Наталья Лариони

Наталья Лариони 

Автор женских романов и фанфиков

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Bahar, você está pronta para se tornar o sol do universo?

Capítulo 11. Parte 1
O sol já havia se posto, e o ar ficara mais denso, mais frio. Bahar queria se aproximar da cadeira e pegar a manta para colocá-la nos ombros, mas ficou apenas parada, olhando para Evren, entendendo que a conversa era inevitável. Evren atravessava o pátio em passos rápidos e nervosos.
— Você sabia… — começou ele, — sabia que Meryem já estava aqui! Você se encontrou com ela! — Evren parou a dois passos dela, como se não quisesse se aproximar, como se mantivesse distância de propósito. — Sabia, e não me contou!
Bahar abraçou a si mesma e suspirou.
— E você me conta tudo? — um leve reproche brilhou em seu olhar.
— Isso é completamente diferente — Evren piscou, sacudindo a cabeça como se ela o tivesse acertado.
— Para você tudo é diferente, Evren — ela própria deu um passo em direção a ele. — Acontece que também existe um irmão — acrescentou logo em seguida. — Um sobrinho. Uma tia. América. Uma nomeação — enumerou ela, sem se aproximar mais.
Evren ergueu a mão, como se quisesse tocar a palma dela, os dedos tremeram… e Bahar recuou um passo. O rosto dele mudou na mesma hora. Aquilo bastou — ela evitara seu toque. Evren fechou a mão em punho e só então a abaixou.
— Eu não os convidei para virem! — sua voz quase falhou; ele mal se controlava.
— Mas foi você quem começou a pesquisa!
— Sim — Bahar ergueu o rosto, encarando-o — mas você disse na frente de todos que aprovaria meu pedido — lembrou ela.
Evren deu um passo na direção dela e congelou, parando a poucos centímetros.
— Sim — rosnou entre os dentes — mas não assim, não com ela por perto — ele virou a cabeça, olhando na direção da casa onde Meryem estava hospedada. — Você ao menos entende o que ela fez? Ela… — Evren não terminou.
— E aí está ela — interrompeu Bahar. — Sua tia mora ao lado da gente. E agora, Evren? Você não é obrigado a falar com ela. Não quer? Não fala!
— Você não entende — gritou Evren. — Você não me contou!
— E quando, Evren?! — ela se aproximou, mas ele se afastou dela. — Quando estávamos comendo kebab? Ou quando eu te torturei com limões? Ou quando você fez um zoológico de manhã?! Quando?
— Não transforma tudo em brincadeira! — irritou-se Evren.
— Eu não estou brincando! — Bahar pegou a manta da cadeira e a colocou nos ombros. — A sua tia está aqui, seu novo irmão, o sobrinho, todos eles num raio de três casas! E ainda descubro que o pai do seu irmão é o Reha! O pai de Carter Özkan — é o Reha!
— Eu não sabia disso! — gritou Evren. — E eu não os chamei!
— Então vai lá e diz isso para eles! Por que você pergunta pra mim? — Bahar avançava sobre ele. — É a sua família!
— Não! — exclamou Evren. — Eles me traíram. Você entende o que isso significa? Ela me rejeitou, a mim e à minha irmã!
— E você entende que eu também sou uma pessoa?! — ela deu um passo e encostou a mão no peito dele.
— Você não entende — começou Evren.
Ele involuntariamente baixou o olhar para o ventre dela, deu um passo, queria tocar sua mão.
— Não encosta em mim desse jeito — Bahar recuou. — Eu te entendo muito bem. Você não está me vendo agora. De jeito nenhum! Você está olhando para o bebê.
— Eu só… me preocupo. Não quero causar mal — Evren empalideceu, recuando como se ela o tivesse acertado.
— E você entende que eu sou um ser humano! — interrompeu Bahar. — Eu não sou sua paciente, nem um projeto, nem… — ela se perdeu um instante, mas respirou fundo e continuou — eu não sou um recipiente, Evren! Não sou uma zona de risco!
Evren empalideceu ainda mais. Seu olhar desceu novamente ao ventre dela e subiu para os olhos.
— Eu não penso assim — sua voz vacilou.
— Pensa! — afirmou Bahar com dureza. — Você olha para mim e verifica se eu estou respirando direito, se eu não estou nervosa. Você vive tocando minha barriga, como se eu tivesse deixado de existir para você!
Evren imediatamente deu um passo em direção a ela, mas era como se tivesse batido numa parede invisível — parou.
— Eu comprei brinquedos pra você — explodiu ele, sem entender suas queixas.
— Você comprou para o bebê! — ela se controlava com esforço. — Eu não pedi!
— E você tem que me pedir? — Evren perdeu a paciência. — Eu não posso comprar sozinho para a minha mulher, que carrega meu filho? Tenho que pedir sua permissão para tudo, Bahar? — ele a encarou de baixo. — Eu preciso da sua aprovação para tudo?
Bahar se calou por um momento, respirando com dificuldade, olhando nos olhos dele.
— Você sabia sobre a Meryem e ficou calada, Bahar — Evren balançou a cabeça. — Essa é a minha ferida, é a minha infância, é o meu passado!
— E eu — sou quem? — revoltouse Bahar. — Só uma cirurgiã que não pode saber do seu passado? Ou a mulher que você ama? Ou apenas alguém que carrega seu filho?
— Não fala assim — Evren estremeceu. — Eu só tenho muito medo por você!
— E eu não posso ter medo? — Bahar perguntou. — Ou minha função é acalmar seu passado, seus segredos, sua raiva, sua culpa?
Evren estendeu a mão, querendo tocar o ombro dela, mas Bahar segurou seu pulso.
— Não encosta em mim agora! — ela o encarou.
— Então diz… o que você quer? — nos olhos dele, dor e raiva se misturavam, e ele não sabia a qual delas ceder.
Bahar, aproveitando a hesitação dele, afastou-se para o lado.
— Que você me veja, e não só o bebê — sussurrou.
— Você está sendo injusta agora, Bahar — começou Evren.
— O quê? — ela o interrompeu.
— Você… — Evren não terminou; o toque do telefone o fez silenciar.
Os dois estremeceram, como se um raio tivesse caído ali. Evren tirou o celular do bolso, olhou para a tela. Seu rosto mudou no mesmo instante.
— Não atende, não agora — pediu Bahar em voz baixa, apertando a manta ao redor do corpo.
Evren olhou para ela, e nos olhos dele ela já viu a decisão. Bahar fechou os olhos por um instante; ela já sabia o que ele diria… no fundo, ela mesma teria atendido — mas agora queria só uma coisa: que ele ficasse ali com ela, que simplesmente a abraçasse, mesmo que ela estivesse contra isso, que a acalmasse.
— Eu sou médico — ela ouviu as palavras que já esperava.
— E eu — não sou médica? — perguntou ela suavemente, abrindo os olhos.
— Mas não estão ligando para você — Evren ainda segurava o telefone, sem atender.
— Mas agora você é o diretor — ela quase sorriu, entrando na sombra da casa.
— A partir de amanhã — Evren franziu a testa.
— E hoje? — perguntou ela em voz baixa, encostando-se à parede da casa, como se precisasse de um ponto de apoio. — Hoje você ainda pode ficar comigo? — ela não disse conosco.
A chamada caiu. Evren engoliu em seco, olhou para Bahar… por alguns segundos eles só ficaram em silêncio… ele quase deu um passo em direção a ela, mas o telefone tocou de novo. Insistente, alto, como uma sentença. Evren olhou para a tela, depois para Bahar, depois novamente para o celular. Ele tocou no visor, atendeu e virou de costas para ela.
Bahar observou as costas dele, apertando ainda mais as bordas da manta. Ela viu a tensão nos ombros dele, o modo como sua postura ficou ainda mais rígida. Ouviu pedaços de frases — índices, ruim, transplante, preparem a sala… e o estou indo final quase tirou o chão debaixo dos pés dela, mas ela se manteve firme. Evren encerrou a ligação e se virou para ela. Eles se olharam. Ela estava pálida como a parede. Ele mal se controlava, equilibrando-se no limite.
— Eu preciso ir — disse ele com uma voz sem emoção.
— Você sempre vai embora — sussurrou Bahar. — Você foge.
— É uma cirurgia, Bahar, urgente — Evren enfiou o celular no bolso. — Transplante de fígado. Eu não posso…
— Pode — interrompeu ela. — Você é ótimo em fugir, Evren. E em me deixar no lugar onde dói demais para você.
— E o que você quer resolver agora?! — Evren se aproximou dela.
— Como vamos viver ao lado de todas essas pessoas! Da sua família, que de repente está na nossa cidade! — lembrou ela. — Seu irmão é filho do Reha. Não vamos conseguir ignorar isso, Evren! Reha é o marido da minha mãe — ela reforçou, como se ele tivesse esquecido. — E eu nem sei o que está acontecendo lá agora, depois de a sua tia ter beijado o Reha na frente da minha mãe! — Bahar percebeu o que dizia, mas as palavras de Evren a puxaram de volta à discussão deles.
— Não vamos resolver nada. Eu não quero vê-los, ouvi-los, saber deles. Eu não vou falar com eles! — declarou Evren com firmeza. — Isso diz respeito ao professor, não a mim! É a vida dele!
— Mas eles já estão aqui, Evren — insistiu Bahar. — Estão perto da gente, vamos encontrá-los, queira você ou não — disse ela num só fôlego. — Você está fugindo de novo dos problemas, assim como fugiu de mim, foi para a América — murmurou ela quase inaudível.
— E o que você quer que eu diga?! — Evren se virou para ela como se tivesse levado um golpe. — Que estou feliz por Meryem estar aqui? Que eu devo largar uma cirurgia por uma conversa que vai terminar no seu “você não me ouve”?!
— Porque você não ouve! — Bahar mantinha-se firme. — Você bate a porta, vai embora, some, se esconde na sala de cirurgia! Você… — ela não terminou.
— Não — cortou Evren — é você quem nunca me escolhe! — afirmou ele. — Primeiro todos, depois eu!
A respiração dela falhou. Sua mão desceu involuntariamente ao ventre. O rosto de Evren mudou de imediato; ela tirou a mão de lá, não querendo transformar a gravidez em argumento… e ele, por reflexo, já tinha dado um passo, mas parou, receoso de ferir com palavras.
— Você vive tocando a barriga — a voz dela falhou — como se eu não existisse.
— Na minha vida só existe você — Bahar — Evren apontou na direção onde Meryem morava — e ela não é minha tia! Eu não escolhi a minha família! Ela abandonou a gente. A mim, minha irmã, minha mãe. Eu não quero eles na minha vida!
— Acha que eu quero ver a Meryem só para te machucar? — Bahar quase deixou a manta cair, mas conseguiu segurá-la — e recuou quando Evren tentou ajudá-la. — Eu só quis ajudar meus pacientes a se tornarem pais. E agora sim — Bahar ergueu o queixo teimosamente — agora eu quero saber o que aconteceu entre vocês, por que ela fez isso.
— Você é médica? — Evren aproximou-se — ou detetive da minha família?
— Eu sou médica! — Bahar não arredou o pé. — E sou a sua mulher!
— Uma boa mulher me diria onde e quando vai! — Evren não cedia.
— E um bom homem teria me contado sobre o irmão! — ela deu um passo à frente.
— Ele não é meu irmão! — Evren inclinou-se para ela; quase não havia espaço entre os dois.
— E o filho da sua tia? — insistiu Bahar.
— Ela não é minha tia! — Evren explodiu.
— Vai passar a vida inteira calado, Evren? — Bahar lançou as palavras direto nos olhos dele.
— Eu?! — ele riu sem alegria. — Você ficou calada sobre a gravidez! — lembrou ele.
— Eu não sou obrigada a falar na primeira segunda — sussurrou ela, empalidecendo; suas mãos tremiam, quase derrubando a manta. — Não sou obrigada…
— E eu sou? — ele deu um passo. — Sou obrigado a dizer tudo? A adivinhar tudo?
— Você é obrigado a ser honesto! — Bahar quase encostou as mãos no peito dele, mas se conteve e recuou.
— Eu? Honesto? — a voz dele falhou. — Você esteve com a Meryem e não disse nada.
— Você sabia sobre eles e ficou calado — Bahar recuava devagar.
— Você escondeu o encontro, Bahar — ele acompanhava o passo dela.
— Você escondeu a sua família! — ela continuava andando para trás, sem desviar o olhar. — Nós não temos que ser perfeitos! — quase gritou ela.
O rosto dele mudou, mas ele não teve tempo de responder: Siren surgiu correndo da casa, logo atrás veio Uraz, e Yusuf fechava o grupo. Os três pararam ao lado dele, olhando para ele com perguntas nos olhos.
***
Olhando para ele, ela saiu devagar para a rua, descalça; os cabelos estavam um pouco despenteados, nas lágrimas paradas nos olhos brilhava o choro, mas Gülçiçek não chorava… Ela ergueu as mãos, segurando a espingarda, o cano apontado diretamente para Reha, e avançou em direção a ele.
A velha espingarda, quase um símbolo da família deles, agora se tornara arma de vingança. Ela armou o gatilho e parou diante de Reha. Olhou para o rosto dele, para os olhos, para os lábios que se mexiam, mas não conseguiam formar som algum… até que, enfim, ele sussurrou:
— Gülçiçek — Reha balançou a cabeça.
Ela deu um passo à frente, e o cano encostou direto no peito dele, bem no coração. Suas mãos não tremeram.
— Você partiu meu coração, Reha — seu olhar era ao mesmo tempo frio e em brasas. — E não venha dizer que não. Acabou.
Reha deu um passo mais perto, mas o cano se cravou ainda mais contra o peito dele, exatamente onde batia o coração.
— Então leva o meu, Gülçiçek — sussurrou Reha. — Eu não consigo viver sem você.
Ela sentia a respiração dele, mas ele não tentava tomar a espingarda. Apenas ficou parado diante dela, e do bolso da camisa dele despontava a passagem aérea não usada, a mesma que Meryem havia colocado ali.
— Você tem amor, Reha — os lábios dela se curvaram num sorriso cansado, quebrado. — Tem família. Lá está a sua mulher. Seu filho. Seu neto! A sua Meryem está te esperando! Lá está toda a sua vida!
— Não, Gülçiçek, não fala assim — Reha negou com a cabeça. — Ela é o meu passado. Você é o meu presente, você é o meu futuro. Você é a única.
Ela ergueu o queixo; seus olhos cintilaram.
— Eu vi tudo, Reha, para que servem essas palavras bonitas? Quem vai acreditar nelas? Que mulher acredita nas palavras de um homem? Me mostra — falou ela, com a voz firme, mas por dentro tudo tremia, mal contido. — Foi demais, Reha. Vocês se beijaram na frente de todo mundo, bem ao lado da casa da minha filha, Reha!
— Foi ela que me beijou — as palavras saíam com dificuldade.
— E você não se importou — Gülçiçek soltou um riso curto.
— Gülçiçek, por favor — ele fechou os olhos por um instante. — Vamos conversar — pediu.
— A gente não tem mais sobre o que conversar, Reha — retrucou ela, sem abaixar a espingarda.
Reha estendeu a mão, como se quisesse tocar nela, mas ela não deixou, empurrou o cano com ainda mais força.
— Eu não sabia que ela tinha dado à luz, que eu tinha um filho, Gülçiçek — sussurrou Reha. — Muito menos sabia do neto. Eu… eu… — ele estava tão perdido que, por um momento, a espingarda tremeu nas mãos dela — eu não sei o que fazer — admitiu.
Gülçiçek o fitou com atenção; percebeu de imediato que a respiração dele ficara mais pesada, que ele empalidecera, mas não tentou acalmá-lo, nem sentir pena.
— Agora já não é preciso fazer nada, Reha — ela balançou a cabeça. — Não é preciso educar ninguém. Você recebeu o pacote completo.
— Uma família que eu não conhecia e que eu não procurei? — ele sinceramente não entendia.
— Mas agora ela é sua, Reha, seu sangue, sua carne! — as mãos dela voltaram a tremer, e ela baixou a espingarda devagar, destravou o mecanismo. — E eu o que sou agora? — colocou a arma entre os dois, como uma barreira, uma linha que ele não tinha o direito de cruzar. — Você tocou nela, Reha. Eu vi tudo.
Reha baixou o olhar; tinha vergonha de encará-la.
— E onde vocês estavam, o que fizeram — eu não vi e não sei — continuou Gülçiçek — mas eu posso imaginar.
— Não — a voz dele estava rouca. — Não aconteceu nada — ele ergueu o olhar para os olhos dela. — Não aconteceu, Gülçiçek.
— É o que você diz, Reha — sussurrou Gülçiçek, e ele tornou a baixar a cabeça, incapaz de sustentar o olhar.
Gülçiçek estremeceu, como se algo dentro dela tivesse rachado, quebrado. Ela ergueu a espingarda e a ofereceu a ele, apontando o cano para si mesma. Reha piscou, sem entender o que ela queria dele.
— Pega — sussurrou Gülçiçek, a voz trêmula. — Pega! — exigiu. — Pega, Reha! — ela colocou a arma da família nas mãos dele, como um dia havia colocado sua própria mão na mão dele. — Me mata, Reha — encarou-o, com o cano apontado para o próprio peito. — Faz acabar essa dor, essa vergonha, esse medo, essa solidão sem medida!
— Eu não vim por isso, Gülçiçek — murmurou Reha, abaixando a espingarda. — Você é minha esposa. Eu vim implorar perdão. Me ajuda… por favor, Gülçiçek.
— Você tem a Meryem — ela ergueu a mão, como se não quisesse ouvi-lo. — Ela é a sua mulher, o seu amor, a mãe do seu filho!
— Gülçiçek — Reha deu um passo, encontrou a mão dela e apertou seus dedos gelados — me ajuda, eu não sei como continuar vivendo — confessou. — Me ajuda com o meu filho, com o meu neto. Eu não sei como chegar perto deles — mal conseguiu pronunciar. — Eu não vou me esconder, eu não vou te enganar. Eles existem, estão em Istambul, eu soube disso hoje, Gülçiçek. Meu filho já passou dos quarenta, e eu só agora fiquei sabendo — na voz dele havia pânico.
Gülçiçek virou o rosto e tentou soltar a mão, mas ele apertou ainda mais os dedos dela.
— O seu filho tem mãe, o seu neto tem avó, você tem a quem pedir ajuda — disse, sem olhar para ele.
— Gülçiçek, e você é minha esposa — ele ergueu a mão, e a ponta dos dedos tocou a bochecha dela. — Você é minha esposa, na alegria e na tristeza — lembrou.
— E ela é o seu amor! — ela o encarou, e nos olhos dela brilharam lágrimas.
— Antigo — ele balançou a cabeça. — Tudo ficou no passado. A única que eu amo é você.
— Mas você a beijou — lembrou ela.
— Como é que eu posso te provar? — perguntou simplesmente.
Ela mexeu a cabeça devagar, com um olhar que matava sem precisar de palavras.
— Eu não acredito mais em você, Reha — sussurrou. — Não acredito — Gülçiçek se virou e foi embora.
Ela entrou em casa tão silenciosa, como se não quisesse incomodar nem as paredes. Fechou a porta com tanta delicadeza, quase com carinho, para que ninguém ouvisse — além dela mesma. Caminhava meio trôpega, como alguém que se segurou forte demais por muito tempo, escondendo dos outros uma dor que rasgava por dentro.
Quase sem perceber, chegou até a cozinha, foi para onde cheirava a chá e pão, onde sempre dava para se esconder atrás dos afazeres, dos movimentos das mãos… mas agora nada a salvava. Ela apoiou as mãos na mesa, curvou a cabeça e fechou os olhos.
O primeiro soluço saiu baixo, quase sem som, como se até ela mesma tivesse medo de ouvi-lo. O segundo foi mais fundo, veio do peito, e ela mordeu os lábios para não desabar em choro… o terceiro a quebrou de vez… partiu algo por dentro, e ela se sentou na cadeira — as pernas já não a sustentavam. Do lado de fora, pelas janelas, entrava a luz fria do poste, e esse frio atravessava até arrepiar.
— Por que você… — sussurrou ela no silêncio — por que você fez isso comigo…
Ela não terminou a frase, cobriu o rosto com as mãos trêmulas. A vida a tinha ensinado a ser forte, ela não era uma mulher fraca, mas esse golpe acertou em cheio. Bem onde não havia defesa… bem onde ela amava com todo o coração. Pela primeira vez em muitos anos, ela sentiu vergonha de verdade… não pelo que fizera… mas por ter acreditado… chorava sem som, mordendo os lábios até sangrar… para que ninguém, nenhum ser vivo, ouvisse o seu choro, para que ninguém soubesse da sua dor…
Ele estava parado na porta, imóvel, como se ainda segurasse a espingarda apontada direto para o coração dela. A pesada e inútil espingarda na qual agora se apoiava. Reha não sentia os dedos, não sentia o frio, só essa dor apertada no peito, que tornava difícil respirar.
Ele olhava para a porta, para aquela mesma porta que ela havia fechado na cara dele. Estava tão perto e, ao mesmo tempo, inacessível, como uma fortaleza que ele próprio destruíra por dentro.
— Gülçiçek — exalou Reha, quase inaudível, como se fizesse uma oração, mas ela não ouviu, e ele não teve coragem de bater.
Reha sentou-se no degrau, colocou a espingarda ao lado, passou a mão pelo rosto, entendendo que nem desculpas, nem palavras, nem gestos tinham qualquer peso agora.
Um homem que passou por tantos anos de trabalho, por cirurgias, por plantões de sangue, por uma fila de mortes de pacientes… se perdeu por causa de uma mulher… mas não de qualquer mulher… por causa da sua, daquela. Com quem podia ser ele mesmo, com quem podia brincar, e só ela entendia todas as piadas. Ele se inclinou para a frente, abaixou a cabeça, e ao redor dele caiu um silêncio tão espesso que parecia que o mundo inteiro tinha parado, assim como ele.
Em algum lugar lá fora, além do portão, a vida continuava, e ele ficava ali, sentado no degrau, naquele mesmo onde ela havia parado por um instante quando se virou para olhar para ele.
— Por favor — sussurrou Reha — acredita em mim, Gülçiçek.
Ele ergueu a cabeça e fitou as janelas escuras, lá onde estavam a vida dele, o coração dele, a mulher dele, mas onde ele não tinha acesso. De debaixo da porta veio um som quase imperceptível… ou talvez ele só tivesse imaginado… imaginado que uma mulher chorava… tão baixinho que ninguém pudesse ouvir… e algo o atravessou no peito, o coração apertou como se estivesse num torno.
Reha mal conseguiu se conter para não entrar à força na casa, para não se ajoelhar diante dela, para não implorar perdão por um beijo que ele não queria, que não pediu… ele até poderia entrar na casa dela, mas não tinha esse direito… hoje não tinha…
***
Talvez ele até tivesse o direito de recusar. Evren podia pedir a outro médico que fizesse a cirurgia, mas, sem perceber, escolhia o trabalho, como se se escondesse atrás dele, incapaz de resolver o que estava acontecendo em casa. No rosto dele, uma emoção substituía a outra, e Bahar o conhecia bem demais: ela viu o momento exato em que ele se fechou, ficou concentrado, desapareceu toda a suavidade e ternura… diante dela estava o professor Evren Yalçın.
— Professor — Siren vestiu um casaco leve enquanto andava — posso ir com você? Também me chamaram — avisou.
Uraz apressou o passo atrás dela, estremecendo de nervoso.
— Evren — começou ele, e se corrigiu — professor, será que eu também posso ir com vocês? — perguntou, inseguro.
— E eu, professor — apressou-se Yusuf, encarando-o nos olhos. — Vai ser o meu primeiro transplante, o senhor vai me deixar entrar na sala?
Os três olhavam para ele, completamente prontos para ir para o plantão da noite, e, atrás deles, enrolada na manta, estava Bahar.
— E para mim não ligaram — disse ela, pensativa. — Ou você já me afastou de todos os plantões noturnos? — lançou a pergunta, olhando nos olhos dele. — O que vem depois, Evren? Vai me trancar em casa até o parto?
Evren franziu a testa, apertou os dentes, olhou para Siren e assentiu; ela se afastou até o carro, decidindo não se meter na discussão de Bahar e Evren. Uraz e Yusuf trocavam olhares cheios de expectativa, entendendo que só Evren podia decidir se eles participariam da cirurgia. Tudo dependia da palavra dele.
Evren fitava os olhos de Bahar, e a respiração dela já estava diferente. Eles estavam a alguns passos de distância… mas, em pensamento, ele já estava na sala de cirurgia. Bahar apoiou o ombro na parede, como se com as últimas forças sustentasse a paz daquela casa, o cotidiano em que, nos berços, dormiam os netos Mert e Leyla, e em que, atrás das costas dela, surgira Umay.
— Vocês não podem, nenhum dos três — conseguiu dizer Evren. — Isso não é brincadeira.
— Não é brincadeira, professor — emendou logo Uraz; os olhos dele brilharam, ele parecia sentir um certo entusiasmo. — É uma cirurgia, noturna, eu tenho que estar lá. Chamaram a Siren — apontou para a esposa, que estava perto do carro de Evren. — Se o senhor levar o Yusuf, é injusto, o senhor nem sabe se ele é mesmo seu filho ou não, mas já faz concessão para ele!
Evren se virou para ele bruscamente.
— E as crianças? — perguntou, duro. — Chamaram a Siren! — confirmou. — E quem vai ficar com seus filhos?!
— Mas a mãe está em casa — Uraz se confundiu. — Ela… — começou ele.
— A mãe?! — a voz de Evren falhou. — Você está falando da Bahar agora? — perguntou, irritado, dando um passo em direção a ele. — Ela não é babá por padrão.
— Evren — Bahar tentou intervir, mas ele nem a ouviu.
— A Bahar não é o seu seguro, Aziz Uraz! — decretou Evren num tom categórico. — Se você quer que ela ajude, vai até ela e pede! Resolve como um homem, não como um filho que espera que a mãe resolva todos os seus problemas. Se vocês morassem separados, Uraz, como é que você faria?
Bahar apertou a mão contra o peito, de tanto que o coração lhe apertou. Ela entendia que ele estava certo em tudo o que dizia, mas o peso da ideia de que ele estava indo embora e ainda por cima levando todos com ele só aumentava, assim como o fato de que eles não haviam resolvido nada entre si.
Siren prendeu a respiração. Olhava para Evren com os olhos marejados. Tudo aquilo que ela mesma tentara explicar ao marido, Evren agora dizia em voz alta. Ela se aproximou dele, pousou a mão em seu ombro e encostou os lábios na bochecha dele.
— Obrigada, Evren — sussurrou, recuando.
— Se você precisa da ajuda dela, vai até a Bahar e pede — continuou Evren, tão duro quanto antes, sem suavizar nada. — Com respeito, sem esse “ela está em casa mesmo”!
Uraz abaixou a cabeça; uma sombra de culpa passou por seu rosto.
— Mãe — disse ele tão baixo, como se as palavras custassem a sair. — Você poderia… — ele pigarreou — ficar com a Leyla e o Mert? — a voz tremeu, e ele ergueu os olhos. — Eu queria muito estar na cirurgia, se o professor deixar. Por favor.
Os olhos de Bahar se encheram de lágrimas, os lábios tremeram, e ela assentiu.
— Sim, meu filho — sussurrou, apertando ainda mais as bordas da manta.
Uraz sorriu, vitorioso, e olhou para Evren. Rangeu os dentes, Evren fez um leve movimento com a cabeça e assentiu, a contragosto. Yusuf ainda buscava o olhar dele e, assim que recebeu o sinal, quase pulou no lugar.
O coração de Bahar apertou… todos eles estavam indo embora. Siren, Uraz, Yusuf… Evren, e ela ficava. Como médica, ela entendia tudo, mas como mulher, a mágoa e a amargura a rasgavam, e Evren, ele estava exatamente entre esses dois mundos — entre o seu lugar de médico e de mulher na vida dele. Ele estendeu a mão, quase tocou a bochecha dela, mas parou no último instante.
— Eu volto — sussurrou, como se fizesse um juramento, mas soava como um pedido de desculpas, parecia mais uma tentativa de escapar da necessidade de resolver seus problemas.
Bahar assentiu, sorriu de leve; o coração dela se despedaçava de desespero, mas ela não se permitia cair.
— Ééé… — ouviu-se atrás de Evren, e ele se virou.
Siren já estava no banco da frente, Uraz ao lado, e Yusuf, ao abrir a porta e ver a cadeirinha infantil, ficou imóvel.
— Meus parabéns, Yusuf — comentou Uraz com um risinho — você já é quase filho do Evren, até cadeirinha prepararam para você.
Yusuf corou, pegou a cadeirinha e correu de volta para dentro de casa. Siren fechou os olhos e balançou a cabeça.
— Bahar… — Evren se aproximou. — Amanhã você vai para o trabalho de… — ele olhou para o carro de Yusuf.
— Eu decido sozinha como vou chegar, professor — respondeu ela num tom nivelado, mas muito mais frio que o habitual. — Táxi ainda existe!
As palavras soaram como um grito silencioso: não se preocupa comigo, eu dou conta sozinha! Evren apertou os dedos até os nós ficarem brancos.
— Bahar… — ele tentou, ao menos um pouco, amolecer a barreira dela.
— Vai — cortou ela, interrompendo qualquer explicação. — As pessoas estão esperando. Vocês têm uma cirurgia!
— Depois a gente com certeza conversa — murmurou Evren, tentando encontrar os olhos dela, mas Bahar desviava o olhar com teimosia.
— Evren — Bahar suspirou e enfim o encarou — esse “depois” pode nem chegar.
Ele estremeceu como se tivesse levado um tapa. Evren prendeu o olhar no rosto dela por um segundo a mais, como se quisesse guardar na memória a imagem de como ela estava ali, no batente da porta, com a manta nos ombros, um pouco perdida e, ao mesmo tempo, firme. Ela não chorava, mas os olhos estavam vermelhos. Ele queria abraçá-la, mas o telefone voltou a vibrar, traidor, lembrando de que o paciente precisava dele. Evren se virou, entrou no carro e bateu a porta. O motor ronronou, o carro arrancou e saiu do pátio.
Ele foi embora, desapareceu na curva do caminho, indo ao encontro de algo correto e necessário, importante para os outros… e Bahar, enrolada na manta, ficou em casa com Umay e dois bebês adormecidos.
— Mãe — chamou Umay — está tudo bem? — perguntou com cuidado.
— Claro, meu bem — suspirou Bahar e virou-se para a casa. — Vamos.
As duas entraram, fechando a porta com cuidado atrás de si… e a casa as acolheu em seus braços…
***
Ela tinha lhe dado seus abraços, sua ternura, e ele simplesmente ficou calado, enquanto a humilhavam. O carro deslizava muito devagar, silencioso demais por dentro também, como se Ismail tivesse medo de espantar com qualquer ruído aquele sentimento frágil, recém-nascido, que mal tinha brotado… mas esses brotos podiam ser pisoteados, esmagados a qualquer momento.
Nevra estava sentada ao lado, quase sem encostar as costas no banco. Olhava para a frente, o rosto pálido, os lábios comprimidos, os ombros tensos. Ela permaneceu em silêncio até que ele virou a esquina, e então ela viu o velho jardim de chá, onde os postes de luz já eram mais raros, e a rua — ainda mais escura.
— Para o carro — exigiu Nevra.
Não era um pedido, nem um grito. Era um desespero calmo, feito de aceitação e rendição.
— Nevra… — Ismail olhou para ela, sem entender.
— Para o carro — repetiu ela.
Ismail obedeceu, pisou forte no freio, rápido demais, e ela se projetou para frente; o cinto apertou dolorosamente o peito dela para retê-la. Nevra tirou o cinto depressa, abriu a porta e saiu do carro. Deu um passo, outro, e cambaleou. Ismail correu até ela e a segurou pelo cotovelo.
— Nevra, cuidado — exclamou.
— Não encosta em mim — ela apoiou a mão no peito dele. — Você não tinha o direito de me agarrar, me enfiar no carro e me levar embora! Não tinha o direito, Ismail! — a voz dela vacilou. — Eu não sou uma coisa! Não sou um erro, uma que alguém de repente lembrou que existe! Eu não sou ninguém para você, Ismail!
Ele estendeu a mão, mas ela recuou, afastando-se quase com repulsa… não dele… e sim de si mesma.
— Vamos sentar um pouco — pediu ele em voz baixa, vendo que ela mal se aguentava em pé.
— Você é tão atencioso, Ismail — Nevra soltou um riso curto. — Você acha mesmo que sabe salvar alguém? — jogou, sem olhar para ele, mas ainda assim se virou.
Eles foram até uma mesinha de chá sob o toldo e se sentaram. Nevra pegou um guardanapo e o amarrotou entre os dedos.
— Então vamos, Ismail, me salva — disse, encarando-o nos olhos.
Ismail ficou em silêncio à frente dela; pela primeira vez estava tão perdido, pela primeira vez a via assim — sem sombra de coquetismo, sem brilho brincalhão no olhar.
— Dois chás — Nevra ergueu a mão para o garoto da casa de chá, num gesto quase seguro e coqueto, mas nem esse resquício de charme conseguiu esconder o tremor dos dedos dela.
O menino se afastou, e Nevra amassou o guardanapo e o jogou sobre a mesa, como se, num só instante, caíssem todas as máscaras atrás das quais ela se escondera por anos, tão acostumadas que pareciam já ser seu segundo “eu”.
