanhava a forma como os lábios dela tocavam a colher, como uma gota de caramelo escorria pelo queixo. Enxugou-a com o dedo, e ela riu, segurou-lhe o pulso, inclinou-se e envolveu o dedo dele com os lábios, lambendo-o.
— Você come tão bonito — a respiração dele falhou, acelerou.
— Isso é elogio ou diagnóstico? — Bahar sorriu.
— Os dois — ele tocou a face dela com um dedo trêmulo.
Bahar mesma pegou a sobremesa com a colher, reclinou-se no encosto da cadeira.
— Quero limão — disse, lambendo a colher.
— O quê? — Evren se afastou no ato e semicerrrou os olhos.
— Limão — repetiu ela com calma — para acompanhar a sobremesa.
— Depois de um creme de leite? — ele não acreditava no que ouvia. — Você está tirando sarro ou falando sério?
— O meu organismo está pedindo limão — declarou, com uma teimosia macia.
— O seu organismo é masoquista — resmungou Evren, mas mesmo assim se levantou.
Ele voltou com um limão e uma faca, lançando-lhe um olhar de resignado.
— Uma fatia deve bastar — comentou, pondo o prato sobre a mesa e se afastando um pouco.
Bahar cortou o limão com cuidado. O suco espirrou nos dedos; o cheiro fresco e ácido tomou a cozinha na hora. Evren engoliu em seco, deu um passo para o lado. Estava pronto para pegar um guardanapo e encostar no nariz, só para não respirar o aroma. Bahar, como se não percebesse o desgosto dele, pegou uma fatia e provou, mordiscando junto com a sobremesa.
— Mmm… — fechou os olhos de prazer. — Agora ficou perfeito.
Evren recuou ainda mais, involuntário.
— Você faz ideia do que isso significa para uma pessoa normal? — ele fez uma careta, vendo-a comer o pedaço com toda a tranquilidade.
— Está uma delícia — cortou Bahar, lambendo a colher. — Eu sou normal, e estou ótima.
— Eu não entendo como alguém se tortura voluntariamente com limão — Evren massageou a têmpora. — É tortura.
— Então você acha que eu estou torturando você? — Bahar sorriu.
— Só com a cena — admitiu ele, suspirando pesado, e sentou-se ao lado dela, de meio perfil. — Só o cheiro já me derruba.
— Então não olha — disse ela, observando-o; pegou outra fatia e deu uma mordida.
— Não consigo — ele desviou o rosto. — É a minha sentença — Evren se encolheu, os ombros sacudiram.
Bahar riu baixinho e, ainda com o limão na mão, inclinou-se na direção dele.
— Tá bom, professor, eu vou lembrar — sussurrou, tentando alcançá-lo, mas ele fugia teimosamente — quando chegar a minha vez, você vai provar a minha tortura.
— Tortura? — ele ergueu uma sobrancelha.
— Sim — ela sussurrou pertinho do ouvido dele. — Cremosa, doce, pegajosa, com cheiro de baunilha e dos meus dedos.
Evren riu baixinho, virou-se para ela.
— Então eu topo, sobrevivo ao limão — sussurrou — se no fim vier a sua doce sentença — e buscou os lábios dela.
Bahar sorriu, segurando a fatia entre os dedos.
— Suas associações são esquisitas — disse, e encostou de leve o limão nos lábios dele.
Ele recuou, mas ela ainda assim tocou com a fruta a boca dele.
— Aguenta — sussurrou Bahar. — Esta é a minha vingança pelos Estados Unidos, por todos os seus sumiços, por achar que dá pra calcular tudo, por me enlouquecer com o seu silêncio, por… — ela não terminou.
Ele segurou a mão dela, prendeu-a, e, sem desviar os olhos, mordeu a fatia. O suco espirrou; ela arfou, e ele recolheu com os lábios todas as gotinhas dos dedos dela.
— Agora está justo — sussurrou. — Estamos quites.
A respiração dela falhou; ela se aninhou no ombro dele. E, naquele silêncio, entre os cheiros de caramelo e limão, a respiração e a luz do aquário, tudo ficou de verdade — saboroso, vivo. Era simplesmente o momento deles, que entrou para a história que dividiam, virando uma nova página no livro da vida dos dois…
***
Esta casa, podia-se dizer, já guardava uma história. Cada degrau lembrava os acontecimentos de suas vidas. Por aquela escada descia o avô Aziz, por ela subia a mãe; num dos degraus ficara parado o pai. Umay descia devagar, segurando no corrimão, consciente de que cada membro da família tocara aquelas barras mais de uma vez.
A penumbra da sala a envolveu com seu calor, mas ela estava com fome e seguiu para a cozinha.
— Nem pense nisso — Yusuf segurou-a pelo cotovelo.
Umay quase deu um salto, mas ele tapou-lhe a boca a tempo e levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio.
— Você me assustou — sussurrou Umay. — Eu só queria comer.
— A essa hora da noite? — ele a puxou para longe da cozinha. — Depois do que aconteceu hoje, isso parece suspeito.
— Meu apetite é normal — Umay cutucou-o com o cotovelo nas costelas — não sou como a mamãe; não consigo viver só de café.
— Concordo — o estômago de Yusuf roncou, inevitável.
— Viu? — Umay apontou para a barriga dele. — Você também quer comer, vamos — chamou-o.
— Não — Yusuf não a deixou entrar na cozinha.
— O que foi? — Umay ficou alerta; virou-se e olhou para o vão da cozinha; um sussurro quase imperceptível chegou até ela.
Umay cruzou os braços no peito.
— Eles estão comendo lá — constatou.
— Têm esse direito — deu de ombros Yusuf.
— Nós também temos — insistiu Umay.
— Deixa que fiquem a sós — disse Yusuf de repente. — Eles acabaram de saber do bebê, está tudo difícil demais, somos gente demais — ele pegou a mão dela e caminhou em direção à saída.
Umay foi atrás, virando-se sem querer, como se quisesse que a mãe saísse e os chamasse para a mesa.
— E por acaso pra gente é fácil? — indignou-se. — Você é sério demais para a sua idade — concluiu, suspirando.
— Quando se cresce sem pai, a gente cresce rápido — respondeu ele, calmo.
— Foi… difícil pra você? — Umay franziu o cenho, mas já não tentou ir à cozinha.
— Eu não sabia o que era ter pai — Yusuf apoiou o ombro no batente. — Eu só tinha a minha mãe. Agora fiz um teste para descobrir quem é o meu pai.
— E você não tem medo? — perguntou ela baixinho.
— Já não — ele baixou os olhos. — Tenho medo é de não saber a verdade.
— E se souber… — ela evitou o olhar dele — quem você gostaria de encontrar?
— Não sei — respondeu com honestidade. — O principal é que essa pessoa não sinta vergonha de mim, não me considere um erro ou um problema.
Umay encarou a fotografia onde o pai sorria, abraçando Bahar; ao lado, ela e Uraz… fazia tanto tempo, como se fosse outra vida.
— E se uma garota… bom… — Umay hesitou — engravidasse de você?
Yusuf ergueu a cabeça; seus olhares se cruzaram. Não havia constrangimento nem raiva — apenas uma calma absoluta.
— Eu assumiria a responsabilidade — respondeu, como se já tivesse essa fala pronta. — Só que… — deu um meio sorriso — eu entendi muito cedo que contracepção — manteve o olhar firme — não é só um slogan de propaganda.
— Você é meio sábio demais para a idade — murmurou ela, ruborizada.
— Eu não quero que uma criança seja um acaso — continuou Yusuf. — Quero que seja uma decisão consciente.
— E você quer ter filhos? — ela perguntou, desviando o olhar.
— Pareço estranho pra você, né? — Yusuf pegou a jaqueta, lançou-a sobre os ombros dela, e os dois saíram para a rua. — Quero, mas só em uma família completa — prosseguiu já do lado de fora. — Onde haja mãe e pai, e onde ninguém vá embora no meio da noite pra fugir da manhã.
Umay abraçou o próprio corpo. Uma pontada apertou-lhe o peito ao lembrar de Bahar e Evren: a briga, a reconciliação — tudo diante de seus olhos… e agora esperavam um bebê, estavam juntos… mas por quanto tempo? Por que era tão difícil acreditar na felicidade deles, apesar de tudo que sentiam? Ela não entendia o que, exatamente, não aceitava naquela relação.
— E se a vida bagunçar tudo mesmo assim? — perguntou baixinho.
— Aí eu vou resolver — disse Yusuf com franqueza, como quem já tinha tudo decidido por dentro — mas não correndo.
Umay cutucou uma pedrinha com a ponta do tênis e deu um chute.
— Hoje — ela sorriu — lembra quando todo mundo achou que o teste era meu?
— Foi épico — ele fungou, divertido. — Nunca vi adultos perderem a fala tão sincronizados.
— E você me olhou como se eu pudesse mesmo estar grávida — confessou ela.
— Só calculei quanto eu teria que trabalhar se fosse verdade — ele provocou. — Me tomaram por pai também.