— Você quer conversar? — perguntou, apoiando os cotovelos na mesa. — Sobre o quê? — inclinou levemente a cabeça. — Ismail, você não me defendeu.
— Nevra, eu… — ele não terminou.
— A Meryem entrou na sua casa e me esmagou com um único olhar! Com um único — a voz dela se fez mais baixa. — E você só ficou ali calado. Deixou que ela me humilhasse na sua frente! — Nevra fechou os olhos. — Será que você não viu que eu não aguentava mais? Que tudo o que eu precisava era de uma frase sua — “chega”?
A respiração dele ficou mais pesada, uma sombra caiu sobre o rosto, mas ele se calou, sem saber o que responder.
— Eu fui casada com o Aziz — sussurrou Nevra. — Você sabe disso. O Aziz era seu amigo. Vocês todos iam lá em casa. Vocês trabalhavam à noite, planejavam suas pesquisas. Lembra?
Ismail estremeceu, empalideceu.
— Vocês levaram os Keskin para a minha casa. Vocês os hospedaram ali — a voz dela ficou rouca. — E eu estava ali o tempo todo, bem ao lado, mas ninguém me via, porque vocês estavam fazendo grandes coisas — ela ergueu as mãos num gesto largo. — E você ia à minha casa e não me enxergava. Nenhum de vocês me via, eu só levava e trazia bebida, sanduíches. Vocês me transformaram numa criada, numa sombra!
Ismail apertou os dedos com mais força. Nevra esboçou um sorriso amargo, pegou outro guardanapo e o levou à boca, como se estivesse segurando um grito antigo, que vinha de dentro.
— Bonito, não é? Uma mulher que não existe — deu de ombros. — Existiam só vocês e elas. Leyla e Meryem.
— Nevra, por favor… — Ismail engoliu em seco.
— Não, eu vou falar, você que quis conversar, então vamos conversar — ela o encarava sem piscar. — Vocês decidiram fazer um experimento? — inclinou-se um pouco na direção dele, fitando seus olhos. — Só que aquele não foi o único experimento dele — sussurrou, e uma lágrima desceu pela face.
— O quê? — Ismail não entendeu, o cenho ligeiramente franzido.
— O Aziz acreditou tanto em si mesmo que não me levou ao hospital quando eu comecei a sangrar — continuou Nevra, sem desviar os olhos, embora não o visse mais; via, sim, a sala de estar deles, a mesa no meio, o marido de jaleco branco. — Ele não deu conta, Ismail, e tirou meu útero.
— O quê? — Ismail quase perdeu o equilíbrio na cadeira.
— Ali, na sala — no mesmo tampo onde depois vocês operaram a mãe do Evren, no mesmo em que ele operou a irmã do Evren… aquela mesa maldita levou a vida de três mulheres, Ismail. Três! Só que elas estão mortas, e eu continuo viva, como um deboche, como castigo! Vivo, mas a mulher dentro de mim está morta. Ele matou essa parte. Ele queria testar um método… — ela riu com amargura. — Entende? Testar o método. Eu, para ele, era só um método, um experimento! Ele dizia que tinha salvado a minha vida, que só tinha tirado tudo o que podia me ameaçar. Entende? — o útero podia me ameaçar! — ela baixou os olhos, fitando os dedos que amassavam o guardanapo. — E depois ainda me colocou como culpada, diante dele e de mim mesma, porque eu não conseguia ter um filho, porque eu tinha falhado com ele.
Ismail fechou os olhos, como se o golpe o tivesse atingido em cheio.
— Algo quebrou dentro de mim — continuou Nevra, mergulhando mais fundo naquele passado de que fugira a vida inteira, escondendo-se por trás de uma máscara de hipocrisia e arrogância. — Por isso eu não conseguia soltá-lo, nós estávamos amarrados. Por isso eu não quis virar a cuidadora dele, porque eu já tinha passado a vida inteira à sombra dele. Por isso eu quis entregá-lo, e a Bahar… — ela fechou os olhos, pegou um guardanapo novo e o apertou contra as pálpebras — e ela disse que ia cuidar dele. Ela fez o que eu não consegui.
Nevra se calou. Eles observaram o garoto que trouxe o bule e as xícaras, colocou-os sobre a mesa, encheu as xícaras de chá e se afastou.
— Você fala de nós — Nevra segurou a xícara com as duas mãos e ficou olhando o vapor subir. — Ismail, eu vivi na sombra, também na sua… e foi para essa mesma sombra que você me mandou hoje de manhã, na sua casa, depois da nossa noite — ela ergueu o olhar — depois da nossa primeira vez. De que confiança você está falando? Como é que eu posso acreditar em você?
Os lábios dela tremeram, os olhos brilhavam de lágrimas que ainda não tinham caído, mas ela se mantinha ereta, olhando direto para ele.
— Sim, eu deixei o Evren num orfanato porque fiquei com medo. Sim, eu brinquei com o sarcasmo, me escondi atrás da arrogância — as lágrimas correram pelas faces. — Eu manipulava, eu fazia de tudo para que ninguém visse e soubesse que por dentro eu estava vazia — ela se golpeou no peito — que eu não era alguém que se pode amar!
— Você não é vazia, Nevra — disse Ismail em voz baixa, ainda tentando processar tudo o que ela tinha contado.
— Eu não sou ninguém, Ismail — cortou ela. — Não sou esposa, não sou mãe, não sou amante — respirou fundo, já acostumada com aquela sentença. — Eu nem sequer faço parte daquela família, Ismail, mas ainda moro na casa deles, olho o Evren nos olhos. Eu passei a vida inteira sozinha — um sorriso amargo tocou de leve os lábios dela — e quando eu acreditei um pouco, você não conseguiu me proteger, Ismail. Você não foi capaz — deu de ombros.
Ele quis dizer alguma coisa, mas ela ergueu a mão, calando-o sem uma palavra.
— Me leva de volta para onde me pegou — Nevra se levantou devagar, sem tocar no chá. — Para a casa da Gülçiçek.
— Nevra, a gente não terminou — tentou detê-la Ismail.
— A gente nem começou, Ismail — ela o olhou de esguelha, de lado para ele. — Essa é a verdade: já é tarde demais para nós, Ismail. Vamos.
Ismail de repente entendeu… ela não estava pedindo… estava se despedindo dele. De repente, ele se sentiu tão pequeno diante daquela mulher que sempre tinha considerado tão conveniente e, ao mesmo tempo, tão frágil; de repente, enxergou a força dela e tudo o que ela suportara, de pé, no acostamento da própria dor, completamente sozinha, com a cabeça erguida. Sim, ela tinha cometido erros, mas todos tinham.
Ismail se aproximou, quis tocar o ombro dela, mas ela deu um passo atrás, não deixando.
— Não — escapou dos lábios dela, uma só palavra curta, mais honesta do que qualquer grito, que deixou Ismail sem ar.
Ela foi primeiro em direção ao carro. Andava sem olhar para trás, sabendo que ele vinha atrás. Ela já não esperava nenhuma palavra dele.
Ismail observava as costas dela, a curva dos ombros, e, pela primeira vez na vida, sentiu-se um homem que não conseguiu proteger… um homem que não salvou a própria mulher…
***
Eles tinham ido salvar um paciente que precisava de um transplante, mas acabaram entrando num pronto-socorro que fervilhava como uma colmeia perturbada, cheio do cheiro de sangue, metal e asfalto molhado.
Evren entrou primeiro. Seguia com passos rápidos, avaliando a situação já em movimento. Uraz andava perto, tenso, entendendo que, com dois feridos graves, Evren podia deixá-lo no pronto-socorro sem hesitar. Yusuf vinha atrás. Olhava para os lados o tempo todo, procurando involuntariamente pela Bahar, embora soubesse que ela ficara em casa — não havia como ela estar ali.
— Dois graves — Siren já havia pego o tablet — um com ruptura de baço, dois de média gravidade, e um… — ela consultou a tela. — Homem, cinquenta anos, queixa de dor na perna. Veio andando, sem ambulância. Parece esforço ou ciático.
— Estou aqui, já cheguei! — Doruk entrou no pronto-socorro atropelando o ar.
Evren lançou um olhar rápido para ele.
— Doruk, trauma abdominal! Eu vou para os graves, reanimação! Siren, prepara o centro cirúrgico — ordenou. — Uraz, você vem comigo. Precisamos estar prontos em dez minutos, eu vou buscar as equipes dos críticos. E você — Evren encarou Yusuf, que se esticou, esperando instruções — vai atender esse homem — apontou o paciente.
— Esse? — todo o entusiasmo de Yusuf evaporou num segundo. — O da perna? — disse, decepcionado.
— É o seu paciente, Yusuf! — determinou Evren.
— Eu queria participar da cirurgia — tentou argumentar Yusuf. — Uma lesão na perna? Ele está bem — afastou-se do caso sem nem olhar para o homem. — Eu posso ir com vocês.
— Não! — Evren disse apenas uma palavra.
Não soou como “proibido”, mas como “ainda é cedo”, e isso doeu ainda mais.
— Por que ele? — murmurou Yusuf. — Por que o Uraz? — nem tentou esconder a mágoa. — Por que você escolheu ele?
— O Uraz é cirurgião! — o olhar de Evren ficou duro. — A Siren também! — manteve os olhos fixos nos de Yusuf. — Eu estou levando quem posso pôr na mesa sem perder o paciente!
Yusuf empalideceu. Uraz se virou, desconcertado, sentindo-se culpado pelo amigo sem motivo para isso.
— E eu? — Yusuf perguntou num fôlego só. — O que tem de errado comigo? — o rosto dele perdeu toda a cor.
— Você é interno — Evren deu um passo em direção a ele.
— Você deixou eu vir com vocês — lembrou Yusuf.
— Eu não disse que te levaria para a cirurgia — a voz de Evren continuava firme.
— Mas você nem deixou eu tentar! — a voz dele quebrou. — Você nem olhou! Você não confia em mim! — Yusuf apertou os punhos até os nós ficarem brancos.
— Não — respondeu Evren, baixo — eu não tenho o direito de arriscar a sua vida ou a de outra pessoa! — disse isso, e Yusuf baixou a cabeça. — Aqui não existe laço de sangue, Yusuf. Não existe filho de alguém ou filho de ninguém. Existem só pacientes e salas cirúrgicas! Eu não escolho. Eu salvo vidas!
— Mas você escolheu! — os olhos de Yusuf brilham de dor. — Você escolheu não a mim!
— Professor — Ferdi se aproximou — o paciente da perna está dizendo que piorou.
Evren e Yusuf trocaram um olhar duro.
— Eu vejo isso — respondeu Yusuf rápido demais.
E os dois viraram o rosto um do outro ao mesmo tempo. Evren pegou as luvas e seguiu para a reanimação, como se nem tivesse percebido a frustração de Yusuf.
Yusuf estava pálido. Virou-se para olhar as costas de Evren — e aquilo o golpeou ainda mais forte. Sim, por um lado ele estava feliz por ter recebido um paciente… mas um caso tão simples, nem de média gravidade… e Evren não o escolhera… tinha escolhido o filho da Bahar, empurrando Yusuf para trás… deixando-o atrás de si, não permitindo que participasse, como se não confiasse nele…
***
Ela não deixou que ele a acompanhasse… e, mesmo assim, Ismail foi atrás, mas parou perto da mesa no pátio quando viu Reha sentado no degrau.
Nevra passou direto, entrou sem tirar o casaco e foi imediatamente para a cozinha.
— Você voltou? — Gülçiçek ergueu a cabeça devagar; estava se segurando por dentro.
— Eu voltei — respondeu Nevra simplesmente. — Para onde mais eu iria?
Gülçiçek assentiu.
— Senta — sussurrou, levantando-se.
Ligou o fogão e colocou o bule. O ruído do gás, como um rosnado fraco, preencheu a cozinha. Nevra sentou-se, muito ereta, como alguém prestes a receber mais um golpe da vida. Enquanto a água esquentava, ficaram em silêncio. Um silêncio que, несмотря de tudo, as fazia sentir uma à outra.
Depois, Gülçiçek encheu dois copos com chá forte, denso, quase negro. Entregou um para Nevra, e ela mesma ficou de pé perto da janela, sem invadir o espaço da outra.
— Bebe — disse Gülçiçek, quebrando o silêncio. — Você está muito pálida.
Nevra segurou o copo com os dedos trêmulos, tomou um gole pequeno e piscou — o líquido fervendo arranhou a garganta.
— O seu marido… — começou, mas a voz falhou.
— Não fala do Reha agora — pediu Gülçiçek. — Nós vamos resolver isso. — E, cansada, completou: — Fala de vocês.
— O que eu vou dizer? — Nerva respondeu dura demais, como se se defendesse. Depois, um sorriso fino, cortante, tocou os lábios dela. — Que toda a minha confiança e arrogância são cenários… que eu levantava para ninguém ver que eu… — ela parou, tomou outro gole ardente.
— Que você o quê? — perguntou Gülçiçek.
Nevra olhou para o chá, como se dentro dele se agitasse todo o seu passado.
— Vazia — disse, enfim. — O Aziz me deixou assim.
Gülçiçek suspirou e, pela primeira vez, olhou Nevra de outro modo. Pela primeira vez realmente viu que Nevra podia sentir dor.
— Ele me operou em casa — agora dizer aquilo já não doía tanto. — Em casa, Gülçiçek, como se eu fosse uma boneca de plástico — soltou um pequeno riso amargo. — Ele salvou minha vida, e eu nunca mais pude ter filhos. — Observava o chá escuro. — Ele me fez culpada pelo meu próprio corpo… aquele que foi ele quem destruiu.
Gülçiçek fechou os olhos, depois abriu, devagar.
— Eu sempre vivi à sombra, enquanto ele estava vivo… servindo chá, como você agora — sua voz tremeu. — E nenhum de vocês nunca perguntou por que eu me agarrava ao Aziz. Nunca perguntou por que eu sofria. Por que ninguém via que doía? Eu tinha que gritar? — levantou o rosto para Gülçiçek.
— Você não precisava gritar — sussurrou Gülçiçek, sentando-se ao lado dela. — Você merecia ser ouvida sem gritar.
— Ninguém ouviu — Nevra sorriu de leve, quase invisível. — Nem o Ismail.
— Você o ama? — perguntou Gülçiçek suavemente.
— Eu queria… tentar — admitiu Nevra. — Ele foi o primeiro, em muitos anos, que me fez sentir que eu era alguém… e não um móvel — ela fechou os olhos, e uma lágrima rolou pela bochecha. — E hoje… eu percebi que não sou necessária para ninguém.
Gülçiçek se inclinou um pouco, mas Nevra desviou o olhar. Gülçiçek apoiou as mãos na mesa.
— Você é necessária — sussurrou.
— Para quem? — Nevra levantou os olhos — cansados, gastos como seda antiga. — Para quem eu sou necessária? — repetiu. — Eu não sou esposa. Nem mãe. Nem parte da família… ainda mais agora que ela voltou — seus lábios tremeram num sorriso irônico.
— Você é necessária antes de tudo para si mesma — disse Gülçiçek, muito baixo.
A simplicidade da frase fez Nevra estremecer. Ela virou o rosto.
— Eu estou tão cansada… — murmurou. — Se eu pudesse ao menos reparar… se eu pudesse consertar o que fiz… — o soluço subiu. — Se ao menos eu não tivesse deixado o Evren naquele orfanato…
— Chega — sussurrou Gülçiçek. — Só respira.
Nevra inclinou-se devagar e encostou a cabeça no ombro dela. Sentaram-se assim, em silêncio, enquanto o frio da rua entrava pela janela e o poste iluminava a cozinha com uma luz pálida.
Gülçiçek sabia que Reha estava atrás da porta — ele não tinha ido embora… e, provavelmente, Ismail também não. A noite se adensava. O chá esfriava. E aquelas duas mulheres — tão diferentes, tão solitárias — pela primeira vez em muitos anos estavam juntas não como rivais, não como acusadoras, mas como duas pessoas que finalmente viam uma à outra com feridas abertas… sem máscaras.
***
Ele abriu a janela do próprio consultório… ainda era o seu… amanhã ele ocuparia o consultório do diretor do hospital. Naquela noite, o hospital parecia outro — infinito, meio às escuras, frio, e a noite em si se arrastava como um fio viscoso.
Ele tomou um gole de café — já sem gosto — mas mesmo assim bebeu, para não cair, para não se permitir nada além do necessário.
O telefone acendeu com uma mensagem. Evren a abriu — “Como você está?”. Ele imediatamente discou o número dela.
— Estou ouvindo — Bahar atendeu no mesmo instante.
Ele ficou tão aliviado de ouvir aquela voz cansada, suave, viva.
— Estou no hospital — disse ele.
— Eu sei — suspirou ela, abraçando o ganso de pelúcia que ele trouxera; não tinha contado a ele, mas a presença daquele brinquedo a acalmava. — Você não teria ligado sozinho — murmurou Bahar.
— Como você está? — Evren se forçou a ignorar o espinho que ela acabara de cravar.
— Mal — admitiu ela. — Estou enjoada, não consigo dormir.
— Você comeu? — perguntou ele, com cuidado.
— Não — respondeu ela seca.
— Bahar! — Evren se levantou de repente e começou a andar pelo consultório.
— Não briga comigo — pediu ela, baixinho. — Eu não consigo, fico enjoada. O Mert acordou três vezes. A Leyla também. Eu mal convenci a Umay a dormir. A minha mãe não atende, só mandou mensagem dizendo que está tudo bem, para eu não me preocupar. Como é que eu não vou me preocupar, Evren? Você entende o que está acontecendo?
— Você não precisa cuidar de todo mundo — ele respirou fundo, tentando manter o controle. — Você precisa cuidar de você.
— Que sentido tem pensar em mim — ela hesitou, escolhendo as palavras — se todos dependem de mim? A minha mãe. Os meus netos. A Umay. O Uraz. A Siren — ela suspirou. — Até você.
— Eu dependo de você? — ele repetiu.
— Você me liga quando está mal. Quando está com medo. Quando quer operar. Quando quer silêncio… — ela parou. — Mas nunca quando está bem. Nunca.
— Bahar… — Evren massageou a têmpora.
— O quê? — ela não tinha entonação nenhuma.
— Eu quero saber como você está — disse ele baixinho.
— Você está perguntando do bebê — respondeu ela sem hesitar.
— Você está sendo injusta — observou ele.
— Você diz “cuidado”, “não se preocupe”, “come”… — ela encostou o rosto no pescoço do ganso. — Mas eu quero ouvir: “Como você está, Bahar?”
Ele fechou os olhos, passou a mão pelo rosto.
— Está bem — cedeu ele. — Como você está, Bahar?
Bahar ficou em silêncio, e Evren até olhou para a tela, achando que a ligação tinha caído.
— Mal — respondeu ela enfim.
Tão baixo, como se confessasse uma fraqueza que ninguém jamais tinha visto.
— Eu vou aí… — sussurrou ele imediatamente.
— Não venha — cortou ela. — Para quê? Já vai amanhecer. Você tem um dia pesado. Precisa descansar.
— Não fala assim — pediu Evren.
— Como eu deveria falar? — a voz dela ficou macia, perigosamente macia. — Você não pode largar tudo e vir, pode?
Evren ficou em silêncio — porque ele realmente não podia. Ele precisava checar os acidentados. Precisava ver o paciente do Yusuf.
— Viu? — disse ela, calma.
Ele queria explicar, mas naquele instante alguém bateu à porta.
— Professor Yalçın! — a voz de Ferdi estava tensa. — Chamado urgente! O paciente da perna voltou. Estado grave.
— Bahar… — Evren franziu o cenho.
— Vai — ela apertou o ganso com mais força.
— É o paciente do Yusuf — tentou ele justificar. — A gente fala depois.
— A gente nunca consegue falar — respondeu ela.
— Bahar — Evren ficou parado no meio do consultório.
— Vai, Evren, o paciente está esperando — lembrou ela, e encerrou a chamada.
Evren não teve tempo de dizer nada, nem de prometer que ligaria, nem de ouvi-la dizer não precisa. Guardou o telefone no bolso do jaleco e saiu.
Andava pelo corredor vazio; o eco dos seus passos batia nas paredes, e a cada passo ele acelerava, com o coração apertado, um nó subindo pela garganta… o paciente do Yusuf… o homem da perna… isquemia… um suor frio o percorreu, e Evren começou a correr…
Corria para corrigir um erro — sabendo, no fundo, que o tempo precioso já tinha passado, que talvez já fosse tarde demais…
***
Tarde… ou cedo demais — Cem às vezes nem entendia que horas eram. O cheiro estéril do hospital misturava-se com o silêncio imóvel daquela madrugada. Cem lavava o chão — um castigo que ele cumpria com zelo excessivo, silencioso demais, culpado demais. Sert Kaya o percebeu de longe. Os olhos dele se estreitaram levemente, como os de alguém que encontra um brinquedo conveniente. Ele teria passado direto, se não tivesse notado o homem sentado perto do consultório do diretor.
— Cem — chamou ele, aproximando-se.
Apesar da voz suave, havia algo levemente perigoso em seu semblante, mas Cem parecia não notar isso; reagia apenas à suavidade da voz, confundindo-a com gentileza.
— Sim — ele sobressaltou-se, apoiando-se no esfregão. — Estou terminando, falta pouco, já vou embora — falou rápido, sem levantar a cabeça.
— Bom garoto — Sert inclinou um pouco a cabeça, lançou um olhar discreto para Kamil e passou a falar mais alto. — Você entendeu que às vezes… — fez uma pausa calculada — é melhor esquecer aquilo que viu naquela sala de cirurgia da doutora Bahar Özden.
Sert Kaya observava Cem atentamente, mas pelo canto do olho viu Kamil virar-se na direção deles. Ele se levantou, mas não se aproximou.
— Sim… — Cem baixou ainda mais a cabeça. — Foi um erro.
— Claro que foi — Sert sorriu. — Ver vídeos de uma sala de cirurgia sempre é um erro — e inclinou-se levemente para ele, falando um pouco mais baixo, mas ainda alto o suficiente para que Kamil ouvisse. — Principalmente aquele vídeo… o do bebê.
Cem franziu a testa, ergueu os olhos sem compreender.
— Sim — respondeu curto — eu deletei.
— Deletou? — Sert repetiu. — Mas você ainda lembra do que viu, não lembra?
A pergunta soou suave, quase preocupada, mas foi o suficiente para fazer Kamil dar alguns passos em direção a eles. Ele não interveio — apenas permaneceu ali, ouvindo.
Sert virou-se um pouco na direção dele. Fez isso de propósito, como se quisesse que Kamil escutasse cada sílaba.
— Ainda bem que você apagou algo que… — ele fingiu buscar a palavra — poderia trazer consequências sérias para muitas pessoas. Especialmente para a doutora Bahar Özden.
— Eu juro… — Cem balançou a cabeça. — Eu não queria fazer mal a ninguém. A Bahar… — começou, mas parou.
— O que tem ela? — perguntou Sert Kaya. — O que te assusta, Cem? O que você viu na sala da doutora Bahar?
— Eu não sou médico — Cem recuou um passo. — Eu não entendo… — confessou.
— Diz o que você viu — insistiu Sert, sempre mantendo Kamil no campo de visão.
— Que ela tirou o bebê — murmurou Cem, olhando Sert por baixo dos cílios.
Ele claramente odiava aquele assunto.
— Um bebê — suspirou Sert, balançando a cabeça.
— Vivo — acrescentou Cem de repente, como se tivesse se lembrado. — O bebê estava vivo. Ele fez um som…
— Você fez bem em apagar o vídeo, Cem — Sert pousou a mão no ombro dele. — Uma coisa dessas não pode circular. Isso poderia destruir vidas.
A respiração de Kamil falhou. Ele encostou as costas contra a parede.
Bahar Özden tirou um bebê vivo. Ela matou um bebê vivo. Ela era uma assassina.
Ela fez isso uma vez… e faria de novo… e de novo… ele tinha que pará-la. Tinha que.
Kamil olhou para Sert com um olhar vazio de desespero, como se Sert pudesse guiá-lo. Ele apertou contra o peito a pasta cheia de documentos que vinha reunindo. Ele iria até o fim… até o fim mesmo…
De Bahar Özden… não sobraria nada.
***
A manhã na casa dela não começou com barulho, mas com aquele silêncio raro e inquietante que fica depois de uma noite em que ninguém conseguiu pregar os olhos. Um silêncio em que todos escutam passos, sons atrás das portas, a respiração de outras pessoas.
Gülçiçek ficou muito tempo parada diante do espelho — não porque duvidasse de si, mas porque tentava lembrar qual deveria ser o rosto de uma mulher que se fere com tanta facilidade, mas que ainda assim precisa parecer alguém que nada pode quebrar.
Ela arrumou o cabelo devagar, com muito cuidado, como se cada mecha devolvesse um pedaço de sua dignidade. Passou o batom naquele tom exato de que gostava. Vestiu a blusa, que caiu suavemente sobre os ombros. Não era vaidade. Era equilíbrio.
Nevra já a esperava na cozinha. Estava calma por fora, mas os olhos entregavam a vigília da noite — uma daquelas que nem o pó nem um penteado perfeito conseguem esconder.
As duas mulheres se encararam por um instante, mas aquele instante bastou para entender que ambas estavam de pé apenas por pura força de vontade.
— Vamos acompanhar a Çağla na consulta — sussurrou Gülçiçek, afastando uma mecha do rosto.
— As duas — concordou Nevra. — Juntas.
— Sim — Gülçiçek ajeitou a blusa. — Não podemos nos atrasar.
Elas entendiam que, indo ao hospital, inevitavelmente se aproximavam dos homens que haviam virado seu mundo de ponta-cabeça. Saíram juntas para a rua — e Gülçiçek deu de cara com Reha.
Ele congelou, não esperando vê-la assim. Ela não escondia os traços de uma noite sem sono, mas também não os exibia. Simplesmente estava ali: bonita, firme, serena, como uma mulher que já viveu demais para se permitir quebrar. E no rosto de Reha surgiu aquela velha confusão sem fim.
— Gülçiçek… você está especialmente linda hoje — disse ele, tão baixo que soou como uma confissão, não um elogio. Ele a olhava com admiração.
Gülçiçek o encarou com calma — calma tão profunda que tudo dentro dele estremeceu.
Reha observava cada detalhe: o penteado, a blusa nova, o brilho sutil nos lábios, a pele uniforme, a postura ereta. Tudo passou pelo rosto dele: surpresa, dor, culpa, orgulho… e… ciúme. Sim. Ciúme adulto, ardido. Ele até deu um passo automático na direção dela.
— Você… está linda — murmurou, mas o olhar dele fazia a pergunta muda: para quem… para quem você se arrumou?
Ele queria dizer outra coisa. Outra completamente. Queria confessar, pedir, tocar — nem que fosse com a ponta dos dedos, com o olhar — mas não deu mais nenhum passo.
— Hoje é um dia importante para todos nós — ela disse, apertando a alça da bolsa. — Vamos acompanhar a Çağla — informou Gülçiçek, sem intenção de esconder nada.
Ismail observava Nevra com inquietação. Aproximou-se devagar, sem saber o que fazer com as mãos.
— Posso levar vocês — ofereceu-se, mal respirando.
Nevra nem ergueu a sobrancelha.
— Não, Ismail, obrigada — respondeu com a voz neutra, mas carregada de desconfiança. — Você precisa ir para a reunião, precisa se trocar — lembrou. — Não deveria ter esperado o amanhecer no quintal de outra casa.
Os ombros dele caíram. Era a recusa que ele esperava — sabia que ela diria isso — mas mesmo assim doeu.
— Nós levamos vocês — disse Reha, franzindo o cenho. — É melhor assim.
— Não, Reha — Gülçiçek o encarou. — Você vai para casa. Vai se arrumar e depois para o trabalho. Você tem uma pesquisa — lembrou. — E a Meryem Özkan! Ela vai estar lá!
Ele se enrijeceu. As palavras dela acertaram o alvo, ferindo. Mas não discutiu — principalmente depois da frase seguinte.
— Reha, faz o certo pelo menos uma vez — concluiu Gülçiçek, passando por ele sem parar. — Não me faz sentir ainda mais medo.
Quando ela passou, Reha respirou fundo, quase involuntariamente, buscando o perfume dela.
— Vamos — Nevra contornou Ismail.
Ismail quase tocou a mão dela, mas Nevra se afastou com precisão — daquele mesmo toque que na noite anterior ela desejara tão ardentemente.
— Nevra… — Ismail deu alguns passos atrás dela.
— Não, Ismail — murmurou, sem se virar. — Nós dois estamos cansados demais — então, por um instante, ela parou e olhou por cima do ombro. Seus olhares se encontraram. — Ou talvez tenha sido tudo… demais — terminou, e seguiu adiante.
Reha e Ismail saíram do pátio atrás delas. Ficaram olhando enquanto elas entravam no táxi, enquanto o carro se movia mansamente, enquanto desaparecia na curva. As duas mulheres partiram… e ali não havia nem vencedores, nem vencidos… só dor, rasgando a alma em pedaços…
***
A alma dela doía, enquanto o hospital vibrava com um som baixo e pesado. Bahar caminhava depressa — um pouco mais rápido do que precisava. Ela segurava o terno do Evren, apertando-o como se não fosse apenas tecido, mas a última oportunidade de recuperar algum controle.
Já quase na entrada, ela esbarrou em Rengin. Notou de imediato o rosto pálido, as olheiras, e algo no jeito de ela andar — como se prendesse um pouco o passo, como se as pernas procurassem apoio.
— Como você está? — Rengin perguntou primeiro, tentando sorrir.
Era o primeiro dia dela trabalhando como médica comum, sem o cargo de diretora.
— Com altos e baixos — respondeu Bahar, cansada.
Entraram juntas, cruzaram o saguão e chegaram aos elevadores. Ali, bem diante das portas, o corpo de Rengin estremeceu por inteiro.
— Cuidado — Bahar a segurou pelo braço.
Rengin quis dizer que estava tudo bem, mas uma careta de dor passou por seu rosto — mínima, quase invisível, mas Bahar viu.
— O que houve? — perguntou ela, entrando com ela no elevador.
— Só… está puxando — admitiu Rengin. — A parte de baixo da barriga, desde ontem à noite — disse, colocando a mão sobre o ventre, como se quisesse protegê-lo. — É suportável.
— “Suportável” é ruim — Bahar franziu um pouco a testa; a ansiedade começava a nascer em seu peito. — Fala a verdade.
— É como se um fio por dentro tivesse esticado — confessou Rengin — e estivesse apertando.
Bahar parou por um segundo. A mão que segurava o terno tremeu — como se Rengin tivesse encostado em algo íntimo demais.
— Você contou para o Serhat? — perguntou Bahar baixinho.
— Não — respondeu ela rápido demais.
— Por quê? — Bahar a fitou com atenção.
— Ele está todo voltado para a Esra — deu de ombros. — Tem as cirurgias, a filha… e a neta — ela suspirou. — Não quero ser mais uma preocupação.
O elevador deu um leve tranco e parou. As portas se abriram, e as duas saíram.
— Você está num hospital — Bahar começou a guiá-la pelo corredor. — E sua barriga está puxando — puxou Rengin gentilmente pelo cotovelo, fazendo-a virar-se para ela. — Você sabe que precisa contar, não sabe?
— Eu tenho medo — sussurrou Rengin. — Você entende isso?
— Entendo — Bahar assentiu. — Entendo bem demais.
Elas seguiram novamente pelo longo corredor, onde a luz parecia mais forte do que o normal. Os passos ecoavam, e cada passo parecia marcar o início de uma contagem regressiva.
— Hoje saem os resultados — lembrou Bahar. — Você vai, não vai?
— Vou — suspirou Rengin.
— Hoje vai ser um dia difícil, mas nós vamos conseguir — Bahar sorriu e apertou a mão dela. — Vamos conseguir tudo, acredita nisso, Rengin!
Chegaram à curva do corredor, e ali se separaram. Bahar seguiu para a sala de Evren, e Rengin apressou-se para o quarto de Esra…
***
A porta do consultório estava entreaberta. Bahar parou no corredor por um segundo para ajeitar o terno de Evren, que escorregava de seu braço, mas algo a fez congelar — a voz dele. Ela ficou ali, à entrada.
Yusuf falava de maneira atropelada, apressada, como alguém tentando voltar no tempo.
— …homem, diabético tipo dois, cinquenta anos — ele falava muito rápido — queixando-se de dor na perna, na região da panturrilha.
— Que tipo de dor? — perguntou Evren em voz baixa, completamente desprovida de emoção.
— Puxando… doendo… e também dormência — murmurou Yusuf. — Ele disse que tinha andado muito, que talvez fosse câimbra.
— Você mediu a pressão? — a voz de Evren era baixa, nivelada.
— Sim. Cento e trinta por oitenta… pulso… noventa e dois — Yusuf engoliu seco. — Temperatura normal.
— Fez o exame físico? — Evren inclinou-se um pouco para frente.
— Fiz… — Yusuf travou, como se tentasse reunir cada ação que tinha tomado. — Pedi pra erguer a calça, olhei a cor da pele… sim… mais pálida que a outra perna, mas pensei que fosse por causa do frio no setor. Ao toque… sim, estava mais fria.
— Pulso? — perguntou Evren. — Específico. Onde palpou?