— Yusuf! — ela deu-lhe um tapinha no ombro.
— Brincadeira — sorriu ele. — Embora… se acontecesse, eu não fugiria — disse isso com total seriedade.
Umay estacou e encontrou o olhar dele.
— Agora eu sei — sussurrou.
Silenciaram. A calma dele lhe parecia tão adulta, tão confiável. De repente, respirar ficou difícil para Umay — não de medo, mas do quanto se sentia atraída por ele, sem saber o que fazer com isso, ainda mais que, até pouco tempo, algo parecido a puxara para Cem… mas seria mesmo parecido? Ou agora era diferente? Umay suspirou, ainda mais confusa.
— Sua mãe é forte — Yusuf quebrou o silêncio. — Ela vai dar conta. Sim, ela vai ter a própria vida, mas isso não quer dizer que vá abrir mão de você ou do Uraz. Só que vai deixar de ser apenas a mãe de vocês. Vai ser mãe de mais uma criança. Vai ser esposa de um homem. E isso é normal, Umay: pessoas sozinhas formarem famílias. Mas a Bahar nunca vai abandonar vocês. Claro que algo muda, mas se vocês ajudarem, em vez de só exigir atenção egoisticamente — ainda mais agora, que ela está grávida — vai ser melhor. Ela tomou a decisão. É a escolha dela, e vocês não podem exigir que ela abra mão desse bebê. Simplesmente não têm esse direito — Yusuf soltou o ar e se calou.
Umay baixou a cabeça, como se sentisse vergonha; e, ao mesmo tempo, tinha vontade de retrucar, de perguntar onde ela própria entrava nessa história — mas, por algum motivo, não se arriscou.
— O Evren tem razão: vocês não cuidam da Bahar — Yusuf olhou para ela. — Já pensou em quanto tempo mais sua mãe aguenta se dividindo entre todos vocês?
— Eu não quero que ela me perca — Umay estremeceu.
— Ninguém perde os seus se aprende a viver lado a lado — disse ele, chegando mais perto.
— Você fala como se tivesse quarenta — murmurou Umay, deixando que ele a abraçasse pelos ombros.
— Talvez — sorriu Yusuf — é que eu cresci cedo.
Ela encostou o rosto no ombro dele — e de repente percebeu o quanto com ele tudo ficava quieto e tranquilo; e, ao mesmo tempo, algo nascia por dentro, uma coisa que fazia o sangue ferver…
***
O sangue dele fervia nas veias só de ver o limão no prato dela. Pegou outro da geladeira e o lavou. Bahar o cortava em fatias finas, sem hesitar, com movimentos precisos — como uma cirurgiã. O suco brilhava na lâmina, e o ar logo se encheu daquele cheiro forte e frio — ácido, fresco, como a manhã no hospital depois de um plantão. Evren fez uma careta.
— Chega — exalou, afastando-se. — Já sinto tudo se apertando por dentro.
Bahar pegou uma fatia com calma, mordeu, saboreando, como se o limão fosse doce.
— Eu gosto — disse baixinho. — Estava com vontade o dia inteiro.
— Você? — ele não podia acreditar que alguém comesse tanto limão. — Só de olhar já sinto as mandíbulas travarem — esfregou o pescoço, tentando se livrar da sensação de acidez.
— Então mereceu — respondeu ela com ironia, fitando-o nos olhos. — Por ter ido embora sem dizer nada.
Ele ficou imóvel. Já tinham falado sobre isso, mas ela voltava ao assunto. O suco de limão brilhava nos dedos dela — um lembrete silencioso.
— Ainda está brava comigo? — perguntou Evren.
— Não — sorriu Bahar, mas os olhos diziam o contrário. — Só… testando sua resistência.
Evren chegou mais perto e a envolveu pela cintura.
— Então reprovei no teste — sussurrou, rendido, pousando a mão na barriga dela. — Por favor, não tortura mais você e o nosso bebê com esse limão.
— Evren — Bahar riu — eu não estou torturando nem a mim nem ao bebê. Só a você.
— Está agindo como a Umay — comentou ele — teimando do mesmo jeito.
Bahar imediatamente largou o limão e se virou para ele.
— Eles vão se acostumar — disse, com doçura na voz. — Todos vão. — Passou a mão pelos cabelos dele.
— Eu não vou deixar ninguém te fazer mal — insistiu ele.
— Vai ficar tudo bem — respondeu ela, como se o convencesse.
— Ainda não vejo isso — balançou a cabeça.
— Eu vejo — respondeu, mais suave. — Só precisa de tempo.
Ela se levantou, pegou a mão dele, e os dois seguiram juntos pelo corredor, passando pelo aquário, subindo as escadas. Subiam quase às cegas, guiados pela respiração um do outro. No meio da escada, Evren parou, puxou-a contra si. Seus lábios se encontraram — primeiro com cuidado, como se ainda houvesse medo, depois mais fundo, mais quente. O roupão dela se abriu; a mão dele deslizou pelas costas, a outra segurou-lhe a nuca. Ele sentia a respiração dela, o gosto de limão nos lábios, o toque dos cabelos roçando sua face.
— Não come mais nada azedo — murmurou ele, encostando a testa na dela. — Já estou perdendo a cabeça.
Ela riu baixinho, afastando-se um pouco, mas sem soltar a mão dele.
— Então não desaparece sem avisar — respondeu. — Aí ficamos quites.
O olhar dele se demorou no rosto dela. Algo na voz de Bahar o deixou em alerta, mas ele não insistiu. Apenas suspirou, apertou-a mais forte e beijou novamente seus lábios — ainda com gosto de limão. Evren estremeceu, ela sorriu, e subiram.
Já à porta do quarto, Bahar hesitou — lembrou-se de Meryem Özkan, de que ela já estava na cidade, já tinha vindo até a casa… e que ela não contara nada a Evren. O coração batia irregular, não por causa da proximidade dele, mas pelo peso daquela noite em que Meryem ficara à porta. Sentiu o toque da mão de Evren em seu ombro e forçou um sorriso.
— Vamos — disse ela.
Entraram no quarto.
— Espero que amanhã seja um dia tranquilo — disse Evren, espreguiçando-se, num tom quase infantil de esperança. — Sem o nosso superclã todo?
Bahar já estava perto da cama; virou-se para ele.
— Só se forem os da família — respondeu com um sorriso.
— De novo todo mundo? — Evren parou com a camiseta a meio do caminho. — Bahar?! — não sabia se ela falava sério.
Ela riu ao ver o espanto nos olhos dele.
— Eu não convidei ninguém — disse, arrumando a cama. — Vamos descansar. Mas se vierem, o que vamos fazer? Mandar embora?
Ele suspirou, tirou a camiseta e a jogou na poltrona.
— Eu só queria um dia… só nós dois — murmurou.
— Só nós — repetiu ela, com ternura. Aproximou-se e o beijou, dissipando a tensão.
— Você me alimentou tão bem… — sussurrou, olhando para os lábios dele.
— Vocês — corrigiu, pousando a mão na barriga dela.
Ela sorriu, apertou a mão dele contra si, entrelaçou os dedos.
— Precisamos gastar as calorias — sussurrou, olhando para a boca dele.
— Exercício físico? — ele arqueou as sobrancelhas.
— O mais saudável — respondeu, abraçando-o pelos ombros.
— Será que a gente pode? — perguntou ele, cauteloso, segurando-lhe a cintura.
— Deve — sussurrou Bahar, beijando-lhe o pescoço.
— Não é perigoso? — ainda hesitava.
— Evren — Bahar revirou os olhos — não me diga que ativou modo abstinência pra toda a gravidez.
Ele sorriu e afundou o rosto no pescoço dela.
— Mas você desmaiou — lembrou.
— E agora você me alimentou, estou cheia de energia — ela ergueu o olhar, os olhos brilhando. — Vamos gastar? Não consigo dormir.
— Quer dar uma volta? — sugeriu ele.
— Agora? À noite? — ela se afastou só um pouco, fitando-o. — Tudo bem — concordou. — Se o sono não vier, vamos — disse Bahar, deslizando os dedos pelo peito dele. — Mas talvez haja opções melhores.
— Então vamos gastar energia de outro jeito — cedeu Evren, puxando-a para a cama.
Ela riu, e o som da risada se dissolveu no beijo dele…
***
Os sons da cidade à noite chegavam como um murmúrio distante. Eles estavam na varanda, respirando o vento noturno — levemente salgado, um pouco frio. À frente, o Bósforo cintilava com os reflexos das luzes dos navios, como se a cidade não dormisse, apenas respirasse de modo mais calmo.
Nevra estava envolta no roupão dele. Ficava grande em seu corpo, as mangas pendiam. Com uma mão segurava o tecido junto ao peito — como se, assim, pudesse proteger algo frágil, recém-nascido entre os dois — e na outra, uma xícara de chá. Ismail permanecia ao lado, ligeiramente inclinado sobre o parapeito. O perfil dele parecia tranquilo, mas naquele sossego havia distância — como se a mente estivesse longe dali.