— Tentei no dorso do pé… — Yusuf esfregou a ponte do nariz. — Difícil de sentir. Mas… estava lá. Acho que estava… — ele se calou. — Eu não comparei com a outra perna — admitiu.
A cadeira rangiu; Evren se inclinou ainda mais para frente.
— Você não comparou — repetiu ele em voz baixa. — Num diabético. Com dor unilateral. Com perna fria e pálida.
— Eu… achei que pudesse ser isquemia — Yusuf apertou os olhos — ou espasmo muscular…
— “Achou”? — o tom de Evren gelou. — Ou você queria que fosse isquemia, porque isso seria mais fácil?
Bahar apertou o terno contra o peito e se recostou na parede. O silêncio que caiu no consultório a sufocou.
— Você testou sensibilidade? — Evren prosseguiu. — Cutucou, beliscou, fez estímulo doloroso?
— Perguntei se estava dormente — exalou Yusuf. — Ele disse que a perna estava como algodão… pensei que fosse cansaço.
— Fez doppler? Ultrassom das artérias? — Evren não recuava nem um milímetro.
— Não — a voz de Yusuf quebrou.
— Chamou o cirurgião vascular? — Evren fazia perguntas como quem segue um checklist.
— Não… — Yusuf baixou a cabeça.
— Prescreveu heparina? Algum anticoagulante? — Evren nem levantava o tom, e isso tornava tudo pior.
— Não… — a voz de Yusuf sumiu. — Dei anti-inflamatório e mandei ele pra casa com recomendação de repouso.
Evren recostou-se, passando a mão pelo queixo. Por dentro, queimava; por fora, era só frieza e precisão — e só Bahar, ali na porta, entendia o que isso significava. Ele revivia o erro do Yusuf como se fosse seu. Yusuf, porém, só via reprimenda.
— E agora me diga — disse Evren — o que aconteceu quando ele voltou pela segunda vez.
Yusuf segurou a borda da mesa como se fosse a última âncora.
— Ele… não sentia mais a perna. Nada. A cor… cinzenta. Fria. Sem pulso. Chamei o traumatologista — a respiração dele falhou; o coração parecia explodir — ele disse que era isquemia aguda, trombose da artéria poplítea. Mandou direto para vascular… mas… — as palavras ficaram presas.
— Necrose — completou Evren. Calmo. Sem emoção. — Amputação do terço médio da perna.
— Sim — Yusuf assentiu. O rosto dele perdeu toda a cor.
Bahar apertou o terno ainda mais forte, como um escudo. Cada frase parecia um corte.
— Agora vamos de novo — disse Evren. — Devagar.
Ele se inclinou, apoiando os cotovelos na mesa.
— Homem. Diabético. Dor unilateral na perna. Pele fria. Pálida. Sensação… de algodão. Pulso fraco — Yusuf falava no automático.
Bahar fechou os olhos. Isso já durava tempo demais. Não era o começo e nem era o fim.
— Isso é clássico, Yusuf — Evren fitava seus olhos. — Oclusão arterial aguda. Janela de quatro a seis horas. E você o libera. Sem exame. Sem consulta. Sem anticoagulante.
— Eu… — Yusuf tentava falar, mas a garganta o sufocava. — Eu… queria resolver sozinho…
— Você queria me provar que era adulto — disse Evren, firme, mas controlado. — Que não precisava de ajuda. Que podia trabalhar sozinho enquanto eu estava no centro cirúrgico, e você correu pra lá atrás de mim — ele não tinha elevado a voz um único instante, e isso era ainda pior. — Emoção — continuou. — Ego. Mágoa. Você colocou tudo isso acima do paciente — ele fez uma pausa. — O resultado é uma amputação.
— Você fala como se eu quisesse machucar ele! — Yusuf explodiu. — Como se eu tivesse feito de propósito! — os olhos dele ficaram vermelhos.
— Eu estou dizendo como isso vai aparecer no protocolo — cortou Evren. — E como vai soar na comissão — entrelaçou os dedos. — Você não tinha o direito de ficar sozinho com esse paciente se não estava seguro.
— Você me deixou lá! — Yusuf lembrou. — Você me deixou sozinho com aquele caso simples!
— Você devia ter me chamado — Evren devolveu o olhar sem piscar. — Dito: “Não estou seguro.” Mas você ficou calado. Sabe por quê?
Bahar levou a mão à boca. Eles estavam no limite. Algo dentro de Yusuf finalmente rompeu.
— Porque você já tinha decidido que eu não estou pronto! — gritou ele. — Porque desde o começo você escolheu não a mim!
O consultório pareceu estremecer. Evren ficou imóvel.
— Do que você está falando agora? — a voz dele tornou-se perigosamente baixa.
— Desta noite! — Yusuf já não continha as lágrimas que embaçavam seus olhos, nem a raiva que o consumia. — Desta maldita noite em que você foi para o transplante com Uraz e Siren, e me deixou com um paciente simples! — ele apoiou as mãos na mesa, tentando segurar as próprias emoções. — Você nem olhou pra mim!
— Estamos falando da conduta ou do seu orgulho ferido? — Evren semicerrrou os olhos.
— Estamos falando de você não ter me escolhido! — Yusuf lançou, encarando-o. — Como vinte anos atrás!
— Yusuf — Evren levantou-se devagar.
— Você foi embora naquela época — Yusuf respirava com dificuldade. — E foi embora esta noite — endireitou o corpo, pressionando as têmporas com os dedos. — Levou o filho da Bahar com você. E eu… fiquei na porta, você decidiu que eu lidaria com o mais fácil — um sorriso amargo tocou seus lábios. — E eu não consegui, professor Evren Yalkın. Então me condene! — disse ele muito baixo, quase sem emoção.
Evren ficou em silêncio. Por um instante, algo vivo demais, humano demais, doloroso demais passou pelo seu rosto. Ele abaixou o olhar para a mesa e depois ergueu-o novamente para Yusuf.
— À noite — disse Evren, em voz baixa — eu não estava escolhendo entre vocês. Eu estava escolhendo quem eu podia colocar na mesa de cirurgia — a voz dele ficou rouca. — Era lógica médica. Não paternal. Não humana. Médica.
— E depois… aquele homem chegou. Eu estava sozinho — Yusuf mal conseguia se manter de pé. — Você já tinha decidido que eu não daria conta. Eu quis provar que você podia estar errado.
— E provou — a voz de Evren voltou a ser gelo. — Só que à custa da perna de um homem.
Yusuf fechou os olhos como se tivesse sido cortado por um bisturi.
— Eu sei — sussurrou. — Sei disso melhor do que você.
Ele começou a desmoronar diante dele. Yusuf tremia, os olhos transbordando. E foi nesse instante que a porta rangiu suavemente. Bahar não conseguiu mais ficar do lado de fora. Ela entrou sem pedir permissão.
— Basta — disse ela baixinho.
Yusuf quase caiu, e ela, largando o terno sobre a mesa de Evren, o envolveu num abraço. Apertou-o firme, olhando diretamente para Evren, perguntando sem palavras por que ele não tinha feito aquilo antes. Por que escolheu repreender, quando podia primeiro mostrar humanidade. Ela entendia o porquê — mas sabia que havia outra forma.
— Bahar… — Evren a encarou, e ela apenas acariciava os cabelos de Yusuf, suas costas.
— Terminou? — perguntou ela, vendo nele não só o médico, mas o homem que amava — e o homem que, sem perceber, estava destruindo o rapaz.
Yusuf a abraçava com força, incapaz de soltá-la, agarrando-se a ela como último porto seguro.
— Nós ainda não… — começou Evren.
— Você já disse o essencial — interrompeu ela, suave e firme ao mesmo tempo. — Ele errou. Ele entendeu. Agora não é hora de esmagar, Evren, é hora de levantar.
— Você ouviu o que ele deixou passar? — rosnou Evren entre os dentes.
— Eu ouvi — disse Bahar. — A ele. E a você.
Ela se afastou um pouco, arrumou o cabelo de Yusuf. O coração dela sangrava pelo que aquela noite tinha feito com ele — sempre tão calmo, tão lúcido — agora quebrado, perdido, como se a luz tivesse se apagado nos olhos dele.
— Vamos — murmurou ela, pegando sua mão e apertando. — Vamos sair um pouco. Respirar. — Ela sorriu, doce. — Depois a gente resolve tudo. Mas não agora.
Yusuf a olhou como quem olha para um respiro de vida.
— Me desculpe, professor — conseguiu dizer com uma calma inesperada, como se a presença de Bahar lhe devolvesse o chão. — A gente conversa depois.
Eles foram até a porta, quase saíram, mas Bahar parou, virou-se e encontrou os olhos dele.
— Você trouxe meu terno — disse ele, como algo completamente deslocado na avalanche daquele diálogo.
— Trouxe — ela assentiu, tentando sorrir. — Para você pelo menos parecer, por fora, que controla a própria vida.
— Bahar… — ele deu um passo para fora da mesa — nós precisamos conversar.
— Depois — sussurrou ela, apertando os dedos de Yusuf.
— E se… — ele hesitou — e se não houver um “depois”? — devolveu a ela suas próprias palavras.
— Agora o Yusuf é mais importante — disse ela. — E o seu paciente sem perna também — os ombros dela tremeram. — E a Aylin, e seu cargo. Não é tudo sobre nós dois, Evren.
Ela fechou os olhos por um instante — e nesse momento a cabeça de Ahu apareceu na porta.
— Professor, o senhor está sendo aguardado pelo Sert Kaya — avisou. — Ele quer discutir a alta da Aylin. A imprensa deve chegar a qualquer instante.
— Estão te esperando — disse Bahar, olhando de relance para o terno que ela tinha passado de manhã.
Evren soltou o ar devagar. Duas realidades colidiam dentro dele: a íntima, frágil… e a pública, brilhosa.
— Vai — murmurou Bahar — a cidade ama seus heróis.
— Mas eu não sou herói, Bahar — respondeu ele, quase sem voz.
— Você é o meu herói — a mão dela pousou sobre o ventre — o nosso. E não tem problema que o “depois” demore.
Ela fechou a porta, e os dois seguiram juntos pelo corredor. Evren ficou parado ali, olhando para o terno sobre a mesa, pensando no erro de Yusuf, no homem sem perna, na imprensa e na mulher que mais uma vez escolhia “depois” — enquanto o mundo frágil deles rachava por dentro…
***
Os aparelhos no quarto de Esra estalavam baixinho, rompendo o silêncio sufocante. Já não era um silêncio calmo — era denso, tenso, como se o ar ficasse mais pesado a cada segundo. Esra estava deitada de lado, o rosto muito pálido, a respiração curta e rápida, puxando o ar pela boca com desespero.
O monitor cardíaco emitia sinais curtos e inquietantes — ainda não eram alarmes críticos, mas avisos perigosos.
Doruk estava ao lado da cama, registrando os parâmetros. A saturação caía, a pressão oscilava, o pulso disparava e despencava — tudo isso era catastrófico para uma gestante.
— Esra, meu amor — disse ele baixinho — respira mais devagar… tá bem? — havia tanta ternura e cuidado em sua voz que Doruk nem percebia.
A garota fez um leve aceno, os dedos apertando o lençol. A porta se abriu com força — Serhat entrou.
— O que aconteceu com ela? — perguntou imediatamente, sem desviar os olhos do monitor.
— Os parâmetros estão instáveis — informou Doruk, sentindo o medo crescer dentro do peito. — O estresse está provocando taquicardia, e o coração está sofrendo.
Seus olhares se cruzaram. Serhat empalideceu, cambaleou; os olhos se encheram de lágrimas.
— Não — sussurrou ele. — Não… não me diga isso, não ouse!
Foi exatamente isso que Rengin ouviu ao entrar. Ela caminhava devagar — a dor na parte inferior do ventre não a deixava em paz, latejando, apertando — mas quando viu Esra, parou no meio do quarto. O rosto pálido, os dedos tremendo, esmagando o lençol. O monitor piscava em amarelo.
— Doruk, me dá a braçadeira — disse ela, imediatamente esquecendo seu próprio mal-estar.
— Aqui — ele entregou.
Rengin colocou a braçadeira, pegou o esfigmo. Seus movimentos eram rápidos e seguros, mas por dentro tudo gelava. Atrás dela, Serhat mal respirava, apoiado na parede, completamente imóvel.
— Esra… seu pai está aqui… ouviu? — Rengin inclinou-se sobre ela. — Ouve, querida? Só respira, não desiste, não agora, quando estamos tão perto de… — sua voz falhou.
Eles não tinham um doador. Mesmo que a levassem para cirurgia, mesmo que fizessem a cesárea com Bahar, não havia um coração para Esra. Poderiam salvar o bebê… mas não ela.
— Por que… por que está piorando? — perguntou ela a Doruk.
— O coração está sobrecarregado — explicou ele, calmo. — Você sabe… estresse, arritmia… e o bebê pressiona o diafragma, dificulta a respiração.
Doruk levantou o rosto para o teto, como se implorasse por uma resposta divina.
— Precisamos estabilizá-la. Agora. — Rengin passou a mão nos cabelos de Esra. — Onde está Evren? — perguntou a Doruk, de lado.
— Ele não está — Doruk abaixou o olhar.
— Como assim, não está? — Rengin não entendeu. — Quem está acompanhando a Esra? Quem está monitorando o coração dela? O que está acontecendo, Doruk?
Ele lançou um olhar para Serhat e depois para Rengin.
— Sert Kaya deu uma ordem — teve de dizer. — O professor Evren Yalkın… — respirou fundo antes de continuar — está lidando apenas com questões administrativas. Nada clínico.
As palavras ficaram suspensas no ar… depois caíram, pesadas como cinzas. Serhat demorou a processar. Piscou, como se o sentido não entrasse na mente.
— O Evren é o médico dela! — disse ele, olhando para Rengin. — Ele é quem cuida dela — a voz dele estava rouca. — Ela é minha filha. Ele me prometeu!
— Eu sei… mas é uma ordem — Doruk assentiu, carregando a culpa de decisões alheias. — Com a comissão hoje, a imprensa, o erro do interno… Sert Kaya quer que Evren fique longe de cirurgias e pacientes até tudo ser esclarecido.
As palavras atingiam Serhat uma a uma, como flechas lentas, todas cravando fundo.
— Isso é… — ele mal conseguia falar — eu vou atrás dele.
— Não precisa — disse Rengin baixinho, verificando a temperatura de Esra. Ela só então percebeu que seus dedos tremiam. — Se ela piorar, ele vem. Mesmo que Sert Kaya esteja na porta, mesmo com todas as câmeras… Evren virá, Serhat.
Serhat a olhou pela primeira vez. Seus olhos se encontraram por um instante — e naquele olhar havia tudo: o medo pela filha, a preocupação por ela, a pergunta não feita “você queria falar comigo?” e o “agora não é hora” nunca dito. Rengin desviou primeiro.
— O mais importante agora é a Esra — disse ela baixinho. — Depois… o resto.
Serhat assentiu. Cada respiração era como andar sobre gelo fino. E bem naquele momento, quando ele tentava estabilizar o próprio peito, Esra começou a respirar mais rápido, puxando o ar com dificuldade.
— Pai… — sussurrou ela. — Eu… estou mal…
Pela primeira vez ela disse isso em voz alta, sem sorrir, sem esconder. Pela primeira vez parecia completamente sem forças. Doruk virou-se de costas, apertando o tablet até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Eu estou aqui, meu amor — Serhat inclinou-se sobre ela. — Aqui, me ouve. Só respira. Olha pra mim. Estamos com você. A Rengin está aqui, o Doruk também, você não está sozinha, me ouviu? Esra, por favor, não agora… ainda não temos um coração para você. Por favor… só um pouco mais… nos dá mais tempo… eu te imploro — ele ajoelhou-se ao lado da cama.
Ele abaixou a cabeça sobre a mão dela, apertando os dedos gélidos. Rengin enxugou as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto.
— Esra, está me ouvindo? — sussurrou ela, sentando-se na beira da cama e segurando a outra mão. — Vamos juntas. Inspira… expira… devagar… — ela lançou um olhar para Doruk. — Chama a anestesia. Agora. — E voltou-se para Esra. — Inspira, querida… expira… devagar.
Serhat apertava os dedos da filha, como se pudesse transmitir força. O monitor começou a soar mais baixo — sinais mais agudos, mais angustiantes. Rengin olhou para o ventre de Esra, para os lábios pálidos, para os cílios tremendo — e o medo a atravessou como uma lâmina. A dor em seu próprio ventre pulsou mais forte, mas ela respirou fundo, tentando não demonstrar. Ela sabia: Esra estava no limite. Serhat, também. E ela mesma… no limite de segredos, dores e verdades. Hoje havia rachaduras demais. Dor demais. E tempo de menos.
— Aguenta firme, meu amor — murmurou Rengin. — Respira comigo… inspira… expira…
— Eu estou tentando… — sussurrou Esra. — Só estou… com medo…
E naquele instante, Serhat — aquele homem inabalável — pareceu alguém cujo coração também precisava de um transplante…
***
Ele precisava falar com ele. Era importante demais. Kamil viu Sert Kaya sair do elevador e correu até alcançá-lo.
— Senhor — chamou ele, a voz soando mais áspera do que pretendia.
Sert ergueu os olhos e avaliou tudo em um segundo: estado ruim, olhar afiado, mandíbula travada.
— Estou ouvindo — disse ele, desligando o telefone. — Informaram que você estava aqui de novo. Em que posso ajudar? — continuou caminhando, sem parar; Kamil teve de acompanhá-lo.
— Me disseram que o diretor é outro — tropeçou nas palavras.
Sert sorriu de leve — profissional, cordial, uma compaixão que não valia nada.
— Sim — guardou o telefone no bolso. — Hoje o professor Evren Yalkın assumiu o cargo. Agora ele é o diretor da nossa clínica.
— Diretor… ele? — Kamil quase tropeçou ao ouvir o nome. — Mas ele… ele nem veio… ver minha esposa…
Não havia grito em sua voz — só uma dor abafada, esmagadora, que se transformava em fúria. Sert inclinou um pouco a cabeça, como quem tenta entender, sentir empatia.
— Cada tragédia tem sua própria história — disse num tom macio. — Não posso comentar decisões médicas de plantões anteriores — fez uma pequena pausa. — Mas claro… essas coisas precisam ser ditas no momento certo.
Kamil estremeceu, as mãos cerradas até os dedos estalarem. Sert seguia andando — rápido, como alguém que não tinha tempo nem interesse. E essa pressa só deixava Kamil mais sufocado.
— Infelizmente, hoje temos pouco tempo — continuou Sert. — A equipe de TV já chegou — disse como se fosse algo irrelevante. — Reportagem oficial. Transmissão ao vivo. Alta da paciente depois do transplante duplo. Um grande evento.
Kamil parou. Ficou ali, imóvel, olhando para as costas dele. Sert deu mais dois passos antes de perceber que o perdera.
— TV…? — sussurrou Kamil.
— Claro — Sert virou-se para ele. Falava com suavidade, sem pressão, quase confidencial. — Transmissão nos canais principais. Imprensa — outra pausa calculada. — O diretor vai dar declarações.
Kamil nem piscou. O rosto se contorceu dolorosamente.
— Ele… vai falar… diante das câmeras?
— Sim — Sert soltou o ar, como quem encerra o assunto, pronto para seguir caminho. — E se alguém tiver perguntas… reclamações… — outra pausa, dessa vez mais sutil — esse é o melhor lugar para ser ouvido.
Disse isso de forma neutra, profissional, sem olhar diretamente, sem qualquer sinal explícito de incitação — mas deixando o sentido absolutamente claro. Em seguida, Sert voltou a caminhar, deixando Kamil parado no corredor, segurando a pasta de documentos que ninguém até agora se dispôs a ver. Ninguém o recebeu. Ao redor, todos corriam, organizavam, repetiam palavras — TV, reportagem… Evren Yalkın… doutora Bahar Özden… grávida.
Kamil empalideceu. Bahar Özden estava grávida. Ela também havia passado por um transplante de fígado. E estava grávida. E o professor Evren Yalkın não saía do lado dela… cuidava dela… enquanto ignorava a Ayşe dele.
Os dedos de Kamil tremeram, os ombros endureceram, as veias saltaram no pescoço. Ele entendeu o que Sert Kaya queria dizer. O diretor — Evren Yalkın. Aquele mesmo médico que não apareceu. Aquele médico que estaria AO VIVO. E justamente lá… era possível dizer a verdade.
O corredor zumbia ao redor, mas para Kamil tudo ficou surdo, distante. Ele fixou o olhar nas costas de Sert, que se afastava rápido, firme, sem olhar para trás…
***
O corredor vibrava como um fio elétrico sob tensão. As pessoas passavam rápido, todas apressadas… e apenas eles, ao se encontrarem no meio daquele caos, ficaram imóveis por um instante — e depois avançaram juntos.
Bahar segurava a mão de Yusuf. Os olhos dele ainda estavam vermelhos, o rosto pálido; ele apertava o envelope contra o peito como se tivesse medo de perder um pulso. Rengin caminhava ao lado deles, mais devagar que o habitual; cada passo reverberava com uma dor profunda no baixo-ventre. Serhat estava tão tensionado que parecia que uma única faísca poderia fazê-lo explodir. Evren puxava o colarinho da camisa, que apertava seu pescoço; a gravata pesava como um laço. Ele usava ternos, mas não estava acostumado a viver dentro deles.
— Onde você estava? — perguntou Serhat em voz baixa, rouca, à beira de quebrar.
— Ninguém me chamou — respondeu Evren, curto, duro.
— Ninguém… te chamou? — Serhat quase o agarrou pelos ombros. — Você está falando sério? Ou recebeu uma ordem e simplesmente obedeceu? O quê, te proibiram de entrar no setor? No quarto dela? Do que você está esperando, Evren? Uma crise? Uma parada cardíaca? A saturação despencar ainda mais?!
— Você sabe muito bem que… — Evren começou.
— Eu sei de uma coisa só — Serhat o empurrou levemente — que minha filha precisou de você, e você não estava lá! — ele apontou para o peito dele. — De você! Não do administrador, não do diretor, não do homem de terno bonito para as câmeras — do médico que sabe tratá-la melhor do que qualquer um!
— Eu a estou tratando! — Evren lutava para se controlar. — Eu conheço o coração dela. Sei que Doruk a estabilizou. Estou acompanhando tudo!
— Você NÃO está! — Serhat explodiu. — Você está se escondendo atrás dos protocolos, trancado no seu gabinete! — seu peito subia e descia rápido. — Você me deu sua palavra — acrescentou, mais baixo. — Deu sua palavra de que minha filha viveria. Mas você não estava com ela!
— Não ouse dizer que eu a abandonei — a voz de Evren veio baixa, perigosa.
Bahar sentiu Yusuf estremecer ao lado dela. Ele quase deixou o envelope cair.
Rengin soltou um gemido suave; sua mão escorregou até o ventre.
— Cuidado. Você precisa se sentar — Bahar virou-se para ela imediatamente.
— Eu estou bem… — sussurrou Rengin, mas a voz falhou. — Só… está puxando…
— Fica comigo um instante — pediu Bahar, apertando a mão dela. — Fica aqui, tá?
E os homens… pareciam cegos e surdos ao redor delas.
— Você é médico, Evren! — Serhat encarou-o de frente. — Se o coração da minha filha parar, é você quem vai ter de olhar nos meus olhos!
— Não vai parar — Evren disse entre os dentes.
— Por quê? — Serhat cerrou os punhos. — Porque você está dizendo? Porque você acredita que o coração dela vai esperar por você?
Evren não respondeu.
— Exatamente — Serhat retomou, vendo a hesitação. — Você não estava no quarto dela quando tudo começou! Ela não é só uma paciente, Evren, é MINHA filha!
— Se tivessem me chamado — Evren deu um passo à frente — eu estaria lá em dois minutos.
— Diga isso ao médico que estiver contando as batidas do coração dela — Serhat rebateu. — Agora você se apoia em protocolos. Eu me agarro a um milagre — ele o fitou profundamente. — E sabe o que é pior? O milagre chega. Mas o médico, não.
Nesse momento, Bahar ouviu seu próprio pulso — rápido, dolorido.
A cabeça girou. Ela se apoiou na parede por um segundo.
— Bahar, o que houve? — Yusuf percebeu no mesmo instante.
— Estou bem… — ela respirou mais rápido do que devia. — Só…, — não terminou. Sorriu com fraqueza. — Paradoxo, né? Viemos aqui por você e eu que pareço prestes a cair.
Yusuf a envolveu nos braços imediatamente. Apertou forte. De verdade.
— Não cai. Por favor, não você — sussurrou.
Os cílios de Bahar tremeram diante dessas palavras — pela primeira vez no dia, alguém pensou nela, não apenas na criança que ela carregava. Evren virou a cabeça e os viu. Deu um passo em direção a eles — mas Serhat bloqueou seu caminho.
— Você não vai a lugar nenhum — disse ele, baixo. — Não antes de me responder.
— Serhat… basta, eu… — Evren tentava chegar até Bahar.
— O que você consegue, hein?! — Serhat explodiu. — Cumprir ordens?! Assinar altas?! Sorrir para as câmeras?!
Ele o feria com palavras — golpes precisos, destruindo o pouco de equilíbrio que Evren ainda tinha. Bahar viu: mais um passo, mais uma frase — e algo irreversível aconteceria.
Ela avançou, segurando a mão de Yusuf:
— Chega, por favor — pediu. — Estamos aqui por causa do Yusuf — lembrou. — Não por causa da briga de vocês.
— Por mim? — Yusuf engoliu o ar. — Não… por favor… não por mim…
Ele parecia prestes a rasgar o envelope — seus nervos estavam em frangalhos. Bahar segurou sua mão junto com o envelope.
— Espera — pediu.
— Eu não aguento mais… — sussurrou ele. — Eles… até agora… como se eu… não existisse. Como se eu não importasse.
— Yusuf — Bahar encontrou os olhos dele — eu estou aqui. Eu estou com você.
Ele congelou. Abriu o envelope com as mãos trêmulas. Bahar prendeu a respiração.
Rengin afundou no banco — não tinha mais força para ficar de pé.
Yusuf leu — e o rosto dele empalideceu, as lágrimas subiram… Ele não olhou para os homens. Virou-se para Bahar e a abraçou com força, como se ela fosse seu único chão.
— Eu sou filho dele — sussurrou — entende? Filho dele.
Evren se apoiou na parede e fechou os olhos.
— O que diz? — murmurou Rengin, inclinando-se, embora isso só piorasse sua dor.
Serhat observava de sobrancelhas cerradas — naquele instante, parecia que nada mais importava além de Esra.
— Eu sou filho dele… dele… — repetia Yusuf, apertando Bahar. — Evren Yalkın é meu pai.
Serhat soltou o ar — mas não houve alívio. Só um gosto amargo de tudo aquilo.
Evren não conseguiu dar nem um passo. Bastaria um — um único passo — para abraçar os dois. Bahar e Yusuf. Seu filho adulto. Tudo o que Bahar pedira horas antes no gabinete. Tudo o que ele ainda não fizera.
— Professor Evren! — Ahu surgiu na curva do corredor. — Estão todos esperando o senhor.
Ela literalmente o puxou pela manga, arrastando-o.
Ele se virou — encontrou o olhar de Bahar, com Yusuf apertado contra ela.
— Bahar — expirou.
— Depois — murmurou apenas com os lábios.
O rosto dele mudou — como se gritasse silenciosamente: e se não houver “depois”?
Mas ele foi levado. Não porque quis.
E sim porque o sistema o devorava — lenta e firmemente, como um tumor que estendia garras, arrancando-o das pessoas que ele amava, impedindo-o de ficar onde realmente precisava estar…
***
Eles estavam com ela. O tempo todo havia alguém ao lado dela, e ele não conseguia se aproximar. Não podia dizer nada. Bahar Ozden estava ali, perto deles, segurando a mão do rapaz. O rosto dela estava pálido, um pouco cansado, mas cheio de cuidado; toda a sua atenção era para aqueles que estavam próximos — todos, menos a sua Ayşe.
Kamil observava de longe. Observava à distância. Observava a pessoa que tinha roubado dele todo o seu mundo.
Tudo nela o irritava. A calma. A voz. A mão suave pousada no ombro de alguém… ela estava viva. Ela era necessária. Era amada. Era ouvida. Confiavam nela. A protegiam. Até agora, o rapaz a abraçava bem na frente dele… enquanto sua Ayşe jazia sob a terra fria e úmida.
O sangue pulsava nas têmporas. A solidão apertava seu pescoço como um laço.
Bahar sorriu, tocou os cabelos do rapaz.
— Você não está sozinho. Eu estou aqui. Sempre estou aqui.
Ele parecia ler nos lábios dela, e esse “aqui” bateu em Kamil como um soco. O pulso acelerou. O corpo tremeu, mas o rosto permaneceu rígido… e ele entendeu que precisava chegar à verdade para revelar a todos o verdadeiro rosto dela… e então a viu — a pessoa que podia ajudá-lo nisso.
Cem caminhava com o balde e o esfregão. Ao ver Bahar abraçando Yusuf, seu rosto mudou, e ele desviou rapidamente, sumindo pela escada. Kamil o seguiu de imediato. Seus passos eram precisos, firmes, sem pânico. Apenas a convicção em sua própria verdade o movia, como se tudo já estivesse calculado. Ele sequer percebeu que cruzava um limite quando empurrou a porta e entrou na escada.
— Ei, rapaz — chamou Kamil, obrigando-o a parar e virar-se.
— Sim? — Cem perguntou. — Eu posso ajudar em alguma coisa?
Kamil desceu devagar, aproximou-se até ficar frente a frente.
— Eu preciso do vídeo — disse ele, olhando direto em seus olhos.
— Que vídeo? — Cem se atrapalhou. — Eu não… — começou a falar.
— Aquele vídeo — interrompeu Kamil bruscamente. — Da sala de cirurgia! Pegue pra mim!
— Ele foi apagado — Cem deu um passo para trás. — Eu não guardo essas coisas. E é proibido.
— Mentira! — explodiu Kamil.
— Não! — Cem tentou até sorrir. — Eu não sei do que o senhor está falando…
Kamil o agarrou pelo antebraço.
— Me mostra — exigiu. — Me mostra como ela tirou uma criança viva e a matou! — ele se lançou em direção ao celular de Cem.
Cem se assustou, o telefone escapou-lhe da mão. Kamil se abaixou para pegá-lo, soltando o rapaz, e o pé de Cem escorregou. Ele agitou os braços, tentando se segurar em Kamil, mas o outro recuou, empurrando-o levemente no peito, como se Cem fosse apenas um obstáculo. Um obstáculo entre ele e a verdade que precisava ver.
Cem se inclinou para trás. O corpo caiu —
o impacto contra a quina do degrau de concreto ecoou como uma fruta se partindo.
Cem estremeceu… e ficou imóvel. Seus olhos estavam abertos, mas o olhar vazio. O corpo amoleceu de repente.
Kamil lançou um olhar rápido. O rapaz respirava — o peito subia e descia lentamente. Kamil se abaixou e pegou o celular.
— Ei, você tá vivo? — ele cutucou a perna do rapaz. Cem não reagiu. — Ei, levanta — Kamil olhou dentro dos olhos dele, mas as pupilas não reagiam… Ele recuou, pálido, o celular apertado na mão. Desceu as escadas correndo, dois degraus de cada vez. Por dentro, tudo tremia — o rapaz estava morto.
Kamil parou, recuperou o fôlego e apertou o botão… mas a tela estava bloqueada. O telefone não respondia. De raiva, ele o jogou no chão — a tela rachou.
— Ei! — o barulho chamou a atenção do segurança, que entrou na escada para verificar. — O que está acontecendo aqui? — ele subiu e viu Kamil.
Kamil estremeceu, ficou branco. Olhou para a perna de Cem estendida no degrau. Suas mãos cerraram-se em punhos. Ele não pensou mais. O segurança levou a mão ao rádio, e Kamil avançou, golpeou como sabia. O segurança caiu, bateu a têmpora, apagou por um instante. Kamil aproveitou, abriu a coldre, arrancou a arma.
— Ei… — o segurança recobrou a consciência devagar.
Kamil ergueu a mão e o golpeou de novo, certeiro, no mesmo ponto — e então se endireitou, sentindo o peso familiar da arma acomodar-se na mão. Ele olhou para ela, para a arma em sua palma, e seus lábios se curvaram em um sorriso.
TV. Imprensa. Kamil guardou a pistola no bolso da jaqueta… ele já sabia o que faria. Já que ninguém tinha tempo para ele — ele mesmo encontraria tempo. Ele faria todos olharem para ele.
A doutora Bahar Ozden pagaria por tudo. Kamil empurrou a porta e saiu para o corredor…
***
Eles entraram no hospital e foi como cair dentro de uma colmeia. Câmeras piscavam na entrada. A imprensa se empurrava, e elas avançavam por aquele caos, as três juntas: Gülçiçek, Nevra e Çağla. Çağla parecia uma menina entre elas, perdida no olho de um furacão.
Gülçiçek e Nevra tentavam não demonstrar emoção nenhuma, mas não conseguiam esconder o cansaço. Çağla mantinha a mão sobre o ventre, sem reclamar, resignada ao fato de estar sob os cuidados das duas.