— Você está quieto — sussurrou ela.
— Estou pensando — respondeu Ismail.
— No quê? — perguntou, observando o rosto dele de perfil.
— No silêncio — sorriu de leve. — Como é raro quando ele se torna confortável.
Ela não sorriu. O coração batia descompassado. Dentro dela crescia a dúvida — será que não tinha se precipitado? Será que não errara ao deixar-se envolver por ele, assim, tão simples, sem promessas, sem condições?
— Está com frio? — Ismail tocou o cotovelo dela.
— Não — suspirou, um pouco constrangida. — Fico com frio quando você se cala.
— E se eu só estiver ouvindo? — ele sorriu.
— Então o silêncio também pode ser conversa — respondeu ela, dando de ombros.
Ele se virou para ela. Nevra sentiu o calor dele, e o peito se apertou com o medo de que tudo pudesse acabar tão de repente quanto começara.
— Ismail — começou em voz baixa — você sabe que eu não sou do tipo de mulher que gosta de histórias passageiras.
— E eu não sou do tipo de homem que vive delas — replicou com calma.
Ela abaixou o olhar, passou o dedo pela borda da xícara, acompanhando as linhas de vapor que escapavam. Ele tirou o celular do bolso; a tela acendeu — número desconhecido. A mão dele vacilou, mas logo silenciou o toque e guardou o aparelho.
— Por que não atendeu? — perguntou Nevra.
— É noite — respondeu simplesmente. — Quando ligam à noite, é porque não é urgente.
— Ou porque é importante demais — retrucou ela.
Ele sorriu, lançando-lhe um olhar demorado, firme, cheio de calor — tanto que a pergunta se dissolveu nos lábios dela.
— Amanhã tenho que acordar cedo — disse ele, inclinando-se — mas não quero dormir sozinho.
Nevra quis protestar, mas a mão dele deslizou por seu ombro, pelo tecido do roupão — um gesto leve, quase etéreo.
— Não me responde com silêncio, Ismail — sussurrou ela. — Ele se parece demais com um fim.
Ele a puxou para junto de si; o queixo roçou nos cabelos dela.
— O silêncio não é o fim — disse ele. — É só o espaço entre as palavras. Entre nós.
Ela fechou os olhos e respirou o cheiro da pele dele — tudo o que agora começava a reconhecer.
— Vem — disse ele, baixinho. — Vou te mostrar Esmirna.
— Esmirna? — ela se surpreendeu.
— Um vídeo antigo — sorriu Ismail. — Mar, sol, gaivotas. Gosto de voltar pra lá.
Ele a conduziu para dentro do quarto, e a porta da varanda se fechou suavemente, isolando o som das ondas.
Na mesa, a tela do notebook piscou, revelando o brilho da baía, das oliveiras e da luz que cheirava a verão. Nevra sentou-se ao lado dele. Sentia a tensão dele — o corpo ali, o olhar longe, atravessando a tela.
No vídeo, Esmirna brilhava sob o sol. O aroma do chá pairava no ar, misturado à respiração dele junto ao seu ouvido. Nevra tentou não pensar na ligação, em quem poderia estar do outro lado, e apenas recostou a cabeça no ombro dele — como se encontrasse abrigo. Ele pousou a mão sobre a dela, sem olhar.
— Viu? — disse ele. — O silêncio já não assusta.
— Por enquanto — sussurrou ela, com um leve sorriso, sentindo o ardor nos olhos.
Na tela, o sol se punha no horizonte, e entre os dois crescia uma pausa. Nevra abaixou o olhar, ajustou o roupão, apertou o tecido contra a pele e sentiu frio. Ele estava ali, mas parecia distante, como por trás de um vidro.
Quem tinha ligado? Por que ele não atendeu? Nevra não perguntou mais. Ele se esticou, fechou o notebook; a luz se apagou.
— Ismail — murmurou ela — parece que você está longe agora.
— Só cansado — respondeu, sem encará-la.
Ficaram ali, no semiescuro — vivos, silenciosos, quase em paz, cada um com a sua verdade.
Ele se aproximou, tocou o rosto dela e a beijou — com ternura, mais do que desejo. Ela correspondeu, sentindo que ele já estava em outro lugar, além daquele beijo…
***
Evren oscilava entre o sono e a vigília. O sol já filtrava pelas cortinas, e a manhã começou com o cheiro de pão fresco — que Yusuf havia trazido — e o aroma úmido do asfalto depois da chuva. Bahar ainda dormia. Pela primeira vez em muito tempo, dormia em paz, e ele a deixou descansar, certificando-se de que a porta do quarto estava bem fechada.