Elas caminhavam em direção aos elevadores, mas, ao verem Meryem ali perto, estacaram de repente. Meryem apertou o botão, banhada por uma luz que parecia vir de um refletor, destacando-a no meio da multidão. Elas não queriam vê-la nunca mais — a dor que ela trouxera às suas vidas era grande demais — mas não podiam evitar.
Nevra prendeu a respiração. Gülçiçek suspirou. E Çağla só pensava em uma coisa: fazer os exames e ir embora o mais rápido possível.
As portas do elevador se abriram, e ela entrou. No elevador ao lado, Ismail saiu, seguido por Reha. Faltou um segundo para que os caminhos se cruzassem, mas as mulheres viram tudo.
Meryem veio ao hospital. Agora estaria perto deles. De Ismail e de Reha.
— Nevra… — Ismail as viu primeiro e veio na direção delas.
Ele já havia se trocado, barbeado… como se a noite insone no quintal de Gülçiçek nunca tivesse acontecido. Ele olhava para Nevra como quem reencontra algo precioso que perdeu.
— Por favor, não! — Nevra ergueu a mão, bloqueando-o. — Não aqui. Não agora.
Ele quis argumentar, mas as palavras não vinham. Nevra virou e seguiu adiante; ele foi atrás.
— Você veio ao hospital? — Reha aproximou-se da esposa, nervoso. — Tem tantos médicos de branco aqui… — começou a dizer, mas ela lançou um olhar tão tenso que ele se calou. — Eu… você sabe… só estou preocupado.
— Não começa — cortou Gülçiçek.
Çağla aproveitou o momento, escapou por trás deles e virou o corredor. Assim que o fez, trombou com uma figura alta e forte. Ela ofegou, e ele a segurou antes que caísse, amparando-a como se fosse algo valioso.
— Você está bem? — ela ouviu aquela voz conhecida e levantou o rosto. — O seu bebê? — Carter se assustou, já pronto para erguê-la nos braços, o que assustou ainda mais Çağla.
— Estou bem, você quase só me atropelou — ela tentou se afastar, mas quanto mais tentava, mais ele a segurava, protegendo-a instintivamente da multidão que passava.
— Cuidado — Carter literalmente a tirou do fluxo de pessoas, colocando-a com delicadeza junto à parede. Ficou ao lado dela. — Você não trouxe o gato, né? — perguntou ele, encostando as costas na parede.
— E você já testou todas as árvores da cidade? — ela não resistiu.
Eles se olharam — e sorriram.
Por um instante, os ruídos do saguão desapareceram, como se tudo tivesse silenciado…
E então, de repente, todos os sons voltaram de uma vez.
Çağla viu Reha estender a mão, tentando tocar a esposa, mas ela recuou instintivamente.
— Gülçiçek… eu não quero que você pense… que o que aconteceu… significa alguma coisa — murmurou ele, caminhando ao lado dela.
— Eu sei exatamente o que significa — a voz dela era reta, fria, como a linha de um monitor cardíaco no instante da morte. — Você não esqueceu. E eu… eu lembro.
— Você é a coisa mais importante da minha vida — disse Reha baixinho; não era justificativa, era um pedido de socorro. — Você é o meu presente, Gülçiçek. O que eu preciso fazer para que você acredite em mim? — perguntou ele, quase desesperado.
Ela parecia não ouvir — ou não querer ouvir — já se aproximando de Nevra.
— Para de me seguir — Nevra parou bruscamente, e Ismail quase trombou nela. — Você não me protegeu. A Meryem me acusou, e você… você só ficou ali, calado.
— Eu tentei… — começou Ismail.
— Você não tentou — cortou Nevra. — Você apenas olhou. Você tem conselho, imprensa… Ismail, me deixa em paz!
Ela seguiu adiante sem olhar para trás.
Ismail ficou parado por alguns segundos, depois, estremecendo, foi atrás — como alguém incapaz de deixá-la ir, não dessa vez.
Gülçiçek acelerou o passo e acabou alcançando Ferdi, que andava na frente.
— Sim, eu vi tudo com meus próprios olhos. O professor Evren fez o ultrassom da Bahar ele mesmo, ela está grávida. Mas esse casal não vai sossegar nunca — disparava Ferdi ao telefone, como sempre. — O que você acha que eles vão aprontar dessa vez por causa disso?
— O quê? — Gülçiçek parou tão abruptamente que Reha esbarrou nela. — A Bahar está grávida? — ela virou-se para Reha. — Onde ela está? — sua mão pousou sobre o peito. — Onde está minha menina?
Por um breve instante, Gülçiçek apertou o pulso do marido e se apoiou nele. Seus olhos brilharam de lágrimas, e Reha sorriu, aliviado…
Mas ela já tinha soltado sua mão — e disparou para frente, esquecendo tudo ao redor, o coração batendo forte, desesperado. Ela precisava ver a filha. Agora.
***
Ela o viu assim que entrou. Serta estava parado no meio do escritório, como um homem sustentado por uma única emoção, corroendo-o por dentro.
Meryem, ao contrário, entrou silenciosamente, quase deslizando, como alguém que há muito se acostumou a carregar a dor debaixo da pele e a não mostrá-la a ninguém. Cada movimento seu transbordava cansaço — não físico, mas aquele outro, interno, que crescia com a consciência de quão limitados eram os seus dias. O câncer devorava seus pulmões, mas não tocara sua vontade. Pelo contrário, deixara seu olhar mais direto, mais claro, mais afiado.
Ela encarava Serta nos olhos e via diante de si um administrador frio, escondido há anos atrás de uma postura impecável; mas os olhos dele permaneciam vivos demais, ardentes demais para alguém assim… e então ele sorriu, como se uma fenda tivesse se aberto dentro dele e o fogo escapasse.
— Finalmente — disse ele, e a voz tremeu como uma corda esticada. — Finalmente posso te dizer isso na cara.
Meryem apenas franziu levemente a testa. Não era medo — mais uma surpresa cansada. Ela já tinha visto demais na vida para se assustar com a fúria de alguém.
— Dizer o quê? — perguntou ela, calma, quase indiferente.
Serta deu um passo à frente. Seus movimentos eram nervosos, mas seguros, como alguém que repetiu aquele monólogo por anos, infinitamente, até doer.
— Passei tantos anos sonhando em me vingar de você. Você não faz ideia… de quantos — ele se aproximou, a respiração acelerada, pesada. — Você levou a minha amada. Leyla. Você destruiu a minha família. Esmagou a minha vida até não sobrar nada — e ele varreu todos os documentos da mesa de uma só vez.
Meryem não se mexeu nem desviou o olhar. Continuou tranquila, imóvel, apoiando apenas a mão sobre a mesa, como se buscasse um pouco de sustentação.
— Eu? Destruí sua família? — ela quase sorriu, observando as emoções dele mudarem de um segundo para o outro.
— Não se faça de boba! — gritou Serta. — Você disse para ela ir embora. Você colocou na cabeça dela que eu não era para ela! Que eu não era digno dela! Você a tirou de mim. Tirou tudo — até o nosso filho, aquele que nós queríamos tanto!
As sobrancelhas de Meryem ergueram-se ligeiramente. Serta falava como alguém que ficou muito tempo calado e agora não conseguia parar.
— Eu esperei por este dia — ele bateu no próprio peito com a mão. — E agora vou destruir a sua vida do mesmo jeito que você destruiu a minha. Vou tirar tudo de você!
Meryem permanecia firme, como o tronco de uma velha árvore que já enfrentou ventos incontáveis.
— E o que você acha que vai fazer? — ela tossiu, mas não pegou lenço.
Serta caminhava pelo escritório a passos rápidos, como quem posiciona peças invisíveis num tabuleiro de xadrez.
— Para começar, vou tirar tudo do seu sobrinho. Tudo o que ele tem — ele parou no centro do escritório e virou-se para ela. — Cada apoio dele. Cada ilusão — seus olhos brilharam. — E primeiro de tudo — Bahar. O amor dele. O ar dele.
— Bahar? — perguntou ela baixinho.
— Sim, Bahar — confirmou Serta. — Ela nunca mais vai se erguer. Vou transformá-la numa médica que os pacientes vão odiar. Reclamação atrás de reclamação, erro atrás de erro. Vou destruir o nome dela, a reputação dela. E quando ela cair, você vai se lembrar deste momento, desta conversa! — ele inclinou-se levemente em direção a Meryem e continuou num sussurro. — Vou destruir este hospital do mesmo jeito que vocês pisotearam a minha vida.
Ele se calou, respirou fundo, e abaixou a cabeça quase com solenidade — como diante da própria sentença.
— E no fim eu darei o golpe final! — ele sorriu com desprezo. — No próprio Evren. No seu precioso sobrinho. No seu primeiro triunfo!
O silêncio que caiu no escritório era tão profundo que quase dava para ouvir o coração de Serta batendo dentro do peito.
— Serta… você ao menos entende contra quem está se vingando? — perguntou Meryem suavemente.
— Entendo perfeitamente! — ele levantou o queixo. — A família Yavuzoglu. Todos vocês. Não vai sobrar nada de vocês. Nem da sua reputação, nem da reputação do seu sobrinho, Bahar será esquecida como um pesadelo, Rengin não vai se reerguer! Da família Yavuzoglu não restará ninguém! Ninguém! — ele passou o braço no ar, como se arrancasse todos pela raiz.
— Vocês, homens, são tão estranhos, Serta — respondeu Meryem, calma. — Gritam, batem no peito, mas não fazem nada para recuperar as mulheres que perderam. Leyla foi embora — ela concordou.
— Ela fez um aborto! — rugiu Serta. — Ela matou o nosso filho! Ela traiu o nosso amor!
— Leyla deu à luz o seu filho. Ela se assustou e entregou o menino ao irmão — disse Meryem, soltando a frase que o atingiu como um golpe. — Timur Yavuzoglu é seu filho.
Serta empalideceu. Os lábios tremeram, mas nenhum som saiu. As mãos se agitaram levemente, a respiração falhou. Tudo o que existia antes — palavras, planos, vingança — tudo virou cinzas, desfez-se em pó.
Meryem olhou para ele com calma, como uma médica anunciando um diagnóstico.
— Você quer se vingar de Bahar — da mãe dos seus netos? Uraz e Umay são seus netos. Você atacou Rengin — a mãe da sua neta Parla. De quem você está se vingando, Serta? Das mulheres que deram vida aos seus netos? Você está destruindo a sua própria família. Não a mim. Está destruindo seu sangue, sua carne, a continuação de si mesmo!
Ele deu um passo atrás, estremecendo como se tivesse levado um golpe físico. Diante de seus olhos surgiu o rosto de Leyla. Ela sorria, e o sol brilhava em seus olhos. Timur… o menino que ele nunca segurara nos braços. Os netos que ele nem sabia que tinha… e ali estava ele, no meio das ruínas que o próprio Serta havia construído.
— Nós começamos essa pesquisa — continuou Meryem — cometemos tantos erros, talvez já seja o suficiente, Serta? — disse ela baixinho. — Você não viveu o seu amor com Leyla, você era casado, e permaneceu casado até sua família morrer no acidente. Leyla veio a Istambul muitas vezes, mas você nunca demonstrou vontade de vê-la ou mudar alguma coisa na sua vida. Então de quem é a culpa? — ela o encarou diretamente. — Da sua família, como se fossem culpados por aquilo que você não teve coragem de fazer? Você não teve coragem! Leyla te deu milhares de chances, e você não aproveitou nenhuma.
— Por que eu deveria acreditar em você? — uma dúvida lampejou nos olhos dele.
— Não acredite. Vá e continue destruindo — sussurrou Meryem.
Serta não disse mais nada. Apenas virou e saiu. O corredor o recebeu com o burburinho, os flashes, as vozes de jornalistas, mas ele não ouviu nada. Caminhava rápido, quase correndo, tropeçando às vezes, como se o chão estivesse desaparecendo sob seus pés.
Meryem ficou no escritório dele, apoiada na mesa. A dor escapou — não a física, mas a outra, a que se acumulou durante décadas. Ela apertou a borda da mesa com mais força, a cabeça girou, e ela fechou os olhos por um instante, respirou fundo e ergueu o rosto… agora ela podia andar. Ela precisava andar. Saiu do escritório dele e caminhou adiante, devagar, como se cada movimento exigisse forças colossais, forças que quase não lhe restavam…
***
Os corredores do hospital produziam um ruído próprio — abafado, crescente, parecido ao batimento de um coração urbano que não conseguia digerir a quantidade de dor acumulada em suas paredes. As pessoas se moviam rápido, nervosas, ninguém ouvia ninguém, quase ninguém via ninguém. Nesse fluxo agitado se cruzavam vidas, destinos, pecados, segredos — tudo o que por anos se acumulava e que agora, de repente, encontrava saída.
Gülçiçek caminhava rápido demais, quase correndo, e Reha mal conseguia acompanhá-la.
— Espera… por favor… — ele tentou segurar sua mão, mas ela a puxou de volta, evitando qualquer toque.
— Vai até ela — disse ela, sem olhar para trás. — Você voltou ao trabalho por causa dela, não foi? Por causa dessa pesquisa? Por causa da sua preciosa Meryem! Agora vocês dois vão ficar juntos, finalmente vão ser felizes!
O tom dela era uniforme, mas nele havia metal — e esse som feriu Reha mais do que qualquer golpe.
— Não é isso — murmurou ele, seguindo ao lado dela, sentindo uma culpa alheia que, de repente, se tornara sua.
Não muito longe, Nevra e Ismail discutiam em voz baixa. Ele finalmente conseguira segurar a mão dela e agora a mantinha firme, sem soltar.
— Nevra, deixa eu explicar — pedia ele.
— Ismail, pra que eu quero um homem que não consegue proteger a própria mulher? — repetiu ela.
Todos se dirigiam ao auditório, onde jornalistas já se acumulavam, câmeras piscavam de todos os lados. O salão zumbia como um enxame. Evren subiu ao palco — por cima do terno impecavelmente passado, trazia um jaleco branco. Ahu cochichava algo no ouvido dele, entregando alguns documentos. Ele escutava, mas seu olhar percorria a sala até encontrá-la. Bahar estava de lado, nas sombras, a uma distância segura dele. Ele a encarou por um longo momento, até conseguir captar o ritmo da respiração dela — e seus ombros relaxaram levemente.
Aquela distância entre eles, e a noite passada separados, e a dor do que não foi dito, e a dor por tudo o que disseram demais — tudo parecia sempre demasiadamente intenso… e sempre adiado. Eles se olhavam, sem ter o direito de estar mais perto.
Meryem parou na entrada, sem coragem de avançar. O rosto de Evren mudou ao vê-la, e ela olhava direto para ele, como se nada mais existisse naquele instante. Meryem cambaleou, apoiando as costas na parede. Evren estremeceu e apertou os documentos com tanta força que quase os amassou.
Gülçiçek, ao notar Meryem, encolheu instintivamente.
— Vai até ela — irritou-se, empurrando o marido na direção da médica. — Vai, se não consegue tirar os olhos dela.
Reha olhou para Rengin… ela estava ali perto, um pouco mais distante. Ele foi o primeiro a notar como ela empalideceu, como perdeu o equilíbrio, como agarrou o braço de Serhat — e ainda assim o corpo de Reha se moveu meio passo em direção a ela… mas Gülçiçek viu outra coisa: viu Meryem cambalear e seu marido dar um passo para socorrê-la.
— Serhat… — murmurou Rengin; seu olhar escureceu, a mão desceu ao ventre, e a dor a atingiu tão forte que ela quase caiu.
— Rengin? — Serhat a segurou a tempo. — O que está acontecendo?
— Eu… estou grávida… — sussurrou ela. — Eu… não estou bem… algo está errado… muito errado, Serhat… — e então perdeu quase todas as forças, desabando nos braços dele.
— O quê? Como? — ele entendia, mas não conseguia compreender.
— Quarto 333. Imediatamente, professor Evren Yalkın — rugiu o alto-falante naquele segundo.
Serhat segurava Rengin, olhou para Evren, que não desviava os olhos de Meryem. E Serhat, de repente, entendeu que ambos os seus filhos estavam ameaçados… e ele não queria perder nenhum deles. Não sabia o que segurar, quando tudo desabava diante dele. Não sabia para onde correr. Não sabia quem salvar. Não sabia quem perderia primeiro.
Siren, ouvindo o chamado, não esperou o elevador — saiu correndo pela escada, sabendo que Evren não podia estar fisicamente na sala de Esra agora; ela quase caiu quando tropeçou em algo.
— Cem?.. Cem! — ela se ajoelhou ao lado dele, as mãos trêmulas. — Consegue me ouvir… por favor… — sussurrou, sabendo que não podia alcançá-lo lá onde ele já estava. — Ceee-em!
O salão repentinamente congelou, flashes disparavam. Evren tentava começar seu discurso, mas as palavras não vinham; a garganta se apertou, ele mal conseguia respirar… nada ali estava certo, nada era o que deveria ser.
O coração dele estava na sala de Esra — então por que ele estava ali, diante das câmeras, tentando dizer alguma coisa? Suas mãos tremiam.
Bahar o observou do fundo do salão; ela já quase tinha se virado… se ele não podia ir, ela iria. Bastou um olhar.
No meio daquele silêncio suspenso, quando todos esperavam a fala de Evren, ouviu-se a voz de Kamil.
— A doutora Bahar Özden é culpada pela morte da minha esposa e do meu filho! — ele entrou no salão, e todos engasgaram de susto, abrindo caminho ao ver a arma em sua mão.
Ele não via mais ninguém — só ela. Bahar estava praticamente diante dele, pois já havia se virado para sair, para tentar salvar Esra. Kamil levantou a arma e apontou diretamente para Bahar.
— Culpada! — ele proclamou sua sentença, e o tempo pareceu se encolher… parar… congelar…
— Não — Gülçiçek gritou primeiro e avançou em direção a Kamil, colocando-se entre ele e a filha.
— Gülçiçek! — gritou Reha… e o disparo ecoou.
Soou como um coração partindo… depois veio um baque surdo… e o sangue se espalhou pelo chão. Um grito cortou o salão.
— Culpada! — Kamil deu mais um passo.
— Não! — Nevra empurrou Ismail e correu pelo outro lado; ele foi atrás dela.
— Nevra! — gritou Ismail… e o segundo tiro ressoou.
Evren deixou cair os documentos, pulou por cima da mesa de um salto. Yusuf correu pelo outro lado do salão.
— Yusuf, não! — gritou Evren, estendendo a mão como se pudesse pará-lo. — Para!
— Quarto 333. Imediatamente, professor Evren Yalkın — ecoava o alto-falante.
— Serhat… — murmurou Rengin, e desmaiou completamente.
— Evren! — gritou Serhat, descendo ao chão com ela, segurando-a.
— Doutora Bahar Özden, você é culpada pela morte da minha esposa — Kamil praticamente chegou até ela; apontou a arma direto para seu peito, e Bahar o encarou. — Culpada! — repetiu Kamil, puxando o gatilho.
— BAAAAHAR! — o grito de Evren atravessou o salão.
Capítulo 11. Parte 2
As pessoas gritavam, e as câmeras piscavam às cegas, como pássaros feridos. O ar cheirava a sangue e medo. Ao disparar pela terceira vez, Kamil deu um passo para trás, por um instante perdido, sem entender se havia acertado Bahar ou não… atrapalhavam-no… a cada tiro, alguém surgia no seu caminho, protegendo-a. Uma onda de fúria subiu dentro dele — ela não estava sozinha, mas a sua Ayşe estava, e ninguém correu para ajudá-la. Kamil levantou a arma de novo, tentou mirar, mas alguém cobria Bahar com o próprio corpo, abraçando-a com força, oferecendo as costas ao tiro.
Evren avançava contra ele, sem ver nada além de Bahar e o revólver apontado para ela. Seu golpe foi certeiro, duro, direto no maxilar. Yusuf apareceu ao lado e, num instante, arrancou a arma das mãos de Kamil. Os dois o derrubaram no chão, e logo a segurança invadiu o salão. Evren empurrou a arma com o pé para longe; só depois de ter certeza de que Kamil estava desarmado, virou-se para Bahar.
Ele a segurava firme, embora o sangue escorresse do ferimento e encharcasse o paletó. Sert Kaya cobria Bahar com o corpo. O sangue escorria pela perna, pingando no chão, e ele a segurava como se fosse a última coisa no mundo que ainda podia proteger.
— Bahar — Evren correu até eles.
— Estou segurando — murmurou Sert, sem soltá-la —, estou segurando ela.
— Deixa — disse Evren, pousando a mão em seu ombro, e Sert olhou para ele.
Ele abriu os braços, e Evren imediatamente a envolveu. Assim que Bahar ficou nos braços de Evren, Sert desabou devagar no chão. Respirava com dificuldade, olhando para o caos que ele mesmo havia provocado, para as pessoas feridas por suas mãos. Para a mulher que criara seu filho e que Ismail segurava nos braços. Para a mãe de Bahar, inclinada sobre o professor Reha, pressionando o ferimento dele, enquanto o sangue escapava pelos seus dedos. Ele quase destruíra a própria família.
O ar tremia com gritos, choro, o cheiro metálico de sangue e o estrondo das sirenes. Evren segurava Bahar como se o mundo estivesse desabando em suas mãos e ele o sustentasse por pura força de vontade. Ela respirava irregularmente, os dedos tremiam, o olhar corria — para onde estava sua mãe, para onde jaziam o professor Reha, onde Ismail gritava, onde Rengin estava desacordada.
— Evren… minha mãe… — Bahar tentou se virar, mas ele a conteve.
— Para. Para, eu estou aqui — sua voz era firme, mas algo dentro dele tremia. — Você está bem? — perguntou só com os lábios.
Bahar apenas assentiu, incapaz de dizer qualquer coisa.
— O bebê? — formou ele, sem som.
Bahar assentiu de novo, fechando os olhos por um instante.
— Evren! — gritou Gülçiçek. — Bahar? — Ela pressionava o ferimento no peito de Reha, olhando para eles, tentando entender se a filha estava inteira. — Reha… — lágrimas pararam em seus olhos.
— Mãe… — Bahar estremeceu e tentou correr até eles, mas Evren a segurou. — O professor…
— Eu vou — ele quase a soltou, mas apertou sua mão. — Juntos — sussurrou de repente. — Agora só juntos. Não deixo você nem por um passo.
— Código vermelho! Quarto 333! Imediatamente! Professor Evren Yalkın! — os alto-falantes rasgavam o ar.
— Evren, Rengin! — gritou Serhat. — Esra! — lembrou ele, erguiendo Rengin nos braços.
Evren apertou forte a mão de Bahar e percorreu o salão com os olhos, respirando com dificuldade.
— Por que você entrou na linha de tiro? — Gülçiçek olhava para o marido, em choque e furiosa ao mesmo tempo.
— Porque, se não, você mesma me mataria depois — ainda tentou brincar. — O calor das suas mãos… o que pode ser mais precioso? Vou guardar isso. E seus olhos… olhando para mim… — sussurrou, já com dificuldade.
Reha olhou nos olhos da esposa, e seu olhar foi perdendo brilho, seu rosto desfocando… até ele desmaiar nos braços dela.
— Reha! — gritou Gülçiçek, soluçando, pressionando o ferimento com mais força.
— Evren! — gritou Ismail. — Nevra! — Ele também pressionava o ferimento dela, tentando parar o sangue nem que fosse um pouco. — Evren, ajuda, ela está indo — implorou.
Ele estava de joelhos, segurando Nevra como se tivesse medo de soltá-la… ela estava certa… ele não conseguira protegê-la de novo… não conseguira… e não queria perdê-la, não assim, não quando eles nem tiveram tempo de viver o que sentiam.
— Eu não vou te deixar, ouviu? Nevra, nunca mais vou te deixar! — disse como se jurasse.
— Ismail… — ela expirou, e ele entendeu que, de novo, chegara tarde demais; algo dentro dele se quebrou. — Você… já deixou — sussurrou Nevra. — Bahar? — perguntou quase sem voz.
— Ela está bem — sussurrou Ismail. — Fica comigo… ouviu? Fica… — repetia, escondendo o rosto nos cabelos dela, as mãos tremendo, quase sem conseguir respirar.
Nevra suspirou aliviada e desmaiou.
— Evren, ajuda — implorou Serhat, sem entender o que estava acontecendo com Rengin, mas a manga de seu jaleco já estava tingida de vermelho.
Meryem, apoiada na parede, tentava se mover na direção de Bahar e Evren, para sua família, para o que ainda podia ser salvo.
Carter, segurando Çagla pela mão, entrou correndo no salão. Tentava mantê-la atrás de si.
— Mãe? — correu até ela imediatamente.
— Estou bem, meu filho — Meryem apertou sua mão. — Evren precisa de ajuda — sussurrou. — Çagla — sorriu, como se a conhecesse — minha menina, sempre ao lado da Bahar, até hoje.
Çagla a olhou, espantada; ela queria correr até Bahar, mas Carter a segurava, impedindo que se aproximasse.
— Serhat! Rengin para a Siren! — anunciou de repente Evren, arrancando a gravata e jogando-a no chão, como se se livrasse de uma forca. — E você — lançou um olhar para Reha — fica com o professor! Agora mesmo! — ordenou, vendo Ferdi já empurrar a maca de Rengin, enquanto outros socorristas preparavam as de Reha e Nevra. — Onde está a Siren? — gritou Evren, sem entender sua ausência.
— Evren, pode contar comigo — Jennifer surgiu diante dele, lembrando involuntariamente sua presença.
— Sert Kaya — disse apenas Evren —, levem-no para a sala de cirurgia!
— Evren — Bahar puxava-o na direção de Gülçiçek e Nevra. — Nevra — murmurou ela.
— Carter, vai — Meryem empurrou o filho. — Vai! — insistiu. — Se eu pudesse, faria eu mesma — ela olhou para Reha desacordado, para a esposa dele segurando o ferimento.
— Carter, me solta! — Çagla tentava ver algo atrás dele.
— Você fica aqui, com a minha mãe! — Carter virou-se para Çagla. — Eu confio ela a você, tudo bem? — perguntou. — Se cuida. Cuida do seu bebê. Para eu não ter que prestar contas para o seu marido!
— Eu não tenho marido — disparou Çagla na mesma hora.
Carter franziu um pouco a testa.
— Vai ter — assentiu ele.
Çagla nem teve tempo de responder; Carter soltou sua mão e correu na direção de Ismail e Nevra. Olhou involuntariamente para Reha e, com um esforço enorme, obrigou-se a passar direto, sem parar, sem reconhecer o próprio pai.
— Eu vou — disse ele alto, apesar de Evren. — Vai — Carter então se virou para ele —, salva quem você tem que salvar.
Bahar caiu de joelhos ao lado da mãe. Teve tempo de tocar seu rosto, de enxugar uma lágrima.
— Vai, minha menina. Vai… só cuida de você e do bebê — sussurrou Gülçiçek.
— Agora sou eu, dona Gülçiçek — Serhat ajoelhou-se. — Professor, o senhor anda vindo muito para a minha sala de cirurgia — conseguiu dizer, enquanto Ferdi já levava Rengin e ele tentava ignorar a voz do alto-falante.
Serhat não sabia se veria a filha viva… e ninguém podia lhe dizer, ninguém podia garantir nada daquela vez.
Evren, olhando para Carter de baixo dos olhos, assentiu, e eles correram com Bahar para a saída; ignorando as câmeras, ignorando o caos, correram pelo corredor até o quarto de Esra.
— Siren — exclamaram quando uma maca bloqueou o caminho, com Cem deitado sobre ela.
— Cem? — Evren quase se inclinou sobre ele, mas, ao encontrar o olhar de Siren, recuou.
Ela apenas balançou a cabeça, sem dizer nada.
— Cem — Bahar apertou os dedos gelados dele —, como assim? O que aconteceu? — olhou para Siren.
— O coração ainda bate — respondeu ela —, mas o cérebro… — não concluiu.
Evren levantou a cabeça de repente. A dor o queimou — e o tipo de escolha que ninguém deveria ter que fazer.
— Ele respira — disse Evren, depois de verificar. — Ventilação mecânica, agora! Ainda é cedo para falar — ordenou. — A morte cerebral precisa ser confirmada — murmurou, acrescentando logo: — Siren, Rengin é sua.
Bahar e Siren trocaram olhares.
— O que ela tem? — Siren não entendeu.
— Ela está grávida — disse Bahar.
— Ela também? — Evren se espantou.
— Você quer falar disso agora? — Bahar rebateu, sem conseguir se segurar.
— Vamos — e Bahar e Evren dispararam para frente.
Evren se esforçava para não pensar em Cem, no que deixara no salão. Apertava a mão dela com tanta força… o importante é que ela estava com ele, relativamente segura — com ele.
***
O quarto estava claro demais. A luz cortava os olhos, como numa autópsia. Os aparelhos apitavam de forma desencontrada, como se estivessem se afogando, e aquilo parecia pior do que um simples som contínuo, que soaria mais como um grito de socorro.
Esra jazia imóvel na cama, a pele tomada por um tom acinzentado. Doruk fazia massagem cardíaca, evitando olhar para o monitor. Uraz conectava o soro.
— A frequência fetal está caindo — avisou Uraz assim que os viu entrar.
Evren abriu os dedos com relutância, soltando a mão de Bahar.
— Bradicardia… severa — Bahar inclinou-se sobre Esra. — Evren! Ela está indo!
— Para a cirurgia. Agora mesmo — o olhar dele ficou frio.
— Professor, talvez ela não chegue… — Doruk entrou em pânico.
— Ela vai chegar — cortou Evren, inclinando-se sobre Esra; checou a reação pupilar — nada. — Ela está em coma. A assistolia está chegando. Na maca!
Todos se moveram rápido, como um único organismo. Empurravam a maca pelo corredor enquanto corriam ao lado. Bahar segurava o sensor, e com a outra mão agarrava a maca. Evren via o quanto ela estava pálida, mas não comentou.
No corredor, por um instante, cruzaram com Serhat, caminhando ao lado da maca onde estava Reha. Gülçiçek segurava a mão dele, sem soltar… ninguém disse nada — apenas trocaram olhares — e cada um correu para sua sala de cirurgia. Serhat não conseguiu nem tocar Esra; não permitiu a si mesmo. Apenas acreditava — era tudo o que lhe restava. Esra na cirurgia, Rengin inconsciente… e ele não sabia o que encontraria quando terminasse… cada um entrou no seu próprio inferno.
A luz queimava. O ar estéril estava carregado de medo.
— Instalem a CEC — ordenou Evren, sem dar a si tempo de pensar.
Doruk abriu o acesso à artéria e à veia femoral. A máquina roncou, impulsionando o sangue. Todos olharam para o monitor — o coração de Esra já não se contraía.
— Assistolia — murmurou Uraz.
— Ignora — cortou Evren. — Mantemos a perfusão — lançou um olhar para Bahar. — Precisamos do bebê, agora!
O rosto dela estava escondido pela máscara… apenas os olhos, azuis como o oceano, visíveis. Sua respiração falhava, mas ela se mantinha firme… não tinham nem um segundo para processar o que acontecera, quem havia sido ferido… voltaram a ser médicos, deixando de lado qualquer emoção.
— Você está bem? — ainda assim Evren perguntou.
— Depois — respondeu ela, aquela palavra tão comum entre eles naquele dia, repetida várias vezes. — Agora é a Esra.
Evren sabia que Bahar podia cair, que estava se segurando pelas últimas forças.
— Bisturi — disse ela em voz firme, e seus dedos não tremeram quando o instrumento foi colocado em suas mãos.
Ela fez a incisão rápida, precisa, segura. Uraz entregou os afastadores.
— Hipóxia profunda… — murmurou Bahar, separando os tecidos. — Ela não respira…
— Agora vai — exalou Evren, como se prometesse não só a ela, mas também a Serhat — e a si mesmo.
Um segundo depois, Bahar retirou o bebê. A menina, arroxeada, pendia inerte nos braços dela… nenhum choro.
— Dá ela aqui! — Evren tomou a pequena e iniciou a reanimação.
Os segundos se arrastavam como uma eternidade. O apito dos aparelhos rasgava o silêncio. O silêncio na mesa de reanimação e o silêncio da criança pesavam ao ponto de dar vontade de gritar.
— Respira — sussurrou Bahar. — Respira — continuou, concluindo a cirurgia.
Bahar suturava os tecidos, colocando pontos retos… e de repente um som fino, fraco, atravessou a sala… quase imperceptível… a menina respondeu à reanimação.
— Temos — exalou Evren. — Para o berçário — entregou a bebê a Doruk e voltou à mesa.
Ele observou Bahar dar o último ponto e levantar as mãos, recuando um passo. A CEC funcionava, o coração não.
— Professor? — Uraz olhava para Evren.
Evren não desviava o olhar de Bahar; viu quando ela vacilou.
— Você não vai cair! — sussurrou Evren, olhando direto em seus olhos.
— Não… agora não… nem pense em mim agora — ela se recompôs num instante. — Não pense… — a voz tremeu. — A Esra? — olhou para o rosto pálido dela. — Vamos perdê-la? — disse o que todos temiam dizer.
Evren fechou os olhos por um momento.
— Sem o coração — sim — disse baixo, e aquilo soou como uma sentença.
Bahar engoliu em seco. As lágrimas brilharam em seus olhos.
— Como vamos contar para ele? — perguntou num fio de voz.
— Eu não consigo — a voz de Evren falhou.
— Você tem que conseguir — Bahar olhava para a linha reta no monitor.
Evren fitou seus olhos… e começou a perceber o quanto ela estava frágil, e quanta força era necessária para segurar o mundo ao redor… segurava como podia, como conseguia.
— Bahar? — ele procurou o olhar dela, tomado de preocupação.
— Se eu cair — respondeu ela ao seu chamado — vai ser depois, não agora, Evren.
Evren assentiu, e só então reparou como as mãos dela tremiam; percebeu que ela realmente estava à beira do desmaio… a compreensão do que acontecera começava a alcançá-los… a arma apontada para o peito dela, impossível de apagar da memória… Reha no chão. As mãos de Gülçiçek cobertas de sangue. Nevra inconsciente nos braços de Ismail… e Sert Kaya, que recebeu a bala destinada a Bahar… a bala que teria tirado sua vida.
E Cem… ninguém voltou a pronunciar seu nome, mas ele estava lá, em algum quarto… e ambos sabiam que aquele dia ainda não havia acabado — estava apenas começando.
***
Na sala, os aparelhos murmuravam baixo. Reha jazia imóvel. Tinha acabado de recobrar a consciência, e seu olhar estava fixo no teto, como se tentasse compreender — estava vivo ou não. O corpo doía, e por dentro ainda ecoava o impacto do tiro. Reha quis chamar Gülçiçek — baixinho, em sussurro, como estava acostumado… mas ouviu a voz dela. Quente. Suave. Viva demais… mas não ao lado dele.
Pela porta entreaberta entrava a luz do corredor, e ele ouviu uma risada masculina, terna, cuidadosa… e a voz de sua esposa. Ela soava de um jeito que ele já não lembrava de ouvir dirigida a ele.
— Senhora Gülçiçek, que surpresa encontrar você aqui… continua exatamente a mesma… e seus bolinhos… como eu senti falta deles… de você — a voz masculina fez Reha se erguer na cama. — Como está o seu ombro?
A dor atravessou seu lado, mas ele baixou as pernas da cama. O sangue pulsava sob o curativo, mas ele já estava de pé. Reha apoiou-se na parede e caminhou, cerrando os dentes até doer o maxilar. Cada passo ardia no corpo; a ardente pontada de ciúme o conduzia direto à porta. Ele avançou, empurrou a porta — e parou.
Um homem de jaleco, com barba aparada, sorria para sua esposa. Segurava a mão dela entre as suas, como o mais precioso tesouro. Estava perto demais… e bem diante dos olhos de Reha, inclinou-se e tocou aquela mão com os lábios.
— Você não imagina como estou feliz em vê-la de novo — sussurrou ele, beijando a mão dela. — Por que desapareceu assim? Sumiu? Não voltou mais para o massagem — disse, sem erguer o rosto.
Gülçiçek sorriu, envergonhada, e tentou puxar a mão, mas o desconhecido não a soltava. Reha sentiu algo explodir dentro dele.
— Ela estava ocupada! — ele saiu para o corredor, e sua própria voz lhe soou estranha, desconhecida.
Reha se apoiava no batente com uma mão, enquanto a outra pressionava o curativo, já manchado de sangue. Gülçiçek sobressaltou-se e virou-se. O homem soltou a mão dela e deu um passo para trás.
— Professor — assentiu o desconhecido.
Reha largou o batente e se aproximou, ficando diante de Gülçiçek, olhando nos olhos do estranho de jaleco.
— Afaste-se — exigiu ele, com voz de metal.
— Me desculpe… eu… isso é um mal-entendido — o homem levantou as mãos, recuando. — Eu apenas conheço a senhora Gülçiçek há muito tempo.
— Há muito tempo? — repetiu Reha. — E com muita… intimidade? Proximidade? — deu mais um passo. — Com muita saudade? — avançava, segurando o lado ferido.
— Professor… eu… — o homem empalideceu.
Ninguém percebeu Meryem. Ela surgiu no corredor, parou ao ver a cena se desenrolando. Reha — aquele que a amara tanto na juventude — agora olhava apenas para sua esposa. Só ela ele defendia. Como ele a protegia, como ardia de ciúmes, ignorando o ferimento, o sangue que escorria… e Meryem sorriu com ternura, suspirou e se afastou tão silenciosamente quanto havia chegado.
Gülçiçek pareceu despertar do transe; agarrou o braço de Reha.
— Reha! Basta! — exigiu. — Ele só…
— Só o quê? — Reha virou-se para ela, brusco. — Só beijou a sua mão? Só te segurou? Só olhou para você como se não visse há cem anos? Só fazia massagem em você?! — o rosto dele mudou. — Você ficava sem roupa diante dele, Gülçiçek?!
— Só a mão! — Gülçiçek corou. — E você?!
— Eu o quê? — um sorriso amargo tocou seus lábios. — Agora vamos comparar? Quem deixou quem encostar os dedos? Quem abraçou quem? Quem rasgou o coração de quem?! — ele explodiu.
Ela congelou. Os olhos se arregalaram. O homem, aproveitando que Reha agora focava toda atenção em Gülçiçek, recuou devagar e sumiu no corredor. Reha tremia — de raiva, de dor, de tudo que lhe consumia a alma.
— Você… está com ciúmes? — ela sussurrou.
— Eu? — Reha pareceu desnorteado. — Eu acordo depois de uma cirurgia e você não está lá! — disse com raiva. — Eu ouço sua voz e você está com outro, deixando ele tocar você, beijar suas mãos! E massagem?! — ele se aproximou, encarando-a. — Massagem!
— Só massagem — rebateu ela.
Ele se enrijeceu como se tivesse levado um tapa.
— Como você olhou para ele, como sorriu! Como ele beijou sua mão! — ele parecia não ouvi-la, repetindo a cena na própria cabeça. — Melhor eu ter morrido — murmurou —, melhor ter morrido do que ver aquilo, do que saber!
— Não diga isso! — Gülçiçek inflamou-se. — Não ouse dizer isso! — ela quase o empurrou, quase o golpeou no peito.
— Por quê? — ele cambaleou, mas se manteve. — Você… ficaria triste? Ou iria assar bolinhos para ele? Pedir uma massagem reconfortante?
Gülçiçek estremeceu, como se tivesse recebido um tapa.
— Como você pode — disse, avançando um passo.
— E você?! — ele avançou também, mas a dor o atingiu tão forte que ele se apoiou na parede. — Como pôde ficar tão perto dele… sorrir daquele jeito… quando eu mal recobrei a consciência e você nem estava ao meu lado?
Ela o segurou, impedindo que caísse.
— Ele não é ninguém! — ela explodiu, mantendo-o firme. — Ninguém! E você…
— Não precisa — Reha apertou as mãos dela, tentando afastá-la. — Não agora. Não encosta em mim! Não assim. Eu… — suas pernas fraquejaram, e a mancha de sangue no curativo se expandiu.
— Reha, chega! — gritou Gülçiçek, colocando o braço dele sobre os ombros.
Ele resistiu, tentou se soltar, ir embora, bater a porta, fugir para qualquer lugar onde não tivesse que ver, lembrar… mas suas pernas cederam, e ele teve de aceitar o apoio dela. Gülçiçek — sua teimosa, orgulhosa e infinitamente amada esposa — não pediu permissão: apenas o deitou na cama. Simplesmente fez isso, porque ele era seu marido… teimoso, orgulhoso.
Reha tentou virar de lado, mas o ferimento pulsava, lembrando-se a cada segundo, e ele acabou ficando de costas, olhando para o teto… enquanto diante de seus olhos continuava a cena das mãos dela sendo beijadas por outro homem… e sua mente criava imagens — massagem, aquelas mãos no corpo dela.
— Eu fiquei com medo por você, Reha — de repente ouviu a voz dela. — Achei que você fosse morrer bem na minha frente. Fiquei aflita quando você demorou tanto a recobrar a consciência depois da cirurgia.
— Tão aflita que foi se encontrar com ele — resmungou Reha, sem olhar para ela.
— Eu não estava flertando com ele — ela continuou, ignorando suas farpas. — Eu só queria respirar, tomar um pouco de água, enquanto você…, — ela parou, a voz fraquejou.
Ele ainda não olhava para ela, mas o ritmo de sua respiração mudou.
— Você… — a voz dele amaciou um pouco — você realmente ficou com medo por mim? — perguntou.
— De morrer — confessou Gülçiçek, fechando os olhos. — De morrer, Reha.
Ele virou-se devagar para ela. E tudo dentro dele desabou — todo o ciúme, todo o medo, toda a raiva. Com a mão trêmula, encontrou os dedos dela e apertou sua mão.
— Eu não vou aguentar… se um dia vir você sorrindo assim para alguém… — confessou num sussurro. — Eu enlouqueço — murmurou. — Você vai me enlouquecer.
Gülçiçek inclinou-se suavemente para ele.
— Por quê? — perguntou baixinho.
— Porque eu te amo mais do que a minha vida — sussurrou ele, sem abrir os olhos.
Reha sentiu o calor da respiração dela — tão próximo, tão íntimo. Gülçiçek tocou de leve sua bochecha, como naquela primeira noite em que se beijaram pela primeira vez.
— E eu te amo — admitiu, quase inaudível.
A dor foi embora, a raiva se dissolveu, mas o medo permaneceu — mais quente, mais profundo… eles não tinham apenas se reconciliado; haviam atravessado uma tempestade. E o medo de perder significava para eles amar de verdade… até doer, até gritar.
Ele ficou deitado, olhando para o teto como um garoto magoado que não sabe se continua bravo ou pede desculpas. A respiração permanecia pesada, os ombros tensos, a faixa no lado escurecida, o sangue aparecendo novamente através das bandagens.
— Reha — Gülçiçek inclinou-se.
— Não toca — ele se afastou com um solavanco.
— Claro — disse ela num tom que parecia concordar — não tocar — colocou a mão no peito dele apenas para impedi-lo de se levantar. — Eu não vou deixar você morrer por causa da própria teimosia.
Reha queria protestar, mas a respiração falhou — fosse pela dor, fosse pelo jeito seguro com que os dedos dela tocavam sua pele. Onde ela o tocava, tudo dentro dele se acalmava. Gülçiçek não chamou ninguém, não pediu ajuda. Retirou o curativo com cuidado… viu a sutura limpa e colocou outro, com paciência, com tanta delicadeza que parecia temer machucá-lo. Reha a observava de soslaio.
— Você ainda está brava — murmurou ele.
— Muito — admitiu ela.
— E com ciúmes — completou ele.
Gülçiçek congelou por um segundo, depois ergueu a cabeça devagar e olhou nos olhos dele — de um jeito que fez o fôlego de Reha falhar por um instante.
— Eu estou com ciúmes de você? — disse baixinho. — Depois do que eu vi hoje?
Reha quis virar o rosto, mas os dedos dela tocaram sua bochecha — firmes, gentis, quase dominantes.
— Não se mexe — pediu ela. — Sua cabeça está girando.
Reha apertou teimosamente os lábios. Ela o tocava com mãos que outro homem havia beijado; ele queria discutir, queria retrucar, mas seu corpo o traiu — os olhos se fecharam. Gülçiçek ajeitou o travesseiro, sentou-se à beira da cama e cobriu a mão dele com a sua. A mão grande dele e a mão pequena dela por cima. Reha suspirou, pela primeira vez com algum alívio.
— Sabe — murmurou Gülçiçek, quase inaudível — eu nunca imaginei que veria você com ciúmes de mim assim… — baixou os olhos, passando a ponta do dedo pelo pulso dele. — Assim… sem defesas… tão… verdadeiro.
Ele abriu os olhos.
— Você é minha esposa — respondeu ele em sussurro. — E eu… não suporto a ideia de alguém olhar para você do jeito que ele olhou. De alguém beijar as suas mãos.
Gülçiçek sorriu de leve.
— Mmm… então é isso… — apertou um pouco mais a mão dele. — Então você está mesmo com ciúmes.
Reha quis responder algo, mas as pálpebras pesaram, e a respiração ficou mais lenta.
— Dorme logo — ela se inclinou para ele. — Antes que você resolva levantar de novo e ir tirar satisfação.
— Se ele… chegar perto de você outra vez… — Reha franziu a testa, já meio adormecido.
— Reha — interrompeu ela, macia — se algum dia alguém chegar perto demais de mim…, — inclinou-se para o rosto dele — eu mesma vou mandar essa pessoa se afastar — ela passou a mão pelos cabelos dele, surpresa consigo mesma — surpresa por estar tocando nele de novo, por querer tocá-lo, mesmo depois de ter visto outra mulher beijá-lo. — Dorme, meu teimoso — sussurrou. — Eu estou aqui. E eu… não vou embora.
O rosto dele suavizou, os ombros relaxaram, a respiração ficou uniforme. Reha adormeceu como se alguém tivesse apagado a luz dentro da sua angústia. Gülçiçek permaneceu ali. Não se afastou. Acariciava a mão dele como se temesse que, se soltasse, ele desapareceria. E só quando teve certeza de que ele dormia, permitiu-se um pequeno sorriso — tímido, quente. Aquele sorriso que vem depois da dor, depois do medo, depois do ciúme.
***
O corredor, depois de tudo que tinha acontecido naquele dia, estava estranhamente silencioso. Um silêncio que não era de verdade — era daquele tipo em que se ouvia cada respiração, cada passo, cada batida do próprio coração.
Eles caminhavam lado a lado. Evren segurava a mão de Bahar como se precisasse da confirmação de que ela estava viva, de que sua pele estava quente, de que continuava ali, junto dele. Bahar tentou soltar a mão algumas vezes — queria andar mais rápido, saber como estava a mãe, como estava Reha, como estava Nevra, como estava Cem, como estava Sert Kaya, que tinha tomado o tiro destinado a ela — mas Evren, sem perceber, a mantinha próxima. Não a segurava pela força, mas pelo medo que ainda o atravessava.
— Evren… — disse Bahar baixinho.
— Não — respondeu ele no mesmo tom. — Espera.
Bahar ouviu na voz dele não irritação, não bronca — uma súplica silenciosa. Eles viraram a esquina e viram Serhat. Ele estava diante da parede de vidro da neonatologia. Apenas olhando para o pequeno berçário onde estava sua neta. Um tubo minúsculo, uma máscara minúscula, os cliques suaves do monitor, marcando a vida dela em números. Serhat apoiou a mão no vidro, encostou a testa no material frio.
Ele percebeu Bahar e Evren pelo canto do olho, mas não se moveu. Não disse nada. E eles pararam ao lado dele. Evren soltou um suspiro. Bahar engoliu em seco, afastando a náusea leve. Serhat falou primeiro.
— Ela… é tão pequena… — passou os dedos pelo vidro. — E tão… viva… — exalou. — Mas a mãe dela… a mãe dela está indo embora.
Bahar virou-se e encostou o rosto no ombro de Evren, lutando para não desabar. Evren desviou o olhar — só por um segundo — mas suficiente para que seu rosto ficasse rígido, o olhar duro e frio.
— O doador? — perguntou Serhat, enfim virando para eles.
O silêncio atravessou o corredor como uma lâmina, cortando a respiração dele. Serhat assentiu e voltou o rosto para a neta. Bahar observou o perfil dele, a forma como ele travava uma luta consigo mesmo, perdendo esperança a cada respiração.
— Ainda não — disse Evren, apertando o ombro dele.
Serhat fechou os olhos; os dedos deslizaram pelo vidro.
— Então… — murmurou quase inaudível. — Podemos… não conseguir a tempo?
Evren permaneceu calado. O alto-falante acima deles estalava levemente. Naquele hospital, alguém lutava pela vida. Em algum lugar, um bebê chorava. Em outro, Esra se apagava.
— Eu não sei como dizer a ela que a mãe talvez não volte — sussurrou Serhat, olhando para a neta. — Como se diz isso a um recém-nascido? — sorriu torto, e as lágrimas ficaram presas nos olhos. — Esra nem viu a filha. Nem segurou. Carregou por 32 semanas… e ela nem tem nome. Esra não deu um nome para a filha — Serhat estremeceu e voltou-se para eles. — E se ela não acordar para dar? Se ela nunca souber o nome da própria filha?
Ele encostou a testa no vidro novamente. Bahar apertou mais forte a mão de Evren. Queria abraçar Serhat, mas suas pernas não obedeciam.
— Estamos procurando um coração, Serhat — disse Evren, baixo. — Não podemos perder a esperança. Eu não vou deixar Esra, ouviu?
— Você pode simplesmente não chegar a tempo, Evren — respondeu Serhat, pela primeira vez completamente quebrado, resignado. — Não existe mais “depois”. Nada sobrou.
Ele não gritava. Não chorava. Não exigia mais nada. Apenas olhava para a neta… e isso tornava tudo ainda mais assustador. Ele olhava como alguém que queria memorizar cada segundo. Evren puxou Bahar para mais perto, e ela se escondeu de novo no ombro dele… o medo voltando a perfurar.
Depois. Aquela palavra atravessou Evren mais fundo do que qualquer tiro disparado naquele dia. Ele levantou o rosto e encontrou o olhar de Bahar. Serhat se virou também. Bahar estremeceu.
— Vão — pediu Serhat de repente. — Simplesmente vão.
— E você? — perguntou Evren.
— Eu? — repetiu ele. — Eu vou ficar aqui enquanto ela respirar. Eu vou ficar. Não importa se é o aparelho. Ela ainda está aqui. Eu sinto.
Evren soltou um suspiro pesado, apertou os dedos de Bahar e eles seguiram em frente. Assim que deixaram a neonatologia, o barulho do hospital os engoliu — vozes, passos rápidos, macas passando apressadas — e então a viram. Rengin.
Ela estava sentada numa cadeira de rodas. Ferdi empurrava a cadeira com extremo cuidado, como se temesse machucá-la. Do braço dela descia um tubo transparente até o soro preso ao suporte acoplado à cadeira. Ahu caminhava ao lado, com o tablet na mão.
— Quarto 216 — cirurgia, urgente — dizia Rengin em voz firme, sem tremor. — Fechem o posto nº4 até nova esterilização. Avisem o laboratório: análises — prioridade máxima.
— Já estou avisando, professora Rengin — respondeu Ahu, digitando rapidamente. — Enviando…
— Talvez… fosse melhor ir para o quarto — arriscou Ferdi. — A senhora precisa…
— Eu preciso que o hospital funcione, Ferdi — cortou ela com calma. — Continuamos — apontou adiante.
Ela virou o rosto e os viu. Bahar e Evren pararam antes da curva. Ela os observou. Reparou na palidez de Bahar, no olhar cansado. Notou a tensão de Evren, a maneira desesperada com que segurava a mão de Bahar — como se tivesse medo de soltá-la. Evren fez um leve aceno de cabeça, e Rengin respondeu com o mesmo gesto. E naquele olhar havia tudo: nada de ciúme, nada de inveja — apenas o reconhecimento silencioso de que cada um estava exatamente onde devia estar. Ele — curando. Ela — comandando.
Naquele instante, o vínculo entre eles pareceu ainda mais claro, mais calmo, mais firme. Eles pareciam uma única equipe — cada um no seu posto — mesmo que o destino os jogasse para lados diferentes do campo de batalha.
— Em frente — disse Rengin, virando-se deles.
E Ferdi obedeceu; Ahu apressava-se ao lado, anotando as novas instruções. Evren e Bahar a acompanharam com o olhar — sem comparar, sem julgar — apenas entendendo que ela fazia um trabalho que poucos suportariam, nem em tempos tranquilos, muito menos naquele caos em que todos estavam mergulhados.
— Professora Rengin, tem certeza de que não quer voltar para o quarto? — murmurou Ahu.
— Se eu me deitar — respondeu Rengin — metade dos departamentos para. Em frente.
Ferdi empurrou a cadeira mais rápido. Ahu trotava ao lado deles. Rengin dava ordens como se não tivesse uma linha de soro presa ao braço, como se estivesse perfeitamente de pé.
— Vamos — disse Evren baixinho.
E eles voltaram a correr. O corredor parecia longo demais, a luz forte demais. Evren e Bahar corriam lado a lado, como se a própria morte estivesse atrás deles. A respiração descompassada, passos ecoando, corações batendo tão alto que pareciam marcar o ritmo do hospital inteiro.
Logo ao virar a esquina, pararam ao mesmo tempo — como se alguém os tivesse freado pelo peito. Evren apoiou uma mão na parede; com a outra, apertou a mão de Bahar com uma espécie de desespero.
— Bahar… — ele expirou, como se finalmente tivesse permitido a si mesmo sentir. — Mais um segundo… só um segundo… e… — ele não conseguiu terminar; a voz falhou.
Bahar o encarou, e nos olhos dele viu o mesmo horror que atravessara os dela — aquele que viveram no salão, diante do cano de uma arma.
— Você teria vivido — sussurrou. — Só teria continuado a viver.
— Sem você, não — disse ele, com aquela teimosia familiar. — Você entende? — puxou-a para mais perto. — Eu podia ter te perdido. Eu podia… não ter conseguido… eu nem consegui me tornar seu marido.
— Evren… — os olhos dela ficaram vermelhos.
— Nós não tivemos nada ainda. Nenhum casamento. Nenhuma casa. Nenhum… nada do que a gente poderia ter vivido juntos — disse ele, com voz baixa, mas cada palavra pesava como descarga elétrica.
Bahar mordeu o lábio, apertou a mão dele ainda mais e encostou o rosto no ombro dele.
— Só não ouse me pedir em casamento agora — murmurou ela. — Não se atreva. Não depois de tiros. Não por medo, Evren. Nós já passamos por isso.
— Então é isso que você pensa? — um sorriso amargo passou pelos lábios dele. — Que eu quero me casar com você por medo?
— Não é? — arriscou ela, suave.
— Eu quero casar com você porque quero acordar ao seu lado, Bahar! — explodiu ele num sussurro firme.
— E eu quero antes… — a voz dela tremia — quero antes ter, pelo menos uma vez, um encontro normal com você, Evren. Sem sirenes. Sem sangue. Sem centros cirúrgicos.
Ele a abraçou com força, encostando o queixo nos cabelos dela.
— Você está falando sério? — perguntou baixinho.
— Sim — suspirou ela, sem entender por que discutiam isso ali, no meio do corredor — mas incapaz de dizer de novo aquele “depois”.
— Depois de tudo o que aconteceu, estamos falando de um encontro? — ele afastou o rosto e buscou os olhos dela.
— Estamos falando… da vida, Evren — lágrimas brilharam nos olhos dela. — Da vida que não tivemos tempo de viver. Da vida que pode acabar a qualquer momento… como hoje.
— Então você não quer se casar comigo? — a voz dele saiu baixa, perigosa.
— Você está falando sério?! — ela o olhou como se ele tivesse perdido o juízo. — Houve um tiroteio na hospital! Nossas pessoas estão feridas! Sua tia, seu irmão, sua família! Nossos pacientes! Nevra! Reha! Cem! Esra! E é isso que você quer discutir?!
— Sim! Sim, droga, quero! — ele finalmente elevou a voz. — Você vai casar comigo, Bahar?! Nós vamos ter um filho! — lembrou ele.
Bahar o encarou como se estivesse de volta àquela noite no terraço, quando aceitou o pedido por medo de recusá-lo.
— Eu quero primeiro um encontro de verdade, Evren — sussurrou.
— Um encontro? — ele parecia não acreditar. — Agora? Quando tudo está desmoronando?
— Sim! — insistiu ela, firme. — Porque senão sempre será assim: uma catástrofe atrás da outra! E você vai querer me casar entre coma e transplante de coração!
— Porque eu tenho medo por você! — ele ergueu as mãos, quase rendido. — Porque eu… — respirou fundo. — Porque eu te amo tanto que isso me destrói.
Ela congelou. A respiração falhou. E por um instante — só um — nos olhos dela surgiu um medo verdadeiro.
— E se eu te perder? — murmurou. — E se você desaparecer de novo? — a voz dela tremia.
— Eu não vou a lugar nenhum — Evren deu um passo e a abraçou. — Em nenhuma circunstância. Eu quero que você seja minha esposa, Bahar. E quero que nosso filho nasça numa família. Na nossa família.
— Evren… eu não quero casar… por medo — ela o apertou com força. — Quero me casar com você quando a gente se escolher. Não o destino. Não a morte. Não a ameaça às nossas vidas. Só nós dois. Só você e eu.
Evren a observou longamente.
— Então promete uma coisa — pediu ele.
— O quê? — sussurrou ela.
— Que você vai viver — murmurou quase inaudível. — E que o bebê também vai.
— Isso não depende de mim — murmurou ela, fechando os olhos.
— Não, promete — insistiu ele, encostando a testa na dela. — Promete que não vai desaparecer nos meus braços.
— Se você parar de me pedir em casamento entre tiroteios e cirurgias — ela apertou a mão dele — talvez eu pense no assunto.
Ele fechou os olhos por um instante, e quando abriu, neles havia tudo: raiva, medo, amor, fraqueza, culpa — e nada disso cabia no peito dele.
— Se você… se você tivesse morrido… — ele levantou a mão dela e encostou no próprio rosto — eu não teria sobrevivido, ouviu?
— Você teria sobrevivido — sussurrou ela. — Mas eu… eu não.
Ele puxou ela para mais perto, mas não a beijou. Apenas encostou o rosto no dela.
Eles ficaram assim — quase sem respirar — no meio do caos que voltava, pouco a pouco, a transformar-se em ritmo, ordem e rotina… a rotina que eles já conheciam tão bem.
— Eu não quero mais perder tempo — murmurou Evren. — Não quero adiar. Não quero esse “depois”.
— O depois pode não existir — disse ela, respirando junto com ele.
— Então me diz — pediu ele baixinho — como você quer, Bahar? Como?
— Quero… que a gente não corra — sua voz tremia — mas caminhe. Juntos.
— Mesmo que tudo ao redor esteja desabando? — murmurou ele.
— Principalmente — exalou ela.
— Combinado — disse ele, suave. — Mas saiba… — tocou o queixo dela, fazendo-a encará-lo — eu ainda vou carregar um anel no bolso. Caso eu perceba de novo que posso te perder.
— Evren — ela quase sorriu, balançando a cabeça.
A sirene soou em algum ponto acima deles, e os dois, como se obedecessem a um mesmo comando, deram as mãos — e correram adiante.
***
Atrás da porta ouviam-se vozes, mas dentro do quarto estava um silêncio irreal. Apenas o bip do monitor lembrava que o tempo não tinha parado, que a vida continuava. Nevra estava deitada na cama, quase se confundindo com os lençóis brancos. Sua respiração era rasa; quando suas pálpebras tremularam, Ismail imediatamente se inclinou sobre ela, como se temesse que ela desaparecesse.
— Nevra… — sussurrou ele. — Você me escuta? — seus dedos tocaram a bochecha dela.
Ela abriu os olhos devagar, tentando focar. Um segundo, outro — e ela o reconheceu. Em seu olhar não havia reprovação, apenas cansaço.
— Como está a Bahar? — perguntou logo.
Ismail respirou fundo; esperava recriminações, acusações — mas ouviu, pela primeira vez, preocupação. Não por ela mesma — pelos outros.
— Viva. Está bem — respondeu ele. — E o bebê também. Eles estão em cirurgia com o Evren.
Ele quis dizer mais, explicar, tentar de novo se desculpar, mas o nó na garganta mal o deixava respirar. Nevra fechou os olhos com um suspiro leve.
— Eu não te protegi — murmurou Ismail. — Nem da Meryem. Nem da bala. Me perdoa — apertou a mão dela — me perdoa… eu devia ter ficado na sua frente, devia ter te coberto. Eu falhei. De novo — abaixou a cabeça.
Nevra não chorou. Abriu os olhos devagar e o encarou.
— Eu já me acostumei — respondeu ela. — Acostumei a ser só uma sombra. A não importar.
Ismail se levantou de repente, contornou a cama e se sentou do outro lado, onde não havia fios.
— Eu vou te levar pra minha casa — disse ele. — Você sai do hospital comigo!
Não era só um impulso. Ele havia tomado uma decisão — sem consultá-la. Nevra virou o rosto; havia algo como um sorriso triste em seus olhos.
— Como o quê? — perguntou baixinho. — Não sou sua esposa. Nem sua amante. Vou parecer o quê? Uma mulher que precisa ser carregada para algum lugar?
— Como… alguém que eu não vou deixar ir embora nunca mais — a respiração dele falhou.
— Você me diminui… — disse ela tão baixo que ele quase não ouviu. — Está me pedindo isso… só porque teve medo de me perder. É isso?
As palavras dela o atingiram como golpe; a cabeça dele baixou, os ombros tremeram.
— Então vamos fazer diferente — disse ele, quase num sussurro — e tirou os sapatos.
Ele se aproximou devagar e deitou ao lado dela, no espaço livre dos fios. Nevra sobressaltou-se, o coração batendo forte demais.
— O que você está fazendo? — sussurrou ela.
— Estou discutindo com você — disse ele, quase sorrindo. — Eu posso discutir por dias inteiros. Só para você ficar perto — sua mão pousou com cuidado na cintura dela, e ele virou de lado, encostando o rosto no ombro dela. — Eu discuto se você quiser. Se isso te fizer bem. Eu não vou embora. Não vou recuar. Vou ficar aqui até você mesma dizer: “Ismail, tudo bem”.
Nevra fechou os olhos. Os ombros tremeram. Sua mão, devagar, como se tivesse medo de se queimar, encontrou a mão dele — e seus dedos apertaram os dele.
Ismail fechou os olhos e, pela primeira vez naquele dia interminável, respirou aliviado. Ela estava deitada ao seu lado, escutando sua respiração — e permitiu a si mesma acreditar que talvez… talvez eles conseguissem seguir adiante. Devagar. Com cuidado… mas talvez juntos…
***
O saguão do hospital brilhava sob os flashes das câmeras. O ar estava denso, esticado como uma corda prestes a romper. Ferdi parou a cadeira de rodas de Rengin com cuidado diante da imprensa. Ahu permanecia um pouco atrás — como sombra, como apoio.
Rengin ergueu a cabeça. Parecia exausta, pálida, mas havia nos olhos uma clareza severa que fez os jornalistas silenciarem por um instante.
— Farei uma declaração breve — disse ela com uma voz firme, rouca, nivelada.
Os microfones se estenderam em sua direção como mãos espinhosas.
— Hoje, nossa hospital sofreu um ataque armado. Algumas pessoas ficaram feridas. Todos estão vivos. Todos receberam atendimento — ela falou sem dar importância à própria dor. — A doutora Bahar Özden e o professor Evren Yalkın… — fez uma pausa curta — salvaram uma paciente e o bebê dela. A cirurgia foi crítica. A menina está em um incubador. Está viva.
Os jornalistas murmuraram entre si. Câmeras disparavam sem parar.
— O estado da paciente é crítico — continuou Rengin. — Ela precisa de um doador de coração. Estamos lutando. Não vamos desistir.
Ela encarava os jornalistas com calma, enquanto eles buscavam um ângulo, algo que pudessem distorcer — mas ela não lhes deu uma única brecha.
— Quero dizer uma coisa a todos: um ataque a um hospital não é apenas um crime. É um golpe contra cada médico que fica entre a morte e o paciente. Não podemos ter medo de tratar. Não podemos ter medo de vir trabalhar.
Ela falava não como administradora, mas como alguém que estava se afogando e, ainda assim, segurava toda a estrutura sobre os ombros.
— Por fim. A agressividade de vocês, suas acusações, essa sede de sangue — nada disso é sobre médicos. Médicos são aqueles que hoje se colocaram na frente dos pacientes. Aqueles que operaram sob tiros. Aqueles que salvaram vidas enquanto arriscavam as próprias — inclinou-se um pouco para frente. — Peço que os respeitem. Só hoje. Só por um minuto deixem-nos fazer nosso trabalho!
Ela se calou. Um silêncio desconfortável tomou o saguão… até que um jornalista ergueu a mão, e ela assentiu.
— Desculpe… a senhora é a diretora do hospital? — perguntou ele.
Rengin olhou para ele com tranquilidade.
— Não — respondeu após uma longa pausa.
Ela fez um leve sinal para Ferdi, que girou a cadeira. Ele a levou embora sob os flashes das câmeras. Os jornalistas não ousaram fazer mais perguntas. O silencio deles deixou no ar a sensação de que alguém acabara de fechar a porta de um centro cirúrgico — e lá dentro, a luta pela vida continuava, invisível a todos.
***
Eles entraram no quarto, e a luz fria atingiu seus olhos. O monitor mostrava números de forma monótona. O ventilador mecânico trabalhava sem emoção — apenas uma máquina cumprindo a função que os pulmões já não conseguiam exercer.
Yusuf estava ali sozinho. Não se virou de imediato; não olhou para eles logo — apenas apertou com mais força a grade da cama, até os nós dos dedos ficarem brancos. Evren deu um passo à frente. Bahar ficou atrás dele.
O silêncio na sala era tão profundo que a própria respiração parecia um grito. E, nesse silêncio, pela primeira vez no dia, Evren estremeceu. Ele olhou para Cem — e naquele momento não era médico, não era professor… era apenas irmão.
Yusuf desviou o olhar. Evren se aproximou mais um pouco.
— Professor… — a voz de Yusuf falhou, mas ele a controlou logo. — O paciente não apresenta sinais de consciência — fez uma pausa técnica, seca, mas nela se escondia tudo o que tentava conter. — Sem resposta. Sem reação à dor. Pupilas… — piscou — fixas, sem resposta à luz.