— Uraz, Yusuf — chamou ele ao entrar na cozinha.
Uraz estava no sofá, o celular na mão. Yusuf colocou as sacolas sobre o balcão e se virou.
— O que foi? — perguntou Uraz, ainda sonolento.
— Foi o dia que começou — respondeu Evren. — E com ele, a responsabilidade.
Yusuf franziu o cenho. Já tinha cumprido a tarefa que Evren lhe pedira na noite anterior.
— A gente fez alguma coisa errada? — quis saber Yusuf.
— Ainda não — Evren apoiou-se na mesa — mas vão, se continuarem sem pensar com a cabeça.
— Brigou com a mamãe? — arriscou Uraz.
— Não — sorriu Evren de leve. — Pelo contrário. Mas agora tudo vai ser diferente.
Caminhou pela cozinha e abriu a geladeira — quase vazia, só metade de um limão que Bahar não terminara, um pote de iogurte, um maço de cheiro-verde e dois pedaços de kebab.
— Olhem — disse ele, apontando para as prateleiras. — Um belo símbolo da auto-organização de vocês. Quem vai preparar o café da manhã — e com o quê?
— A gente pensou que a mamãe… — começou Uraz.
— A Bahar não vai mais ficar girando em volta de vocês — cortou Evren. — Ela tem o trabalho dela, a vida dela. E um bebê. Vocês são adultos. E você, Uraz, garantiu o café da sua família?
Falou com calma, mas cada palavra tinha peso. Uraz e Yusuf trocaram olhares.
— Então agora a gente… — começou Uraz, confuso.
— Agora somos todos uma família — interrompeu Evren. — Não hóspedes. Cada um responde por si e pelo outro. — Apontou para a mesa. — Vamos arrumar. Repor o que falta. Dividir as tarefas.
— E se todo mundo aparecer de repente? — ironizou Uraz, tentando aliviar o clima. — Como sempre.
— Que se virem — respondeu Evren, seco.
Yusuf pegou os pratos e foi até a pia.
— Sabe… — disse ele, sem se virar — eu sempre achei que o Serhat fosse meu pai.
Evren parou. Uraz levantou os olhos do celular, no qual tentava desesperadamente fazer um pedido de supermercado, clicando em tudo sem saber o quê comprar.
— Eu já tinha me conformado — continuou Yusuf. — Que ele tinha a própria família, a própria vida. Que eu existia ali por perto, mas fora dela. Mas se… se for você — ele respirou fundo — então quer dizer que você viveu a vida inteira sozinho. — Voltou-se para ele.
Evren demorou a responder. O silêncio ficou mais denso, misturado ao cheiro de café recém-passado.
— Sim — disse por fim. — Sozinho. Achei que seria mais fácil assim. Sem expectativas. Sem responsabilidades. — Ficou diante de Yusuf, apoiando as mãos na mesa. — Mas você não precisa repetir meus erros.
— Nem quero — respondeu Yusuf, baixo. — Mas às vezes dá medo. Quando percebo que a vida inteira podia ter sido diferente, se meu pai tivesse estado por perto.
— E ela vai ser diferente — afirmou Evren, firme. — Porque agora você não está mais sozinho. — Olhou para os dois. — Responsabilidade não é quando alguém te repreende. É quando você impede que outro caia.
Uraz largou o celular sobre a mesa.
— E se quem cai for a gente? — perguntou.
— A família segura — respondeu Evren — mas não carrega pra sempre. — Olhou nos olhos dele, e Uraz desviou, sem palavras.
Evren ligou a cafeteira. Arregaçou as mangas da camisa — a mesma que Bahar havia separado pra ele na noite anterior. Ela não dormira logo depois; arrumara o quarto, passara as roupas. Ele nem percebeu quando ela se deitou ao lado dele, e agora era ela quem dormia, e ele quem cuidava do silêncio dela.
Ontem mesmo ele ainda se sentia deslocado no ritmo da casa, esperando que Bahar lhe dissesse o que fazer. Mas hoje, ao ver o carro novo no pátio, entendeu que podia simplesmente agir — criar o próprio ritmo, como quando saíra e comprara o carro pra eles.
Olhou para Uraz e Yusuf, e algo em seu olhar mudou — algo sereno, paternal.
— Vamos lá — disse, tomando um gole de café. — A mesa do jardim precisa ser limpa e posta pro café da manhã.
E, pela primeira vez em muito tempo, os três sentiram que aquela manhã era de verdade — nova, não perfeita, mas deles.