Evren não se moveu. Apenas seus dedos tremeram levemente, e Bahar sentiu, aproximando-se até quase tocar seu ombro.
— Chamaram o neurocirurgião — continuou Yusuf, num tom automático. — Conclusão: ausência de reflexos do tronco. Diagnóstico confirmado: morte encefálica. A manutenção da vida… — suspirou — depende apenas do ventilador.
O silêncio caiu entre eles como uma laje de concreto. Evren fechou os olhos. Não totalmente — só como quem recebe um golpe direto no coração e precisa, por um instante, esconder a dor para não desmoronar. Bahar sentiu o ar esfriar. Yusuf permanecia imóvel. Apenas um músculo na bochecha dele se contraiu — o único sinal de quem segurava um grito lá dentro.
— Por que você está aqui? — perguntou Evren.
— Eu preciso… estar aqui — respondeu Yusuf. — Aqui… eu já não posso machucar ninguém.
As palavras dele saíram tão baixas que era impossível entender — confissão, culpa ou pedido de perdão. O quarto pareceu diminuir. As paredes se aproximarem. Até o som do ventilador parecia mais fraco. Evren não tirava os olhos de Cem. Olhava o rosto imóvel… e ali ele não era médico. Era alguém que chegara tarde demais.
Yusuf trocava o peso de um pé para o outro, como se odiasse a si mesmo. Bahar sussurrou:
— Evren… olha para ele.
Evren estremeceu. Virou-se devagar, como se temesse encontrar nos olhos de Yusuf um reflexo de sua própria dor.
— Por que você está aqui, Yusuf? — repetiu.
Yusuf o encarou. Cruamente. Sincero demais para alguém acostumado a se defender.
— Porque… — engoliu seco — porque a ele… eu já não posso machucar — repetiu. — E os outros… — a voz falhou — eu posso.
Bahar aproximou-se e tocou seu ombro. Leve, como uma mãe toca uma criança que amadureceu cedo demais.
— Yusuf… — disse suavemente.
Ele soltou o ar como um soluço mudo.
— Eu não quero… que isso aconteça de novo — sussurrou, evitando olhar Evren nos olhos.
— O quê? — perguntou Evren, rouco.
— O meu erro — admitiu Yusuf.
— O caso era difícil — disse Bahar, tentando amenizar.
— Não. Eu estava… magoado — Yusuf balançou a cabeça. — Com ele. Com todos. E… eu não examinei o paciente — sua voz era baixa, mas cada palavra atingia como golpe. — E o homem… perdeu a perna — concluiu.
Evren fechou os olhos. Os dedos se cerraram até as unhas marcarem a palma.
— Yusuf — disse ele entre dentes — você devia ter vindo falar comigo.
— Eu não pensei — respondeu o rapaz, sincero. — E o senhor escolheu o Uraz.
Bahar suspirou. Evren deu mais um passo. Segurou os ombros de Yusuf e o virou de frente.
— Me escuta — disse, olhando direto nos olhos dele. — Se você errou, o erro é meu também. Eu sou seu mentor. Eu devia ter visto… que havia algo errado com você. E impedir você antes que errasse — Evren falou com calma, mesmo com o caos fervendo dentro dele. — Eu não vi. Eu não quis ver.
— Professor, eu… — tentou Yusuf.
— Yusuf — interrompeu Evren — eu não vou deixar você se perder! Você vai ser médico!
Yusuf empalideceu. Bahar oscilou um passo.
— Eu quero fazer tudo certo — murmurou Yusuf. — É o meu tio, não é? — seus olhos brilharam com lágrimas.
— Vamos fazer isso juntos — assentiu Evren.
A porta se abriu devagar, e Uraz e Siren entraram no quarto. Eles olharam para o monitor, depois para Bahar. Ela balançou a cabeça, e os dois recuaram para a parede.
Evren percorreu todos com o olhar.
— Eu preciso… — engoliu seco, a voz falhando. — Preciso tomar uma decisão.
O quarto era pequeno demais para tanto sofrimento. Claro demais para esconder o que já não podia ser negado. Evren estava à cabeceira. Não tocava Cem. Bahar permanecia ao lado dele, roçando levemente o cotovelo dele com o seu. Evren respirou fundo — fundo demais — como se esse simples ar tivesse sido a própria decisão.
— É o fim — sussurrou.
— Evren… — Bahar tocou sua mão.
— A morte cerebral foi confirmada — ele não olhou para ela. — Não há reflexos. Vamos desligar o ventilador.
— Evren… — Bahar apertou sua mão. — Espera…
Ele a olhou com os olhos vermelhos.
— Ele não está mais aqui, Bahar — murmurou. — Você entende?
Bahar assentiu, as lágrimas paradas sobre os cílios.
— Mas as meninas… — lembrou ela. — Elas precisam se despedir.
— Não — disse ele, ríspido. — Não quero que elas vejam isso.
— Evren… — ela apertou o pulso dele, — elas têm esse direito. Ele… não era só um paciente.
Evren passou a mão pelo rosto, como se quisesse apagar aquela realidade.
— Não — repetiu, mais baixo. — Já chega de dor — ele tocou a mão fria de Cem. — Ele… — sua voz sumiu — nunca fez nada de bom, Bahar. Só erros. Só destruição…
A porta se abriu, e Serhat entrou empurrando a cadeira onde Rengin estava sentada, ainda com o soro no braço. Rengin parecia exausta, mas havia clareza nos olhos.
— As meninas precisam se despedir — apoiou ela, firme.
— Rengin — pediu Evren, num quase sussurro — por favor, não.
— Cem foi amigo da Parla — lembrou Rengin, olhando para Bahar. — E foi alguém que a Umay escolheu. Mesmo que não tenha dado certo, elas têm esse direito, Evren.
Uraz e Siren ergueram a cabeça ao mesmo tempo. Bahar se encostou um pouco mais a Evren, como se lhe emprestasse força para permanecer de pé. Evren virou o rosto, como se alguém o tivesse cortado por dentro.
— Professor… — chamou Yusuf, quieto — eu fiz os exames — e todos olharam para ele. — Cem pode ser doador.
Os olhares ficaram intensos. Exigentes. Doloridos demais.
— Cem… é compatível como doador — confirmou Yusuf.
Ninguém entendeu de imediato. As palavras flutuaram no ar. Bahar levou a mão à boca.
Evren ficou imóvel como pedra.
Yusuf respirou fundo — e continuou, agora com a voz de médico que percebe que pode ser parte da cura, e não da destruição.
— O coração dele… é compatível com a paciente da sala 333 — seus olhos buscaram os de Evren. — Com a Esra Özer.
Serhat, parado junto à porta, empalideceu tanto que até as paredes pareceram estremecer. Ele deu um passo. Depois outro. Como se não acreditasse no que ouvira.
— O que… você disse agora? — sussurrou.
Yusuf sustentou o olhar.
— Eu repito — disse baixo. — O coração de Cem serve para Esra. A única chance dela está aqui neste quarto.
Bahar apertou a mão de Evren tão forte que seus dedos ficaram brancos. Evren pareceu parar de respirar. Ele olhava para Cem — e parecia incapaz de acreditar que aquele coração pudesse salvar alguém.
— Ele pode deixar algo bom para trás — continuou Yusuf, suave. — Pode salvar não só ela. Rins, fígado, tecidos — tudo pode ajudar outras pessoas. Ele pode… — Yusuf respirou fundo — pode dar uma chance a quem já perdeu a esperança.
Todos olhavam para Evren. Só para ele. E naquele silêncio — diante da morte, da vida, do amor e da culpa — Evren, pela primeira vez, pareceu um menino pequeno, forçado a escolher entre o coração e o dever. Entre o passado doloroso e a família que tinha agora. Entre o irmão e a filha de um amigo.
Seus lábios tremeram.
A linha do monitor seguia contínua, gelada, indiferente. O ventilador empurrava ar, constante, mecânico. E todos olhavam para Evren como se ele fosse o centro do universo — como se apenas sua palavra pudesse virar o destino para qualquer lado.
Ele estava imóvel. Uma estátua. Um homem a quem haviam arrancado o direito de respirar.
Bahar segurava a mão dele. Os dedos dela eram frios. Os dele — quentes, quase em brasa. Ela era a única que não desviava o olhar — porque sabia que, se desviasse, ele cairia. Ficaria sozinho com a própria culpa.
Serhat estava na porta. Ele não tinha o direito de pedir. Não tinha o direito de exigir.
Mas seus olhos gritavam: “Salva a minha menina… por favor… salva.”
— Evren… — disse Yusuf, bem baixinho. — Isso pode ser… a chance dele. Sua última coisa boa — ele pigarreou. — O senhor… sempre disse que ser médico é salvar… mesmo quando dói.
Evren fechou os olhos. Eram palavras que ele mesmo dizia aos jovens médicos — e agora voltavam como golpes. Ele respirou fundo. O peito apertou como se alguém o segurasse pelo coração. Bahar tocou sua face, forçando-o a olhar para ela.
— Evren… — sussurrou — você não está sozinho.
Evren fechou os olhos por um instante e virou-se para Cem. Passou a mão pelos cabelos dele, devagar.
— Você vai salvar outra pessoa — murmurou. — Preparem a documentação. Cem será doador.
Serhat encostou-se na parede e fechou os olhos enquanto lágrimas escorriam. Bahar abraçou Evren com força — sabendo que ele não se permitiria cair, porque ela estava segurando os dois.
A morte de um tornava-se a esperança de muitos.
Capítulo 11. Parte 3
A enfermaria se encheu de movimentos cautelosos, como se todos tivessem medo de romper o último silêncio reservado a Cem. O ar tornou-se quase palpável, como se o próprio mundo tivesse parado, à espera do inevitável.
Uraz apertou os dedos da esposa. Eles estavam com Siren perto da parede. Rostos pálidos, olhos tristes, mas neles havia aquele tipo especial de vazio que surgia quando a dor era grande demais para ser chorada. Eles não falavam — as palavras pareciam supérfluas.
Rengin, na cadeira de rodas, aproximou-se devagar. O soro balançava suavemente no ritmo de seus movimentos. Ela fitou Cem por muito tempo, com intensidade, como se tentasse memorizar cada traço, cada curva do rosto dele. A mão pousou involuntariamente sobre o ventre — um gesto quase imperceptível para os outros, mas tão carregado de esperança não dita e de medo.
Serhat permaneceu atrás dela. Ele mal conhecia Cem; suas vidas se cruzaram como sombras ao amanhecer. E mesmo assim, olhava para o corpo imóvel com um desespero de quem perde alguém da própria família. Seus lábios tremiam, mas ele não conseguia dizer nada. O coração que batia no peito de Cem podia salvar sua filha. Podia dar a ela uma chance. E esse pensamento o dilacerava por dentro.
Serhat pousou as mãos nos ombros de Rengin, e ela estremeceu levemente, virando um pouco a cabeça. Eles ainda não tinham conversado sobre o bebê, se ela deveria lutar e levar aquela gravidez adiante — mas, de forma estranha, parecia que ambos já tinham concordado em silêncio… e agora ele, apoiando-se em seus ombros, ajeitou seus cabelos, conferiu o soro, como se já tivesse decidido que aquela criança viria ao mundo… e que ele estaria ali com elas, como alguém que fez sua escolha, e ela a aceitou sem palavras.
Evren estava ao lado da cabeceira. Seus dedos tocavam de leve os cabelos de Cem — um gesto sutil, quase etéreo, como se ele tivesse medo de soltá-lo de vez. Em seus olhos não havia lágrimas, apenas um cansaço profundo, sem fundo, como se todo o peso do mundo repousasse sobre seus ombros.
Bahar estava perto, sua mão pousada suavemente nas costas dele. Ela não falava, não tentava consolar; apenas permanecia ali — apoio, âncora, presença. Seu silêncio era mais eloquente que qualquer palavra.
Yusuf permanecia imóvel do outro lado da cama. Olhava para Cem, para Evren, para Bahar, e em seu olhar misturavam-se culpa, dor e uma esperança tímida. Só hoje ele descobriu que Evren era seu verdadeiro pai. Só agora começava a entender que, enfim, fazia parte daquela família.
O silêncio se esticou como borracha, e Serhat foi o primeiro a rompê-lo.
— Eu… eu não o conhecia bem — sua voz falhou — mas… — engoliu seco — ele está dando uma chance para minha Esra. Eu… — as palavras ficaram presas, e ele não conseguiu terminar.
Evren virou-se lentamente para ele. Seus olhares se encontraram — dois velhos amigos cujos caminhos tinham se separado muitos anos atrás. Naquele silêncio havia mais do que qualquer frase poderia expressar: dor, arrependimento e uma esperança frágil de que aquela tragédia pudesse ser o início de algo novo.
— O coração dele será dela — disse Evren baixinho. — Hoje ainda, ele vai bater no peito da sua filha.
Serhat assentiu, incapaz de falar. Seus olhos brilhavam de lágrimas, e ele não tentou escondê-las. Rengin segurou sua mão com delicadeza, e ele apertou seus dedos como alguém que se agarra a uma tábua de salvação.
Aos poucos, a enfermaria foi esvaziando. Uraz e Siren saíram primeiro, seus passos desaparecendo no corredor. Rengin e Serhat ficaram por mais um instante; depois, ele empurrou a cadeira para fora em silêncio, deixando Evren, Bahar e Yusuf a sós com Cem.
Quando a porta se fechou suavemente, Evren sentou-se na cadeira ao lado da cama. Seus ombros desabaram, e por um momento ele permitiu a si mesmo uma fraqueza — cobriu o rosto com as mãos. Bahar agachou-se perto dele, sua mão pousando em seu joelho. Ela não deixava que ele enfrentasse nada sozinho. Bahar lhe dava força apenas com sua presença silenciosa.
Yusuf aproximou-se devagar. Hesitava, sem saber como se aproximar daquele homem que agora era seu pai. Nem mesmo sabia como chamá-lo naquela circunstância.
— Professor… — murmurou enfim.
Evren levantou a cabeça. Com os olhos vermelhos de lágrimas que não caíam, encarou o filho adulto com firmeza.
— Yusuf — sua voz saiu rouca, baixa. — Fique — pediu Evren. — Precisamos conversar.
Bahar entendia perfeitamente que aquela conversa era inevitável; eles precisavam falar.
O silêncio retornou à enfermaria, mas era outro silêncio. Não mais pesado, e sim vivo, cheio do que ainda precisava ser dito. Evren encarou Yusuf, e em seus olhos havia algo novo — não só dor, mas determinação.
***
— Eu… — Yusuf gaguejou. — Eu não sei o que dizer.
— Não precisa de palavras — respondeu Evren baixinho. — Aqui, elas já não bastam.
— Eu pensei… — Yusuf buscava as frases com cuidado. — Pensei que, se fosse forte, se provasse que consigo… — ele soltou o ar. — Que conseguiria ser quem você quer que eu seja.
Bahar apertou de leve o joelho de Evren, como se o incentivasse a responder.
— Yusuf — disse Evren, numa voz mansa — eu não quero que você me prove nada. Eu só quero que você esteja comigo.
Yusuf estremeceu, como se aquelas palavras o tivessem atingido.
— Mas você… — ele hesitou. — Você sempre olha pra mim como um aluno. Como alguém que precisa corresponder. O que vai mudar agora?
— Eu olhava assim porque tinha medo — confessou Evren. — Medo de que, se mostrasse que você me é querido, eu deixaria de ser médico. Deixaria de ser aquele que precisa tomar decisões.
Bahar suspirou baixinho, seus dedos deslizando pela perna dele, acalmando-o sem querer.
— Você não precisa escolher — sussurrou ela. — Você pode ser as duas coisas.
Evren fechou os olhos por um instante e depois encarou Yusuf novamente.
— Eu não sei ser pai — sua voz vacilou, mas seu olhar permaneceu firme. — Por muito tempo, eu não soube como é cuidar de alguém sem medo de perder o controle. Com a Bahar… eu ainda estou aprendendo.
Yusuf deu um passo à frente; suas mãos estavam trêmulas.
— Eu também não sei — murmurou — não sei o que significa ter um pai. Achei que Serhat… mas agora entendo que é você.
O silêncio entre eles já não parecia tão pesado. Era um silêncio onde algo novo nascia — imperfeito, frágil, mas real.
— Yusuf — Evren olhou para o corpo imóvel do irmão — eu sempre fui um péssimo exemplo de pai. Mesmo quando tive chance, não aprendi. Você não é meu único erro — continuou ele, com uma ironia amarga — mas talvez seja o mais importante.
— Não fale assim — retrucou Yusuf suavemente. — Você não pode se culpar por algo que não sabia.
— Eu não quis saber — corrigiu Evren — mas eu deveria ter aprendido a ser pai, mesmo sem ter um exemplo. — Ele passou a mão pelo rosto. — Seu erro com aquele paciente… mostrou o quanto eu falhei como mentor.
— O erro foi meu — franziu o cenho Yusuf. — Não seu.
— Não — Evren balançou a cabeça. — Nós dois sabemos que não é bem assim. Eu deveria ter percebido que algo estava acontecendo com você. Deveria ter conversado, apoiado.
Yusuf cerrou os dentes, mas ficou em silêncio.
— Eu tive medo — admitiu Evren de repente. — Medo de perder respeito se mostrasse fraqueza. Na sala de cirurgia, como professor… e como… pai.
Yusuf encontrou seus olhos.
— Você não perdeu meu respeito — disse ele, baixo. — Mesmo quando me chamou no seu gabinete, eu sabia que era porque você esperava o melhor de mim.
Evren assentiu lentamente, como se aceitar aquela verdade fosse difícil.
— Sabe do que eu mais tenho medo? — perguntou após uma pausa. — De repetir os erros dos meus pais.
— Você já não está repetindo — respondeu Yusuf com doçura. — Você é diferente.
— Por sua causa — confessou Evren, surpreendendo até a si mesmo. — Porque você me obrigou a me olhar de fora.
O silêncio retornou à enfermaria — mas agora era cheio de entendimento. Bahar se levantou e pousou a mão no ombro de Evren.
— Sabe, Yusuf… — continuou ele, quase num sussurro — eu nunca quis ter filhos porque cresci num orfanato. Porque tinha medo de não conseguir dar a eles o que eu nunca tive.
Yusuf parou, sem saber o que dizer, apenas o observando — aquele homem que mal conseguia se levantar da cadeira.
— E agora eu tenho você — continuou Evren, vulnerável pela primeira vez em muito tempo. — E a Bahar está esperando um bebê — ele ergueu a mão, e ela imediatamente apertou seus dedos. — E agora percebo que passei a vida fugindo daquilo que, na verdade, sempre quis.
Bahar se encostou em seu ombro, apertando seus dedos, sem interromper a conversa.
— Eu vi crianças crescendo ao meu redor — Evren escolhia as palavras com dificuldade. — Vi como eram amadas, cuidadas. E sempre pensei: e se eu não conseguir? E se eu repetir os erros dos meus pais? Do meu pai?
Yusuf deu mais um passo, percebendo que Evren realmente se abria para ele.
— Você já cometeu um erro — disse Yusuf baixinho. — Comigo. Você não esteve lá enquanto eu crescia.
Evren fechou os olhos, como se aquela verdade o ferisse.
— Sim — concordou. — Eu errei. Mas agora tenho uma chance de consertar — ele buscou os olhos do filho. — Com você. Com meu futuro filho.
Bahar estremeceu, aproximando-se ainda mais, apoiando-se no ombro dele.
— Você é uma boa pessoa, Evren — murmurou Bahar, sem querer interferir — só precisa de tempo para aprender a ser pai.
Evren a olhou; seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Eu tive tanto medo de viver de novo o orfanato — confessou. — De achar que não merecia ser feliz. Que não poderia dar amor aos meus filhos.
— Mas você já dá — contestou Yusuf. — Pelo seu jeito de estar aqui. Pela sua preocupação. Pelo fato de admitir seus erros.
Evren balançou a cabeça, numa mistura de dor e determinação.
— Eu quero ser melhor — disse em voz quase trêmula. — Por vocês dois — sua voz fraquejou. — Quero ser o apoio que não consegui ser para Cem. Quero aprender a ser o pai que eu nunca tive.
Yusuf deu mais um passo, sentindo que a barreira entre eles finalmente ruía. Estendeu a mão e tocou seu ombro — e Evren se levantou.
— Você vai conseguir — disse Yusuf, simples e sincero — porque você já começou.
— Eu não quero ser um pai perfeito — sussurrou Evren. — Quero ser verdadeiro. Comigo, com você, com Bahar.
Yusuf sorriu, com lágrimas nos olhos, pela primeira vez desde que começaram a falar.
— Isso já basta — disse. — Mais do que basta.
Evren estremeceu, ergueu os braços, e Yusuf se lançou em seu abraço. Bahar abraçou os dois.
— Me perdoa — murmurou Evren de repente — me perdoa por tudo — e apertou o filho adulto com força.
— E você também — Yusuf fechou os olhos, abraçando Evren.
— Nós vamos conseguir — sussurrou Bahar, escondendo o rosto no ombro de Evren e mal contendo um soluço. — O importante é que nós temos uns aos outros.
Na enfermaria nasceu uma nova quietude — uma quietude de aceitação e esperança. Um silêncio em que cada um deles, enfim, sentiu-se parte de algo maior. Um silêncio que não impedia de ouvir o pulsar de seus corações…
***
No aconchegante café do hospital, onde a penumbra era suavizada apenas pelas luzes suaves das lâmpadas, ÇAĞLA e Carter sentavam em silêncio a uma mesa pequena. Do lado de fora, uma garoa fina caía, criando uma atmosfera especial de recolhimento. Sem levantar os olhos, Çagla mexeu o açúcar no chá com cuidado.
— Fico pensando na decisão do Evren — começou ela em voz baixa. — Doar os órgãos do Cem… É tão difícil, mas talvez seja o certo.
Carter assentiu, olhando para sua própria xícara.
— É — disse calmamente. — O Cem vai poder dar uma chance a quem já não tem nenhuma. Até os pulmões…, — suspirou.
Çagla o fitou sem dizer nada.
— Se você está pensando na minha mãe… — Carter sorriu de leve. — Não, Çagla. O estado dela não permite. Nós já entendemos isso, já aceitamos.
Instalou-se uma pausa pesada, quebrada apenas pelo leve tilintar das xícaras nos pires.
— E o tiroteio no hospital? — perguntou Çagla, virando-se para a janela. — Como é que a gente supera algo assim? A Bahar. O professor Reha. A senhora Nevra.
Carter deu de ombros.
— A Bahar está bem — respondeu, a mão tremendo um pouco; ele a apoiou na mesa, mas não tocou na dela. — E, de qualquer forma… não é nem de longe o pior que já vivi.
Çagla virou-se imediatamente para ele, procurando seus olhos. Mil perguntas fervilhavam em sua mente, mas ela escolheu uma — aquela que lhe pareceu mais importante.
— Por que você voltou justamente agora? — perguntou, sem esconder a apreensão na voz. — Isso tem a ver com o Evren e a Bahar?
Carter desviou o olhar. Deu um gole no chá.
— Nossa casa pegou fogo — respondeu simplesmente. — A tia Leyla foi para Istambul. Minha mãe não queria se mudar, mas a doença avançava. E depois que a tia Leyla morreu… decidimos voltar.
Çagla assentiu, sem compreender completamente a verdadeira razão do retorno.
— E o seu filho? — perguntou com cuidado. — Ele estava preparado para mudar a vida assim, tão de repente? E a sua esposa?
Carter se enrijeceu involuntariamente.
— Eu o crio sozinho — respondeu, sem entrar em detalhes.
— E a mãe dele? — Çagla não se conteve.
— Não temos mãe — disse Carter com tranquilidade, mas havia nuances na voz que deixavam claro que ele não queria falar sobre aquilo.
Çagla baixou os olhos, percebendo que ultrapassara um limite.
— Você não sente ódio do Evren? — perguntou de súbito.
Carter a olhou surpreso.
— Deveria? — perguntou, genuinamente espantado. — Pelo quê? Por todos nós termos sofrido à nossa maneira?
— Então por que a senhora Meryem veio justo agora? Por causa da doença dela? — Çagla franziu um pouco a testa. — E o professor Reha? Ele é seu pai.
Carter suspirou.
— E como ele é, o professor Reha? — perguntou de repente, inclinando-se sem perceber na direção dela, apoiando os cotovelos na mesa.
Ele a pegou desprevenida. Çagla o encarou, tentando entender o que realmente havia por trás daquela pergunta.
— Você quer mesmo saber? — perguntou ela, surpresa.
— Quero — respondeu Carter simplesmente. — Me interessa a opinião de alguém que o conhece de perto. Ele é o marido da mãe da Bahar, sua melhor amiga.
Çagla sorriu sem querer ao lembrar-se de como o próprio professor Reha já tentara cortejá-la um dia. Baixou a cabeça, escondendo o olhar, sentindo ao mesmo tempo que algo tênue, quase imperceptível, surgia entre eles.
— Ele é um homem complicado — começou ela, escolhendo as palavras —, mas justo, muito dedicado ao trabalho. — Çagla tomou um gole de chá. — E ama muito a mãe da Gülçiçek — olhou para ele por cima da borda da xícara —, ama de verdade — repetiu.
Carter assentiu, absorvendo a informação.
— Obrigado — disse baixinho. — Pela sinceridade.
Çagla sentiu as bochechas corarem. Nem sabia bem por quê, mas de repente percebeu que Carter não a estava olhando como a amiga da Bahar… e sim como alguém em quem podia confiar.
***
Aprender a confiar um no outro — isso era uma tarefa difícil para todos eles. Evren e Yusuf saíram do quarto do Cem. Ao fechar a porta, Evren se virou e congelou ao ver Parla, Umay e Ekrem caminhando pelo corredor em direção a eles.
— O que isso significa? — sua voz saiu mais dura do que ele pretendia. — Por que vocês estão juntos?
Ele parecia ter esquecido que as meninas tinham vindo se despedir do Cem.
— Agora somos vizinhas — suspirou Umay. — O Ekrem só deu carona pra gente — explicou.
— Sim, ele gentilmente se ofereceu para ajudar — acrescentou Parla, corando um pouco e desviando o olhar para a porta do quarto.
Seus dedos apertaram o telefone com força… agora o Cem não responderia mais, não enviaria mais nenhuma mensagem, e as mensagens dela ficariam para sempre não lidas.
— Fico feliz em ajudar — sorriu Ekrem, ajeitando os óculos.
Bahar saiu do quarto do Cem e imediatamente se aproximou de Evren, tocando seu cotovelo.
— Meninas — chamou ela, olhando para Umay e Parla; acenou com a cabeça, chamando-as em silêncio.
Umay e Parla a seguiram de imediato. Yusuf acompanhou as duas com o olhar e, certificando-se de que haviam entrado, voltou-se para Ekrem.
Ekrem estava em frente a Evren, observando-o com interesse. Então, de repente, estendeu a mão.
— Professor Evren Yalkın — disse ele, ainda com aquele sorriso aberto. — Eu sou Ekrem, filho do Carter. Vamos nos conhecer? — propôs.
Evren ficou paralisado, não correspondendo ao aperto de mão, apenas encarando o rapaz — quase tão alto quanto ele, magro, de óculos grandes. Seu sobrinho… e ele não reagia. Como se tivesse virado pedra. Yusuf olhou para Evren, depois para Ekrem, e deu um passo à frente.
— Eu sou Yusuf — apresentou-se simplesmente, apertando a mão de Ekrem. — Filho de Evren Yalkın.
Ekrem sobressaltou-se… por um instante encarou os olhos de Yusuf, e então seu sorriso se alargou ainda mais.
— Então a gente tem algum tipo de ligação — respondeu, apertando firme sua mão.
— É — concordou Yusuf. — Pelo jeito, nessa família tudo é complicado.
O curto diálogo dos dois pareceu contornar Evren por completo. Ele ficou parado, observando a cena em silêncio, sentindo-se deslocado. Tão deslocado que nem percebeu quando Çagla e Carter se aproximaram. Carter suspirou ao notar o aperto de mão dos rapazes.
— Vamos — disse ele, pousando a mão no ombro do filho — agora não é o momento.
Ao ouvir isso, Evren empalideceu… não é o momento? Depois… — como se o universo ao redor insistisse em lembrá-lo de que não dava mais para adiar nada. Ele olhou para Carter, mas os dois já se afastavam. Carter, abraçando o filho pelos ombros, o conduzia para longe.
— O Ekrem é um bom garoto — comentou Çagla. — E o Yusuf também — ela deu um passo até ele e o abraçou, dando leves tapinhas em suas costas. — O filho do Evren… — afastou-se um pouco, balançando a cabeça — quem diria…
— Eu já vou — murmurou Yusuf, envergonhado, escapando do abraço de Çagla e se retirando depressa.
Sim, ele estava feliz por fazer parte da família… mas a família crescia rápido demais… a cada dia aumentava… e ele claramente não estava acostumado a tanta gente, mesmo tendo vivido na casa da Bahar, onde sempre havia movimento.
— Você não pode controlar tudo, Evren — observou Çagla com suavidade, seguindo Yusuf com o olhar. — As crianças crescem, se encontram, fazem amizades.
— Não estou acostumado… — Evren balançou a cabeça, desorientado.
— A vida muda — sorriu Çagla, abraçando-o. — E às vezes isso é para melhor, Evren.
Apertando-o com força, ela se afastou um pouco, olhando em seus olhos cansados, como se tentasse penetrar em seus pensamentos.
— Vou ver o Cem — sussurrou, abraçando-o mais uma vez antes de seguir para o quarto.
Evren ficou olhando enquanto ela se afastava, percebendo que tudo ao redor realmente mudava… e que, querendo ou não, ele teria de aprender a viver de outro jeito…
***
Ela precisava falar com ele. Meryem entrou no quarto, tentando esconder a tosse, mas a respiração irregular denunciava seu mal-estar. Caminhava devagar, quase com cuidado, como se temesse tropeçar, temesse cair. Sert Kaya estava meio reclinado nos travesseiros. Apesar da palidez, seu olhar permanecia afiado, incisivo, atento. Ela parou ao lado da cama dele, segurando firme a grade, encontrando ali algum apoio.
— Surpreendente você ter protegido a Bahar — disse ela, quebrando o silêncio. — Não esperava isso de você.
Sert Kaya não respondeu. Seu rosto continuava impenetrável. Ele olhava para Meryem por baixo das pálpebras semicerradas.
— O que você pretende fazer agora? — continuou ela. — Vai aprovar a pesquisa da Bahar? Quais são seus planos?
Ela parecia exigir dele um relatório. Ficou ali, encarando seus olhos. Sert permaneceu calado, apenas os dedos tamborilando de forma nervosa sobre o lençol branco.
— E o que será do hospital? — insistiu Meryem. — Quantas pessoas ainda precisam sofrer antes de começarmos a lutar pela vida, e não a tirá-la?
Ela tossiu, levando a mão ao peito. Uma gota de sangue surgiu em seus lábios, que ela limpou rapidamente com um lenço.
— O Timur é meu filho — disse Sert de repente, olhando para o lado. — O Uraz é meu neto. A Umay e a Parla — minhas netas. E tenho bisnetos — inclinou ligeiramente a cabeça. — A Leyla e o Mert.
Meryem franziu o cenho.
— Está armando um novo jogo, Sert? — perguntou, observando-o atentamente. — Qual é a estratégia desta vez?
Sert virou-se para ela, e Meryem viu determinação em seu olhar.
— Não estou jogando — respondeu baixinho. — Só penso em como consertar os erros do passado.
Meryem soltou uma risada curta, sem qualquer sombra de alegria.
— Consertar erros… — repetiu. — E quantos novos você vai cometer nesse processo? — ela se inclinou para a frente e tossiu novamente, agora mais forte. Com dificuldade, recuperou o fôlego e prosseguiu: — Estou em estágio terminal, Sert — sussurrou. — Câncer de pulmão. Sei que me resta pouco. Mas quero que você entenda — tudo o que fiz foi pelo futuro. Para salvar alguém. Qualquer um.
Sert a observava em silêncio, com uma expressão impossível para ela decifrar.
— Você sempre foi um enigma, Sert Kaya — murmurou Meryem, virando-se para a janela. — Mesmo agora, quando tudo está quase no fim, você continua guardando seus segredos.
Meryem respirou fundo e, como se aquele fôlego lhe devolvesse alguma força, soltou a grade da cama, permitindo-se perder o apoio, e se aproximou da janela.
— É curioso — disse ela, olhando a cidade através do vidro. — Você, que sempre valorizou a ciência, agora é contra a pesquisa da Bahar? Por quê?
— Tenho meus próprios planos — respondeu Sert, seco, sem olhar para ela.
— Na sua tentativa de fazer o bem, Sert, não acabe fazendo mal — pediu ela, sem se virar. — Pense no que eu disse — lançou Meryem por sobre o ombro. — O tempo está acabando. Para mim e para você.
— E como você pretende consertar os seus erros? — perguntou ele de repente, obrigando-a a se virar para encará-lo. — Seu filho… é filho do Reha. As notícias correm rápido — disse ele. — O que você vai fazer, Meryem?
Eles se olharam em silêncio. Os dedos dele tamborilavam no lençol como se decodificassem algo complexo. Meryem, porém, apenas endireitou os ombros, deixando claro, mais uma vez, que há muito tempo aceitara tudo o que fizera em sua vida…
***
Reha emergiu do sono tão bruscamente como se tivessem empurrado-o para fora de uma água muito profunda. O teto começou a girar, um zumbido encheu seus ouvidos e o coração disparou no peito… mas mais do que tudo o assustava o silêncio. Reha piscou, teceu o corpo, tentando focar o olhar, tentando entender em que momento havia adormecido, tentando lembrar qual foi a última coisa que ela disse, que ele disse.
— Gülçiçek? — chamou Reha, erguendo-se na cama.
Os músculos responderam com uma dor surda, o corte pareceu se abrir por dentro. Ele cerrou os dentes e sentou, deixando as pernas caírem para o chão.
— Gülçiçek — chamou de novo, mais alto.
O silêncio só aumentava o pânico. Ela não podia ter ido embora. Não agora. Não depois de tudo. Não depois que ele… que eles…
O cérebro imediatamente completou o quadro: o corredor, aquele médico de jaleco, as mãos dele segurando as mãos dela, os lábios dele encostando na pele dela… e aquele maldito beijo da Meryem, com gosto de culpa, que acabou se tornando причиной их разногласий.
As têmporas latejavam, o lado do corpo pulsava em dor surda, mas ele não prestava atenção nisso. Onde ela estava? Para onde tinha ido?
A porta rangeu. Gülçiçek entrou, abotoando o último botão da blusa. O cabelo estava um pouco despenteado, e nas bochechas havia um leve rubor. Ela parou ao vê-lo acordado.
— Você… onde estava? — a voz de Reha saiu rouca, mas nela já soavam notas de tensão.
— No banheiro — ela se aproximou da cama, mas Reha se afastou bruscamente.
— No banheiro? — ele riu, e havia tanta amargura nesse riso que Gülçiçek estremeceu. — Tanto tempo? E assim toda despenteada? — não se conteve, olhando para ela de cima a baixo.
— O que é que você está falando? — Gülçiçek se atrapalhou um pouco com o ataque dele. — Eu só…
— Só? — ele se levantou de repente, apesar da dor. — Só some por aí? Só volta assim, desse jeito?! Só resolve vestir a melhor roupa justo quando o seu marido está aqui, quase morto? Tem banheiro dentro do quarto! — lembrou, apontando para a porta.
— Eu não… — começou ela.
— Não mente para mim! — cortou Reha. — Eu lembro de tudo! — ele já mal conseguia se controlar. — Aquele médico! As mãos dele! Os lábios dele! Você foi até ele? Foi fazer massagem?
— E você? — Gülçiçek ergueu o queixo de repente e chegou mais perto. — Você lembra? De como a Meryem te beijou na boca? Bem ali, perto da casa da minha filha! Eu vi! Todo mundo viu, Reha! Viram, e você nem a afastou!
Ele congelou por um instante, mas logo a fúria voltou a acender-se em seus olhos.
— Foi… coisa de momento — soltou ele, com um leve traço de culpa. — Ela só…
— Só?! — Gülçiçek deu mais um passo, a voz tremendo. — Só te beijou! Na boca! E você nem tentou pará-la!
— Você não entende! — ele elevou o tom um pouco.
— E você?! — a voz dela subiu. — Acha que eu não vejo como você olha para ela? Como revive o passado de vocês e fica calado? Vocês têm um filho, Reha! Um filho, sobre o qual você nem sabia! E eu… eu estou aqui, do seu lado, e você… — ela não terminou a frase, fitando os olhos dele.
— Isso não significa nada! — ele respirava com dificuldade. — Nada!
— Para você — talvez. E para mim? — a voz dela quebrou. — Eu estou aqui todo dia, eu cuido de você, e você… você nem percebe! Mas bastou ela aparecer, e toda a sua atenção é só para ela!
— Você está com ciúmes? — ele a encarou com amargura. — Depois de tudo que aconteceu? Depois de você ter permitido que ele…
— Permiti?! — Gülçiçek agarrou uma cadeira, apertando o encosto com tanta força que os dedos ficaram brancos. — Você tem ideia do que está dizendo? Eu nunca… nunca dei motivo para ninguém!
— E ele? — Reha apontou para a porta. — Aquele médico? As mãos dele no seu corpo? Os lábios dele nas suas mãos?
— Ele só estava fazendo massagem, Reha! — ela empurrou a cadeira para o lado. — Só isso! E o seu beijo com a Meryem — isso também foi “só isso”?!
Eles ficaram frente a frente, quase sem ar — de raiva, de dor, de medos que nunca tinham sido ditos. O ar entre eles parecia vibrar, como uma corda esticada ao máximo.
Gülçiçek pegou a bolsa.
— Melhor você deitar, Reha — ela apontou para a cama.
Gülçiçek se virou, mas não deu nem um passo.
— Aonde você vai? — ele não tinha a menor intenção de ouvir. Algo quebrou dentro dele. — Vai ver o massagista? — a voz ficou rouca. — Direto para o consultório dele, para ele beijar suas mãozinhas?
Gülçiçek parou, virou-se lentamente.
— Você enlouqueceu de vez? — perguntou em voz baixa. — Está com febre? — ela tocou a testa dele tão rápido que ele não teve tempo de reagir, de se afastar, de agarrar a mão dela.
— Eu estou ótimo — indignou-se Reha. — Acabei de acordar e a minha esposa sumiu. Mas lembro muito bem como você ficou lá no corredor enquanto eu estava aqui deitado — a voz dele ficou dura — e outro homem beijava suas mãos. Suas mãos, Gülçiçek. As mesmas mãos com que você me serve o chá. E agora você está indo embora! Para onde? Para quem?
— Para casa — respondeu ela, se controlando com esforço. — Quero tomar banho. Eu estou cheirando a hospital.
Reha empalideceu.
— E ele vai ter tempo de sentir sua falta? Você está se preparando para a massagem? — ele se aproximou ainda mais. — Massagem demora quanto? Meia hora? Uma hora? Você vai tirar a roupa lá ou já tirou o suficiente?
Os olhos dela brilharam. As bochechas ficaram vermelhas. Ela deu um passo na direção dele.
— Você… o que foi que você acabou de dizer? — perguntou ela, calma demais, até.
— Eu disse — a voz dele quebrou — que eu vejo como olham para você. Como seguram suas mãos. Como as beijam! E você fica lá, sorrindo, como uma garotinha — ele fechou os punhos. — E não vem me contar historinha de “só massagem”.
— Só massagem, isso mesmo — a voz dela ficou cortante. — E não ouse dizer que eu tirei a roupa para ele! Acha que eu enlouqueci de vez?
— E eu, no que você acha que estou? — ele avançou, inclinando-se sobre ela. — Acha que eu estou bem? Você some, não diz uma palavra, — ele apontou para a porta, — e aquele sujeito já estava beijando seus dedos. Hoje é um, amanhã é outro. Enquanto eu estou aqui, você resolveu recuperar o tempo perdido, é isso?!
— Você… — ela ergueu o queixo — você está me acusando de traição agora?!
— E como você chamaria isso? — ele não recuou.
O rosto de Gülçiçek mudou, ela largou a bolsa no chão.
— Então vamos ser honestos, Reha — a voz dela subiu; ela praticamente cutucou o peito dele com o dedo. — O beijo com a Meryem — o que foi aquilo? Anestesia? Procedimento terapêutico? Ou nostalgia da juventude?
Reha cambaleou, como se tivesse levado um soco no estômago.
— Isso… — ele gaguejou — não tem nada a ver…
— Nada a ver? — um meio sorriso tocou os lábios dela. — Ela te beijou na boca. Eu vi tudo. E não foi a mão, Reha. Não foi nos dedinhos — ela mexeu os dedos bem na frente do rosto dele. — Foi na boca — ela quase tocou os lábios dele, mas puxou a mão de volta, como se tivesse se queimado.
Ele franziu um pouco a testa, mas não parecia disposto a recuar.
— Ela é o amor da minha juventude — soltou Reha. — Nós…
— Vocês têm um filho — cortou Gülçiçek. — Surpresa, né? Você só ontem ficou sabendo, e ela sabia há quarenta anos! — a voz dela tremeu. — E todo esse tempo ela andava por aí com esse segredo, enquanto eu… — ela respirou de forma trêmula — eu fazia bolo para você, passava suas camisas e pensava que você era meu marido. Só meu. E agora, pelo visto, eu tenho que dividir você com uma lembrança de quarenta anos atrás, é isso?
— Eu nunca! — Reha elevou a voz. — Nunca dividi você com ninguém! Eu mesmo estou em choque! Tenta, por um segundo, imaginar como eu me sinto! O que eu estou sentindo! Um filho. Um neto, e eu nem sei como ser pai, quem dirá avô.
— E tenta você pensar em mim, Reha — os olhos de Gülçiçek faiscaram — ter que ver a sua “amor da juventude” pendurada no seu pescoço, te beijando como se só tivesse continuado de onde vocês pararam quarenta anos atrás. Você nem a afastou, Reha. Você simplesmente ficou parado.
— E você não puxou a mão — retrucou ele. — Enquanto aquele sujeito beijava seus dedos, você também ficou parada. Você sorriu para ele, Gülçiçek. Tão quente. Com suspiro — a respiração dele ficou pesada. — E a sua voz — ele balançou a cabeça.
— Eu… — ela quis explicar, mas um nó fechou sua garganta. — Naquele momento eu estava pensando em você, Reha! — confessou. — Enquanto ele resmungava alguma coisa, eu pensava que você podia parar de respirar de novo! Ou que o seu coração podia parar!
— Muito convincente — disse ele, frio. — Você tem um talento… ficar pensando em mim nos braços de outros homens.
Ela chegou ainda mais perto, quase colada nele.
— Você quer que eu me justifique agora? — perguntou Gülçiçek. — Depois de ter visto ela te beijar? Depois de descobrir que você tem um filho sobre o qual nunca soube porque estava ocupado demais consigo mesmo? Médico, professor, herói… E eu sou quem?
— Você é a minha esposa! — explodiu Reha. — Minha! E mesmo com um corte no lado, eu não consigo simplesmente fechar os olhos, porque fico vendo você sorrindo para aquele… massagista. Eu tenho ciúmes, sim! Eu sou um idiota ciumento, me chama assim se quiser! Mas eu — as mãos dele apertaram os ombros dela — eu não vou deixar ninguém encostar em você desse jeito!
— E eu não quero te dividir com ninguém! — quase gritou Gülçiçek, apoiando as mãos no peito dele. — Nem com a Meryem, nem com o seu passado!
— Você já está dividindo — rosnou ele por entre os dentes. — E, pelo visto, está gostando.
Ela se sacudiu como se tivesse levado um tapa. Gülçiçek agarrou a gola do pijama dele.
— Como você ousa… — sussurrou, encarando-o, pronta para sacudi-lo.
— Assim mesmo — ele apertou ainda mais seus ombros, como se já não fosse capaz de parar. — Porque eu te amo até a loucura! Até a idiotice! Até o ponto em que teria sido melhor morrer do que ver isso!
— Não fala assim! — ela amassou ainda mais o tecido do pijama. — Não ouse!
— E se você for embora? — ele olhava diretamente nos olhos dela. — E se você for embora com ele? Com qualquer outro? Eu… eu… — o ar lhe faltou.
— Eu vou embora?! — exclamou Gülçiçek. — Depois de ter ficado segurando a sua mão quando você estava entre a vida e a morte?! Depois de ver outra mulher beijando o meu marido, e eu nem ter o direito de fazer uma cena porque você estava ferido?! De não poder te dizer nada?!
Reha tentou responder, mas a respiração se descompassou. Eles ficaram ali, agarrados um ao outro — adultos, teimosos, com aquele mesmo brilho de loucura nos olhos, próprio de quem aprendeu a amar tarde demais.
Eles nem perceberam quando bateram à porta, e Bahar e Evren entraram no quarto. Os dois pararam por um instante, surpresos, ao ver Reha, pálido como o lençol, em pé, segurando com força os ombros de Gülçiçek, enquanto ela amassava a gola do pijama dele como se quisesse sacudi-lo.
— O que está acontecendo aqui? Vocês enlouqueceram de vez?! — Bahar correu até eles. — Mãe, ele acabou de passar por uma cirurgia!
— Pergunta para ele quem é que enlouqueceu aqui! — Gülçiçek não afrouxou os dedos, mas lançou um olhar para Bahar. — Deixa ele contar tudo!
— É ela que tem que contar quem anda beijando a mão dela! — não ficou atrás Reha.
— Professor, por favor — Evren segurou delicadamente os pulsos de Reha.
— Chega! — Bahar literalmente se enfiou entre os dois, segurou Gülçiçek pelos cotovelos e tentou tirá-la do lugar. — Mãe — ela a encarou. — Pronto, por favor, respira, depois vocês resolvem quem beijou quem! Vamos sair.
— Eu não vou a lugar nenhum — insistiu Gülçiçek.
— Você vai comigo — sussurrou Bahar. — Você vem comigo!
Já junto da porta, Gülçiçek olhou para o marido; os olhos dela estavam cheios de mágoa, amor, raiva, medo. Em resposta, encontrou o mesmo olhar nele.
— Não ouse morrer — sussurrou Gülçiçek. — Eu nunca vou te perdoar por isso!
— Não ouse sorrir para ele — devolveu ele num fôlego e sentou na cama. — Para nenhum deles! Para ninguém!
Bahar empurrou Gülçiçek para o corredor e fechou a porta atrás de si, deixando Evren e Reha no quarto. Eles ficaram em silêncio, só se ouvia a respiração pesada dos dois…
***
Evren conferiu o corte, trocou o curativo, tentando não prestar atenção aos dedos trêmulos de Reha, à respiração irregular.
— Me escuta — disse Evren em voz baixa. — Você está a ponto de explodir, e ela está lá fora com a Bahar. Dêem um tempo um ao outro.
Reha cerrou os punhos, olhando na direção da porta por onde tinham saído Gülçiçek e Bahar. O peito subia e descia pesadamente, e nos olhos dele fervia uma mistura de fúria e desespero.
— Ela… ela não entende — sussurrou.
— E você? — suspirou Evren. — Você mesmo entende? Entende a ela? A si mesmo?
Reha virou o rosto para a janela. Evren prendeu os sensores e, no silêncio do quarto, voltou a soar o bipe constante do monitor, marcando as batidas de um coração que parecia estar se partindo.
— Então, professor — disse Evren calmamente — bem-vindo ao clube.
— Que clube? — Reha continuava olhando pela janela, os dentes cerrados.
— Dos homens que amam tanto que, de medo, perdem a cabeça — respondeu Evren. — E fazem besteira enquanto as mulheres salvam a vida deles.
Reha soltou um suspiro pesado e se voltou para Evren.
— Você acha que a gente vai sobreviver? — perguntou com a voz rouca.
— Se vocês brigarem menos e conversarem mais — disse Evren, ajeitando o travesseiro — aí tem chance.
Ele se calou, dando a Reha a oportunidade de simplesmente respirar. Reha ficou imóvel, olhando para o teto como se fosse a única superfície firme à qual ainda podia se agarrar. Nem piscava. Só respirava, de forma ritmada, mas alta demais, como se cada inspiração custasse um esforço enorme.
Evren pegou uma cadeira e colocou ao lado da cama. Ficou um momento em pé ali, com as mãos nos bolsos, e só então se sentou.
— E aí? — foi Reha quem quebrou o silêncio primeiro. — Vai… me salvar de mim mesmo?
— Só não quero que você morra de burrice — respondeu Evren.
Eles ficaram quietos por algum tempo, até que Reha soltou o ar.
— Ela olhava para ele daquele jeito — disse, com dor na voz. — Eu não devia… — esfregou as têmporas com os dedos — mas foi como se tivessem tirado o chão debaixo de mim.
— Sei bem como é — Evren inclinou-se um pouco na direção dele.
— Eu pensei… — ele interrompeu a frase, engoliu seco. — Penso que, se um dia ela for embora… eu… não levanto mais.
Evren não o interrompeu, apenas escutava.
— Eu vi — continuou Reha, mais baixo — ele… a mão dela… — e a voz se quebrou, deixando claro que, além do ciúme, havia um medo brutal. — Enquanto eu estava desacordado… ela estava ali com ele, tão perto. Como se eu… — ele parou — como se eu já não existisse.
— Ela tinha medo por você, professor — disse Evren suavemente. — Não por ele.
— E eu fiquei apavorado por ela — confessou Reha. — Eu nem pensei quando vi ela se jogando na frente das balas, eu só queria uma coisa: que ela estivesse viva — murmurou.
Evren passou a mão pelo rosto, cansado.
— Sabe — começou — às vezes… nesses momentos… — ele escolhia as palavras com cuidado. — Amor não é calor. Nessa hora em que você tem medo de perder, ele é mais como uma faca.
Reha inspirou fundo, pesadamente. Ele entendia. Entendia bem demais.
— Eu também vi… a Bahar com outro — continuou Evren. — Na época, com o Timur. E pensei que… acabou — pigarreou, limpando a garganta. — Que eu simplesmente… não era tão necessário para ela quanto ela… para mim.
— Mas você não a deixou ir — Reha o encarava com atenção.
— Deixei, sim — Evren baixou os olhos para o chão. — Depois trouxe de volta… — balançou a cabeça. — E ainda estou trazendo de volta. Já você, não! — na voz dele surgiram notas teimosas. — Você não vai deixá-la ir!
Reha fechou os olhos.
— Eu amo ela — murmurou, sem abri-los. — É ridículo… na minha idade. Amo de um jeito que as pernas amolecem. De um jeito que o coração… parece que está aprendendo a bater de novo — a voz falhou, ele se calou. — Amo tanto que nem a morte deu conta de parar. É isso.
— Então não machuque ela — Evren voltou a se inclinar na direção dele.
Reha abriu os olhos devagar, como se só agora estivesse voltando de uma cirurgia pesada — só que a cirurgia não era no corpo, e sim na alma.
— Eu… tenho medo — sussurrou. — Medo de não ser nenhum presente. Medo que ela perceba que errou. Que eu… seja demais… — calou-se, procurando a palavra.
— Vivo demais — sugeriu Evren.
— Vivo — repetiu Reha, com um leve sorriso.
— Ela ama você — sorrindo também, disse Evren. — Até tremer. Até ficar com raiva. Até gritar. A ponto de ter ciúmes até do seu passado. Mulheres assim a gente não deixa escapar, professor.
Reha virou o rosto e voltou a encarar o teto.
— Evren — sussurrou, sem olhar para ele — eu… tenho um filho — essas palavras lhe custaram esforço. — Quarenta anos… e eu não sabia dele.
Evren estalou o pescoço, desconfortável. Entendia Reha bem demais… ele próprio tinha um filho de quem não soube… de quem não quis saber.
— E agora? — perguntou Evren, percebendo como as histórias dos dois se pareciam. — Vai perder a esposa por causa de um passado que não tem como mudar?
— Eu… não sei — admitiu Reha. — Só sei que… não vou aguentar… se a Gülçiçek for embora.
— Ela não vai — sorriu Evren. — Não depois do que aguentou hoje — levantou-se e empurrou a cadeira para junto da parede. — Ela ama você. Eu vejo isso. Qualquer cego veria.
— Por que… ela ainda está comigo? — perguntou Reha, como se não entendesse ou não quisesse entender.
— Porque você é o único homem na terra capaz de deixá-la maluca — sorriu Evren —, capaz de tirá-la do sério, fazê-la chorar e, mesmo assim, continuar sendo aquele para quem ela vai correr primeiro quando algo acontecer com ele.
Reha fechou os olhos e, pela primeira vez no dia, soltou o ar de verdade, como se até então nem tivesse conseguido respirar normalmente.
— Evren… — disse baixo — obrigado.
— Não agradece, não — deu de ombros Evren. — Agora nós… somos parentes, querendo você ou não.
— Detesto essa palavra — confessou Reha.
— Eu também — retrucou Evren, calmo — mas ela não vai desaparecer.
Evren apoiou o ombro na parede. Dois homens, cada um com a própria tempestade por dentro, estavam lado a lado e, talvez pela primeira vez em muito tempo, começavam a entender alguma coisa um do outro…
***
Duas mulheres se entendiam sem palavras, porque um dia já tinham passado por essa dor — amar tanto, que chega a dar medo respirar. O consultório de Bahar era pequeno demais para dois corações que tentavam acomodar dentro de si medo demais.
Bahar fechou a porta e se aproximou de Gülçiçek, mas não tocou nela, dando-lhe espaço para voltar a себе. Gülçiçek deixou os braços caírem sem forças, olhava pela janela, mas o olhar estava vazio, como se tudo o que ainda a mantinha de pé tivesse ficado lá, no quarto de Reha.
— Mãe — disse Bahar baixinho, и Gülçiçek estremeceu, como se Bahar tivesse tocado uma ferida aberta.
— Eu… — ela soltou o ar, fechando os olhos por um segundo, como se procurasse dentro de si os últimos restos de força. — Eu estou aqui. Você não faz ideia… de como eu estava… — não terminou a frase, balançou a cabeça.
Bahar pousou com cuidado as mãos nos ombros dela, abraçando-a de leve por trás.
— Eu… — Gülçiçek passou a mão pelo rosto, como se quisesse apagar dele as marcas de outras mãos — eu vi… como ela o… — a voz dela falhou.
Ela fungou, como se a própria lembrança daquele beijo estivesse entalada na garganta e não a deixasse falar. Bahar a abraçou com mais força.
— Sabe… quando ele estava todo ensanguentado… tão… branco… — Gülçiçek tremia, falando baixo, com medo de разрушить себя окончательно. — Eu achei que não ia aguentar, que aquele seria o último dia em que eu veria ele vivo — ela fechou os olhos. — E depois, na minha cabeça, aquela cena, como se eles simplesmente tivessem continuado de onde pararam quarenta anos atrás.
Gülçiçek entrelaçou os dedos com força; Bahar apoiou o queixo no ombro da mãe.
— Você ficou com medo — sussurrou ela.
— Eu pensei que ele fosse embora — respondeu Gülçiçek quase sem voz. — Simplesmente ir embora para aquele lugar onde está o passado dele… a juventude dele… tudo o que existia antes de mim — agora ela, de verdade, começou a soluçar. — Eu me senti… a mais.
— Você nunca foi a mais — Bahar fechou os olhos e engoliu seco, lutando с внезапным приступом тошноты.
— E você? — perguntou Gülçiçek quase em desespero. — Você mal conseguia ficar em pé na frente dele. Você está grávida, Bahar. Você está grávida, e eu… eu nem consegui te abraçar. Nem consegui perguntar se você estava pelo menos respirando — ela tocou as mãos da filha. — Eu fiquei tão assustada por você. Eu tenho tanto medo de te perder — confessou Gülçiçek.
Bahar a fez sentar-se com cuidado numa cadeira, pegou outra, puxou para perto e sentou-se em frente a ela.
— Mãe, eu estou viva — ela apertou as mãos dela. — E com o bebê está tudo bem.
— E se não estivesse? — Gülçiçek disse isso num sussurro que soou mais forte que um grito. — E se eu tivesse perdido você no mesmo dia em que podia perder ele? — ela apertou as mãos da filha. — Eu não teria suportado, Bahar.
Por dentro, tudo nela tremia. Bahar inclinou-se e, com cuidado, puxou Gülçiçek para um abraço, sem movimentos bruscos, sem palavras лишних. Gülçiçek apoiou a testa no ombro da filha.
— Eu sou forte, sim — sussurrou — mas hoje… eu sou só uma mulher e uma mãe que ama demais o marido e a filha.
Bahar entendia isso как никто другой, porque сама жила на грани entre amor e medo. Bahar passou a mão pelo braço de Gülçiçek, devagar, quase sem tocá-la.
— Mãe… você entende, né… — ela procurou o olhar da mãe. — O que você fez lá…
— Chega — Gülçiçek fez um gesto com a mão. — Qualquer mãe…
— Não — Bahar não deixou que ela se escondesse atrás de uma frase feita. — Não qualquer mãe — apertou ainda mais suas mãos. — Você se jogou na frente das balas — disse Bahar baixinho. — Sem pensar. Sem hesitar. Simplesmente… se colocou entre mim e a arma — Bahar olhava direto nos olhos dela. — Mãe, você me cobriu com o próprio corpo.
Gülçiçek desviou o olhar, como se as palavras fossem pesadas demais para carregar.
— Você podia ter morrido — continuou Bahar num sussurro. — E o meu coração quase parou quando eu vi você…
— Eu sou mãe — suspirou Gülçiçek. — E você é minha menina. Também mãe. Eu… — Gülçiçek levantou a mão e tirou uma mecha de cabelo do rosto da filha. — Eu ficaria ali na frente mil vezes, sem pensar.
Bahar inclinou-se, e suas testas se encostaram.
— Eu também ficaria, se fossem a Umay, o Uraz — admitiu ela e, depois de soltar o ar, acrescentou: — o Yusuf. A Parla.
Essa frase ficou entre elas como uma confissão: обе были mães и, в самой глубине души, одинаковыми. Gülçiçek tentou sorrir, mas не conseguiu.
— E você ficou lá… grávida… e nem me contou — soluçou Gülçiçek.
— Eu não tive tempo — sussurrou Bahar. — E eu não queria que você se preocupasse, você… você já passou por coisa demais.
— Passei — Gülçiçek riu através das lágrimas. — E ainda vou passar. Nós, mulheres, seguramos o mundo nos ombros, enquanto os homens disputam para ver de quem o coração bate mais alto.
— Mãe… se não fosse você, o Reha… se não fosse a Nevra… — nos olhos dela brilharam lágrimas, a voz ficou rouca — o Sert Kaya… — ela balançou a cabeça. — Todos vocês me protegeram.
— A gente só fez o que tinha que fazer — respondeu Gülçiçek. — A gente protegeu o que é nosso, de casa — Gülçiçek encostou a palma na bochecha de Bahar, como fazia na infância. — E agora você… — a mão dela desceu até a barriga da filha. — Agora você protege dois.
— Mãe — Bahar abraçou Gülçiçek e se apertou contra ela.
Bahar ficou em silêncio, olhando para frente, mas não via nada; na frente dos olhos estava só aquele momento em que Sert Kaya deu um passo à frente e a abraçou, recebendo no próprio corpo a bala que era para ela.
— O Reha… é compreensível. Até a Nevra, talvez, dá para entender — ela mexeu levemente a cabeça. — Mas o Sert… por quê? Por que ele me protegeu com o próprio corpo?
— Não sei — suspirou Gülçiçek, levando a mão ao peito, onde o coração doía tanto que ela mal conseguia respirar. — Não faz sentido, não combina com ele, mas com certeza ele tinha um motivo — Gülçiçek puxou Bahar de novo para seus braços e começou a fazer carinho nas costas dela, como se acalmasse uma criança pequena. — Esse tipo de gesto nunca é por acaso, sempre tem um motivo.
As duas queriam saber a verdadeira razão daquele gesto, e mesmo assim Gülçiçek suspirou outra vez.
— Sabe… — a voz dela ficou mais baixa — eu sou forte, Bahar. Eu já aguentei muita coisa, mas… quando eu vi aquela mulher, a Meryem, beijando ele… eu… — ela parou, incapaz de terminar a frase, e Bahar esperou, paciente. — Doeu tanto — confessou, enfim. — Como se… tivessem me traído. Quarenta anos… ela viveu dentro das próprias lembranças, e pra quê? O que ela quer, Bahar? O que essa mulher quer? Por que voltou justamente agora? Por que comprou uma casa do lado da sua? Eu… eu tenho medo, Bahar. Entende? — ela levou a mão ao peito e olhou nos olhos da filha adulta. — Eu sou forte. Sempre fui. Aguentei a solidão, as decepções, as traições do meu marido, a tua doença, as tuas cirurgias, o acidente em que você quase morreu. Eu achava que pronto, nada mais ia me quebrar — ela fechou os olhos e continuou sem abri-los: — mas eu quebrei. Ele me quebrou.
— Mãe… — Bahar inclinou-se na direção dela.
— Não, deixa eu terminar — Gülçiçek levantou a mão, ainda de olhos fechados. — Quando eu vi ela… essa Meryem… beijando ele… Bahar, eu me senti tão fraca, pensei que eu nunca ia conseguir competir com o passado dele.
— Mãe — Bahar apertou as mãos quentes dela, levou-as ao próprio rosto e encostou-as nas bochechas, olhando diretamente em seus olhos.
— E seria tão fácil — Gülçiçek não tirava os olhos do rosto da filha. — Eles têm uma história. Juventude. Um amor. Um filho que ele não sabia que existia. Um neto. E eu? Eu entrei na vida dele quando a gente já tinha passado dos sessenta. Você faz ideia do medo que dá pensar que podem te trocar pelo passado?
— Eu entendo mais do que você imagina — suspirou Bahar.
— E eu pensei: ela veio porque percebeu que quer ficar perto dele — continuou Gülçiçek, como se nem tivesse ouvido a filha. — E eu… eu sou só a esposa dele. Um acidente no último capítulo.
Bahar soltou as mãos dela e segurou o rosto da mãe entre as próprias mãos.
— Você não é um acidente! — afirmou Bahar com certeza. — Mãe, você é a mulher que ele ama. Entende? Ama a ponto de ter ciúmes até tremer. Até sangrar. Até enlouquecer.
— E você… — Gülçiçek nem percebeu que as lágrimas escorriam pelo rosto; ela olhava para a barriga de Bahar. — Você quase morreu. Quase. E eu nem consegui perguntar — como você está? — Gülçiçek encostou os dedos nos lábios da filha, не давая ей сказать, и продолжила сама: — Eu estava tão presa na minha própria inveja… na minha própria dor… que deixei passar a tua.
— Mãe, eu estou aqui. Eu estou viva. E o bebê… também — suspirou Bahar. — Nós estamos bem. Todos nós.
— Eu tenho mais medo por você do que por qualquer um — призналась Gülçiçek. — O tiroteio… aquele homem… — a voz dela falhou.
— Calma — Bahar a encarou. — Eu estou aqui com você. Nós já passamos por tanta coisa, vamos passar por essa também.
Gülçiçek assentiu, e as duas permitiram a si mesmas serem fracas, permitiram falar dos próprios medos abertamente, sem sombra de fingimento…
***
As sombras das persianas se projetavam no chão, e mesmo assim o quarto se enchia da luz macia do pôr do sol. Nevra estava deitada na cama, enrolada no cobertor. O rosto parecia ainda mais pálido contra os travesseiros branquíssimos. Ela ouviu os passos dele antes mesmo que ele aparecesse no vão da porta.
Nevra tentava não demonstrar interesse… e ainda assim ele conseguia surpreendê-la, sempre de novo. Ismail entrou com uma bandeja nas mãos. Sobre ela, velas, copos finos de chá e şekerpare embebidos em calda, macios, ainda quentes. Uma sobremesa para comer com as mãos, impossível de servir sem algum toque. Uma sobremesa que se desfazia na calda, espalhando um perfume doce pelo quarto.
— Trouxe chá para você — a voz dele soou tímida, com uma doçura incomum, como se ainda temesse o frio e a distância dela.
Nevra chegou a entreabrir os lábios, pronta para responder com um tom indiferente, mas as palavras pareceram ficar presas na garganta.
— Obrigada — disse baixinho, e a própria voz lhe soou estranha.
Ismail colocou a bandeja sobre a mesinha de cabeceira. Nevra permaneceu em silêncio. Apenas observava. Não o expulsou. Não desviou o olhar. E isso já era uma pequena vitória. Ismail sentou-se na beirada da cama — muito perto, mas sem tocá-la. Então estendeu a mão e tomou, com cuidado, a palma dela. Ela se enrijeceu, mas não recuou. Os dedos só estremeceram de leve, como se perguntassem se era permitido confiar.
— Vamos reescrever esses momentos — sussurrou ele, obrigando-a a encará-lo. — Agora eu estou aqui — seu dedo deslizou devagar pelo pulso dela, como se tocasse um nervo sob a pele. — Eu vejo você — pressionou levemente o centro da mão dela com a ponta do dedo. — Eu escuto você — o polegar percorreu suavemente a linha da vida, como se lesse o destino dela. — Eu estou com você.
— Ismail — Nevra estremeceu.
Ele pegou um pedaço de şekerpare e levou até os lábios dela.
— Prova — pediu, aproximando-se um pouco mais.
Ela quis segurar a mão dele, quis dizer “eu mesma”, mas se conteve, não disse nada. Os lábios tocaram a şekerpare, a calda se espalhou na língua, quente, doce… enjoativa, como aquele momento para o qual ela não estava preparada.
Ismail a observava com atenção, notou quando a respiração dela mudou, quando o olhar suavizou um pouco. Pegou outro pedaço e o levou à própria boca, muito devagar, como se não fosse uma sobremesa, mas o toque dela.
— Nevra — ele se inclinou ainda mais para perto — lá, no salão — baixou o olhar — e na minha casa, eu me perdi — murmurou. — Mas eu quero que seja você a escolher quais momentos ficam — Ismail virou-se para a bandeja e acendeu as duas velas.
Nevra seguia cada um de seus movimentos. A chama vacilou e se refletiu em seus olhos.
— Você diz que se sente invisível — continuou ele. — Então escuta — Ismail envolveu as mãos dela com as suas. — Essas velas são para você saber que é a minha luz — disse, olhando fundo em seus olhos. — Eu não quero que a escuridão do mal-entendido fique entre nós. Eu não vou deixar! — sem desviar o olhar, pegou uma das velas e aproximou da face dela. — Assopra — pediu.