***
A manhã deles cheirava a pão, manteiga e tranquilidade. Gülçicek escancarou as janelas, e a brisa leve balançava as cortinas. Reha estava junto ao fogão, de camisa caseira e espátula na mão. Virou o omelete e olhou para a esposa. Gülçicek lavava a salsinha, lançando-lhe olhares de vez em quando.
— Vai deixar passar do ponto — advertiu ela.
— Sou cirurgião, tenho precisão nos movimentos — respondeu ele, sorrindo.
— Cirurgião, não cozinheiro — comentou Gülçicek, e na voz dela havia mais ternura que reprovação.
— Então você é a enfermeira-chefe da casa — riu Reha. — Sem você, eu morreria de fome.
— Isso é verdade — disse ela, aproximando o prato.
Ele colocou o omelete, e os dois pararam por um instante. Cada um segurava um lado do prato; os dedos dela roçaram a mão dele. Reha virou-se.
— Sabe — disse em voz baixa — é estranho. Tenho a sensação de que acabamos de casar.
— É que a gente acabou mesmo — sorriu Gülçicek. — E eu já acho que não acompanho o seu ritmo.
Reha a observou — a linha suave do pescoço, o cabelo preso de qualquer jeito, os olhos onde sempre brilhava o sol.
— E eu é que não acompanho suas emoções — respondeu, abraçando-a por trás e apoiando o queixo em seu ombro.
— Não atrapalha — riu Gülçicek — estou com uma faca na mão.
— Justamente — sussurrou ele ao ouvido dela. — Mulher perigosa.
Ela se virou, encostando o ombro nele.
— E mesmo assim você não me ouve — suspirou.
— Só não quero discutir — disse Reha. — Hoje sem brigas. Só você e o café da manhã.
Sentaram-se à mesa. Havia pão, queijo, omelete, verduras — tudo com um ar acolhedor. Havia tanto calor entre eles que não queriam mudar nada naquele momento… e mesmo assim ela notou como ele olhava o celular de tempos em tempos.
— Você está pensando na Bahar — disse Gülçicek, após uma breve pausa, percebendo o olhar distraído dele.
— Estou — Reha pousou a xícara.
— Eu sabia — a voz dela soou cansada. — Mal saiu do hospital e já quer voltar pra aquele mundo de pacientes, cirurgias e dramas.
— Gülçicek… — ele estendeu a mão. — A Bahar está passando por um momento difícil. Eu tenho que… — não terminou.
— Tem que? — ela semicerrrou os olhos, percebendo o jogo de palavras. — E a esposa, você pensou nela?
— Quero ir — corrigiu-se, com um sorriso meio culpado. — Assim fica melhor?
— Quer — respondeu ela, levantando-se da mesa e indo até a janela. — Então vai. Mas me deixa fora disso. Não vou assistir você se perdendo de novo nessas histórias sem fim.
— E você? — perguntou ele, ainda sentado. — O que vai fazer?
— Vou sair pra caminhar — disse Gülçicek, levando a xícara até a pia.
— E vai olhar os homens de jaleco branco? — provocou Reha.
O celular dele vibrou sobre a mesa. Um número desconhecido apareceu na tela. Reha franziu o cenho e recusou a chamada. Gülçicek notou que os dedos dele tremiam levemente.
— Melhor olhar pros desconhecidos — disse ela, virando-se; os olhos brilhavam. — Do que pra um marido que vive no passado. — Enxugou as mãos. — Por que não atendeu?
— Não importa — respondeu ele, impaciente. — Devem ter ligado errado.
— Errado? — o tom dela subiu. — Ou era alguém que não pode saber que você é casado?
— Gülçicek, para com isso — disse ele, cansado. — Só não quero falar com ninguém agora.
— Claro — assentiu, jogando o pano sobre a mesa. — Não quer falar, mas quer ir. — Fitou-o nos olhos. — Mas será mesmo pra ver a Bahar?
Gülçicek saiu da cozinha apressada, pegou a bolsa, jogou um lenço no pescoço e vestiu o casaco leve.
— Gülçicek! — Reha correu atrás. — Espera!
— Não se preocupe — disse ela, já abrindo a porta. — Não é um encontro, só vou respirar um pouco. Mas, sim, vou prestar atenção nos homens de branco!
Ela bateu a porta. Reha, ainda de chinelos, tropeçou nos sapatos, lutou com a fechadura — e quando finalmente saiu, viu o táxi já partindo.
— Gülçicek! — gritou, mas o motor abafou a voz dele.
O telefone vibrou novamente em sua mão — o mesmo número desconhecido brilhava na tela.
— Alô? — respondeu com brusquidão, os olhos ainda fixos no carro que se afastava.