Ela inclinou um pouco a cabeça, sem entender muito bem o que ele queria, e Ismail apenas esperou, paciente, até que ela confiasse… e ela, depois de suspirar, apagou a chama devagar.
— Esta — disse ele, mostrando a vela apagada — é por todos os momentos em que eu não te protegi — sussurrou. — Que fiquem lá, no passado.
Os olhos dela brilharam, e ela olhou para a segunda vela.
— E esta — ele tocou o fogo com a ponta dos dedos e logo afastou a mão — eu vou deixar acesa — virou-se de novo para ela. — É a promessa de que eu vou cuidar de você — murmurou Ismail.
Nevra permanecia calada, mas a mão tremeu; ela se moveu, e sua palma pousou, bem devagar, sobre a mão dele. O polegar dela deslizou pela pele dele. Um gesto delicado, frágil. Não era uma promessa, mas também não era recusa.
— E depois? — perguntou em voz baixa.
Ismail sustentou-lhe o olhar.
— Depois — soltou o ar, como se se aliviasse — nós vamos para Izmir — inclinou-se para ela, o sopro dele roçando a bochecha dela — e lá a gente se casa.
Nevra ficou imóvel, não de medo, mas pela consciência de que, depois de tanto tempo, de repente se sentia simplesmente uma mulher: alguém que queriam proteger, alguém de quem se importavam. Ela suspirou, ergueu a mão e tocou o rosto dele.
— Então… — sussurrou — me abraça — pediu.
E Ismail a abraçou, com cuidado, com ternura, como se soubesse que cada toque seu agora reescrevia não um momento, mas uma vida inteira. O coração dela acelerou. O abraço dele era quente, seguro. Ele afundou o rosto nos cabelos dela, respirando o perfume.
— Eu nunca mais vou te deixar ir — sussurrou Ismail.
— Não me deixa — respondeu Nevra, apertando-se ainda mais contra ele.
Eles se voltaram um para o outro devagar, com timidez, e os lábios se encontraram num beijo suave, e todos os não ditos se dissolveram naquele instante. O tempo pareceu parar para os dois, deixando-os sozinhos naquele espaço morno, cheio de luz. Ismail a apertou ainda mais, como se temesse que ela sumisse. Nevra se enroscou nele, sentindo a dor se desfazer, sentindo a confiança voltar, devagar.
— Eu te amo — murmurou ele.
— E eu a você — suspirou ela, permitindo-se, enfim, ser fraca.
E todas as barreiras caíram, deixando apenas o amor dos dois, agora iluminado por uma nova luz de compreensão e perdão…
***
A luz piscou, e o silêncio no corredor pareceu incomum; normalmente se ouviam passos, vozes, gente passando, mas ali era como se tudo tivesse congelado por um instante.
Bahar saiu do próprio consultório e fechou a porta atrás de si. Evren imediatamente voltou o olhar para ela. Ele estava encostado à parede ao lado da porta, braços cruzados sobre o peito.
— Você acalmou ela? — perguntou ele em voz baixa.
Bahar assentiu, aproximando-se.
— E você… acalmou o Reha? — devolveu a pergunta.
Evren logo segurou o braço dela, notando a palidez.
— Aquele teimoso quase morreu de ciúmes — eles começaram a caminhar lentamente pelo corredor — mas agora está respirando um pouco melhor.
Eles ficaram em silêncio e apenas seguiram adiante.
— Então foi por isso que você chamou ela? — resmungou Evren, franzindo o cenho.
— O quê? — Bahar, lutando contra a náusea, nem entendeu de imediato de quem ele falava.
— A Meryem! — disse Evren entre os dentes. — Foi você quem chamou ela.
Bahar expirou devagar pelo nariz, tentando manter a respiração estável.
— Ela é médica — respondeu baixinho. — Ela é sua tia — lembrou Bahar.
— Isso é um pesadelo — murmurou ele.
— Evren — Bahar parou.
— O quê? — ele nem tentou suavizar o tom. — Essa mulher apareceu e metade do hospital pegou fogo, a outra metade está morrendo de ciúmes uns dos outros!
— Ela contou ao professor sobre o filho dele — disse Bahar, inclinando um pouco a cabeça.
— E beijou ele! — irritou-se Evren.
— Nós todos vimos! E depois? O que mais, Evren? — ela o encarou.
— Se o professor começar a conviver com ele e… — Evren não terminou, passando a mão pelo rosto.
— Você tem medo de que isso traga à tona o seu passado também — concluiu ela.
Evren confirmou com um gesto.
— Filho… neto… Meryem… — Bahar suspirou. — E nós temos o Cem. A cirurgia da Esra. E… — ela apertou a mão dele quando sentiu o chão balançar, a cabeça girando.
— E você está grávida — acrescentou ele num sussurro, segurando-a firme.
Bahar deu um sobressalto, endireitou-se e o fitou.
— Lembrou?! — disse ela mais fria do que pretendia.
— Do quê você está falando? — Evren ficou confuso.
— Duas horas, Evren. DUAS. Você não perguntou como eu estou nem uma vez — seus dedos tremeram — nem como está o bebê. Você vai perguntar isso a cada meia hora agora? Vai ficar me lembrando disso? Evren, nós temos mais SETE meses pela frente… eu já estou com medo — sussurrou, e houve tensão na voz.
Evren parecia nem ouvir as palavras; ele olhava para a barriga dela, como se naquele momento só o bebê existisse para ele.
— Eu tive medo… de tocar nesse assunto — admitiu. — Medo de que, se eu começasse a falar, eu desabasse — ele se aproximou. — Vem aqui.
Bahar imediatamente deu um passo para trás e encostou-se à parede. Evren inclinou-se e seus lábios tocaram a barriga dela. Ele a beijou através do uniforme, mas ela sentiu mesmo assim — íntimo demais, delicado demais para um corredor.
— Evren, tem gente aqui — ela engoliu em seco, pousando as mãos nos ombros dele.
— Que olhem — sussurrou ele, beijando de novo a barriga. — É meu filho. E eu quase perdi ele. Quase perdi vocês. Você é minha mulher.
— Evren — ela tentou puxá-lo para cima. — A gente precisa ver a Nevra, depois passar no quarto do Sert Kaya — lembrou ela quando ele se ergueu e encontrou seu olhar.
Eles estavam perto demais para conseguirem manter a calma. Os olhos dele escureceram; ele a pressionou de leve contra a parede. Evren inclinou-se para beijá-la, buscando no toque uma forma de aliviar o peso do dia. Bahar apoiou as duas mãos no peito dele, olhando para os lados, tentando contê-lo. A respiração dele tocou seus lábios; mais um segundo e ele a beijaria.
— Evren, não — ela conseguiu virar o rosto, agarrou a mão dele e começou a puxá-lo em direção ao quarto da Nevra. — Vamos, Evren! Você parece um adolescente! — escapou dela.
Evren soltou um meio riso. Ele realmente se sentia um garoto ao lado dela — e pela primeira vez em todo o dia, sorriu… quase imperceptivelmente, escondendo a tristeza que ainda reluzia no fundo dos olhos.
***
Ele não via os olhos dela, mas o olhar dele ficou mais quente; observava as costas de Bahar e deixava que ela o guiasse pela mão. Evren entrou atrás dela no quarto da Nevra… e imediatamente esbarrou nas costas da esposa, quase trombando com ela. Ele espiou por cima do ombro dela, e as sobrancelhas se ergueram.
Nevra e Ismail estavam sentados muito próximos, a mão dela na dele, os dedos apoiados em seu ombro… os dois foram surpreendidos no meio de um beijo. Um beijo suave entre dois adultos que, por muito tempo, não se permitiram estar vivos.
— Oooh… desculpa — murmurou Bahar.
Eles se afastaram um do outro na mesma hora. Nevra baixou a cabeça, corando. Ismail levantou-se de imediato, ajeitou a camisa.
— Nós vamos nos casar! — anunciou ele, só para evitar qualquer pergunta.
E Nevra ficou ainda mais vermelha. Bahar entreabriu a boca, mas as palavras simplesmente não saíam.
— Obrigado — Evren deu um passo à frente. — Obrigado pelo que fez pela Bahar — disse ele.
Nevra o encarou sem pose alguma, apenas com aquela dor silenciosa, que jamais dizia em voz alta.
— Isso… — ela engoliu seco — é o mínimo que eu poderia fazer, Evren.
Ismail voltou a sentar-se na cama e a abraçou pelos ombros. Ninguém disse mais nada: nenhuma palavra sobre o passado, nenhum julgamento.
— Parabéns — Bahar finalmente recobrou o fôlego.
— Obrigado — responderam eles, trocando um olhar cúmplice.
— Maravilha — Evren inclinou-se ao ouvido dela. — Eles já chegaram nesse ponto. Era melhor você ter me deixado te beijar direito, pelo menos não teríamos atrapalhado ninguém.
Bahar acertou um cotovelaço nas costelas dele e recuou. Nevra não sabia onde pôr as mãos. Bahar sorria, sentindo-se ridícula. Evren parecia nem entender em que universo paralelo acabara de parar — e, mesmo assim, dentro dele começava a crescer uma tempestade de protesto.
— Vamos — Bahar virou-se, pegou a mão dele, e os dois escorregaram para fora do quarto sem sequer perguntar como Nevra estava…
***
Eles fecharam a porta, ainda constrangidos, e voltaram ao corredor. As lâmpadas fluorescentes zumbiam acima da cabeça, lançando sombras duras pelas paredes, onde cada eco parecia o batimento de um coração alheio.
— Até eles vão se casar, Bahar! — começou Evren imediatamente, procurando os olhos dela.
— E nós nunca tivemos um encontro decente — lembrou Bahar, tentando puxá-lo para frente.
— Isso é tão essencial assim? — ele travou.
— É sim, Evren — ela não tinha intenção de ceder. — Eu quero um encontro. Quero me arrumar, quero olhar pra você, dançar com você, quero andar com água até os joelhos e olhar as estrelas! Quero muita coisa simples, humana.
— Você está grávida, Bahar — ele deu um passo na direção dela.
— Justamente, Evren — a voz dela tremia de irritação contida. — E você não me convida!
— As pessoas normais têm sobremesas normais! — ele cerrou os punhos. — E nós temos limões!
— Limões? — Bahar pensou por um instante, o olhar se enevoou. — Evren, estou com um desejo absurdo de limão.
— O quê? — ele congelou.
— Limão — confirmou ela. — Bem azedo, suculento, amarelinho… — ela passou a língua pelos lábios, como se a boca tivesse enchido de água, engoliu em seco. — E berinjela. — Bahar não desviava os olhos dos dele. — E mexilhões, Evren, quero muito mexilhões. — Ela pousou a mão no peito dele. — E café com limão.
Evren empalideceu. Ele não acompanhava a maratona gastronômica dela, tentando descobrir como organizar aquilo tudo… e então o rosto dele mudou.
— Você tá brincando comigo? — percebeu ele.
Bahar sorriu — pelo menos conseguiu desviá-lo da conversa perigosa sobre casamento.
— Sabe… — ele aproximou-se ainda mais, a voz tremendo — às vezes eu te odeio!
— Eu sei — ela o tomou pelo braço, e os dois caminharam pelo corredor. — É como limões, Evren. Azedos, mas sem eles tudo fica sem graça — ela encostou o ombro no dele, alinhando o passo. — E para ser sincera, sua filha adora limões. Acostume-se.
Evren tropeçou, parou. Suas mãos pousaram nos ombros dela; ele a virou de frente para si e prendeu os olhos nos dela.
— Você disse… filha?! — a respiração dele falhou. — Nós vamos ter uma filha, Bahar? Quando? Quando você descobriu o sexo e não me contou?! Por que você fez isso sem mim, Bahar? Por que você me tirou esse momento? — a ideia de ter perdido algo tão importante fez o corpo dele estremecer.
Bahar piscou. Ela mesma não entendeu como disse aquilo. Talvez seu corpo estivesse tentando falar antes da mente perceber.
— Evren — começou ela com cuidado — só escapou. Eu não sei o sexo — tentou convencê-lo.
— Não — ele tremia — não, foi ela quem nos contou, Bahar. Vamos ter uma menina. A Deryn. Ela está falando com a gente! Entende?
— Você já tem nome também?! — agora era Bahar quem não acompanhava o ritmo dele.
— Uma filha — Evren ficou imóvel, como tentando recuperar o equilíbrio. Depois riu baixinho… e a risada virou quase um grito suave. — Deryn!
— Evren, espera — ela pousou as mãos no peito dele. — Eu não sei, só escapou, por favor me escuta.
— Uma filha — ele de repente a puxou para perto, a voz mais baixa, firme. — Sua cópia em miniatura, Bahar, nossa filha. Tão teimosa quanto você.
— Eu, teimosa? — Bahar ficou indignada. — Em teimosia ninguém ganha de você!
— Uma filha — Evren a ergueu levemente do chão, pronto para girar com ela pelo corredor, sem se importar com nada. — Bahar — ele a colocou novamente no chão e a encarou — você entende o que isso significa? Que estamos vivos. Que podemos brigar, discutir, tentar provar mil coisas… mas estamos vivos, porque ainda queremos alguma coisa. Encontros, limões — lembrou ele, com lágrimas surgindo nos olhos. — Uns sentem ciúmes porque estão vivos, outros se casam porque também vivem, e nós… — ele baixou o olhar para a barriga dela — nós também vivemos. Uma filha — puxou o ar com força, respirando fundo.
Bahar pensou por um instante, olhando o rosto dele. Depois suas mãos subiram até as faces dele; ela se ergueu na ponta dos pés e o beijou nos lábios.
— Sim, Evren — sussurrou, o hálito roçando a boca dele. — Eu aceito.
— Uma filha — ele sorriu contra os lábios dela, sem perceber de imediato o que ela acabara de dizer. Só depois parou, imóvel. — O quê? — os olhos dele se arregalaram.
— Vamos nos casar, Evren — sussurrou Bahar. — Você tem razão — lágrimas brilharam em seus olhos — isso é vida. E enquanto a gente quer alguma coisa, significa que ainda estamos vivos. — Ela o abraçou, apertou-se contra ele. — Sabe… — começou Bahar, envolvida no abraço — eu estava aqui pensando…
— Mais limões? — Evren sorriu de lado. — Ou mexilhões? Ou outra coisa qualquer? Vai, Bahar, me surpreenda.
— No casamento — as sobrancelhas dela se ergueram, e ela realmente o surpreendeu. — Como você quer fazer? Como imagina nossa cerimônia? Silenciosa, barulhenta? Onde?
— E você quer limusine, véu? — ele inclinou-se. — O que você quer, Bahar?
— Não — Bahar sacudiu a cabeça. — O importante é que nós dois estejamos realmente prontos.
— Nós estamos prontos — Evren tomou sua mão. — Eu estou pronto.
— Mas eu tenho medo — admitiu ela. — E se tudo der errado de novo…?
— Não vai dar — ele a virou repentinamente e a encostou na parede, olhando direto em seus olhos. — Porque eu não vou te deixar ir nunca mais.
— Nem se eu me assustar? — ela sorriu. — Se eu entrar em pânico?
— Nem assim — Evren tocou de leve a ponta dos dedos na bochecha dela. — Você saiu da mesa do nosso casamento — lembrou ele.
— Foi um erro — Bahar baixou o olhar.
— Não — ele segurou o rosto dela entre as mãos — isso é a nossa vida, entende? É a nossa história, e nós estamos juntos. E nada mais vai nos separar.
— E se eu desistir? — ela tentou se afastar, mas ele não permitiu.
A ansiedade subiu dentro dela, involuntária.
— Então eu te rapto — disse Evren. — Roubo você na frente de todo mundo e caso com você nem que seja sem o seu consentimento.
— Você é impossível! — Bahar soltou o ar e riu.
— E você me ama — murmurou ele, aproximando os lábios dos dela.
— Amo — Bahar encarou a boca dele, inclinando-se.
— E eu te amo — sussurrou ele, beijando-a.
O beijo deles foi interrompido por uma voz ríspida no alto-falante, chamando-os para a sala de cirurgia. Eles se olharam nos olhos e uniram as mãos. Caminharam rápido, acelerando o passo a cada metro, em direção ao lugar onde morte e vida se tocavam: onde um coração parava, e outro começava a bater. Duas vidas, uma morte, uma criança, um coração dividido por dois — e um único dia que mudou muitos destinos…
***
Tudo na vida dele mudou em um único instante. O quarto mergulhou na penumbra, num tom acinzentado — uma luz que não aquecia, apenas mostrava que a noite se aproximava. Reha estava de pé junto à janela, apoiando as mãos no parapeito. Observava as luzes da cidade se acendendo, mas seu olhar permanecia tenso, como se não visse nem luzes, nem ruas, nem pessoas.
A respiração era estável — estável demais para ser sinal de calma. Ele desviou o olhar para o pátio do hospital: carros, figuras apressadas, silhuetas borradas… Tudo passava diante dele sem se fixar na mente. Os pensamentos vinham em ondas — densos, pesados, incessantes.
Filho. A palavra atingiu o peito como um soco. Filho. Quarenta anos. Quarenta anos aquele homem caminhara por este mundo — e ele nada sabia sobre ele. Neto. Já era avô, sem ter tido tempo de compreender o próprio papel de pai.
Gülçiçek. Os olhos dela. As acusações. As mãos dela… As mesmas mãos que outro havia beijado. As mesmas mãos que trocavam o curativo dele com cuidado, cozinhavam para ele, o abraçavam. E que, talvez, tivessem abraçado outro.
Reha levou a palma ao peito. Ardia. Tudo dentro dele queimava, como se alguém tivesse aproximado uma tocha do coração. Com a outra mão, passou pelo rosto, como se quisesse apagar de uma só vez tudo: vergonha, ciúme, dor, fraqueza… e medo.
Ele expirou, afastou-se da janela e deu um passo até a cadeira. O jaleco branco pendia no encosto. Com dedos trêmulos, ele o segurou. Chegou a hora. A palavra surgiu sozinha — não como pensamento, nem decisão, mas algo maior. Algo que há muito crescia dentro dele, esperando este momento.
Chegou a hora de parar de ficar parado. De dar um passo. Não importava para onde, desde que não fosse para trás.
Ele vestiu o jaleco devagar, por cima do pijama hospitalar. O cheiro familiar do algodão, o toque conhecido das mangas no punho — tudo de repente ficou dolorosamente real. Reha estremeceu, sentou-se na beira da cama.
O olhar caiu sobre a mesinha. Ele estendeu a mão e pegou… Alguns movimentos, alguns objetos — tudo em silêncio, sem hesitação, como se as mãos soubessem o que fazer, mesmo que a mente ainda não compreendesse completamente. Duas linhas em uma folha branca.
O peito ainda ardia em fogo, mas nos olhos apareceu uma faísca de certeza — fria, firme, expulsando a confusão que o mantivera preso por tanto tempo.
Ele dobrou o papel, deixou-o sobre o travesseiro. Levantou-se. Reha não olhou mais para a cama.
Caminhou lentamente até a porta. Abriu e saiu para o corredor, sem se virar.
***
O corredor parecia estender-se infinitamente, como se o tempo tivesse desacelerado, dando a todos a chance de permanecer naquele último instante.
Os paramédicos empurravam a maca com cuidado, quase com reverência. Sob o lençol branco estava Cem. Não um paciente. Não um caso. Mas um homem cuja vida agora fluía para outro destino… para outras vidas.
Bahar caminhava ao lado. Seus dedos tocavam de leve a grade — um toque tão leve que parecia que ela segurava a mão dele. Ela seguia com ele, acompanhando-o até o fim.
Evren caminhava do outro lado. Silencioso. Contido. Seus ombros tremiam quase imperceptivelmente, como se dentro dele se rompesse uma corda que ele tentara ajustar por anos.
No elevador os esperava Rengin — na cadeira, pálida, com o soro preso ao braço. Atrás dela estava Parla, segurando o apoio da cadeira com força. Umay permanecia perto de Yusuf. Apenas os olhos dela, grandes e escuros, diziam mais do que qualquer palavra, enquanto seus lábios permaneciam imóveis.
Serhat aproximou-se de Evren e pousou a mão em seu ombro. Como amigo. Como irmão. Como alguém que ele um dia fora. A voz de Serhat soou firme, mas rouca, como se rasgasse a própria dor para conseguir falar.
— Você segurou o coração da minha filha nas mãos… — ele expirou. — E salvou a vida dela. Nunca vou esquecer isso. Agora sigo eu, — apertou a mão de Evren, como se silenciosamente pedisse que ele soltasse a maca onde Cem repousava.
— E agora você tocará o coração — Evren olhou nos olhos dele — que vai bater no peito da sua filha.
Serhat fechou os olhos por um instante; era ao mesmo tempo um golpe e uma cura. A mão sobre o ombro de Evren apertou com mais força. Como uma promessa silenciosa: estou de volta ao seu lado.
Evren e Bahar soltaram os dedos ao mesmo tempo, afastaram-se… e Serhat ocupou o lugar de Evren, conduzindo a maca para o bloco cirúrgico. As portas se abriram e se fecharam.
Umay soluçou e se encolheu no ombro de Yusuf. Rengin apertou as mãos da filha.
Bahar e Evren, lado a lado, entraram em outra sala de cirurgia. Esra, ligada aos monitores, repousava na penumbra; parecia tão frágil, tão pequena, que por um instante eles pensaram que o coração de Cem era grande demais para o seu corpo… mas era apenas um pensamento.
Eles estavam prontos quando trouxeram o recipiente metálico, pequeno, prateado… Evren encarou Bahar, e ela encarou Evren… e eles respiraram juntos, entendendo que em segundos ele teria o coração de Cem nas mãos e o colocaria no peito de Esra. A vida do irmão tornava-se esperança para ela. Evren vacilou levemente, mas firmou-se; ela o sustentou com o olhar. Um só fôlego… e ele assentiu.
A luz feria os olhos. O metal brilhava como gelo. O ar era frio, estéril, e ainda assim quente do sopro deles sob as máscaras. Evren segurava o coração — aquele que há pouco batia no peito de Cem. Os dedos se tensionaram. O olhar mergulhou, por um instante, em lembranças, dor, culpa.
— Eu estou aqui — sussurrou Bahar.
Ele inspirou. Voltou. Trabalharam em sincronia, como sempre. Os pontos alinhavam-se como fios de uma nova vida. Removeram as cânulas.
— Pronto — disse Evren.
Ele sinalizou ao anestesista. O ECMO foi desligado. O silêncio tornou-se quase insuportável. O aparelho parou. Pausa. Outra pausa. O mundo virou. Então um leve impulso. Outro. O coração se contraiu. De novo. Mais uma vez.
Evren soltou o ar devagar, como se com aqueles batimentos também ele voltasse ao próprio corpo.
— Ela vai viver — disse ele, baixo.
Bahar fechou os olhos — era tudo o que precisavam ouvir. Ele a encarou longamente, com um olhar cheio de reconhecimento, arrependimento e gratidão.
E pela primeira vez em muitos dias, algo ficou mais leve, como se as nuvens ao redor finalmente começassem a se dissipar…
***
Gulchichek empurrou a porta com o cotovelo, com um gesto leve, para não derramar o chá na garrafa térmica que segurava na mão esquerda. Na direita — uma caixinha com pastéis quentinhos. O cheiro de massa e canela invadiu o quarto antes mesmo dela entrar.
— Reha… — chamou, soltando o ar, tentando sorrir com aquele sorriso doce e caseiro que ela guardava só para ele.
O quarto a recebeu com vazio. A cama — perfeitamente arrumada. Os travesseiros — intactos. A luz — fria. E o silêncio. Aquele tipo de silêncio que faz o coração parar por um instante. Gulchichek ficou imóvel na porta.
— Reha? — chamou outra vez.
O silêncio engoliu sua voz. Ela avançou. O marido não estava lá. A cama — vazia. O jaleco — sumido. A janela — fechada. Os monitores desligados. O calor dos pastéis foi substituído, num piscar de olhos, por um frio sob as costelas. Algo se moveu em seu peito — ciúme? Medo? Pânico? Talvez tudo ao mesmo tempo. Surdo. Apertado.
Será que ele foi até ela? Será que… era o fim? Será que… ele foi embora sem dizer nada?
Gulchichek fechou os olhos por um segundo, tentando afastar a dor. Ao abri-los, sentou-se lentamente na cama. Respirava com dificuldade, segurando os pastéis e a garrafa térmica, olhando para frente sem realmente ver. Depois colocou a caixa de pastéis sobre a cama, a garrafa na mesinha, e quando já quase se levantava… viu. Sobre o travesseiro havia algo. Algo tão simples, e mesmo assim seu coração se contraiu. Sem sentir os dedos, ela pegou o papel, desdobrou… e estremeceu quando algo pequeno, leve como ar, caiu na palma da sua mão.
— Reha… — sussurrou.
Seu rosto empalideceu. Os lábios tremeram; ela quase deixou cair aquilo, e só por instinto apertou a mão para não perder. Os dedos fecharam sobre o objeto com força.
Ela ergueu lentamente a cabeça, como se esperasse que ele aparecesse, saísse de alguma sombra, dissesse uma daquelas piadas dele, que os dois rissem juntos, que ele a abraçasse pelos ombros… mas o quarto permanecia vazio. Apenas sua respiração irregular quebrava o silêncio.
A vista escureceu por um instante, de medo ou talvez da súbita compreensão. Ela balançou a cabeça, apertando ainda mais o punho.
— Por quê, Reha… — seus lábios articularam quase sem som.
A pergunta pairou no ar, dissolvendo-se na luz fria das lâmpadas do hospital. Gulchichek levantou-se, caminhou em direção à porta… o bater do próprio coração abafando o som dos passos… e a cada passo ela acelerava. Gulchichek puxou a porta com força e saiu para o corredor… rápida, decidida, incapaz de esperar mais um segundo…
***
A noite já havia caído sobre a cidade, envolvendo as ruas em uma penumbra suave. Evren dirigia devagar, com cuidado, como se temesse romper o frágil equilíbrio daquele momento. Em seus movimentos não havia a costumeira precisão de médico — apenas um silêncio cheio de ternura, quase doméstico.
Bahar estava ao seu lado no banco da frente. Tentava respirar sem profundidade, para não mostrar o quanto estava enjoada. O carro cheirava a hospital, à pele dele e… a limões.
Aos seus pés havia uma sacola. A cada curva, os limões rolavam, batendo suavemente uns nos outros. Quando ele freou, um deles escapou e tocou de leve o tornozelo dela. Bahar olhou para baixo e sorriu. Era uma reação simples, quase infantil, depois de um dia com sangue demais, gritos demais, perdas demais… e vidas salvas.
— Você está sorrindo para um limão — observou Evren.
— Estou morrendo de vontade dele — admitiu ela, passando o dedo pelo joelho dele. — Agora mesmo eu comeria três. Talvez cinco.
— Bahar, eu odeio limões — nos olhos dele surgiu aquela sombra de repulsa, e ele nem reagiu ao toque dela.
Bahar, aproveitando que estavam parados no semáforo, virou-se para ele e pousou a mão em seu ombro.
— Não faz mal — disse com um sorriso. — Nossa filha já gosta.
Ela disse isso sem pensar, como se fosse óbvio.
Ao contrário dela, ele reagiu imediatamente. Evren quase invadiu a pista contrária.
— Então você descobriu? — perguntou desconfiado. — Eu… ainda não entendo como você soube. E quando? Você esteve comigo o tempo todo!
— Eu não descobri! — ela ergueu as mãos. — Eu falei sem querer. Foi um deslize. Acidente!
— Acidentes não existem — murmurou ele, tentando convencer mais a si mesmo do que a ela. — Ela mesma nos disse.
— Quem? — Bahar tentava manter a respiração sob controle, escondendo o enjoo que subia pela garganta.
— Nossa filha — afirmou ele com teimosia, segurando o volante como se controlasse não o carro, mas o próprio destino. — Derin. A nossa Derin!
Ela olhou para ele — e, pela primeira vez naquele dia, sentiu um calor suave ao perceber o quanto ele acreditava naquela pequena vida.
— Evren — disse suavemente — ainda não sabemos. E se for um menino?
— Sabemos, sim — ele mexeu a cabeça, recusando-se a aceitar outra possibilidade, e sua voz ficou baixa, quase íntima. — Você disse “filha”. É um sinal.
Ela não conteve o sorriso e retomou a mão dele. Ele apertou os dedos dela — um pouco mais firme do que deveria — e eles entraram no pátio de casa. Ela tirou o cinto e alcançou a sacola com os limões, mas Evren arrancou-a da mão dela.
— Está pesada! — resmungou.
— São cinco limões, Evren — ela o olhou, incrédula.
— Cinco limões pesados — disse ele com absoluta seriedade, sem perceber.
Caminharam até a porta, devagar, lado a lado, ombro a ombro. Na cabeça deles girava um turbilhão de pensamentos: Esra, a nova vida, o coração de Cem, Reha e Gulchichek, Ismail e Nevra, o encontro que ainda não tiveram… e o casamento, a decisão que ela finalmente tomou. E ainda Serta Kaya, que eles não encontraram quando foram à sua ala antes de sair do hospital.
— Precisamos ir lá — disse Bahar baixinho. — No seu apartamento. O Cem… Precisamos… ver as coisas dele. Decidir o que fazer com elas.
Ela se calou. Evren parou tão abruptamente que ela quase esbarrou nele.
— Vamos juntos — pediu ele, e ela assentiu. — E mais uma coisa, Bahar… — seus olhos ficaram sérios. — Vamos ter um encontro. De verdade. Sem hospital. Sem tiros. Sem ciúmes da sua mãe e do professor. Sem as sobremesas do Ismail e da Nevra.
— Eu não posso ir a um encontro agora — ela engoliu seco, e ele só então percebeu o quanto ela estava se segurando. — Agora… eu só quero deitar e ficar imóvel.
— Até que enfim — Evren murmurou, rouco, imaginando o caminho mais rápido para colocá-la na cama sem cruzarem com ninguém na sala. — Uma vez na vida você disse a verdade, e não o seu típico “estou bem”.
Ela o empurrou de leve com o ombro.
— Evren… — sussurrou sem terminar a frase, mas os olhos diziam claramente — eu te amo.
Ele olhou para ela como se quisesse abraçá-la, puxá-la contra si, beijar seu pescoço… mas se conteve.
— Vamos — disse, dando-lhe um empurrãozinho com o ombro. — Vamos alimentar você e a nossa Derin.
— Você é impossível — ela revirou os olhos. — Faltam quatro semanas para descobrirmos o sexo. Você vai passar essas quatro semanas repetindo… — ela nem terminou.
— Sua filha é teimosa como você — interrompeu ele.
— Evren! — a voz dela subiu um pouco.
— O quê? Você mesma disse — nossa filha gosta de limões — ele ergueu a sacola até a altura dos olhos dela. — O papai comprou limões para a filha preferida, qual é o problema, Bahar?
Ela quis responder, mas cansada de discutir, apenas empurrou a porta e entraram em casa.
O primeiro a ver foi Uraz. Ele estava no meio da sala — e seu rosto estava completamente transtornado. Ao notar a chegada deles, levantou uma mão como se quisesse dizer algo, mas nenhuma palavra saiu. Umay segurava o corrimão com as duas mãos, balançando a cabeça, como se recusasse a acreditar no que quer que estivesse acontecendo.
Evren segurou Bahar imediatamente, passou à frente dela. Estendeu o braço, impedindo-a de avançar, obrigando-a a segui-lo… e quando finalmente entraram na sala, viram.
No sofá, como se estivesse em casa, estava Meryem. As costas eretas, aquele olhar que já era prenúncio de desastre… e ao lado dela — Sert Kaya, de terno, sem gravata. Ele parecia tão tranquilo, como se já tivesse tomado uma decisão, mas ainda não a tivesse anunciado para todos — ou tivesse anunciado, mas não para eles.
Bahar parou. Evren balançou a cabeça, incrédulo. A sacola escorregou da mão dele. Um limão rolou pelo chão e parou exatamente aos pés de Meryem.
Evren e Meryem se encararam — como dois adversários numa fronteira invisível, onde cada segundo se esticava como borracha e o ar ficava espesso, quase sólido. Ninguém desviava o olhar. Em ambos havia acusações não ditas, dores antigas, perguntas sem respostas.
Sert Kaya suspirou — baixo, quase imperceptível. Um suspiro comum, como se aquilo fosse apenas mais uma noite normal em sua vida, como se estivesse sempre ali naquela sala. Mas naquele suspiro havia décadas de cansaço, acumulado gota a gota até se tornar um peso impossível de carregar.
Bahar vacilou, mas se manteve de pé, cerrando os dedos em um punho, como se segurasse sua própria força com a mão. Por dentro tudo se contraiu num nó apertado: medo, perplexidade — tudo se misturou num único bloco quente preso entre o peito e a garganta.
Todos ficaram em silêncio, incapazes de se mover. Até o ar pareceu congelar, transformando-se em vácuo, onde não havia lugar para sons, gestos, palavras.
Naquele silêncio havia uma tempestade — não a que rugia lá fora, mas a que se formava dentro deles, acumulada ao longo de anos, em cada olhar, em cada suspiro contido. Ela ainda não havia explodido, mas já estava ali — pesada, inevitável, pronta para romper em qualquer instante.
E nesse intervalo, nesse suspiro prolongado antes da tormenta, todos compreendiam que o que aconteceria a seguir mudaria tudo…
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