— Reha — uma voz com leve sotaque soou do outro lado… e ele reconheceu aquele timbre do passado.
— Meryem? — sussurrou, empalidecendo; apoiou-se numa árvore para não cair.
As luzes do táxi piscaram na esquina e o carro sumiu.
— Precisamos nos ver — a voz dele ouviu, quase abafada pelo próprio batimento do coração.
Reha levou a mão ao peito e voltou para casa.
— Você está em Istambul? — perguntou, sem fôlego.
— Cheguei, Reha. Isso tinha que acontecer um dia — respondeu ela com serenidade, como se não tivessem se passado quarenta anos de silêncio.
— Onde? — murmurou ele.
— Vou te mandar o endereço — disse ela e encerrou a ligação.
Reha sentou-se no sofá. O rosto estava sem cor; uma fina camada de suor brilhava na testa.
— A gente acabou de aprender a ser feliz… — sussurrou, apertando o celular nas mãos. Olhou para a foto do casamento com Gülçicek, tirada há apenas alguns meses.
Há instantes, o ar da casa cheirava a omelete e riso. Agora, o silêncio denso começava a corroer o coração dele por dentro…
***
A casa já não conseguia conter a quietude da manhã — enchia-se de sons, de passos, de vozes. Na sala, o aroma de café fresco se misturava ao do pão quente. Sobre a mesa coberta por uma toalha limpa, apareciam pratos, frutas, xícaras; alguém abria um pote de mel.
Evren, Yusuf e Uraz se moviam em um raro estado de harmonia — sem discussões, mas com a obstinação que só os homens têm quando decidem fazer tudo sozinhos. Yusuf secava os copos, Evren cortava o pão e cuidava para que nada fosse derramado, enquanto Uraz saía da cozinha com o bule nas mãos.
— Cuidado, está fervendo! — avisou Evren, sem levantar os olhos.
— Não sou criança — resmungou Uraz, mas mesmo assim deixou cair algumas gotas.
No chão, Leyla e Mert engatinhavam lado a lado, como dois pequenos exploradores em missão. Siren estava sentada perto, de olho para que nenhum brinquedo fosse parar na boca de alguém. De tempos em tempos, ajeitava o ursinho que Mert insistia em puxar para o lado de Leyla. Umay trazia uma travessa grande de panquecas.
— Evren, onde coloco? — perguntou.
— No meio, pra todos alcançarem — respondeu ele, sem virar o rosto.
A movimentação da casa, o tilintar das colheres, o farfalhar dos guardanapos, o murmúrio das crianças — tudo se fundia em uma única manhã viva e acolhedora. A porta se abriu sem ruído, e Nevra apareceu no batente. Pálida, serena, caminhava como quem sonha acordada. Olhou em volta, como se procurasse algo — ou alguém — mas parecia não ver ninguém. Não disse nada.
— Senhora Nevra… — começou Siren, mas a mulher já subia as escadas.
Quase sem tocar o corrimão, Nevra desapareceu no andar de cima. Por um instante, todos pararam. Evren a seguiu com o olhar, a testa franzida. Yusuf ficou imóvel. A sala mergulhou em silêncio. Leyla bateu palminhas — e o som devolveu a vida ao ambiente.
— Ela está tão calada — comentou Umay.
— Só cansada — disse Evren. — Não se preocupe.
As sobrancelhas de Umay se ergueram um pouco. Yusuf lançou-lhe um olhar significativo; ela ergueu as mãos num gesto de rendição, mas um leve sorriso escapou-lhe nos lábios.
— Ontem a vovó parecia tão feliz — comentou Umay, voltando-se para Siren.
— Sim, parecia até dez anos mais jovem — concordou Siren.
— Talvez seja só o humor do dia — murmurou Uraz.
Umay ia responder algo, mas, de repente, um grito cortou o ar.
— AAAAAH! EVREEEEN!!! — o grito de Bahar era tão desesperado que o som gelou o ambiente. — EVREEEENNN!!!
Leyla começou a chorar, Mert se assustou e sentou-se. Evren deixou o pão e a faca caírem, ergueu o olhar para o andar de cima.
— O que aconteceu?! — exclamou, disparando escada acima.
Yusuf e Uraz correram atrás dele, subindo dois degraus de cada vez. A casa ficou suspensa no ar — o silêncio era feito de tensão. Siren se levantou do sofá, apertando Leyla contra o peito. Umay segurou firme o corrimão, protegendo Mert com a outra mão.
E, então, lá em cima, ouviu-se o estrondo de uma porta batendo…